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quarta-feira, 11 de julho 2007
Flip: terceiro dia e fofocas
Aqui vão algumas considerações finais sobre as mesas de sábado da Flip e o evento como um todo:
A primeira mesa reuniu, numa homenagem a Nelson Rodrigues, a crítica Leyla Perrone-Moisés, o artista plástico e escritor Nuno Ramos e o escritor e letrista Nelson Motta, que substituiu Arnaldo Jabor. Leyla apresentou uma pesquisa sobre o uso da linguagem em Nelson. Começou questionando a afirmação de que Nelson teria “retratado” a fala popular em seu teatro. Sem citá-la, Leyla dava uma estocada em Barbara Heliodora que, na abertura da festa, havia ressaltado o pioneirismo do anjo pornográfico na incorporação da linguagem real do carioca ao teatro. A insistência de Leyla em que ele “não podia ser reduzido a um documentarista” me pareceu injusta, já que Barbara não tinha feito redução nenhuma; havia simplesmente enfatizado a artificialidade da linguagem teatral anterior a Nelson. Daí em diante, Leyla fez uma compilação de uma série de elementos interessantes dos diálogos de Nelson, por exemplo a propensão de que as perguntas sejam respondidas com outras perguntas. Da boa intervenção de Nuno Ramos, ficou em minha memória o comentário sobre o caráter “solto”, “sem precursores” de Nelson Rodrigues na literatura brasileira, além de uma bela desmistificada na imagem de um Nelson “explorador das profundezas” da psique humana. Para Nuno, a exterioridade, a conversão de tudo em teatro, seria uma imagem mais adequada para descrever sua obra. Quem finalizou o papo foi Nelson Motta, contando divertidas – mas já conhecidas – anedotas sobre o Nelson Rodrigues que desmascarou a suposta neutralidade dos comentaristas de futebol, com sua desbragada paixão tricolor exposta na TV. Não faltou a indefectível citação de que todas as vezes que o videoteipe desmentia Nelson, o anjo pornográfico não perdia a oportunidade de decretar que o videoteipe é burro. Arnaldo Jabor não apareceu, mas gravou um depoimento. Não nutro grandes simpatias por Jabor, mas tenho que confessar que dei boas gargalhadas com o vídeo: um dos relatos mais curiosos foi sobre o ciúme que tomou conta de Nelson na época em que Guimarães Rosa passou a ser incensado como o grande autor brasileiro. Reproduzindo o vozeirão de Nelson, Jabor imitava: ontem me encontrei com Guimarães Rosa na rua, imponente e elegante, de paletó e gravatinha borboleta, e lhe disse: Guimarães Rosa, não seja tão Guimarães Rosa!
A mesa “Dos dois lados do balcão” reuniu César Aira, um dos mais insólitos escritores argentinos, e Silviano Santiago, crítico, poeta e romancista brasileiro. Silviano leu trechos de Em Liberdade, romance-diário sobre o qual os leitores deste blog sabem algo. César Aira, autor de mais de 30 livros – Aira escreve com um furor tremendo, pondo em ação uma verdadeira estratégia de saturação do mercado –, leu um texto curioso sobre a crescente dificuldade que têm os humanos de desmontar as máquinas que constroem (por oposição aos velhos tempos quando bons mecânicos ou técnicos desmontavam qualquer carro ou fogão). Daí passou a uma descrição curiosa sobre seu método de escrita (e quem já leu as bizarras histórias de Aira sabe do que falo): deixar cair o primeiro disparate que me ocorre e depois tentar consertá-lo. Ao ser confrontado com uma pergunta sobre a inverossimilhança do estranho ser metade papagaio e metade morcego que aparece em seu romance Las noches de Flores, Aira retrucou com tranqüilidade: mas veja que umas páginas depois revela-se que se tratava de um agente da polícia disfarçado (como se isso, claro, tornasse a coisa toda muito verossímil!). César Aira tem algo em comum com Will Self: falam sempre com a cara mais séria do mundo, mas não podem senão provocar gargalhadas. Se você gosta de literatura, nunca leu Aira, viu-o em ação em Parati, mas mesmo assim não saiu correndo para ler um de seus livros, ora ora, eu não sei o que lhe dizer.
A terceira mesa do sábado era, para mim, a grande atração da Flip: Maria Rita Kehl e Alan Pauls falando sobre o amor. Este papo valeu a viagem. Maria Rita foi criticada por algumas pessoas por passar todo o tempo falando d´O Passado, o extraordinário romance de Pauls recém traduzido no Brasil. Onde já se viu, vir à Flip e ficar falando de um livro! Eu, de minha parte, achei a postura de Maria Rita elegantíssima: signatária de respeitável obra ensaística, ela preferiu não falar de si. Leu com cuidado o romance do convidado e armou o diálogo a partir dele. Pauls simplesmente deu um show. Relatando as freqüentes perguntas que lhe dirigem sobre o amor desde a publicação d´O Passado, como se ele fosse um especialista, Pauls retrucou: não falo como especialista. Do amor, eu sou, como todos, uma vítima. O Passado narra, ao longo de quase 600 páginas e 20 anos, o amor entre Sofia e Rímini. Foram exibidos, antes da mesa, uns 5 minutos do filme de Héctor Babenco que estréia em outubro, baseado no romance. Rímini é um personagem na linha dos vários anti-heróis do romance do século XX (Kafka, Joyce). Não consegue agir. É sempre contemporâneo do que lhe acontece: ao contrário de Sofia, ele não consegue ter um discurso sobre o amor. Sofia, por sua vez, transforma em transparente qualquer homem que olhe. Em um determinado momento, ela constitui uma espécie de “célula política” dedicada ao amor: estranho projeto de levar o amor ao limite, convertendo-o quase em doutrina, em ato político. Sobre o romance, Maria Rita fez uma observação muito sagaz: a tentativa de fazer do amor uma obra de arte resulta, quase sempre, numa obra kitsch. 
A última mesa que vi foi a dos jornalistas Lawrence Wright e Robert Fisk, autores de livros sobre o Oriente Médio e, respectivamente, apoiador e crítico da permanência dos EUA no Iraque. Não sou exatamente um observador neutro, mas todos aqueles com os quais conversei concordaram comigo e com Marcelo Tas: foi nocaute no primeiro round. Ante o argumento de que os EUA não deveriam conversar com determinados “terroristas”, Fisk listou uma dezena de exemplos em que governos ocidentais diziam que não conversariam com determinadas forças políticas e terminaram fazendo-o (o governo francês cansou-se de dizer que não conversaria com os “terroristas” argelinos, só para se desmentir depois). Ante o argumento de que a saída dos americanos do Iraque provocaria uma guerra civil, Fisk ofereceu uma dezena de exemplos em que se disse o mesmo em outras situações de ocupação colonial e não ocorreu guerra civil alguma. Quando a mediadora propôs que trocassem perguntas, Lawrence Wright escolheu a mais fraca possível: você acha que os EUA mereciam ser atacados em 11 de setembro? (a velha pergunta retórica que usam aqueles que querem desqualificar as responsabilidades dos americanos na germinação do terrorismo atual). Fisk não perdoou: esta é uma pergunta estúpida. Ninguém merece ser atacado. Os iraquianos mereciam ser atacados em 2003? Daí passou a explicar por A + B a diferença entre merecer e ter responsabilidades políticas. Era um dos maiores jornalistas políticos ocidentais, sem dúvida o maior entre os que se dedicam ao Oriente Médio, debatendo com um peso-pena. Foi um massacre.
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Fofocas de bastidores da Flip:
Ninguém me contou, eu não ouvi falar, aconteceu na minha frente e eu vi: à escritora anglo-egípcia Ahdaf Soueif, ativista da causa palestina, foi dito que deveria “evitar esses temas políticos para concentrar só na literatura”. Enquanto isso, o “pacifista” israelense Amós Oz – que apóia o muro da vergonha e apoiou o massacre israelense do ano passado contra o Líbano – dissertou longamente sobre política.
Conversei rapidamente com Robert Fisk, que me relatou uma de suas interessantes histórias sobre o serviço de imigração americano, que uma vez o barrou em San Francisco com a pergunta: o sr. já esteve com algum terrorista? Resposta de Fisk: sim, eu já entrevistei Osama bin Laden e Ariel Sharon. Ante a menção de Sharon, claro, liberaram-no.
O grande problema da Flip, sem dúvida, é o excesso de reverência, que faz com que o público aplauda qualquer coisa. São irritantes as repetidas interrupções para aplausos. É ali que se vê com mais nitidez quão tênue e longínqua é a relação com a literatura que mantém a grande maioria do público que ali está.
O Globo deu de 10 x 0 na Folha nesta Flip. Foi vergonhoso o texto que assinaram, na segunda-feira, Eduardo Simões, Marcos Stecker e Sylvia Colombo. É um exemplo de mau jornalismo: muito adjetivo e pouca informação. As detalhadas argumentações de Robert Fisk sobre o Oriente Médio receberam o título de “rasos antiamericanismos” do “histriônico” Fisk. Para piorar, escolheram desqualificar Fisk e a leitura de trechos de Nelson com o péssimo neologismo “flopou”.
Paulo Cesar de Araújo, em definitivo, é pop. Paulo me confidenciou – e eu lhe prometi que era em off – qual é o tema de seu próximo livro. Guardem aí: vai fazer mais barulho que Eu não sou cachorro não e Roberto Carlos em detalhes. Não há dúvidas: em breve, Roberto Carlos não será mais que um pequeno capítulo na biografia de Paulo Cesar de Araújo.
Nesta quinta-feira à noite, o Roda Viva exibe entrevista com Nadine Gordimer com participação de Ana Maria Gonçalves.
Para finalizar: gostei muito, valeu o passeio, mas acho que foi minha última.
PS: Há em Parati um restaurante chamado Brik-a-Brak. Evitem-no.
Escrito por Idelber às 04:45 | link para este post
| Comentários (20)
#1
Ultima por que Idelber? Por causa da relaçao longinqua com a literatura que vc disse? Ou é simplesmente um desabafo?
Celinho em julho 11, 2007 6:11 AM
#2
Os ídolos literários da Folha são Harold Bloom, em seus momentos de militância, e Vargas Llosa, o indescritível. Portanto, não dá para esperar outra coisa. A sugestão dada à escritora Ahdaf Soueif mostra o quanto anda pobre a discussão cultural na mídia do Brasil, onde cultura se resume a indústria cultural. A Flip não passa de marketing de editoras, com um ou outro debate que se salva. Enquanto isso, os encontros da Abralic não merecem sequer registro de data, local e hora do evento; não aparecem nem na seção de serviços dos jornais. Vai querer o quê?
Renzi em julho 11, 2007 8:29 AM
#3
É meio cansativo e muito previsível, Celinho. Desta vez fui como convidado. Jamais pagaria 20 reais para assistir a qualquer daquelas palestras.
Idelber em julho 11, 2007 10:30 AM
#4
idelber, é isso que eu falo e nego acha que estou esnobando a flip. nao estou nao. acredito que deve ser o máximo - para participantes e convidados. para o público, é muito caro, melhor comprar os livros dos autores participantes e ler em casa.
só uma coisa: nunca li amos oz, mas sempre tive a impressao de que ele era um critico feroz das politicas anti-palestinas do estado de israel...
alex castro em julho 11, 2007 11:23 AM
#5
caro professor, nunca nutri simpatias pela flip. um pouco dessa reverência em excesso, que me irrita. e nada tem a ver com literatura.
não se lê no brasil. as editoras cobram caro pelos livros e se 'incensam' em paraty...
mas, suas impressões são um prazer à leitura.
larissa em julho 11, 2007 11:34 AM
#6
Se eu soubesse que o Fisk vinha tinha aparecido lá.
André Kenji em julho 11, 2007 12:09 PM
#7
OT, Idelber: você está curtindo a polêmica em torno do David Vitter da Lousiana? ;)
André Kenji em julho 11, 2007 12:10 PM
#8
Alex, é verdade que o Amós Oz é crítico de várias das políticas de Israel. Também é verdade que ele apóia o muro do Apartheid e que apoiou o bombardeio ao Líbano -- o que é uma amostra dos limites do chamado "movimento pacifista" de Israel...
Pois é, Larissa, é show-business, mas não deixa de ter um efeito positivo. Boas parte das pessoas que vão acabam comprando livros, isso é inegável :-)
André, da polêmica com o Vitter eu adorei a declaração da mulher dele: If he does something like that, I'm walking away with one thing, and it's not alimony, trust me. I think fear is a very good motivating factor in a marriage (o Vitter, não nos esqueçamos, foi aquele que declarou, em 30/08/2005, que não havia motivo para alarme porque "New Orleans não estava inundando...")
Idelber em julho 11, 2007 1:02 PM
#9
Fala Idelber! Não deu para encontrá-los, uma pena.
Achei a participação do Alan Pauls excelente mas não gostei da Maria Rita. Sim, é certo que ela leu e estudou o romance. Mas acabou por explicar o livro, personagens, narrador. Isso não se faz.
Quanto ao excesso de reverência, concordo. E brevemente faremos um post sobre isso. Aliás, quem ficou até a última mesa pode ter noção do tamanho da reverência, pela forma que as cadeiras foram colocadas. Uma lua quase fechada, impossibilitando a fotografia e a própria assistência do público que não estivesse na fileira central. Não fossemos nós lá na frente reclamando, teria ficado daquele jeito mesmo.
Bom, o http://flip2007.wordpress.com continua crescendo e hoje traz mais fotos, videos e informações sobre o evento. You're welcome!
Sergio Fonseca em julho 11, 2007 6:05 PM
#10
Caro Sergio, desculpe a demora na publicação do comentário: por causa do link, o MT colocou-o numa pasta temporária.
Realmente, foi uma pena. Teria sido um prazer ver você e Ane. Parabéns pelo belíssimo trabalho, que já recomendei aqui num post anterior.
Abração :-)
Idelber em julho 11, 2007 7:05 PM
#11
OLha, Idelber, se a Flip não é lá essas coisas, você deve tentar carreira como publicitário; lendo seus posts me deu, pela primeira vez, uma vontade danada de ir para lá. Ano que vem, quem sabe. Vou evitar o Brik a Brak, mas é feia, muito feia essa sua retaliação. Aposto que apenas te negaram o chorinho no conhaque. (-;
Acho que o público saiu ganhanado, com o Nelson Motta em vez de Jabor; e, quanto à Folha, parece que decidiram, na cobertura cultural, embarcar mesmo no estilo almofadinha paulista, do tipo que considera ideológico tudo aquilo que não estiver de acordo com a ideologia consumista-neoliberal. Pena, eles ainda têm bons articulistas por lá.
E o Aria, devo à Flip tê-lo conhecido (os livros, bem entendido). Estava lendo o Parmênides, interessantíssimo, que ficou ainda mais interessante agora que soube o método de composição dele. Parei para ler outro livro, mas em breve volto ao sujeito, quie O Globo apresentou como indispensável para quem quer conhecer a literatura contemporânea argentina (ainda que o livreiro na Recoleta, onde comprei dois livros dele não soubesse me indicar nenhum).
S Leo em julho 11, 2007 11:06 PM
#12
O mais legal é que pinçaram uma frase do Vitter defendendo a renúncia do Clinton por causa do caso extra-conjulgal.
Aliás, não é por nada não, mas a Lousiana tá virando um novo Mississipi politicamente... Logo, logo, dois senadores e um governador republicano...
André Kenji em julho 11, 2007 11:31 PM
#13
OLha, Idelber, se a Flip não é lá essas coisas, você deve tentar carreira como publicitário
Sergio, you´re the best :-)
Quanto ao Brik-a-brak: esperamos duas horas por um prato, até desistirmos. Foi dose.
O recado à Ana foi dado, ela está super feliz com sua leitura :-)
Idelber em julho 12, 2007 1:06 AM
#14
ou, como diria o próprio roberto carlos, "quase... mais um detalhe".
abraços
vera em julho 13, 2007 12:19 PM
#15
eu fui à flip ano passado e acho que valeu como passeio apenas. foi divertido, fui com amigos e deu pra descansar a cabeça. porém, acho que quem viu uma, viu todas. aquilo não é um evento pra ser levado a sério. devo confessar que de tudo o que mais gostei foi ver as peruas tentando se equilibrar em cima de saltos altíssimos nas ruas de pedra de paraty... =] bj
cris em julho 16, 2007 7:24 AM
#16
Querido Idelber: dava tudo para estar lá:-) na FLIP, ou pelo menos na para ter estado na primeira FLIP.
Mas queria pedir, por favor, que confirmasse:
a Aninha vai aparecer entrevistando a (ou como uma das entrevistadoras da) Nadine Gordimer, no programa Roda Viva, é isso?
E será na quinta-feira, dia 18 ?
Estou tão desinformada que ainda penso que o Roda Viva é programa (quase sempre;-)obrigatório) de toda segunda-feira)
Obrigada,
Uns beijos ;-o*))
Meg
===
Hmmm, eu estava precisando de consuktar você a respeito de umas dúvidas literárias. Mas trmo pelo seu tempo.
O meu tá hiper corrido, mas diga alguma coisa quanto ao seu, sim?
M.
Meg em julho 17, 2007 5:15 AM
#17
cinco da matina e ainda não dormi, mas li tudo, tu-di-nho.
Não se se vocês estão sabendo, mas hoje à noiye, a Marilia Gabriela estpa entrevistando, aquele escritor, o Agualusa e, não por coincidência, o Paulo César de Araujo.
zzzzzzzzzzz
;p
M.
Meg em julho 17, 2007 5:20 AM
#18
já tinha lido o post, e retorno agora para comentar sobre Robert Fisk. Assisti o Roda Viva com ele e o Wright, e a impressão foi a mesma: ingenuidade de Wright, e profundidade de Fisk. Não apenas o domínio de Fisk no programa foi pela 'paixão' do autor frente ao que trabalha, mas também teórica. Wright foi reduzido a um jornalista ingênuo que trabalha com individualidades, e foi várias vezes desmentido por Fisk.
De todo modo, o debate foi muito interessante!
catatau em julho 18, 2007 9:03 PM
#19
Off topic: Idelber, já tem foto e post sobre nosso encontro no Balaio de Gato. Foi espetacular!!! Abração.
Cláudio Costa em julho 20, 2007 3:01 PM
#20
Que boa descoberta esse blog, voltarei sempre. Abs
angelita em julho 28, 2007 9:55 AM