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quinta-feira, 12 de julho 2007
Texto novo na Germina
A reunião de expatriados corre o perene perigo de fundar estranhas seitas dedicadas a render culto a uma identidade perdida que nunca existiu. Nestes 17 anos de residência nos Estados Unidos, embora eu sempre tenha cultivado amizades brasileiras, tornei-me cético e cínico quanto ao poder simbólico, ou mesmo imaginário, desses rituais de recuperação retrospectiva da identidade. Exilada no México durante as duas últimas ditaduras em seu país (1966-73 e 1976-83), a escritora argentina Tununa Mercado – cordobesa, não portenha, ressalte-se – nota, num belo livro intitulado En estado de memoria, que os argentinos que mais se queixavam da obsessão carnívora da cozinha argentina foram aqueles que, uma vez no México, entraram em depressão pela falta do bife de chorizo e do doce de leite. De volta, já na redemocratização, eles passaram a arrastar-se na saudade do chile chipotle mexicano que, no exílio, suportavam como um mal necessário e que agora -- ¡carajo!– era impossível encontrar em Buenos Aires. Se não se cuidar, o expatriado vira um mero projétil nesse monótono ping-pong do imaginário.
Continue lendo Expatriamentos, o texto deste mês no Alegorias, minha coluna na Germina. Fique à vontade para voltar e comentá-lo aqui.
Escrito por Idelber às 01:22 | link para este post
| Comentários (11)
#1
Avelar, me reconheci em várias linhas do seu texto. Fiquei três anos na condição de expatriada nostálgica nos EUA, me vestindo de verde-amarelo na Copa e ensinando samba para os gringos. Mas um terceiro fator aconteceu na minha vida: voltei amando mais esse país. O período longe serviu sim, para absorver as coisas boas dos EUA, mas serviu mais ainda para dar muito mais valor a tudo o que eu sempre tive aqui e, usando uma expressão inglesa, took it for granted.
Raquel em julho 12, 2007 11:06 AM
#2
Raquel, que bacana que você se identificou. O objetivo do texto era esse mesmo, ressoar com expatriados e ex-expatriados. Abração, volte sempre :-)
Idelber em julho 12, 2007 1:23 PM
#3
Idelber, não penso que meu caso possa se enquadrar nessa ou naquela categoria, restando no baile dialético das contradições da identidade nacional. Isso porque a partir das dinâmicas da vida, sociais, culturais, morais e até emocionais, batemos de um lado a outro do sentimento de brasilidade. As vezes algumas vezes em um mesmo dia. Quero dizer, e falo por mim que sou mutante e inconstante, nunca me senti mais ou menos brasileiro a partir de uma imagem representativa, ilusória ou não, mas sim mais ou menos crítico em relação à origem, assim como se é crítico em relação ao pais acolhedor. Isso exatamente pela indefinição e fluidez da cultura nacional, que permite de um lado abraçar infinidades de costumes como se nossos fossem com enorme desenvoltura e por outro, experimentar por isso mesmo um sabor de ignorância da própria cultura quase constante. Eu sei muito menos o que é ser brasileiro mesmo tendo nascido e vivido quase toda a vida lá, do que o que é ser italiano por exemplo. Isso facilita "ser italiano" mas ao mesmo tempo, revela que isso é um traço de brasilidade, a capacidade de adaptação. A nossa falta de cultura é o nosso mais marcante traço cultural. Nós somos esponjas tão absorventes e ao mesmo tempo uma idéiazinha própria sempre temos. Séculos de colonização infinita, contradição de sentimentos inevitável. Outra coisa. Os brasileiros muito nostálgicos que conheci ou tive contato são aqueles que idealizaram demais e se deram mal, até por isso. Mas isso é humano, não brasileiro. Abraços.
Ps: Grande texto, parabéns.
Flavio Prada em julho 12, 2007 4:19 PM
#4
Caro Flavio, muito rico seu comentário. Grato pela leitura! Também experimento essa inconstância que você menciona -- e talvez ela seja um traço mais marcante em nós, brasileiros, do que em outras nacionalidades. Chamou-me a atenção especialmente a sua afirmação de que "sabe menos" o que é ser brasileiro do que ser italiano. Fiquei pensando que de alguma forma se aplica a mim. Mas aí entra também, acho, os traços do país que acolhe. Só estive na Itália uma vez -- fui incrivelmente bem recebido, ao ponto de me assustar. Uma grande diferença entre o seu país adotivo e o meu, claro, é que na Itália qualquer um sabe encontrar o Brasil no mapa! Forte abraço.
Idelber em julho 12, 2007 8:42 PM
#5
muito bom o texto, especialmente a menção ao texto da diamela. aquele trecho é ótimo. eu tenho várias coisas sobre isso que estou pra falar há séculos, se não fosse a loucura dos lançamentos, escreveria. fica pra breve.
alex castro em julho 13, 2007 12:27 AM
#6
Idelber,
texto conciso mais abrangente sobre essa tal da brasilidade, lindamente complementado pelo comentário do Flavio. Só gostaria de acrescentar que na(s) minha(s) experiência(s) fora, vejo uma certa diferença de atitude/percepção entre os (i)migrantes voluntários e os que, seja qual a motivação, tenham deixado a Brazuca de mau grado.
Márcia W. em julho 13, 2007 6:09 AM
#7
Caro Idelber, devo confessar que não sinto falta do Brasil, e que me adaptei muito bem ao lugar para onde emigrei. E olha que estou aqui em Brasília há 22 anos! Acho que a adaptação se deu pela grande quantidade de brasileiros que vêm para cá, descontados os picaretas que visitam a área de terça a quinta-feiras.
Mais uma vez off-topic: quase engasguei ontem, vendo um de meus programas favoritos na TV Nacional produzido pela rede Minas. Era um sobre a poesia e literatura da música pop, e, para meu espanto, apareceu um cara igualzinho a você falando do assunto! E com o mesmo nome, Idelber Avelar!! Falava bem o cabra.
Anonymous em julho 13, 2007 11:22 AM
#8
Acho que o Sergio Leo esqueceu-se de assinar o comentário :-)
Márcia, com certeza: com a ressalva de que em Miami até os expatriados por-escolha-própria parecem exilados :-)
Idelber em julho 14, 2007 4:12 AM
#9
Foi mal, esqueci mesmo. Também não lembrei que o tal idelber devia estar lá porque tem até tese sobre o Sepultura, cabra eclético. O Idelber que conheço ganhou prêmio no Itamaraty falando de Machado de Assis. Que só está na sepultura para vocês, filhos ingratos.
S Leo em julho 14, 2007 7:43 PM
#10
Idelber, ainda nao passei tanto tempo assim morando fora do Brasil, mas isso nao me impediu de identificar seu texto como parte do que vivi. Impressionante como nos adaptamos e compreendemos tudo o que se passa aonde quer que estejamos, isso com certeza jah se tornou um traço da cultura brasileira... ao menos para mim. Quanto ao imaginario, tento nao "viajar" muito, penso que nao esquecer de onde viemos eh preservar os habitos que nos fazem felizes e falam por nos... e que respeitam sempre os demais. Isso nao impede que saibamos apreciar o externo... caramba, a mente humana eh mesmo louca! "Pero no mucho"!
Ananda em julho 16, 2007 1:25 AM
#11
Não sei se entendi bem o teu artigo. Sou dividida entre dois mundos. Expatriada no Brasil. Mas o "ser" brasileiro é uma lenda, não? São tantos Brasis. Um país que é um continente. Me parece que a colocação expatriada sempre fica restrita ao sudeste urbano.
Elitismo?
Fátima em agosto 25, 2007 11:17 PM