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Um weblog anti-apocalíptico sobre política, música, futebol e literatura.
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sexta-feira, 28 de setembro 2007
Mais um blogueiro ameaçado por político
Leonardo Sakamoto, jornalista, doutor em ciência política pela USP, coordenador da ONG Repórter Brasil e um dos maiores conhecedores da realidade do trabalho escravo no Brasil (e há tempos recomendado cá neste blogroll), foi ameaçado de processo na tribuna do Senado Federal no dia 25 de setembro. A senadora Kátia Abreu (PFL DEM-TO), conhecida líder da bancada “ruralista”, reagiu a uma simples informação – a de que ela votou de acordo com os interesses de latifundiários flagrados no uso de trabalho escravo – com uma ameaça de processo sobre o jornalista. O discurso da senadora, como costuma acontecer nesses casos, foi um arrazoado de incorreções:
Disse a digníssima na Tribuna do Senado: Sr. Leonardo Sakamoto, dono do site Repórter Brasil, financiado por recursos públicos, como consta no Contas Abertas, o senhor recebe dinheiro público para financiar o seu site e me acusa dizendo: A Senadora é uma das maiores opositoras do combate ao trabalho escravo contemporâneo. Quando Deputada Federal, defendeu os produtores rurais flagrados cometendo esse tipo de crime e atuou contra. Quero dizer-lhe, de público, que vou processá-lo por calúnia e difamação. O senhor é um irresponsável que mama nas tetas do Governo, que financia esse site irresponsável, o qual não tem crédito.
Na sua contudente resposta, Sakamoto refuta ponto por ponto:
1) Uma organização não-governamental, com diretoria e estatuto devidamente registrados, não tem dono e sim associados que elegem uma diretoria, da qual faço parte. Não sou proprietário de nada na Repórter Brasil.
2) A senadora cortou a frase que escrevi. A sua íntegra é a seguinte: "A senadora é uma das maiores opositoras do combate ao trabalho escravo contemporâneo. Quando deputada federal, defendeu os produtores rurais flagrados cometendo este tipo de crime e atuou contra a aprovação de leis que contribuiriam com a erradicação dessa prática". A matéria na íntegra pode ser lida clicando aqui.
Um exemplo: No dia 11 de agosto de 2004, 326 deputados federais aprovaram, em primeira votação, a proposta de emenda constitucional que prevê o confisco de terras em que trabalho escravo for encontrado, considerado uma das bandeiras da Comissão Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo. A então deputada Kátia Abreu e mais nove parlamentares posicionaram-se contra. Depois disso, a PEC 438/2001 não foi colocada em votação em segundo turno devido à pressão realizada pela bancada ruralista da Câmara dos Deputados, o que tem beneficiado os fazendeiros que utilizam mão-de-obra escrava. De acordo com parlamentares e entidades que atuam no combate ao trabalho escravo, a senadora Kátia Abreu foi uma das mais atuantes para que isso acontecesse.
3) Ao contrário do que informou a senadora Kátia Abreu, eu não mamo "nas tetas do governo". Ou seja, eu não "colho benefícios financeiros ilícitos de empresa ou administração pública" (conforme o dicionário Houaiss). Essa sim é uma declaração passível de um processo por calúnia e difamação. Meu cargo na direção da Repórter Brasil não pode ser, nem é, remunerado, como manda o estatuto da entidade.
Como se lembram os que acompanharam este blog na época da campanha eleitoral, processos judiciais de senadores contra blogueiros já têm história e triste memória no Brasil. O Biscoito empresta sua solidariedade irrestrita a Sakamoto, deixa a sugestão de que os eleitores do Tocantins escrevam à sua senadora com pedidos de esclarecimentos e convida os amigos blogueiros a repercutirem a notícia.
Minha aposta é que depois da resposta de Sakamoto e do desagravo do Senador Nery ao jornalista, a Senadora Abreu não volte mais ao assunto. Mas permaneçamos atentos ao desenrolar dos eventos. Em todo caso, minha convicção é que isso só vai deixar de acontecer quando os parlamentares e membros do Executivo perceberem que a força da internet já é tal que os custos políticos de ficar ameaçando blogueiro serão altos demais para valer a pena. Com a palavra, a turma que é criativa com banners e que esteja disposta a compor uma caricatura da senadora pefelê, nos moldes do grande sucesso que foi o Xô, Sarney.
(notícia via Blue Bus via Querido Leitor)
PS 1: A Revista Bula, em parceria com o Laboratório de Pesquisas de Opinião Pública e de Mercado da UEG/GO, pediu a 400 usuários de internet que indicassem os melhores blogs do Brasil e publicou o resultado. Com muitíssima justiça, Pensar Enlouquece ficou em primeiro. Meus agradecimentos a quem participou e votou cá neste blog.
PS 2: Belo texto do Hermano Vianna sobre hip hop (via Blog vermelho do hip hop).
PS 3: Maravihoso post da minha amiga Lucia Malla sobre a bendita readaptação do ex-expatriado.
PS 4: Aos participantes do Clube de Leituras do Borges: confirmado o tema do papo de quarta-feira. É o conto "Emma Zunz" (disponível na internet em português e no original)
Escrito por Idelber às 02:03 | link para este post
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terça-feira, 25 de setembro 2007
Ufa! Mas não tem resenha
Acabei de ler o livro do Ministro do Longo Prazo, o Roberto Mangabeira Unger, What should the left propose? [O que a esquerda deveria propor?]. Li não porque acompanhe Unger -- é o primeiro livro dele que leio -- nem porque esteja no campo de estudos dele, mas por pura vontade de resenhar algo diferente aqui no blog, que poderia ter alguma relevância, sei lá, para debates brasileiros.
Mas confesso que ficou impossível. Alguém aí já leu? Hermê? Catatau? Mauricio? mary w? Arranhaponte, Marcos, leram? Ju, Laura? Sergio Leo? Pedrão? Se não leram, pois leiam. Ou tentem. A geringonça está disponível inteira na internet.
Meu amigo Michael Bérubé já desmontou o livro numa resenha publicada na revista Dissent, infelizmente não disponível online. Eu não saberia como fazê-lo, sinceramente.
Claro que a última coisa que um acadêmico sério deve fazer é dar pitaco na área de outro acadêmico sério, especialmente quando este é um dos líderes da sua disciplina. Mas não resisto: não entendo, mesmo, a fama do Unger. O cara é -- não há dúvida -- um dos poucos brasileiros reconhecidos como líderes da sua disciplina em nível mundial. Não há discussão, por exemplo, sobre o tal critical legal studies (riquíssima escola de reinterpretação do direito) que contorne a obra do Unger.
Aí você lê o livro do cara que supostamente prometeria "alternativas" para a esquerda, e suspira: uai, mas que enrolação! Pelo menos foi a minha reação ao texto. Para que vocês tenham idéia, caras amigas feministas, a solução para a paulatina aniquilação do direito ao aborto nos EUA é... "criar um melhor sistema de ônibus" para transportar mulheres para estados onde o aborto é legal! Assim fica fácil, né? Dá a batalha por perdida e sugere um remendo.
E se algum leitor do blog puder me explicar -- de preferência sem xingar ninguém -- qual era a necessidade política do Lula de incoporar Unger ao ministério (era só para satisfazer José Alencar?), eu também agradeceria, visto que o Lula ficou visivelmente constrangido de tê-lo aí e chegou a avisar à Ministra Dilma: o primeiro pepino você resolve.
A resenha em português desse livro, pois, que algum de vocês aí se sinta interpelado para fazer. Seria um bom espaço para debate.
Escrito por Idelber às 22:54 | link para este post
| Comentários (52)
Mais um um papo sobre Borges
Deixemos marcado para a quarta-feira que vem, dia 03 de outubro, mais uma conversa entre vocês e meus alunos no Clube de Leituras do Borges, que tal? Para quem se anima a ler em espanhol, aí vão os links de novo: Ficciones e El aleph. Para os neófitos, não posso deixar de sugerir o excelente livro de Beatriz Sarlo sobre Borges.
Desta vez, com uma semana de antecedência, fica melhor avisado. Quem sabe até ela aparece por aí.
Na terça à noite, então, eu colocaria o post e ao longo da quarta bateríamos papo sobre Borges de novo. Se você tem preferência por algum conto, deixe aí o seu voto.
Escrito por Idelber às 18:35 | link para este post
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segunda-feira, 24 de setembro 2007
Lançamento: Boca de lobo, de Sergio Chejfec
Vai sair no Brasil mais um notável romance argentino contemporâneo. Boca de lobo (2000), de Sergio Chejfec, será lançado em novembro pela Editora Amauta, em tradução de Marcelo Barbão. O título virou Lugar sinistro em português por decisão do tradutor, que não quis criar ambigüidades.
Paulistas, cariocas e gaúchos poderão ver o próprio Chejfec pessoalmente. Ele deve ir à Feira de Porto Alegre (09/11 a 12/11), fazer um lançamento no Rio (13/11) e outro em São Paulo (16/11). São os detalhes que tenho até agora.
A editora Amauta me convidou para escrever o prólogo de Lugar sinistro. Publico-o aqui no blog também, como aperitivo ao lançamento.
*********************
Relatos da reflexão hesitante
O leitor brasileiro tem agora em mãos um dos momentos chave da obra do notável escritor argentino Sergio Chejfec (1956-), autor de nove romances, duas coleções de poemas e um livro de ensaios. Lugar sinistro, de 2000 (no original: Boca de lobo, que designa ali baldios e vielas escuras, não bueiros), narra a relação intensa mas oblíqua, amorosa mas plagada de tropeços, cúmplice mas não isenta de idealizações, entre um narrador anônimo “que leu muitos romances” e uma operária, Delia, mulher que é a zona-limite, opaca, ante a qual ele exercita sua capacidade de compreensão e de entrega. Escrevendo sobre o romance, Martín Kohan notou que se trata de uma história que “teria correspondido, em outros tempos da literatura, a uma típica fábula do realismo social, com tom de denúncia urgente e mensagem incluída”. Afinal de contas ali estão a fábrica, o subúrbio, a alienação, a relação desumanizadora com a máquina e o olhar fascinado de um não-operário que se aproxima, mas oscila entre o amor e o alheamento. Não se procure aqui, no entanto, uma fábula edificante do engajamento social ou um retrato pitoresco da vida operária. O projeto narrativo de Chejfec, insólito e solitário, se erige sobre as ruínas desses modelos. No Brasil, em particular, as representações contemporâneas da classe trabalhadora na literatura têm se mostrado tributárias de uma previsível estética da “neo-violência”, que não poderia estar mais distante da arte sutil, quase sussurrada de Chejfec. Lugar sinistro seria assim uma resposta – brilhante, me parece – à questão de como dar conta, literariamente, da vida operária, trabalhadora, em épocas de desmoronamento de todo realismo social.
Tal como os patrícios fundadores Domingo Faustino Sarmiento (1811-1888) e José Mármol (1818-1871) ou os romancistas contemporâneos Manuel Puig (1932-1990) e Juan José Saer (1937-2005), Chejfec pertence a uma longa tradição de escritores que produziram literatura inconfundivelmente argentina fora das fronteiras do país. Publicou seu primeiro romance, Lenta biografia, em 1990, ano em que se radicou na Venezuela como diretor da importante revista Nueva Sociedad. A ele se seguiram, além de Lugar sinistro: Moral (1990), O ar (1992) -- sobre um sujeito a quem a mulher abandona e cuja indecisão acerca de segui-la ou não se transforma em eixo do relato --, Cinco (1996), O chamado da espécie (1999), Os planetas (1999) -- a incursão de Chejfec pelo romance pós-ditatorial, narrado por um escritor que abraça a profissão a partir do desaparecimento de um amigo – e Os incompletos (2004), todos escritos durante a estadia do autor em Caracas. Desde sua mudança para os Estados Unidos, em 2005, publicou Baroni: uma viagem (2007), o seu tributo à Venezuela. Além da obra de ficção, Chejfec também é autor dos poemários Três poemas e uma mercê e Galos e ossos, além do livro de ensaios O ponto vacilante. Já é referência indispensável para quem se interessa pelo rico romance argentino contemporâneo.
“Não somos mais que um conjunto de desavenças com a realidade”, diz o narrador de Lenta biografia. Nesse hiato entre a palavra e o real, entre a memória e o fato, Chejfec vai construindo o fascínio de sua tortuosa ficção. É comum em suas narrativas que o narrador volte ao acontecimento, rasure o já dito, reescreva o afirmado. Chejfec pertence a uma linhagem da prosa ficcional argentina caracterizada por uma certa desaceleração reflexiva do relato. Não se trata de que “aconteça pouca coisa” – acontece muito em seus romances –, mas a linguagem estabelece com o acontecimento uma relação que a obriga a experimentar diferentes ângulos para descrevê-lo. A epítome dessa tradição multi-perspectivista é Juan José Saer, que burilara ao máximo o relato (e frase) que procede regressando e picotando o relato (ou frase) anterior. Mas se em Saer ainda permanece um movimento semi-circular ou espiralado de certa grandiosidade, num “eterno retorno” reiterado não só dentro do mesmo relato, mas de um livro para outro, Chejfec mantém a estratégia pensante, mas suas frases, ou pequenos núcleos narrativos, regressam ao material anterior numa coreografia de movimentos mais erráticos e descontínuos. O resultado é uma poderosa reflexão sobre a linguagem e a memória, na qual a ênfase recai sobre a opacidade, o desconcerto, o logro. Não parece haver aqui progressão temporal nas ações. A narrativa tem lugar num tempo espacializado, em que os acontecimentos coexistem como que numa multiplicidade de camadas. Em parte por isso, em parte pela voz sussurrada, meditativa do narrador, os personagens de Chejfec não suscitam catarse ou identificação de qualquer tipo em quem lê. Estamos longe do paradigma dialético da ascensão, clímax e queda.
É próprio dos protagonistas de Chejfec chegarem atrasados à cena que os constitui. Em Lugar sinistro, essa defasagem produz no narrador resultados angustiantes, dado o domínio e a fascinação exercidos por Delia, a operária. Ante a realidade bruta dos fatos, ele pontua seu espanto com recordações do que leu.: “li muitos romances onde o protagonista retorna ao lugar esquecido”; “Empréstimo. Dívida. Li muitos romances que tentam resolver o sentido dessas palavras”; “Li muitos romances em que os personagens estudam os trajes dos outros para conhecer aquilo que as palavras não dizem nem os atos descobrem”; “Li muitos romances onde os cheiros servem para resgatar recordações esquecidas, demonstrando que um laço mais eficaz e verdadeiro se manifesta quando a consciência se abandona à surpresa”. “Li muitos romances onde há pessoas que tiram conclusões arbitrárias sobre os demais”. Uma infinidade de frases com esse mesmo começo se repete ritmicamente ao longo da narrativa, marcando sua respiração. Reiteradas, iluminam alguma zona do contraste entre a história do protagonista e os choques que lhe impõe a experiência com Delia.
Num amor que une uma operária e um protagonista literato como o de Chejfec, seria de se esperar que o autor recaísse em um de dois perigos opostos: a ilusória fusão romântica ou a estereotipada idealização do outro. Na primeira, o intelectual passaria pelo processo de purgação, se despojaria de sua “falsa” cultura livresca e aprenderia com a vida simples dos operários: fábula realista-socialista. A segunda intercalaria fascinação e hostilidade como forma de sublinhar o abismo da distância insuperável, ao fim da qual o outro seria um puro ou um monstro: fábula vanguardista-modernista. Chejfec escreve com notável consciência dessas duas armadilhas. O protagonista não escapa da idealização, mas não deixa de fazer agudas observações sobre a fissura que o separa de Delia. Veja-se o assombro que lhe produzem os empréstimos de roupas entre os operários, parte de uma economia da escassez onde só circula entre eles o que não tem valor de troca -- roupa, ferramentas, utensílios, o próprio trabalho, mas raramente alimentos e jamais o dinheiro. Daí, nota o narrador, que seja mais simples endividar-se com agiotas, em vez de recorrer à ajuda de quem não cobraria juros. As dívidas acumuladas de um operário, F, produzem outra cena que o protagonista contempla com espanto: a entrega a F, pelo grupo inteiro, de uma soma de dinheiro à qual só alguns contribuíram – não se tratava de dividir entre todos o mérito da generosidade, mas diluir num coletivo maior o peso da desonra. Nessas observações ao mesmo tempo sagazes e distantes, o narrador de Chejfec vai construindo uma relação com o outro que é singular – embora não singular o suficiente para que ele se mostre digno desse amor.
Beatriz Sarlo, a crítica argentina que mais atenção vem dedicando à obra de Chejfec, notou com a habitual perspicácia que seus escritos impõem um giro às recentes representações do imaginário urbano. A urbe já não é marcada pela profusão de signos, mas pela ruína, decadência, esvaziamento. Publicado um ano antes do colapso pós-menemista da Argentina, Lugar sinistro assume tons antecipatórios. Apesar de que praticamente não há sinais específicos que remitam a Buenos Aires ou a qualquer outra cidade argentina, o cenário pós-industrial construído pelo romance traz numerosos paralelos com os processos recentes vividos pelo país.
A expressão que dá título ao livro em espanhol, Boca de lobo, designa as zonas baldias, poços de penumbra, blocos de escuridão pelos quais transita o personagem; metaforicamente, também alude à zona de incomunicação e perplexidade que organiza sua relação com Delia. Tragado nessas valas, o amor entre o leitor de romances e a operária termina como costumam terminar, na grande literatura, todos os amores. Desenredar os fios do fracasso é a mais visível, não a mais fascinante das tarefas propostas por este romance.
PS: Também em novembro, o Marcelo Barbão lança seu primeiro romance, Acaricia meu sonho.
Atualização: Barbão acaba de me confirmar que o título em português vai ser Boca de lobo mesmo, o que sempre me pareceu a decisão correta, apesar do ligeiro "desvio de sentido" que ocorre em português.
Escrito por Idelber às 20:36 | link para este post
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Dois silogismos de pé quebrado
Lendo alguns arautos da direita brasileira, nota-se algo curioso, que aflorou mais uma vez na polêmica sobre os livros didáticos. A direita brasileira (não toda ela, é verdade) repete insistentemente dois bordões contraditórios entre si. Os colunistas da Veja, por exemplo, deveriam se decidir:
1. Ou o Brasil é um país no qual está em curso uma perigosa doutrinação nos colégios e universidades, onde professores cripto-comunistas manipulam os jovens com conteúdo esquerdista nas aulas.
2. Ou o Brasil é um país no qual o Sapo Barbudo só tem o apoio de desdentados miseráveis que se vendem pelo prato de comida do Bolsa Família, enquanto as pessoas instruídas e bem-informadas votam com a oposição.
Acreditar nas duas coisas fica meio difícil, né? Os dois postulados, não sei se deu para perceber, são contraditórios entre si.
Escrito por Idelber às 03:24 | link para este post
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domingo, 23 de setembro 2007
Reinaldo Azevedo, o monoglota
“I am not going to go on a graduate study program at Harvard University,”
disse Lula hoje ao New York Times.
Tradução de Reinaldo Azevedo, no seu post das 07:17?
Falando sobre o que fará quando terminar o mandato, mandou ver: “Eu não vou para um programa de graduação na Harvard”.
Essa é a turma que se auto-declara "instruída", e faz troça do suposto analfabetismo de quem vota diferente. Agora vamos ver quanto tempo ele vai demorar para consertar, esconder o erro e fingir que não cometeu outra gafe, desta vez de primeiro semestre de CCAA.
Escrito por Idelber às 20:02 | link para este post
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Cansei
Sim, amigos, eu aderi ao "Cansei". Mudei-me de casa (finalmente comprei casa em New Orleans) e não carreguei comigo o satélite que trazia o sinal da minha querida Rede Globo. O motivo?
Não suporto mais assistir a jogos de futebol do Brasil. Chega. Vejam só: segundo a Revista Placar, a seleção do atual campeonato brasileiro seria: Rogério Ceni, Coelho, Breno, Thiago Silva e Kléber; Richarlyson, Hernanes, Thiago Neves e Valdívia; Leandro Amaral e Guilherme.
Esses são os melhores do Brasil atualmente. Deixo uma singela pergunta aos meus eruditos leitores de boa memória: haverá um único jogador dessa lista que teria vaga de titular em algum dos 12 principais clubes do Brasil entre, digamos, 1977 e 1980?
Depois da revelação, pela PF, da bandidagem no Corinthians, e da constatação de que o futebol piora a cada dia, este blog, que detesta discursos apocalípticos do tipo antigamente-era-tudo-melhor, acaba de aderir ao apocalipse quando o assunto for futebol. Estamos no fundo do poço.
PS: Ainda sobre futebol, um textículo na Germina deste mês.
Escrito por Idelber às 01:29 | link para este post
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sexta-feira, 21 de setembro 2007
Ali Kamel e seu mais recente delírio
Na maioria das vezes, quem grita contra lavagem cerebral ou doutrinação está julgando a inteligência alheia com o metro de que é capaz a própria. Em época de Google, falar de lavagem cerebral em 7a, 8a série – qualquer que seja o conteúdo do livro didático – é passar atestado de completa ignorância da realidade da sala de aula do século XXI, seja no Brasil ou em qualquer lado, em escola pública ou particular.
Estou completando, em 2007, 23 anos de magistério ininterrupto: só parei durante o furacão Katrina. Já ouvi reclamações, algumas, de alunos: por excesso de leitura, por excesso de rigor na correção, por marcação gramatical cerrada. Mas mesmo estando algumas milhas à esquerda de 95% do meu alunado, nunca ouvi reclamação por “manipulação”, proselitismo político ou coisa que o valha– e aqui nos EUA temos avaliações anônimas no final do semestre. A última tese de doutorado que orientei (a vigésima na carreira) foi de um homem extremamente religioso e eleitor de Bush em 2004. Com ele tive um dos diálogos intelectuais mais proveitosos da minha vida professional. Ao longo destes 23 anos, nunca encontrei um professor (ótimo, bom, regular ou ruim) que topasse trocar a experiência de uma boa discussão, debate e implantação de dúvidas e questionamento nos alunos por uma aceitação passiva de um ponto de vista político, por mais caro que lhe fosse o dito cujo.
Com a sua infinita capacidade de distorcer e enxergar fantasmas, o diretor executivo da Globo, Ali Kamel, assinou um artigo de opinião – chamemo-lo “opinião” para ser generosos, porque nem de análise, nem de leitura, nem de jornalismo se trata – sobre um livro didático que, para ele, é uma perigosa tentativa de fazer nossas crianças acreditarem que o capitalismo é mau e que a solução de todos os problemas é o socialismo, que só fracassou até aqui por culpa de burocratas autoritários. Ao final de uma série de tediosas citações que não passam nem perto de provar o afirmado, Kamel se desespera porque nossas crianças estão sendo enganadas, a cabeça delas vem sendo trabalhada, e o efeito disso será sentido em poucos anos .
Parece brincadeira, mas não é. O chefe dos inventores da enganação televisa moderna no Brasil, o chefe dos aspirantes a ladrões da eleição fluminense de 1982, o chefe dos manipuladores do debate de 1989 nos alerta contra os perigosos efeitos de um livro didático de 8a série que diz que Cuba resolveu problemas básicos de saúde e educação, que Mao era chefe militar e estadista, e que a Princesa Isabel era feia. É o motivo da última revoada de indignação da direita brasileira. Claro que Reinaldinho Azevedo já aproveitou e declarou a guerra santa.
Não resisti e fiz um experimento. Disse a cinco compatriotas, nenhum deles de esquerda e nenhum deles eleitor do atual governo, que o diretor executivo da Globo está conclamando a lutar contra a manipulação esquerdista nos livros didáticos. De todos eu tive resposta essencialmente igual: uma gargalhada satírica ou uma observação acerca do fato de que, afinal de contas, de manipulação eles entendem. Ninguém que tenha experiência real de sala de aula leva a sério, claro, esse papo de lavagem cerebral – a não ser em raríssimos casos e em má fé. Mas um sujeito que há cinco gerações não vê um pedaço de giz se julga no direito de gritar por censura sobre um livro escolhido livremente por milhares de professores.
O livro tem problemas? Não sei. Ao contrário dos funcionários da Veja, não escrevo sobre o que não li. Não julgo livros por citações pinçadas (atualização às 19:11: já acabei de ler o livro e mantenho tudo o que disse). Mas as citações feitas pelo autor, na sua resposta, já mostram que Kamel mentiu. Quero dizer mentiu mesmo, escreveu de má fé. Será que Kamel pinça citações com menções positivas ao maoísmo e se esquece de ler o trecho que diz O Grande Salto para a Frente tinha fracassado. O resultado foi uma terrível epidemia de fome que dizimou milhares de pessoas. (...) Mao (...) agiu de forma parecida com Stálin, perseguindo os opositores e utilizando recursos de propaganda para criar a imagem oficial de que era infalível.” (p. 191) “Ouvir uma fita com rock ocidental podia levar alguém a freqüentar um campo de reeducação política. (...) Nas universidades, as vagas eram reservadas para os que demonstravam maior desempenho nas lutas políticas. (...) Antigos dirigentes eram arrancados do poder e humilhados por multidões de adolescentes que consideravam o fato de a pessoa ter 60 ou 70 anos ser suficiente para ela não ter nada a acrescentar ao país... Será que Kamel escreve de má fé comparável àquela da Globo ao tentar roubar a eleição de 1982 ou ao contribuir para eleger Collor em 1989? Será que atribui intento de manipulador ao livro de Mario Schmitt para esconder suas próprias manipulações, feitas à base de citação seletiva?
Kamel não sabe nem mesmo qual é a acusação que quer fazer ao livro. Ele próprio, no primeiro parágrafo, acusa-o de dizer que o socialismo só fracassou por culpa de burocratas autoritários. Mais adiante, cita o trecho que diz que na URSS os profissionais com curso superior tinha[m] inveja da classe média ... dos países desenvolvidos. Não leu o que citou ou não releu o que escreveu? Ou será que está tentando enganar o leitor?
Notoriamente, de enganação e manipulação da cabeça alheia as organizações Globo e seus chefes entendem, embora felizmente com menos eficácia que antes, dada a democratização paulatina da informação. Em todo caso, os medos de Kamel são infundados: a molecada de hoje não é o Homer Simpson que deseja o âncora do Jornal Nacional. Qualquer livro que tente pintar, para o meu filho de 10 anos, uma imagem rósea de Cuba, que esconda o negativo, vai encontrar questionamento: uai, mas não é um regime de partido único? Uai, mas não perseguem homossexuais? Não há presos políticos? A molecada pergunta, surfa no controle remoto, vai ao Google. Mas claro, Kamel sonha com lavagem cerebral e lobotomia. Deve ser a força do hábito.
No caso do livro em questão, e baseando-me somente nas citações que vi, parece que (atualização às 19:11: baseando-me na leitura feita hoje) há uma estratégia de certa simplificação, da qual eu não comungo, mas muita gente sim. O ideal nas ciências humanas, claro, é que se exponha o maior número de perspectivas possível sobre a história, a política, a cultura, com o maior respeito possível ao que for fato histórico (objetividade total, obviamente, não existe nessas disciplinas). Se o livro de Schmidt contempla esse ideal, não sei (atualização depois da leitura do livro: não, não contempla ao ponto que eu gostaria para um livro de 8a série. Deve ser por isso que saiu da lista do MEC. Mas está longe de ser essa conspiração de lavagem cerebral marxista. Se há algo que se pode condenar no livro, é uma certa simplificação pop dos fatos, não uma ortodoxia esquerdóide. Agora, os que se declaram "sem partido" e "sem ideologia" deveriam refletir sobre o porquê de Kamel desenterrar esse livro para essa campanha Torquemada). Alguns professores acharam que contempla, sim, outros que não. Mas para Kamel isso não é suficiente: o Torquemada de plantão quer banir o livro, iniciar guerra santa; o grande defensor do mercado não quer deixar o mercado escolher.
Que a sociedade brasileira se envolva no tema dos livros didáticos, desde que se continue respeitando as decisões soberanas dos professores sobre o que ensinar. Mas que o futuro nos livre de um mundo onde os juízes da isenção, do equilíbrio e da objetividade seja gente da laia de Ali Kamel e dos colunistas da Veja. Não porque eles sejam capazes de manipular nossas crianças, claro – mas porque as coitadas morreriam de tédio.
PS: Tiquim de paciência hoje. Liberação dos comentários por volta das 13 h de Brasília.
Atualização: Muito boa a colagem de citações com a qual o Hermenauta demonstra o óbvio: pinçando trechos de livros, você sugere qualquer coisa sobre o texto alheio. E, com ampla informação sobre todo o processo de escolha de livros didáticos omitida por Kamel, Luis Nassif põe a última pá de cal.
Atualização II: Que última pá de cal, que nada. O Hermenauta desenterra o texto de onde Kamel requentou a denúncia -- contra um livro, sublinhe-se, que já saiu da lista do MEC. Para completar, mais uma demonstração do tosco método Kamel de distorção via citação seletiva.
Escrito por Idelber às 02:39 | link para este post
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quarta-feira, 19 de setembro 2007
A esquerda e a absolvição de Renan
No episódio Renan Calheiros, o que menos importava, para todos os senadores e partidos políticos envolvidos, é se Renan havia recebido dinheiro da Mendes Júnior ou não; se tinha bois voadores ou não; se mentiu para a Receita Federal ou não; se usou laranjas para comprar emissoras de telecomunicações ou não. Isso importa, claro, para a cidadania, que deve exercer o direito de fiscalizar a política. Mas a política mesma não é um ramo da ética nem nunca vai ser. O que não quer dizer que não se deva lutar por mais ética na política. Só significa que àquele que faz do brado pela ética o seu único bordão, sempre cabe perguntar: “ok, e sua próxima proposta, qual é?”
Dito isto, eu acho que o PT – ou a maior parte de sua bancada – cometeu um erro gravíssimo no episódio Renan. Político, não ético. A partir da preocupação legítima sobre a base de sustentação do governo no Senado, não soube adequar-se ao clima do país, responder a ele e utilizá-lo em seu favor. Ficou a reboque da oposição e teve que se contentar, no final das contas, com o discurso de que não foi o maior culpado pela absolvição do grande vilão da política brasileira em 2007. O PT tem 12 senadores e está longe de ter a maior bancada do Senado. O discurso do “não venham nos atribuir a culpa” está, portanto, correto matemática, mas não politicamente.
As respostas da esquerda à não-cassação de Renan Calheiros são um espectro impressionante de opiniões diferentes – o que mostra como é delirante a visão de certos setores da direita que enxergam uma vasta conspiração bolchevique para controlar o Brasil. Senão, vejamos. Paulo Henrique Amorim e Emir Sader insistem na mesma tecla, a de que a absolvição de Renan é uma derrota da mídia golpista. Não discuto que haja setores golpistas na mídia; tampouco discordo de que haja uma tremenda vontade de desgastar o governo Lula; também não discrepo de quem aponta que, ao reperticutir certos escândalos, a grande mídia age a partir de interesses que têm pouco a ver com a “ética” e que vão muito além da busca de audiência. O problema com as análises de PHA e Emir Sader é que são extremamente simplistas. Só enxergam isso. A partir daí, com esse quadro, pintam um cenário onde só há bandidos e mocinhos. Ao contrário dos protestos desses dois contra a fúria midiática anti-Lula durante as eleições de 2006, as atuais análises não repercutem com a população, porque esta sabe que Renan Calheiros representa o que há de pior na política brasileira.
Já o PSOL está no extremo oposto. Quer fazer da ética o seu único diferencial em relação ao PT – e a mensagem simplesmente é rejeitada pela maioria da população. O comentário deixado por um psolista no blog do Emir é emblemático: diz que PSDB e DEM “pegaram carona” nos ataques a Renan, quando o que aconteceu foi justamente o contrário. Foi o PSOL quem pegou carona no discurso moralizante, udenista daqueles que apoiaram o Renan ministro e agora agem como se não o tivessem feito; que apoiaram em 2003 as sessões secretas contra a emenda de Tião Viana (PT-AC) que as tornaria públicas, e agora falam como arautos da transparência (note-se que, segundo Noblat, o próprio DEM reconhece que deu seis votos a Renan: seis de 17; que oposição é essa que não consegue reunir nem 65% de sua bancada para cassar um corrupto aliado ao governo? Quais desses aqui mentiram?). O PSOL perdeu assim a oportunidade de fazer uma oposição genuinamente de esquerda ao governo Lula. Neste sentido, mesmo o PSOL tem sua parcela de culpa na absolvição de Renan: não havia pessoa pior para defender a representação que Heloísa Helena, com seu moralismo histriônico. Entregaram a Renan, de bandeja, o lugar da vítima.
Mas há outras análises de esquerda mais matizadas sobre o fenômeno: a de Marco Aurélio Weissheimer e a de Alon Feurwerker foram as que mais me agradaram. Curiosamente, são análises opostas. Alon inclusive afirma que não teria votado pela cassação, o que decididamente não é o meu caso. Mas ambas são análises políticas da coisa, e por não confundir política com ética conseguem ir mais fundo.
O que eu acho, então, que o PT deveria ter feito? O que fizeram – provavelmente – Suplicy, Paim, Arns e Delcídio, ou seja, votado a favor da cassação. Mas não sem antes negociar politicamente com a oposição sobre a composição da próxima mesa. Querem a cabeça de Renan numa bandeja? Entregá-la-emos. Para nós é uma concessão, já que ele é fiel componente da base aliada. Vocês, agora, que façam as concessões que acharem que devem. Conversemos. Na política, você não é devedor de ninguém a não ser que o credor esteja em condições de cobrar. Um Renan sem mandato é só um cacique regional, mais nada. Enganam-se os que acham que Renan tinha poder de fogo porque “conhece os podres” de vários senadores. Conhece, sim, mas na posição de franco-atirador sem mandato isso importa pouco.
O problema do PT não foi, então, “lama ética”, mas burrice e ingenuidade política. Acumulou outro desgaste desnecessário, com essa esdrúxula opção de liberar a bancada para votar “segundo a consciência”, para depois tentar escapar da culpa. O fato é que falta à bancada petista no Senado um líder, uma figura de peso. Suplicy poderia ter sido essa figura, se a turma de Dirceu não tivesse passado uma década solapando seu capital político no partido. Mercadante também poderia ter sido mas, assustado com os respingos da história do dossiê, prefiriu não fazer política, escondendo-se em cima do muro. E Ideli Salvatti, em definitivo, não tem envergadura para ser líder de nada. O PT se equivocou no episódio Renan não por falta de ética, mas por falta de política. O que – dada a incompetência da oposição – talvez nem importe muito no fim das contas, já que, segundo informa o Alon, a própria oposição está reduzida a torcer para que Tião Viana (PT-AC) assuma o Senado caso Renan caia. . .
PS 1: Depois de dito tudo isto, eu vou aderir, sim, à campanha: Vergonha nacional.
PS 2: Alô, Bahia! Inaugura-se hoje, aí no Pelourinho, o Museu da Música Brasileira.
PS 3: Impossível não linkar: exame para PM no Rio só aceita candidatos com um mínimo de 20 dentes.
Escrito por Idelber às 01:07 | link para este post
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segunda-feira, 17 de setembro 2007
Loteria em Babilônia
(O post que se segue é um convite a uma discussão de "Loteria em Babilônia", de Jorge Luis Borges. Ele vai em espanhol porque os alunos vão passar por aqui. Mas os comentários de todos são bem vindos, claro. Leu “Loteria em Babilônia”, comente, relax, em qualquer língua: português, inglês ou espanhol)
El relato es simple: el narrador nos trae la historia de un insólito lugar, Babilonia, donde la lotería es la parte principal de la realidad . De origen plebeyo, la lotería agraciaba a sus ganadores, al principio, monedas de plata. “Naturalmente” esas loterías fracasaron porque “no se dirigían a todas las facultades del hombre”, sólo a la esperanza. El remedio para ese “natural” fracaso termina siendo la interporlación de algunos destinos adversos en el sorteo.
El leve peligro despierta el interés del público que, en vez de abonar las multas, ya pasa a escoger directamente el encarcelamiento que advenía de no pagarlas. Esa primera aparición en la lotería de elementos no pecuniarios es tratada por el narrador como punto clave en el proceso . Mientras tanto, en los “barrios bajos” una rebelión popular lograba que la Compañía responsable de la lotería “aceptara la suma del poder público”. Un rato después, lograban que la lotería fuera “secreta, gratuita y universal”. La insólita “Compañía” pasa a controlar toda la realidad, o por lo menos pasa a parecer poder estar haciéndolo a cualquier momento.
El narrador tiene prisa, dice que “la nave está por zarpar”. Está partiendo de un puerto que no sabemos cuál es. Justo le alcanza el tiempo para narrar el último estadio de la lotería: la transformación de toda la realidad en materia del azar. El sorteo de una muerte implica el sorteo del verdugo, del instrumento letal, de la fecha, en sucesión infinita –cualquier acto del azar produce infinitos otros, cualquier sorteo implica incontables otros, cualquier intervención de la Compañía demanda numerosas otras.
El resultado es que cualquiera puede estar ejecutando, “acaso, una secreta decisión de la Compañía”. Ese funcionamiento silencioso del aparato administrador de la lotería (y por lo tanto controlador de la realidad) es “comparable al de Dios” y le confiere al cuento su imagen final, hasta que el narrador, claro, nos recuerda que todo puede ser también un delirio imaginativo creado por la propria Compañía.
Como suele pasar con Borges, el cuento ha producido algunas lecturas que se repiten con unas pocas variaciones. De estas lecturas, dos me vienen a la memoria: una interpretación “filosófica” que lo toma como parábola acerca del azar, como relato acerca del intento de crear la contingencia absoluta (la indecidibilidad completa, el sorteo de todo) y de cómo tal intento termina en una maligna necesidad absoluta, en un Dios lotérico perfectamente tiránico. El segundo acercamiento toma algunos elementos del primero, pero trata de sacarle un sustrato político al cuento: con atención a la fecha de publicación del texto (1941), esa lectura observa el carácter de “Big Brother” de la Compañía lotérica y nota la rebelión “de los barrios bajos” por hacer la lotería “secreta, gratuita y universal” (palabras que, claro, tienen su historia política). A partir de allí esa interpretación subraya el resultado pesadillesco y distópico del impulso inicialmente utópico, egalitario.
Mucho se podría decir sobre estas dos posibilidades, pero las dejo por aquí. Hay, por supuesto, incontables otras lecturas. El blog los invita a compartir su experiencia con “Lotería en Babilonia”, en su lengua de predilección.
Posts relacionados:
Borges.
Reflexões sobre o conto.
Sobre um conto de Borges.
Literatura argentina: Biblioteca básica.
Cripta em duas partes.
Atualização. Também escreveram sobre o conto:
Alex Castro
Alex Tarrask.
Andre Bittencourt.
Milton Ribeiro.
Donizetti
Adriano.
Ulisses Adirt.
Bender.
Hermenauta.
Marcus Nunes ,
Hélder da Rocha
e.... Biajoni!
Escrito por Idelber às 02:01 | link para este post
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sexta-feira, 14 de setembro 2007
Clube de Leituras: Borges
Umas duas gerações atrás fiz um post anunciando outra encarnação do clube de leituras, agora sobre Borges, num bate-bola com o curso de pós-graduação que estou oferecendo aqui em Tulane. Pois bem, se houver alguém por aí com interesse em discutir Borges, fique avisado que a brincadeira começa nesta segunda-feira com “Loteria em Babilônia”, conto que é parte do livro Ficciones, que está disponível na internet em espanhol.
Ao subir uma escada na noite de Natal de 1938, Borges quase arrebenta a cabeça numa janela aberta e passa algumas semanas de cama, com momentos de febre e delírio. Estava longe de ser um desconhecido: já havia escrito três volumes de poemas, cinco de ensaios e pilhas de resenhas de livros e filmes, além de ter reunido uma compilação de “causos” de criminosos. Mas, com a exceção do relato “Homem da esquina rosada”, não havia publicado contos. Em pânico com a possibilidade de ter perdido a capacidade de escrever, decide tentar o que nunca havia feito.
Segundo o raciocínio – típicamente borgeano --, se ele tentasse escrever um poema ou uma resenha e fracassasse, se sentiria completamente derrotado. Se, ao tentar um conto, não saísse nada, o fracasso não significaria tanto assim. Afinal de contas, tentara algo que nunca havia realizado. O fruto dessa tentativa foi “Pierre Menard, autor do Quixote”, conto que dá início à série de relatos pelos quais Borges se tornaria mundialmente conhecido. "Loteria em Babilônia" veio logo em seguida: foi publicado na revista Sur em janeiro de 1941.
Estamos começando a mergulhar nesses contos agora e deixamos o convite para que você se junte a nós na segunda-feira, com um papo sobre “Loteria em Babilônia”, esse relato tão insólito. Se quiser passar o fim de semana com Borges, é só baixar e ler.
PS: Obrigado à conterrânea e extraordinária blogueira Luiza Voll pela entrevista que me coloca em tão ilustre companhia.
Escrito por Idelber às 18 |