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segunda-feira, 24 de setembro 2007

Lançamento: Boca de lobo, de Sergio Chejfec

chejfec.jpg Vai sair no Brasil mais um notável romance argentino contemporâneo. Boca de lobo (2000), de Sergio Chejfec, será lançado em novembro pela Editora Amauta, em tradução de Marcelo Barbão. O título virou Lugar sinistro em português por decisão do tradutor, que não quis criar ambigüidades.

Paulistas, cariocas e gaúchos poderão ver o próprio Chejfec pessoalmente. Ele deve ir à Feira de Porto Alegre (09/11 a 12/11), fazer um lançamento no Rio (13/11) e outro em São Paulo (16/11). São os detalhes que tenho até agora.

A editora Amauta me convidou para escrever o prólogo de Lugar sinistro. Publico-o aqui no blog também, como aperitivo ao lançamento.

*********************

Relatos da reflexão hesitante

O leitor brasileiro tem agora em mãos um dos momentos chave da obra do notável escritor argentino Sergio Chejfec (1956-), autor de nove romances, duas coleções de poemas e um livro de ensaios. Lugar sinistro, de 2000 (no original: Boca de lobo, que designa ali baldios e vielas escuras, não bueiros), narra a relação intensa mas oblíqua, amorosa mas plagada de tropeços, cúmplice mas não isenta de idealizações, entre um narrador anônimo “que leu muitos romances” e uma operária, Delia, mulher que é a zona-limite, opaca, ante a qual ele exercita sua capacidade de compreensão e de entrega. Escrevendo sobre o romance, Martín Kohan notou que se trata de uma história que “teria correspondido, em outros tempos da literatura, a uma típica fábula do realismo social, com tom de denúncia urgente e mensagem incluída”. Afinal de contas ali estão a fábrica, o subúrbio, a alienação, a relação desumanizadora com a máquina e o olhar fascinado de um não-operário que se aproxima, mas oscila entre o amor e o alheamento. Não se procure aqui, no entanto, uma fábula edificante do engajamento social ou um retrato pitoresco da vida operária. O projeto narrativo de Chejfec, insólito e solitário, se erige sobre as ruínas desses modelos. No Brasil, em particular, as representações contemporâneas da classe trabalhadora na literatura têm se mostrado tributárias de uma previsível estética da “neo-violência”, que não poderia estar mais distante da arte sutil, quase sussurrada de Chejfec. Lugar sinistro seria assim uma resposta – brilhante, me parece – à questão de como dar conta, literariamente, da vida operária, trabalhadora, em épocas de desmoronamento de todo realismo social.

Tal como os patrícios fundadores Domingo Faustino Sarmiento (1811-1888) e José Mármol (1818-1871) ou os romancistas contemporâneos Manuel Puig (1932-1990) e Juan José Saer (1937-2005), Chejfec pertence a uma longa tradição de escritores que produziram literatura inconfundivelmente argentina fora das fronteiras do país. Publicou seu primeiro romance, Lenta biografia, em 1990, ano em que se radicou na Venezuela como diretor da importante revista Nueva Sociedad. A ele se seguiram, além de Lugar sinistro: Moral (1990), O ar (1992) -- sobre um sujeito a quem a mulher abandona e cuja indecisão acerca de segui-la ou não se transforma em eixo do relato --, Cinco (1996), O chamado da espécie (1999), Os planetas (1999) -- a incursão de Chejfec pelo romance pós-ditatorial, narrado por um escritor que abraça a profissão a partir do desaparecimento de um amigo – e Os incompletos (2004), todos escritos durante a estadia do autor em Caracas. Desde sua mudança para os Estados Unidos, em 2005, publicou Baroni: uma viagem (2007), o seu tributo à Venezuela. Além da obra de ficção, Chejfec também é autor dos poemários Três poemas e uma mercê e Galos e ossos, além do livro de ensaios O ponto vacilante. Já é referência indispensável para quem se interessa pelo rico romance argentino contemporâneo.

“Não somos mais que um conjunto de desavenças com a realidade”, diz o narrador de Lenta biografia. Nesse hiato entre a palavra e o real, entre a memória e o fato, Chejfec vai construindo o fascínio de sua tortuosa ficção. É comum em suas narrativas que o narrador volte ao acontecimento, rasure o já dito, reescreva o afirmado. Chejfec pertence a uma linhagem da prosa ficcional argentina caracterizada por uma certa desaceleração reflexiva do relato. Não se trata de que “aconteça pouca coisa” – acontece muito em seus romances –, mas a linguagem estabelece com o acontecimento uma relação que a obriga a experimentar diferentes ângulos para descrevê-lo. A epítome dessa tradição multi-perspectivista é Juan José Saer, que burilara ao máximo o relato (e frase) que procede regressando e picotando o relato (ou frase) anterior. Mas se em Saer ainda permanece um movimento semi-circular ou espiralado de certa grandiosidade, num “eterno retorno” reiterado não só dentro do mesmo relato, mas de um livro para outro, Chejfec mantém a estratégia pensante, mas suas frases, ou pequenos núcleos narrativos, regressam ao material anterior numa coreografia de movimentos mais erráticos e descontínuos. O resultado é uma poderosa reflexão sobre a linguagem e a memória, na qual a ênfase recai sobre a opacidade, o desconcerto, o logro. Não parece haver aqui progressão temporal nas ações. A narrativa tem lugar num tempo espacializado, em que os acontecimentos coexistem como que numa multiplicidade de camadas. Em parte por isso, em parte pela voz sussurrada, meditativa do narrador, os personagens de Chejfec não suscitam catarse ou identificação de qualquer tipo em quem lê. Estamos longe do paradigma dialético da ascensão, clímax e queda.

É próprio dos protagonistas de Chejfec chegarem atrasados à cena que os constitui. Em Lugar sinistro, essa defasagem produz no narrador resultados angustiantes, dado o domínio e a fascinação exercidos por Delia, a operária. Ante a realidade bruta dos fatos, ele pontua seu espanto com recordações do que leu.: “li muitos romances onde o protagonista retorna ao lugar esquecido”; “Empréstimo. Dívida. Li muitos romances que tentam resolver o sentido dessas palavras”; “Li muitos romances em que os personagens estudam os trajes dos outros para conhecer aquilo que as palavras não dizem nem os atos descobrem”; “Li muitos romances onde os cheiros servem para resgatar recordações esquecidas, demonstrando que um laço mais eficaz e verdadeiro se manifesta quando a consciência se abandona à surpresa”. “Li muitos romances onde há pessoas que tiram conclusões arbitrárias sobre os demais”. Uma infinidade de frases com esse mesmo começo se repete ritmicamente ao longo da narrativa, marcando sua respiração. Reiteradas, iluminam alguma zona do contraste entre a história do protagonista e os choques que lhe impõe a experiência com Delia.

Num amor que une uma operária e um protagonista literato como o de Chejfec, seria de se esperar que o autor recaísse em um de dois perigos opostos: a ilusória fusão romântica ou a estereotipada idealização do outro. Na primeira, o intelectual passaria pelo processo de purgação, se despojaria de sua “falsa” cultura livresca e aprenderia com a vida simples dos operários: fábula realista-socialista. A segunda intercalaria fascinação e hostilidade como forma de sublinhar o abismo da distância insuperável, ao fim da qual o outro seria um puro ou um monstro: fábula vanguardista-modernista. Chejfec escreve com notável consciência dessas duas armadilhas. O protagonista não escapa da idealização, mas não deixa de fazer agudas observações sobre a fissura que o separa de Delia. Veja-se o assombro que lhe produzem os empréstimos de roupas entre os operários, parte de uma economia da escassez onde só circula entre eles o que não tem valor de troca -- roupa, ferramentas, utensílios, o próprio trabalho, mas raramente alimentos e jamais o dinheiro. Daí, nota o narrador, que seja mais simples endividar-se com agiotas, em vez de recorrer à ajuda de quem não cobraria juros. As dívidas acumuladas de um operário, F, produzem outra cena que o protagonista contempla com espanto: a entrega a F, pelo grupo inteiro, de uma soma de dinheiro à qual só alguns contribuíram – não se tratava de dividir entre todos o mérito da generosidade, mas diluir num coletivo maior o peso da desonra. Nessas observações ao mesmo tempo sagazes e distantes, o narrador de Chejfec vai construindo uma relação com o outro que é singular – embora não singular o suficiente para que ele se mostre digno desse amor.

Beatriz Sarlo, a crítica argentina que mais atenção vem dedicando à obra de Chejfec, notou com a habitual perspicácia que seus escritos impõem um giro às recentes representações do imaginário urbano. A urbe já não é marcada pela profusão de signos, mas pela ruína, decadência, esvaziamento. Publicado um ano antes do colapso pós-menemista da Argentina, Lugar sinistro assume tons antecipatórios. Apesar de que praticamente não há sinais específicos que remitam a Buenos Aires ou a qualquer outra cidade argentina, o cenário pós-industrial construído pelo romance traz numerosos paralelos com os processos recentes vividos pelo país.

A expressão que dá título ao livro em espanhol, Boca de lobo, designa as zonas baldias, poços de penumbra, blocos de escuridão pelos quais transita o personagem; metaforicamente, também alude à zona de incomunicação e perplexidade que organiza sua relação com Delia. Tragado nessas valas, o amor entre o leitor de romances e a operária termina como costumam terminar, na grande literatura, todos os amores. Desenredar os fios do fracasso é a mais visível, não a mais fascinante das tarefas propostas por este romance.

PS: Também em novembro, o Marcelo Barbão lança seu primeiro romance, Acaricia meu sonho.

Atualização: Barbão acaba de me confirmar que o título em português vai ser Boca de lobo mesmo, o que sempre me pareceu a decisão correta, apesar do ligeiro "desvio de sentido" que ocorre em português.



  Escrito por Idelber às 20:36 | link para este post | Comentários (17)


Comentários

#1

Professor..
mais uma aula.
genial. quero o livro, já...
abração.

marilia em setembro 24, 2007 11:15 PM


#2

Nossa, com um prólogo desses, o mínimo que o livro pode fazer é ser bom ;>))

Márcia W. em setembro 25, 2007 6:35 AM


#3

Olá, Idelber,

Tudo bem?

E que tal publicar sua tradução de Tununa Mercado pela Amauta, não lhe parece boa idéia?

Um abraço,

Joca Reiners Terron em setembro 26, 2007 8:29 PM


#4

Thank you.

Hugo em junho 12, 2008 5:52 AM


#5

very interesting and informative

Deshawn em julho 11, 2008 8:54 AM


#6

(+_+)

Elias em julho 14, 2008 11:36 AM


#7

-__-

Savanna em julho 15, 2008 8:35 AM


#8

(%_%)

Noelle em julho 15, 2008 2:16 PM


#9

(+_+)

Mitchell em julho 16, 2008 6:36 AM


#10

very interesting and informative

Tanya em julho 16, 2008 6:33 PM


#11

(;_;)

Zachariah em julho 27, 2008 10:37 PM


#12

(O,o)

Frank em agosto 2, 2008 6:31 AM


#13

-__-

Maritza em agosto 7, 2008 7:36 PM


#14

Thank you.

Terrence em agosto 13, 2008 1:55 AM


#15

(O,o)

Santiago em agosto 21, 2008 3:57 PM


#16

///_’

Sophie em agosto 23, 2008 6:53 AM


#17

(O,o)

Stefan em agosto 23, 2008 12:32 PM