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terça-feira, 25 de setembro 2007
Ufa! Mas não tem resenha
Acabei de ler o livro do Ministro do Longo Prazo, o Roberto Mangabeira Unger, What should the left propose? [O que a esquerda deveria propor?]. Li não porque acompanhe Unger -- é o primeiro livro dele que leio -- nem porque esteja no campo de estudos dele, mas por pura vontade de resenhar algo diferente aqui no blog, que poderia ter alguma relevância, sei lá, para debates brasileiros.
Mas confesso que ficou impossível. Alguém aí já leu? Hermê? Catatau? Mauricio? mary w? Arranhaponte, Marcos, leram? Ju, Laura? Sergio Leo? Pedrão? Se não leram, pois leiam. Ou tentem. A geringonça está disponível inteira na internet.
Meu amigo Michael Bérubé já desmontou o livro numa resenha publicada na revista Dissent, infelizmente não disponível online. Eu não saberia como fazê-lo, sinceramente.
Claro que a última coisa que um acadêmico sério deve fazer é dar pitaco na área de outro acadêmico sério, especialmente quando este é um dos líderes da sua disciplina. Mas não resisto: não entendo, mesmo, a fama do Unger. O cara é -- não há dúvida -- um dos poucos brasileiros reconhecidos como líderes da sua disciplina em nível mundial. Não há discussão, por exemplo, sobre o tal critical legal studies (riquíssima escola de reinterpretação do direito) que contorne a obra do Unger.
Aí você lê o livro do cara que supostamente prometeria "alternativas" para a esquerda, e suspira: uai, mas que enrolação! Pelo menos foi a minha reação ao texto. Para que vocês tenham idéia, caras amigas feministas, a solução para a paulatina aniquilação do direito ao aborto nos EUA é... "criar um melhor sistema de ônibus" para transportar mulheres para estados onde o aborto é legal! Assim fica fácil, né? Dá a batalha por perdida e sugere um remendo.
E se algum leitor do blog puder me explicar -- de preferência sem xingar ninguém -- qual era a necessidade política do Lula de incoporar Unger ao ministério (era só para satisfazer José Alencar?), eu também agradeceria, visto que o Lula ficou visivelmente constrangido de tê-lo aí e chegou a avisar à Ministra Dilma: o primeiro pepino você resolve.
A resenha em português desse livro, pois, que algum de vocês aí se sinta interpelado para fazer. Seria um bom espaço para debate.
Escrito por Idelber às 22:54 | link para este post
| Comentários (52)
#1
Muita tarefa, professor... o Borges, o Unger... assim não dá. (:
A. em setembro 26, 2007 1:03 AM
#2
Idelber
Voce ta sabendo do concurso pra escolher quem vai carregar a tocha olimpica em Pequim? Tem um brasileiro, da uma olhada la no meu blog.. Um abraço!
Celinho em setembro 26, 2007 7:02 AM
#3
Posso dar meu palpite agora. O Washington Post divulga os blogsque lincam matérias políticas e mostram seu technorati. São blog links, de blogs do Washington Post para blogs que usam o WP.
Qaunto ao livro não-resenhado, desanimo.
tina oiticica harris em setembro 26, 2007 7:13 AM
#4
Não li, obrigado pela sugestão! Estou agora no pau da viola tentando terminar as atividades do semestre (ja!). Tão logo termine, lerei o livro e participarei melhor do grupo sobre Borges.
Ainda, meio no espírito do clube de leituras, é bom esses escritos mais "políticos", para fugir um pouco aos debates estereotipados de vários blogs
abração,
catatau em setembro 26, 2007 10:38 AM
#5
Idelber,
é vero que já cometi uns seis pecados, mas creio que a leitura dos livros Roberto Mangabeira Unger é penitência exagerada.
Já tentei, inutilmente, penetrar em alguns artigos artigos escritos pelo referido na Folha e saí com uma certeza: o raciocínio do sujeito é tão empolado quanto seu sotaque.
Já em relação à composição de governos, nem sempre quem vence as eleições leva tudo. Destaco, por exemplo, que Roberto Rodrigues fez campanha para Serra e foi nomeado Ministro da Agricultura de Lula. O mesmo valendo para, com o perdão da má palavra, Henrique Meirelles. Aqui mesmo, na Bahia, Rafael Lucchesi, secretário de Ciência e Tecnologia no último governo carlista de Paulo Souto, era filiado ao PT.
Quanto à nomeação específica do neto do ex-governador Octávio Mangabeira, corre à boca graúda que foi uma indicação do banqueiro Daniel Dantas, de quem, dizem, ele era advogado.
Não acredito.
Acho que Roberto Mangabeira entrou no governo na cota de Caetano Veloso, que sempre gostou de coisas exóticas.
Franciel em setembro 26, 2007 1:35 PM
#6
Parfait, Franciel, mas pô, quem dera que o Caetano tivesse cota no governo :-)
Idelber em setembro 26, 2007 2:35 PM
#7
Heh... vam'lá.
Um chute: o Lula chamou ele pra desmoralizá-lo de vez e mostrar que todo homem tem seu preço. De quebra, cala a boca dele que estava muito chato =)
A resenha? Putz... sabe o que é, lembrei agora que tenho que ler pela segunda vez o livro da Bruna Surfistinha e vai demorar muito até terminá-lo, muito denso. Ano que vem encaro ;-)
Pedro Doria em setembro 26, 2007 3:33 PM
#8
Pois é, a minha hipótese era a do Pedro também: quer ver como eu dou um 'cala-boca' nesse cara?
Incrível que seja só isso, mas parece mesmo -- porque peso político, claramente, o Unger não tem. Se tiver, inclusive, é peso negativo.
E o cara retirar do seu site o texto de 2004 em que ele pede o impeachment de Lula é, de um ponto de vista "blogueiro", um escândalo. Vai lá e escreve um post scriptum, mas apagar um texto datado, de arquivo, para assumir um emprego é feio.
Idelber em setembro 26, 2007 3:48 PM
#9
Idelber,
Eu li alguns artigos dele na Folha. Era um troço chato, pretensioso e que não ia a lugar nenhum. Era até difícil escolher um trecho para sacanear no blog, coisa que tentei algumas vezes. Eu achava o sujeito meio doido por causa das propostas esdrúxulas que o Ciro Gomes defendia, e que eu sabia terem sido inspiradas pelo Mangabeira Unger. Há um perfil interessante sobre ele na Piauí em que há a matéria do Fernando Henrique Cardoso.
Eu ainda não entendi os motivos da escolha do Lula. Não acho que seja pela proximidade com o Daniel Dantas. Talvez tenha sido mesmo para agradar ao PRB, o partido do José Alencar. É possível que o Lula tenha pensado: se é para ter alguém desse partido, é melhor esse lunático do que algum larápio ligado à Igreja Universal. E achei muito feio ele aceitar o convite. O Lula ainda pode sair de magnânimo na história, mostrando que não guarda ressentimentos. Mas como é que se aceita participar de um governo que você classificou como o mais corrupto da história?
Um abraço,
Marcos
Marcos Matamoros em setembro 26, 2007 4:25 PM
#10
Meu querido, levando em conta que você nos estimula a ler Borges, trocar o bruxo argentino pelo Mangabeira Unger é até pecado.
Li apenas um pequeno livro do nosso ministro do Longo Prazo, que era uma espécie de panfleto de suas idéias quando ele apoiava Ciro Gomes. Não é que fosse ruim, era apenas banalidade num volume mais alto.
Depois assisti a uma conferência do Mangabeira Unger no IUPERJ, sobre "O Desafio do Pensamento Político Brasileiro". O tema me interessa bastante, mas Unger não mencionou nem Gilberto Freyre, nem Raymundo Faoro, nem Sérgio Buarque de Holanda. E sim, somente... Mangabeira Unger! Não dá. É muita egotrip.
Abraços
Mauricio Santoro em setembro 26, 2007 4:39 PM
#11
É possível que o Lula tenha pensado: se é para ter alguém desse partido, é melhor esse lunático do que algum larápio ligado à Igreja Universal.
Brilhante :-)
Pois é, vai ver foi um combinado entre que o Marcos e o Pedro disseram. Eu nunca gostei dos artigos na Folha, mas não queria formar opinião antes de ler um livro. Agora li e, salvo que eu tenha pirado, o cara não diz nada que possa vagamente responder a pergunta anunciada no título.
Que conste: o Antonio Risério pensa diferente, mas tampouco diz muito claramente por quê.
Estou muito curioso para ver se alguém vai encarar o livro.
Abraços,
Idelber em setembro 26, 2007 4:42 PM
#12
Idelber, o bom do Magabeira é esse aqui.
Já tentei ler outras coisas e não consegui.
Abraço.
Guto em setembro 26, 2007 5:15 PM
#13
Valeu, Guto, vou botar na fila. Esse pelo menos tem um índice com aparente coerência.
Tomei a liberdade de embutir seu link :-) Abração,
Idelber em setembro 26, 2007 5:21 PM
#14
Ué, caro Ildeber, mas o Mangabeira Unger é um renomado professor em Harvard, uma das melhores universidades dos EUA e do mundo. Será isso, então, uma demonstração de que o sistema universitário norte-americano também tem suas mazelas? Como alguém, que propõe pagar viagens de ônibus para solucionar os impedimentos legais ao aborto, pode chegar a professor em uma das integrantes da Ivy League?
Dizer tolices, propor besteiras, em inglês faz com sejam consideradas sapiência. Tem-se um caso claro de poder divino: qualquer coisa dita em inglês, especialemnte numa prestigiada universidade norte-americana, tem a capacidade de transformar o nada em algo.
Ciro Gomes (que tinha o Mangabeira Unger como ideólogo), Daniel Dantas (que pagou milhões de dólares por uma consultoria do Mangabeira Unger) e José Alencar (proprietário do partido político ao qual Mangabeira Unger se filiou) são referências positivas de respeitabilidade intelectual? Além do mais, desde quando respeitabilidade pelo saber foi condição necessária para se chegar a ministro nesta república? Além do mais, ele não diz coisas mais primárias, masi senso comum do que o faz o tão badalado Cristovam Buarque (está certo que senso comum, ideologias proimárias, ditas em português são evidentemente tolices).
Você, caro Ildelber, não tinha coisa melhor para colocar no blog? O que o fez usar seu tempo com tal tipo de literatura? Foram os títulos universitários dele que o atraíram?
bensaiddeitapevi em setembro 26, 2007 5:56 PM
#15
Quer dizer, o título do livro já mostra que ele tá perdido.
Hermenauta em setembro 26, 2007 6:02 PM
#16
Trecho do livro, citado pelo Risério:
[Transformar o mundo] Significa enraizar uma tendência para maior igualdade e inclusão na lógica organizada do crescimento econômico e da inovação tecnológica - não na redistribuição retrospectiva via taxação e transferência. Significa democratizar a economia de mercado inovando o arranjo que a define, mais do que meramente regulamentá-la em sua forma presente ou compensar suas desigualdades por meio de transferências posteriores. Significa radicalizar a lógica experimental do mercado pela radicalização da lógica econômica de livre recombinação dos fatores de produção, dentro de uma indisputável moldura de transações mercadológicas.
Entende-se, com algum ruído, o que ele não quer. Não quer taxar nem transferir renda, mas "democratizar" a economia de mercado de uma forma que não inclui nenhuma dessas coisas. Como? Ora, pela radicalização da lógica experimental do mercado pela radicalização da lógica econômica de livre recombinação dos fatores de produção.
Como essa "radicalização da radicalização" da economia de mercado terminaria democratizando-a ele, infelizmente, não nos conta. Deve ser algum segredo, porque parece ser a chave de tudo.
E esse é o trecho que um defensor do livro escolheu como pérola. Agora imaginem os outros.
Idelber em setembro 26, 2007 6:14 PM
#17
Ah, caro Idelber, o que é ser de esquerda?
Confesso que não tenho a menor idéia do que seja isso.
Ouço tanta gente dizer que é de esquerda mas tenho dificuldade para perceber o que as une e, conseqüentemente, definir o que é ser de esquerda.
Você, que se diz de esquerda, poderia me explicar? Grato.
bensaiddeitapevi em setembro 26, 2007 6:16 PM
#18
bensaiddeitapevi, eu pertenço a uma escola que acha que definir as coisas é, de certa forma, perder sua essência. Mas aí vai:
Esquerda: conjunto de posições políticas associadas à convicção de que, mesmo com a inevitável mundialização do mercado capitalista depois de 1989, este produzirá desigualdades sociais cada vez mais acentuadas, que devem ser corrigidas ou pelo menos minoradas a partir de uma intervenção do estado ou da sociedade civil organizada.
Pronto, pode meter o pau.
Idelber em setembro 26, 2007 6:26 PM
#19
Não, caro Ildelebr, não se trata de "meter o pau" e sim de evitar o costumeiro equívoco de que, sob o mesmo nome, se trata de coisas diferentes. É só isso! Agora, depois da sua "definição", sabemos sobre o que conversar.
A inevitável mundialização do mercado, caro Ildelber, já está bem descrita num livro escrito em 1915 por N. Bukharin (O imperialismo e a economia mundial). Lênin, num livro escrito em 1916, Imperialismo: fase superior do capitalismo, também tratou disso. A referência a 1989, portanto, é equivocada. A acentuação das desigualdedes, fruto dessa mundialização dos mercados, é tema presente nessas obras clássicas do marxismo.
O que o marxismo, tal como exposto nessas duas obras, não trata é da possibilidade de redução dessas desigualdades mediante a ação do Estado ou da sociedade civil organizada. O capitalismo, segundo eles, cria duas camadas que se separam cada vez mais, mas dentro delas a igualdade é uma tendência.
A possibilidade de se tentar diminuir essas desigualdades, portanto, pode ser encontrada em correntes políticas conservadoras. O instrumento para tal é a educação. É um equívoco imaginar que os conservadores são escravagistas, têm uma perversidade inata e por aí vai.
Viu como é difícil saber quem é de esquerda? Pela sua difinição, muitos conservadores terão arrepios. Eles detestarão ser equiparados aos de esquerda. Infelizmente, neste caso, você não contribuiu para o meu esclarecimento.
Abraços.
bensaiddeitapevi em setembro 26, 2007 6:45 PM
#20
bensaiddeitapevi, para quem erra tanto o nome do interlocutor, você até que toma boas liberdades com o dito por ele.
Eu não disse que os marxistas descobriram em 1989 que o mercado capitalista se mundializara. Eu disse que até mesmo depois da queda dos regimes comunistas o que define a esquerda seria a convicção de que o estado e a sociedade civil organizada devem atuar para corrigir ou minorar as desigualdades criadas pelo mercado.
Agora, se você achar algum auto-intitulado "conservador" que ache isso, me apresente. Meus amigos conservadores não concordam com isso de jeito nenhum.
Idelber em setembro 26, 2007 8:28 PM
#21
Idelber,
aos que acharam extemporâneo você colocar Mangabeira na manchete do Biscoito, eis uma notícia: O Senado acaba de rejeitar por ampla maioria a criação da secretaria do gringo.
Como diria Irmã Dulce: agora, fudeu a Bahia.
Franciel em setembro 26, 2007 8:40 PM
#22
Caro Idelber, desculpe-me, sinceramente, pelos erros ao nomeá-lo. É tão desagradável! Eu me sinto mal com isso. Imagine que por anos escrevi errado o nome de uma orientanda e só percebi quando ela, num desabafo, me disse que não suportava mais ver o nome dela escrito erradamente. E ela foi uma das alunas mais brilhantes que eu já tive, merecedora, portanto, da minha admiração. Vou dar uma desculpa "esfarrapada": "é que na minha época de primário e ginásio não havia psicomotricidade".
Quanto aos conservadores que você conhece, suponhho que eles, na realidade, são meros direitistas tolinhos, gente mimetizada pelo mercado, pessoas que até estudaram bastante, mas são incultos politicamente. Os verdadeiros conservadores têm desprezo por essa direita.
As reações ao Lula servem como um bom exemplo do que estou apontando. Os direitistas tolos odeiam-no. Os conservadores votaram nele na reeleição. Caso exemplar: Olavo Setubal. Os conservadores apóiam Lula porque reconhecem o sucesso dele em conseguir apoio dos pobres para uma política de enriquecimento dos ricos. Qual a restriçao dos conservadores ao Lula? É que a política que conseguiu o apoio dos pobres é a mesma que enfraquece a dsiciplina social, mas reconhecem que FHC, nesse campo, também fracassou.
Lembro de um texto escrito pelo Lênin (A que herança renuciamos?) para defender um adepto do livre cambismo (discípulo de Adam Smith) contra as críticas dos populistas russos. O que diferenciava as teses de Lênin do Skaldine era que o último pensava, desta maneira, estar eternizando o capitalismo, enquantgo Lênin supunha estar acelerando a derrocada do capitalismo.
Marxistas "ortodoxos" (no sentido de rigor às premisass e não no sentido de dogmatismo) e conservadores costuma coincidir nas análises, o que os distancia são os "remédios".
Não confunda, por favor, conservador com tolinhos de direita (tipo economistas defensores das soluções para o capitalismo mediante o livre funcionamento do mercado). Este tipo quer mesmo ver o mais forte destruir o mais fraco e essa loucura é defendida em nome do aprimoramento do ser humano. Isso é estupidez e não conservadorismo. Isso é nazismo escondido como sistema de liberdade.
Abraços.
bensaiddeitapevi em setembro 26, 2007 9:07 PM
#23
Ixi. Num li e, pelo post, não me deu a menor vontade de tentar... Mas gostei muito da sua definição suscinta da esquerda.
Ju Sampaio em setembro 26, 2007 11:09 PM
#24
Creio que o Lula convidou o Mangabeira para o governo de modo a dar um cala-boca classudo nele, e o Mangabeira provavelmente aceitou para poder "destruir o sistema por dentro, saca?", tipo bandas alternativas que assinam com majors.
Quanto ao texto detonando o governo apagado do site do ilustre professor, deve ser porque o servidor agiu de forma inesperada, como o Orkut faz às vezes. Acontece.
Ou a Loteria sorteou que o professor seria convidado para um cargo no governo que ele mais desprezasse. Sei lá.
De qualquer maneira, parece que o Senado acabou com essa situaçãozinha constrangedora.
Daniel em setembro 26, 2007 11:40 PM
#25
Putz, que coincidência da pega -- ter feito o post justo no dia dessa reunião do Senado.
Idelber em setembro 26, 2007 11:42 PM
#26
Pensando melhor, creio que o convite do Lula ao Unger não foi para dar um cala-boca. Se assim fosse, o Lula convidaria o Diogo Mainardi e o Reinaldo Azevedo para secretarias e ministérios a serem criados especialmente para eles.
Mas provavelmente eles não aceitariam. Não por princípios ou escrúpulos, mas porque daria muito trabalho apagar todos aqueles textos dos servidores da Veja.
Daniel em setembro 26, 2007 11:51 PM
#27
"Esquerda: conjunto de posições políticas associadas à convicção de que, mesmo com a inevitável mundialização do mercado capitalista depois de 1989, este produzirá desigualdades sociais cada vez mais acentuadas, que devem ser corrigidas ou pelo menos minoradas a partir de uma intervenção do estado ou da sociedade civil organizada."
Idelber, apesar da coragem de tentar definir esquerda, acho que essa sua definição é muito ampla. De acordo com ela, até eu (benzadeus!) sou de esquerda. Só sendo uma cavalgadura espumante anaeróbica pra ser contra, por exemplo, a sociedade civil organizada agir pra minorar as desigualdades sociais. Essa sua definição é tão ampla que ela enfia todo mundo pra dentro da esquerda, sobrando somente meia dúzias de boçais do lado de fora.
Acho que a questão é o QUANTO o governo ou a sociedade civil podem e devem intervir para equilibrar as desigualdades. Hoje em dia, já não dá mais pra conceber um estado moderno em que o governo não corrija ou minore as desigualdades sociais at all.
Por esse ponto de vista, por exemplo, dá pra citar várias políticas públicas americanas que provam que os EUA são um estado de esquerda, desde unemployment benefits até tax breaks pra quem ganha pouco...
Tenta restringir essa definição, vai. Aliás, a mera tentativa de definir esquerda já merece um post.
alex castro em setembro 27, 2007 2:33 AM
#28
Ué, ALAN DERSHOWITZ é dono de uma das cadeiras mais prestigiadas da escola de direito de Harvard. lecionar lá não quer dizer nada. ;-)
André Kenji em setembro 27, 2007 2:49 AM
#29
eu que nao sou muito séria, resenho o livro assim que ler. pero. nao é agradavel abandonar borges para ler o unger. (e os direitistas sempre querem se "encaixar" na esquerda. que mania. a gente nao passa nem perto do mercado deles. e eles nao nos deixam em paz. sempre querendo enturmar conosco)
mary w em setembro 27, 2007 4:07 AM
#30
Pois é, Idelber
Quando esse tal sistema de ônibus para mulheres que querem abortar for criada, espero que a linha pare também nos pontos "melhor distribuição de renda", "parceria civil", "direitos trabalhistas", entre outros e nem precisa ser ônibus leito !!!
(((((Será que eu e a Mary somos parentes por parte de dábliu?))))))
Márcia W. em setembro 27, 2007 9:27 AM
#31
O problema de Unger é sua vontade de poder. Seus artigos na Folha eram extremamente maçantes: colocar toda semana a classe média como sujeito histórico da redenção humana enjoava a leitura.
Mas Unger é um pensador respeitável. Não o qualifiquem pelo oportunismo de sua vontade de poder, nem pelas suas posições políticas. Ele é bom é na teorização em política. Há um excelente artigo crítico de Perry Anderson sobre suas posições teóricas no livro "Afinidades seletivas" (Boitempo).
E o livro de Unger, "Política", no qual reúne seus textos mais importantes, é teoricamente denso. Embora discorde (pois só vejo uma distinção entre Natureza e Cultura e não uma ruptura ontonlógica), sua visão da "sociedade como artefato" é convincente. Sua desconstrução do conceito de "capitalismo" é original e importante. E o capítulo do livro "o marxismo como uma teoria social evolutiva das estruturas profundas" é fundamental -- gera uma boa reflexão sobre os limites teóricos do marxismo.
Confesso que, quando o li, fiquei impressionado. Quando comecei a ler seus escritos de análise de conjuntura e entender melhor suas posições políticas, decepcionei-me. É mais um que estabelece de forma paradoxal um abismo entre teoria e prática -- não me refiro nem à distância entre teoria política e prática política, mas sim entre profundidade e superficialidade.
Por fim, tenho seu livro "democracia realizada: a alternativa progressista" (Boitempo), mas não espero grandes coisas (não o li), pois as posições políticas de Unger são insossas -- outra coisa, repito, são suas teorizações em política. Abs.
Artur em setembro 27, 2007 9:52 AM
Te em setembro 27, 2007 10:22 AM
#33
Permita-me, caro Artur, discordar da sua afirmativa de que “o capítulo do livro "o marxismo como uma teoria social evolutiva das estruturas profundas" é fundamental -- gera uma boa reflexão sobre os limites teóricos do marxismo”. De que marxismo você está tratando? Do marxismo como ciência? Ou seja, de um marxismo subordinado às perguntas das ciências burguesas? De um marxismo que, ao invés de perguntar como nos livramos de relações sociais fetichizadas, pergunta como a sociedade capitalista se reproduz? Essa leitura positivista e, portanto, mecanicista do marxismo realmente transforma uma teoria de negação em uma teoria de evolução social e, como tal, obviamente, é um enorme equívoco. O tal capítulo do Mangabeira Unger, portanto, na melhor das hipóteses, mostra os limites de uma leitura positivista/mecanicista do marxismo e não os limites do marxismo como uma teoria de negação. Mostra, na melhor das hipóteses, o equívoco de se transformar uma teoria crítica à ciência em uma teoria científica.
b ensaiddeitapevi em setembro 27, 2007 10:51 AM
#34
Vocês não vão acreditar, mas eu fiz fichamento on-line desse livro. Não tive tempo de fazer com os últimos capítulos, mas tem um monte de capítulo lá blog. O primeiro está aqui:
http://napraticaateoriaeoutra.wordpress.com/2007/04/page/4/
E continua pelo mês de Abril.
A reseha da Dissent é boa, mas acho meio apressada. O negócio do Unger é que você tem que ler com calma e pensando em com quem ele está falando, porque ele não cita (meio como o Bourdieu faz). Eu identificaria pelo menos três propostas de grande escala no livro:
1) A utilização da poupança previdenciária para financiar o investimento.
2) A criação de fundos de várias espécies, pelo governo, para funcionar mais ou menos como venture capital, com diferentes graus de mistura entre capital público e privado. As melhores formas seriam selecionadas pelo desempenho.
3) Herança social: um fundo que dê uma grana a todo jovem em certa fase da vida (acho que o Aécio Neves está fazendo isso em Minas, ou tentando fazer).
Mas tem bastante mais coisa. O estilo é que é meio difícil. Claro, pode-se discordar do que ele propõe (podem ver pelos fichamentos que eu discordo de várias coisas), e há propostas que só poderiam ser levadas a sério se fossem desenvolvidas em mais detalhe.
Mas, no geral, tendo a achar o Unger mais interessante do que a maioria das pessoas aqui no Brasil acha. Cuidado para colocar em prática esses negócios dele, deixem os especialistas de cada área julgar as propostas, mas é um sujeito que merece ser ouvido (embora seja politicamente atrapalhado).
E "Passion" é um livro muito bonito.
Só mais um esclarecimento: a proposta do ônibus, citada pela resenha, deve ser entendida dentro de outra proposta, a de deixar para os Estados a decisão sobre a legalidade do aborto, o que não é, ao que me parece, um absurdo (mas também pode ser que seja besteira). O governo então proporcionaria a passagem para, digamos, NY, de quem estiver em, sei lá, Utah, e quiser fazer um aborto.
Toda vez que eu falo bem do Unger eu apanho e minha audiência cai. Lá vamos nós.
Na Prática a Teoria é Outra em setembro 27, 2007 11:54 AM
#35
a discussão toda tá bem interessante.
eu nunca tive muita curiosidade de ler o Unger, até pq sempre achei os posicionamentos políticos dele oportunistas e, pior, atrapalhados. mas fiquei com vontade de ler, depois dos comentários. vai pro fim da fila (pelo menos a resenha do Na Prática eu vou ler).
só quero dar um pitaco na discussão sobre sua definição de esquerda, Idelber (q, como disse Alex, com certeza vale um post por si só).
na verdade, é mais uma provocação com um detalhe pequeno da discussão toda, mas q me parece importante.
a força hegemônica q tem agora no pensamento político "de direita" essa "crença absoluta" no mercado é coisa recente, pelo menos aqui no Brasil. é coisa da década de 90 pra cá.
antes, ao longo de todo o Império, e em boa parte do século XX tb (com Vargas e na ditadura militar mais explicitamente, mas tb na 1a República), o Estado era visto como um instrumento necessário e, de fato, como o mais importante para organizar o país e garantir a estabilização da estrutura social oligárquica. Vide Visconde do Uruguai e Oliveira Vianna, pra ficar com dois dos autores mais influentes.
a opinião liberal, apesar de ter existido sempre, sempre foi mais frágil e a maior parte das vezes derrotada.
mesmo hj em dia, ainda é o Estado q financia tudo nesse país, desde "programas socias assistencialistas", como boa parte das ONGs (pasmem!) e até mesmo a grande mídia, através da publicidade oficial. publicitários tb ganham rios de dinheiro com isso, como antes ganhavam as empreiteiras. e a lista poderia continuar, incluindo os próprios interesses privados criados pela institucionalização de uma burocracia, um funcionalismo público, os fundos de previdência e talz.
por isso, tendo a concordar com o bensaiddeitapevi: esses anaeróbicos q a gente lê por aí, principalmente na internet, q ficam citando Hayek sem quê nem pra quê (como tem gente do outro lado q cita Marx), não passam de "tolinhos".
na hora do vamos ver, o Estado tem um peso imenso.
abs,
dra em setembro 27, 2007 1:09 PM
#36
Idelber, quer uma receita infalível de sucesso, neste país?
Fale coisas triviais, banais, corriqueiras, conhecidas por todos, como aquelas listadas por Na prática a teoria é outra, mas fale de modo bem enrolado, hermético, usando palavras difíceis, com a constução de frases de maneira a dificultar o entendimento do texto. Pensou no Mangabeira Unger? Pensou no Cristiovam Buarque? Então pensou corretamente. Vai ter um monte de gente comentando o que você escreveu, discutindo exatamente o que você quis dizer.
Brasileiro tem um enorme complexo de inferioridade. Quando alguém faz um enorme esforço para tornar inteligível coisas complexas, o sujeito pensa assim: " se eu que sou limitado estou entendendo, isso não deve ser muito sofisticado". Brasileiro só dá valor ao que não entende direito. Mas não se pode abusar e tornar o texto absolutamente ininteligível. É preciso ter a competência para dosar as coisas, de modo que a banalidade seja, ao final reconhecida. O cara com complexo de inferioridade, então, vai sonhar que está frente a algo inteligente.
bensaiddeitapevi em setembro 27, 2007 1:47 PM
#37
Já apaguei a duplicação, Na prática.
E adorei esse comentário da mary w :-)
Idelber, na correria em setembro 27, 2007 2:02 PM
#38
Também tô rindo até agora da Mary W. :-)
Ju Sampaio em setembro 27, 2007 2:25 PM
#39
Mia Couto, em entrevista à Istoé desta semana: "Hoje já não sei o que é ser de esquerda, e provavelmente a própria esquerda não saiba o que ela é."
Charley em setembro 27, 2007 2:49 PM
#40
Pois é... mas vindo de quem nunca foi de esquerda fica fácil!
Idelber em setembro 27, 2007 2:56 PM
Ju Sampaio em setembro 27, 2007 3:40 PM
#42
Caraca, viramos top ten!
Valeu, Ju :-)
Idelber em setembro 27, 2007 3:56 PM
#43
Caro Idelber, ao repassar os comentários sobre o livro do Mangabeira Unger, li sua observação de que adorou o comentário da Mary W. O que diz esse comentário? Ele, primeiramente, fala da não é agradável deixar de ler Borges para ler Unger. Algo que, obviamente, meus comentários devem ter deixado claro, tenho concordância absoluta. Ele diz, em seguida, que “os direitistas sempre querem se "encaixar" na esquerda. que mania. a gente nao passa nem perto do mercado deles. e eles nao nos deixam em paz. sempre querendo enturmar conosco”.
Repassei todos os comentários e não percebi qualquer tentativa de direitistas tentando se “enturmar”. Vi sim alguns comentários discordando da sua definição de esquerda, mas chamá-los de comentários direitistas parece-me um razoável nível de desconhecimento do assunto. Fiquei, conseqüentemente, intrigado com sua afirmativa de que havia adorado o comentário da Mary W.
Como quem mais participou dessa discussão esquerda x direita fui eu, pergunto: “você está incomodado com a minha participação?”.
Não se preocupe em ser politicamente correto. Não dou a mínima para esse comportamento típico dos intelectuais de esquerda. Responda-me diretamente, sem qualquer constrangimento, por favor. Esclareço que, por ler que você é professor em uma escola norte-americana, imaginei que estivesse acostumado aos debates livres, às divergências que fazem o cotidiano da vida acadêmica.
De qualquer forma, não quero eu constrangê-lo, nem aos seus leitores. Não me sinto nem um pouco diminuído caso essa turma da esquerda não me queira nos seus debates. Se for o caso, deixo até de ler seu blog.
Abraços.
bensaiddeitapevi em setembro 27, 2007 5:44 PM
#44
Idelber,
De fato a conceituação de esquerda se faz necessário. Se Mia Couto NUNCA foi de esquerda, o que ele era quando estava na Frelimo? Porque se o cara nunca foi de esquerda, fica difícil saber quem já foi de esquerda então.
Há esquerdas e esquerdas. Esquerdas que namoram com o autoritarismo, com o totalitarismo, esquerdas radicalmente democráticas.
Eu acho que sua definição de esquerda está mais pra New Left, pós-68, que é um filho da contracultura, que tem bandeiras muito próprias relacionadas a questão da sexualidade, aborto, drogas.
Mas há muita gente que não embarcou na New Left mas que continua de esquerda. Ou não?
Cesar em setembro 27, 2007 8:56 PM
#45
Verdade, Cesar, com o Mia Couto eu peguei pesado. Ele já foi de esquerda, sim. Mas não é alguém que eu associe a uma visão de esquerda de mundo.
O problema é que não dá para responder todas as indagações e objeções (as suas e do dra. são muito boas) sem me extender demais -- fica prometido, então, um post sobre a esquerda.
Idelber em setembro 27, 2007 9:01 PM
#46
Geringonça? rsrsrs
e ainda queres que leiamos?
pode não ser muito interessante, mas quem sabe...
Josy em setembro 28, 2007 7:16 AM
#47
Foi uma brincadeira, bensai. No sentido de que a direita sempre parece desconfortável na sua posição. Como se houvesse problema de ordem moral em defender os valores do liberalismo. Daí que é muito comum os liberais dizerem "mas isso eu também gostaria, isso eu também defendo". Um abismo entre as posições políticas assumidas e a ordem moral interna do sujeito. Mas foi uma piada, de referência bastante conhecida, bobbio já tratou do assunto e blábláblá.
mary w em setembro 28, 2007 6:04 PM
#48
Amigos
Não há dúvida que hoje é bem mais difícil encontrar definições para "esquerda" e "direita".
A esquerda não mais pode propor revolução armada para alcançar o socialismo (ditadura do proletariado) e tampouco a direita pode defender golpes militares e ditaduras preventivas para evitar ditaduras comunistas.
Atualmente todo mundo é democrata e se diz preocupado com os problemas sociais.
Provavelmente a distinção se dê pela forma como direita e esquerda propõem a solução dos problemas concretos, mais precisamente, o desenvolvimento econômico, a violência, a degradação do meio ambiente e o modelo de democracia.
Julgo-me de esquerda, por isso vou dizer o que eu penso ser a posição de esquerda em relação a esses quatro temas.
Quanto ao desenvolvimento econômico, a esquerda deve defender um projeto nacional de desenvolvimento, com criação de um forte mercado consumidor interno, através melhor distribuição de renda (incluindo reforma agrária e justiça tributária). O estado deve ser o principal indutor do desenvolvimento, com pesado investimento em infraestrutura, e não o capital estrangeiro.
Para combater a violência não se deve lançar mão de mais repressão. Quanto mais repressor for o aparato policial, mais corrupção e violência irá gerar. Somente com projetos de inclusão social (perdão, não encontrei uma expressão neutra para dizer isso), pode-se reduzir a violência.
Quanto ao meio ambiente, deve a esquerda ser radical na sua defesa, rejeitando projetos que prometem lucros imediatos e que podem gerar graves devastações.
Por fim, quanto à democracia, deve a esquerda buscar o aperfeiçoamento do sistema representativo e criar mecanismos que impeçam a distorção da vontade popular. Para isso deve-se corrigir a quantidade de deputados federais por unidade da Federação, para melhorar a proporcionalidade da representação, instituir o financiamento público de campanha, para evitar abuso de poder econômico e instituir o voto exclusivamente em partidos (as chamadas listas).
Nada disso servirá para aperfeiçoar a democracia se for mantido o oligopólio dos meios de comunicãção social. Uma verdadeira democracia não pode prescindir de livre circulação de idéias (livre circulação de capitais acho que é prescindível).
Lamentavelmente, a meu ver, o governo Lula não se esforça muito para ser de esquerda.
Por outro lado, achei muito interessante a distinção entre direitistas tolos e conservadores.
Saudações
Ricardo Petrucci Souto em setembro 28, 2007 7:47 PM
#49
Sobre o que diz a mary w -- esse desconforto da direita com certas formulações suas próprias -- tem um texto meu, já meio antigo....
Idelber em setembro 28, 2007 9:42 PM
#50
Ops, Idelber, é só eu fugir dos vícios da leitura de meus blogues favoritos e já chego atrasado em discussão. Não, não li o Mangabeira, e é uma pena que você não faça aqui a resenha do mister... Situação esquisita a dele no governo. Todo governo já tem uma certa esquizofrenia quando se fala de planejamento de ,ongo prazo, por causa da tendência dos políticos de limitar seu horiszonte de tempo aos prazos dos mandatos; que dizer de um sujeito que parece ter sido noemado pelo presidente entrado quase a contragosto? Estou tentando falar com ele, mas ele anda risco; agora então, que virou miniostro fantasma, nem se fala.
S Leo em outubro 1, 2007 6:14 PM
#51
Pô, Sergio, se conseguir aquela exclusiva com o Mangaba, avise!
Idelber em outubro 1, 2007 7:17 PM
#52
Eu adorei a idéia do ônibus. Muito boa, pena não poder ser replicada no Brasil, pq aqui o aborto é ilegal em todos os estados.
Carla Rodrigues em outubro 8, 2007 6:39 PM
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