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Um weblog anti-apocalíptico sobre política, música, futebol e literatura.
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quarta-feira, 31 de outubro 2007
José Padilha
O diretor de Tropa de Elite, José Padilha, esteve na Folha de São Paulo e foi sabatinado, numa conversa bem conduzida por Marcelo Coelho, Gilberto Dimenstein e Bárbara Gancia. Para quem está acompanhando o impacto inédito do filme na sociedade brasileira, vale a pena conferir o vídeo da entrevista. Gostei especialmente do comentário de Padilha sobre a percepção do Capitão Nascimento como herói.
Escrito por Idelber às 03:37 | link para este post
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terça-feira, 30 de outubro 2007
5 jogos inesquecíveis
O excelente blog gaúcho Impedimento listou 5 jogos inesquecíveis da dupla Gre-Nal e convidou os torcedores de outros times a que fizessem suas listas. Aí vai a do Galo:
Botafogo 0 x 1 Atlético-MG. Maracanã. Jogo final do Brasileirão de 1971. Na euforia do tri, o Brasil organiza seu primeiro campeonato nacional, com vários favoritos: o Santos de Pelé, o Cruzeiro de Tostão, o Botafogo de Jairzinho, o Palmeiras de Ademir da Guia, o São Paulo de Gérson. Sem um único craque, o Galo de Dadá conquista o título. Obra pessoalíssima de Telê Santana.
Atlético 2 x 1 Seleção Brasileira. Mineirão em 1969. Inesquecível por vários motivos. Reza a lenda que aí começa o ódio mortal ao Galo na CBD (futura CBF), manifesto depois em incontáveis maracutaias contra o time mineiro nos campeonatos brasileiros. Reza outra lenda que daí data a proibição de que a Seleção jogue contra clubes. O Galo atuou com o uniforme da seleção mineira. Ao anotar o seu gol, Dadá levantou a camisa, deixando entrever o manto alvi-negro por baixo. O Mineirão foi à loucura. Pelé descontou para o Brasil em impedimento. As feras de Saldanha nesse jogo eram Felix, Carlos Alberto, Djalma Dias, Joel e Rildo (Everaldo); Piazza e Gérson (Rivelino); Jairzinho, Tostão (Zé Maria), Pelé e Edu (Paulo César). O Galo venceu com Mussula, Humberto Monteiro, Grapete, Normandes (Zé Horta) e Cincunegui (Vantuir); Oldair e Amauri (Beto); Vaguinho, Laci, Dario e Tião (Caldeira).
Internacional 0 x 3 Atlético-MG. Semifinais do Campeonato Brasileiro de 1980. Foi o Galo quem enterrou a maior dinastia do futebol brasileiro dos anos 70, e foi em pleno Beira-Rio. O jogo de ida havia sido um sensacional 2 x 2 no Mineirão e o Inter era favorito. Mas Cerezo, Reinaldo e Éder fizeram chover em Porto Alegre, o Galo foi à forra pelas semifinais de 1976.
Atlético 2 x 0 Cruzeiro, final do Campeonato Mineiro de 1976. Inesquecível pelo show de bola. O Cruzeiro escapou de algumas goleadas históricas durante o reinado de Reinaldo. A final de 1976 foi um desses casos. A dupla de zaga do Cruzeiro (Morais-Darci Menezes) começa a protagonizar algumas tentativas de assassinato em campo, que se repetiriam pelos próximos anos. É o jogo que marca a troca da hegemonia na rivalidade mineira: o Cruzeiro havia ganhado 9 dos 11 campeonatos anteriores a ele. Depois dessa vitória, o Galo comemoraria 11 dos próximos 14.

Atlético 4 x 2 Cruzeiro. Quartas-de-final do Campeonato Brasileiro de 1999. Era a época do Brasileirão em mata-mata com os 8 primeiros. O Cruzeiro havia se classificado em segundo, o Galo em sétimo. Os azuis já falavam em revanche contra o Corinthians (o primeiro classificado), para quem haviam perdido a final de 1998. Esqueceram-se de que ainda não haviam enfrentado o Galo. Na melhor de 4 pontos, não houve necessidade de terceira partida. 4 x 2 e 3 x 2, com shows de Marques, Caçapa e Guilherme.
Quem quiser usar os comentários para se lembrar de jogos de seu time, claro, que fique à vontade, desde que não sejam jogos contra o Atlético.
Escrito por Idelber às 04:38 | link para este post
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segunda-feira, 29 de outubro 2007
Cristina Kirchner
O peronismo é o eixo central, a variável sem a qual não se entende a política argentina. A eleição de 1983, de Raúl Alfonsín (da União Cívica Radical), foi a primeira vez, em 40 anos, que o peronismo foi derrotado em eleições abertas. Primeira e última, até agora. Voltaria a sê-lo em 1999, com a vitória de de la Rúa (obrigado, dra). Mas até este domingo, a reeleição de Perón em 1952 havia sido a única vez que o peronismo havia renovado a Casa Rosada por eleições democráticas em final de mandato completamente concluído. Em outras palavras, a única vez em que o Peronismo passou as faixas democraticamente a um sucessor foi quando Perón, reeleito, entregou-as a si mesmo. (dra me corrige com razão: Menem também o fez em 1995; seu programa era tão pouco "peronista" que eu havia me esquecido). De lá para cá, a Argentina acrescentou alguns nomes à lista de presidentes depostos. Até a ditadura militar teve presidentes que renunciaram, coisa insólita para padrões latino-americanos.
O modelo argentino difere daquele do Chile que, ao longo de sua história (exceto, claro, de 1973 a 1989), consagra o tripartidarismo representado por socialistas/comunistas, democracia cristã e direita; diferencia-se também do bipartidarismo liberais/ conservadores próprio à Colômbia, ao Paraguai e à América Central; tem pouco a ver com o modelo mexicano, que é um virtual unipartidarismo construído via burocracia estatal pós-Revolução; tem também pouco a ver com a salada brasileira, que mistura períodos de ditadura militar partidarizada (1964-79) com perídos de tripartidarismo (1945-64) com épocas de explosão partidária fisiológica e confusa (1982 até agora).
Ao contrário dos partidos brasileiros, em geral, os (dois) partidos argentinos são muito representativos. Na realidade, é este o seu problema: são representativos demais. Não existe representação fora deles. Nos últimos anos, aliás, com o fracasso de alternativas que apareceram à esquerda (como o Frepaso, de Chacho Álvarez, que sumiu) e o colapso da União Cívica Radical, não existe representação fora do partido peronista (Justicialista), ponto final.
Daí que não seja má notícia a eleição de Cristina Kirchner, por mais que se possa dizer que o casal se sustenta no clientelismo que levou gente como Beatriz Sarlo a romper com o governo. As alternativas não eram animadoras: a segunda colocada, Elisa Carrió, tinha posições “à esquerda”, mas era uma espécie de Heloísa Helena de São Tomé das Letras, uma “engajada” que chegou a dizer que falava com Deus (por mais coincidência programática que eu tenha com alguém, jamais votaria em quem diz falar com Deus. Acreditar e pedir, tudo bem; falar com, de jeito nenhum. Pessoas que falam com Deus são perigosas). Roberto Lavagna, versão mais tecnocrática do mesmo pacto que elegeu Kirchner, não conseguiu o segundo lugar; apanhou até da esquerdona maluca. A direita argentina, agrupada em torno a López Murphy, havia tido 17% na eleição anterior, agora despencou para 1,1%, percentual que não leva dito cujo nem mesmo ao Congresso.
Pelo menos em dois sentidos faz muita diferença ter Cristina e não Néstor (daí minha alegria moderada com esta eleição): é provável que Cristina esteja mais distante de Chávez do que esteve seu marido. Mais próxima de Lula e até, em algum sentido, dos EUA. O que, quem sabe, talvez não seja ruim. Por outro lado, é significativo que seja uma mulher a assumir o poder. Cristina não é a primeira, claro, mas María Estela Martínez de Perón entre 1974 e 1976 foi menos uma presidente que um frango no abatedouro. Vale a pena apostar que a história não se repetirá, o que já é alguma coisa.
Escrito por Idelber às 05:10 | link para este post
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domingo, 28 de outubro 2007
Momento jabá
Está em curso mais uma edição do prêmio internacional The Bobs, organizado pela agência alemã Deustche Welle para premiar blogs que se destacam no mundo todo. Saíram os dez finalistas ao prêmio de melhor blog em língua portuguesa. Com a licença dos meus amigos bugrino e tricolor, que mui merecidamente estão nas finais, gostaria de convocar os leitores do Biscoito para votarem no Ao Mirante, Nelson! Se você ainda tem dúvidas sobre a genialidade almirântica, leia um post, só um, o meu favorito: Se os diálogos de Platão fossem pelo MSN, um clássico da blogosfera tupinambá.
Depois de deliciar-se, passe lá e vote no Almirante. Quem sabe com os louros da vitória ele não se livra de seu único defeito.
Escrito por Idelber às 04:55 | link para este post
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sexta-feira, 26 de outubro 2007
A sociedade brasileira está mais polarizada?
O tema do post de hoje me foi sugerido por “ Identidades em fúria”, texto publicado pelo Marcelo Coelho na Folha de São de Paulo de quarta-feira. Marcelo faz um diagnóstico da situação atual da sociedade brasileira que, segundo ele, estaria excessivamente polarizada e cheia de debates cada vez mais violentos. Para Marcelo, os blogs teriam alguma responsabilidade nisso. Já que o link ao UOL é fechado para assinantes, transcrevo um trecho longo do texto e comento logo depois:
A vontade de discordar tornou-se mais forte do que a de chegar a um consenso. É que as manifestações, os artigos, as entrevistas que ultimamente têm aparecido na esfera pública estão perdendo, a meu ver, o caráter geral, propositivo, civil que deveriam ter. Tornaram-se desabafos, manifestações de impaciência, de exasperação.
Mutatis mutandis, o "cansei" das elites é também o "senta o dedo" do capitão Nascimento, ou não sei que grito de guerra do gangsta rap em versão adaptada para a periferia paulistana.
Não se trata de alternativas políticas em confronto, nem mesmo de expressão de diferentes pontos de vista subjetivos: a forma dos debates, das polêmicas em curso, tem sido mais e mais calcada na questão das identidades sociais do que na das propostas políticas.
É como se importasse menos dizer "o que eu quero" e mais "quem eu sou". E a posição de cada um -se é negro, branco, pobre ou rico- conta mais do que o que cada um diz.
Faço essa avaliação sem querer exagerar no pessimismo. Na verdade, seria estranho que numa sociedade tão desigual todo debate transcorresse em clima de chá das cinco. Muitos setores que até recentemente não tiveram acesso a meios públicos de expressão conseguem, hoje, se fazer ouvir: internet, câmeras digitais, centros culturais estão ao alcance de mais pessoas, e não haverá de ser sem raiva o recado que têm a transmitir.
Ao mesmo tempo, entretanto, diminuiu o leque das alternativas políticas, das respostas ideológicas para os problemas a que se dá expressão. O resultado é uma espécie de radicalismo sem rumo, de extremismo em striptease, de terrorismo confessional, de provocação via computador.
Durante as eleições presidenciais o caso ficou bem claro: nos blogs e nos e-mails, adeptos de Lula e de Alckmin se entredevoravam com radicalidade assustadora; eram pouco perceptíveis, entretanto, as diferenças programáticas entre os candidatos. Mas um era um, e o outro era o outro; já era o bastante para ninguém se entender.
Nisso -numa questão de identidades, não de alternativas- parecem resumir-se muitas das polêmicas em curso. Se cada envolvido, narcisisticamente, procura apenas afirmar-se onde está, é natural que não se chegue a lugar nenhum.
Trascrevo o texto porque concordo, na essência, com ele. Mas também concordo com o comentário feito pelo Arranhaponte no blog do Marcelo, pondo o dedo na ferida: A exasperação identitária pode ser um bom sinal, de que o debate fugiu ao controle das elites pensantes, e de que a democracia se aprofunda. Tem um preço em qualidade, é claro, mas ganha-se em representatividade . A dúvida que move o post de hoje – e sobre a qual eu peço a opinião do leitor – é se a sociedade brasileira está mais polarizada do que era antes, ou se a democratização dos meios de publicação está só expressando mais fielmente uma polarização que sempre existiu. Acho que o Arranhaponte disse uma coisa certa: talvez isso não seja ruim, no final das contas. Uma leitora do Marcelo criticava a “ombudsmanização” dos meios de comunicação pelos blogs, coisa que eu acho extremamente positiva. Sempre me espanto quando vejo jornalistas queixando-se de que estão sendo “censurados” quando são criticados, como se toda crítica fosse um chamado ao silenciamento. Lembro-me, por exemplo, da reação ao artigo do Janine Ribeiro quando do assassinato do garoto João Hélio no Rio de Janeiro. Não conheço Janine pessoalmente, mas sei que é uma pessoa afável, cordata. A julgar pelo seu texto seguinte, posterior à polêmica, ele parece ter ficado extremamente assustado com a reação que provocou. Mas fica a pergunta: não seria esse choque o sintoma de um aprofundamento da democracia? Não estaria aí um material sobre o qual a grande imprensa deveria refletir?
Sempre achei que uma das pragas do Brasil é a mitologia da cordialidade, essa espécie de pacto do compadrio que escamoteia diferenças, foge da polêmica, mascara tensões com um tapinha nas costas. Os blogs, de alguma forma, dão vazão a essas tensões mascaradas pelo homem cordial. Eu acompanho de perto a blogosfera argentina, e os debates por lá acontecem com uma violência que fazem a pancadaria pré-eleitoral aqui do Biscoito parecer brinquedo de criança. Por lá eu nunca vi ninguém reclamar de que está sendo “patrulhado” -- termo que, aliás, nem parece ter equivalente exato em espanhol, já que o verbo patrullar não chegou a migrar do terreno policial para o terreno metafórico, discursivo, no qual nós o utilizamos em português.
Por outro lado, o Marcelo Coelho parece ter razão quanto à polarização cada vez mais aguda da sociedade brasileira. É meio assustador ler blogs que falam de “varrer os petralhas do mapa”. Posso até ter dado minha contribuição a essa polarização, mas o ótimo motor de busca do blog não registra nenhuma ocorrência do termo “tucanalha”, por exemplo. Em todo caso, o assunto é chave e merece ser debatido. Vocês aí com a palavra.
Escrito por Idelber às 06:19 | link para este post
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quarta-feira, 24 de outubro 2007
Monica Weinberg e suas “pesquisas”
A Revista Veja publicou, em sua penúltima edição, uma entrevista até muito boa com o Ministro da Educação, Fernando Haddad (obrigado por reproduzir, Tão). Nela, a jornalista Monica Weinberg demonstrou mais uma vez que mente sempre que usa a palavra “pesquisas”. Em edições anteriores da revista, ela já havia se referido a “pesquisas” que “provam” (acreditem!) que produtos com fertilizantes e agrotóxicos são tão saudáveis como os orgânicos; já havia mentido sobre Cristovam Buarque; já havia mentido sobre as escolas do MST.
Na entrevista com Haddad, no entanto, ela se supera. Num dado momento, Monica Weinberg pergunta:
O governo estabeleceu um piso salarial para os professores, mas pesquisas internacionais mostram que o aumento de salário tem muitas vezes efeito zero sobre a qualidade de ensino...
Sim, leitor. É isso mesmo o que você leu. A jornalista Monica Weinberg afirma que “pesquisas internacionais” mostram que o aumento de salário dos professores não tem efeito sobre a qualidade de ensino. A citação é literal. Conhecedor das pesquisas – estas sim, sem aspas – de J.Stonge, C. Gareis e C. Little e também das de Lisa Banicky (pdf), que demonstram abundantemente a relação entre estes dois fatores, eu convido os leitores do blog a desafiarem a jornalista, enviando-lhe o link deste post: aponte-nos uma só pesquisa que mostre que “o aumento de salário tem muitas vezes efeito zero sobre a qualidade de ensino”.
Só para lembrar, cara jornalista, “pesquisa” quer dizer: coleta e organização de dados, explicitação de metodologia, dedução de conclusões e publicação dos resultados em periódicos ou monografias avaliados pelos pares. Não precisa ser "pesquisas". Mostre uma só. No singular. Quero ver.
PS: Excelente artigo na Boston Review sobre mais uma faceta do desastre americano no Iraque: a tragédia dos refugiados.
Escrito por Idelber às 04:04 | link para este post
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segunda-feira, 22 de outubro 2007
Meme da pag. 161
O Pedro Dória me chamou para o meme da pág. 161, que consiste em abrir nessa página o livro que está ao seu lado e copiar a quinta frase. Voltando de Bogotá, li La ocasión, de um dos maiores escritores do século XX, o argentino Juan José Saer. É o livro que ainda tenho ao lado. Dos anos 60 aos 80, Saer não teve leitores e continuou escrevendo, paciente, sem que isso jamais lhe parecesse um motivo para queixa. Dali até sua morte, em 2005, teceu uma obra ímpar, que se ombreia com a dos maiores. Seus escritos despertam amor e devoção incondicionais ou a indiferença absoluta.
O meu problema com o meme, hohoho, é que as páginas de Saer não costumam chegar a cinco frases, e a 161 de La ocasión não é exceção. Aqui vai, então, a primeira, que descreve a chegada do personagem -- um francês de século XIX que foge da ridicularização de seus contemporâneos positivistas -- à pampa de Santa Fé. Copio em espanhol mesmo:
Adrede, se ha exhibido un poco en los campos desiertos, ha pasado y vuelto a pasar por los mismos lugares, para señalar bien su presencia, su existencia, su realidad y ha recorrido varias veces el perímetro de su tierra para marcar de un modo inequívoco su territorio y hacérselo evidente a los otros, se ha instalado en la llanura para recorrerla desde dentro, tratando de interiorizarla, hacérsela a si mismo connatural, tendiendo a reconstruir en su interior la percepción que tienen de ella los que han hecho su aparición en ella, los que, como Adán con el del Paraíso, están amasados por el barro gris que pisan los cascos de sus caballos, estancieros, peones, indios, arrieros, carreros, ladrones de vacas e incluso prófugos de la justicia y asesinos.
Este é Juan José Saer. Não vou repassar o meme, mas se alguém quiser tomá-lo, é só avisar que eu coloco o link aqui. Não vale escolher o livro, claro.
Escrito por Idelber às 23:23 | link para este post
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sábado, 20 de outubro 2007
Rapidinhas colombianas
Que Capitão Nascimento que nada. Ser macho de verdade é viajar de ônibus – de buseta -- aqui na Colômbia. Entrei e saí do mato, de buseta, sem maiores percalços.
Cena impagável: ver uma turma de brasileiros tirando fotos ao lado dos pontos de ônibus, que aqui levam o singelo nome de parador de busetas.
Quando vier à Colômbia, não deixe de conhecer um povoado chamado Tabio, na savana. Fica pertinho de Bogotá. Na foto abaixo, uma turma de colombianos jogando capoeira angola em Tabio:

Esta frutinha é deliciosa e se chama pitaya:

Esta outra é mais usada para sucos. Também é muito boa. Chama-se lulo e, apesar do parentesco com a laranja, praticamente não tem acidez:

Uma notinha para os leitores acadêmicos: A Universidade Nacional da Colômbia tem os melhores alunos de graduação que já vi na vida. Num programa de estudos rigorosíssimo, que às vezes inclui 35 horas semanais só para cumprir os requisitos, os cabras chegam ao final da licenciatura com a obrigação de produzir uma monografia que se compara a muita tese de doutorado por aí. Fiquei absolutamente assombrado com o nível dos alunos de Letras. O segundo número da revista feita por eles, chamada Educação Estética, é dedicado a Theodor Adorno. Compete em qualidade com qualquer publicação acadêmica norte-americana. Repito: é uma revista feita pelos alunos de graduação. A revista do departamento de literatura também é de altíssima qualidade e já vai pelo número 9.
A identificação dos colombianos com o Brasil é digna de nota. O carinho que eles demonstram como anfitriões é indescritível. Quando o visitante é brasileiro, bem, aí a coisa chega àquele ponto em que você fica até com vergonha.
Aqui em Bogotá dança-se muita salsa, merengue, tango. Se você, como eu, é fã desse primo do forró chamado vallenato (música de sanfona da costa caribenha colombiana), aí vai a dica: La trampa vallenata, que fica na 42 com quinta.
Um leitor me perguntou sobre a comida paisa (de Antioquia). O meu prato favorito tem sido a bandeja paisa. Escutem só: arroz, feijão (de caldo), carne moída, ovo frito, lingüiça, chicharrón, tomate, abacate e banana frita.
Não adianta. É da Tierra del Fuego até o México: os hispano-americanos não entendem como podemos comer abacate de sobremesa, com açúcar. Alguns ficam sinceramente indignados.
PS. Alguém aí recebeu o spamzão que está circulando, com a comparação entre MacGyver, James Bond e o Capitão Nascimento? Publico aqui ou não publico?
PS2: Quem me conhece de perto sabe que não sou exatamente um fanático defensor dos direitos dos animais. Mas isso aqui realmente é desprezível. Chapeau para o Mestre Ina por, mais uma vez, ter chamado a atenção para uma injustiça.
Escrito por Idelber às 14:49 | link para este post
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quarta-feira, 17 de outubro 2007
O novo curso da Fal
A Fal, a mais querida, está aceitando inscrições para seu novo curso de Arte na História. O curso é totalmente virtual e começa no dia 03 de novembro. Informações no email artenahistoria arroba gmail.com. Olhem o programa aí, que beleza.
Aula I
Arte. Que é isso?
Algumas teorias sobre o surgimento da arte.
Pedra lascada, pedra polida.
A vida como nós a conhecemos: as primeiras civilizações
No princípio era o verbo
Dos tijolos sumerianos aos jardins suspensos da Babilônia, passando pelos gatinhos do Egito.
Os números da Maloca
Tantos povos, tantas histórias: persas, minóicos, micênicos, hititas, lídios, medos, dóricos fenícios, cartaginenses e, ufa, hebreus
Aula II
Se oriente rapaz I: China e Índia
As crianças da Grécia
Os geniais etruscos
Roma e a não-arte
Aula III
Balaio de gatos: bárbaros germânicos, arte românica, gótica e a Idade Média
Construindo catedrais com a Ana Paula
Se oriente rapaz II: Japão
Aula IV
Humanismo
Grandes navegações: o mundo diminui
A terra é mui graciosa, tão fértil eu nunca vi
Apertem os cintos, o Papa sumiu
Aula V
O barroco francês, Rembrandt, Bach e outras coisas do século XVII que fazem meu coração sorrir
Bebendo café com o Mauro
Aula VI
Carneirinho, carneirão: o Arcadismo
Born in the USA
Eu sou Napoleão Bonaparte
Linha de montagem
Aula VII
Vizinhos Reais
Noutras palavras, sou muito Romântico
Romantismo Português, ó pá!
Eu te amo, porra! - Romantismo no Brasil
'Sua mãe pode até descender dos macacos, mas a minha não'
Aula VIII
A vida como ela é: O Realismo
A Natureza é tão natural
Simbolismo
Lerê Lerê
República ou morte
Impressionante
Freud, explica!!
Aula IX
Século novo, vida nova
Espartilhos e grandes bigodes: a Primeira Guerra Mundial
Futurismo, cubismo, dadaismo: é ismo que não acaba mais
Modernismo: Brasil e Portugal
Derretendo relógios
Fazendo moda, fazendo arte
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O Havaí seja aqui : internet, a nova arte e o diário coletivo
De volta à pintura de paredes: os novos urbanos
Escrito por Idelber às 09:19 | link para este post
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domingo, 14 de outubro 2007
Bogotá
Estou em Bogotá. É a minha incrível sina de coincidir com a seleção brasileira no exterior (sim, vi alguns cartolas aqui no meu hotel – como são mais feios ao vivo!). Escrevo um daqueles posts corridos, no ritmo de quem está pagando 10 dólares por hora pela conexão e tem que bater 5 teclas para digitar um til. Aí vão as notícias, então, sem burilar muito o estilo.
Bogotá é, sem dúvida, uma cidade-véu, não uma cidade-vitrine, embora tenha um centro histórico não muito diferente do Pelourinho. É uma urbe gigantesca, de 7 milhões de habitantes, num desenho que se espraia ao longo dos cerros. Convivem relíquias da era colonial (a cidade foi fundada em 1538) com regiões ultra-modernas que lembram um pouco São Paulo. O primeiro impacto que senti foi o da militarização da vida cotidiana: militares com baionetas em tudo quanto é canto, inclusive nas portas dos hotéis. Ao contrário do Chile, as pessoas aqui olham os militares nos olhos e estes até arriscam um bom dia de vez em quando. A Universidad Nacional, minha anfitriã, me colocou num baita cinco estrelas onde a preocupação com a segurança é muito exacerbada: os militares no lobby se contam pelas dezenas.
Aí vão as dicas, baseado no que já fiz até agora. O Museo del Oro, financiado pelo Banco da República, tem uma bela coleção de arte pré-hispânica de um país cujas populações indígenas não costumam receber muita atenção. Contam-me que os utensílios abaixo serviam para administrar cocaína:

Abaixo, o capitólio, situado na Praça Simón Bolívar, centro da parte histórica da cidade:

Ainda na Praça Simón Bolívar, ficam a catedral que ilustra o início do post e o Palácio da Justiça:

A faixa abaixo, pendurada num dos edifícios do centro histórico, protesta contra a decisão do Presidente Uribe de não desmilitarizar um território para as negociações de paz:

Aliás, sobre o processo de paz colombiano e os testemunhos que se produziram aqui até agora, eu gostaria de escrever depois, com calma. Podem cobrar. A culinária colombiana, altamente regionalizada, como tudo aqui, é outro conto sobre o qual há que se escrever com calma. A comida paisa (ou seja, a comida do estado de Antioquia) é muito parecida com a mineira, com uma vantagem: é molhadinha.
O encontro sobre crítica literária organizado pela Universidad Nacional -- no qual eu estou escalado para uma incrível maratona de três palestras -- começa na terça-feira. Nesta segunda, faço uma rápida viagem à "savana" que bordeia a cidade de Bogotá, sobre cuja literatura eu até já escrevi, sem nunca ter visitado (na cara-de-pau mesmo).
Dando tudo certo com a conexão aqui, eu pretendo manter o ritmo de um post por dia, com detalhes sobre o encontro e sobre a cidade. Vai ser o nosso momento Viaje na Viagem.
PS: Que joguinho ruim, hein? Será que esse time só joga bem quando a gente torce contra?
Escrito por Idelber às 21:20 | link para este post
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sábado, 13 de outubro 2007
Um monstro
Este livro merece um post:

É dos objetos mais estranhos que já manuseei:

Além das 1.600 páginas, capa bem dura e grossa, dificultando o trabalho da mão :-)

São as fofocas de Bioy Casares sobre Borges em seu diário, de 1931 a 1986.
Escrito por Idelber às 04:55 | link para este post
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sexta-feira, 12 de outubro 2007
Paulo Autran
Morreu o maior de todos:

(foto: Autran em "O Avarento", de Molière).
Escrito por Idelber às 21:47 | link para este post
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Prêmio Nobel
Nunca li Doris Lessing, embora seja amigo de gente especializada na obra dela. É uma pena, porque já tive The Golden Notebook em mãos e, sem tempo, acabei deixando. Mas não há como negar, a nova laureada com o Prêmio Nobel de Literatura é uma velha simpática. O Nobel tem um impacto político e editorial inegável, mas como medida de valor literário, bem, ele será sempre o prêmio que Joyce, Proust, Kafka e Borges não ganharam. Em 1922, Joyce publicava Ulysses e o prêmio ia para Jacinto Bonavente. Em 1920, Proust publicava Le côté de Guermantes, o terceiro volume da Recherche. O Nobel foi para Knut Hamsun. É uma história divertida de se escrever, a desses contrastes. Depois da época em que o Nobel deixou de obedecer às idas e vindas da guerra fria e passou a obedecer ao vaivém das “boas causas” (equilíbrio entre regiões, forças políticas, etnias, gêneros, religiões), ele já serviu para que eu me interessasse por alguns autores (Naguib Mahfouz), confirmasse que gosto de uns (Harold Pinter) e que desgosto de outros (José Saramago). Ainda não sei onde entrará Lessing nessa lista.
PS. Texto interessante sobre o bar e a literatura.
PS 2. O Tiago Dória foi convidado para ser blogueiro oficial da PopTech, uma das mais importantes conferências sobre web e tecnologia no mundo. Parabéns! Trabalho de primeira sendo reconhecido.
PS 3. Alô Belo Horizonte: Tiago Dória, Tiagón Casagrande e outros estarão aí de 29 a 31 deste mês, num Congresso sobre Cibercultura na Fumec. Ao sair da Fumec, meus caros, dobrem à direita na Afonso Pena, peçam liçenca aos travestis e parem no Emporium para uma cachacinha. A oferta é boa.
Escrito por Idelber às 04:39 | link para este post
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quarta-feira, 10 de outubro 2007
Tropa de Elite, de José Padilha
Atenção: esta resenha contém "spoilers".
Tropa de Elite é o tema da vez. Assisti e achei um filmaço – com algumas simplificações bem brutais, sem as quais ele teria sido ainda mais efetivo no que quer fazer. Mas é um filmaço. Em primeiro lugar, como filme apresentado do ponto de vista de um policial não corrupto, de batalhão especial, que acredita sinceramente no que faz, Tropa de Elite é uma mui bem vinda novidade na cinematografia sobre o tema. Há um debate acontecendo (os links vão todos ao final), e seria muito ruim que ele se reduzisse a uma torcida organizada do Capitão Nascimento, à direita, e uma rejeição simplista, à esquerda – o filme é muito mais rico.
Acusa-se o filme de ser manipulador e maniqueísta. As duas acusações são falsas. Em primeiro lugar, a beleza de qualquer arte narrativa é criar um narrador “manipulador”, ou seja, uma voz crível o suficiente que nos leve, nos convença, ora, a sair do mundo real duas, ou dez, horas e entrar nesse mundo alternativo. Dostoiévski fazia isso: carola, czarista e caretão, imaginava protagonistas rebeldes que convenciam qualquer anarquista ou revolucionário que lesse aquilo. Padilha cria o Capitão Nascimento, chefe de uma ilha de credibilidade num universo de policiais que recebem propina de traficante, policiais que trasladam cadáveres para adulterar estatísticas, policiais que saqueiam as viaturas que usam a trabalho, oficiais que exigem propina de qualquer soldado que vá tirar férias. Só esquecendo 70% do filme é possível lê-lo como celebração da força policial. É uma autópsia da podridão. Neste mar de lama, o BOPE é o lugar do ponto de vista. É dali que se conta a história. O BOPE tortura e mata, mas não se corrompe nem assassina indiscriminadamente. Cria identificação em parte do público? Claro. O filme sanciona esse ponto de vista de forma inequívoca? De jeito nenhum. Pensar assim seria escolher não ver uma série de coisas que estão lá.
O filme é essencialmente honesto ao usar a voz em off do Capitão Nascimento como narrativa distanciada daqueles eventos. “Manipulador” no mau sentido da palavra teria sido criar uma voz em off supostamente “neutra”, “documentarizando” aquela ficção e, no fundo, repetindo a ideologia do Cap. Nascimento e do BOPE como a única possível; afinal de contas, ali ela estaria legitimada pela aura de verdade do narrador não-diegético, não participante da trama, o narrador “Deus”. Padilha faz o contrário: expõe o personagem não só na tela mas também na narração e comentário do filme. Ele está ali para ser avaliado, julgado, escrutinado também. Se o espectador abdica dessa tarefa, claro, problema dele. Há quem abdique para celebrá-lo como Rambo. Há quem abdique para condenar.
É difícil a tarefa do espectador que quer abraçar a ideologia do Capitão Nascimento, porque afinal de contas enquanto Nascimento ficou lá, foi implacável e incorruptível, mas teve que sair. Senão, provavelmente não viveria para criar seu filho. Digo que “teve que sair”, claro, porque agora ele nos narra o filme em off, já supostamente substituído por Matias, se vamos – como acho que devemos – ler simbolicamente o último tiro do filme, o tiro iniciático, de incorporação ao batalhão, que Matias desfere na cara do traficante “Baiano” (e na do espectador, já que a câmera é colocada no chão, sob a arma, convidando-nos à condição de assassinados).
Matias é o único preto do filme que não é parte da paisagem. A escolha é interessante porque toda a pendenga é a substituição do Capitão narrador, para a qual, depois do brutal treinamento, restam dois candidatos: Neto, o valente burro que termina morrendo na favela com um tiro nas costas, e Matias, que é inteligente mas está “amaciado” pelo convívio com os pequeno-burgueses da faculdade, lugar onde ele ainda utopicamente acredita que o direito e a instituição policial são sinônimos, contíguos, facilmente harmonizáveis. Nessa ingenuidade ele não está sozinho: afinal de contas, ele estuda numa faculdade onde o professor e os alunos (todos eles brancos, exceção a um mulato claro ao fundo) fazem uma inacreditável aula em que se sonha que Foucault alguma vez falou de poder em termos de aparatos repressivos de estado. 
Mas não cobremos exatidões francesas de filme de ficção feito num país onde um colunista da maior revista semanal afirma que, para Foucault, a loucura era uma construção discursiva (leu isso onde, Reinaldinho?). O que me incomoda nas cenas da faculdade em Tropa de Elite é a artificialidade com que todos se colocam contra Matias com argumentos simplistas sobre a polícia e a violência. Padilha estereotipa ali o discurso anti-violência policial, assim como estereotipa as ONGs, ao mostrar um diretor que já oferece a Matias material eleitoral de um senador no seu primeiro minuto de visita à sede. Forçadas de barra como estas, há algumas. O filme teria sido ainda mais poderoso se tivesse introduzido um mínimo de complexidade nos verdadeiros antagonistas de Nascimento: os burguesinhos-baseado, não tão diferentes do semi-burguês-comprimido- para-dormir que é o próprio Capitão, viciadaço em drogas farmacêuticas quando o bicho pega. É por isso que, apesar das forçadas de barra, o filme não resvala no maniqueísmo: não o permite a complexidade de seus personagens e seu olhar cáustico sobre o angu-de-caroço que é o par tráfico / segurança pública no Rio.
Inclusive a personagem de Fernanda Machado é complexa. Ela é a única mulher do filme que não é parte da paisagem. Burguesinha, gostosinha e com consciência “social”, colabora na ONG da favela de uma forma não muito diferente da que Nascimento – e depois Matias – trabalham no BOPE: com total crença no que faz. Ela cai, inclusive, do mesmo jeito que Nascimento: este descobre que é impossível se manter no BOPE e criar seu filho, ela descobre que é impossível ser burguesa de “consciência social” na favela sem colaborar com o tráfico (ou sem trair a comunidade colaborando com a polícia). Quanto acontece a aproximação romântica entre ela e Matias, o espectador sabe que está fadada ao fracasso: o único espaço em que estão unidos como iguais, a faculdade, tornou-se lugar irrelevante. A burguesinha-branca-de-esquerda e o preto-povão-em- ascensão-via-polícia (e, sonha ele, via faculdade) não podem se amar: a verdade está na favela, e ali eles ocupam espaços irreconciliáveis. É bobagem acusar a voz do Cap. Nascimento de “manipuladora” num filme em que dois mocinhos, o único preto e a única mulher, tampouco encontram caminho nenhum, romeuejulietamente fracassando na favela.
Tropa de Elite é um filmaço porque torna a posição de todo mundo desconfortável. Traz uma voz não ouvida e não a exime de contradições. É Cap. Nascimento, claro, quem nos diz ao princípio que só há três saídas para o policial no Rio: omitir-se, corromper-se ou ir à guerra. Imune à segunda, ele opta pela terceira ao longo do filme mas é obrigado a escolher a omissão quando nasce o filho. Esse momento da paternidade é lindo, diga-se. Foi ali que mais me identifiquei com ele: a omissão como gesto de amor.
É verdade que Nascimento insiste com o burguesinho encontrado na roda de fumo que foi ele quem, ao comprar drogas ali, matou a ocasional vítima favelada do tiroteio. Neste sentido, sim, o filme apresenta fortemente o ponto de vista de que é o burguesinho-maconheiro que sustenta o tráfico: mas acreditar nessa tese é acreditar que a voz do filme é a de Nascimento falando com o burguesinho, a de Matias falando com os alunos da faculdade. Eu, de novo, me recusaria a reduzir o que o filme diz ao que o personagem diz. Nascimento também é o responsável direto pela morte do “fogueteiro”, pobre que, sob tortura, denuncia a “ponte” da carga e é depois, claro, sumariamente executado pelos traficantes. Nascimento sabe que, ao extrair uma delação sob tortura e depois não oferecer proteção policial ao seu dedo-duro, ele efetivamente o matou. Vive esse remorso às vésperas de ser pai e pergunta à mãe do rapaz se era seu único filho.
Qual é a relação de causalidade mais direta? A que liga o burguesinho- maconheiro ao tráfico ou a que liga a atuação incorruptível do BOPE à morte de seus colaboradores? Colocar essa pergunta, com esse grau de complexidade, é um grande mérito do filme.
Outros links sobre Tropa de Elite:
Torre de Marfim
Marcus Pessoa
Catatau
Sérgio Lima
Artigo de Wagner Moura
Diário de um Policial Militar
Overmundo
Pedro Dória
Depoimento sobre a PM do Rio
Blog da Segurança Pública
Global Voices Online
Arnaldo Heredia
e Mary W aqui e aqui .
Escrito por Idelber às 02:19 | link para este post
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terça-feira, 09 de outubro 2007
Che Guevara, por Ricardo Piglia
O que segue é uma tradução minha de trechos de "Ernesto Guevara, Rastros de Lectura", texto de Ricardo Piglia publicado no seu El último lector (Anagrama, 2005). O livro está disponível no Brasil pela Companhia das Letras, em tradução de Heloísa Jahn. O artigo sobre Guevara é longo (pags. 103-38) e exibe o brilhantismo habitual de Piglia. Abaixo, algumas seleções minhas. Ao saltar algo, indiquei a elipse com reticências [...]
ERNESTO GUEVARA, RASTROS DE LEITURA
de Ricardo Piglia (tradução I. Avelar)
Há uma tensão entre o ato de ler e a ação política. Certa oposição implícita entre leitura e decisão, entre leitura e vida prática. Esta tensão entre a leitura e a experiência, entre a leitura e a vida, está muito presente na história que estamos tentando construir. Muitas vezes o que se leu é o filtro que permite dar sentido à experiência; a leitura é um espelho da experiência, define-a, lhe dá forma.
[...]
Há uma cena na vida de Ernesto Guevara à qual também Cortázar chamou a atenção: o pequeno grupo que desembarca do Granma foi surpreendido e Guevara, ferido, pensando que está morrendo, recorda um relato que leu. Escreve Guevara, nas Passagens da guerra revolucionária: “Imediatamente me pus a pensar na melhor maneira de morrer nesse minuto em que parecia tudo perdido. Recordei um velho conto de Jack London, onde o protagonista apoiado num tronco de árvore se dispõe a acabar com a própria vida com dignidade ao saber-se condenado à morte nas zonas geladas do Alasca. É a única imagem de que me lembro.”
Pensa num conto de London, “To build a fire”, do livro Farther North, os contos de Yukon. Nesse conto aparece o mundo da aventura, o mundo da exigência extrema, os detalhes mínimos que produzem a tragédia, a solidão da morte. E parece que Guevara teria recordado uma das frases finais de London: “Quando havia recobrado o fôlego e o controle, sentou-se e recriou em sua mente o conceito de afrontar a morte com dignidade”.
Guevara encontra no personagem de London o modelo de como se deve morrer. Trata-se de um momento de grande condensação. Não estamos longe de um Dom Quixote, que procura nas ficções que leu o modelo da vida |