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segunda-feira, 29 de outubro 2007
Cristina Kirchner
O peronismo é o eixo central, a variável sem a qual não se entende a política argentina. A eleição de 1983, de Raúl Alfonsín (da União Cívica Radical), foi a primeira vez, em 40 anos, que o peronismo foi derrotado em eleições abertas. Primeira e última, até agora. Voltaria a sê-lo em 1999, com a vitória de de la Rúa (obrigado, dra). Mas até este domingo, a reeleição de Perón em 1952 havia sido a única vez que o peronismo havia renovado a Casa Rosada por eleições democráticas em final de mandato completamente concluído. Em outras palavras, a única vez em que o Peronismo passou as faixas democraticamente a um sucessor foi quando Perón, reeleito, entregou-as a si mesmo. (dra me corrige com razão: Menem também o fez em 1995; seu programa era tão pouco "peronista" que eu havia me esquecido). De lá para cá, a Argentina acrescentou alguns nomes à lista de presidentes depostos. Até a ditadura militar teve presidentes que renunciaram, coisa insólita para padrões latino-americanos.
O modelo argentino difere daquele do Chile que, ao longo de sua história (exceto, claro, de 1973 a 1989), consagra o tripartidarismo representado por socialistas/comunistas, democracia cristã e direita; diferencia-se também do bipartidarismo liberais/ conservadores próprio à Colômbia, ao Paraguai e à América Central; tem pouco a ver com o modelo mexicano, que é um virtual unipartidarismo construído via burocracia estatal pós-Revolução; tem também pouco a ver com a salada brasileira, que mistura períodos de ditadura militar partidarizada (1964-79) com perídos de tripartidarismo (1945-64) com épocas de explosão partidária fisiológica e confusa (1982 até agora).
Ao contrário dos partidos brasileiros, em geral, os (dois) partidos argentinos são muito representativos. Na realidade, é este o seu problema: são representativos demais. Não existe representação fora deles. Nos últimos anos, aliás, com o fracasso de alternativas que apareceram à esquerda (como o Frepaso, de Chacho Álvarez, que sumiu) e o colapso da União Cívica Radical, não existe representação fora do partido peronista (Justicialista), ponto final.
Daí que não seja má notícia a eleição de Cristina Kirchner, por mais que se possa dizer que o casal se sustenta no clientelismo que levou gente como Beatriz Sarlo a romper com o governo. As alternativas não eram animadoras: a segunda colocada, Elisa Carrió, tinha posições “à esquerda”, mas era uma espécie de Heloísa Helena de São Tomé das Letras, uma “engajada” que chegou a dizer que falava com Deus (por mais coincidência programática que eu tenha com alguém, jamais votaria em quem diz falar com Deus. Acreditar e pedir, tudo bem; falar com, de jeito nenhum. Pessoas que falam com Deus são perigosas). Roberto Lavagna, versão mais tecnocrática do mesmo pacto que elegeu Kirchner, não conseguiu o segundo lugar; apanhou até da esquerdona maluca. A direita argentina, agrupada em torno a López Murphy, havia tido 17% na eleição anterior, agora despencou para 1,1%, percentual que não leva dito cujo nem mesmo ao Congresso.
Pelo menos em dois sentidos faz muita diferença ter Cristina e não Néstor (daí minha alegria moderada com esta eleição): é provável que Cristina esteja mais distante de Chávez do que esteve seu marido. Mais próxima de Lula e até, em algum sentido, dos EUA. O que, quem sabe, talvez não seja ruim. Por outro lado, é significativo que seja uma mulher a assumir o poder. Cristina não é a primeira, claro, mas María Estela Martínez de Perón entre 1974 e 1976 foi menos uma presidente que um frango no abatedouro. Vale a pena apostar que a história não se repetirá, o que já é alguma coisa.
Escrito por Idelber às 05:10 | link para este post
| Comentários (16)
#1
Eu fico feliz por mais um motivo: Ela é mulher. :) Abraços.
é muito significativo sim, conterrânea, sem dúvida :-)
Nalu em outubro 29, 2007 7:09 AM
#2
Idelber,
Não sei se entendi muito bem essa sua idéia de que a Cristina pode ter uma posição um pouco diferente do maridão em relação à Chavez, Lula e EUA.
Será ?
Luiz em outubro 29, 2007 8:10 AM
#3
Salve, Idelber.
Não se esqueça do contato do Rodrigez Sáa com extraterrestres, provavelmente em função daquela rodovia maluca que ele construiu em San Luís, e que de fato parece uma pista de pouso.
Compartilho do seu otimismo moderado com Cristina K. Néstor Kirchner tem três grandes méritos: a recuperação econômica da Argentina, a renegociação da dívida externa e a valorização dos Direitos Humanos, com o fim das leis de impunidade de Alfonsín e Menem.
Os problemas: corrupção, clientelismo, autoritarismo, manipulação da inflação, política externa intransigente. Critina tem mais jogo de cintura, afinal são 20 anos de experiência parlamentar. Acho que ela irá amenizar alguns desses problemas e também aposto na melhora das relações com os EUA, em particular se os democratas vencerem em 2008.
Abraços
Mauricio Santoro em outubro 29, 2007 10:11 AM
#4
deixa eu fazer o papel de chato e botar uns arreparos no seu páragrafo de abertura?
nada q mude o essencial da análise, mas detalhes são detalhes, e guardam sua importância, né?
1) De la Rúa, da UCR, tb foi eleito derrotando o PJ, em 1999. Alfonsín não foi o único.
2) A reeleição de Menem, em 1995, foi outro momento em q os peronistas "renovaram a Casa Rosada por eleições democráticas em final de mandato completamente concluído". Aliás, um caso bem parecido com o de 52, já q Menem entregou as faixas a ele mesmo, reeleito.
Veja q, desde o golpe militar de 1930, apenas quatro presidentes conseguiram terminar um mandato: Augustin P. Justo (1932-38), Perón (1946-52), Menem (1989-95) e agora Kirchner (2003-07).
Justo e Perón era militares, vale lembrar...
é por isso q eu não invejo muito a incisividade do debate político argentino qdo comparado com uma certa modorra brasileira (q, aliás, vc notou bem no post sobre nossa suposta polarização, uns dias atrás).
a política brasileira busca sempre a conciliação, e a argentina busca a ruptura. e não tem a menor preocupação em evitar o derramamento de sangue. é um país q caminha sempre no limite da guerra civil.
abs,
dra em outubro 29, 2007 10:28 AM
#5
Pô, Idelber, lamentável.
O Gilberto Gil escreve uma canção chamada "Se eu quiser falar com Deus", fato que demonstra claramente a tendência - diria até ânsia - de nosso ministro a um comportamento psicótico frente a realidade e lá vem você, de forma indireta, subliminar e latente, atacar o governo Lula declarando que pessoas que falam com Deus seriam perigosas? O ministro quer ser perigoso? Explique-se!
Ora, Idelber. Nós, que lemos tuas entrelinhas e todos os teus interstícios, ficamos indignados com esta solerte agressão a um dos membros mais estáveis e indemitíveis de nosso governo.
Exigimos retratação imediata!
(Mas, escuta, a freirinha HH não chega a falar com Deus, né? Vi umas fotos dela falando muito intimamente com o Suplicy e só.)
Gigantesco abraço.
Milton Ribeiro em outubro 29, 2007 10:53 AM
#6
Dúvida: não seria idemitível?
Milton Ribeiro em outubro 29, 2007 10:59 AM
#7
Idelber,
depois de analisar atentamente a situação de Cristina, cheguei à óbvia conclusão: ela está muito mais próxima do México do que de Chavez ou dos EUA.
A menina tem toda pinta de atriz mexicana. A Televisa, aquele SBT mexicano, já deve tá de olho.
P.S E Milton tem razão. Deixe o ministro em paz. Já não bastam João Ubaldo e Flora atazanando o coitado?
de atriz mexicana, algo ela tem sim :-) .
Franciel em outubro 29, 2007 12:48 PM
#8
Caro Idelber, você tem razão. E só mesmo a rica Argentina para passar por tantos infortúnios, como alguns que você menciona, e continuar em pé. E isso contra a previsão de vários brasileiros, que sempre esperam, OU TORCEM, para que a vizinha Argentina se encontre pior do que ela costuma estar.
Acompanho sua “alegria moderada” com a eleita, NÃO POR ELA, mas por este país que com essa curiosa composição partidária, por você mencionada, MERECE MELHOR SORTE!
Não creio que o fato da presidência ser ocupada por uma mulher seja importante NESTE MOMENTO, apesar da agora presidente BADALAR ESTA CONDIÇÃO.
E também lembrar que alguém que não foi presidente, mas que desmontou grande parte da economia argentina foi Martinez de Hoz.
Vamos torcer!
P.S.: É incrível como o final do mandato dos presidentes da UCR foi sempre trágico!
Paulo em outubro 29, 2007 12:55 PM
#9
correções do dra estão certíssimas. Vou dar uma retocada no texto.
Idelber em outubro 29, 2007 2:17 PM
#10
Milton, um eu-lírico pode "falar com Deus". Um político jamais. Se Gil repetisse aqueles versos como ministro, eu retiraria totalmente meu apoio :-)
Te cuida, Colorado!
Idelber em outubro 29, 2007 4:48 PM
#11
Luiz, muitos analistas estão prevendo esse ligeiro ajuste na política externa argentina. Não é idéia original minha, não, como aponta o Mauricio aí em cima.
Idelber em outubro 29, 2007 4:49 PM
#12
Caro Idelber,
A vitória da Senhora "K", como chamam aqui no Chile é sem dúvida mais uma vitória da questão do gênero. No entanto, há uma ressalva, a Bachelet continua sendo a única mulher a liderar um país da América Latina sem ter relações pessoais que lhe colocaram nesta situação.
Claro, isto de forma alguma retira o valor da sua vitória, Ojalá que faça um excelente governo. Me encanta a Argentina.
Abraços!
Márcio Pimenta em outubro 29, 2007 10:37 PM
#13
Cristina gosta de se maquiar e parece que não é apenas ela que está maquiada. A economia colocou botox. A crise energética -- e parece não existir luz no fim do tunel -- foi camuflada com pó de arroz. Ao lado disso, temos o desencanto com a política que parece tomar conta de todos os rincões e províncias. Maquiagens e desencanto essa é a Argentina de hoje. Em compensação, o malbec continua muito bom.
Carlos Maia em outubro 30, 2007 2:12 PM
#14
Esta eleição me deixa muito pessimista com a Argentina. ùtlima vez q aconteceu algo assim por lá (Isabelita, s enão me engano), eles tiveram uma ditadura cruel, estúpida, idiota e ganharam uma Copa do Mundo.
Bender em novembro 5, 2007 12:31 PM
#15
Idelber, eu confesso que não estava muito seguro de que a sra. Kirchner era a melhor opção entre as existentes no pleito presidencial argentino. Mas, depois de saber mais sobre a sra. Elisa Carrió, passei a ter certeza de que não havia muito o que fazer.
Ainda estou tentando entender o Kirchner. O cara conseguiu abater 75% da dívida argentina e o país não foi para o inferno... Pelo contrário, parece estar crescendo (ou melhor, se recuperando do baque sofrido no final de 2001). Parece tão fácil... Mas ainda não consegui entender a mágica. Há algum tempo, conversei sobre Kirschner com argentinos (uma família de classe média que mora em SP e um empresário que mora lá mesmo) e a resposta foi a mesma: "Ele é louco!". Pode ser louco, mas colocou o país nos eixos - ou, pelo menos, levou-o a algum lugar, coisa que os presidentes anteriores não conseguiram.
Seja como for, espero que as relações Brasil-Argentina melhorem cada vez mais (economicamente, politicamente, comercialmente, culturalmente) e que o país vizinho prospere. Já estive lá seis vezes (infelizmente, apenas uma a turismo) e considero a Argentina praticamente a minha segunda pátria.
Luiz Alberto Pandini em novembro 7, 2007 12:20 PM
#16
Idelber, agora que se concretizou a inquestionável e já previsivel vitória da candidata/esposa, espere pelos comentários das aves de mau agouro de plantão, vão dizer que a situação energética dos hermanos está um caos, que a economia está engessada, que a situação é artificial etc,etc. É sempre assim, quando um esquerdista ou ao menos alguem com algum comprometimento social ganha uma eleição esses corvos saem dos seus ninhos fazendo as piores previsões quando então há uma continuidade então nem se fala, para eles o único sol que brilha é o que vem do norte, goela abaixo, via FMI, via intervenção na economia, via doação de patrimonio público, criticam sempre os mais ligados aos menos favorecidos com chavões e clichês tipo " tem que ensinar a pescar e não dar o peixe", " a esmola vicia o cidadão" e outor sem numero de ditos populares infames e desprovidos de conteúdo, malham o assistencialismo e quando tomam o poder só querem avançar no cofre do governo e na jugular do povo, povo de país latino que vota nessa corja de liberais , centristas, direitistas e toda a sorte de neo-socialistas não merece nem perdão, é omesmo que querer perpetuar a sua espécie assassinando os seus filhos, não sou petista, não sou comunista, não sou lulista oque eu sou mesmo é realista, acredito que pertença a uma categoria de brasileiros que consegue se manter com alguma dignidade e muito sacrificio sendo tecnico de manutenção, para os padrões tupiniquins dá para receber um salário razoável, pois bem em 8 anos de governo neo liberal do canalha do FHC e sua corja, o unico que consegui foi ter direitos históricos arrancados e ver o meu nivel de vida despencar, a situação ficou preta..só não ficou pior porque nos 8 anos de politica de terra arrasada(tanto aqui quanto na argentina com escroque do menen)já não tinham mais o que rapinar e fugiram, deixando os governos de cunho popular reerguerema economia para poderem voltar no futuro e arrasar com o resto, essa é a cara dessa direita que nem é direita´, são apenas bandidos, simples delinquentes, ladrões comuns, essa é a realidade, devemos nos vacinar deles para sempre, assim como nos livramos da igreja, da santa inquisição, de luiz xvi, de maria antonieta, de hitler........
rubem r. gonzalez em novembro 7, 2007 2:11 PM