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terça-feira, 27 de novembro 2007
Em São Paulo
Aqui vai um convite para quem estiver nas imediações de Campinas: realiza-se de quarta até sexta o encontro Escritas da Violência, na UNICAMP, com a participação de uma série de pesquisadores internacionais. Confiram a programação.
Será em Sampa, na próxima segunda, o lançamento do primeiro livro do meu amigo Marcos Donizetti, Meias vermelhas e histórias inteiras, publicação d' Os Viralata. Endereço, horário e detalhes, aqui.
Em Sampa acontecerá também o debate direita x esquerda que vai abalar as estruturas da blogosfera: O Biscoito Fino e a Massa versus A Torre de Marfim. Em breve, um podcast com a surra que provavelmente levarei do Marcos.
Ir a São Paulo sempre dá um friozinho na barriga. Lá, mais que em qualquer lugar, eu me lembro de que sou mineiro.
E parece que vou conhecer mais uma ídola.
Vamos ver como estará a conexão em Campinas e em Sampa. Se estiver tudo bem, o blog continuará com atualizações diárias. Se não estiver, tiro um break e vou ao Solar dos Biajoni tomar cerveja.
Em Viracopos a pista tem ranhuras, né?
Escrito por Idelber às 16:39 | link para este post
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segunda-feira, 26 de novembro 2007
Momento jabá
Minhas desculpas aos leitores a quem isso não vai interessar, mas acaba de ser publicado nos EUA um estudo que eu absolutamente não posso deixar de comemorar aqui no blog. Saiu o Faculty Scholarly Productivity Index do ano de 2007. Trata-se da auferição comparada da produtividade dos professores universitários do país todo, em todas as disciplinas.
Pois bem, o Departamento de Espanhol e Português de Tulane University acaba de emplacar um segundo lugar em produtividade entre as 375 universidades americanas que oferecem doutorado. Sim, somos os segundos mais produtivos entre todas as universidades norte-americanas em nossa disciplina. Quem conhece a competitividade do sistema acadêmico do Tio Sam sabe o que isso significa.
Ainda por cima, trata-se de um lugar maravilhoso para se trabalhar: sem invejas, sem facadas pelas costas, sem policiamento da escrita e magistério alheios. Um lugar onde as reuniões departamentais começam e terminam com risadas. Acreditem, isso existe. Para conhecer melhor as doze feras que trabalham comigo, clique aqui. Os últimos prêmios e distinções recebidos pelos professores de Espanhol e Português de Tulane estão listados aqui. Um pouco da nossa história, aqui. As últimas publicações, aqui. Parabéns, rapaziada. Muito especialmente, parabéns ao almirante da nau, meu brother Christopher Dunn.
Amém nóis tudo.
PS: Meu muito obrigado a Fernando Serboncini e ao pessoal do escritório do Google em Belo Horizonte, que nesta segunda-feira me recebeu para almoço e uma palestra -- em inglês! -- sobre meu projeto de pesquisa com a música brasileira. Fizeram um vídeo da palestra e acho que em breve ela estará no YouTube. De quebra, ainda conheci minha ídola Luiza Voll, uma das blogueiras mais admiradas do país. Valeu.
Escrito por Idelber às 23:41 | link para este post
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domingo, 25 de novembro 2007
Cala-boca morreu em Ayacucho
Os tapuias que celebraram com tanta ênfase o pito do Rey Juan Carlos em Hugo Chávez talvez tenham se apressado um pouco. Vejam aqui um curioso desdobramento do caso. Edmílson, volante do Barcelona e pentacampeão do mundo pela Seleção Brasileira, deu na semana passada uma daquelas declarações completamente anódinas e típicas de jogador de um time que passa por um mau momento. Disse que nem todos estão se empenhando e que há “ovelhas negras” no vestuário. Bastou para que o diário Mundo Deportivo estampasse a foto do jogador com o já banalizado bordão ¿por qué no te callas?.

A relação entre os dois cala-boca merece ser explorada. A colonização espanhola na América Latina tinha uma peculiaridade desconhecida em outras latitudes, a instituição do requerimiento. O dito cujo era um texto que os colonizadores espanhóis liam diante dos indígenas (em espanhol, obviamente), advertindo-lhes de que aquelas terras agora pertenciam, com a graça de Deus, à sua majestade o Rei de Espanha, e que eles deveriam se render e converter-se ao catolicismo ou aceitar ser dizimados. O requerimiento era, portanto, um ato de fala, um speech act no sentido que dão ao termo Austin e Searle: um enunciado lingüístico que não comunica nada, mas opera sobre a realidade (o exemplo de Searle é o padre/ juiz que enuncia eu vos declaro marido e mulher: frase que não é comunicação de algo que está acontecendo na realidade, mas confecção dessa própria realidade).
Há mais coisas em comum entre o requerimiento e o ¿por qué no te callas? que sonham os nossos tupinambás que o celebraram. A maioria das reações ao evento foi uma tremenda inversão de valores: chegou-se a dizer que o rei da Espanha havia dado uma “aula de democracia” ao “ditador” venezuelano. Dá para imaginar uma inversão maior? Um monarca ungido por Francisco Franco, que nunca recebeu um voto na vida, interrompe com um ¿por qué no te callas? um presidente que já venceu meia dúzia de eleições internacionalmente monitoradas, e que reclamava da participação criminosa da Espanha numa tentativa de golpe de estado na Venezuela. Este cala-boca é interpretado como aula de democracia? Curiosa concepção de democracia.
Hugo Chávez é um chato intragável, eu reconheço. Sim, eu preferiria compartilhar uma Westmalle com Zapatero ou com o Rei Juan Carlos, antes de fazê-lo com Chávez. Mas não é disso que se trata. Trata-se de alertar os compatriotas tamoios a respeito de uma obviedade: comemorem o cala-boca imperial no moreninho venezuelano, e o próximo moreninho silenciado será você.
O uso do pronome informal tú -- por qué no te callas -- com verbo em modo imperativo, em situação onde não há informalidade pressuposta entre os interlocutores, é agressiva, grosseira e mal-educada. Chefes de estado se tratam por usted. É o pronome do respeito. Ao escolher a forma tú, o monarca ungido por Franco deixou muito claro o fato de que não respeitava o seu interlocutor como um igual, fato pouco observado pelos aimorés que celebraram o cala-boca como "aula de democracia".
Até onde sei, nem Zapatero, nem Aznar, nem Juan Carlos desmentiram a acusação de Chávez – a de que a embaixada espanhola transformou-se em centro de tramóia golpista contra um governo venezuelano legitimo. Por que não celebrar como aula de democracia o fato de que o presidente legitimamente eleito derrotou o golpe e depois teve a oportunidade de confrontar os chefes dos estados que estimularam o golpe com a acusação clara, cara a cara, não desmentida por nenhum dos ibéricos? A peroração de Zapatero sobre a possibilidade de se "discrepar radicalmente" sem "desqualificar" o interlocutor não poderia ser mais falsa. É falsa ética e historicamente. A possibilidade de se discrepar de forma suave e bem educada é, historicamente, prerrogativa dos dominadores. Os dominados, quando conseguem falar, não costumam ser muito suaves.
Gosto da Espanha. Madri está no meu top 5 mundial, devo tudo o que tenho ao meu aprendizado de seu idioma e sou muito bem tratado quando vou lá. Mas o uso do cachimbo deixa a boca torta. É difícil encontrar acadêmicos espanhóis – e cito minha área porque a conheço melhor -- que não entendam a “colaboração” com a América Latina de forma hierárquica. Na maioria dos casos, nem em colaboração pensam.
Eu, particularmente, jamais, jamais celebrarei um cala-boca espanhol – ainda mais do rei franquista, por mais elegante que seja! -- sobre um latino-americano -- ainda mais um presidente legitimamente eleito, por mais chato que seja. Cuidado, pois, com as pecinhas que nos prega o imaginário no momento da identificação.
Escrito por Idelber às 23:59 | link para este post
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quinta-feira, 22 de novembro 2007
Juan L. Ortiz, um poema
Juan L. Ortiz (Juanele) nasceu em 11 de junho de 1896 em Puerto Ruiz, Entre Ríos. Em 1942 mudou-se a Paraná, capital da mesma província, onde morou até sua morte, em 2 de setembro de 1978. Com a exceção de algumas rápidas idas a Buenos Aires e uma breve visita à China e a outros países socialistas em 1957, jamais abandonou sua morada, às margens do rio. Ali dedicou toda a vida a uma única tarefa: tecer uma obra poética singular, que renovaria o idioma como poucas. Debutou em 1933 com El agua y la noche. Seus primeiros dez livros – todos publicados discretamente, sem estardalhaço, sem reclamos de atenção, como cifras para um leitor futuro – seriam reunidos a outros três volumes inéditos sob o título En el aura del sauce em 1971. Há uma pequena amostra da obra de Juanele disponível na internet.
O poema que traduzo abaixo, “Sí, las escamas del crepúsculo...”, abre o volume De las raíces y del cielo (1958). Ignoro se é o primeiro poema de Juan L. Ortiz a ser vertido ao português.
Sim, as escamas do crepúsculo...
Sim, as escamas do crepúsculo
no fio, último?, de Novembro sobre o rio:
ou o êxtase dos véus de Novembro
fluindo até a noite, e mais além? ...
incrível de ecos
e de fugas e passagens
de não se sabe já
que despedida ou que chamado
Sim, o fluido profundo, sobre ouro,
que nimba o barranco
e inscreve misticamente uma árvore alta,
e irradia, até quando?
umas vagas pétalas de íris...
Sim, sim,
o verde e o celeste, revelados,
que tremem por volta das dez porque partem,
e na meia tarde se desfazem ou se perdem
em sua mesma água fragílima...
Sim, sim, sim
Mas veio a luz, estava só a luz
detrás das persianas da manhã íntima:
veio a criatura eterna, o sentimento das estrelas,
a eucaristia dos mundos, a alma primeira
antes, antes do prisma,
com essa flauta branca, inefavelmente branca, sempre imposta sobre o caos...
Veio a luz, veio a menina essencial,
impossivelmente pura das folhas e de suas próprias asas,
até um esquecimento cheio dela
como do olhar, único, de uma estiagem nunca vista....
Escrito por Idelber às 06:25 | link para este post
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terça-feira, 20 de novembro 2007
Links
Hoje, só links:
Os textos jornalísticos sobre o Brasil publicados na Argentina invariavelmente trazem aquela boa dose de idealização. Mas convenhamos, esse do La Nación bateu qualquer recorde.
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No seu último comentário a esse seu próprio post, Daniel Link parte com tudo para cima do fascismo anti-tabagista.
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Ainda na Argentina: sem dúvida, Mestre Fogwill já teve dias melhores.
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Adorei conhecer estes dois blogs: hunny.bunny e nerd-o-rama (via mary w).
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O texto é velho, mas eu só vi agora: nos anos 80, você era uma pessoa U2 ou uma pessoa REM? Um doce para quem adivinhar em qual tribo eu me encaixava.
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Aqui vai mais um triste retrato da impunidade e da violência no campo.
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A vantagem de ter má memória é que se goza muitas vezes com as mesmas coisas. Nietzsche e seus aforismos maravilhosos. Tem mais um monte, em espanhol, aqui.
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Você aí, já se inteirou do mais recente escândalo do futebol brasileiro?
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Festa na blogosfera: Pensar Enlouquece é eleito o melhor blog em português na votação popular da Deutsche Welle. Parabéns, cumpadi.
Escrito por Idelber às 04:52 | link para este post
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domingo, 18 de novembro 2007
Tréplica de Jon Anderson a Diogo Schelp
Depois de apelar ao seu vigoroso programa anti-spam como desculpa para não ter recebido a resposta de Jon Anderson, em que o maior biógrafo de Che Guevara aceitava seu pedido de entrevista, Diogo Schelp, da Veja, enviou-lhe uma grosseira réplica em que acusava -- divertidamente -- o jornalista da New Yorker de "anti-ético" por ter divulgado a "comunicação" entre os dois. Nessa réplica, escrita para justificar a peça de propaganda insultante publicada pelo folheto semanal da Editora Abril sobre Che Guevara, Diogo Schelp também ameaçava Jon Anderson -- um dos maiores jornalistas do mundo -- com o terrível castigo de jamais aparecer de novo nas páginas da Veja. Pois bem, Daniel Lopes entrou em contato com Jon Anderson e publicou em seu blog a tréplica, em inglês, do jornalista norte-americano. Eu cheguei a traduzir dois parágrafos do texto ao português antes de ver que o Pedro Dória já o havia traduzido e publicado em seu blog. O que segue abaixo, então, é a tradução do Pedro Dória (impecável, como sempre) da tréplica de Jon Anderson, cujo original está disponível aqui.
Prezado Diogo Schelp:
Agradeço pelo sua ‘gentil’ resposta. (Soube, graças a você, que você é de fato uma pessoa muito ‘gentileza’; você mesmo o disse duas vezes em suas mensagens.) Só agora percebo, o mal-entendido entre nós nasceu exclusivamente por conta de meu caráter profundamente falho. Eu jamais deveria ter presumido que você recebera meu email inicial em resposta ao seu ou minha segunda mensagem a respeito de sua reportagem, muito menos deveria ter considerado que você pudesse ter decidido ignorá-los. É evidente que você tem um sistema de bloqueio de spams muito rigoroso. Uma dica técnica: talvez você devesse configurar seus sistema como ‘moderdo’ e não ‘extremo’. Se o fizer, talvez comece a receber seus emails sem quaisquer problemas. Lembre-se, Diogo: moderado, não ‘extremo’. Esta é a chave.
Você me acusa de ser antiético, um ‘mau jornalista’. Você questiona até se posso ser chamado de jornalista. Nossa, você TEM raiva, não tem?
Enquanto tento parar as gargalhadas, me permita dizer que, vindo de você, é elogio. Permita, também, recapitular por um momento a metodologia utilizada por você para distorcer as informações que o público de Veja recebeu:
Você publicou na capa e na reportagem uma grande quantidade de fotografias de Che, aproveitando-se assim da popularidade da imagem de Guevara para vender mais cópias de sua revista. Para preencher seu texto, você pinçou uma certa quantidade de referências previamente escritas sobre ele – incluindo a minha – para sustentar sua tese particular, qual seja, a de que o heroismo de Che não passa de uma construção marxista, como sugere seu título: ‘Che, a farsa do herói’.
Para chegar a uma conclusão assim arrasa-quarteirão, você também entrevistou, pelas minhas contas, sete pessoas. Uma delas era um antigo oponente de Che dos tempos da Bolívia. As outra seis, exilados cubanos anti-castristas, incluindo ex-prisioneiros políticos e veteranos de várias campanhas paramilitares para derrubar Fidel. (Um destes, o professor Jaime Suchlicki, você não informou a seus leitores, é pago pelo governo dos EUA para dirigir o assim chamado Projeto de Transição Cubana.) Percebi também que você prestou particular atenção no testemunho de Felix Rodriguez, ex-agente da CIA responsável pela operação que culminou na execução de Che. O fato de que você o destaca quer dizer que você o considera sua melhor testemunha? Ou terá sido porque ele foi o único que algum repórter realmente entrevistou pessoalmente? Os outros, parece, Veja só falou com eles por telefone. Mas como são rigorosos os critérios de reportagem de Veja!
Como disse em minha ‘carta aberta’ a você, escrever uma reportagem deste tipo usando este tipo de fonte é o equivlente a escrever um perfil de George W. Bush citando Mahmoud Ahmadinejad e Hugo Chávez. Em outras palavras, não é algo que deva ser levado a sério. É um exercício curioso, dá para fazer piada, mas NÃO é jornalismo. Dizer a seus leitores, como você diz na abertura da reportagem, que ‘Veja conversou com historiadores, biógrafos, ex-companheiros de Che no governo cubano’ passa a impressão de que você de fato fez o dever de casa, que estava oferecendo aos leitores um trabalho jornalístico bem apurado, que apresentaria algo novo. Infelizmente, a maior parte do que você escreveu é mera propaganda, um requentado de coisas que vêm sendo ditas e reditas, sem muitas provas, pela turma de oposição a Fidel em Miami nos últimos quareta e tantos anos.
Minha questão não é política. Escrevi um livro, como você mesmo disse, que é ‘a mais completa biografia’ de Che. Há muito lá que pode ser utilizado para criticar Che, mas também há muitos aspectos a respeito de sua vida e personalidade que muitos consideram admiráveis. Em outras palavras, é um retrato por inteiro. Como sempre disse, escrevi a biografia para servir de antídoto aos inúmeros exercícios de propaganda que soterraram o verdadeiro Che numa pilha de hagiografias e demonizaçoes, caso de seu texto.
Não cometa o erro de me acusar de defender Che porque critico você. Serei claro: a questão aqui não é Che, é a qualidade do seu jornalismo. Sua reportagem, no fim das contas, é simplesmente ruim e me choca vê-la nas páginas de uma revista louvável como Veja. Seus leitores merecem mais do que isso e, se aparecerei ou não novamente nas páginas da revista enquanto você estiver por aí, não me preocupa. O que PREOCUPA é que, com tantos jornalistas brilhantes como há no Brasil, foi a você que Veja escolheu para ser ‘editor de internacional’.
Cordialmente,
Jon Lee Anderson
Escrito por Idelber às 14:16 | link para este post
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sábado, 17 de novembro 2007
Filosofando às portas do trem
Maravilhas do jet lag: você passa 48 horas sem dormir, num bagaço, chega ao hotel às 11 da noite, em pânico porque tem que se levantar às cinco e meia para pegar um trem. Depois de seis horas de sono, você acorda, antes do despertador, e se sente como se tivesse dormido doze.
Acabei antecipando minha volta a New Orleans para hoje. Ia ficar aqui no Países Baixos até segunda, mas bateu canseira e saudades do meu amor.
Perguntar não ofende: por que as Nações Unidas, ao invés de ficar discutindo banalidades, não se reúnem e unificam o raio das tomadas no planeta inteiro? Algum dos eruditos leitores que entenda de correntes elétricas poderia me explicar por que isso é tão difícil? Acho que outro dia a Corinha escreveu uma crônica sobre o tema. Das coisas mais enervantes que há é chegar em outro país e procurar loja de materiais elétricos para a conseguir o adaptador certo.
Volto por Nova York, com conexão apertada. Não será desta vez que tomarei uma cervejinha com Deus.
PS 1: Alguém me disse que terça-feira é feriado aí no Brasil. Confere? Que feriado é esse, do qual eu não me lembro? Já não houve um anteontem?
PS 2: A partir do próximo sábado, o Biscoito transmite, durante uma semana, de Belo Horizonte e de Sumpaulo.
Escrito por Idelber às 00:41 | link para este post
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quinta-feira, 15 de novembro 2007
Na Holanda e Bélgica, 3
Foi só mesmo depois de três dias na Holanda que me dei conta de que, pela primeira vez na vida, estava num país cuja língua desconheço totalmente. Em Amsterdã isso quase não se nota, porque todo mundo fala inglês. Mas tomando o trem para Nijmegen, já na área doméstica da estação, não deu para evitar um certo pânico: tudo em holandês. Aí me dei conta de que, ao vir para cá, agi como um verdadeiro gringo. Não comprei um dicionário de holandês, não dispendi o menor esforço para aprender algumas palavras básicas, não fiz nada. Resultado: me embananei e desci na estação errada. Não foi nenhum drama. Era só uma questão de esperar o próximo trem para Nijmegen. Mas, envergonhado, fui à livraria e comprei um dicionário básico de Nederlands.
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Vejam só a picaretagem que são essas maquininhas de tradução: se você for ao Altavista Translator e digitar “I am sorry I do not speak Dutch” (nessas máquinas é bom evitar as contrações), ela cospe de volta Ik ben droevig ik het geen Nederlands spreek, uma monstruosidade que faria um holandês morrer de rir (“ik ben droevig” é algo assim como “estou desolado e triste”) . O correto é um simples surry ik spreek geen nederlands. Todos os G's em holandês soam como R's guturais (como o H do inglês ou o J do castelhano). Você leu aqui no Biscoito primeiro.
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Palestrei ontem na Radboud Universiteit Nijmegen, para os catedráticos e alunos de literaturas hispânicas. O tema foi Dos veces junio, de Martín Kohan. Como o eixo do romance é o futebol, não resisti e comecei a dissertar sobre a Laranja Mecânica. Falei daquela bola do Resenbrink na trave, no final do jogo, que teria dado o título à Holanda em 1978. Discutimos uma questão interessante que Martín Kohan averiguou em suas pesquisas: se a Copa de 1978 foi transmitida em preto-e-branco para a Argentina, por que todas as pessoas a quem o autor dirigiu a pergunta se lembram dela a cores? Acabamos, depois, voltando para a literatura – se é alguma vez saímos dela.
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Nijmegen (pronuncia-se “Nái-mê-rren”) tem uma história interessantíssima. Confesso que a ignorava por completo. É uma cidade que, em 2005, comemorou 2000 anos de existência! Sim, é isso que você leu, não há nenhum zero a mais aí não. O nome, que soa tão nórdico, é na verdade a contração de Ulpia Noviomagus Batavorum, nome dado pelo imperador Trajano no século I. Daí virou Noviomagus, para depois evoluir ao seu nome atual. É a cidade mais antiga da Holanda, foi a primeira a cair em mãos dos nazistas, e foi fortemente bombardeada pelos norte-americanos. Visitei as ruínas.
Em Nijmegen, devo gratidão ao Prof. Maarten Steenmeijer e a um verdadeiro anjo da guarda, a super poliglota Prof. Brigitte Adriansen, que me ajudou bastante com o holandês e com as estações de trem. Dank u wel!
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Hoje palestrei na Bélgica francófona, na Université Catholique de Louvain. Esta palestra foi sobre El director, fascinante romance de 2005 do argentino Gustavo Ferreyra, e foi parte de um congresso sobre representações do apocalipse na literatura. O congresso continua amanhã aqui em Gante, na Bélgica flamenga. Deixo a nota de gratidão às Profs. Geneviève Fabry, de Louvain, e Ilse Logie, de Gante, responsáveis pelo convite que me trouxe à Europa.
A Bélgica passa por uma terrível crise política, fruto, em parte, de recentes alterações na legislação que regula o bilingüismo no país. Bruxelas, a capital, fica na parte flamenga, mas pelo menos 80% de seus habitantes são francófonos. Obviamente, na parte flamenga do país, é muito melhor se virar em inglês do que em francês.
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Está sendo bacana poder usar o francês um pouco. Há anos eu não o usava. Está um pouco enferrujado, mas sai.
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Por que será que, em qualquer país do mundo, os turistas norte-americanos são imediatamente reconhecíveis pela prepotência do seu comportamento, pela arrogante pressuposição de que todos devem falar sua língua, pelo constante desrespeito e falta de consideração pelas regras locais? Ontem houve um momento de justiça poética: um típico gringo esbravejava, dando faniquitos, na estação de trem. Um educadíssimo funcionário holandês lhe explicava, em inglês, que ele deveria aguardar até que o seu número fosse chamado. O turista passou a gritar insultos contra o país. Eu, apaixonado pela Holanda que ando, não resisti. Virei para ele, na frente de todo mundo, caprichando na entonação, e soltei: Sir. I think you should calm the fuck down. You’re not better than anyone. You’re in their country, there’s somebody explaining the rules to you in your language, and you still feel entitled to insulting them? Then you don’t understand why Americans are hated all over the world. Shut the fuck up and wait for your turn or just leave. O gringo calou a boca, enfiou o rabo entre as pernas e entrou na fila. Acredito ter visto alguns sorrisos discretos entre os holandeses.
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Não entendeu o que está escrito acima? Peça ao Reinaldo Azevedo para traduzir. O Reinaldinho, sabemos, é aquele que traduz "graduate study" por "curso de graduação", para, com base a sua tradução errada, fazer piada com a suposta ignorância de Lula. Ele agora deu para corrigir o inglês do Pedro Dória. Em breve, Reinadinho, o monoglota, corrigirá o alemão de Modesto Carone. Sobre mais este esdrúxulo episódio envolvendo a revista Veja, o Hermenauta já disse tudo. Mas vale sublinhar: todas as “correções” feitas por Reinaldinho à tradução do Pedro estão erradas. Pedro traduziu “accurate journalism” como “jornalismo imparcial”, o que pode até não ser exato. Mas “jornalismo cuidadoso ou acurado”, como sugere Reinaldinho, é péssimo. “Accurate” é correto, exato. Nada a ver com cuidadoso. O oposto de “accurate” é “wrong”, “errado”, não “desleixado”. Você pode ser perfeitamente cuidadoso e estar errado. Ou ser descuidado e acertar. “Acurado” não é adjetivo que se use em português para qualificar jornalismo. Das três traduções na mesa, a do Pedro é de longe a melhor. “Jornalismo correto” também funcionaria. A parte mais patética da “correção” de Reinaldinho é dizer que “to put flesh and blood” numa figura deve se traduzir como “pôr humanidade”, em vez do perfeitíssimo “pôr pele e osso” usado pelo Pedro (“pôr carne e osso” também serviria). Ora, a própria existência de seres como Reinaldo Azevedo é prova cabal de que “carne e sangue” não são, absolutamente, exclusividade dos humanos.
A cara de pau do cão de guarda da Veja não tem fim. Finge que sabe latim, finge que sabe inglês. Se o Reinaldinho Azevedo provar que é capaz de encadear cinco minutos de conversa fluente em inglês – coisa que para o Pedro Dória é o pão com manteiga de cada dia – eu fecho este blog e passo a torcer para o ex-Ipiranga.
Escrito por Idelber às 21:40 | link para este post
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segunda-feira, 12 de novembro 2007
Amsterdã, 2
Eu ia pasar lá no blog da Mary W para fazer um comentário off-topic, quando vi que ela vai debater o Tropa de elite e recomendou o post daqui. Vai arrasar. Fiquei uau com a coincidência, nem comentei, só mandei email mesmo. O comentário off-topic ia ser sobre como tinha sido importante ler o blog dela, e que era bom visitá-la daqui de Amsterdã, onde os casais gays e lésbicas passeiam com tranqüilidade que nunca vi.
Numa sociedade que realmente não discrimina o homoerotismo, vê-se, cristalina, como é a pura paranóia tensa e ansiosa da homofobia que cria esse medo maluco de que permitir a exibição do amor homossexual vai “degenerar” alguma criança, influir na escolha sexual de alguém, “disseminar” uma coisa que supostamente deve ser contida.
Já se disse que 30% de Amsterdã é gay. Já se contestou esse número também, então não sei. Mas é fato que na Holanda a superação da homofobia já está galáxias à frente dos EUA, onde tudo ainda tem que ser via identidade, de forma segregacionista. Aqui não. São até poucos os hotéis, bares, etc. para gays. Sabe-se, dá-se por óbvio que gays, lésbicas e transsexuais são bem vindos em qualquer lugar.
Para um mineiro que estudou no sul dos EUA e trabalha no sul dos EUA, o choque cultural é considerável, vai dizer? (com vênia).
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Momento rango: um dos grandes baratos em Amsterdã é a cozinha da Indonésia. O prato abaixo tem o charme extra de que os espetos (de frango, camarão, porco) recebem um fogaréu na sua frente, para depois ser servido o molho, bem grosso, sobre as carnes e a cebola:

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Fuma-se em vários restaurantes e em todos os bares de Amsterdã. Civilização total.
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Medicina “socializada” x “capitalista”
Dor de dente provocada por inflamação embaixo de uma velha coroa. Tratamento nos EUA da “livre iniciativa”, onde alguns conglomerados de seguros controlam toda a administração da saúde: vários telefonemas para a companhia para localizar um dentista autorizado em New Orleans, vários dias para localizar um com horário, uma primeira visita só ver a ajudante e receber receita de drogas, segunda visita depois de dias, dedutíveis de $100 que vão se acumulando, até que, com sorte, talvez, você encontre o dentista que faça o que há que se fazer (tirar um raio X, abrir e drenar, fazer algo).
Processo que é velho conhecido velho meu, razão pela qual resolvi aguentar umas dores intermitentes, de 40 minutos,em três pancadas, toda noite, porque vou ao Brasil em breve, onde tenho dentista. Mas ontem à noite doeu forte, aí resolvi testar a Holanda.
Uma busca no Google para achar um dentista bilíngüe, uma clicada no skype para ligar; o cara atende ele mesmo o telefone, marca um horário comigo no mesmo dia, escuta a história, tira o raio X no ato, constata que não há nada errado com o dente embaixo da coroa, faz a limpeza e, incrivelmente sem nenhum medo de ser processado, abre e drena a gengiva. Fim da dor de dente. Custo total? 40 euros. Tempo gasto: 40 minutos.
São os horrores da “medicina socializada” que os conservadores americanos querem como loucos associar à Hillary Clinton e ao capeta. Como se o sistema de saúde atual dos EUA estivesse funcionando às maravilhas.
Escrito por Idelber às 22:32 | link para este post
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domingo, 11 de novembro 2007
Amsterdã, primeiro dia
Para além de todo o auê em torno à cidade, eu sempre quis vir a Amsterdã porque ela se parece com New Orleans. É o outro exemplo, o deles administrativamente bem sucedido, de se realizar essa maluquice: uma cidade que se espraia em caracol, abraçada por corpos de água e situada abaixo do nível do mar. Veja como elas são semelhantes:


A respiração da vida urbana das duas cidades é dada pelos canais de escoamento da água. Ao contrário de New Orleans, claro, Amsterdã tem sistemas de saúde e educação impecáveis, um transporte coletivo alucinantemente eficiente, população poliglota. Exatamente como New Orleans, tem uma cultura única, que você não vai encontrar em lugar nenhum do mundo.
A permissividade e tolerância, o erotismo exacerbado, a informalidade sorridente dos holandeses, seu incrível talento com as línguas, a beleza alucinante e compacta da cidade compõem um quadro impressionante. Cidade-vitrine, com certeza. Claro que é possível armar-se de um guia e fazer um roteiro das pontes, museus e tudo mais – pretendo fazê-lo. Mas a essência da cidade se oferece na caminhada ao léu, na qual você vai inevitavelmente trombar com o excesso de opções: arquitetura, pintura, música, comércio, beleza natural, diversão trash ou hardcore, vida cultural e gastronomia para ninguém botar defeito.

Sempre gostei da Holanda. Os brasileiros da minha geração e das anteriores que aprecia(va)m o futebol sabem o que foi aquela camisa laranja na Copa de 1974 (né, seu Mirto?). O que ela representou de renovação das regrinhas e táticas da brincadeira foi assombroso.
Sempre simpatizei com os holandeses porque nas viagens a outros países aprendi a reconhecê-los: certa informalidade no vestir, mesmo quando chiques (barbas, sandálias e bolsas não são raras), inglês impecável (superior em entonação ao excelente que costumam falar os alemães) e movimento em bando, com sorrisos. Se for loiro, não tem erro: é holandês. As mulheres são bem mais informais, relaxadas que as alemãs ou belgas ou dinamarquesas. Mesmo quem não está interessado em paquera notará.
Sempre adorei o fundamento que organiza a sociedade holandesa, e especialmente este milhão e meio abençoado que vive aqui na Grande Amsterdã: quer se prostituir ou contratar prostituta/o? É legal, tem bairro para isso. Quer fumar sua erva? Vá aos cafés, onde é legal. Quer se submeter a elaborados rituais sado-masô? Há mil e uma opções. Escandaliza-me que nossos liberais e conservadores não defendam uma sociedade com base a estas regras, que me parecem tão óbvias. O apoio maciço a elas continua intacto entre os holandeses.
O sex museum da Damrak 18, perto da Estação Central, é uma parada que eu recomendo: de Valentino à arte da gravura, da pintura à instalação, da fotografia trash à artistica, o museu faz bonito com o tema. Joga com aquele humor que pende para o desconforto com muita gente. Sagaz, bem feito.
Entre as mil e uma atrações de Amsterdã, claro, está o fato de que você encontra (com alguma sorte) uma das cervejas mais elogiadas do mundo, a belga Westmalle (resenha, em inglês). Reparem na textura da espuma:

Até terça o blog transmite daqui, depois dois dias da cidade universitária holandesa de Nijmegen, uns dois dias do campus da Louvain-la- Neuve, na Bélgica, e no fim de semana de volta a Amsterdã. Se tudo continuar beleza com a conexão.
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sexta-feira, 09 de novembro 2007
Revolução Russa, 90 anos
Foi do cacete. Diga lá se não foi. É desses aniversários que, mesmo com dois dias de atraso, não se pode deixar de celebrar. 7 de novembro de 1917, Moscou, São Petesburgo: operários, camponeses e soldados desmontando um regime milenar, sacudindo um adormecimento de séculos.
Liberais e conservadores, diferentes em tantas coisas, coincidem na crença de que a Revolução Russa abriu um período histórico que estaria hoje definitivamente clausurado. Eles gostariam de ter certeza disso. Afirmam-no com tanta ênfase e com tanta freqüência que a gente acaba pensando que eles não tem tanta certeza assim do que dizem, que a afirmação é só uma espécie de preocupada conjura.
Não que a esquerda tenha a verdade sobre esse incomensurável evento, longe disso. Entre ela, a discussão mais comum é sobre quando a coisa começou a degringolar. 1921? 1924? 1928? 1930? Tem gente até que acha que a verdadeira traição à revolução ocorreu em 1956, depois da morte de Stalin, veja só que divertido. Alguns, mais fanáticos, insistirão que a decadência real só aconteceu mesmo em 1989. Na direita, há variações mais ou menos pobres de um mesmo exercício de automatismo histórico: os gulags de Stalin já estavam anunciados nos sovietes de 1917. Por quê? Ora, porque é sempre assim, porque não há outro caminho para a utopia socialista. Porque se assim foi até hoje, assim será para todo o sempre. Curiosa forma de imaginar a história.
Não é verdade que a a ocorrência da Revolução Russa tenha sido totalmente contraditória com o texto de Marx. É fato que ele manejou a hipótese de uma revolução que aconteceria antes nos países avançados. Mas também é certo que, na medida em que percebeu como ia funcionar a exportação da miséria e da contradição mais brutais para os países atrasados, Marx entreteve a possibilidade de que a brincadeira começasse alhures. Está tudo lá, nos escritos sobre a Índia, sobre a própria Rússia. Marx era fascinado, intrigado pela Rússia.

Junho de 1917, congresso de operários e soldados.
Diga-se o que quiser, mas eu desconheço exemplo comparável de uma saída da letargia política, cultural e social para um período de efervescência alucinada e criativa como os primeiros anos da Revolução Russa: a mais sofisticada produção e reflexão cinematográficas da época, a criação da crítica literária moderna, transformações profundas no teatro, nas artes plásticas, na poesia. Quase que do nada, inventava-se outra experiência de organização da sociedade. Lênin, Trótski, Kolontai, Maiakóvski, Eisenstein, Malevich, Eichembaum, Jakobson: é incrível como indivíduos geniais vão aparecendo quando uma coletividade começa a se mexer. 
De janeiro de 1941 a junho de 1945, a URSS enfrentaria 78% das tropas nazistas alemãs e daria 13 milhões de soldados na luta contra o fascismo, fato convenientemente esquecido pelas versões hollywoodianas, americanas heróicas da II Guerra, que insistem na brutal distorção de que os EUA "salvaram" a humanidade. Ancorada na força do planejamento, a URSS daria um salto gigantesco em comparação com todos os países capitalistas -- a um custo humano imenso, claro, e nisto nossos amigos liberais e conservadores têm toda a razão.
Quem estuda com paixão o período 1917-24 na Rússia o faz apostando, talvez insensatamente, que essa tragédia humana posterior não era inevitável.
Em todo caso, tim-tim aos 90 anos daquele inesquecível barraco.
PS: Se algum erudito cinéfilo quiser ajudar a montar uma lista de filmes que retratam o período da Revolução, o blogueiro ficaria muito agradecido.
Escrito por Idelber às 02:08 | link para este post
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terça-feira, 06 de novembro 2007
REUNI
Segundo dados do Censo da Educação Superior, o Brasil contava em 2005 com 176 universidades: 52 federais, 33 estaduais e 5 municipais, com um total de 1.192.189 matrículas. O setor privado respondia por 3.260. 967 matrículas em 1.934 instituições, só 86 das quais são universidades. Na pós-graduação, são 124.000 matrículas, com 9.000 doutores formados por ano. As públicas concentram 93% dos programas de pós e 97% da pesquisa feita no Brasil.
Sabedor de que havia chegado a um ponto de esgotamento o modelo dos anos 90 -- congelamento de investimentos no setor público e proliferação de matrículas no particular -- , o governo lançou o REUNI, decreto promulgado com generalidades e depois parcialmente esclarecido com diretrizes (pdf). As respostas ao REUNI até agora são uma amostra microscópica do paradoxo por excelência do governo Lula: ele se apropria de pautas de eficiência liberais. Aqueles que sempre foram ideólogos dessas pautas ficam na confusão, pois se trata de um governo visto como de esquerda (e atacado por ser de esquerda) que as implementa. Por outro lado, esperneiam os sindicatos das categorias afetadas, que eram base do partido do atual presidente na sua época de oposição. No fim das contas, o governo Lula tem conseguido derrotar -- "dobrar" -- essa resistência. São 35 ou mais as universidades que já aderiram ao REUNI, apesar dos intensos protestos da ANDES e de parte dos alunos.
Apesar de já ter lido o decreto e acompanhado parte da discussão sobre ele, não tenho opinião totalmente formada, além de:
1) me agrada a idéia de um projeto que inclua incentivos em investimentos para quem cumprir certas pautas de produtividade. Esta é a essência do REUNI; não há "punição" a universidade nenhuma com redução de verbas, nem obrigatoriedade de adesão ao programa. Não é um ataque à autonomia universitária, mas uma legítima "proposta de mercado" feita pelo estado a quem quiser aderir.
2) Não sou fã necessariamente de um dos pilares da reforma curricular proposta nas diretrizes, que é a proliferação de cursos "genéricos" (bacharelados em humanidades, artes ou ciências), como antídoto contra uma suposta "profissionalização precoce" no ensino superior brasileiro. Mas enquanto este modelo "meio norte-americano" de licenciatura for uma opção entre outras, não tenho nada contra.
3) É razoável a reivindicação dos professores de que o governo considere os alunos de pós-graduação nas contas que seriam feitas para se cumprir a meta de 18 alunos por professor (lembre-se que os alunos fazem 4, 5 cursos). Mas se o movimento docente quer entrar em combate contra as adesões, teria que apresentar argumentos mais sólidos que estes (pdf) ou estes. Não adianta lançar hipérboles.
Dito isto, é mais que legítima a lembrança de que a universidade brasileira ainda não tem o investimento que mereceria. Seria absurdo eu querer invalidar todas as críticas feitas pelo movimento docente ao decreto, mas acho que ANDES e cia. devem se preocupar com o desgaste político de apresentar argumentos que parecem carregados de corporativismo.
Escrito por Idelber às 03:43 | link para este post
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segunda-feira, 05 de novembro 2007
First Spanish Graduate Student Conference, Washington University
Ser convidado por outros professores para um congresso é bacana: trocar experiências, ver o que os colegas andam escrevendo, compartilhar leituras. Mas ser convidado para abrir ou fechar um colóquio de estudantes é sempre outro registro de reconhecimento. Doutorandos não te convidam para falar a não ser que tenham mesmo lido o que escrevestes. Vão para os congressos com aquela fome saudável de diálogo. É uma ocasião especial.
Os alunos de pós-graduação em espanhol da Washington University, em Saint Louis, fizeram seu primeiro colóquio neste fim de semana e me deram a honra do convite para a conferência principal. Levei um trabalho inédito sobre Gustavo Ferreyra e Martín Kohan, dois autores ainda pouco lidos fora da Argentina, o primeiro ainda mais desconhecido que o segundo. Sabia que ia gerar alguma conversa, mas não esperava ter uma das viagens mais inesquecíveis, intelectualmente mais estimulantes da minha vida. O programa de WashU hospeda um grupo de doutorandos chilenos e argentinos que são a nata do que já vi em 18 anos de vida universitária nos EUA, em sofisticação, em interlocução harmoniosa e inteligente, em compromisso com a literatura e com o pensamento. Para completar, trata-se de uma daquelas reuniões de pessoas generosas, divertidas. Como se não fosse suficiente, eles me presenteiam com um churrasco de corte legitimamente argentino, um almoço com ceviche e carne assada, livros, textos, revistas, referências, mil informações, incontáveis risadas.
Não havia como eu saber, claro, que iria encontrar aquele que é provavelmente o único grupo de jovens críticos literários do hemisfério norte a se dedicar em profundidade, com conhecimento de causa, às obras de autores como Juan José Becerra, Alan Pauls, Sergio Chejfec, além de Kohan, Ferreyra e do já mais estudado