Meu Perfil
Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



Email: idelberavelar arroba gmail ponto com

No Twitter No Facebook No Formspring No GoogleReader RSS/Assine o Feed do Blog

O autor
Curriculum Vitae
 Página pessoal em Tulane


Histórico
 setembro 2015
 dezembro 2014
 outubro 2014
 maio 2014
 abril 2014
 maio 2011
 março 2011
 fevereiro 2011
 janeiro 2011
 dezembro 2010
 novembro 2010
 outubro 2010
 setembro 2010
 agosto 2010
 agosto 2009
 julho 2009
 junho 2009
 maio 2009
 abril 2009
 março 2009
 fevereiro 2009
 janeiro 2009
 dezembro 2008
 novembro 2008
 outubro 2008
 setembro 2008
 agosto 2008
 julho 2008
 junho 2008
 maio 2008
 abril 2008
 março 2008
 fevereiro 2008
 janeiro 2008
 dezembro 2007
 novembro 2007
 outubro 2007
 setembro 2007
 agosto 2007
 julho 2007
 junho 2007
 maio 2007
 abril 2007
 março 2007
 fevereiro 2007
 janeiro 2007
 novembro 2006
 outubro 2006
 setembro 2006
 agosto 2006
 julho 2006
 junho 2006
 maio 2006
 abril 2006
 março 2006
 janeiro 2006
 dezembro 2005
 novembro 2005
 outubro 2005
 setembro 2005
 agosto 2005
 julho 2005
 junho 2005
 maio 2005
 abril 2005
 março 2005
 fevereiro 2005
 janeiro 2005
 dezembro 2004
 novembro 2004
 outubro 2004


Assuntos
 A eleição de Dilma
 A eleição de Obama
 Clube de leituras
 Direito e Justiça
 Fenomenologia da Fumaça
 Filosofia
 Futebol e redondezas
 Gênero
 Junho-2013
 Literatura
 Metablogagem
 Música
 New Orleans
 Palestina Ocupada
 Polí­tica
 Primeira Pessoa



Indispensáveis
 Agência Carta Maior
 Ágora com dazibao no meio
 Amálgama
 Amiano Marcelino
 Os amigos do Presidente Lula
 Animot
 Ao mirante, Nelson! (in memoriam)
 Ao mirante, Nelson! Reloaded
 Blog do Favre
 Blog do Planalto
 Blog do Rovai
 Blog do Sakamoto
 Blogueiras feministas
 Brasília, eu vi
 Cloaca News
 Consenso, só no paredão
 Cynthia Semíramis
 Desculpe a Nossa Falha
 Descurvo
 Diálogico
 Diário gauche
 ¡Drops da Fal!
 Futebol política e cachaça
 Guaciara
 Histórias brasileiras
 Impedimento
/  O Ingovernável
 Já matei por menos
 João Villaverde
 Uma Malla pelo mundo
 Marjorie Rodrigues
 Mary W
 Milton Ribeiro
 Mundo-Abrigo
 NaMaria News
 Na prática a teoria é outra
 Opera Mundi
 O palco e o mundo
 Palestina do espetáculo triunfante
 Pedro Alexandre Sanches
 O pensador selvagem
 Pensar enlouquece
 Politika etc.
 Quem o machismo matou hoje?
 Rafael Galvão
 Recordar repetir elaborar
 Rede Brasil Atual
 Rede Castor Photo
 Revista Fórum
 RS urgente
 Sergio Leo
 Sexismo na política
 Sociologia do Absurdo
 Sul 21
 Tiago Dória
 Tijolaço
 Todos os fogos o fogo
 Túlio Vianna
 Urbanamente
 Wikileaks: Natalia Viana



Visito também
 Abobrinhas psicodélicas
 Ademonista
 Alcinéa Cavalcante
 Além do jogo
 Alessandra Alves
 Alfarrábio
 Alguém testou
 Altino Machado
 Amante profissional
 Ambiente e Percepção
 Arlesophia
 Bala perdida
 Balípodo
 Biajoni!
 Bicho Preguiça
 Bidê Brasil
 Blah Blah Blah
 Blog do Alon
 Blog do Juarez
 Blog do Juca
 Blog do Miro
 Blog da Kika Castro
 Blog do Marcio Tavares
 Blog do Mello
 Blog dos Perrusi
 Blog do Protógenes
 Blog do Tsavkko, Angry Brazilian
 Blogafora
 blowg
 Borboletas nos olhos
 Boteco do Edu
 Botequim do Bruno
 Branco Leone
 Bratislava
 Brontossauros em meu jardim
 A bundacanalha
 Cabaret da Juju
 O caderno de Patrick
 Café velho
 Caldos de tipos
 Cão uivador
 Caquis caídos
 O carapuceiro
 Carla Rodrigues
 Carnet de notes
 Carreira solo
 Carta da Itália
 Casa da tolerância
 Casa de paragens
 Catarro Verde
 Catatau
 Cinema e outras artes
 Cintaliga
 Com fé e limão
 Conejillo de Indias
 Contemporânea
 Contra Capa
 Controvérsia
 Controvérsias econômicas
 Conversa de bar
 Cria Minha
 Cris Dias
 Cyn City
 Dançar a vidao
 Daniel Aurélio
 Daniel Lopes
 de-grau
 De olho no fato
 De primeira
 Déborah Rajão
 Desimpensável/b>
 Diário de Bordo
 Diario de trabajo
 Didascália e ..
 Diplomacia bossa nova
 Direito e internet
 Direitos fundamentais
 Disparada
 Dispersões, delírios e divagações
 Dissidência
 Dito assim parece à toa
 Doidivana
 Dossiê Alex Primo
 Um drible nas certezas
 Duas Fridas
 É bom pra quem gosta
 eblog
 Ecologia Digital
 Educar para o mundo
 Efemérides baianas
 O escrevinhador
 Escrúpulos Precários
 Escudinhos
 Estado anarquista
 Eu sei que vivo em louca utopia
 Eu sou a graúna
 Eugenia in the meadow
 Fabricio Carpinejar
 Faca de fogo
 Faça sua parte
 Favoritos
 Ferréz
 Fiapo de jaca
 Foi feito pra isso
 Fósforo
 A flor da pele
 Fogo nas entranhas
 Fotógrafos brasileiros
 Frankamente
 Fundo do poço
 Gabinete dentário
 Galo é amor
'  Garota coca-cola
 O gato pré-cambriano
 Geografias suburbanas
 Groselha news
 Googalayon
 Guerrilheiro do entardecer
 Hargentina
 Hedonismos
 Hipopótamo Zeno
 História em projetos
 Homem do plano
 Horas de confusão
 Idéias mutantes
 Impostor
 Incautos do ontem
 O incrível exército Blogoleone
 Inquietudine
 Inside
 Interney
 Ius communicatio
 jAGauDArTE
 Jean Scharlau
 Jornalismo B
 Kit básico da mulher moderna
 Lady Rasta
 Lembrança eterna de uma mente sem brilho
 A Lenda
 Limpinho e cheiroso
 Limpo no lance
 Língua de Fel
 Linkillo
 Lixomania
 Luz de Luma
 Mac's daily miscellany
 O malfazejo
 Malvados
 Mar de mármore
 Mara Pastor
 Márcia Bechara
 Marconi Leal
 Maria Frô
 Marmota
 Mineiras, uai!
 Modos de fazer mundos
 Mox in the sky with diamonds
 Mundo de K
 Na Transversal do Tempo
 Nación apache
 Nalu
 Nei Lopes
 Neosaldina Chick
 Nóvoa em folha
 Nunca disse que faria sentido
 Onde anda Su?
 Ontem e hoje
 Ou Barbárie
 Outras levezas
 Overmundo
 Pálido ponto branco
 Panóptico
 Para ler sem olhar
 Parede de meia
 Paulodaluzmoreira
 Pecus Bilis
 A pequena Matrioska
 Peneira do rato
 Pictura Pixel
 O pífano e o escaninho
 Pirão sem dono
 políticAética
 Política & políticas
 Política Justiça
 Politicando
 Ponto e contraponto
 Ponto media
 Por um punhado de pixels
 Porão abaixo
 Porco-espinho e as uvas
 Posthegemony
 Prás cabeças
 Professor Hariovaldo
 Prosa caótica
 Quadrado dos Loucos
 Quarentena
 Que cazzo
 Quelque chose
 Quintarola
 Quitanda
 Radioescuta Hi-Fi
 A Realidade, Maria, é Louca
 O Reduto
 Reinventando o Presente
 Reinventando Santa Maria
 Retrato do artista quando tolo
 Roda de ciência
 Samurai no Outono
 Sardas
 Sérgio Telles
 Serbão
 Sergio Amadeu
 Sérgio blog 2.3
 Sete Faces
 Sexismo e Misoginia
 Silenzio, no hay banda
 Síndrome de Estocolmo
 O sinistro
 Sob(re) a pálpebra da página
 Somos andando
 A Sopa no exílio
 Sorriso de medusa
 Sovaco de cobra
 Sub rosa v.2
 SublimeSucubuS
 Superfície reflexiva
 Tá pensando que é bagunça
 Talqualmente
 Taxitramas
 Terapia Zero
 A terceira margem do Sena
 Tiago Pereira
 TupiWire
 Tom Zé
 Tordesilhas
 Torre de marfim
 Trabalho sujo
 Um túnel no fim da luz
 Ultimas de Babel
 Um que toque
 Vanessa Lampert
 Vê de vegano
 Viajando nas palavras
 La vieja bruja
 Viomundo
 Viraminas
 Virunduns
 Vistos e escritos
 Viva mulher
 A volta dos que não foram
 Zema Ribeiro




selinho_idelba.jpg


Movable Type 3.36
« outubro 2007 :: Pag. Principal :: dezembro 2007 »

terça-feira, 27 de novembro 2007

Em São Paulo

Aqui vai um convite para quem estiver nas imediações de Campinas: realiza-se de quarta até sexta o encontro Escritas da Violência, na UNICAMP, com a participação de uma série de pesquisadores internacionais. Confiram a programação.

Será em Sampa, na próxima segunda, o lançamento do primeiro livro do meu amigo Marcos Donizetti, Meias vermelhas e histórias inteiras, publicação d' Os Viralata. Endereço, horário e detalhes, aqui.

Em Sampa acontecerá também o debate direita x esquerda que vai abalar as estruturas da blogosfera: O Biscoito Fino e a Massa versus A Torre de Marfim. Em breve, um podcast com a surra que provavelmente levarei do Marcos.

Ir a São Paulo sempre dá um friozinho na barriga. Lá, mais que em qualquer lugar, eu me lembro de que sou mineiro.

E parece que vou conhecer mais uma ídola.

Vamos ver como estará a conexão em Campinas e em Sampa. Se estiver tudo bem, o blog continuará com atualizações diárias. Se não estiver, tiro um break e vou ao Solar dos Biajoni tomar cerveja.

Em Viracopos a pista tem ranhuras, né?



  Escrito por Idelber às 16:39 | link para este post | Comentários (35)



segunda-feira, 26 de novembro 2007

Momento jabá

Minhas desculpas aos leitores a quem isso não vai interessar, mas acaba de ser publicado nos EUA um estudo que eu absolutamente não posso deixar de comemorar aqui no blog. Saiu o Faculty Scholarly Productivity Index do ano de 2007. Trata-se da auferição comparada da produtividade dos professores universitários do país todo, em todas as disciplinas.

Pois bem, o Departamento de Espanhol e Português de Tulane University acaba de emplacar um segundo lugar em produtividade entre as 375 universidades americanas que oferecem doutorado. Sim, somos os segundos mais produtivos entre todas as universidades norte-americanas em nossa disciplina. Quem conhece a competitividade do sistema acadêmico do Tio Sam sabe o que isso significa.

Ainda por cima, trata-se de um lugar maravilhoso para se trabalhar: sem invejas, sem facadas pelas costas, sem policiamento da escrita e magistério alheios. Um lugar onde as reuniões departamentais começam e terminam com risadas. Acreditem, isso existe. Para conhecer melhor as doze feras que trabalham comigo, clique aqui. Os últimos prêmios e distinções recebidos pelos professores de Espanhol e Português de Tulane estão listados aqui. Um pouco da nossa história, aqui. As últimas publicações, aqui. Parabéns, rapaziada. Muito especialmente, parabéns ao almirante da nau, meu brother Christopher Dunn.

Amém nóis tudo.

PS: Meu muito obrigado a Fernando Serboncini e ao pessoal do escritório do Google em Belo Horizonte, que nesta segunda-feira me recebeu para almoço e uma palestra -- em inglês! -- sobre meu projeto de pesquisa com a música brasileira. Fizeram um vídeo da palestra e acho que em breve ela estará no YouTube. De quebra, ainda conheci minha ídola Luiza Voll, uma das blogueiras mais admiradas do país. Valeu.



  Escrito por Idelber às 23:41 | link para este post | Comentários (31)



domingo, 25 de novembro 2007

Cala-boca morreu em Ayacucho

Os tapuias que celebraram com tanta ênfase o pito do Rey Juan Carlos em Hugo Chávez talvez tenham se apressado um pouco. Vejam aqui um curioso desdobramento do caso. Edmílson, volante do Barcelona e pentacampeão do mundo pela Seleção Brasileira, deu na semana passada uma daquelas declarações completamente anódinas e típicas de jogador de um time que passa por um mau momento. Disse que nem todos estão se empenhando e que há “ovelhas negras” no vestuário. Bastou para que o diário Mundo Deportivo estampasse a foto do jogador com o já banalizado bordão ¿por qué no te callas?.

cal.jpg

A relação entre os dois cala-boca merece ser explorada. A colonização espanhola na América Latina tinha uma peculiaridade desconhecida em outras latitudes, a instituição do requerimiento. O dito cujo era um texto que os colonizadores espanhóis liam diante dos indígenas (em espanhol, obviamente), advertindo-lhes de que aquelas terras agora pertenciam, com a graça de Deus, à sua majestade o Rei de Espanha, e que eles deveriam se render e converter-se ao catolicismo ou aceitar ser dizimados. O requerimiento era, portanto, um ato de fala, um speech act no sentido que dão ao termo Austin e Searle: um enunciado lingüístico que não comunica nada, mas opera sobre a realidade (o exemplo de Searle é o padre/ juiz que enuncia eu vos declaro marido e mulher: frase que não é comunicação de algo que está acontecendo na realidade, mas confecção dessa própria realidade).

Há mais coisas em comum entre o requerimiento e o ¿por qué no te callas? que sonham os nossos tupinambás que o celebraram. A maioria das reações ao evento foi uma tremenda inversão de valores: chegou-se a dizer que o rei da Espanha havia dado uma “aula de democracia” ao “ditador” venezuelano. Dá para imaginar uma inversão maior? Um monarca ungido por Francisco Franco, que nunca recebeu um voto na vida, interrompe com um ¿por qué no te callas? um presidente que já venceu meia dúzia de eleições internacionalmente monitoradas, e que reclamava da participação criminosa da Espanha numa tentativa de golpe de estado na Venezuela. Este cala-boca é interpretado como aula de democracia? Curiosa concepção de democracia.

Hugo Chávez é um chato intragável, eu reconheço. Sim, eu preferiria compartilhar uma Westmalle com Zapatero ou com o Rei Juan Carlos, antes de fazê-lo com Chávez. Mas não é disso que se trata. Trata-se de alertar os compatriotas tamoios a respeito de uma obviedade: comemorem o cala-boca imperial no moreninho venezuelano, e o próximo moreninho silenciado será você.

O uso do pronome informal -- por qué no te callas -- com verbo em modo imperativo, em situação onde não há informalidade pressuposta entre os interlocutores, é agressiva, grosseira e mal-educada. Chefes de estado se tratam por usted. É o pronome do respeito. Ao escolher a forma , o monarca ungido por Franco deixou muito claro o fato de que não respeitava o seu interlocutor como um igual, fato pouco observado pelos aimorés que celebraram o cala-boca como "aula de democracia".

Até onde sei, nem Zapatero, nem Aznar, nem Juan Carlos desmentiram a acusação de Chávez – a de que a embaixada espanhola transformou-se em centro de tramóia golpista contra um governo venezuelano legitimo. Por que não celebrar como aula de democracia o fato de que o presidente legitimamente eleito derrotou o golpe e depois teve a oportunidade de confrontar os chefes dos estados que estimularam o golpe com a acusação clara, cara a cara, não desmentida por nenhum dos ibéricos? A peroração de Zapatero sobre a possibilidade de se "discrepar radicalmente" sem "desqualificar" o interlocutor não poderia ser mais falsa. É falsa ética e historicamente. A possibilidade de se discrepar de forma suave e bem educada é, historicamente, prerrogativa dos dominadores. Os dominados, quando conseguem falar, não costumam ser muito suaves.

Gosto da Espanha. Madri está no meu top 5 mundial, devo tudo o que tenho ao meu aprendizado de seu idioma e sou muito bem tratado quando vou lá. Mas o uso do cachimbo deixa a boca torta. É difícil encontrar acadêmicos espanhóis – e cito minha área porque a conheço melhor -- que não entendam a “colaboração” com a América Latina de forma hierárquica. Na maioria dos casos, nem em colaboração pensam.

Eu, particularmente, jamais, jamais celebrarei um cala-boca espanhol – ainda mais do rei franquista, por mais elegante que seja! -- sobre um latino-americano -- ainda mais um presidente legitimamente eleito, por mais chato que seja. Cuidado, pois, com as pecinhas que nos prega o imaginário no momento da identificação.



  Escrito por Idelber às 23:59 | link para este post | Comentários (100)



quinta-feira, 22 de novembro 2007

Juan L. Ortiz, um poema

jlo.jpg

Juan L. Ortiz (Juanele) nasceu em 11 de junho de 1896 em Puerto Ruiz, Entre Ríos. Em 1942 mudou-se a Paraná, capital da mesma província, onde morou até sua morte, em 2 de setembro de 1978. Com a exceção de algumas rápidas idas a Buenos Aires e uma breve visita à China e a outros países socialistas em 1957, jamais abandonou sua morada, às margens do rio. Ali dedicou toda a vida a uma única tarefa: tecer uma obra poética singular, que renovaria o idioma como poucas. Debutou em 1933 com El agua y la noche. Seus primeiros dez livros – todos publicados discretamente, sem estardalhaço, sem reclamos de atenção, como cifras para um leitor futuro – seriam reunidos a outros três volumes inéditos sob o título En el aura del sauce em 1971. Há uma pequena amostra da obra de Juanele disponível na internet.

O poema que traduzo abaixo, “Sí, las escamas del crepúsculo...”, abre o volume De las raíces y del cielo (1958). Ignoro se é o primeiro poema de Juan L. Ortiz a ser vertido ao português.


Sim, as escamas do crepúsculo...

Sim, as escamas do crepúsculo
no fio, último?, de Novembro sobre o rio:
ou o êxtase dos véus de Novembro
fluindo até a noite, e mais além? ...
incrível de ecos
e de fugas e passagens
de não se sabe já
que despedida ou que chamado

Sim, o fluido profundo, sobre ouro,
que nimba o barranco
e inscreve misticamente uma árvore alta,
e irradia, até quando?
umas vagas pétalas de íris...

Sim, sim,
o verde e o celeste, revelados,
que tremem por volta das dez porque partem,
e na meia tarde se desfazem ou se perdem
em sua mesma água fragílima...

Sim, sim, sim
Mas veio a luz, estava só a luz
detrás das persianas da manhã íntima:
veio a criatura eterna, o sentimento das estrelas,
a eucaristia dos mundos, a alma primeira
antes, antes do prisma,
com essa flauta branca, inefavelmente branca, sempre imposta sobre o caos...

Veio a luz, veio a menina essencial,
impossivelmente pura das folhas e de suas próprias asas,
até um esquecimento cheio dela
como do olhar, único, de uma estiagem nunca vista....



  Escrito por Idelber às 06:25 | link para este post | Comentários (5)



terça-feira, 20 de novembro 2007

Links

Hoje, só links:

Os textos jornalísticos sobre o Brasil publicados na Argentina invariavelmente trazem aquela boa dose de idealização. Mas convenhamos, esse do La Nación bateu qualquer recorde.

*************

No seu último comentário a esse seu próprio post, Daniel Link parte com tudo para cima do fascismo anti-tabagista.

*************

Ainda na Argentina: sem dúvida, Mestre Fogwill já teve dias melhores.

************

Adorei conhecer estes dois blogs: hunny.bunny e nerd-o-rama (via mary w).

***********

O texto é velho, mas eu só vi agora: nos anos 80, você era uma pessoa U2 ou uma pessoa REM? Um doce para quem adivinhar em qual tribo eu me encaixava.

*********

Aqui vai mais um triste retrato da impunidade e da violência no campo.

**********

A vantagem de ter má memória é que se goza muitas vezes com as mesmas coisas. Nietzsche e seus aforismos maravilhosos. Tem mais um monte, em espanhol, aqui.

**************

Você aí, já se inteirou do mais recente escândalo do futebol brasileiro?

**************

Festa na blogosfera: Pensar Enlouquece é eleito o melhor blog em português na votação popular da Deutsche Welle. Parabéns, cumpadi.



  Escrito por Idelber às 04:52 | link para este post | Comentários (18)



domingo, 18 de novembro 2007

Tréplica de Jon Anderson a Diogo Schelp

Depois de apelar ao seu vigoroso programa anti-spam como desculpa para não ter recebido a resposta de Jon Anderson, em que o maior biógrafo de Che Guevara aceitava seu pedido de entrevista, Diogo Schelp, da Veja, enviou-lhe uma grosseira réplica em que acusava -- divertidamente -- o jornalista da New Yorker de "anti-ético" por ter divulgado a "comunicação" entre os dois. Nessa réplica, escrita para justificar a peça de propaganda insultante publicada pelo folheto semanal da Editora Abril sobre Che Guevara, Diogo Schelp também ameaçava Jon Anderson -- um dos maiores jornalistas do mundo -- com o terrível castigo de jamais aparecer de novo nas páginas da Veja. Pois bem, Daniel Lopes entrou em contato com Jon Anderson e publicou em seu blog a tréplica, em inglês, do jornalista norte-americano. Eu cheguei a traduzir dois parágrafos do texto ao português antes de ver que o Pedro Dória já o havia traduzido e publicado em seu blog. O que segue abaixo, então, é a tradução do Pedro Dória (impecável, como sempre) da tréplica de Jon Anderson, cujo original está disponível aqui.

Prezado Diogo Schelp:

Agradeço pelo sua ‘gentil’ resposta. (Soube, graças a você, que você é de fato uma pessoa muito ‘gentileza’; você mesmo o disse duas vezes em suas mensagens.) Só agora percebo, o mal-entendido entre nós nasceu exclusivamente por conta de meu caráter profundamente falho. Eu jamais deveria ter presumido que você recebera meu email inicial em resposta ao seu ou minha segunda mensagem a respeito de sua reportagem, muito menos deveria ter considerado que você pudesse ter decidido ignorá-los. É evidente que você tem um sistema de bloqueio de spams muito rigoroso. Uma dica técnica: talvez você devesse configurar seus sistema como ‘moderdo’ e não ‘extremo’. Se o fizer, talvez comece a receber seus emails sem quaisquer problemas. Lembre-se, Diogo: moderado, não ‘extremo’. Esta é a chave.

Você me acusa de ser antiético, um ‘mau jornalista’. Você questiona até se posso ser chamado de jornalista. Nossa, você TEM raiva, não tem?

Enquanto tento parar as gargalhadas, me permita dizer que, vindo de você, é elogio. Permita, também, recapitular por um momento a metodologia utilizada por você para distorcer as informações que o público de Veja recebeu:

Você publicou na capa e na reportagem uma grande quantidade de fotografias de Che, aproveitando-se assim da popularidade da imagem de Guevara para vender mais cópias de sua revista. Para preencher seu texto, você pinçou uma certa quantidade de referências previamente escritas sobre ele – incluindo a minha – para sustentar sua tese particular, qual seja, a de que o heroismo de Che não passa de uma construção marxista, como sugere seu título: ‘Che, a farsa do herói’.

Para chegar a uma conclusão assim arrasa-quarteirão, você também entrevistou, pelas minhas contas, sete pessoas. Uma delas era um antigo oponente de Che dos tempos da Bolívia. As outra seis, exilados cubanos anti-castristas, incluindo ex-prisioneiros políticos e veteranos de várias campanhas paramilitares para derrubar Fidel. (Um destes, o professor Jaime Suchlicki, você não informou a seus leitores, é pago pelo governo dos EUA para dirigir o assim chamado Projeto de Transição Cubana.) Percebi também que você prestou particular atenção no testemunho de Felix Rodriguez, ex-agente da CIA responsável pela operação que culminou na execução de Che. O fato de que você o destaca quer dizer que você o considera sua melhor testemunha? Ou terá sido porque ele foi o único que algum repórter realmente entrevistou pessoalmente? Os outros, parece, Veja só falou com eles por telefone. Mas como são rigorosos os critérios de reportagem de Veja!

Como disse em minha ‘carta aberta’ a você, escrever uma reportagem deste tipo usando este tipo de fonte é o equivlente a escrever um perfil de George W. Bush citando Mahmoud Ahmadinejad e Hugo Chávez. Em outras palavras, não é algo que deva ser levado a sério. É um exercício curioso, dá para fazer piada, mas NÃO é jornalismo. Dizer a seus leitores, como você diz na abertura da reportagem, que ‘Veja conversou com historiadores, biógrafos, ex-companheiros de Che no governo cubano’ passa a impressão de que você de fato fez o dever de casa, que estava oferecendo aos leitores um trabalho jornalístico bem apurado, que apresentaria algo novo. Infelizmente, a maior parte do que você escreveu é mera propaganda, um requentado de coisas que vêm sendo ditas e reditas, sem muitas provas, pela turma de oposição a Fidel em Miami nos últimos quareta e tantos anos.

Minha questão não é política. Escrevi um livro, como você mesmo disse, que é ‘a mais completa biografia’ de Che. Há muito lá que pode ser utilizado para criticar Che, mas também há muitos aspectos a respeito de sua vida e personalidade que muitos consideram admiráveis. Em outras palavras, é um retrato por inteiro. Como sempre disse, escrevi a biografia para servir de antídoto aos inúmeros exercícios de propaganda que soterraram o verdadeiro Che numa pilha de hagiografias e demonizaçoes, caso de seu texto.

Não cometa o erro de me acusar de defender Che porque critico você. Serei claro: a questão aqui não é Che, é a qualidade do seu jornalismo. Sua reportagem, no fim das contas, é simplesmente ruim e me choca vê-la nas páginas de uma revista louvável como Veja. Seus leitores merecem mais do que isso e, se aparecerei ou não novamente nas páginas da revista enquanto você estiver por aí, não me preocupa. O que PREOCUPA é que, com tantos jornalistas brilhantes como há no Brasil, foi a você que Veja escolheu para ser ‘editor de internacional’.

Cordialmente,
Jon Lee Anderson



  Escrito por Idelber às 14:16 | link para este post | Comentários (38)



sábado, 17 de novembro 2007

Filosofando às portas do trem

Maravilhas do jet lag: você passa 48 horas sem dormir, num bagaço, chega ao hotel às 11 da noite, em pânico porque tem que se levantar às cinco e meia para pegar um trem. Depois de seis horas de sono, você acorda, antes do despertador, e se sente como se tivesse dormido doze.

Acabei antecipando minha volta a New Orleans para hoje. Ia ficar aqui no Países Baixos até segunda, mas bateu canseira e saudades do meu amor.

Perguntar não ofende: por que as Nações Unidas, ao invés de ficar discutindo banalidades, não se reúnem e unificam o raio das tomadas no planeta inteiro? Algum dos eruditos leitores que entenda de correntes elétricas poderia me explicar por que isso é tão difícil? Acho que outro dia a Corinha escreveu uma crônica sobre o tema. Das coisas mais enervantes que há é chegar em outro país e procurar loja de materiais elétricos para a conseguir o adaptador certo.

Volto por Nova York, com conexão apertada. Não será desta vez que tomarei uma cervejinha com Deus.

PS 1: Alguém me disse que terça-feira é feriado aí no Brasil. Confere? Que feriado é esse, do qual eu não me lembro? Já não houve um anteontem?

PS 2: A partir do próximo sábado, o Biscoito transmite, durante uma semana, de Belo Horizonte e de Sumpaulo.



  Escrito por Idelber às 00:41 | link para este post | Comentários (17)



quinta-feira, 15 de novembro 2007

Na Holanda e Bélgica, 3

Foi só mesmo depois de três dias na Holanda que me dei conta de que, pela primeira vez na vida, estava num país cuja língua desconheço totalmente. Em Amsterdã isso quase não se nota, porque todo mundo fala inglês. Mas tomando o trem para Nijmegen, já na área doméstica da estação, não deu para evitar um certo pânico: tudo em holandês. Aí me dei conta de que, ao vir para cá, agi como um verdadeiro gringo. Não comprei um dicionário de holandês, não dispendi o menor esforço para aprender algumas palavras básicas, não fiz nada. Resultado: me embananei e desci na estação errada. Não foi nenhum drama. Era só uma questão de esperar o próximo trem para Nijmegen. Mas, envergonhado, fui à livraria e comprei um dicionário básico de Nederlands.

**************

Vejam só a picaretagem que são essas maquininhas de tradução: se você for ao Altavista Translator e digitar “I am sorry I do not speak Dutch” (nessas máquinas é bom evitar as contrações), ela cospe de volta Ik ben droevig ik het geen Nederlands spreek, uma monstruosidade que faria um holandês morrer de rir (“ik ben droevig” é algo assim como “estou desolado e triste”) . O correto é um simples surry ik spreek geen nederlands. Todos os G's em holandês soam como R's guturais (como o H do inglês ou o J do castelhano). Você leu aqui no Biscoito primeiro.

*********

Palestrei ontem na Radboud Universiteit Nijmegen, para os catedráticos e alunos de literaturas hispânicas. O tema foi Dos veces junio, de Martín Kohan. Como o eixo do romance é o futebol, não resisti e comecei a dissertar sobre a Laranja Mecânica. Falei daquela bola do Resenbrink na trave, no final do jogo, que teria dado o título à Holanda em 1978. Discutimos uma questão interessante que Martín Kohan averiguou em suas pesquisas: se a Copa de 1978 foi transmitida em preto-e-branco para a Argentina, por que todas as pessoas a quem o autor dirigiu a pergunta se lembram dela a cores? Acabamos, depois, voltando para a literatura – se é alguma vez saímos dela.

*******

Nijmegen (pronuncia-se “Nái-mê-rren”) tem uma história interessantíssima. Confesso que a ignorava por completo. É uma cidade que, em 2005, comemorou 2000 anos de existência! Sim, é isso que você leu, não há nenhum zero a mais aí não. O nome, que soa tão nórdico, é na verdade a contração de Ulpia Noviomagus Batavorum, nome dado pelo imperador Trajano no século I. Daí virou Noviomagus, para depois evoluir ao seu nome atual. É a cidade mais antiga da Holanda, foi a primeira a cair em mãos dos nazistas, e foi fortemente bombardeada pelos norte-americanos. Visitei as ruínas.

Em Nijmegen, devo gratidão ao Prof. Maarten Steenmeijer e a um verdadeiro anjo da guarda, a super poliglota Prof. Brigitte Adriansen, que me ajudou bastante com o holandês e com as estações de trem. Dank u wel!

************

Hoje palestrei na Bélgica francófona, na Université Catholique de Louvain. Esta palestra foi sobre El director, fascinante romance de 2005 do argentino Gustavo Ferreyra, e foi parte de um congresso sobre representações do apocalipse na literatura. O congresso continua amanhã aqui em Gante, na Bélgica flamenga. Deixo a nota de gratidão às Profs. Geneviève Fabry, de Louvain, e Ilse Logie, de Gante, responsáveis pelo convite que me trouxe à Europa.

A Bélgica passa por uma terrível crise política, fruto, em parte, de recentes alterações na legislação que regula o bilingüismo no país. Bruxelas, a capital, fica na parte flamenga, mas pelo menos 80% de seus habitantes são francófonos. Obviamente, na parte flamenga do país, é muito melhor se virar em inglês do que em francês.

************

Está sendo bacana poder usar o francês um pouco. Há anos eu não o usava. Está um pouco enferrujado, mas sai.

************

Por que será que, em qualquer país do mundo, os turistas norte-americanos são imediatamente reconhecíveis pela prepotência do seu comportamento, pela arrogante pressuposição de que todos devem falar sua língua, pelo constante desrespeito e falta de consideração pelas regras locais? Ontem houve um momento de justiça poética: um típico gringo esbravejava, dando faniquitos, na estação de trem. Um educadíssimo funcionário holandês lhe explicava, em inglês, que ele deveria aguardar até que o seu número fosse chamado. O turista passou a gritar insultos contra o país. Eu, apaixonado pela Holanda que ando, não resisti. Virei para ele, na frente de todo mundo, caprichando na entonação, e soltei: Sir. I think you should calm the fuck down. You’re not better than anyone. You’re in their country, there’s somebody explaining the rules to you in your language, and you still feel entitled to insulting them? Then you don’t understand why Americans are hated all over the world. Shut the fuck up and wait for your turn or just leave. O gringo calou a boca, enfiou o rabo entre as pernas e entrou na fila. Acredito ter visto alguns sorrisos discretos entre os holandeses.

*****************

Não entendeu o que está escrito acima? Peça ao Reinaldo Azevedo para traduzir. O Reinaldinho, sabemos, é aquele que traduz "graduate study" por "curso de graduação", para, com base a sua tradução errada, fazer piada com a suposta ignorância de Lula. Ele agora deu para corrigir o inglês do Pedro Dória. Em breve, Reinadinho, o monoglota, corrigirá o alemão de Modesto Carone. Sobre mais este esdrúxulo episódio envolvendo a revista Veja, o Hermenauta já disse tudo. Mas vale sublinhar: todas as “correções” feitas por Reinaldinho à tradução do Pedro estão erradas. Pedro traduziu “accurate journalism” como “jornalismo imparcial”, o que pode até não ser exato. Mas “jornalismo cuidadoso ou acurado”, como sugere Reinaldinho, é péssimo. “Accurate” é correto, exato. Nada a ver com cuidadoso. O oposto de “accurate” é “wrong”, “errado”, não “desleixado”. Você pode ser perfeitamente cuidadoso e estar errado. Ou ser descuidado e acertar. “Acurado” não é adjetivo que se use em português para qualificar jornalismo. Das três traduções na mesa, a do Pedro é de longe a melhor. “Jornalismo correto” também funcionaria. A parte mais patética da “correção” de Reinaldinho é dizer que “to put flesh and blood” numa figura deve se traduzir como “pôr humanidade”, em vez do perfeitíssimo “pôr pele e osso” usado pelo Pedro (“pôr carne e osso” também serviria). Ora, a própria existência de seres como Reinaldo Azevedo é prova cabal de que “carne e sangue” não são, absolutamente, exclusividade dos humanos.

A cara de pau do cão de guarda da Veja não tem fim. Finge que sabe latim, finge que sabe inglês. Se o Reinaldinho Azevedo provar que é capaz de encadear cinco minutos de conversa fluente em inglês – coisa que para o Pedro Dória é o pão com manteiga de cada dia – eu fecho este blog e passo a torcer para o ex-Ipiranga.



  Escrito por Idelber às 21:40 | link para este post | Comentários (21)



segunda-feira, 12 de novembro 2007

Amsterdã, 2

Eu ia pasar lá no blog da Mary W para fazer um comentário off-topic, quando vi que ela vai debater o Tropa de elite e recomendou o post daqui. Vai arrasar. Fiquei uau com a coincidência, nem comentei, só mandei email mesmo. O comentário off-topic ia ser sobre como tinha sido importante ler o blog dela, e que era bom visitá-la daqui de Amsterdã, onde os casais gays e lésbicas passeiam com tranqüilidade que nunca vi.

Numa sociedade que realmente não discrimina o homoerotismo, vê-se, cristalina, como é a pura paranóia tensa e ansiosa da homofobia que cria esse medo maluco de que permitir a exibição do amor homossexual vai “degenerar” alguma criança, influir na escolha sexual de alguém, “disseminar” uma coisa que supostamente deve ser contida.

Já se disse que 30% de Amsterdã é gay. Já se contestou esse número também, então não sei. Mas é fato que na Holanda a superação da homofobia já está galáxias à frente dos EUA, onde tudo ainda tem que ser via identidade, de forma segregacionista. Aqui não. São até poucos os hotéis, bares, etc. para gays. Sabe-se, dá-se por óbvio que gays, lésbicas e transsexuais são bem vindos em qualquer lugar.

Para um mineiro que estudou no sul dos EUA e trabalha no sul dos EUA, o choque cultural é considerável, vai dizer? (com vênia).
*****
Momento rango: um dos grandes baratos em Amsterdã é a cozinha da Indonésia. O prato abaixo tem o charme extra de que os espetos (de frango, camarão, porco) recebem um fogaréu na sua frente, para depois ser servido o molho, bem grosso, sobre as carnes e a cebola:

DSC03821.jpg

*********
Fuma-se em vários restaurantes e em todos os bares de Amsterdã. Civilização total.

******

Medicina “socializada” x “capitalista”

Dor de dente provocada por inflamação embaixo de uma velha coroa. Tratamento nos EUA da “livre iniciativa”, onde alguns conglomerados de seguros controlam toda a administração da saúde: vários telefonemas para a companhia para localizar um dentista autorizado em New Orleans, vários dias para localizar um com horário, uma primeira visita só ver a ajudante e receber receita de drogas, segunda visita depois de dias, dedutíveis de $100 que vão se acumulando, até que, com sorte, talvez, você encontre o dentista que faça o que há que se fazer (tirar um raio X, abrir e drenar, fazer algo).

Processo que é velho conhecido velho meu, razão pela qual resolvi aguentar umas dores intermitentes, de 40 minutos,em três pancadas, toda noite, porque vou ao Brasil em breve, onde tenho dentista. Mas ontem à noite doeu forte, aí resolvi testar a Holanda.

Uma busca no Google para achar um dentista bilíngüe, uma clicada no skype para ligar; o cara atende ele mesmo o telefone, marca um horário comigo no mesmo dia, escuta a história, tira o raio X no ato, constata que não há nada errado com o dente embaixo da coroa, faz a limpeza e, incrivelmente sem nenhum medo de ser processado, abre e drena a gengiva. Fim da dor de dente. Custo total? 40 euros. Tempo gasto: 40 minutos.

São os horrores da “medicina socializada” que os conservadores americanos querem como loucos associar à Hillary Clinton e ao capeta. Como se o sistema de saúde atual dos EUA estivesse funcionando às maravilhas.



  Escrito por Idelber às 22:32 | link para este post | Comentários (25)



domingo, 11 de novembro 2007

Amsterdã, primeiro dia

Para além de todo o auê em torno à cidade, eu sempre quis vir a Amsterdã porque ela se parece com New Orleans. É o outro exemplo, o deles administrativamente bem sucedido, de se realizar essa maluquice: uma cidade que se espraia em caracol, abraçada por corpos de água e situada abaixo do nível do mar. Veja como elas são semelhantes:

neworleans.jpg

amsterdamI.jpg

A respiração da vida urbana das duas cidades é dada pelos canais de escoamento da água. Ao contrário de New Orleans, claro, Amsterdã tem sistemas de saúde e educação impecáveis, um transporte coletivo alucinantemente eficiente, população poliglota. Exatamente como New Orleans, tem uma cultura única, que você não vai encontrar em lugar nenhum do mundo.

A permissividade e tolerância, o erotismo exacerbado, a informalidade sorridente dos holandeses, seu incrível talento com as línguas, a beleza alucinante e compacta da cidade compõem um quadro impressionante. Cidade-vitrine, com certeza. Claro que é possível armar-se de um guia e fazer um roteiro das pontes, museus e tudo mais – pretendo fazê-lo. Mas a essência da cidade se oferece na caminhada ao léu, na qual você vai inevitavelmente trombar com o excesso de opções: arquitetura, pintura, música, comércio, beleza natural, diversão trash ou hardcore, vida cultural e gastronomia para ninguém botar defeito.

DSC03813.JPG

Sempre gostei da Holanda. Os brasileiros da minha geração e das anteriores que aprecia(va)m o futebol sabem o que foi aquela camisa laranja na Copa de 1974 (né, seu Mirto?). O que ela representou de renovação das regrinhas e táticas da brincadeira foi assombroso.

Sempre simpatizei com os holandeses porque nas viagens a outros países aprendi a reconhecê-los: certa informalidade no vestir, mesmo quando chiques (barbas, sandálias e bolsas não são raras), inglês impecável (superior em entonação ao excelente que costumam falar os alemães) e movimento em bando, com sorrisos. Se for loiro, não tem erro: é holandês. As mulheres são bem mais informais, relaxadas que as alemãs ou belgas ou dinamarquesas. Mesmo quem não está interessado em paquera notará.

Sempre adorei o fundamento que organiza a sociedade holandesa, e especialmente este milhão e meio abençoado que vive aqui na Grande Amsterdã: quer se prostituir ou contratar prostituta/o? É legal, tem bairro para isso. Quer fumar sua erva? Vá aos cafés, onde é legal. Quer se submeter a elaborados rituais sado-masô? Há mil e uma opções. Escandaliza-me que nossos liberais e conservadores não defendam uma sociedade com base a estas regras, que me parecem tão óbvias. O apoio maciço a elas continua intacto entre os holandeses.

O sex museum da Damrak 18, perto da Estação Central, é uma parada que eu recomendo: de Valentino à arte da gravura, da pintura à instalação, da fotografia trash à artistica, o museu faz bonito com o tema. Joga com aquele humor que pende para o desconforto com muita gente. Sagaz, bem feito.

Entre as mil e uma atrações de Amsterdã, claro, está o fato de que você encontra (com alguma sorte) uma das cervejas mais elogiadas do mundo, a belga Westmalle (resenha, em inglês). Reparem na textura da espuma:

DSC03818.JPG

Até terça o blog transmite daqui, depois dois dias da cidade universitária holandesa de Nijmegen, uns dois dias do campus da Louvain-la- Neuve, na Bélgica, e no fim de semana de volta a Amsterdã. Se tudo continuar beleza com a conexão.



  Escrito por Idelber às 21:10 | link para este post | Comentários (25)



sexta-feira, 09 de novembro 2007

Revolução Russa, 90 anos

kand_209sm.jpgFoi do cacete. Diga lá se não foi. É desses aniversários que, mesmo com dois dias de atraso, não se pode deixar de celebrar. 7 de novembro de 1917, Moscou, São Petesburgo: operários, camponeses e soldados desmontando um regime milenar, sacudindo um adormecimento de séculos.

Liberais e conservadores, diferentes em tantas coisas, coincidem na crença de que a Revolução Russa abriu um período histórico que estaria hoje definitivamente clausurado. Eles gostariam de ter certeza disso. Afirmam-no com tanta ênfase e com tanta freqüência que a gente acaba pensando que eles não tem tanta certeza assim do que dizem, que a afirmação é só uma espécie de preocupada conjura.

Não que a esquerda tenha a verdade sobre esse incomensurável evento, longe disso. Entre ela, a discussão mais comum é sobre quando a coisa começou a degringolar. 1921? 1924? 1928? 1930? Tem gente até que acha que a verdadeira traição à revolução ocorreu em 1956, depois da morte de Stalin, veja só que divertido. Alguns, mais fanáticos, insistirão que a decadência real só aconteceu mesmo em 1989. Na direita, há variações mais ou menos pobres de um mesmo exercício de automatismo histórico: os gulags de Stalin já estavam anunciados nos sovietes de 1917. Por quê? Ora, porque é sempre assim, porque não há outro caminho para a utopia socialista. Porque se assim foi até hoje, assim será para todo o sempre. Curiosa forma de imaginar a história.

Não é verdade que a a ocorrência da Revolução Russa tenha sido totalmente contraditória com o texto de Marx. É fato que ele manejou a hipótese de uma revolução que aconteceria antes nos países avançados. Mas também é certo que, na medida em que percebeu como ia funcionar a exportação da miséria e da contradição mais brutais para os países atrasados, Marx entreteve a possibilidade de que a brincadeira começasse alhures. Está tudo lá, nos escritos sobre a Índia, sobre a própria Rússia. Marx era fascinado, intrigado pela Rússia.

38a2d728.jpg
Junho de 1917, congresso de operários e soldados.

Diga-se o que quiser, mas eu desconheço exemplo comparável de uma saída da letargia política, cultural e social para um período de efervescência alucinada e criativa como os primeiros anos da Revolução Russa: a mais sofisticada produção e reflexão cinematográficas da época, a criação da crítica literária moderna, transformações profundas no teatro, nas artes plásticas, na poesia. Quase que do nada, inventava-se outra experiência de organização da sociedade. Lênin, Trótski, Kolontai, Maiakóvski, Eisenstein, Malevich, Eichembaum, Jakobson: é incrível como indivíduos geniais vão aparecendo quando uma coletividade começa a se mexer. c_russian_poster.jpg

De janeiro de 1941 a junho de 1945, a URSS enfrentaria 78% das tropas nazistas alemãs e daria 13 milhões de soldados na luta contra o fascismo, fato convenientemente esquecido pelas versões hollywoodianas, americanas heróicas da II Guerra, que insistem na brutal distorção de que os EUA "salvaram" a humanidade. Ancorada na força do planejamento, a URSS daria um salto gigantesco em comparação com todos os países capitalistas -- a um custo humano imenso, claro, e nisto nossos amigos liberais e conservadores têm toda a razão.

Quem estuda com paixão o período 1917-24 na Rússia o faz apostando, talvez insensatamente, que essa tragédia humana posterior não era inevitável.

Em todo caso, tim-tim aos 90 anos daquele inesquecível barraco.

PS: Se algum erudito cinéfilo quiser ajudar a montar uma lista de filmes que retratam o período da Revolução, o blogueiro ficaria muito agradecido.



  Escrito por Idelber às 02:08 | link para este post | Comentários (38)



terça-feira, 06 de novembro 2007

REUNI

Segundo dados do Censo da Educação Superior, o Brasil contava em 2005 com 176 universidades: 52 federais, 33 estaduais e 5 municipais, com um total de 1.192.189 matrículas. O setor privado respondia por 3.260. 967 matrículas em 1.934 instituições, só 86 das quais são universidades. Na pós-graduação, são 124.000 matrículas, com 9.000 doutores formados por ano. As públicas concentram 93% dos programas de pós e 97% da pesquisa feita no Brasil.

Sabedor de que havia chegado a um ponto de esgotamento o modelo dos anos 90 -- congelamento de investimentos no setor público e proliferação de matrículas no particular -- , o governo lançou o REUNI, decreto promulgado com generalidades e depois parcialmente esclarecido com diretrizes (pdf). As respostas ao REUNI até agora são uma amostra microscópica do paradoxo por excelência do governo Lula: ele se apropria de pautas de eficiência liberais. Aqueles que sempre foram ideólogos dessas pautas ficam na confusão, pois se trata de um governo visto como de esquerda (e atacado por ser de esquerda) que as implementa. Por outro lado, esperneiam os sindicatos das categorias afetadas, que eram base do partido do atual presidente na sua época de oposição. No fim das contas, o governo Lula tem conseguido derrotar -- "dobrar" -- essa resistência. São 35 ou mais as universidades que já aderiram ao REUNI, apesar dos intensos protestos da ANDES e de parte dos alunos.

Apesar de já ter lido o decreto e acompanhado parte da discussão sobre ele, não tenho opinião totalmente formada, além de:

1) me agrada a idéia de um projeto que inclua incentivos em investimentos para quem cumprir certas pautas de produtividade. Esta é a essência do REUNI; não há "punição" a universidade nenhuma com redução de verbas, nem obrigatoriedade de adesão ao programa. Não é um ataque à autonomia universitária, mas uma legítima "proposta de mercado" feita pelo estado a quem quiser aderir.

2) Não sou fã necessariamente de um dos pilares da reforma curricular proposta nas diretrizes, que é a proliferação de cursos "genéricos" (bacharelados em humanidades, artes ou ciências), como antídoto contra uma suposta "profissionalização precoce" no ensino superior brasileiro. Mas enquanto este modelo "meio norte-americano" de licenciatura for uma opção entre outras, não tenho nada contra.

3) É razoável a reivindicação dos professores de que o governo considere os alunos de pós-graduação nas contas que seriam feitas para se cumprir a meta de 18 alunos por professor (lembre-se que os alunos fazem 4, 5 cursos). Mas se o movimento docente quer entrar em combate contra as adesões, teria que apresentar argumentos mais sólidos que estes (pdf) ou estes. Não adianta lançar hipérboles.

Dito isto, é mais que legítima a lembrança de que a universidade brasileira ainda não tem o investimento que mereceria. Seria absurdo eu querer invalidar todas as críticas feitas pelo movimento docente ao decreto, mas acho que ANDES e cia. devem se preocupar com o desgaste político de apresentar argumentos que parecem carregados de corporativismo.



  Escrito por Idelber às 03:43 | link para este post | Comentários (5)



segunda-feira, 05 de novembro 2007

First Spanish Graduate Student Conference, Washington University

Ser convidado por outros professores para um congresso é bacana: trocar experiências, ver o que os colegas andam escrevendo, compartilhar leituras. Mas ser convidado para abrir ou fechar um colóquio de estudantes é sempre outro registro de reconhecimento. Doutorandos não te convidam para falar a não ser que tenham mesmo lido o que escrevestes. Vão para os congressos com aquela fome saudável de diálogo. É uma ocasião especial.

Os alunos de pós-graduação em espanhol da Washington University, em Saint Louis, fizeram seu primeiro colóquio neste fim de semana e me deram a honra do convite para a conferência principal. Levei um trabalho inédito sobre Gustavo Ferreyra e Martín Kohan, dois autores ainda pouco lidos fora da Argentina, o primeiro ainda mais desconhecido que o segundo. Sabia que ia gerar alguma conversa, mas não esperava ter uma das viagens mais inesquecíveis, intelectualmente mais estimulantes da minha vida. O programa de WashU hospeda um grupo de doutorandos chilenos e argentinos que são a nata do que já vi em 18 anos de vida universitária nos EUA, em sofisticação, em interlocução harmoniosa e inteligente, em compromisso com a literatura e com o pensamento. Para completar, trata-se de uma daquelas reuniões de pessoas generosas, divertidas. Como se não fosse suficiente, eles me presenteiam com um churrasco de corte legitimamente argentino, um almoço com ceviche e carne assada, livros, textos, revistas, referências, mil informações, incontáveis risadas.

Não havia como eu saber, claro, que iria encontrar aquele que é provavelmente o único grupo de jovens críticos literários do hemisfério norte a se dedicar em profundidade, com conhecimento de causa, às obras de autores como Juan José Becerra, Alan Pauls, Sergio Chejfec, além de Kohan, Ferreyra e do já mais estudado Roberto Bolaño -- todos eles presenças firmes no meu panteão romanesco pessoal. Seria muito longo relatar tudo o que aprendi com os trabalhos que escutei, superiores ou comparáveis ao que de melhor andam produzindo meus colegas por aí. Senti aquela sensação maravilhosa de conhecer velhos cúmplices, ser apresentado a antigos amigos, interlocutores.

Meu muito obrigado a César Barros, Ángeles Donoso, Julio Ariza, Paola Ehrmantraut, Nicolás Poblete, Vicente Bernaschina, Natalia Monetti, Catalina Andrango-Walker, José Galindo; a seus colegas de programa em WashU; a seus convidados de Berkeley, NYU e Michigan, especialmente Julia Chang, Ofelia Ros e Federico Pous, que apresentaram três trabalhos magníficos: Julia sobre a dinâmica racial na pintura colonial mexicana, Ofelia sobre a singular experiência da editora Eloísa Cartonera, Federico sobre o bate-bola de Bolaño com Borges em El gaucho insufrible; finalmente, obrigado também aos meus colegas de WashU, Profs. Elzbieta Sklodowska, amiga querida de anos (a polonesa mais cubana do planeta), Ignacio Sánchez Prado, Derek Pardue, Andrew Brown, pelos almoços e cafés regados a bom papo.

Gostaria mesmo de retribuir a hospitalidade um dia, em New Orleans ou em Belo Horizonte.

PD: por supuesto, en este blog se puede comentar en cualquier lengua.

Actualización: !Martín Kohan acaba de ganar el premio Herralde con su nueva novela!



  Escrito por Idelber às 04:23 | link para este post | Comentários (12)




Liberdade para Ana Virgínia Moraes Sardinha

Paz-gif.gif%27.gif

Este blog se junta aos que pedem justiça para Ana Virgínia Moraes Sardinha, brasileira que passa por verdadeiro inferno em Portugal. A lista dos blogs que participam do esforço de solidariedade à Ana Virgínia está aqui. Ajude a divulgar, se puder.



  Escrito por Idelber às 04:13 | link para este post | Comentários (8)



sexta-feira, 02 de novembro 2007

Antonio Risério: A utopia brasileira e os movimentos negros

Eu vou ali pegar um avião, visitar essa bela cidade, a convite dessa baita instituição, e já volto. Deixo-os com uma entrevista que dá muito, muito o que pensar. É uma conversa de José Castelo com o historiador e antropólogo Antonio Risério, a propósito de seu próximo livro, intitulado A utopia brasileira e os movimentos negros. A entrevista foi publicada originalmente no Valor Econômico. Nela, Risério fala do que considera sua "solidão" no debate racial brasileiro de hoje, dividido entre, por um lado, os que negam a existência do racismo e simplesmente se recusam a reconhecer a relevância do tema e, por outro lado, os que, segundo Risério, tentam importar ao Brasil categorias raciais norte-americanas, bicolores. Aí vai a íntegra da entrevista, enviada por cortesia de meu amigo Armando Almeida.

P: Em seu novo livro, você defende a idéia de que, ao tratar da cultura brasileira, não podemos nos iludir com fantasias fáceis, novos truques ideológicos e maniqueísmos simplificadores. Você se empenha, ainda, em não fugir da questão chave posta pela idéia de uma democracia racial e cultural. Contra quais idéias dominantes você escreveu este novo livro? Em que direção vai esse caminho original que você vem nos oferecer?

R: Estou nadando, clara e decididamente, contra a maré "bem-pensante", hoje, no Brasil. De uns tempos para cá, enquanto negromestiços norte-americanos passaram a reivindicar sua "identidade birracial", aproximando-se assim do modelo brasileiro, o que está acontecendo aqui é um movimento inverso: negromestiços tentando enfiar a rica e múltipla realidade racial brasileira na camisa-de-força do padrão dicotômico norte-americano, que é essencialmente racista e foi criado pelos senhores brancos do sul dos EUA. Os EUA são o único país do mundo onde a existência de mestiços de branco e preto não é socialmente reconhecida – basta uma gota de "sangue negro" para fazer do indivíduo um "negro" (jamais um "branco", é claro). É isto o que está sendo transposto para cá, por nossos acadêmicos racialistas e agrupamentos ativistas neonegros. Trata-se de tentar transformar o Brasil num campo racial nitidamente polarizado, com base no que aconteceu na vida norte-americana, como se a experiência histórica de um povo pudesse ser simplesmente substituída pela experiência histórica de outro. Daí que o racialismo político-acadêmico de professores e militantes tenha baixado o decreto ideológico de que inexistem mestiços em nosso país. De que nossos morenos e mulatos não passam de uma perversa ilusão de ótica. É certo que a mestiçagem brasileira recebeu, no século passado, uma interpretação senhorial, mistificadora. Mas a solução não é abolir o problema, mesmo porque continuamos mestiços. Temos de saber encarar os fatos. Mestiçagem não é sinônimo de igualdade, nem de harmonia. Não exclui o conflito, o racismo. E a melhor prova disso é o próprio Brasil. É claro que nunca vivemos numa democracia racial. Mas realizamos conquistas que nos autorizam a acreditar que podemos avançar nessa direção. Que podemos realizar o mito, fazendo com que ele se encarne na história.

P: O multiculturalismo é, ao mesmo tempo, uma idéia muito rica e uma idéia contaminada de mal-entendidos e confusões. De qualquer modo, ela parece estar no centro dos principais debates culturais de hoje. O multiculturalismo é uma característica crucial da cultura brasileira. Mas, você mostra, nenhuma das culturas que aqui chegou conseguiu conservar sua "pureza", nesse sentido somos o país das impurezas. Que dificuldades, mas também que vantagens essas contaminações nos oferecem?

R: Minha visão é algo diferente. De um modo geral, podemos dizer que existem países multiculturais e países sincréticos. O Brasil é um país essencialmente sincrético. Não temos aqui nada de parecido com o bilingüismo paraguaio, com as divisões que detonaram a antiga Iugoslávia, com os cingaleses e tâmeis que fragmentam o Sri Lanka, com o que acontece na Nigéria e na Indonésia. Não temos conjuntos culturais fechados, ensimesmados. Aqui, apesar das crueldades da escravidão, as coisas se mesclaram em profundidade. Daí que eu costume dizer que, culturalmente, mesmos os brancos brasileiros são mais africanos do que os negros norte-americanos. Mas há, ainda, uma outra distinção. Uma coisa é a realidade multicultural de um país, outra é a ideologia multiculturalista. O multiculturalismo se opõe às interpenetrações culturais, defendendo o desenvolvimento separado de cada "comunidade" étnica, de modo que esta possa permanecer sempre idêntica a si mesma, numa espécie qualquer de autismo antropológico. Ora, nem o Brasil é multicultural, nem há lugar aqui para o multiculturalismo, a não ser que, como dizia Adam Smith, neguemos a evidência dos sentidos em nome da coerência de nossas ficções mentais. Hoje, de resto, a experiência sincrética brasileira se tornou referência para o mundo globalizado, com todos os seus encontros e atritos interétnicos.

P: Você estuda, em particular, a presença da cultura negra no cinema brasileiro e na música popular brasileira. E faz, sempre, um contraponto com o que se passa na cultura norte-americana. Por que?

R: Sublinho o assassinato espiritual do africano nos EUA. Lá – sob a pressão cruel e poderosa do poder puritano branco – as culturas africanas foram destroçadas, varridas do mapa. É por isso que não há orixás nos EUA (eles só começaram a voltar no século 20, com migrações antilhanas). Os pretos abraçaram a Bíblia. Criaram uma variante do cristianismo puritano. E como elementos, práticas e sistemas simbólicos de origem nitidamente africana inexistem na sociedade norte-americana, também inexistem na criação estética desta mesma sociedade. Dessa perspectiva, a cultura norte-americana pode ser resumida em poucas palavras: nunca ninguém fez nenhum "despacho" na cabana de Pai Tomás. O que vemos no Brasil é justamente o contrário disso. Faço o contraponto para mostrar as enormes diferenças que existem entre as experiências históricas e sociais do povo brasileiro e as do povo norte-americano, com a sua rígida separação entre um mundo cultural branco e um mundo cultural negro, coisas que são fundamentais, mas que nossos atuais racialistas político-acadêmicos não levam em consideração. Se o que aconteceu nos EUA tivesse acontecido também no Brasil, em Cuba e no Haiti, não teríamos hoje sequer vestígios de deuses africanos em toda a massa continental das Américas. Teria sido melhor assim? Não creio.

P: Você se esforça para mostrar que essa influência negra não deve ser tratada só como um elemento de formação, como um aspecto importante do passado, mas também como algo presente, e ainda, como algo que diz respeito ao futuro de nossa cultura. Que exemplos você poderia oferecer da vitalidade da tradição negra? Onde e por quem ela é anulada, e onde consegue não só sobreviver, mas se fortalecer?

R: O ponto principal é que signos culturais de origem africana fazem parte de nosso presente social e cultural. Impregnam e imantam a nossa ambiência. Por isso mesmo, não comparecem, na criação estética brasileira, como dados arqueológicos ou como relíquias salvas de um naufrágio. Pelo contrário: aparecem como produtos concretos da vivência pessoal de nossos criadores (muitos deles, negromestiços) ou, pelo menos, como coisas que existem objetivamente à sua volta. Veja a criação plástica de Rubem Valentim, que é uma espécie de Mondrian dos terreiros, a um só tempo ancestral e construtivista. Veja a obra de alguns criadores do cinema novo, a produção poético-musical de Caetano Veloso, a literatura brasileira, onde Iansã pode irromper até mesmo nas Galáxias de Haroldo de Campos. O fato é que temos a presença ancestral da África na arte brasileira de invenção. Quanto à segunda pergunta, vejo um quadro complicado. Se o candomblé se fortaleceu em meio às elites, está se enfraquecendo em âmbito popular. As massas negromestiças brasileiras estão abandonando os terreiros e aderindo às igrejas neopentecostais, que se utilizam, diabolicamente, de crenças populares e de práticas das religiões negras, como a técnica do transe. Não quero fazer profecias, mas acho que estamos caminhando para a formação de um neocandomblé, não só em São Paulo, mas também na Bahia. Um neocandomblé que se configura a partir da presença, nos terreiros, de pessoas das mais diversas cores, classes e formações culturais.

P: Apesar do prestígio do futebol brasileiro, o futebol continua a ser um tema recalcado em nossa cultura. Você não se esquiva dele e mostra como, apesar de ser um esporte da elite inglesa, ele logo sofreu entre nós uma sábia apropriação popular. Mostra, ainda, como a expansão do futebol afetou o crescimento do rádio e da imprensa brasileira, como ele se tornou produto de exportação e como fomentou uma indústria. Mas como, apesar disso tudo, nunca perdeu a liberdade e a criatividade. Em que medida a recriação ou reinvenção do futebol pelo povo brasileiro ainda é desprezada e por que? Que fatores levaram, entre nós, a uma valorização estética do futebol, a ponto de ele se tornar um "futebol-arte"? Você chega a dizer que o futebol brasileiro é "filho do barroco" – o que isso significa exatamente?

R: Não acredito que haja desprezo, hoje, por essa proeza popular de recriação ou reinvenção de um esporte inglês. Dos tempos de Mario Filho e Nelson Rodrigues para cá, cresceu e muito, por sinal, a legião dos que examinam, estudam e buscam entender a escola brasileira de futebol. E não vejo como situá-la fora da matriz barroca que está na base mesma de nossa formação e vem marcando há séculos, de uma ponta a outra, tanto em plano "erudito" quanto no "popular", a criação cultural brasileira, da arquitetura ao desfile das escolas de samba. Visões do barroco como arte do excesso, como criação lúdica e sensual, como artesanato feito para enfeitiçar os sentidos definem perfeitamente o futebol brasileiro, da folha seca de Didi ao lance desconcertante de Ronaldinho Gaúcho, ou da bicicleta de Leônidas às pedaladas de Robinho, passando pelo deus Pelé. É o gosto pela curva, pelo floreio, pelo efeito, pela voluta, pela estetização extrema de cada jogada, pela surpresa. O povo brasileiro reinventou o futebol com a inteligência corporal específica de sua formação etnocultural. Na base, o samba e a capoeira. O ritmo e a malandragem. Não é por acaso que usamos uma mesma palavra – e de origem africana: ginga – para falar de sinuosos movimentos corporais de sambistas, capoeiristas e jogadores. E esta recriação se deu em horizonte barroco. É por isso que, acompanhando alguns estudiosos, chego a falar, sinteticamente, de uma escola barroco-mestiça de futebol.

P: Que marcas a escravidão, e também o movimento abolicionista que a enfrentou, deixam, ainda hoje, na cultura negra brasileira? Em que medida esses não são apenas eventos do passado, mas marcas que ainda hoje se disseminam, com força, na vida brasileira? Como se comportam, hoje, nossos movimentos negros em relação a esse passado que se perpetua no presente?

R: Raramente nos lembramos de que durante séculos, no Brasil, ninguém foi contra a escravidão em si. Os tupinambás praticavam a escravidão, assim como os portugueses e os africanos. Quando um determinado grupo negro se rebelava contra a sua situação, travava uma luta específica: queria se libertar do seu cativeiro, mas não hesitaria em escravizar outros grupos. Havia escravos em Palmares. E os negros malês, que se sublevaram em 1835, pretendiam escravizar os mulatos. Ou seja: do século 16 ao século 19, fomos todos escravistas. Foi com o movimento abolicionista que, pela primeira vez em nossa história, a escravidão como sistema foi colocada em questão. E, também pela primeira vez, formou-se uma ampla aliança de classes e cores, em função do combate ao sistema. Negros – livres e escravos – participaram ativamente do processo. Nesse sentido, o 13 de Maio (ainda hoje, apesar de tudo, a nossa maior revolução social) foi, também, uma vitória negromestiça. E penso que nossos atuais movimentos negros não deveriam estigmatizar a data, desprezando a longa e dura luta vitoriosa de seus antepassados. O problema é que as nossas elites impediram a realização completa do projeto abolicionista, que visava à integração final do negro na sociedade brasileira. Não promoveram as reformas moral, educacional e agrária que eram reivindicadas pelas lideranças abolicionistas. Nabuco dizia que acabar com a escravidão não bastava: era preciso liquidar todos os vestígios do regime. E isto não foi feito. É por isso que a maioria dos negromestiços vive ainda no subsolo da sociedade brasileira. E que ainda estamos lutando para completar a obra apenas iniciada pela Abolição. O que não acredito, ao contrário dos movimentos negros, é que a luta tenha de se dar, necessariamente, por linhas étnicas rígidas. Pela adoção do modelo racial norte-americano. Temos de pensar o Brasil por nossa própria conta e risco – ou os equívocos continuarão se sucedendo vertiginosamente. É mais difícil, mas, certamente, menos enganoso e falsificador.

P: Você trata da existência de uma "nova história oficial brasileira", que se distingue da velha história oficial, que era tramada na perspectiva dos colonizadores. Você chega a dizer que ela é "uma espécie de contra-história brasileira". Como ela se define? Em que medida ela construiu novos dogmatismos e novos clichês? Que aspectos e contradições de nossa história essa "contra-história", formulada nos anos 70, tratou, ela também, de dissimular e esquecer? Em que medida ela apenas substituiu mitos antigos por mitos novos?

R: Existe a velha história oficial do Brasil, que se institucionalizou a partir da obra de Varnhagen e da criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. E existe a nova história oficial do Brasil, que nasceu na década de 1970, invertendo os sinais algébricos da "velha", e se institucionalizou mais recentemente, gravando-se nos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ministério da Educação, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Falo de "contra-história" porque ela pouco mais é do que uma inversão de sua antecessora. Se a "velha história" celebrava a colonização lusitana, a "nova história" celebra irrestritamente negros e índios, condenando o colonizador português ao fogo do inferno. De uma parte, ela é a história do índio eco-feliz e do negro gloriosamente empenhado na luta por sua liberdade. De outra, é a história do colonizador branco como um animal invariavelmente estuprador e assassino. De um maniqueísmo absoluto, reduz a história do Brasil, que é altamente complexa, a um filme de bandido e mocinho, idealizando os dominados e caricaturando os dominadores. Daí que passe bem ao largo de coisas como o caráter essencialmente agressivo e belicoso da cultura tupinambá ou do fato de que os nagôs vieram parar aqui porque foram vendidos aos brasileiros pelos reis do Daomé. Enfim, é uma história de povos-anjos e povos-demônios, que converte os nossos antepassados em fantasias a-históricas. E, assim, não faz mais do que substituir mitos antigos por mitos novos – ou mentiras surradas por mentiras recentes. Se quisermos de fato nos conhecer, temos de superar esse primarismo "rousseauniano", feito sob medida para debutantes mentais.


P: Contrariando a idéia dominante, você faz em seu livro uma aproximação estreita entre o Brasil e Cuba. O fio de ligação principal é a santería, a religião dos orixás, e, em particular, a figura de Exu. A maior parte dos brasileiros tende a ver Cuba como um país atrasado, parado no tempo, e imobilizado sob o peso de um regime de exceção. Que elos secretos, ainda assim, seriam esses que nos unem a Cuba?

R: O traço de união entre o Brasil e Cuba é a África. Em termos históricos, genéticos e culturais. Costumo dizer que Cuba foi uma Bahia tardia e, ao mesmo tempo, mais avançada. Mais tardia porque o apogeu da economia açucareira cubana aconteceu no século 19, quando os canaviais baianos se encaminhavam para a decadência final. Mais avançada porque o que se implantou lá foi um parque açucareiro moderno, efeito e causa da chamada "revolução agrícola" cubana. Nessa época, as populações negras do Brasil e de Cuba experimentaram uma mudança notável. Os bantos estavam desde o início em ambos os lugares. Mas a revolução agrícola em Cuba e o estabelecimento de nexos comerciais diretos entre o Brasil e o golfo do Benim, na África, trazem para os nossos países levas e mais levas de iorubanos – chamados "nagôs" no Brasil e "lucumís", em Cuba. E os iorubanos vão marcar profundamente e para sempre as duas regiões, irmanando-as. Isto é muito claro no campo da produção cultural. Uma antropologia das formas estéticas no Novo Mundo mostra com clareza a presença africana, sobretudo banto e nagô (ou lucumí), nas criações brasileiras e cubanas. Antes que "hacienda" de Fidel Castro, Cuba é, mais profundamente, terra de Iemanjá e Xangô. Como a Bahia.

P: Como você se sente e se vê no cenário cultural brasileiro de hoje? Quais são seus principais interlocutores e quais são os principais obstáculos que enfrenta? Quais são, a propósito, seus novos projetos de livros?

R: No campo específico da discussão das relações sócio-raciais no Brasil, hoje, minha sensação é de isolamento. De uma certa solidão política e intelectual. Por um lado, o que temos é a velha conversa de que não existe racismo no Brasil. Por outro, o que predomina é o racialismo político-acadêmico, a militância neonegra, lendo o Brasil com lentes norte-americanas. Ou seja: por um lado, o clichê insustentável; por outro, a alienação universitária e o capachismo ideológico. Nesse último caso, não se trata de combater "idéias fora do lugar", mas de lembrar que as concepções raciais norte-americanas não são conceitos, categorias universais, mas noções "nativas", indestacáveis da experiência histórica dos EUA, que procuram injetá-las em nosso meio através de suas instituições e financiamentos de pesquisas. Além disso, o poder se comporta com excessiva reverência diante do discurso racialista. E é ignorante, como Lula pedindo perdão no Senegal. Quem tem de pedir perdão aos povos africanos, pela escravidão, são as elites africanas, que participaram ativa e lucrativamente do tráfico de escravos. Como se não bastasse, há uma certa covardia dos intelectuais, que temem contrariar os movimentos negros e serem classificados como racistas. O clima, enfim, é de inibição do debate. Fico, então, com as exceções. Com a paixão da troca clara e honesta de idéias. E, portanto, com poucos interlocutores, a exemplo de Peter Fry, Eduardo Giannetti, João Santana e Caetano Veloso. Quanto a novos livros, não sei. Tenho escrito muito sobre a cidade no Brasil. Mas, no momento, quero que venha à luz este novo, "A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros".



  Escrito por Idelber às 08:58 | link para este post | Comentários (19)



quinta-feira, 01 de novembro 2007

Um quarteto de Borges

Pelos idos de 1954, Jorge Luis Borges ainda enxergava de um olho. Numa viagem de férias a Mar del Plata com o casal Bioy (Adolfo e Silvina Ocampo), ele leva um tombo e, ao se recompor, descobre que já está praticamente cego. Sendo testemunha do oitavo ano de Perón no poder e tendo vivido uma sucessão de desastres amorosos, Borges passa por um de seus períodos mais duros. A cegueira inspira um texto célebre, o Poema dos Dons:

Nadie rebaje a lágrima o reproche
Esta declaración de la maestría
de Dios, que com magnífica ironía
me dio a la vez los libros y la noche

Eu, que dificilmente aprendo poemas de cor, ando há anos com este quarteto na cabeça. Gosto de tudo nele: a completa ausência de ressentimento ante a cegueira, a admiração pela “ironia” de Deus, o enjambement do segundo verso ao terceiro, a rima abraçada de “reproche/ noche”. Escrito na década de 1950, ele marca a volta de Borges à poesia, já não a dos alongados e paisagísticos versos brancos da juventude, mas uma poesia contida, de formas quase clássicas e métrica rigorosa.

Pois bem, este quarteto merece outra versão em português, diferente da que se encontra nas Obras Completas de Borges, publicada pela Editora Globo, onde lemos:

Ninguém rebaixe a lágrima ou censure
Esta declaração de maestria
De Deus, que com magnífica ironia
Me deu os livros e a um só tempo a noite.

Esta saída não resolve nada: perde a rima e perde a métrica. Deixo aqui duas outras possibilidades, na certeza de que os eruditos leitores encontrarão uma melhor:

Ninguém rebaixe a lágrima ou se afoite
A condenar a mestria de Deus
que com magnífica ironia
Deu-me os livros e ao mesmo tempo a noite

Ninguém rebaixe a lágrima ou censura
Esta declaração da mestria de Deus
que com magnífica ironia
me deu os livros e a noite escura

Ambas são superiores à versão publicada em português, mas nenhuma me agrada completamente. A primeira tem a vantagem de conservar a rima abraçada, mas não consegue manter a métrica do verso final, acrescentando-lhe um verborrágico “ao mesmo tempo”. A segunda inventa um redundante “escura” para qualificar a noite, e perde assim o impacto do uso metafórico do substantivo.

Deve haver uma saída melhor.



  Escrito por Idelber às 09:28 | link para este post | Comentários (30)