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sexta-feira, 02 de novembro 2007

Antonio Risério: A utopia brasileira e os movimentos negros

Eu vou ali pegar um avião, visitar essa bela cidade, a convite dessa baita instituição, e já volto. Deixo-os com uma entrevista que dá muito, muito o que pensar. É uma conversa de José Castelo com o historiador e antropólogo Antonio Risério, a propósito de seu próximo livro, intitulado A utopia brasileira e os movimentos negros. A entrevista foi publicada originalmente no Valor Econômico. Nela, Risério fala do que considera sua "solidão" no debate racial brasileiro de hoje, dividido entre, por um lado, os que negam a existência do racismo e simplesmente se recusam a reconhecer a relevância do tema e, por outro lado, os que, segundo Risério, tentam importar ao Brasil categorias raciais norte-americanas, bicolores. Aí vai a íntegra da entrevista, enviada por cortesia de meu amigo Armando Almeida.

P: Em seu novo livro, você defende a idéia de que, ao tratar da cultura brasileira, não podemos nos iludir com fantasias fáceis, novos truques ideológicos e maniqueísmos simplificadores. Você se empenha, ainda, em não fugir da questão chave posta pela idéia de uma democracia racial e cultural. Contra quais idéias dominantes você escreveu este novo livro? Em que direção vai esse caminho original que você vem nos oferecer?

R: Estou nadando, clara e decididamente, contra a maré "bem-pensante", hoje, no Brasil. De uns tempos para cá, enquanto negromestiços norte-americanos passaram a reivindicar sua "identidade birracial", aproximando-se assim do modelo brasileiro, o que está acontecendo aqui é um movimento inverso: negromestiços tentando enfiar a rica e múltipla realidade racial brasileira na camisa-de-força do padrão dicotômico norte-americano, que é essencialmente racista e foi criado pelos senhores brancos do sul dos EUA. Os EUA são o único país do mundo onde a existência de mestiços de branco e preto não é socialmente reconhecida – basta uma gota de "sangue negro" para fazer do indivíduo um "negro" (jamais um "branco", é claro). É isto o que está sendo transposto para cá, por nossos acadêmicos racialistas e agrupamentos ativistas neonegros. Trata-se de tentar transformar o Brasil num campo racial nitidamente polarizado, com base no que aconteceu na vida norte-americana, como se a experiência histórica de um povo pudesse ser simplesmente substituída pela experiência histórica de outro. Daí que o racialismo político-acadêmico de professores e militantes tenha baixado o decreto ideológico de que inexistem mestiços em nosso país. De que nossos morenos e mulatos não passam de uma perversa ilusão de ótica. É certo que a mestiçagem brasileira recebeu, no século passado, uma interpretação senhorial, mistificadora. Mas a solução não é abolir o problema, mesmo porque continuamos mestiços. Temos de saber encarar os fatos. Mestiçagem não é sinônimo de igualdade, nem de harmonia. Não exclui o conflito, o racismo. E a melhor prova disso é o próprio Brasil. É claro que nunca vivemos numa democracia racial. Mas realizamos conquistas que nos autorizam a acreditar que podemos avançar nessa direção. Que podemos realizar o mito, fazendo com que ele se encarne na história.

P: O multiculturalismo é, ao mesmo tempo, uma idéia muito rica e uma idéia contaminada de mal-entendidos e confusões. De qualquer modo, ela parece estar no centro dos principais debates culturais de hoje. O multiculturalismo é uma característica crucial da cultura brasileira. Mas, você mostra, nenhuma das culturas que aqui chegou conseguiu conservar sua "pureza", nesse sentido somos o país das impurezas. Que dificuldades, mas também que vantagens essas contaminações nos oferecem?

R: Minha visão é algo diferente. De um modo geral, podemos dizer que existem países multiculturais e países sincréticos. O Brasil é um país essencialmente sincrético. Não temos aqui nada de parecido com o bilingüismo paraguaio, com as divisões que detonaram a antiga Iugoslávia, com os cingaleses e tâmeis que fragmentam o Sri Lanka, com o que acontece na Nigéria e na Indonésia. Não temos conjuntos culturais fechados, ensimesmados. Aqui, apesar das crueldades da escravidão, as coisas se mesclaram em profundidade. Daí que eu costume dizer que, culturalmente, mesmos os brancos brasileiros são mais africanos do que os negros norte-americanos. Mas há, ainda, uma outra distinção. Uma coisa é a realidade multicultural de um país, outra é a ideologia multiculturalista. O multiculturalismo se opõe às interpenetrações culturais, defendendo o desenvolvimento separado de cada "comunidade" étnica, de modo que esta possa permanecer sempre idêntica a si mesma, numa espécie qualquer de autismo antropológico. Ora, nem o Brasil é multicultural, nem há lugar aqui para o multiculturalismo, a não ser que, como dizia Adam Smith, neguemos a evidência dos sentidos em nome da coerência de nossas ficções mentais. Hoje, de resto, a experiência sincrética brasileira se tornou referência para o mundo globalizado, com todos os seus encontros e atritos interétnicos.

P: Você estuda, em particular, a presença da cultura negra no cinema brasileiro e na música popular brasileira. E faz, sempre, um contraponto com o que se passa na cultura norte-americana. Por que?

R: Sublinho o assassinato espiritual do africano nos EUA. Lá – sob a pressão cruel e poderosa do poder puritano branco – as culturas africanas foram destroçadas, varridas do mapa. É por isso que não há orixás nos EUA (eles só começaram a voltar no século 20, com migrações antilhanas). Os pretos abraçaram a Bíblia. Criaram uma variante do cristianismo puritano. E como elementos, práticas e sistemas simbólicos de origem nitidamente africana inexistem na sociedade norte-americana, também inexistem na criação estética desta mesma sociedade. Dessa perspectiva, a cultura norte-americana pode ser resumida em poucas palavras: nunca ninguém fez nenhum "despacho" na cabana de Pai Tomás. O que vemos no Brasil é justamente o contrário disso. Faço o contraponto para mostrar as enormes diferenças que existem entre as experiências históricas e sociais do povo brasileiro e as do povo norte-americano, com a sua rígida separação entre um mundo cultural branco e um mundo cultural negro, coisas que são fundamentais, mas que nossos atuais racialistas político-acadêmicos não levam em consideração. Se o que aconteceu nos EUA tivesse acontecido também no Brasil, em Cuba e no Haiti, não teríamos hoje sequer vestígios de deuses africanos em toda a massa continental das Américas. Teria sido melhor assim? Não creio.

P: Você se esforça para mostrar que essa influência negra não deve ser tratada só como um elemento de formação, como um aspecto importante do passado, mas também como algo presente, e ainda, como algo que diz respeito ao futuro de nossa cultura. Que exemplos você poderia oferecer da vitalidade da tradição negra? Onde e por quem ela é anulada, e onde consegue não só sobreviver, mas se fortalecer?

R: O ponto principal é que signos culturais de origem africana fazem parte de nosso presente social e cultural. Impregnam e imantam a nossa ambiência. Por isso mesmo, não comparecem, na criação estética brasileira, como dados arqueológicos ou como relíquias salvas de um naufrágio. Pelo contrário: aparecem como produtos concretos da vivência pessoal de nossos criadores (muitos deles, negromestiços) ou, pelo menos, como coisas que existem objetivamente à sua volta. Veja a criação plástica de Rubem Valentim, que é uma espécie de Mondrian dos terreiros, a um só tempo ancestral e construtivista. Veja a obra de alguns criadores do cinema novo, a produção poético-musical de Caetano Veloso, a literatura brasileira, onde Iansã pode irromper até mesmo nas Galáxias de Haroldo de Campos. O fato é que temos a presença ancestral da África na arte brasileira de invenção. Quanto à segunda pergunta, vejo um quadro complicado. Se o candomblé se fortaleceu em meio às elites, está se enfraquecendo em âmbito popular. As massas negromestiças brasileiras estão abandonando os terreiros e aderindo às igrejas neopentecostais, que se utilizam, diabolicamente, de crenças populares e de práticas das religiões negras, como a técnica do transe. Não quero fazer profecias, mas acho que estamos caminhando para a formação de um neocandomblé, não só em São Paulo, mas também na Bahia. Um neocandomblé que se configura a partir da presença, nos terreiros, de pessoas das mais diversas cores, classes e formações culturais.

P: Apesar do prestígio do futebol brasileiro, o futebol continua a ser um tema recalcado em nossa cultura. Você não se esquiva dele e mostra como, apesar de ser um esporte da elite inglesa, ele logo sofreu entre nós uma sábia apropriação popular. Mostra, ainda, como a expansão do futebol afetou o crescimento do rádio e da imprensa brasileira, como ele se tornou produto de exportação e como fomentou uma indústria. Mas como, apesar disso tudo, nunca perdeu a liberdade e a criatividade. Em que medida a recriação ou reinvenção do futebol pelo povo brasileiro ainda é desprezada e por que? Que fatores levaram, entre nós, a uma valorização estética do futebol, a ponto de ele se tornar um "futebol-arte"? Você chega a dizer que o futebol brasileiro é "filho do barroco" – o que isso significa exatamente?

R: Não acredito que haja desprezo, hoje, por essa proeza popular de recriação ou reinvenção de um esporte inglês. Dos tempos de Mario Filho e Nelson Rodrigues para cá, cresceu e muito, por sinal, a legião dos que examinam, estudam e buscam entender a escola brasileira de futebol. E não vejo como situá-la fora da matriz barroca que está na base mesma de nossa formação e vem marcando há séculos, de uma ponta a outra, tanto em plano "erudito" quanto no "popular", a criação cultural brasileira, da arquitetura ao desfile das escolas de samba. Visões do barroco como arte do excesso, como criação lúdica e sensual, como artesanato feito para enfeitiçar os sentidos definem perfeitamente o futebol brasileiro, da folha seca de Didi ao lance desconcertante de Ronaldinho Gaúcho, ou da bicicleta de Leônidas às pedaladas de Robinho, passando pelo deus Pelé. É o gosto pela curva, pelo floreio, pelo efeito, pela voluta, pela estetização extrema de cada jogada, pela surpresa. O povo brasileiro reinventou o futebol com a inteligência corporal específica de sua formação etnocultural. Na base, o samba e a capoeira. O ritmo e a malandragem. Não é por acaso que usamos uma mesma palavra – e de origem africana: ginga – para falar de sinuosos movimentos corporais de sambistas, capoeiristas e jogadores. E esta recriação se deu em horizonte barroco. É por isso que, acompanhando alguns estudiosos, chego a falar, sinteticamente, de uma escola barroco-mestiça de futebol.

P: Que marcas a escravidão, e também o movimento abolicionista que a enfrentou, deixam, ainda hoje, na cultura negra brasileira? Em que medida esses não são apenas eventos do passado, mas marcas que ainda hoje se disseminam, com força, na vida brasileira? Como se comportam, hoje, nossos movimentos negros em relação a esse passado que se perpetua no presente?

R: Raramente nos lembramos de que durante séculos, no Brasil, ninguém foi contra a escravidão em si. Os tupinambás praticavam a escravidão, assim como os portugueses e os africanos. Quando um determinado grupo negro se rebelava contra a sua situação, travava uma luta específica: queria se libertar do seu cativeiro, mas não hesitaria em escravizar outros grupos. Havia escravos em Palmares. E os negros malês, que se sublevaram em 1835, pretendiam escravizar os mulatos. Ou seja: do século 16 ao século 19, fomos todos escravistas. Foi com o movimento abolicionista que, pela primeira vez em nossa história, a escravidão como sistema foi colocada em questão. E, também pela primeira vez, formou-se uma ampla aliança de classes e cores, em função do combate ao sistema. Negros – livres e escravos – participaram ativamente do processo. Nesse sentido, o 13 de Maio (ainda hoje, apesar de tudo, a nossa maior revolução social) foi, também, uma vitória negromestiça. E penso que nossos atuais movimentos negros não deveriam estigmatizar a data, desprezando a longa e dura luta vitoriosa de seus antepassados. O problema é que as nossas elites impediram a realização completa do projeto abolicionista, que visava à integração final do negro na sociedade brasileira. Não promoveram as reformas moral, educacional e agrária que eram reivindicadas pelas lideranças abolicionistas. Nabuco dizia que acabar com a escravidão não bastava: era preciso liquidar todos os vestígios do regime. E isto não foi feito. É por isso que a maioria dos negromestiços vive ainda no subsolo da sociedade brasileira. E que ainda estamos lutando para completar a obra apenas iniciada pela Abolição. O que não acredito, ao contrário dos movimentos negros, é que a luta tenha de se dar, necessariamente, por linhas étnicas rígidas. Pela adoção do modelo racial norte-americano. Temos de pensar o Brasil por nossa própria conta e risco – ou os equívocos continuarão se sucedendo vertiginosamente. É mais difícil, mas, certamente, menos enganoso e falsificador.

P: Você trata da existência de uma "nova história oficial brasileira", que se distingue da velha história oficial, que era tramada na perspectiva dos colonizadores. Você chega a dizer que ela é "uma espécie de contra-história brasileira". Como ela se define? Em que medida ela construiu novos dogmatismos e novos clichês? Que aspectos e contradições de nossa história essa "contra-história", formulada nos anos 70, tratou, ela também, de dissimular e esquecer? Em que medida ela apenas substituiu mitos antigos por mitos novos?

R: Existe a velha história oficial do Brasil, que se institucionalizou a partir da obra de Varnhagen e da criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. E existe a nova história oficial do Brasil, que nasceu na década de 1970, invertendo os sinais algébricos da "velha", e se institucionalizou mais recentemente, gravando-se nos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ministério da Educação, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Falo de "contra-história" porque ela pouco mais é do que uma inversão de sua antecessora. Se a "velha história" celebrava a colonização lusitana, a "nova história" celebra irrestritamente negros e índios, condenando o colonizador português ao fogo do inferno. De uma parte, ela é a história do índio eco-feliz e do negro gloriosamente empenhado na luta por sua liberdade. De outra, é a história do colonizador branco como um animal invariavelmente estuprador e assassino. De um maniqueísmo absoluto, reduz a história do Brasil, que é altamente complexa, a um filme de bandido e mocinho, idealizando os dominados e caricaturando os dominadores. Daí que passe bem ao largo de coisas como o caráter essencialmente agressivo e belicoso da cultura tupinambá ou do fato de que os nagôs vieram parar aqui porque foram vendidos aos brasileiros pelos reis do Daomé. Enfim, é uma história de povos-anjos e povos-demônios, que converte os nossos antepassados em fantasias a-históricas. E, assim, não faz mais do que substituir mitos antigos por mitos novos – ou mentiras surradas por mentiras recentes. Se quisermos de fato nos conhecer, temos de superar esse primarismo "rousseauniano", feito sob medida para debutantes mentais.


P: Contrariando a idéia dominante, você faz em seu livro uma aproximação estreita entre o Brasil e Cuba. O fio de ligação principal é a santería, a religião dos orixás, e, em particular, a figura de Exu. A maior parte dos brasileiros tende a ver Cuba como um país atrasado, parado no tempo, e imobilizado sob o peso de um regime de exceção. Que elos secretos, ainda assim, seriam esses que nos unem a Cuba?

R: O traço de união entre o Brasil e Cuba é a África. Em termos históricos, genéticos e culturais. Costumo dizer que Cuba foi uma Bahia tardia e, ao mesmo tempo, mais avançada. Mais tardia porque o apogeu da economia açucareira cubana aconteceu no século 19, quando os canaviais baianos se encaminhavam para a decadência final. Mais avançada porque o que se implantou lá foi um parque açucareiro moderno, efeito e causa da chamada "revolução agrícola" cubana. Nessa época, as populações negras do Brasil e de Cuba experimentaram uma mudança notável. Os bantos estavam desde o início em ambos os lugares. Mas a revolução agrícola em Cuba e o estabelecimento de nexos comerciais diretos entre o Brasil e o golfo do Benim, na África, trazem para os nossos países levas e mais levas de iorubanos – chamados "nagôs" no Brasil e "lucumís", em Cuba. E os iorubanos vão marcar profundamente e para sempre as duas regiões, irmanando-as. Isto é muito claro no campo da produção cultural. Uma antropologia das formas estéticas no Novo Mundo mostra com clareza a presença africana, sobretudo banto e nagô (ou lucumí), nas criações brasileiras e cubanas. Antes que "hacienda" de Fidel Castro, Cuba é, mais profundamente, terra de Iemanjá e Xangô. Como a Bahia.

P: Como você se sente e se vê no cenário cultural brasileiro de hoje? Quais são seus principais interlocutores e quais são os principais obstáculos que enfrenta? Quais são, a propósito, seus novos projetos de livros?

R: No campo específico da discussão das relações sócio-raciais no Brasil, hoje, minha sensação é de isolamento. De uma certa solidão política e intelectual. Por um lado, o que temos é a velha conversa de que não existe racismo no Brasil. Por outro, o que predomina é o racialismo político-acadêmico, a militância neonegra, lendo o Brasil com lentes norte-americanas. Ou seja: por um lado, o clichê insustentável; por outro, a alienação universitária e o capachismo ideológico. Nesse último caso, não se trata de combater "idéias fora do lugar", mas de lembrar que as concepções raciais norte-americanas não são conceitos, categorias universais, mas noções "nativas", indestacáveis da experiência histórica dos EUA, que procuram injetá-las em nosso meio através de suas instituições e financiamentos de pesquisas. Além disso, o poder se comporta com excessiva reverência diante do discurso racialista. E é ignorante, como Lula pedindo perdão no Senegal. Quem tem de pedir perdão aos povos africanos, pela escravidão, são as elites africanas, que participaram ativa e lucrativamente do tráfico de escravos. Como se não bastasse, há uma certa covardia dos intelectuais, que temem contrariar os movimentos negros e serem classificados como racistas. O clima, enfim, é de inibição do debate. Fico, então, com as exceções. Com a paixão da troca clara e honesta de idéias. E, portanto, com poucos interlocutores, a exemplo de Peter Fry, Eduardo Giannetti, João Santana e Caetano Veloso. Quanto a novos livros, não sei. Tenho escrito muito sobre a cidade no Brasil. Mas, no momento, quero que venha à luz este novo, "A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros".



  Escrito por Idelber às 08:58 | link para este post | Comentários (19)


Comentários

#1

oi Idelber:
q prazer encontrar com Risério reproduzido aqui no Biscoito.
gosto muito de ler o q ele escreve, e tenho lido bastante nos últimos anos, desde q encanei de querer entender mais a fundo a Bahia e a baianidade, para aprender até q ponto essas categorias influenciam o meu próprio "estar no mundo".
as observações dele nessa entrevista são todas muito lúcidas, e eu assino embaixo da maioria delas.
me parece muito triste e desolador q o debate sobre racismo no Brasil fique resumido a ter, de um lado, os Ali Kamel da vida e, do outro, um movimento negro q, por exemplo, a pretexto de combater o "mito da democracia racial", atira suas pedras num suposto "mito da miscigenação".
Existe uma polarização q leva os dois lados a agirem o tempo todo ou na base da má-fe ou da simples ignorância.
E pobre de quem quiser desconfiar das posições dos dois extremos. Levará pedrada na certa, vinda de um lado ou de outro. Ou de ambos.
Mas é assim q eu penso, por exemplo, o tema das ações afirmativas no Brasil. acho q elas são absolutamente necessárias para diminuir um pouco as injustiças da sociedade brasileira, mas creio q deveriam obedecer a um critério sócio-econômico e não a um corte racial, q por definição é racista e, portanto, não soluciona o problema do racismo em nosso país, pode antes agravá-lo.
A historiadora da Unicamp Célia Maria Marinho de Azevedo (PhD pela Columbia) é outro nome q tem feito algumas reflexões importantes sobre esse assunto, especialmente em um livro chamado Anti-racismo e seus paradoxos: reflexões sobre a cota racial, raça e racismo (São Paulo: Editora Annablume, 2004). É uma leitura q eu recomendo bastante...
abs,

dra em novembro 2, 2007 12:10 PM


#2

Impressionantemente lúcido, o Risério. Peca no final, citando elogiosamente o baiano-meloso-analista-de-tudo-em-geral, mas há que relevar. Impressionante ainda que um subversivo desses consiga espaço numa Valor.
O debate que ele propõe é daquelas coisas ululantes, tão na nossa cara desde sempre, mas não nos damos conta. Somos uma nação de pardos.

Theo em novembro 2, 2007 7:53 PM


#3

O preconceito no brasil é bem típico. Nos EUA existe o histórico poderio branco dominador que praticamente não permitiu a miscegenação como aqui. O puritanismo, por assim dizer, não era e não é só religioso; envolve, no substrato, o conceito de classe e, mais definidamente, de classe dominante. "Além de pretos, eles são pobres e dependentes de nós, brancos e patrões e que,lhes damos a possibilidade de ficarem vivos graças ao trabalho que lhes oferecemos." Aqui no Brasil, ainda hoje e por muito tempo vai ocorrer, a maioria dos patrões, sejam eles grandes ou pequenos ainda entende que dar emprego aos pobres é um favor. Daí que podemos deduzir que a questão do preconceito está mesclada com a cor da pele e a classe social das pessoas. Nãomé atoa que os trabalhadores simples são chamados de "peões", sempre com escárnio sub liminar. Tanto é verdade que o preconceito se baseia muito mais na pobresa econômoca do cidadão que temos aqui os chamados "negros de alma branca"como os Pelés que invariavelmente se casam com brancas, de preferência louras. São os negros trânsfugas que pensam ser brancos e agem alinhados aos comportamentos de grupos sociais brancos. Penso que o buraco é mais em baixo. O sistema capitalista que vai-se tornando cada vez mais facista e exclu- dente é que é o vetor principal do preconceito. É claro que ser negro é uma agravante, principalmente se o negro for pobre. É só olhar para ver. A intelectualização da questão é uma perspectiva pequeno burguesa que não não leva a quase nada. Em todo caso, discutir, ser contra e combater o racismo e o preconceito é sempre válido. -- Abraços

Olavo Moraes em novembro 2, 2007 9:18 PM


#4

SENSACIONAL entrevista! Ótimo ter sido aqui publicada caro Idelber. A pequena freqüência do entrevistado na Mídia acaba (por várias razões) tornando o tratamento dado as suas afirmações, devido ao hábito jornalístico, como sendo afirmações bombásticas. Nem tanto.
O entrevistador conseguiu formular perguntas que cobrem um vasto campo de interesses. Apenas para destacar um dos assuntos (sem atribuir maior importância que os demais), achei interessante a opinião sobre a “nova” e a “velha” “história oficial brasileira”.
Faltou apenas perguntar qual a tendência. Vamos abandonar o sincretismo?

Paulo em novembro 3, 2007 7:11 AM


#5

Idelber,
excelente você ter postado esta entrevista. Como o Dra aí em cima, concordo com tudo, a partir do meu ponto de vista mais ou menos leigo no assunto. Vivo batendo nesta tecla por aqui que a forma como preconceito racial é praticada/vivida no Brasil é bem diferente da norte-americana, na história e nos procedimentos, idem o apartheid. Sem falar nesse conceito de multiculturalismo que virou um mito aqui na Holanda e eles ficam putos quando eu falo que o multi deles é só multi no sentido de vários, que não tem trans na parada. Agora tenho onde me basear para explicar meus pontos de vista.
No mais, só me resta esperar que os orixás continuem nos protegendo. Ou como dizia o Itamar Assumpção: Deus te pretege, curumim!

Márcia W. em novembro 3, 2007 7:37 AM


#6

Demais aqui...horas lendo...bjs

Drikaflor em novembro 3, 2007 11:15 PM


#7

Boa noite

Postei sobre a caminhada para Ana Virginia.

Vc ja teria o nome dos blogs que confirmaram a participacao da blogagem coletiva do dia 5?

Abracos

Luci Lacey em novembro 4, 2007 12:42 AM


#8

Idelber,

Muito boa a entrevista, e as idéias do Risério batem muito bem com o que eu penso sobre o tema. Ver o Brasil a partir de modelos importados é deixar de lado o que nos faz únicos (ou quase).
Aliás, já conversamos rapidamente sobre o posicionamento dos movimentos negros, lembra? Foi quando saiu na BBC aquela pesquisa com base no DNA da ancestralidade dos negros brasileiros, e da reação desproporcional (e despropositada) de alguns setores do movimento negro.

Luiz em novembro 4, 2007 4:58 AM


#9

fiquei apaixonado por esse cara, agora resta saber quando sai o livro....

alex castro em novembro 4, 2007 2:34 PM


#10

O Professor Risério profere erros grotescos em sua comparação Brasil x EUA. São eles:

- A destruição das religiões negras nos EUA foi muito mais facil que no Brasil porque a "simpática" nação americana importou muito menos escravos que o Brasil. E por aqui também tentou-se de todas as formas possíveis e imagináveis destruir os cultos afro-brasileiros. Da maneira como as coias são colocadas a impressão que fica é que a escravidão no Brasil foi muito mais "suave" que nos EUA, o que obviamente é uma deslavada mentira.

- Falar que o americano desconhece a figura do mestiço é demonstrar um profundo desconhecimento sobre a cultura daquele país. É comum os americanos se referirem a pessoas miscigenadas como "brown" ou "smokey" (lembram do cantor Smokey Robinson?). E da mesma forma que aconteceu aqui vários indivíduos se valeram da sua mestiçagem para fazer a "ponte" entre o mundo negro (que era discriminado, é claro) e o mundo branco (o dominante). Ou vocês acham que não existem brancos descendentes de escravos nos EUA? Ou vocês acham que somos a única nação miscigenada no mundo. Façam um exercício de imaginação: tentem imaginar como seria os EUA sem a presença negra, que é bem menor lá do que aqui... Não sei porque eu acho que o EUA seriam o lugar mais chato do mundo se não tivesse tido negros por lá e se não houvesse um enorme intercâmbio cultural (e sexual!) entre os dois povos em solo estadunidense. Talvez fosse interessante que o Professor Risério lesse "Negras Raízes" -- clássico da literatura americana escrito por Alex Haley -- a fim de melhorar as suas comparações.

-- Acusar o Movimento Negro de "importar" modelos americanos é uma piada de extremo mau gosto. O Movimento Negro é o movimento social mais antigo do país e possui uma história fantástica, que muitos historiadores e meios de comunicação não tem interesse em pesquisar. O que o MN critica é o fato de a mestiçagem brasileira ser usada como um fator para "amortecer" e até mesmo "negar" a negritude do povo brasileiro. Ora, façamos um teste: vamos perguntar a um cidadão qualquer em São Paulo (uma cidade que recebeu uma grande leva de imigrantes europeus) a sua ascendência. Muito provavelmente ele afirmará ser descendente de espanhóis, portugueses, italianos, etc. Porém, mesmo tendo óbvios sinais fenotipicos que demonstram sua ascendência negra ele se "esquecerá" de falar que é descendente de negros! Por que será que isso ocorre? Isso ocorre porque supostamente em nome de uma "redentora" mestiçagem o Brasil nega sistematicamente a presença do elemento negro na formação desse país. E a consequencia disso nós sabemos: o negro é feio, burro, preguiçoso, etc, conceitos esses que estão internalizados nos corações e mentes de nossa elite.

-- Não importa se você tem 95% de DNA europeu e apenas 5% de DNA africano. Se a sua pele for "escurinha" e se o seu cabelo for "ruim" as chances de você sofrer algum tipo de preconceito e ser chamado pejorativamente de "negão" são enormes. O Prof. Risério sabe disso. Nós sabemos disso. Não há "comprovação cientifica" de nossa "maravilhosa" mestiçagem que refute fatos tão óbvios quanto esse. É por isso que o MN bate tanto nessa tecla.

Claudio Roberto Basilio em novembro 4, 2007 4:15 PM


#11

O que sei é que essa entrevista é exemplar do post do dia 26 de outubro: "A sociedade brasileira está mais polarizada?". Quem acha que é uma polarização apenas sócio-econômica, ainda não olhou direito.

sandro ornellas em novembro 4, 2007 8:36 PM


#12

Os comentários foram lidos com atenção: vou deixar um agradecimento por atacado, porque formular o que eu próprio penso sobre o tema -- onde eu me aproximo do que diz Risério, onde tendo mais a concordar com o Claudio R. Basilio -- demandaria mais tempo do que eu disponho agora.

Mas trata-se de um tema permanente do blog e eu voltarei a ele.

O livro de Risério sai no próximo dia 10, em Porto Alegre (receberei um exemplar em breve, Alex. Já encomendei para a biblioteca também).

Idelber em novembro 5, 2007 4:40 AM


#13

Grande Biscoito Fino!

A entrevista do Mestre Risério é fantastica.Só elogios. Risério tinha que ser livro didatico nas escolas do Brasil.
Marconi.

marconi em novembro 16, 2007 3:20 AM


#14

Grande Biscoito Fino!

A entrevista do Mestre Risério é fantastica.Só elogios. Risério tinha que ser livro didatico nas escolas do Brasil.
Marconi.

marconi em novembro 16, 2007 3:20 AM


#15

Compreendo o sentimento de solidão do Prof. Risério. Lamento que a racialização continue fazendo a cabeça de "todos". O movimento negro está refém dessa idéia. O problema é que parece haver resistência para sair desta situação. A própria realidade racial reproduzida no cotidiano,incita, ao mesmo tempo em que aprisiona, o discurso e a prática do movimento negro.

Creio que esse livro nos ajudará muito a fortalecer a luta do Movimento Negro Brasileiro.

Antonio Vieira

Antonio Vieira em novembro 21, 2007 6:41 AM


#16

Excelente a entrevista de Risério. Gostaria de que me fosse informado como posso entrar em contato com Risério ou mesmo com a editora do livro.

Roque Ferreira em novembro 21, 2007 1:07 PM


#17

Caro Idelber,
etive com Risério, ontem (1º/12), aqui em Salvador, onde moro, no casamento do filho de Mário Kertész. Batemos um papo rápido e falei do livro que escrevi sobre Jorge Mautner (Jorge Mautner em Movimento). Disse que estarei no lançamento do livro dele, segunda-feira, 03/12, no Tom do Saber. Um abraço e até breve e sem notícias de Cida!!!!!

César Rasec em dezembro 2, 2007 10:08 AM


#18

Antonio Riserio em sua entrevista sai da analise
cientifica do que eh negro nos eua e no brasil.
Ele desconhece que o criterio para ser negro varia de estado para estado dos eua, em alguns eh 1/8 em outros eh 1/16 de sangue negro e em quase nenhum eh a gota de sangue. Essa desinformaçao se repete no caso brasileiro onde a esmagadora maioria dos indicadores sociais de pretos e pardos (que ele chama de mestiços) sao semelhantes: escolaridade media, nivel de escolaridade superior, salarios, desemprego, e bem distante dos brancos. Dai o IBGE, IPEA e pesquisadores terem agregado pretos e pardos na categoria social negro. No Brasil, preto e pardo, na maioria das áreas, sao tratados de forma semelhante. Esses sao os negros. Essa ignorancia leva a uma avaliaçao totalmente equivocada que diz que importamos o padrao racial estadunidense, da ancestralidade. No Brasil, o que conta eh o preconceito de marca, como dizia Oracy Nogueira. A ignorancia de todas essas informaçoes o leva a uma serie de posicoes de senso comum sobre miscigenaçao e politicas de promocao da populacao negra. Afinal, um homem heterossexual casa com uma mulher, mas nem por isso deixa de ser machista. O mesmo vale para o racismo e a miscigenacao. O pior de tudo eh atacar um movimento social, o negro, e nao propor nada concreto para promover a populacao negra que, felizmente, ele admite que estah em situaçao social pior. Gostaria mto q ele respondesse: como formar, emergencialmente, mais negros no ensino superior? A melhoria da educacao basica nao pode ser pretexto para protelar para as calendas gregas essa formaçao de quadros do poder e modelos sociais para a populaçao negra.

Marcelo Tragtenberg em fevereiro 10, 2008 10:56 AM


#19

O comentário acima, do Marcelo Tragtenberg, me parece um caso típico de analfabetismo funcional.
É óbvio q não se trata, efetivamente, de "uma gota" de sangue (ou ele acha q a miscigenação se faz a conta gotas?). O Risério (grande intelectual brasileiro, com sutilezas de percepção q dizem respeito ao fato dele ser baiano)abordou a questão por um viés metafórico q (ao menos aos minimamente inteligentes) não impede a compreensão de suas intenções.
Quem conhece um mínimo da obra do Risério, sabe de sua importância (pioneira) no reconhecimento
e decodificação das mudanças ocorridas em Salvador quando do surgimento dos blocos afro
no carnaval, na década de 70 (procurem o livro Carnaval Ijexá), além de seus estudos poético-antropológicos q foram muito pertinentes no q tange a preservação da tradição poética iorubá, em vias de se perder pelo fato de seu legado ser passado por via oral (leiam Oriki Orixá), dentre outras contribuições do referido autor.
Quem sabe de sua obra, percebe sua isenção e boa vontade quanto aos rumos do movimento negro no Brasil, o q não quer dizer devamos esperar dele complacência e irresponsabilidade.

Buscar (e aceitar) soluções fáceis, q vislumbrem a dívida histórica do Brasil para com os negros, por um viés condescendente e acrítico é coisa de políticas populistas visando angariar votos, mas despreocupadas com os rumos do país e de seu povo.
Formar mais negros no ensino superior não passará de atitude simbólica, se não forem buscador meios consistentes de torná-los competitivos no mercado de trabalho, e isso passa, obviamente, pelo fortalecimento dos ensinos médio e fundamental públicos do país.

É natural q os movimentos negros, levando em conta a oportunidade histórica q se-lhes apresenta, tentem desmotivar os debates contestadores de suas propostas, ainda q tais críticas sejam pertinentes, mas não podemos nos afastar de nossas responsabilidades deixando de vislubrar o Brasil em sua complexidade mestiça, concordando com uma ótica revanchista de "tomada do poder".
O destino do negro brasileiro é responsabilidade do Brasil e não somente do movimento negro.

O grito do oprimido,
ainda q silenciado por séculos,
não tem o direito de se pretender silenciador,
e não há razão pra q se pense, do oprimido, q é um seu direito se tornar opressor.

Igor Lucas Adorno Santos em junho 26, 2008 1:07 PM