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terça-feira, 06 de novembro 2007
REUNI
Segundo dados do Censo da Educação Superior, o Brasil contava em 2005 com 176 universidades: 52 federais, 33 estaduais e 5 municipais, com um total de 1.192.189 matrículas. O setor privado respondia por 3.260. 967 matrículas em 1.934 instituições, só 86 das quais são universidades. Na pós-graduação, são 124.000 matrículas, com 9.000 doutores formados por ano. As públicas concentram 93% dos programas de pós e 97% da pesquisa feita no Brasil.
Sabedor de que havia chegado a um ponto de esgotamento o modelo dos anos 90 -- congelamento de investimentos no setor público e proliferação de matrículas no particular -- , o governo lançou o REUNI, decreto promulgado com generalidades e depois parcialmente esclarecido com diretrizes (pdf). As respostas ao REUNI até agora são uma amostra microscópica do paradoxo por excelência do governo Lula: ele se apropria de pautas de eficiência liberais. Aqueles que sempre foram ideólogos dessas pautas ficam na confusão, pois se trata de um governo visto como de esquerda (e atacado por ser de esquerda) que as implementa. Por outro lado, esperneiam os sindicatos das categorias afetadas, que eram base do partido do atual presidente na sua época de oposição. No fim das contas, o governo Lula tem conseguido derrotar -- "dobrar" -- essa resistência. São 35 ou mais as universidades que já aderiram ao REUNI, apesar dos intensos protestos da ANDES e de parte dos alunos.
Apesar de já ter lido o decreto e acompanhado parte da discussão sobre ele, não tenho opinião totalmente formada, além de:
1) me agrada a idéia de um projeto que inclua incentivos em investimentos para quem cumprir certas pautas de produtividade. Esta é a essência do REUNI; não há "punição" a universidade nenhuma com redução de verbas, nem obrigatoriedade de adesão ao programa. Não é um ataque à autonomia universitária, mas uma legítima "proposta de mercado" feita pelo estado a quem quiser aderir.
2) Não sou fã necessariamente de um dos pilares da reforma curricular proposta nas diretrizes, que é a proliferação de cursos "genéricos" (bacharelados em humanidades, artes ou ciências), como antídoto contra uma suposta "profissionalização precoce" no ensino superior brasileiro. Mas enquanto este modelo "meio norte-americano" de licenciatura for uma opção entre outras, não tenho nada contra.
3) É razoável a reivindicação dos professores de que o governo considere os alunos de pós-graduação nas contas que seriam feitas para se cumprir a meta de 18 alunos por professor (lembre-se que os alunos fazem 4, 5 cursos). Mas se o movimento docente quer entrar em combate contra as adesões, teria que apresentar argumentos mais sólidos que estes (pdf) ou estes. Não adianta lançar hipérboles.
Dito isto, é mais que legítima a lembrança de que a universidade brasileira ainda não tem o investimento que mereceria. Seria absurdo eu querer invalidar todas as críticas feitas pelo movimento docente ao decreto, mas acho que ANDES e cia. devem se preocupar com o desgaste político de apresentar argumentos que parecem carregados de corporativismo.
Escrito por Idelber às 03:43 | link para este post
| Comentários (5)
#1
Idelber,
Sou aluno de Graduação do Curso de Filosofia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), assim como cursei um ano de Física nesta mesma. Não sou muito participativo no meio político da universidade por ócio e pelas oito horas diárias que tenho de trabalhar. Mas deixo aqui uma opinião sobre o que vejo na UFSC hoje:
Cursos ditos de base estão sendo esquecidos enquanto os que trazem um retorno econômico e produtivo imediato recebem muitos investimentos. Na UFSC cursos de engenharia são a nata da nata. Matemática, Física, Química (ainda um pouco), Filosofia, História, Geografia ficam esquecidos sem os investimentos devidos, sem o reconhecimento e sem um ensino de qualidade.
Não quero puxar a sardinha para o lado do curso que faço, mas hoje já se sente em Santa Catarina a falta de profissionais de pesquisa e ensino nas ditas áreas de base, tanto, que cursos a distância, de baixo custo e qualidade duvidável, vêm se apresentando como a solução para atender à demanda de professores de ensino médio e básico para áreas como Física, Matemática e Biologia.
Durante o Ensino Básico, que foi feito todo em uma instituição Estadual, tive apenas um professor de matemática que havia a devida formação. Tive aulas de biologia com a professora de Português, de História com a de Geografia e Matemática com gente que havia cursado econômia.
Como sempre, no Brasil se pensa somente no retorno rápido, soluções paliativas são quase sempre a regra e todos pagamos no final. Jeitinho brasileiro, sempre.
Gustavo G. BacK em novembro 6, 2007 9:50 AM
#2
Idelber:
confesso não lido a fundo os projetos do MEC e não ter opinião formada sobre o REUNI...
mas, a priori, vejo as metas do programa como muito interessantes... como ser contra, por exemplo, o aumento de vagas e a criação de cursos noturnos?
o problema todo está em saber como se vai fazer isso... o qto vai ser investido pra se chegar a cumprir essas metas.
não vejo vantagem, por exemplo, em tornar as federais uma espécie de UBA (de Bs. As.), q tem milhares e milhares de alunos mas uma qualidade baixíssima de recursos humanos e materiais. Q nem tem pós-graduação, por exemplo...
agora, com relação à ANDES, já faz tempo q ela é feudalizada pelo q há de mais atrasado na esquerda brasileira. são e agem mesmo como verdadeiros obscurantistas, em muitos momentos. e têm pouca representatividade entre os docentes como um todo, essa é q é a verdade.
outra questão q caminha pouco (e sempre mal) é a do investimento privado nas universidades públicas. a ANDES e os movimentos estudantis são contrários, por princípio. o outro lado vai se aproveitando do jeito q dá. eqto isso, não se discute uma maneira séria de regulamentar o lance todo. e tudo vira uma baderna dos diabos...
e assim vamos.
abs,
dra em novembro 6, 2007 12:08 PM
#3
Caro Idelber,
Concordo com dra "como ser contra a expansão de vagas no 3º grau"? E concordo com você em relação a " ele se apropria de pautas de eficiência liberais". Nada contra apropriações, literariamente elas são extremamente produtivas, mas a questão é : que ensino de de terceiro grau se pretende? Claro que não queremos os professores universitários que não "produzem", ou seja, professores que se aboletaram das cadeiras e que, nem em ausência conseguem instingar (é, em ausência, pois tive uma professora que me deu duas aulas, mas me forneceu uma bibliografia no curso , que poucas tenho visto tão importantes!) Ou seja, queremos levar todos para a mediocridade, ou queremos ter uma relação acadêmica realmente produtiva? Professores produtivos incomodam, em qualquer grau de ensino, e maximizar a produção universitária em função de números e estatísticas é, literalmente, passar a régua sem as devidas idiossincrasias. Fora, e você sabe, dos mecanismos que têm sido postos em prática para a aprovação da proposta! Há grupos, nada acadêmicos por sinal, muito interessados nas verbas destinadas aos novos curso que virão sob rubrica específica! Ou seja, há algo de podre no reino da Dinamarca! Um abraço, Maria Andréia
Maria Andréia em novembro 6, 2007 9:54 PM
#4
Para quem pretende investigar detalhes no projeto do REUNI e suas diretrizes, o atalho a seguir esclarece pontos em discussão que na UFPE justificam a pauta do protesto [revogação da adesão + discussão e plebiscito com a comunidade acadêmica] através da ocupação da reitoria:
Ocupação UFPE: Desmascarando o REUNI em cinco pontos
Note-se que a proposta da Ocupação, ao menos na UFPE, não é negar a importância do REUNI, mas discutir sua estrutura e viabilidade.
Ed Siqueira em novembro 13, 2007 8:24 AM
Ed Siqueira em novembro 13, 2007 8:30 AM
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