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sexta-feira, 09 de novembro 2007

Revolução Russa, 90 anos

kand_209sm.jpgFoi do cacete. Diga lá se não foi. É desses aniversários que, mesmo com dois dias de atraso, não se pode deixar de celebrar. 7 de novembro de 1917, Moscou, São Petesburgo: operários, camponeses e soldados desmontando um regime milenar, sacudindo um adormecimento de séculos.

Liberais e conservadores, diferentes em tantas coisas, coincidem na crença de que a Revolução Russa abriu um período histórico que estaria hoje definitivamente clausurado. Eles gostariam de ter certeza disso. Afirmam-no com tanta ênfase e com tanta freqüência que a gente acaba pensando que eles não tem tanta certeza assim do que dizem, que a afirmação é só uma espécie de preocupada conjura.

Não que a esquerda tenha a verdade sobre esse incomensurável evento, longe disso. Entre ela, a discussão mais comum é sobre quando a coisa começou a degringolar. 1921? 1924? 1928? 1930? Tem gente até que acha que a verdadeira traição à revolução ocorreu em 1956, depois da morte de Stalin, veja só que divertido. Alguns, mais fanáticos, insistirão que a decadência real só aconteceu mesmo em 1989. Na direita, há variações mais ou menos pobres de um mesmo exercício de automatismo histórico: os gulags de Stalin já estavam anunciados nos sovietes de 1917. Por quê? Ora, porque é sempre assim, porque não há outro caminho para a utopia socialista. Porque se assim foi até hoje, assim será para todo o sempre. Curiosa forma de imaginar a história.

Não é verdade que a a ocorrência da Revolução Russa tenha sido totalmente contraditória com o texto de Marx. É fato que ele manejou a hipótese de uma revolução que aconteceria antes nos países avançados. Mas também é certo que, na medida em que percebeu como ia funcionar a exportação da miséria e da contradição mais brutais para os países atrasados, Marx entreteve a possibilidade de que a brincadeira começasse alhures. Está tudo lá, nos escritos sobre a Índia, sobre a própria Rússia. Marx era fascinado, intrigado pela Rússia.

38a2d728.jpg
Junho de 1917, congresso de operários e soldados.

Diga-se o que quiser, mas eu desconheço exemplo comparável de uma saída da letargia política, cultural e social para um período de efervescência alucinada e criativa como os primeiros anos da Revolução Russa: a mais sofisticada produção e reflexão cinematográficas da época, a criação da crítica literária moderna, transformações profundas no teatro, nas artes plásticas, na poesia. Quase que do nada, inventava-se outra experiência de organização da sociedade. Lênin, Trótski, Kolontai, Maiakóvski, Eisenstein, Malevich, Eichembaum, Jakobson: é incrível como indivíduos geniais vão aparecendo quando uma coletividade começa a se mexer. c_russian_poster.jpg

De janeiro de 1941 a junho de 1945, a URSS enfrentaria 78% das tropas nazistas alemãs e daria 13 milhões de soldados na luta contra o fascismo, fato convenientemente esquecido pelas versões hollywoodianas, americanas heróicas da II Guerra, que insistem na brutal distorção de que os EUA "salvaram" a humanidade. Ancorada na força do planejamento, a URSS daria um salto gigantesco em comparação com todos os países capitalistas -- a um custo humano imenso, claro, e nisto nossos amigos liberais e conservadores têm toda a razão.

Quem estuda com paixão o período 1917-24 na Rússia o faz apostando, talvez insensatamente, que essa tragédia humana posterior não era inevitável.

Em todo caso, tim-tim aos 90 anos daquele inesquecível barraco.

PS: Se algum erudito cinéfilo quiser ajudar a montar uma lista de filmes que retratam o período da Revolução, o blogueiro ficaria muito agradecido.



  Escrito por Idelber às 02:08 | link para este post | Comentários (38)


Comentários

#1

"O século 30 vencerá ."

Márcia W. em novembro 9, 2007 6:03 AM


#2

Um episódio histórico notável!

P.S.: (1) Aparentemente na RÚSSIA se fechou o interregno revolucionário (incluindo tudo que houve na URSS, inclusive o período stalinista) e o atual governante russo aparenta por vezes se sentir o próprio Tzar.
(2) Em relação às questões Hollywoodianas, sempre há a possibilidade do cidadão se informar por outra fonte. Mas uma questão mais CURIOSA e mais simples são os dribles dados, AO LONGO DO TEMPO, pelas autoridades militares do nosso país, para não se hastear a bandeira soviética no MONUMENTO AOS PRACINHAS no Aterro.

Paulo em novembro 9, 2007 9:09 AM


#3

Filmes, outros poderão contribuir melhor do que eu. Mas por coincidência estou lendo um livro de que nunca tinha ouvido falar, bem sobre essa época e lugar, e totalmente fascinada. São as memórias do Ilya Ehrenburg, conhece? Estou no comecinho, mas achando sensacional.
E por acaso, hoje, 9/11, é o 18º aniversário da queda no Muro de Berlim, não é?

anna v. em novembro 9, 2007 9:17 AM


#4

o zero e o infinito...

adelson em novembro 9, 2007 9:53 AM


#5

De uma lista q guardo faz tempo...:


Assassinato do Tzar (Assassin of the Tzar). Direção de Karen Shakhnazarov, 1992, Rússia/Inglaterra.

Outubro (Oktyabre). Direção de Sergei M. Eisenstein, 1928, União Soviética.

Reds (Reds). Direção de Warren Beatty, 1981,
E U A.

Encouraçado Potemkin (Bronenosets Potemkin). Direção de Sergei M. Einsenstein, 1925, União Soviética.

Doutor Jivago (Doctor Zhivago). Direção de David Lean, 1965, E U A.

Moscou não Acredita em Lágrimas (Moscow Does Not Believe in Tears). Direção de Vladimir Menshov, 1979, União Soviética.

O Círculo do Poder (The Inner Circle/ Il Proiezionista), 1991, E U A/Itália.

Stalin (Stalin). Direção de Ivan Passer, 1992, E U A/Hungria.

Cipy em novembro 9, 2007 10:56 AM


#6

que assim seja, Márcia :-)

Paulo, eu não sabia desse conflito acerca da bandeira aí no aterro! Que hilário :-)

Já ouvi falar maravilhas dessas memórias, anna. Mas não, nunca li. (e Ehrenburgh era o grande amigo de Neruda, não era?). Deixe notícias, depois, do livro :-)

Obrigado, Cipy, dessa lista me faltam o antepenúltimo e último. O resto eu vi ;)

Idelber em novembro 9, 2007 1:00 PM


#7

Lendo Cipy, lembrei de um filme incrível chamado algo tipo "Nós somos do jazz". Alguém viu? Passa nos anos 70, acho, e mostra bem o enrijecimento do aparelho burocrático.

Márcia W. em novembro 9, 2007 3:52 PM


#8

Mais filminhos pra lista:

Nicholas and Alexandra [EUA, 1971]
Dir. Franklin Schaffner

Oktyabr 1927 [URRS, 1927]
Dir. Grigori Aleksandrov/Sergei M. Eisenstein

Arsenal [URSS, 1928]
Dir: Aleksandr Dovzhenko.

O Fim de São Pertersburgo [URSS, 1927]
Dir: Vsevolod Pudovkin. Inteiro no Google Video: http://video.google.com/videoplay?docid=-8307494510245731707&q=pETERSBURG&hl=en

Renatinha Krause em novembro 9, 2007 4:08 PM


#9

A história da Revolução Russa é incrível. É arrepiante ler um livro como "os 10 dias que abalaram o mundo", escrito por um cara entusiasmado com a Revolução e anterior às coisas irem pro brejo, e imaginar os outros rumos que a coisa poderia ter tomado. Ou tentar imaginar algo como aquilo acontecendo hoje em dia. Não uma repetição daquela Revolução, mas algum país em algum lugar aprontando um "barraco" que o levaria para uma situação totalmente inédita na História. Até mesmo a degringolação da Revolução é interessante. A experiência socialista ainda teve a decência de desaparecer depois de virar um monstro. Nosso pobre mundo capitalista vira um monstro mais horroroso a cada dia e está sempre aí, pronto prá piorar sempre um pouco mais.

Um humilde adendo à lista de filmes: Man with a Movie Camera, o inacreditavelmente bom filme de Dziga Vertov. É de 1929, mas a mais ousada MTV de hoje em dia parece velharia perto desse filme!

Daniel em novembro 9, 2007 4:26 PM


#10

Obrigado pelas dicas e link, Renatinha, há dois ilustres desconhecidos para mim nessa lista :-)

E esse Vertov é imperdível, Daniel. Acho que saiu no Brasil como "Um homem com uma câmera". Outro clássico;

Idelber em novembro 10, 2007 3:26 AM


#11

É mesmo, o que a nobreza russa que se achava muito superior aos outros produziu? Que eu saiba, só o Vladimir Nabokov era filho de nobre.
E o acordo de não-agressão entre Stálin e Hitler lá pelo fim dos anos 1930, que o Hitler como bom feladaputa descumpriu? E se ele tivesse cumprido até o fim, de qual lado ficaria o exército russo?
Há quem conte que os russos enxotaram os nazistas dos países do Leste Europeu e de parte da Alemanha mas, em vez de terminada a missão voltarem pra Rússia, instalaram-se e apoiaram ditaduras comunistas. Daí talvez não quererem mostrá-los como heróis.

Te em novembro 10, 2007 8:54 AM


#12

Olá Idelber,
me lembrei do documentário de Pasoline 'La Rabbia' de 1963, que foi acrescido de um segundo filme, dirigido pelo diretor Giovannino Guaresch. Faz muito tempo que ví, mas creio que falava sobre o tema.
Mas ainda tem ' Assassinato do Czar' de Karen Shaknazarov, 'Anastacia, a princesa esquecida' de David Lean,
'Anastacia' de Don Bluth e Gary Goldman,
'A condessa de Hong Kong' de Charles Chaplim,
'Stalim' de Ivan Passer, 'A mãe' de Vsevolod Pudovkin inspirado em em Máximo Górk,
'O amor no Exilio' de Régis Wagner,
'Greve' de Sergei Eisentein,
'O inimigo X' de King Vidor,
'CIamera Olho e Requiem a Lenin' de Dzia Vertov,
'A batalha( ou balada) de um soldado' de Grigori Chukhrai,
'Agonia Rasputin' de Elem Klimov,
'A revolução dos Bichos' De John Stephenson,
'A insustentável levesa do ser" de Phililp Kaufman.
Na verdade alguns filmes dessa minha lista não tem a ver diretamente com a 'Revolução de 1917' , mas esbarram no tema.
E vários podem ser baixados pelo E-mule.
Abaços

Fm em novembro 10, 2007 4:23 PM


#13

Idelber,

Até achei sensato o posicionamento que você tomou em relação às barbáries cometidas pós-revolução, mas ainda assim é uma pena que se comemore algo que veio a mostrar o lado mais cruel e mais anti-humano a que a humanidade pôde chegar. E é difícil imaginar que da pregação pelo socialismo possa sair qualquer diferente de homícidios em massa, de personalismo extremado, de valorização totêmica de um partido. Em relação à economia, etc., há muitos que dizem que havia uma série de mudanças ocorrendo desde os fins do século XIX, com o czarismo mesmo. E vale lembrar também que mesmo sob o czarismo a Rússia pôde oferecer literatos do naipe de um Tostói ou de um Dostoiévsky, ou de um músico como Tchaikóvsky (e como é bom ouvir a Marselhesa em Ouverture de 1812).

Enfim, é uma pena que se defenda até hoje uma revolução que redunda em totalitarismo, ou se defender uma figura assassina como Che Guevara. O mundo não precisa de mais personalismo e autoritarismo, ou de pura tirania.

Adriano em novembro 10, 2007 6:15 PM


#14

Desculpa Adriano, mas não acho que tenha sido um "pena" comemorar a Revolução. O que aconteceu na Rússia de certa forma permitiu aos movimentos operários dos países europeus conquistarem uma série de direitos que hoje podemos desfrutar de maneira tão sutil quanto despercebida.

Infelizmente somente a ruptura política e econômica não foram suficientes para superar o capitalismo. Com certeza, os erros que vc aponta são verossímeis, mas, devemos sempre tomar cuidado com lugares-comuns. Veja bem: uma revolução é uma revolução. É como uma guerra. Não se pode fazer uma revolução sem que "não se quebrem ovos", entende??

Quando comemoramos a Revolução, não comemoramos seus erros, suas cagadas e suas mortes em demasia, mas sim um momento histórico absurdamente importante para tudo o que viria depois. Um sopro na história, na verdade um tufão nos ares cinzentos de uma europa caduca.

Abs e parabéns Idelber.

Edk em novembro 10, 2007 6:51 PM


#15

excelente artigo, Idelber. Ainda serão necessárias muitas décadas ainda para compreendermos a importância da revolução russa em sua totalidade...

João Barreto em novembro 10, 2007 9:28 PM


#16

Edk diz bem: revolução é revolução, e até mesmo a francesa produziu seus monstros. Comemorar não significa a(ssa)ssinar embaixo dos absurdos cometidos a posteriori e sim louvar o espírito de resistência que vingou sobre a opressão.
Tostói é um chato. Dostoiévsky, cristão. 1812, um plágio. O mundo se assombrou foi com a Sputnik e com Gagarin.

Charley Vasconcelos em novembro 11, 2007 9:37 AM


#17

é isso.

uau, que listaça. valeu fm.

Um alô de Amsterdam.

Idelber em novembro 11, 2007 1:13 PM


#18

Acabei de alugar o "homem com uma camera". Só uma obs, o filme é de 1924.
e sim, Idelber. Foi do cacete ;)

Kelly em novembro 11, 2007 9:14 PM


#19

Idelber, ótimo post. E lembrou falha minha por ainda não ter comentado o assunto em meu blog. Mas o farei. Tenho relido John Reed, um dos melhores relatos sobre a revolução russa, que deu em um filme, infelizmente sem a mesma qualidade. Como foram ricas as discussões! Quanta paciência dos bolcheviques com o pensamento burguês! Mesmo com o Palácio de Inverno tomado, com o poder já em suas mãos, as assembléias eram ricas em debate e contavam com ferrenha oposição de mencheviques, SRs, cadetes, social-democratas de direita, desejosos de um caminho de conciliação. Durante muito tempo a revolução contou com inimigos declarados e alguns não tanto. As anos seguintes foram igualmente riquíssimos. Impossível não reconhecer a vitória do socialismo que permitiu aquele país, em poucas décadas, deixar de ser um país agrário em uma das maiores potências industriais do planeta, responsável principal pela derrota do nazismo, mesmo que a máquina de propaganda ocidental tente o tempo todo esconder esta verdade. O discurso de direita, impedido de maiores lógicas em seus argumentos, passou a se fixar na mesma tecla: a barbárie cometida. A maldade no argumento é evidente. Já acontecia na contra-revolução em 1917, John Reed relata no livro. Não deixou de ser tentada depois, até hoje servindo como principal argumento da direita e, também, de herdeiros dos mencheviques. Estes deveriam cobrar de George Washington suas culpas. Afinal, o cara virou nota, mesmo tendo maltratado tantos soldadinhos ingleses.

Jurandir em novembro 12, 2007 10:59 AM


#20

Pois é, Kelly esse aí está na minha lista é para ontem ;)


e, Jurandir, Reed é um personagem singular mesmo: um daqueles casos incríveis de um acontecimento irrrompendo e definindo a vida de um sujeito. O livro, com certeza, é um colosso.

Idelber em novembro 12, 2007 2:18 PM


#21

Senhores,

O paralelo entre George Washington e os bolcheviques é totalmente sem cabimento. Se a "direita" critica o socialismo soviético não é por ele ter matado nazistas ou quaisquer pessoas de outros povos com que a Rússia pudesse estar em guerra. O grande problema é que pelo menos duas dezenas de milhões de russos morreram na mão... de russos; isso é sem paralelo na história, a não ser que se fala da quase centena de milhões de chineses que morreram em quatro anos em decorrência da Grande Fome.

Em relação ao outro argumento de Jurandir, é preciso repetir que a economia russa estava em pleno desenvolvimento já nos últimos anos do atrasado sistema czarista. Fica, assim, posta em dúvida se a transição do "feudalismo" (ou agrarismo) se daria necessariamente, que é o que defendo, ou se se deveu ao totalitarismo socialista.

E, para defender Marx, também é preciso dizer que a revolução viria da mão dos trabalhadores, a partir da tomada de consciência do proletariado, que parece, no fundo, ter sido manipulado por líderes pequeno-burgueses como Lênin e Tróstsky.

Isso tudo sem contar ainda que a Rússia leninista só sobreviveu com a NEP, que foi uma espécie de estado de exceção... capitalista.

Adriano em novembro 12, 2007 5:25 PM


#22

Bem Fabião...primeiramente quero justificar o porque de eu ter tocado neste assunto. Longe de tentar fazer alguem deixar de gostar deste ou daquele personagem da história, eu apenas fiquei um tanto quanto revoltado com as palavras colocadas no texto pelo cara que enviou, o tal de Idelber Avelar, pois diferia muito de meu ponto de vista do que seja a vida, alem de achar inacreditavel como uma pessoa que acredito ter estudado, tenha feito uma abordagem tão horrivel e com total desconhecimento do terreno onde se metia, que não resisti em responder, mesmo sabendo que dificilmente chegaria de volta até ele..Vejamos: ele desconhece tamanha efervecencia no mundo cinematografico quanto aos primeiros anos que se seguiram a revolução...que ironia..nos primeiros anos da revolução, o cinema sovietico parou totalmente, pois os antigos "filmmakers" abandonaram o novo país e um decreto de Lenin nacionalizando o cinema em 1919, foi um ato vazio, ja que quase todos os cinemas haviam se fechado principalmente por causa do embargo comercial, onde filmes extrangeiros não chegavam. Em 1921 ou 22, Lenin preocupado com os rumos economicos, criou a NEP, new economy policy, trazendo novamente a economia de mercado, abandonando temporariamente os preceitos de Karl Marx, com isto começou a surgir novamente uma classe média, e com o fim do embargo em 1923, filmes extrangeiros voltaram e com isto cinemas novos abriram se, e somente em 1923 apareceram algumas produções...ou seja uns 30 filmes caseiros ( que baita revolução no cinema não seu Avelar..?) O único cineasta com fama internacional foi realmente eisenstein, mas fez o encoraçado de potemkin somente em 1925..e com o sucesso, para a comemoração dos 10 anos da revolução, foi encomendado outro filme, em 1928, Outubro. Depois disto sabe o que fez o sr. Eisenstein...? Se mandou para Europa, e bye bye USSR., Na França fez contacto com Paramount, foi até Los Angeles, ficou até 1930 e não deu nada...acharam seus filmes não proprios para comercio. Foi para o Mexico..e tambem fracassou...apesar de anos por lá..nenhum filme e em 1932 ( 4 anos fora da USSR. recebeu intimação de voltar pois caso contrario seria considerado desertor)...ele arrumou tanto rolo pelo mexico, até foi detido meses na fronteira com eua por estar com desenhos satíricos de Cristo, juntamente com farto material pornográfico...Passou pela america do sul e quando voltou para USSR.em 1933, ficou num hospital mental para tratamento. Em 38 fez Alexander Nevsky, uma propaganda antinazista e em sua biografia entre outras coisas é considerado homosexual ou bisexual..fora ele não se destacou mais nenhum cineasta nos primeiros anos...e esta foi a sofisticada produção cinematografica segundo o Avelar..E apesar de eu estar sendo cansativo...não da para engolir...ele diz que houve neste periodo a "criação da critica literaria moderna"...vejam só este trecho :
"O período de relativa liberdade criativa e da independência dos autores encerrou-se na Rússia Comunista. Adestrada pelo partido, a literatura soviética e as demais artes deveriam seguir a doutrina oficial. A ordem era engajar-se com ardor na tarefa de construir a sociedade igualitária futura sob orientação infalível do camarada Stalin, pai provedor e guia espiritual da nação. A nova fase artística seria orientada pelos cânones proletários do Realismo Socialista. Foi este o sumário do discurso pronunciado pelo comissário Andrei Zdanov na abertura do Iº Congresso dos Escritores Soviéticos, realizado em 1934, que teve trágicas conseqüências para a história das letras do país.
Não que a tolerância predominasse. Eugeni Zamiatin (autor da novela Nós, fundador da distopia, inspiradora do 1984 de George Orwell), mesmo quando era integrante do partido comunista já denunciara a chegada de uma A Idade do Gelo, assegurando que a "verdadeira literatura não pode fluir da pena de obedientes e rotineiros burocratas, mas terá que ser produzida por loucos, eremitas, heréticos, sonhadores, rebeldes e céticos" (Tenho Medo, Jornal Dom Iskusstv, 1921)". Vejam bem, o que para um jornal sovietico, foi a idade do gelo na literatura.. para o sr Avelar foi o periodo da criação da critica literaria...a era de ouro da poesia...rs...porisso que me referi a Dostoievsky e companhia...
Mas isto tudo é irrelevante, o que me revoltou mesmo foi ler a seguinte frase que ele colocou..: "Em todo caso..tim tim aos 90 anos daquele inesquecivel barraco"....isto me irritou muito, pois acho que independente dos resultados de uma revolta ou de uma guerra, se foi o bem ou o mal quem venceu, jamais poderiamos brindar o acontecimento, devido a tragicidade delas, usando se o termo barraco para um um período tão triste na história humana, só um ser totalmente desprovido de sensibilidade assim o faria..e detesto estas pessoas. Imaginem vcs. se daqui há alguns anos o Iraque se torne uma maravilha....e Bush e Condolezza aparecem fazendo tim tim na tv. brindando os acontecimentos que vimos....será que todas as crianças mortas mereceriam aquele brinde...? Será que algum ser pensante acharia acharia apropriado dizer...: valeu o barraco que fizemos por lá...? Não seria mais apropriado com pesar no coração, referir se aos acontecimentos passados com respeito, e num gesto de solidariedade humana dizer quase chorando: A todos aqueles que perderam suas vidas...a todos aqueles que tiveram arrancado de sua familias algum ente querido, nossas condolencias e desculpas por ainda não termos aprendido a convivermos como sêres realmente humanos mas estamos tentando dar um passo neste sentido.... Bem ainda não deu tempo para colocar Hitler na parada....mas o Idelber merece...rs..na próxima não escapa...Um abraço...

ariovaldo leite da silva em novembro 12, 2007 10:22 PM


#23

Caro Adriano,

Sua acusação é conhecida. Foram vinte milhões de russos vítimas do seu governo? Eu o desafio a apresentar fontes diferentes de William Hearst, Robert Conquest e Aleksandr Solzhenitsyn. Para não me alongar aqui, sugiro logo um link:

http://www.mariosousa.se/MentirassobreahistoriadaUniaoSovietica.html

O primeiro foi o grande magnata da imprensa marrom americana que inspirou o filme Cidadão Kane, um inimigo declarado do regime soviético, amigo de hitler nos anos 30. O segundo foi desmoralizado pelo The Guardian, que o acusou ser homem do IRD (Information Research Departement, do serviço secreto inglês, antes Communist Information Departement), o último, depois que a cada palestra aumentava o número de vítimas do regime soviético e reinventava histórias, começou a ser esquecido por seus próprios patrocinadores, caindo no ostracismo.

Todas estas mentiras caíram por terra quando em 1989, no governo Gorbachov, um grupo de historiadores russos, como V. N. Zemskov, A. N. Dougin e O. V. Xlevjik (pesquise no Google) teve acesso pela primeira vez a vários documentos do sistema corretivo soviético até a data de 1953, reunindo o resultado em 9 mil páginas que desmentem as mentiras até então inventadas sobre aquele período.

Acusar a revolução soviética de ser uma fábrica de mortos é nítida manobra diversionista. Foi o capitalismo, e ainda é, um dos maiores fabricantes de vítimas e de barbárie em toda a história da humanidade. Fique só nas ações dos EUA que já terá números e relatos impressionantes. Comece com a expansão americana chegando ao Caribe para destronar o decadente império Espanhol e ganhar de presente as Filipinas, caminho natural para o rico Oriente, seus recursos, seus mercados. A selvageria contra o indefeso povo filipino está registrada na história como um dos seus episódios mais cruéis.

Seu argumento de que nos últimos anos do czarismo havia pleno desenvolvimento da economia é absurdo. A fome e a miséria haviam aumentado substancialmente, inclusive com os efeitos da primeira guerra, motivo inclusive de ser a paz uma das principais bandeiras dos bolcheviques.

Massas manipuladas por líderes pequeno-burgueses? Nunca na história se discutiu e se deliberou tanto e por muitos. Que sistema democrático no mundo teve experiência de dar voz e poder a soldados, operários, camponeses como naquele? As democracias burguesas no mundo foram mais democráticas? Que isso? Se Bush não tivesse roubado não seria eleito.

Ah, sim, a NEP foi uma medida capitalista, o que demonstra o poderio do socialismo, que é o de ser capaz de ter jogo de cintura para fazer o mais certo, na hora mais exata. Ou, na melhor linguagem de Lênin: “É preciso voltar um passo atrás para depois avançar dois à frente". Quantas vezes o capitalismo ousou isso?

Jurandir em novembro 12, 2007 11:35 PM


#24

uau, que bela aula, ariovaldo. Obrigado mesmo. Mas peralá: parece que eu devo ter perdido a parte onde se dá como óbvio que 30 filmes em 1923 não é um número significativo para um país que havia feito 19 no ano anterior, e que seis anos antes se arrastava humilhado ante o exército do Kaiser.

Disse que cinema não é minha praia e não é mesmo. Mas também devo ter pulado aquela parte em que deveria ficar óbvio para a humanidade que Eisenstein era um "fracassado", não é mesmo? Porque afinal de contas não é o que dizem os que estudaram a fundo o período, não é? Ou será que há alguma bibliografia nova desmentindo toda a tradição que associa Einsenstein à formulação da montagem e do corte como elementos centrais, conferidores de sentido para o cinema?

E parece que um tal Protazanov andou fazendo umas coisinhas também, né? Ou ele não vale porque ele não tem "fama internacional"? Ou era "fracassado" como Einsenstein?

Não encontrei a parte do post em que "ignoro" a efervescência dos primeiros anos da revolução. Encontrei no seu comentário a parte que você confunde 1917 com 1934, formalistas russos com jdanovismo.

A crítica literária -- como atividade analítica e não só prescritiva; independente, diferente do filosofar sobre estética, ou do comentário crítico do próprio criador -- nasce mesmo, sinto informar, no bojo da Revolução Russa. Não como consequência dela, claro, já quem 1915 os dois grupos, o de Eichembaum e o de Jakobson, já se reuniam. Mas é no bojo daquela revolução que nasce o método e a disciplina.

Que, em 1934, se haja imposto uma doutrina dogmática num país do qual os formalistas já haviam sido expulsos, ora ora, só prova que 1917 é 1917 e 1934 é 1934.

A direita precisa aprender a fazer contas. Tem gente aí citando Pushkin, Dostoiévski. Pushkin morreu em 1837, Dostô em 1881. Quase quarenta anos antes da revolução.

Para provar que a Rússia não se arrastava na pasmaceira antes da revolução, terão que fazer mais que citar o nome de um cara morto quarenta anos antes.

Para desprovar o valor do feito em 1917, têm que fazer mais que citar coisas acontecidas em 1934.

Idelber em novembro 13, 2007 4:54 AM


#25

Idelber, só li seu post agora, e há tantos filmes que poderia citar, mas dos outros listados aí atrás, recomendo muitíssimo dois que, se não viu ainda, deve assistir com certeza. São "Moscou não acredita em lágrimas" e "A balada do soldado".
É pra quem realmente gosta de cinema.
Um abraço.

Kiril em novembro 13, 2007 7:03 AM


#26

um dos motivos que sempre me trazem a esse blog é ter a certeza de ler algo diferente da mesmice que encontro em todo lugar, inclusive em blogs. o que falaram de besteira sobre a Revolução Russa, mermão...

Daniel em novembro 13, 2007 11:40 AM


#27

Jurandir,

Concedo de barato que não tenham morrido 20 milhões sob Stálin. Concedo até que Trótsky tenha sido agente da CIA, se quiser.

Nenhum desses pontos, porém, pode desmontar o ponto fulcral de meu argumento, que é o de deixar bastante claro que a Revolução Russa, se é que foi revolução, pode-se dizer muito mais precisamente pela palavra Terror.

Não quero aqui entrar em disputas historiográficas sem fim, o que seria inútil, não levaria a lugar algum. Vou argumentar por um caso microfísico, que foi o de um dos maiores defensores da Revolução: Nikolai Bukharin. Em 1918 ele escreve um excelente texto que visa comparar o anarquismo ao que chama de comunismo científico. Vou citar três curtas passagens (via Marxists.Org):

1) "Scientific communism sees the state as the organisation of the ruling class [...]. Communist society is, as such, a STATELESS society.";

2) "And so the distinction between us communists and the anarchists with regard to bourgeois society lies not in that we are for the state and they are against the state, but rather in that we favour production being centralised in large units, fitted to the maximum development of productive forces, whereas anarchists favour small, decentralised production which cannot raise, but only lower, the level of these productive forces.";

3) "Like all power, the power of the proletarians is likewise organised violence. Like all states, the proletarian state is likewise an instrument of oppression. Of course, there is no need to be so circumspect about the question of violence. Such circumspection is best left to the good christian or the tolstoyan, not the revolutionary. In coming down for or against violence, there is a need to see who it is directed against. Revolution and counter-revolution are acts of violence in equal measure, but to renounce revolution for that reason would be nonsensical."

Nascido em 1888, Bukharin é morto em 1938, nos Processos de Moscou, em que após sofrer lavagem cerebral assumiu crimes que nunca cometeu, tornando-se "traídor da revolução".

Adriano em novembro 13, 2007 12:09 PM


#28

Dados esses três pontos, gostaria de basear minha argumentação neles. A idéia de que anarquismo e comunismo tenham fins no mínimo semelhantes é banal. O interessante é que Bukharin ataque o problema e consiga solucioná-lo de maneira bastante inteligente: se ambos os regimes defendem a extinção do Estado —sempre opressor e sob posse daclasse domiante—, por outro lado, um visa ter o processo econômico centralizado (comunismo) e o outro descentralizado (anarquismo). Essa chave de compreensão é bastante importante, pois até hoje confundem "comunismo" com "sociedades alternativas" à la Kibbutz, o que sem dúvida alguma não é o caso. Ainda nesse sentido, é importante destacar a inexorabilidade opressiva e autoritária que representa o Estado, e aqui defendo que os anos após 1917 mostraram que a "revolução" nasce já como traição, porque não havia de maneira alguma no horizonte a idéia de extinção do Estado e jamais houve em país socialista algum — muito menos ainda em Cuba, que nos idos de 1959 acorre aos Estados Unidos, implorando-lhe ajuda financeira, a que Castro recebe um sonoro não. Lembrando também que o Partido Comunista de Cuba apoiou Fulgêncio contra Castro, visto como elemento retrógrado.

Isso basta para o primeiro e para o segundo pontos afirmados nas citações acima.

Em relação ao terceiro ponto, é incrível como ao defender a violência do Estado Soviético Bukharin, como no "mito" de Guillotin, tenha assinado o seu atestado de óbito. É um exemplo histórico inigualável, de como a defesa de um meio injusto para um fim aparentemente justo pode voltar-se contra o seu proponente. Quantos de nós, mesmo que defendéssemos a Revolução, estaríamos vivos após finda a sua primeira década?

Quanto aos sovietes, é interessante lembrar a sua tradução: "assembléias". Nesse sentido, não foram novidade alguma, já que "assembléias" ou "ecclesias" existem desde há tempos e tempos.

Só achei curiosa a maneira como você tentou desqualificar o meu argumento do desenvolvimento industrial russo em fins de XIX e início de XX com a "fome" decorrente justamente da Primeira Guerra.

Por fim, a solução industrial soviética é dificilmente distingüível da nazista — e não só nesse aspecto podemos aproximar nacional-socialismo e socialismo "numa só nação".

Adriano em novembro 13, 2007 12:28 PM


#29

Idelber, belo post.

Para comemorar estou lendo Os 10 dias que abalaram o mundo.

Elton em novembro 13, 2007 6:29 PM


#30

Adriano,

Como você botou o tal ponto frucal na roda, vamos direto a ele. Nenhuma revolução, incluindo a soviética, foi feita apenas com palavras, votos e festa. É momento de ruptura e confrontação. Está certo o conceito na citação de Bukharin: o estado proletário necessariamente oprime. É a base do princípio marxista de ditadura do proletariado, onde a maioria domina a minoria, impondo sua vontade e a eliminando, rumo a uma sociedade sem classes, e futuramente sem estado. Mas devemos dar atenção a alguns pontos, para que isso não seja distorcido:

1) O processo revolucionário não se faz por holocausto, e nem assim foi feito. Usar os expurgos nos anos 30 como prova de terrorismo de estado é má-fé. Impossível entender aqueles fatos distantes do seu momento político. A URSS tentava uma nova ordem política e social, com grandes dificuldades, tendo que se defender de fortes inimigos internos e externos, que ameaçavam invadi-la, o que depois efetivamente fizeram. Neste momento, Bukharin não jogava para o time. Foi contra o processo de coletivização, desejava um novo modelo que incluísse os kulaks (pequenos latifundiários), um freio na industrialização, e defendeu vários pontos de um programa nitidamente burguês. Sem falar que atuava no paralelo, fazendo forte oposição à direção. É hipocrisia cobrar condescendência naquele complicado cenário. O estado burguês tem seus próprios métodos em casos semelhantes. Os EUA, este tão decantado exemplo de democracia, elimina seus quadros com mais agilidade, incluindo até presidentes.

2) É maldade acusar de traição aquele projeto socialista, rumo a uma sociedade sem estado, o comunismo. A experiência foi riquíssima, mas tomando pau de todo a lado, sem sossego um único minuto. E qual a receita para criar uma sociedade sem estado em um mundo de estados beligerantes? Sabia-se estar implantando o socialismo em um único país, e isso teria um alto preço.

3) Seus argumentos sobre o desenvolvimento industrial russo em fins do século XIX não vieram com a necessária defesa. Cabe a você formular. Continuo cético quanto ao seu sucesso nesta empreitada.

4) É mera bravata igualar socialismo e nazismo. O mundo liberal hoje tem enormes semelhanças às idéias nacional-socialistas. O avô de Bush foi patrono de congresso sobre eugenia nos EUA, na década de 20, com a presença de vários representantes nazistas. São idéias da família. E eles estão no poder.

Jurandir em novembro 14, 2007 12:56 AM


#31

A direita parece achar que execuções e fuzilamentos só acontecem em revoluções comunistas.

Na certa acham que em 1789 os jacobinos pediram licença à família real francesa.

Essa história de violência na Revolução Russa eu aceito discutir o dia em que fizerem um simples exercício: número de pessoas fuziladas em 1917-19 (depois houve guerra civil, não iniciada pelos bolcheviques) dividido pelas população geral da Rússia x número de pessoas assassinadas em 1789-92, dividido pela população da França de então.

Depois: número de vezes em que nossos liberais choramingaram sobre as mortes na Rússia, comparado com o número de vezes em que louvaram a Revolução Francesa.

E o prof. Ariovaldo, arrotou tanta erudição mas não voltou para a tréplica, hein?

Idelber em novembro 14, 2007 5:25 AM


#32

Jurandir é um bom argumentador e é educado, o que eu sinceramente nunca esperei da esquerda em geral, que parece ser muito mais hábil em gritar, rotular e espernear. Fiquei realmente feliz com o que vi aqui e espero que esse clima persista nestes meios ditos virtuais.

Mas como eu disse, discutir historiografia levaria a bate-bocas sem fim, e sem dúvida não foi por isso que mencionei a figura de Bukharin aqui. Na verdade, eu não o estava defendendo em momento algum; o seu exemplo é ímpar porque ele foi um ardoroso defensor da violência (irracional) e por ela caiu.

Há "algo" inominável na violência revolucionária. Se por um lado defende um fim aparentemente justo, por outro usa um meio absolutamente injusto. E é realmente importante enfatizar o "aparentemente". Ao contrário do que disse Idelber, parte considerável da direita, vá lá, cultural não defende de forma alguma o Terror de 1789. Aliás, eu diria que há muito mais semelhanças entre 1789 e 1917, do que há entre qualquer dessas datas e 1776.

É importante deixar claro que a esquerda acadêmica vibra como louca diante dos philosophes e da Revolução Francesa. Rousseau é de uma legenda irretocável para a romântica esquerda. E não vou aqui lembrar a proximidade entre romantismo, irracionalidade e violência.

Ainda falta mencionar alguns pontos, entre eles o desenvolvimento socioeconômico no fim do czarismo (ou tsarismo, segundo puristas). Para tanto, sugiro que se dê uma olhada no livro de Nicolas Spulber, Russia's Economic Transitions: From Late Tsarism to the New Millennium (a referência aponta diretamente para o índice). Lá se pode ver com riqueza de detalhes como se deu a industrialização no fim do XIX e início do XX e como a Primeira Guerra gerou mazelas sociais. Mas, por favor, não se trata de defender o tsarismo, mas de entendê-lo. Quanto a este mesmo ponto, gostaria de apontar que tudo indica que esta tenha sido também a visão de Lênin, isto é, a de que o tzarismo levava a uma revolução capitalista interrompida pela guerra.

Quanto a Bush, muito bem! Se eu achar um nazista na sua árvore genealógica, então quer dizer que v. é nazista!

Mas não era disso que eu falava quando comparei a solução para o sucedâneo à crise de 29; veja, todo o mundo se utilizou de intervencionismo estatal para tentar resolvê-la. Os americanos (New Deal), os socialistas, os nazistas...

E isso tudo sem mencionar... Ribbentrop Molotov.

Adriano em novembro 14, 2007 8:54 AM


#33

CAro Idelber...falo contigo oportunamente...tenho estado numa correria terrivel...agora mesmo estou saindo para levar meu filho para cumbica...ele vai pegar voo para Atlanta...janeiro e fevereio tambem estarei por aí..e agora que fiquei sabendo que vc. esta em NC., me convida para um café por aí..que discutiremos bastante sobre cultura sovietica etc...rs..abraço..Ariovaldo...

ariovaldo leite da silva em novembro 14, 2007 3:57 PM


#34

Adriano,

Retribuo a cortesia afirmando que também é raro encontrar debatedores liberais dispostos a refletir, evitando os habituais anátemas e as adjetivações vazias de conceito. Parabéns pela educação e o bom humor.
Desejo começar pela sua tese, infelizmente ainda não defendida, de que o desenvolvimento socioeconômico durante o czarismo levaria inevitavelmente à revolução burguesa, apenas interrompido pela guerra e, imagino depois, pelos bolcheviques. Sua citação, link para o índice de livro do professor Nicolas Spulber, não me permitiu maiores considerações. Mas tento imaginar que tipo de argumento poderia ali conter que provasse algo; talvez números que desenhassem uma curva de produção crescente, interrompida com a guerra, e voltando a crescer proporcionalmente após 1917. Isso indicaria que o socialismo apenas pegou carona em algo prestes a ocorrer, ficando só com os louros dos notórios resultados.
Como não consegui, procurei uma fonte confiável em números para mostrar exatamente o oposto: antes da guerra, nos primeiros anos do século XX, os índices econômicos apontavam uma nítida curva descendente na economia czarista. Quem o diz é Luiz Carlos Prestes, em 1946, em discurso no Senado Federal, citando outro de Molotov, com dados de texto de Lênin (Ufa! Na verdade, não uma fonte, mas três). Aconselho a leitura, é muito interessante. [http://www.marxists.org/portugues/prestes/1946/11/07.htm] Dizia ele (Molotov, lido por Prestes) sobre a realidade da velha Rússia de 1913:
“ 'A miséria, o caráter primitivo e o abandono da enorme maioria de nossas explorações camponesas são incomparavelmente maiores ainda que na Hungria'. (Lênin)
E assim era em realidade.
A que nível se encontrava então a indústria na Rússia?
A média da produção de energia elétrica era, por habitante, em 1913, 17 vezes menor do que nos Estados Unidos da América e cinco vezes menor do que na Alemanha.
A fundição de ferro, por habitante, era, em 1913, 11 vezes menos do que nos Estados Unidos da América, oito vezes menor do que na Inglaterra, oito vezes menor do que na França.
A fundição de aço, por habitante, era, em 1913, 11 vezes menor do que nos Estados Unidos da América, oito vezes menor do que na Alemanha, seis vezes menor do que na Inglaterra e quatro vezes menor do que na França.
A extração do carvão de pedra e linhito (calculado em carvão de pedra), por habitante, era, em 1913, em nosso País, 26 vezes menor do que na América do Norte, 31 vezes menor do que na Inglaterra, 15 vezes menor do que na Alemanha e 5 vezes menor do que na França.
Este era o baixo nível em que se encontrava a Rússia antes da revolução. Os senhores da terra e capitalistas no poder mantinham encadeadas, valendo-se do czarismo, as poderosas forças de nosso povo, sem permitir-lhe campo de ação.
Merece atenção especial o fato de que a Rússia, então, não só não alcançava os países capitalistas mais desenvolvidos, como pelo contrário se atrasava cada vez mais quanto à uma série de ramos industriais mais importantes.
Eis aqui algumas cifras sobre a fundição de ferro durante 1900 e 1913.
Em 1900, a média da fundição de ferro, por habitantes, na Rússia czarista, foi oito vezes inferior à dos Estados Unidos da América, e, em 1913, já 11 vezes. Em comparação com a Alemanha, a fundição de ferro na Rússia, em 1900, era seis vezes inferior, aproximadamente, e, em 1913, já oito vezes. Em comparação com a França, em 1900, era inferior em três vezes, e, em 1913, já inferior em quatro vezes.”
Para poupar tempo, nem cabe comparar aqui com os números da produção soviética obtidos poucas décadas adiante. Claro que são absurdamente maiores. Fundamental é que não basta resumirmos em números uma especulação sobre um hipotético desenvolvimento da velha Rússia com a burguesia. O mundo seria bem diferente hoje. Nem vou citar os impactos da revolução soviética nas conquistas sociais dos trabalhadores no capitalismo, ou o que ela redesenhou do modelo colonialista. Vamos a algo mais direto e óbvio: a Segunda Guerra teria sido totalmente diferente, provavelmente com a anexação da Rússia pela Alemanha, mudando todo o cenário hoje conhecido. O digo inclusive levando em conta algumas das mais ardorosas teses liberais, de que foi a forte intervenção estatal que permitiu aquele desenvolvimento tão rápido. Nunca a burguesia teria como competir para o mesmo resultado. Momento, agora, para falarmos do pacto Molotov-Ribbentrop. O farei em breve.

jurandir em novembro 16, 2007 12:31 AM


#35

Ariovaldo, não estou em NC, mas em Nova Orleans. Chegando aqui, telefone para Tulane (departamento de Espanhol e Português -- 504-865-5518) e deixe um recado. Marcaremos, com certeza, um café para discutir cultura soviética :-)

Idelber em novembro 17, 2007 3:49 PM


#36

Idelber, sobre a 2ª GM, assunto que estudo a anos, poderia dizer o seguinte: ela foi vencida pela determinação e coragem dos inglêses, notadamente Churchill, pelo sangue soviético derramado e pela capacidade industrial americana.

Não esquecendo que os ingleses na figura de Chamberlain foram fracos, que os soviéticos asssinaram acordos e participaram como aliados dos nazistas no início da guerra (que começou com a invasão da Polônia pelos nazistas E pelos soviéticos que também invadiram a Finlândia) e sem esquecer a política isolacionista americana que só entrou mesmo na Guerra após Pear Harbour.

Pablo Vilarnovo em novembro 22, 2007 3:23 PM


#37

Achei exatíssimo esse resumo que você fez no seu primeiro parágrafo, Pablo.

Idelber em novembro 22, 2007 4:02 PM


#38

Filme: Reds - com Warren Beatty
http://www.imdb.com/title/tt0082979/

Taís Lisbôa em outubro 14, 2010 2:46 PM