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domingo, 18 de novembro 2007

Tréplica de Jon Anderson a Diogo Schelp

Depois de apelar ao seu vigoroso programa anti-spam como desculpa para não ter recebido a resposta de Jon Anderson, em que o maior biógrafo de Che Guevara aceitava seu pedido de entrevista, Diogo Schelp, da Veja, enviou-lhe uma grosseira réplica em que acusava -- divertidamente -- o jornalista da New Yorker de "anti-ético" por ter divulgado a "comunicação" entre os dois. Nessa réplica, escrita para justificar a peça de propaganda insultante publicada pelo folheto semanal da Editora Abril sobre Che Guevara, Diogo Schelp também ameaçava Jon Anderson -- um dos maiores jornalistas do mundo -- com o terrível castigo de jamais aparecer de novo nas páginas da Veja. Pois bem, Daniel Lopes entrou em contato com Jon Anderson e publicou em seu blog a tréplica, em inglês, do jornalista norte-americano. Eu cheguei a traduzir dois parágrafos do texto ao português antes de ver que o Pedro Dória já o havia traduzido e publicado em seu blog. O que segue abaixo, então, é a tradução do Pedro Dória (impecável, como sempre) da tréplica de Jon Anderson, cujo original está disponível aqui.

Prezado Diogo Schelp:

Agradeço pelo sua ‘gentil’ resposta. (Soube, graças a você, que você é de fato uma pessoa muito ‘gentileza’; você mesmo o disse duas vezes em suas mensagens.) Só agora percebo, o mal-entendido entre nós nasceu exclusivamente por conta de meu caráter profundamente falho. Eu jamais deveria ter presumido que você recebera meu email inicial em resposta ao seu ou minha segunda mensagem a respeito de sua reportagem, muito menos deveria ter considerado que você pudesse ter decidido ignorá-los. É evidente que você tem um sistema de bloqueio de spams muito rigoroso. Uma dica técnica: talvez você devesse configurar seus sistema como ‘moderdo’ e não ‘extremo’. Se o fizer, talvez comece a receber seus emails sem quaisquer problemas. Lembre-se, Diogo: moderado, não ‘extremo’. Esta é a chave.

Você me acusa de ser antiético, um ‘mau jornalista’. Você questiona até se posso ser chamado de jornalista. Nossa, você TEM raiva, não tem?

Enquanto tento parar as gargalhadas, me permita dizer que, vindo de você, é elogio. Permita, também, recapitular por um momento a metodologia utilizada por você para distorcer as informações que o público de Veja recebeu:

Você publicou na capa e na reportagem uma grande quantidade de fotografias de Che, aproveitando-se assim da popularidade da imagem de Guevara para vender mais cópias de sua revista. Para preencher seu texto, você pinçou uma certa quantidade de referências previamente escritas sobre ele – incluindo a minha – para sustentar sua tese particular, qual seja, a de que o heroismo de Che não passa de uma construção marxista, como sugere seu título: ‘Che, a farsa do herói’.

Para chegar a uma conclusão assim arrasa-quarteirão, você também entrevistou, pelas minhas contas, sete pessoas. Uma delas era um antigo oponente de Che dos tempos da Bolívia. As outra seis, exilados cubanos anti-castristas, incluindo ex-prisioneiros políticos e veteranos de várias campanhas paramilitares para derrubar Fidel. (Um destes, o professor Jaime Suchlicki, você não informou a seus leitores, é pago pelo governo dos EUA para dirigir o assim chamado Projeto de Transição Cubana.) Percebi também que você prestou particular atenção no testemunho de Felix Rodriguez, ex-agente da CIA responsável pela operação que culminou na execução de Che. O fato de que você o destaca quer dizer que você o considera sua melhor testemunha? Ou terá sido porque ele foi o único que algum repórter realmente entrevistou pessoalmente? Os outros, parece, Veja só falou com eles por telefone. Mas como são rigorosos os critérios de reportagem de Veja!

Como disse em minha ‘carta aberta’ a você, escrever uma reportagem deste tipo usando este tipo de fonte é o equivlente a escrever um perfil de George W. Bush citando Mahmoud Ahmadinejad e Hugo Chávez. Em outras palavras, não é algo que deva ser levado a sério. É um exercício curioso, dá para fazer piada, mas NÃO é jornalismo. Dizer a seus leitores, como você diz na abertura da reportagem, que ‘Veja conversou com historiadores, biógrafos, ex-companheiros de Che no governo cubano’ passa a impressão de que você de fato fez o dever de casa, que estava oferecendo aos leitores um trabalho jornalístico bem apurado, que apresentaria algo novo. Infelizmente, a maior parte do que você escreveu é mera propaganda, um requentado de coisas que vêm sendo ditas e reditas, sem muitas provas, pela turma de oposição a Fidel em Miami nos últimos quareta e tantos anos.

Minha questão não é política. Escrevi um livro, como você mesmo disse, que é ‘a mais completa biografia’ de Che. Há muito lá que pode ser utilizado para criticar Che, mas também há muitos aspectos a respeito de sua vida e personalidade que muitos consideram admiráveis. Em outras palavras, é um retrato por inteiro. Como sempre disse, escrevi a biografia para servir de antídoto aos inúmeros exercícios de propaganda que soterraram o verdadeiro Che numa pilha de hagiografias e demonizaçoes, caso de seu texto.

Não cometa o erro de me acusar de defender Che porque critico você. Serei claro: a questão aqui não é Che, é a qualidade do seu jornalismo. Sua reportagem, no fim das contas, é simplesmente ruim e me choca vê-la nas páginas de uma revista louvável como Veja. Seus leitores merecem mais do que isso e, se aparecerei ou não novamente nas páginas da revista enquanto você estiver por aí, não me preocupa. O que PREOCUPA é que, com tantos jornalistas brilhantes como há no Brasil, foi a você que Veja escolheu para ser ‘editor de internacional’.

Cordialmente,
Jon Lee Anderson



  Escrito por Idelber às 14:16 | link para este post | Comentários (38)


Comentários

#1

Ouch!

Mac Williams em novembro 18, 2007 3:01 PM


#2

indeed!

Idelber em novembro 18, 2007 3:04 PM


#3

O que mais gostei da foi o "castigo" imposto: não ser publicado na Veja. Deus que me livre de uma imprecação desta. Apesar disso,o jornalista foi bem bacana ao se referir a publicação: "me choca vê-la nas páginas de uma revista louvável como Veja." Tenho certeza que le não pensou em louvável no sentido que costumo dar a essa mesma revista,
Um abraço Maria Andréia
PS: Já chegou?

Maria Andréia em novembro 18, 2007 3:08 PM


#4

É, ou talvez se referisse ao passado louvável de Veja. Cheguei :-)

Idelber em novembro 18, 2007 3:09 PM


#5

com certeza, a melhor parte é quando ele chama a veja de "louvável".

alex castro em novembro 18, 2007 3:36 PM


#6

repetindo o comentário feito no PD: "uhu!"

haha

só quero ver o Reinaldinho...

Thiago em novembro 18, 2007 3:44 PM


#7

Idelber!
Eis aí, neste episódio todo, desde a reportagem vil e mentirosa da Veja até este E-mail tréplica, o retrato pronto e acabado de nossa Grande Imprensa. As matérias não são feitas para informar, não passam, hoje, de grandes peças publicitárias, voltadas ao gosto médio, para enfim demonstrar maior tiragem e consequentemente mais lucro$. A verdade não interessa, os fatos são manipulados, as fontes preservadas, na maioria das vezes não passam de alucinações do jornalista responsável(?). Creio que a proximidade dos cursos de Jornalismo e Publicidade, com muitas matérias comuns, criou esta abjeta nova forma de imprensa, transformou a informação em um grande produto a ser vendido. E dá-lhe Diogos, Reinaldos e afins... Pior foi a ameaça à Jon Lee Anderson de nunca mais aparecer nas páginas de Veja. Ele certamente não dormiu aquela noite!
Abraços!

paulovilmar em novembro 18, 2007 7:04 PM


#8

Uau! Eu gostei mais da crítica sobre o que essa discutível revista oferece aos seus leitores: "...com tantos jornalistas brilhantes como há no Brasil, foi a você que Veja escolheu para ser ‘editor de internacional’."
Uau de novo!

Val em novembro 18, 2007 7:04 PM


#9

Touché.

Cássio em novembro 18, 2007 8:23 PM


#10

Fiz até um P.S. em meu post de hoje - sobre o grande futebol de algumas seleções - para este post aqui.

Idelber, li a reportagem da Veja da primeira à última linha e não sei se estou recuperado mesmo um mês depois. Como eu ri! Não adianta, o melhor humor é o involuntário.

Diogo Schelp, você é um gênio e esperamos novas criações de sua lavra. Você poderia recontar outros episódios históricos para nós, não? Que tal o suicídio de Allende? Baita assunto! Ah, vai, conta mais... Ilustre-nos!

Grande abraço, Idelber e leitores deste überblog.

Milton Ribeiro em novembro 18, 2007 10:09 PM


#11

já virou picuinha, hein.

bruno em novembro 18, 2007 10:15 PM


#12

Estou acompanhando essa estoria na blogsfera e de fato o que mais gostei foi tambem a punicao oferecida - nao apareceras mais na revista Veja... Oh ceus, o cara deve estar super arrependido de tal pecado!

Bjs,

Leticia.

Leticia em novembro 18, 2007 10:46 PM


#13

Isso sem contar o Mainardi distorcendo o Alvaro Vargas Llosa. ;-))

http://www.andrekenji.com.br/weblog/?p=1786

André Kenji em novembro 18, 2007 10:51 PM


#14

Foi muita folga do rapaz dizer que o Anderson nunca mais apareceria na Veja, como se tivesse tanto poder assim! Será que o Victor Civita falava dessa maneira arrogante quando dirigia a Abril? Pegando no gancho do Milton, não tem uma edição da Veja que não tenha ao menos uma reportagem digna de risos, seja por maledicência ou distorção dos fatos. Diversão garantida!

Te em novembro 18, 2007 11:15 PM


#15

Aguardamos ansiosos o pronunciamento do Reinaldinho, claro :-)

Idelber em novembro 18, 2007 11:21 PM


#16

Idelber..é ate covardia, comparar um jornalista com o outro..Ou melhor comparar o Diogo com um jornalista. Mas vc viu o Reinaldo dizendo que o Ignacio Ramonet é um "delinquente intelectual"? e falando que aqui na França ninguem da bola pra ele e que a Europa "despreza solenemente o seu jornal".. Nao sei em que mundo ele vive mas ele nunca esteve aqui com certeza..
Abraçao!

Celinho em novembro 19, 2007 6:36 AM


#17

Esse Jon Anderson não cantava no Yes?


OK, desculpe.

Milton Ribeiro em novembro 19, 2007 8:24 AM


#18

O Schelp devia processar o Andersson por espancamento.

Ou então por implosão, afinal não ficou pedra sobre pedra ...

Luiz em novembro 19, 2007 9:32 AM


#19

-O problema da Veja não é ser "de direita", é ser uma revistinha ruim de doer, além de desonesta. Parei de lê-la com seriedade em 2001, depois do 11/09. Nessa época, apareceu um documentário, "in search of Bin Laden", com um monte de depoimentos de muçulmanos, de vários lugares e profissões, falando sobre o Bin Laden e sobre a imagem dele para a comunidade islâmica. Havia, por exemplo, um médico muçulmano em Londres dizendo algo como: "dada a situação de parte dos muçulmanos, não é de se espantar que para eles Bin Laden seja um herói, ou uma esperança". Esse documentário passou na GNT, poucos meses depois dos atentados. Logo em seguida saiu na Veja uma matéria "esclarecendo" para nós quem era o Bin Laden, e começava mais ou menos assim:" 'Bin Laden é um herói'. Até muçulmanos na Inglaterra, profissionais liberais, vêem o terrorista assim!'" E citava o nome do médico, mas não dizia que o repórter, ao invés de entrevistar o tal médico, tinha apenas visto-o na GNT, e estava citando a fala dele fora de contexto e de maneira tendenciosa! Aquilo era simplesmente uma matéria mentirosa, feita de maneira desonesta, espalhando preconceito contra muçulmanos justamente na época em que eles menos precisavam disso. Nunca mais li a Veja. Apenas para dar risadas, ocasionalmente.

-O pior é que eu já fiz muitos frilas para a Abril (para uma revista muito mais séria que a Veja, a AnaMaria), e o sistema anti-spam deles é realmente um monstro devorador de emails. Claro que é mais conveniente deixá-lo assim, mesmo que seja apenas para usar como desculpa depois.

-O pessoal da Veja deve morrer de ódio em saber que a época "venerável" da revista era quando o Mino Carta estava lá.

Daniel em novembro 19, 2007 12:46 PM


#20

Sobre a tréplica de Anderson, até agora, no blog de Reinaldinho, um silêncio ensurdecedor.

A última incursão do dito cujo por águas internacionais foi essa pérola citada pelo Celinho: a de que na França, supostamente, "ninguém dá bola" para a Le monde diplomatique.

É incrível a cara de pau. Mentem sobre o que sabem e inventam sobre o que não sabem, na maior tranquilidade.

Idelber em novembro 19, 2007 2:27 PM


#21

o mais engraçado do Reinaldinho é ver suas patéticas tentativas de provocar Elio Gaspari.
é ignorado solenemente. a diferença entre os dois é abissal.

Serbão em novembro 19, 2007 5:23 PM


#22

Não pude resistir! Um defeito de cor está na final da Copa de literatura brasileira! Clima de copa é assim! Torcida!

Maria Andréia em novembro 19, 2007 5:32 PM


#23

rapaz, nessa correria toda nem tinha tido tempo ainda de vir aqui agradecer por você ter me linkado. tenho certeza que o montante de acessos que tive ontem e hoje se deveu quase que exclusivamente a esse seu link. deus lhe adicione, como diria o cabôco.

e assim que o Digestivo voltar ao ar, entra um textinho meu sobre o 'Duas vezes junho', um livro que sei que tu gostou muito. eu daria nota 8 a ele, mas aquele personagem que o Kohan criou, entre ingênuo e hipócrita, vale nota 12.

até mais.

Daniel em novembro 19, 2007 10:31 PM


#24

Não há o que agradecer, Daniel. Foi um furo seu e tanto.

Idelber em novembro 19, 2007 11:46 PM


#25

Grande Biscoito!

Umas das razoes que fizeram que eu volta-se para Suécia foi trabalhar como reporter fotográfico na grande midia brasileira. Hoje sou zelador aqui,ganho muito mais,viajo pelo mundo, trabalho menos e mantenho minha saúde mental. Informacao se consegue por qualquer meio. Analisis,interpretacoes,tendencias futuras busco na rede,em lugares como o teu blog, que além de chutar com as duas ,faz gol de cabeca.
Mas afinal de contas, este Diogo Schep é o mesmo Diego Mainardi(o nojento)?

Abracao marconi

marconi em novembro 20, 2007 5:36 AM


#26

Foi brilhante.Esse cara merecia,realmente levar um puxão de orelha.Seria mais legal ainda se fosse no Reinaldo Azedo,quero dizer Azevedo!

ary em novembro 20, 2007 2:02 PM


#27

Caro Idelber,

Fiz um post sobre isso ontem (O maior bem), o que mais me impressionou foi como o sujeito jogou na lama o seu próprio nome por um texto medíocre.

Abraços!

Márcio Pimenta em novembro 20, 2007 3:18 PM


#28

Até que enfim uma resposta a altura da reportagem!

gabriel ruiz em novembro 20, 2007 3:52 PM


#29

Em relação à ameaça de banir o Anderson das páginas de Veja, ainda não vi nenhum comentário acusando o gesto do que ele de fato é: mais um exemplo de mau jornalismo. Um repórter/editor não deveria eliminar uma fonte, seja pelo motivo que for, muito menos por rancor pessoal. Se Anderson tiver algo importante a dizer sobre qualquer assunto, sim, ele tem que ser entrevistado pela Veja, por mais desafeto que seja de seus editores.
Bjs

Monix em novembro 21, 2007 12:49 PM


#30

Exato, Monix. Sobre isso, teve a lembrança do Pedro Dória, de que a ameaça confirma o que todo mundo sabe: a Veja possui listas negras. A ameaça foi uma confissão de que elas existem.

Idelber em novembro 21, 2007 2:54 PM


#31

...e a reportagem da Veja mente em que...?

A Veja tem lista negra? Ah, tadinhos... qual meio de comunicação não tem?

Pablo Vilarnovo em novembro 21, 2007 2:58 PM


#32

Pablo, long time, no see .

Idelber em novembro 21, 2007 4:08 PM


#33

Monix a coluna do Carlos Brickmann publicada hoje no Observatório da Imprensa fala exatamente sobre isso. e tem umas revelações interessantes lá.

Serbão em novembro 21, 2007 4:20 PM


#34

Pois é, demorou um pouco pra esse aspecto do problema ser atacado, mas ontem mesmo li o Pedro Doria. Vou conferir o OI. BJs

Monix em novembro 22, 2007 12:26 PM


#35

True, my dear friend.

Pablo Vilarnovo em novembro 22, 2007 2:56 PM


#36

Sentimos sua falta nos embates políticos aqui, meu caro.

Idelber em novembro 22, 2007 3:03 PM


#37

Que isso, tenho certeza que devido à qualidade das pessoas que frenquentam o seu blog minha falta não foi sentida... :)

Pablo Vilarnovo em novembro 22, 2007 6:46 PM


#38

Slapt, que resposta foda!

Bruno Porto em novembro 27, 2007 2:48 AM