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quinta-feira, 01 de novembro 2007

Um quarteto de Borges

Pelos idos de 1954, Jorge Luis Borges ainda enxergava de um olho. Numa viagem de férias a Mar del Plata com o casal Bioy (Adolfo e Silvina Ocampo), ele leva um tombo e, ao se recompor, descobre que já está praticamente cego. Sendo testemunha do oitavo ano de Perón no poder e tendo vivido uma sucessão de desastres amorosos, Borges passa por um de seus períodos mais duros. A cegueira inspira um texto célebre, o Poema dos Dons:

Nadie rebaje a lágrima o reproche
Esta declaración de la maestría
de Dios, que com magnífica ironía
me dio a la vez los libros y la noche

Eu, que dificilmente aprendo poemas de cor, ando há anos com este quarteto na cabeça. Gosto de tudo nele: a completa ausência de ressentimento ante a cegueira, a admiração pela “ironia” de Deus, o enjambement do segundo verso ao terceiro, a rima abraçada de “reproche/ noche”. Escrito na década de 1950, ele marca a volta de Borges à poesia, já não a dos alongados e paisagísticos versos brancos da juventude, mas uma poesia contida, de formas quase clássicas e métrica rigorosa.

Pois bem, este quarteto merece outra versão em português, diferente da que se encontra nas Obras Completas de Borges, publicada pela Editora Globo, onde lemos:

Ninguém rebaixe a lágrima ou censure
Esta declaração de maestria
De Deus, que com magnífica ironia
Me deu os livros e a um só tempo a noite.

Esta saída não resolve nada: perde a rima e perde a métrica. Deixo aqui duas outras possibilidades, na certeza de que os eruditos leitores encontrarão uma melhor:

Ninguém rebaixe a lágrima ou se afoite
A condenar a mestria de Deus
que com magnífica ironia
Deu-me os livros e ao mesmo tempo a noite

Ninguém rebaixe a lágrima ou censura
Esta declaração da mestria de Deus
que com magnífica ironia
me deu os livros e a noite escura

Ambas são superiores à versão publicada em português, mas nenhuma me agrada completamente. A primeira tem a vantagem de conservar a rima abraçada, mas não consegue manter a métrica do verso final, acrescentando-lhe um verborrágico “ao mesmo tempo”. A segunda inventa um redundante “escura” para qualificar a noite, e perde assim o impacto do uso metafórico do substantivo.

Deve haver uma saída melhor.



  Escrito por Idelber às 09:28 | link para este post | Comentários (30)


Comentários

#1

Fácil... ler só em espanhol. Traduzir sempre rouba alguma coisa, a gente tem que se acostumar com isso.
Mas gostei de ler o "original" e as "traduções", são todas ótimas. Não vou tentar nenhuma, o máximo que tentei foram "haikais"...e acho que Borges não iria gostar de uma tentativa nesse sentido...

Gustavo Uriartt em novembro 1, 2007 9:56 AM


#2

Partindo da sua primeira tradução, invertendo a frase no segundo verso, eliminando o "ao mesmo tempo" do verso final:

Ninguém rebaixe a lágrima ou se afoite

A condenar em Deus a maestria

de, com magnífica ironia,

Dar-me de uma vez os livros e a noite.

Assim se recupera a rima interna e a métrica melhora um pouco. Mas ainda não está boa, principalmente entre #2 e #3.

Paulo Candido em novembro 1, 2007 11:51 AM


#3

Melhorou muito, valeu :-)

Idelber em novembro 1, 2007 12:36 PM


#4

Fazer a versão é preciso?

Ricardo Petrucci Souto em novembro 1, 2007 1:02 PM


#5

Olá, Idelber,

Eu gostei de suas soluções. Modificaria os seguintes tidbits:

Ninguém rebaixe a lágrima ou se afoite
A condenar de Deus a maestria
Que, com magnífica ironia,
Deu-me a um tempo os livros e a noite


A segunda eu achei muito boa. Não me incomoda a "noite escura" - há noites brancas, noites russas. Eu só manteria o "Deus" no terceiro verso.

Eu fico satisfeito. Abraço!

Rafael Trindade em novembro 1, 2007 1:52 PM


#6

Bacana. Para esclarecer um detalhe: essa versão com "afoite" rimando com "noite", eu encontrei aqui. Ignoro se é uma versão feita por Ascher ou se ele está citando uma tradução já publicada.

Idelber em novembro 1, 2007 1:57 PM


#7

Fazer a versão é preciso?

Ricardo Petrucci Souto em novembro 1, 2007 1:02 PM

Acho que a idéia do Idelber é fazer uma versão que não gere aversão... (ai, ai - não consegui resistir).

Sério - boas traduções são sempre importantes. Permitem que quem não sabe a língua original tenha contato (ainda que distorcido) com autores que de outra forma ficariam desconhecidos. Inovações filosóficas e artísticas muitas vezes são precedidas pela tradução de obras-chave para a língua dos países onde elas acontecem (estou pensando, por exemplo, na tradução de Hegel para o francês nos anos 30).

Paulo Candido em novembro 1, 2007 1:57 PM


#8

Sem dúvida, Paulo. Um dos motivos pelos quais a Argentina tem uma robusta tradição de policiais e ficção científica é o fato de que Poe foi traduzido bem antes por lá. A tradução tem um papel enorme, criativo, na literatura.

Quanto ao espanhol, eu ando, há tanto tempo, imerso nele, que perdi a sensibilidade para saber se um cognato é ou não reconhecível para um falante de português.

"Reproche", por exemplo, eu imaginaria que todo mundo sabe o que é. Mas não é o caso, obviamente. Hoje mesmo estive com um compatriota que não conhecia a palavra.

Idelber em novembro 1, 2007 2:03 PM


#9

Não é muito a minha. Ficou de pé quebrado.

"Que nada rebaixe a lagrima ou censura
esta declaração de mestria de Deus,
que,com magnífica ironia, me deu
ao mesmo tempo os livros e a noite escura".

MarcosVP em novembro 1, 2007 2:24 PM


#10

Fugiu bastante, como sói acontecer:

Ninguém rebaixe a lágrima ou condene
Este mote - cuja ironia não se nega -
De Deus, que a um só tempo me entrega
Os livros eternos e a noite perene.

Nhé, né?
É. Nhé.

:-)

Nelson Moraes em novembro 1, 2007 3:14 PM


#11

Quem sabe, sabe. Dizer o quê.

:-)

Idelber em novembro 1, 2007 3:19 PM


#12

Professor,
Não vou me arriscar na tradução (qual é a métrica mesmo do texto? Não conheço metrificação em Espanhol!) Mas sugiro algo no sentido de reproche ser traduzido como reprovação e noite como escuridão! Sei que as rimas em ão são condenadíssimas em português, mas já superamos o parnasianismo! (será?) Um abraço!

Maria Andréia em novembro 1, 2007 7:02 PM


#13

Recebi mais uma, por email, que adorei :

Que ninguém verta lágrimas ou açoite
tão perfeita declaração da maestria
de Deus, que com magnífica ironia
A um só tempo deu-me livros e a noite
.

Idelber em novembro 1, 2007 8:13 PM


#14

O poema está versificado em arte maior (11 sílabas) de acordo com o modo brasileiro de se fazer escansão, Maria Andréia. Em espanhol, se não me engano, eles fazem de um outro jeito, que dá outro número, mas é equivalente. :)

Bela tradução, Idelber, e muito obrigado pela indicação! Tentei minha própria versão do poema:

Que ninguém rebaixe a lágrima ou afrouxe
Meu testemunho da grande maestria
de Deus, que com magnífica ironia
me deu de um tempo os livros e a noite

Um abraço, BR.

Bruno ( ) em novembro 1, 2007 8:28 PM


#15

Para fazer apenas uma variação;


Ninguém rebaixe a lágrima ou açoite
Esta declaração da maestria
de Deus, que com magnífica ironia
me deu de uma vez os livros e a noite

FM em novembro 1, 2007 8:32 PM


#16

Opa, confundi os pés, parece que arte maior é eneassílabo (9 sílabas). O do Borges continua sendo, de acordo com a escansão brasileira, endecassílabo (11). Eu mando muito mal com os nomes.

Bruno ( ) em novembro 1, 2007 8:42 PM


#17

Obrigada, Bruno!
Também contei onze sílabas!É bom saber que, apesar de minhas parcas incursãoes em espanho, eu já sei contar sílabas poéticas!, mas eu não sabia o que se entende por "arte maior" e gostaria de saber! Tem o mesmo peso que os "decassílabos" em português?

Maria Andréia em novembro 1, 2007 8:56 PM


#18

Mais uma variação.

Alguém humilha à lágrima ou reprova
esta demonstração de ironia?
Deus, com magnífica picardia
de-me de uma só vez, o livro e a treva.

fm em novembro 1, 2007 8:57 PM


#19

saiu errado, me desculpe.


Alguém humilha à lágrima ou reprova
esta demonstração de ironia?
Deus, com magnífica picardia,
deu-me de uma só vez, o livro e a treva.

fm em novembro 1, 2007 9:04 PM


#20

Burilar um diamante?

Cláudio Costa em novembro 1, 2007 10:30 PM


#21

Meus horrores:

Ninguém avilte a lágrima ou açoite
Esta declaração da maestria
de Deus, que com magnífica ironia
me deu de uma só vez os livros e a noite.

Ninguém avilte a lágrima ou maldiga
Esta declaração da maestria
de Deus, que com magnífica ironia
deu-me junto os livros e a noite amiga.

Milton Ribeiro em novembro 2, 2007 12:22 AM


#22

Minha primeira leitura de um texto de Borges, foi o Emma Zunz, devido ao seu blog. Já tinha ouvido falar alguma coisa de Borges, claro. Mas nunca tive o interesse que surgiu nas últimas semanas. Ainda não li nada a mais dele, já que estou na Itália e não cometerei o pecado de tentar lê-lo no italiano...

Fico ainda mais interessado com essa grande irônia, da cegueira que abate o escritor. Conheço uma pessoa, que não é nenhum Borges, mas que vive esse drama do amor aos livros e do terror da cegueira que vem se aproximando. Drama real, que faz com que eu sempre me pegue pensando, se o belo da literatura é quando a ficção tenta recontar a tragédia e a comédia da vida.

Quanto às traduções, fico com a que você colocou no comentário #13, apesar de açoite não me parecer destoar um pouco de Reproche.

Capedonte em novembro 2, 2007 6:04 AM


#23

Respondendo rapidinho à Maria Andréia, antes de entrar no avião: versos de arte maior, em espanhol, são versos de mais de oito sílabas.

A contagem em espanhol é deveras diferente: conta-se até a última sílaba tônica e acrescenta-se um. O poema em questão, portanto, está escrito em endecassílabos (11 sílabas), que é o verso mais clássico da língua, o verso petrarquista que Garcilaso de la Vega e seu amigo Juan Boscán trazem para a Espanha no século XVI.

:-)

Idelber em novembro 2, 2007 8:56 AM


#24

Obrigada!

Maria Andréia em novembro 3, 2007 7:00 AM


#25

adoro vir aqui.
tout simplement!

larissa em novembro 3, 2007 12:25 PM


#26

Gostei muito da do Paulo Candido, e sugiro só uma mudança, que mantém a aliteração do original:

Ninguém rebaixe a lágrima ou se afoite

A condenar em Deus a maestria

de, com magnífica ironia,

Dar-me, de um lance, os livros e a noite.


Você notou que acaba de lançar o wikitradutor tabajara, Idelber? Magnífica maestria, essa do Biscoito.


s leo em novembro 8, 2007 2:11 PM


#27

Tentando manter a topografia da rima, especialmente a ligação 'maestria-de-Deus', exceção para o 'reproche', que desce um verso.

Atenção para as cinco sílabas de "deu-/me a um /só /tem/po os/":


Ninguém rebaixe a lágrima ou se afoite

negar declaração da maestria

de Deus, que com magnífica ironia

deu-me a um só tempo os livros e a noite.

Ed Siqueira em novembro 9, 2007 9:18 AM


#28

Amigos, boa tarde.
Não sou versado em espanhol, mas após ler todas as sugestões de tradução feitas pelos participantes desta prestigiosa seção literária sobre o grande Borges e me valendo de partes de diversas das sugestões aqui disponíveis, segue, adiante, a minha proposta do belíssimo poema, que submeto á consideração dos ilustres participantes dessa tribuna literária. Ei-la:

"Ninguém avilte a lágrima
A censurar a maestria de Deus
que com magnífica ironia
Deu-me os livros e a noite a um só tempo."

Saudações,

Jorge Murilo.
Aracaju (SE)

Jorge Murilo Seixas de Santana em novembro 17, 2007 3:45 PM


#29

POEMA DOS DONS

Jorge Luis Borges


Ninguém derrame a lágrima ou não acoite
esta declaração da sábia mestria
de Deus, que me deu, com sua sábia ironia,
de uma só vez os livros e a noite.

Deu posse a esta cidade de livros
a olhos deixados sem luz, que só podem,
nas bibliotecas dos sonhos, ler crivos
de insensatos parágrafos que cedem

as poucas alvoradas. Em vão o dia
prodigaliza livros infinitos,
árduos como os árduos manuscritos
que pereceram junto a Alexandria.

De fome e de sede (na história grega)
falece um rei entre fontes e jardins;
me fatiga e deixa sem rumo os confins
desta alta e funda biblioteca cega.

Enciclopédias, atlas, o Oriente
e o Ocidente, séculos, dinastias
e símbolos, cosmos e cosmogonias
brindam os muros, mas inutilmente.

Lento em minha sombra, a penumbra seca
exploro com o báculo indeciso,
eu, que imaginava ser o Paraíso
certa espécie de eterna biblioteca.

Algo, que rege estas coisas, alfombra
da palavra azar a deixar caladas
relíquias que outro recebeu em nevoadas
tardes de muitos livros e de sombra.

Ao circular errante nas galerias
às vezes sinto com horror sagrado
que sou o outro, o morto, que teria dado
passos iguais sempre nos mesmos dias.

Quem insiste em escrever este poema
a partir de uma sombra e de um eu plural?
Que importa a palavra que me dá aval
se sempre foi pálido e uno o anátema?

Groussac ou Borges, vejo sem tormento
o mundo que se deforma e se apaga
entre uma indiviza cinza vaga
que se parece ao sonho e ao esquecimento.

Tradução: Salomão Sousa

Salomão Sousa em fevereiro 9, 2009 3:14 PM


#30

Nem notaraque tinha deixado uma repetição no terceiro verso.
Todas as traduções trazem erro no entendimento de uma palavra espanhola: não rebaixammos lágrimas, mas derramamos lágrimas. Imperdoável esse entendimento.


Ninguém derrame a lágrima ou não acoite
esta declaração da sábia mestria
de Deus, que com magnífica ironia,
de uma só vez me deu os livros e a noite.

Salomão Sousa em fevereiro 9, 2009 9:34 PM