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Um blog atleticano e antropocêntrico.



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Mini-observatório da imprensa
1. Em coluna para a Folha de São Paulo em 23/08/2008, Fernando Rodrigues afirma que John McCain é a "síntese de uma ala republicana liberal". Evidentemente, ninguém nos EUA caracteriza McCain como liberal, nem ele mesmo.

2. Na edição 2.020 da Revista IstoÉ, sob o título Símbolo da fundação de Roma, o monumento Lupa Capitolina é mais novo do que se imaginava, a reportagem afirma: ... os historiadores sempre acreditaram que fora erigido por volta de 500 anos antes da era cristã. Como é esse monumento que data o nascimento da capital italiana, fixou-se então, logicamente, o surgimento de Roma nesse mesmo período (...) Na semana passada ocorreu uma reviravolta envolvendo tal marco: arqueólogos revelaram que a estátua é datada do ano 1300 a. C, ou seja, Roma é mais jovem do que se supunha.... A Revista IstoÉ se esqueceu de que 1.300 a.C é mais velho que 500 a.C., ou seja, deu a impressão de não saber que, antes de Cristo, a contagem das datas se faz para trás (obrigado, Serbão).

3. Em coluna publicada na Folha de São Paulo em 06 de agosto, Abram Szajman, presidente da Federação do Comércio de São Paulo, diz que o voto hispânico "já alcança cerca de 25% dos eleitores" dos EUA. Errou só por 100%. Segundo os últimos números oficiais, o eleitorado hispânico dos EUA é 12,5%.

4. A Folha Online relata que o último spot publicitário da campanha de Obama afirma que McCain é um político submisso às grandes petrolíferas e lembra que o senador conservador recebeu milhões em contribuições eleitorais dessa indústria. O anúncio divulgado hoje por McCain procura desfazer esses mitos. A palavra mitos vem assim, sem aspas. Alguém esqueceu de avisar à Folha que as milionárias contribuições das petrolíferas a McCain não são mitos.

5. Em entrevista a João Pereira Coutinho na Folha Online, Daniel Piza, o homem que enforcou Jesus Cristo e transformou o entrudo em "dança de salão", afirma que muitos na verdade ainda estão em Bakunin, "toda propriedade é um roubo". A frase "a propriedade é um roubo", evidentemente, é de Proudhon (obrigado, Tiago Mesquita).



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terça-feira, 18 de dezembro 2007

Debate Biscoito x Torre de Marfim

Como contribuição minha e do Marcos Matamoros à idéia de que duas pessoas com posições políticas completamente diferentes podem ter um debate amistoso, divertido e civilizado, realizamos no dia 24 de novembro, em São Paulo, uma conversa que agora se transforma em podcast. São três arquivos de aproximadamente 30 minutos cada um. Quem tiver fôlego para ouvir tudo, nos diga aí depois o que achou:


[clique aqui para ouvir a primeira parte do podcast]

[clique aqui para ouvir a segunda parte do podcast]

[clique aqui para ouvir a terceira parte do podcast]

PS: Agradecimento especial ao mestre Fabio Sampaio pela ajuda na parte técnica.



  Escrito por Idelber às 16:30 | link para este post | Comentários (109)


Comentários

#1

Bom bate-papo. A tendencia ideologica de ambos os blogs não cobrem a amplitude do pensamento tanto de um como do outro.

Fábio S. em dezembro 18, 2007 11:25 PM


#2

Finalmente!!

Pablo Vilarnovo em dezembro 19, 2007 8:23 AM


#3

Mario Pedrosa dizia que a divisão no Brasil é entre elite e povo, e não entre esquerda e direita. Um sujeito de elite pode muito bem ser um trotskista na juventude e um reacionário (não é jargão de esquerda. Joaquim Nabuco já fala de reacionários) na velhice. Tudo normal e muito aplaudido. Alguns comentários em cima das análises econômicas surgidas no debate-podcast:
*** o bolsa-família foi chamado de “superdimensionado”. São gastos em torno de R$ 10 bilhões por ano no programa. Mas a dívida pública brasileira paga cerca de R$ 15 bilhões por mês (por mês!!!) a quem investe em fundos de renda fixa, os populares FIFs. Ou seja, o que realmente está superdimensionado? Não é o bolsa-família, com toda certeza. João Sayad brinca que a dívida pública é a “renda mínima do capital”.
*** disseram que é um exagero o gasto com aposentadoria. Para quem tem um FIF ou um PGBL, ok, pode opinar que é um absurdo. Mas o déficit do INSS se deve basicamente (90% dele) a gastos de assistência social que não são despesas de natureza previdenciária. É um debate que precisa ser qualificado. Ou vira essa briga de rua nos jornais e, agora, até em blogs. Se a Previdência Social não suporta o envelhecimento da população, isso é uma coisa. Dizer que há gastança geral e comparar com outros países, não dá. Vamos melhorar a tortura dos números.
*** até o economista Raul Velloso, insuspeito de ser de esquerda, diz que a comparação de aposentadorias do Brasil com outros países não faz sentido. É melhor ir além dos jornais e revistas ao tratar de Previdência Social.
*** um dos maiores males do Brasil foi apontado no tamanho do Estado e sua gastança. Well: a Índia tem déficit primário de suas contas públicas e controles de capital. Um pecado mortal para os liberais brasileiros que começam a babar quando ouvem falar de gasto público. E aí? Os indianos crescem muito mais e aparecem como modelito até na revista Exame. É melhor decidir o que deve ser levado em conta.
*** cada país encontra seu próprio caminho. Seria encher o saco, mas vale olhar como a trajetória do Chile durante os anos de estabilização. Por sinal, segundo o PNUD das Nações Unidas, os chilenos têm uma distribuição de renda pior que a brasileira, medida pelo índice de GINI. É aquele cálculo que quanto os 10% mais ricos abocanham a renda nacional.
*** dizer que o PT errou na avaliação do Plano Real é falso. Errou na data das crises, mas acertou em cheio no diagnóstico. Se alguém for além do que dizem jornais e revistas da época, pode encontrar as análises de Maria da Conceição Tavares e Aloisio Mercadante. Eles disseram que o Plano Real levaria ao estrangulamento cambial do Brasil e a crises sucessivas. O que de fato aconteceu em 1997, 1998, 1999, 2001, 2002. Só não está agora porque o mundo está com as taxas de juros baixíssimas e uma bolha financeira que começou a explodir nos Estados Unidos.
*** o insuspeito e “socialista fabiano” Delfim Netto diz que o segredo do Real foi segurar os salários e evitar qualquer subida da renda. Bingo: chegou-se a uma situação magnífica em que os salários do Brasil representam apenas um quarto da renda nacional. Nos países decentes, essa relação é de 60%.
*** a mágica do Real chama-se URV, uma engenharia financeira que só foi possível a partir de 1994. Foi pensado um mecanismo idêntico em 1986 no Plano Cruzado, com base nas chamadas OTNs. Basta ler o livro do insuspeito Carlos Alberto Sardenberg sobre o Cruzado. Só que não havia condições: o Brasil tinha capacidade zero de importação. Se houvesse explosão de consumo, como de fato ocorreu, tudo iria por água abaixo.
*** a salvação do Real foi a abertura para as importações, o que, por sinal, rendeu um baita fechamento de empresas. A destruição não-criativa. Ou como diria o pensador predileto da moçada, “não tem almoço grátis”. O pós-Real foi de crise em crise. Até Delfim diz que é um dos planos mais caros de história econômica mundial.
*** outra mágica do Real foi colocar os juros a 24% ao ano em termos reais entre 1994 e 1998. A classe média dobrava o patrimônio a cada três anos. Haja mágica e rentismo. A URV acabou com a inflação, mas o governo FHC em diante foi uma maravilha para os ricos. O almoço não é grátis, sobretudo para quem é pobre. Classe média tem ticket refeição.
*** no Brasil, o pai do Real na prática, Gustavo Franco, ganha status de gênio e faz até coletânea de Fernando Pessoa para defender que ele era um neoliberal.
*** o governo Lula fez um mal danado ao debate público no Brasil. Fez aflorar um “liberalismo vulgar”, assim como diziam haver um “marxismo vulgar”. Quer ser um liberal no Brasil? Fale mal da gastança pública, das cotas raciais nas universidades, do aparelhamento do estado pelo PT, defenda as liberdades individuais, a livre iniciativa.
*** o que dá para perceber são os tais liberais brasileiros de hoje caindo na mais simples “retórica da intransigência”, conforme identificada por Hirschman num livro de 1992. Segundo ele, os neo-conservadores criticam qualquer programa de reforma social com base em três teses: perversidade (uma mudança vai levar a um resultado oposto ao planejado), futilidade (não adianta nada) e ameaça (risco de conflito na sociedade).
*** é divertido ficar procurando as três teses nos artigos do pensador racial e islâmico da TV Globo.

enio em dezembro 19, 2007 12:16 PM


#4

opa! obrigado pelo excelente comentário, enio. Fica aí o convite para que os amigos liberais (com aspas ou não) encarem o debate sobre os pontos que você colocou.

Idelber em dezembro 19, 2007 12:38 PM


#5

Enio,
Alguns comentários sobre os seus comentários. Como eu escrevi no Torre de Marfim, o Bolsa Família é um programa barato. Custa 0,34% do PIB por ano. O que eu quis dizer com o fato de ele eventualmente estar superdimensionado é que talvez ele tenha crescido demais, atendendo a famílias que não precisam dele. Mas isso é um problema marginal. Eu gosto do programa. O que é necessário é focar nas condicionalidades.
O Brasil gasta 7,2% do PIB com benefícios do INSS. É um gasto muito elevado com os mais idosos, ainda que uma parte significativa sejam benefícios assistenciais - o que mostra que a rede de bem estar social no país é maior do que se pensa. Para um país com o Brasil, que ainda tem um percentual baixo de idosos, é muito. Por tudo isso, dar aumentos elevados para o salário mínimo a todo ano é complicado e afeta as contas públicas. Como mostra um estudo do Ricardo Paes de Barros, se o objetivo é reduzir a pobreza e a desigualdade de renda, o Bolsa Família é mais eficaz, porque atinge mais os pobres e extremamente pobres.
A situação das contas públicas da Índia é uma exceção entre os países emergentes que crescem muito. China, Coréia do Sul, Irlanda e Chile têm contas públicas muito mais sólidas (eu sei que a China é uma ditadura e que lá não praticamente não há rede de proteção social, mas reduzir o sucesso do país ao câmbio desvalorizado e aos juros baixos é uma falácia - o câmbio é desvalorizado e os juros são baixos principalmente porque a solidez das contas públicas facilita as coisas).
O gasto público no Brasil aumenta a um ritmo muito elevado. As despesas não financeiras do setor público equivaliam a 23% do PIB em 1994. Em 2006, eram 31% do PIB. Depois ninguém entende por que o investimento público é ridículo e a carga tributária disparou. Eu concordo que os gastos com juros são altos, e eu acho que deveriam ser menores, mas ajudaria muito se a dívida fosse menor e o Estado gastasse menos.
O PT errou grotescamente na avaliação do Plano Real em 1994. Tratou o plano como um artifício eleitoreiro, não vendo nele um programa sério e brilhante para a estabilização da economia. A questão da valorização do câmbio não estava clara naquele momento. Você está tratando de avaliações posteriores. Tucanos como José Roberto Mendonça de Barros, Luiz Carlos Mendonça de Barros e José Serra também viram que o câmbio valorizado iria causar problemas.
Todo mundo sabe que a URV é que é a essência do Real, e que o prolongamento do uso da âncora cambial foi o grande problema. Além disso, houve uma série de crises externas que dificultaram bastante a vida do país. O câmbio valorizado foi um erro, mas a crise do México, a da Ásia e a da Rússia tornaram o negócio bem mais difícil.
O Gustavo Franco não tem essa reputação toda que você diz que ele tem mesmo entre os liberais. A sua insistência em defender o câmbio – com a adesão de Pedro Malan e Fernando Henrique Cardoso, é claro – o estigmatizou por um bom tempo. Se você olhar os grandes jornais, ele não é um dos liberais mais entrevistados. Affonso Celso Pastore e Arminio Fraga, para citar dois nomes ortodoxos, são muito mais respeitados e ouvidos.
A queda da inflação deu um ganho de renda dos mais robustos para os mais pobres. Como você explica a explosão de consumo que se seguiu ao Real? Além disso, o câmbio valorizado, que provocou desequilíbrios em conta corrente que se mostraram insustentáveis, tem um efeito altamente favorável para o poder de compra para os salários. É exatamente o que está ocorrendo de 2005 para cá, quando a valorização do câmbio voltou a se acelerar.
Se defender a redução da gastança pública, os direitos individuais e a livre iniciativa são características de um liberalismo vulgar, viva o liberalismo vulgar. Quanto à questão das cotas, eu sou radicalmente contra critérios raciais. Eu tenho dúvidas quanto à eficácia desse tipo de mecanismo. Se for para ter cotas, que o critério seja socioeconômico. Se não, como ficam os brancos pobres?
Um abraço,
Marcos

Marcos Matamoros em dezembro 19, 2007 1:24 PM


#6

Uma correção. A Irlanda não é mais um país emergente, classifiquei-o indevidamente nessa categoria. Mas o forte crescimento da Irlanda nos anos 90 teve no equilíbrio das contas públicas um de seus pilares

Marcos Matamoros em dezembro 19, 2007 1:34 PM


#7

A militância liberal repete hoje os equívocos que tanto criticava nos comunistas, stalinistas. Algo como a defesa do lado inexorável da história das coisas. Ou seja, repetem o dogmatismo tão criticado na esquerda.
A discussão em pauta é sobre quem fica com a grana na sociedade. É saber e decidir como se dá a divisão da moeda de um país. O Estado não fica com um centavo do dinheiro, ele o redistribui. Quem diz isso é Fabio Giambiagi, o insuspeito.
A pergunta é: a classe média brasileira concorda em abrir mão dos R% 150 bilhões que recebe anualmente de juros da dívida pública? Sim ou não? No final das contas, essa é a questão política que interessa.
Se não está, a classe média continuará a pegar os seus R$ 150 bilhões por ano de juros da dívida pública, comprará mais e mais imóveis para se encastelar nos condôminios cheios de muros. Vê a rua, os "outros", da janela do carro.
Ao ler os estudos de Paes de Barros, é bom temperar a análise com os estudos de Marcelo Medeiros, igualmente do Ipea. Como dizem no interior, uma viola não se afina, ela deve ser temperada.
O tempero é bom para avaliar as coisas sem dogmas. Evitam-se coisas ridículas como Eduardo Gianetti escrevendo sobre a natureza dos juros e falando aquelas extravagâncias no Fantástico. Só falta ele dizer que a taxa Selic nasce em árvores nas primaveras do Centro-Oeste.
Um dogma do liberalismo vulgar (sim, ele existe e está nas páginas de todos os jornais) é a privatização. Vender estatais não é uma lei universal, da natureza do mundo. A Bolívia, por exemplo, se vangloriava de ser o primeiro país a vender tudo. Tudo, tudo. Isso em 1999. Precisa ainda de alguma informação complementar?
Quem quiser conhecer mais do "show case" boliviano é só assitir ao documentário "Crise é o nosso negócio", de Rachel Boyant. Está à venda na praça.
Enfim, os liberais devem reconhecer que não existem leis naturais da economia, essa filha bastarda da filosofia moral. Liberais da terra, temperem as idéias!
PS: as avaliações de Maria da Conceição Tavares, José Luis Fiori e Aloisio Mercadante foram todas no calor da hora, no final de junho de 1994. Erraram a data da crise. Mas acertaram no tamanho da calamidade. O Plano Real acabou com a inflação, mas lascou o país. Como diria Riobaldo, as coisas são e não são ao mesmo tempo.
PS2: Gustavo Franco é o rei da cocada. Tem até coluna na revista Época.

enio em dezembro 19, 2007 2:15 PM


#8

Enio,

Aplausos. Abre um blog, rapaz.

Hermenauta em dezembro 19, 2007 2:41 PM


#9

O gasto com juros é de fato elevado, e ele cairá mais rápido se o governo reduzir mais rapidamente o tamanho da dívida, pode ter certeza. Os detentores da dívida pública não sairão às ruas se os juros forem mais baixos e o Estado gastar menos com eles. Com juros mais baixos, a perspectiva de valorização das ações cresce e o investimento produtivo se torna mais atraente. Para que isso ocorra, porém, ajudará bastante se o Estado diminuir. O modelo Márcio Pochmann e João Sicsú não parece o mais recomendável para um país como o Brasil. Para isso, ajudaria a mudar as regras da Previdência, tornando mais difícil que as pessoas se aposentem cedo demais.
Eu gosto da privatização, mas não a considero panacéia - e nem tratei dela no meu comentário. Se bem feita, pode ser muito eficaz para a sociedade. Acho que o caso das teles mostra isso.
Os economistas do PT não previram em 1994 que o Real daria com os burros n'água por causa da valorização do câmbio. Essa avaliação é posterior.
Gustavo Franco tem uma coluna na Época? Mailson da Nóbrega tem uma coluna no Estado. Isso não quer dizer grande coisa. Jornalistas de economia e os próprios economistas não o têm em alta conta. Não são poucos os ortodoxos que acham que ele errou feio na condução da política cambial - que teve o apoio de Pedro Malan e Fernando Henrique, eu volto a repetir
Um abraço,
Marcos


Marcos Matamoros em dezembro 19, 2007 2:41 PM


#10

Marcos, meu caro, no que se refere à avaliação que fizeram Conceição Tavares e Mercadante do plano Real em 1994, o Enio está certo. Segue abaixo artigo publicado por Conceição Tavares na Folha em 04/12/1994. Os grifos são meus.

04/12/94

Autor: MARIA DA CONCEIÇÃO TAVARES
Editoria: DINHEIRO Página: 2-4
Edição: Nacional DEC 4, 1994
Seção: LIÇÕES CONTEMPORÂNEAS
Observações: PÉ BIOGRÁFICO

O Brasil e a instabilidade estrutural
Capitalismo brasileiro associado está passando rapidamente a subordinado; a metrópole manda e o satélite obedece
MARIA DA CONCEIÇÃO TAVARES
Especial para a Folha
Déficit comercial e transferência patrimonial, as novas novas regras não-explícitas do chamado "Consenso de Washington" para o ajuste dos países periféricos, estão sendo finalmente postas em prática no Brasil.
Com quatro a cinco anos de atraso em relação ao México e Argentina, o Brasil está se esmerando na aplicação das regras, perigando vir a ocupar o primeiro lugar entre "os bem-comportados" do subcontinente americano.
As regras anteriores (que tiveram vigência na década de 80) eram simples e conhecidas pelo nome de três D.
O primeiro D era para a desvalorização (cambial) e tinha por objetivo a criação de um superávit comercial capaz de servir a dívida externa (pelo menos em parte). Todos os países fizeram desse modo o seu "ajuste externo", sendo o do Brasil o que teve mais êxito, e de passagem transferiram para o exterior mais de duas centenas de bilhões de dólares.
O segundo D era para a desregulação dos mercados, com abertura comercial e financeira das economias. O primeiro país a adotar essas medidas (antes mesmo de virarem "regras globais") foi o Chile, durante o regime Pinochet, com os resultados conhecidos sobre a desestruturação dos bancos e da indústria.
O segundo foi a Argentina, que começou com Martin de Hoz e terminou com Cavallo, depois de muitas idas e vindas que provocaram um forte processo de desindustrialização e várias explosões hiperinflacionárias.
O terceiro foi o México, cujo processo de abertura e desregulação se iniciou com o governo de La Madrid e só terminou no governo seguinte, isto é, levou mais de seis anos.
O nosso começou com o governo Collor e está terminando agora, com a atual política cambial.
Todos os processos de abertura comercial e desregulação financeira foram acompanhados no começo por sobrevalorização cambial, que durante a década de 80 teve de ser combatida periodicamente com desvalorizações da moeda. Estas coincidiam com movimentos especulativos bruscos, fuga de capitais e explosões inflacionárias.
Aí se aplicavam com rigor máximo as recomendações implícitas no terceiro D, que significava política de deflação permanente, centrada, é claro, no ajuste fiscal e monetário no balanço de pagamentos.
Como os desequilíbrios do balanço de pagamento ocorriam nas duas contas (comercial e de capitais), as políticas monetária e cambial eram impotentes para encontrar uma situação de equilíbrio.
Só restava então o ajuste fiscal permanente, igualmente incapaz de chegar ao equilíbrio, uma vez que a conta de juros altos (internos e externos) rolava em bola-de-neve e fazia explodir periodicamente o orçamento fiscal programado com "austeridade".
A situação da conta de capitais mudou radicalmente a partir de 1990, dada a queda da taxa de juros americana e a busca frenética de aplicações financeiras internacionais nos chamados "mercados emergentes".
Os recentes sucessos argentino e mexicano no combate à inflação devem-se à utilização de uma "âncora cambial" em condições de economia já abertas, desreguladas e com ampla oferta de capital financeiro, internacional de curto prazo.
Isso permite manter os preços estáveis pelo tempo que durar a "absorção externa" de recursos que, por sua vez, exige um déficit no balanço de transações correntes equivalente à entrada de capitais.
Como subproduto da abertura financeira desregulada, a entrada de capitais financeiros especulativos ajuda a fechar o balanço de pagamentos, repetindo um processo de endividamento de curto prazo mais rápido do que o ocorrido entre 1979 e 1982.
Ele é, no entanto, de natureza distinta. Desta vez, a "bolha" especulativa internacional está mais ligada ao mercado de câmbio do que ao mercado de commodities (do tipo petrodólares) e opera em condições de desregulação global do mercado de dinheiro e de capitais.
Isso significa que o dinheiro pode fugir a qualquer sinal negativo do mercado internacional em relação às áreas mais endividadas a curto prazo, como por exemplo (novamente) o México, na área latino-americana.
A dívida externa mexicana multiplicou-se de forma espetacular nos últimos anos, acompanhando o movimento de integração com o mercado de capitais norte-americano. O déficit em transações correntes, que tinha sido zerado pela negociação da dívida externa (velha) em 1988, foi superior a US$ 25 bilhões em 1994.
Além disso, o miniciclo de crescimento correspondente ao período de estabilização, com investimento direto estrangeiro nas indústrias de exportação fronteiriças, parece ter terminado.
Juros elevados, câmbio sobrevalorizado e déficits comerciais estruturais são condições ótimas para ondas de privatização, isto é, transferências patrimoniais baratas do setor público para o setor privado.
A questão central, porém, é que essas transferências patrimoniais não se destinam a zerar a dívida velha, senão a servir de lastro para um novo endividamento (desta vez de curto prazo), correspondente à entrada de capitais especulativos, em geral aplicados metade em Bolsa e metade em títulos da dívida pública do Tesouro.
O "povo dos dólares" agradece duplamente, tanto do ponto de vista dos bons negócios, quanto do ponto de vista de um maior equilíbrio comercial dos Estados Unidos.
Esta grande potência, como se sabe, tem problemas de déficit estrutural com o Japão (com qualquer taxa de câmbio) há mais de uma década. Esta situação tem contribuído para enfraquecer a posição internacional do dólar nos mercados de câmbio.
A contribuição que se espera da América Latina, considerada território do dólar (pelo menos em termos financeiros e geopolíticos), é fazer um movimento contrário ao da década de 80.
Uma vez regularizada a situação da "dívida velha", cabe agora produzir déficits crescentes com os EUA, de modo que o superávit americano seja suficiente para cobrir o déficit com o seu principal credor da Ásia.
O Brasil tem, porém, sérias dificuldades de cumprir o papel que lhe foi designado no novo "Consenso de Washington", a menos que seja criada uma área de comércio preferencial ou de "livre comércio" com os EUA, já que a sua abertura comercial não pode discriminar as exportações oriundas da Ásia e da Europa. Diga-se de passagem que isto vale também para a Argentina e o Mercosul.
Mas essa dificuldade pode ser obviada se os segmentos mais importantes do investimento estrangeiro europeu (automobilístico) e japonês (minério, siderurgia e naval) forem sendo desestruturados e perderem competitividade.
Nesse caso, seria mais fácil trocar de mãos a propriedade privada e estatal (sobretudo Vale do Rio Doce e telecomunicações), tirar os japoneses da jogada e dar para os nossos irmãos do norte algumas posições vantajosas no mercado de bens e de riqueza material, correspondentes à posição financeira que já detêm aqui.
O ajuste proposto pelo "Consenso", portanto, está longe de terminar. Continua agora com dois S –de supervalorização e sucateamento do patrimônio público– e um novo D –deslocamento dos concorrentes.
O que a economia brasileira vai experimentar nos próximos anos não é um processo de estabilidade, mas sim de desajuste e instabilidade estrutural . A expressão usual entre os economistas nas décadas de 70 e 80: "O rabo balança o cachorro" deve ser substituída por "O rabo vai engolir o cachorro".
Vale dizer: as condições externas já não são apenas "determinantes em última instância", como na economia dependente; agora são determinantes em primeira instância. Ou seja, o capitalismo brasileiro associado está passando rapidamente a capitalismo subordinado. A metrópole manda e o satélite obedece.
Só que as coisas não são tão simples assim e a grande metrópole local, São Paulo, pode não ficar satisfeita com os resultados do novo ajuste cambial, patrimonial e fiscal.
Mas isso nos levaria a um outro tema sobre o lado político da instabilidade estrutural. Desta vez, o coração do capitalismo brasileiro, tendo-se tornado também o coração político da nação (ao contrário da década de 30), está submetido a uma perigosa esquizofrenia: estar no poder e ser contra ele.
Como a história não se repete, nem mesmo como farsa, não se espera nenhum 1932, apenas um longo processo de conflitos e arbitragens que tornará ainda mais sem transparência a natureza do poder no Brasil.

Como se vê, se tomamos rigorosamente o "próximos anos", ela errou. Mas só errou na data. O que é o que o Enio disse, me parece.

Idelber em dezembro 19, 2007 2:55 PM


#11

Enio e Idelber,
Eu não vou brigar com os fatos. Esse artigo mostra que ela realmente apontava o que viriam a ser dois dos principais problemas do Real - o câmbio valorizado e os juros elevados. Errei nesse ponto. Eu não concordo, porém, com essa visão meio conspiratória de que "a metrópole manda e o satélite obedece". O FMI, por exemplo, via com muita desconfiança o Real em 1994
Um abraço,
Marcos

Marcos Matamoros em dezembro 19, 2007 3:28 PM


#12

Aliás, como curiosidade: eu só procurei o artigo porque sei que nessas horas há que se apresentar documentação. Eu poderia ter evocado testemunho pessoal, porque ouvi a mesmíssima avaliação da boca da própria Dona Conceição em 1994. Enquanto ela acendia um cigarro na guimba do outro.

Idelber em dezembro 19, 2007 3:38 PM


#13

Aliás, Marcos, também não é fato que o FMI viu "com desconfiança" o Plano Real. De novo, Folha de São Paulo de 1994 (bendito arquivo!). De novo, grifos meus:

Folha de 30/09/94:

O diretor-gerente do FMI (Fundo Monetário Internaciomal), Michel Camdessus, disse ontem que o Brasil não precisa mais nem do dinheiro nem da supervisão da instituição para estabilizar sua economia.
"O importante é a continuidade da atual política macroeconômica", disse. Para Camdessus, o Plano Real está apenas em seu princípio, mas está indo bem.

Folha de 04/12/94:

FHC encontrou tempo para uma reunião reservada com o economista-chefe do FMI, Stanley Fischer. Amigo pessoal do presidente do BC, Pedro Malan, Fischer tem sido consultado informalmente pela equipe econômica sobre as futuras medidas para a consolidação do Real.
(Fernando de Barros e Silva)

Folha de 29/09/94:
FMI avalia que o Plano Real vai bem
O Fundo Monetário Internacional considera que o Plano Real trouxe bons resultados e espera medidas "apropriadas" para o crescimento do Brasil.
A avaliação foi feita em assembléia conjunta FMI-Banco Mundial, em Madri.

Folha de 28/09/94:

"Trabalhamos com dois cenários para o Brasil", afirmou [o economista-chefe do Banco Mundial para a América Latina, Sebastian Edwards]. "O mais provável é a continuação do sucesso que o Plano Real obteve até agora", disse.

E por aí vai.

Idelber em dezembro 19, 2007 3:52 PM


#14

Sobre o Plano Real e o FMI, um depoimento de quem cobriu o troço: os técnicos do fundo tiveram um arranca-rabo com a equipe do FHC (Gustavo Franco na época era segundo escalão) porque não acreditavam que o plano pudesse dar certo sem algum esquema temporário de controle de preços. Procurem nos jornais da época que devem encontrr isso.
E faço minhas as palavras do Hermê: abre um blogue, Ênio! Cabra bom, sô.
Uma confissão: esse negócio de podcast é bacana, vocês dois bateram um bolão, mas é chato pacas. Prefiro ler vocês, gente inteligente. Da próxima, filmem o debate, com umas moças em trajes sumários rebolando ao fundo, se me perdoam as amigas feministas.

S Leo em dezembro 19, 2007 4:03 PM


#15

Idelber,
As declarações oficiais foram de apoio, mas nos bastidores as coisas não eram bem assim. Veja esta matéria do Valor, na época dos dez anos do Real. Um abraço,
Marcos


Desde sua concepção, o plano foi pivô de diferentes atritos com o organismo internacional Tatiana Bautzer
De Washington
Nos dez anos do Plano Real, a relação do Brasil com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e com os Estados Unidos, principal mantenedor do organismo, alternou momentos de amor e de ódio. O esboço inicial do plano desagradou ao FMI e ao governo americano. Em meio à negociação do acordo final para a dívida externa, entre o final de 1993 e o início de 1994, o FMI recusou-se a chancelar o plano como uma alternativa confiável de estabilização econômica, o que distanciou o organismo do país até meados de 1996. Depois de dois anos de relativa tranqüilidade e de elogios internacionais pelo sucesso na estabilização, a tensão com o Fundo voltou no fim de 1998, quando o país negociava um pacote de ajuda bilionário. Afetado pela crise da Rússia e às vésperas das eleições presidenciais, foi aprovado um empréstimo de US$ 18 bilhões para supostamente continuar no mecanismo de desvalorização controlada. Mas três meses depois o sistema de “bandas cambiais” criado por Gustavo Franco, então presidente do Banco Central, implodiu. Até hoje ex-integrantes do FMI acreditam que o que provocou a desvalorização em 1999 não foi apenas desconfiança do mercado com a aprovação de reformas pelo Congresso, mas a própria política monetária brasileira adotada após o acordo fechado com o Fundo. Pouco antes da mudança do câmbio, o Tesouro dos EUA chegou a contatar o Banco Central e outras instâncias do governo para reclamar da rapidez da queda dos juros. Tanto o FMI quanto os Estados Unidos ameaçaram cortar o apoio internacional quando o governo brasileiro decidiu, em janeiro, fazer a desvalorização de forma controlada, usando uma fórmula criada pelo professor Chico Lopes — que sucedeu Franco no Banco Central — e gastando reservas sem conseguir estancar a pressão do mercado financeiro. A entrada de Armínio Fraga e o regime de flutuação reaproximaram o país do organismo internacional e o clima voltou a ser cordial. A desconfiança inicial do FMI com o Real foi enorme, e a principal razão era a falta de um compromisso maior com o ajuste fiscal. “O Brasil vinha de uma história de planos de estabilização que terminaram em crises, o que justificava o ceticismo. Também acho que é justo dizer que o componente fiscal na primeira administração Cardoso era, para usar um eufemismo, deficiente”, afirma o ex-economista chefe do Fundo Monetário Internacional, Michael Mussa. “Deixamos claro que não era um programa com o apoio do Fundo porque a parte fiscal parecia ser muito fraca”, afirma o ex-diretor do Departamento do Hemisfério Ocidental do FMI, Claudio Loser, que assumiu o departamento em 1994 substituindo Ted Besa. A recepção pelo governo dos EUA também foi fria, mas não tão hostil quanto a do Fundo. O mais abertamente ressentido com o tratamento era o presidente do Banco Central, Gustavo Franco. “A impressão é que ele tinha uma verdadeira aversão ao FMI”, conta Loser. O próprio Franco confirma que apregoava sua irritação. O diagnóstico de falta de ajuste fiscal no primeiro mandato de FHC é rejeitado pela equipe econômica da época. Franco lembra que o desempenho numericamente era ruim, mas que antes de gerar superávit primário o país estava reestruturando a dívida dos Estados e reconhecendo “esqueletos” como o rombo do antigo sistema habitacional. “É fácil se esconder atrás do conservadorismo, dizendo que o esforço fiscal é insuficiente.” A primeira apresentação formal do plano ocorreu na reunião anual do Fundo, em outubro de 1993, no contexto da conclusão da negociação da dívida externa. Os credores já haviam escolhido entre as opções disponíveis e só faltava trocar os créditos por “brady bonds”. Como o acordo previa que os novos títulos tivessem colateral em bônus do Tesouro americano e o volume em mercado era pequeno, começou a ser negociada uma emissão especial de papéis. Mas para isso seria necessário um acordo com o FMI, que emprestaria o dinheiro e daria o aval ao plano. “Até aí supunha-se que precisaríamos do dinheiro do FMI”, lembra Franco. “As discussões começaram entre setembro e outubro de 93, com o [Jose] Fajgenbaum [integrante do staff do Departamento do Hemisfério Ocidental]. Ele fechou todos os acordos com o Delfim [ex-ministro Delfim Netto] e tinha uma memória ruim do relacionamento com o Brasil. Estava com uma má vontade absoluta, parecíamos estar dando cabeçadas num muro.” A percepção de que o FMI não aprovaria o Plano fez o BC brasileiro começar a se mexer para comprar os bônus no mercado secundário, evitando chamar a atenção do mercado. “Se comprássemos tudo, poderíamos mandar todos passear. À medida em que a estratégia ia dando certo, meu interesse em conversar com o Fajgenbaum diminuía exponencialmente”, diz Franco. Em meio à estratégia, o então secretário do Tesouro, Larry Summers, ligou para o ministro da Fazenda, Pedro Malan, perguntando se era verdade que o governo brasileiro estava comprando os títulos no mercado secundário. O ministro chamou o presidente do BC ao gabinete para informar quanto já havia sido comprado. Franco respondeu que quase tudo e, segundo ele, do outro lado da linha, Summers “gaguejou, desligou o telefone e nunca mais se falou no assunto”. O governo entendeu que tinha o aval tácito do Tesouro americano para acabar de executar o plano. “O FMI ficou numa posição horrorosa, não ajudou a fechar o Plano Brady, não ajudou o Real. Nossas relações esfriaram a nível glacial, eu não atendia mais telefone de ninguém do FMI”, diz o ex-presidente do BC. No dia de lançamento do Real, o diretor-gerente Michel Camdessus emitiu um comunicado elogiando a iniciativa, mas o envolvimento do Fundo não passou dessa declaração. O ex-diretor do Departamento do Hemisfério Ocidental, Cláudio Loser, lembra que o gelo foi aos poucos sendo quebrado pelo vice diretor-gerente Stanley Fischer, que respeitava o trabalho do ministro Pedro Malan. Loser assumiu o cargo em 1994. “Fischer achava que o Fundo tinha se equivocado com o Brasil e começou a trabalhar com o país em 1996”. A atual diretora de Assuntos Fiscais do FMI, Tereza Ter Minassian, também ajudou a reconstruir o relacionamento com o governo brasileiro. A maior presença do Brasil na comunidade financeira internacional, com o grande fluxo de emissões de dívida da República, também reaproximou o governo brasileiro do FMI. Os anos de relativa tranqüilidade no cenário externo foram usados pelo governo para fortalecer o sistema bancário, com a permissão da entrada de bancos estrangeiros para compra de instituições financeiras brasileiras que quebraram por fraudes ou perda de receitas com a inflação.

Marcos Matamoros em dezembro 19, 2007 4:04 PM


#16

Eu coloquei a matéria do Valor antes de ler o comentário do Sérgio Leo, que confirma o que eu disse. Bem que nós poderíamos ter filmado o negócio mesmo. Se você prestar atenção, ao fundo, poderá notar, bem baixinho, os gemidos de dezenas de mulheres que se juntaram para nos ouvir e ficaram embasbacadas com a conversa :). Ah, claro: a maior parte estava em trajes sumários. A menor parte estava nua mesmo
Um abraço,
Marcos

Marcos Matamoros em dezembro 19, 2007 4:08 PM


#17

Sergio, que coincidência, rapaz, acabei de deixar comentário no seu blog.

Marcos, parece que entre a documentação que você reuniu e a que eu reuni temos um quadro mais ou menos claro do que aconteceu: desconfiança e arranca-rabo no começo, mas logo depois (já no primeiro semestre de 1994) declarações públicas de apoio. Não me parece que o quadro contradiga a Dona Conceição, por mais que "a metrópole manda e o satélite obedece" seja uma fórmula um pouco tosca...

E o enio eclipsou o podcast, hein? Abre o blog, enio!

Idelber em dezembro 19, 2007 4:17 PM


#18

Entrando rapidamente aqui, o artigo da Maria da Conceição é mais ou menos como alertar alguém que vai fazer quimoterapia de que haverá efeitos colaterais.

O preço de extirpar a inflação com âncora cambial, na falta de ajuste fiscal hiper-rigoroso (que os heterodoxos como ela detestam) é assumir riscos na área cambial. Isto não é novidade. Todo mundo torceu para que fosse administrável, mas não é preciso ser um gênio para perceber que, se havia riscos no plano Real, eles viriam do setor externo.

O que ela disse aqui -"O que a economia brasileira vai experimentar nos próximos anos não é um processo de estabilidade, mas sim de desajuste e instabilidade estrutural" - é exatamente apontar para os efeitos colaterais, mas tipicamente fazendo uma elipse sobre a patologia principal a ser atacada.

E, na verdade, tudo é comparativo. O Brasil pós-1994 foi uma economia muito mais ajustada e estruturalmente estável do que o Brasil pré-1994. Tanto foi que quando aconteceu o suposto desastre que todo mundo tanto temia, a crise cambial de 1999, as conseqüências ao fim e ao cabo acabaram sendo muito menores do que todo mundo previa. A hiperinflação não voltou e nem houve queda do PIB.

É fácil ficar reclamando do efeito colateral e ignorar que a doença precisa ser curada

F. Arranhaponte em dezembro 19, 2007 4:26 PM


#19

A hiperinflação não voltou e nem houve queda do PIB.

Perfeito, Arranhaponte. Fair enough. Mas o número que me interessa mais é -- o PIB não tendo caído -- a participação dos mais pobres na renda nacional. Digamos, dos 30% mais pobres. Essa participação cresceu entre 1994 e 2002? Entre vocês aí que entendem de economia, alguém tem esse número?

Se ele tiver crescido de forma significativa, eu dou o braço a torcer no debate sobre o Real.

Idelber em dezembro 19, 2007 4:41 PM


#20

"A pergunta é: a classe média brasileira concorda em abrir mão dos R% 150 bilhões que recebe anualmente de juros da dívida pública?"

Bom, de acordo com os dados do governo, posso me considerar classe média.

E de antemão aviso: estarei entrando com um processo pois não recebi nenhum centado de juros nenhum.

Obrigado.

Mas falando sério, Idelber, cada dia mais entendo que a esquerda sabe bem dividir o bolo mas é fraca em saber cria-lo, a direita sabe muito bem criar um bolo mas é bem fraca em dividi-lo.

Por essas e outras que a alternância entre a esquerda e a direita no poder é tão preciosa e para mim é a chave do sucesso de um desenvolvimento econômico.

Sua pergunta sobre a renda nacional é importante. Por mais que o PIB cresça, os mais pobres continuarão tendo uma elevação de renda vagarosa. E um dos principais fatores para isso é a falta de escolaridade dos mais pobres. Já é mais que provado que o índice de escolaridade atua diretamente no quesito renda.

Como as classes mais pobres possuem pior acesso a educação de qualidade seu aumento de renda tende a ser marginal.

Totos os países que nós liberais gostamos de usar como exemplo, realizaram um trabalho extremamente forte no quesito educação. Não é Prouni, tranferência de dinheiro dos impostos para faculdades particulares pé de chinelo que irá resolver o problema.

enio - Cria-se uma quimera para utilizar um belerofonte. Dificilmente encontrará um liberal que irá dizer que privatizar é solução para qualquer coisa. Mais importante que privatizar é criar condições para livre competição entre as empresas, inclusive empresas de capital externo.

Por exemplo do que adiantaria privatizar a Petrobrás? Com certeza ela se sairia melhor que a estatal, ganharia mais, pagaria mais imposto e etc...

Mas alguns liberais, e eu me incluo, sem uma legislação eficaz que desenvolva competição a Petrobras iria se torna um monopólio privado. E não conheço nenhum liberal que defende isso.

Na América Latina, aproveitando seu exemplo das várias privatizações na Bolivia, certos aspectos liberais passam longe. O que temos aqui, e mesmo entre a direita, foi um capitalismo mercantil, ou o que Vargas Llossa afirma como sendo privilégio onde empresas se aproximam do estado para conseguir benefícios e favores do Estado. Seja com leis especialmente feitas ou com empréstimos do BNDES para construção de metrô em Caracas enquanto há uma bruta necessidade para o mesmo no país.

Pablo Vilarnovo em dezembro 19, 2007 8:29 PM


#21

Só um detalhe: programas sociais de benefícios são baratos no inicio, mas costumam encarecer com o tempo...

André Kenji em dezembro 19, 2007 9:00 PM


#22

Quando eu era adolescente, aconteceu a luta do século. Em inglês, The Rumble in The Jungle???

Sem Google, acho que foi em 1974, em Kinshasa, no Zaire, e lembro que, lá na Africa, a luta foi realizada mais ou menos às 4 da madrugada para que pudesse ser vista em horário civilizado (de americanos).

O de nosso século foi no Filial, em São Paulo, em horário normal.

Sem graça, isso.

(Adorei ouvir vocês, apesar da luta pelo download, que só funcionou lá no Torre.)

Abraços.

Milton Ribeiro em dezembro 20, 2007 8:34 AM


#23

Obrigado, Milton :-)

Mas uai, o link aqui não funcionou?

Idelber em dezembro 20, 2007 8:50 AM


#24

Cotas sociais, alto custo de programas sociais. Parece coisa do Brás Cubas. Mais precisamente, parece o trecho em que o personagem Brás Cubas pensa em recompensar o sujeito que o salva de um acidente. Por que desembolsar R$ 10 bilhões com bolsa família é gastança e R$ 150 bilhões com juros é racionalidade? Por que, segundo Ipea e PNUD, um negro pobre brasileiro tem a metade da renda de um branco pobre brasileiro? Se é para acabar com o bolsa-família, por que não acabar com todos os programas de bolsas, como as da Capes e do CNPq? Afinal, é tudo improdutivo.
Retomando a história direita e esquerda, vamos a um passeio mais largo.
Junto com Eduardo Suplicy e Mercadante, Maria da Conceição foi esculhambada pela imprensa e dentro do PT com a derrota de Lula em 1994. Foram os culpados pelo erro de avaliação do partido. O que ela disse é que havia (e há) uma agenda de reformas liberais para a América Latina. E que isso geraria crises e crises. A tal agenda era pré-condição para recolocar os países da região no mercado financeiro internacional, após a crise dos anos 1980, provocada pela moratória mexicana. Hoje, é pura pressão: se mexer no modelo e mudar a agenda, o mercado tira o dinheiro e quebra o país.
A agenda citada pela Conceição não é conspiração, nem nada. É realidade. O programa aplicado na Bolívia foi o mesmo da Rússia, sob a supervisão de Jeffrey Sachs, outro mais do que insuspeito. Hoje, mr Sachs tenta se redimir com outra agenda, a do Milênio. Achava-se que a agenda liberal colocaria a América Latina no rumo do progresso econômico, social e blá. Subiram aos tronos nacionais Salinas, Menem, Collor, e um bando de caras que não acabaram seus mandatos. Isso foi a pós-ditadura, a realização do que nem os militares conseguiram realizar na região.
Como os “liberais” têm coragem de criticar um Chavez ou um Morales quando eles tinham esses débeis mentais e ladrões (Salinas, Menem, Collor) no poder?
Por falar em débeis, uns três patetas ficaram tão embasbacados com a onda liberal dos anos 1990 que escreveram um lixo chamado "Manual do perfeito idiota latino-americano". Um lixo com prefácio de Mario Vargas Llosa, que deveria acender uma vela por hora, todos os dias, em agradecimento por sua derrota na eleição com Fujimori. Llosa escapou, escapou!, de virar um exilado na Europa dados às burradas liberais adotadas na região toda, dentro da tal agenda reformista – ou melhor, contra-reformista..
A América Latina fez tudo da agenda e tal. (Os ditos liberais dirão: ora, faltaram as reformas. E ainda chamam a esquerda de utópica.) Os latino-americanos só não contavam, dizem os liberais, com as crises violentíssimas a partir de 1994 no México e de 1997 na Ásia. O projeto liberal se mostrou um fracasso retumbante no todo. Tanto que levou ao poder, já nos anos 2000, uma série de oriundos da esquerda e classes populares (Chavez, Evo Morales, Lula, Kirchner). Esses caras estão buscando uma volta ao desenvolvimentismo. O horizonte deles não é Lenin, nem Allende, mas sim Celso Furtado. Apesar do palavrório do Chavez, não tem nada de socialismo.
Se não bastasse a cretinice do primeiro livro, os três patetas lançam agora “A volta do idiota”. Ao lado do besteirol do livro, o engraçado é o tom solene: “as liberdades individuais, a livre concorrência, as instituições”. Parece que estão recitando a palavra de Deus, o sangue de Cristo, a imagem de Fátima. Com diz Agamben, esse troço virou religião. E no “liberalismo vulgar”, na versão brasileira, a religiosidade aparece em coisas inacreditáveis como “o superávit primário é tudo”, “a livre concorrência traz a prosperidade”, “precisamos de marcos regulatórios”.
PS: podemos entrar no jogo de torturar números. Não recomendo porque vai ser um vexame para os dito-cujos liberais. Mas se quiserem entrar em tortura de números, vou entrar para esculachar.

enio em dezembro 20, 2007 9:21 AM


#25

Disseram acima que programas socias tendem a ter aumento de custo no longo prazo. Argumento totalmente insustentável. Aliás, a direita do podcast usa e abusa de números.
Custo mesmo é o que o setor público brasileiro (União, estados municípios, estatais) pagou de juros de sua dívida desde o início do Plano Real, o mítico e espetacular golpe na inflação.
Pois bem, torturando os números do Banco Central (essa célula petista no estado brasileir), ficamos sabendo o tamanho do gasto. Esse sim um dispêndio de cresce ao longo do tempo.
O setor público brasileiro pagou R$ 1,321 trilhão (isso mesmo: trilhão) de julho de 1994 a outubro de 2007.
Quem recebeu essa grana foram os aplicadores de fundo de investimento e fundos de pensão.
Por sinal, os fundos de pensão são um dos maiores beneficiários da dívida pública. Eles não queriam a mudança de política econômica no começo do governo Lula. O segredo decifrado por Chico de Oliveira: o PSDB reuniu os professores universitários-banqueiros e o PT os sindicalistas-dirigentes de fundos de pensão. Sacou a dobradinha. São os quase dois irmãos.
É assim que faz uma elite, a que ganha dinheiro nas costas do resto do país.

enio em dezembro 20, 2007 11:29 AM


#26

Na boa enio, tens uma enorme dificuldade de encarar a realidade. Collor liberal?? Fala sério. Porque? Porque tomou algumas medidas liberais? Só por conta disso? Houve crises no mundo? Claro que sim. E a grande característica não do modelo liberal, mas do capitalismo é que esse consegue se recuperar com extrema velocidade de suas crises. Pegue o próprio exemplo da Ásia.

Nenhum sistema é perfeito.

Chamas o livro de cretino, mas não apresenta uma linha seques de crítica ao que lá está escrito. Tenho certeza que preferes ler o "Veias abertas". Sinceramente não acredito que alguém ainda leve Maria da Conceição Tavares em consideração. A Sra. "tem que dar certo". O único sentimento que ela possui é a mais pura inveja. Seu plano deu errado, o dos outros não.

Dizer que haverá crises no capitalismo é chover no molhado. Mas muito mesmo.

Se quiser podes entrar na sua tortura de números sem problema. O difícil será evidenciar com bons argumentos que o que existe no Brasil e na América Latina possa ser chamado de liberalismo.

Detalhe, pagamento de juros e dívida não são o problema. Nossa