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sexta-feira, 07 de dezembro 2007

Escritas da Violência, Unicamp, 28/11-30/11

Foram muitos os méritos do encontro “Escritas da violência”, que aconteceu no Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP, de 28 a 30 de novembro. Neste segundo colóquio internacional organizado pelos Profs. Márcio Seligmann-Silva e Francisco Foot Hardman, da UNICAMP e Jaime Ginzburg, da USP, mostrou-se o que acontece quando se tem um grupo sólido pesquisando um tema por um período considerável. A sensação nítida era a de que os coordenadores sabiam exatamente a quem queriam convidar; qual o plano de discussões que tinham em mente; quais contrastes e contrapontos desejavam criar. O colóquio foi, enfim, uma obra de arte. Talvez tenha sido o único na minha vida em que não vi um único trabalho ruim. A coisa ia do muito bom ao excelente ao brilhante.

Na abertura, o Prof. Marc Nichanian, armênio radicado em Beirute (ex-professor em Columbia), deu uma palestra absolutamente cativante sobre a catástrofe, o extermínio e o problema do testemunho – a catástrofe como lugar de aniquilamento da testemunha, reflexão que Marc desenvolve há anos a partir de sua extensa pesquisa sobre o genocídio armênio. Sobre Marc, diga-se não só que deu uma palestra brilhante. Poliglota contumaz (armênio, alemão, inglês, francês), ele estava pela primeira vez num ambiente cuja língua ignorava completamente. Em vez de sair e fazer turismo, ou ficar e fazer muxuxo, Marc deu aquele espetáculo de simpatia e ética: escutava pacientemente trabalhos numa língua da qual não entendia uma palavra. Nos intervalos, aproveitava para pegar um relato com algum de nós. Ia tecendo sua versão do congresso. Dei-lhe de presente meu livrinho sobre a violência e no dia seguinte o cabra voltou com metade lido e uma enxurrada de idéias para debate. Um genuíno pensador e um gentleman, o armênio Marc Nichanian.

A uruguaia Lisa Block de Behar veio em seguida. Mais que ouvir a palestra – muito boa, sobre a operação da memória num filme ucraniano, se não me equivoco –, foi uma alegria conhecê-la. Sou velho leitor de dois belos livros (entre os muitos) de Lisa: o seu ensaio sobre Borges e o pioneiro Una retórica del silencio, um tratado poético sobre os usos do silêncio na literatura. Essa pequena jóia de livro foi uma das minhas introduções ao que pode fazer a crítica literária. Tietei.

Daí em adiante foi só português; revi amigos, conheci pessoalmente autores que havia lido e tomei conhecimento de gente cujo trabalho ainda ignorava. Ana leu um trecho pesado d'Um defeito de cor, falou da pesquisa para o livro e deixou algumas imagens que permaneceriam presentes no colóquio inteiro. Meu amigo Foot Hardman fez uma entusiasmada apresentação da obra de Roberto Bolaño e de sua demolidora representação da instituição literária. Na última mesa do dia, Jaime Ginzburg ofereceu uma panorama dos discursos sobre a violência na literatura brasileira contemporânea. A fala foi brilhante; destaque-se nela a crítica firme feita a uma lamentável antologia recente, fenômeno de mercado dos mais rasos que tenta aproveitar-se da popularidade do tema. Por fim, Rosana Kohl Bines (PUC-RJ) apresentou um comovente texto, em que ela falava ora como pesquisadora, ora como mãe, alivanhando reflexões a partir do caso do assassinato do garoto João Hélio no Rio de Janeiro.

No segundo dia eu falei de manhã, numa mesa com minha amiga Sônia Roncador (Universidade do Texas), que apresentou um estudo sobre relatos de domésticas. Depois da nossa mesa, um show solo do meu amigo Roberto Vecchi, com um estudo sobre o tema das escritas de massacre e Os Sertões, de Euclides da Cunha, em particular. A outra metade do duo italiano, meu também amigo Etore Finazzi-Agrò – um dos maiores especialistas do mundo na obra de Guimarães Rosa – falaria no dia seguinte, revisitando Rosa, mas dessa vez o enigmático “Meu Tio o Iauretê.” Depois do almoço, Regina Dalcastagné (UNB) apresentou uma visão bem crítica das estéticas da neo-violência na literatura brasileira, de Cidade de Deus aos herdeiros de Rubem Fonseca.

Havia também um excelente grupo de germanistas: Élcio Loureiro Cornelsen (UFMG) apresentou um trabalho assombroso sobre testemunhos de tortura na Alemanha comunista. De tudo o que ele disse, não me saiu da memória a imagem dos “arquivos de cheiros”, um imenso catálogo de pedaços de pano com os odores dos prisioneiros. O ensaio de Jens Baumgarten (UNIFESP) também foi muito bom, e lidava com a cultura do martírio na Alemanha nazista.

Por fim, tive a oportunidade de escutar pela primeira vez dois colegas que eu já havia lido fartamente. Jeanne Marie Gagnebin, suiça radicada no Brasil há 30 anos, é referência indispensável para quem estude a obra de Benjamin. Márcio Seligmann-Silva, co-organizador do encontro, é autor de um livro de raríssima erudição, O Local da Diferença, ganhador do Prêmio Jabuti de ensaios no ano passado.

Só resta, pois, deixar o registro do agradecimento aos organizadores. O livro que sair desse colóquio valerá a pena.

PS; o Lino Resende nos brinda com o título de “blog cabeça” e convida a que repassemos o meme. Aí vão, pois: Prás Cabeças (sem trocadilho), Mineiras, Uai!, Favoritos, Mothern e Uma Odisséia Literária. Viu, Lino? Sem sair de Belo Horizonte. Que ninguém se sinta obrigado a repassar, claro.

PS 2: Parece que os lançamentos d'Os Vira-Lata venderam dez vezes mais que o da Mônica Veloso.



  Escrito por Idelber às 04:26 | link para este post | Comentários (15)


Comentários

#1

Apaixonei-me pelo Bolaño - li três livros - e gostaria de saber mais. Porto Alegre é uma bosta.

Milton Ribeiro em dezembro 7, 2007 7:32 AM


#2

Até o FSM saiu daqui... Quem manda votar como votam. Gaúchos são burros.

Milton Ribeiro em dezembro 7, 2007 7:33 AM


#3

Puxa! confesso que o tema do seminário não me interessou de imediato. Digamos que eu pensei que não era minha praia e cometi o delito de não me informar mais...ploft! tô passada! quanta gente boa!!! juro que nunca mais vou ignorar uma recomendação sua (rs).

Conceição em dezembro 7, 2007 7:46 AM


#4

os trabalhos da roncador e da Dalcastagné me interessam muito.... qualquer coisa que vc vir sobre essa questao das domesticas, pode passar pra mim...

alex castro em dezembro 7, 2007 11:30 AM


#5

Idelber, sinal de sucesso é vencer uma comparação com quem é consagrado no assunto.
Pois é, assim como a Sra. Veloso, nós também botamos pra foder!

Branco Leone em dezembro 7, 2007 12:52 PM


#6

Acho que vendemos mais do que a Playboy da Sra. Veloso também haha

Donizetti em dezembro 7, 2007 5:22 PM


#7

Milton, se há um lugar onde é possível que haja mais alguém lendo Bolaño a sério, é em Porto Alegre. E sabia que a primeira vez que vi Bolaño discutido no Brasil foi no seu blog?

Conceição, estava nas imediações e não foi? Que vacilo foi esse, mulher?

Alex, eu te passo os contatos, se quiser.

hahaha, Branco e Doni, além de botar prá foder, não cobram pensão :-)

Idelber em dezembro 7, 2007 10:37 PM


#8

Idelber:
Os mineiros, desde os tempos imemoriais, foram sempre cabeça. Então, as indicações ficando nos limites das Minas Gerais está muito bem postas.
Vou aproveitar e conhecer os que não conheço.

Lino em dezembro 8, 2007 10:11 AM


#9

Intuição é uma coisa que não se entende. Peguei um livro dele, abri, cheirei aqui e ali e tive a certeza que estava com um Escritor. Gol.

Falei mals de Porto Alegre pela falta de bons programas culturais como o "Escritas da Violência". A coisa anda pobre.

Abraço e bom fim de semana.

Milton Ribeiro em dezembro 8, 2007 1:00 PM


#10

O "mals" não foi estilo, foi erro mesmo.

Milton Ribeiro em dezembro 8, 2007 1:01 PM


#11

Brigadão pela indicação de 'blog cabeça'... E vc, já está na terrinha? Abração.

Cláudio Costa em dezembro 8, 2007 1:53 PM


#12

Já estive e já voltei a New Orleans, Cláudio. Foram só dois dias aí. Este ano vou passar o fim de ano por aqui, imerso na escrita e na leitura :-)

Em março, sim, estarei de volta para aquele chope.

Idelber em dezembro 8, 2007 2:34 PM


#13

Uiaaaaaaaaaa!!!!
Blog cabeça?????
Que chisque, gentemmmmm!
Valeu Idelber, muito mesmo! :-)
Beijos

Ana em dezembro 10, 2007 1:13 PM


#14

Pois é, Idelber, eu sabia que seria imperdível, mas mesmo assim não tive escolha: perdi. Jaime enviou-me o convite, mas meus afazeres me impossibilitaram de ir. Você deve ter dado show, como sempre. Espero que haja um próximo para estar presente.

Beto em dezembro 23, 2007 9:07 PM


#15

Prezado amigo:

Eu estou precisando o email da professora Sonia Roncador. Eu conheci a ela em 1993 no NY e tivemos uma boa amizade. Por coisas do destino estou agora morando na Brasília e gostaria de fazer contato com ela. Ser que vc pode me apoiar?
Obrigado

Wilfredo Machado

Wilfredo Machado em janeiro 11, 2008 3:11 PM