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segunda-feira, 17 de dezembro 2007
Osvaldo Bayer e Guillermo Saccomano devem um pedido de desculpas a Beatriz Sarlo
O episódio foi ilustrativo e sórdido. Envolveu ataques e acusações àquela que talvez seja a mais destacada intelectual argentina de hoje e arrastou-se durante mais de um mês nas páginas de um dos principais jornais latino-americanos. Nem assim recebeu uma nota sequer nos Mais!, Ilustradas ou Cadernos B da vida, mais preocupados em traduzir um texto de um ano atrás sobre a Revolução Francesa ou em noticiar o compacto da última banda de adolescentes finlandeses. O fato é que este é o primeiro registro da polêmica em português. Ela é tão instrutiva que outro post será necessário para discutir tudo o que episódio ensina. Neste, me limito a contar a história. Como sempre, incluo os links para que o leitor julgue por si.
Em 2007, se completaram 10 anos da morte do escritor argentino Osvaldo Soriano, um autor de best-sellers populares. O “Gordo” era um bonachão, fã de futebol, que escreveu romances de leitura bem ágil, com freqüência inspirados na tradição policial. Era muito vinculado a um certo imaginário populista que vem do Peronismo. Digamos, para quem não o conhece, que é uma espécie de João Ubaldo tangueiro. Não importa. O fato é que as comemorações do seu aniversário de morte, publicadas pelo Radar, o caderno cultural do Página 12, incluíram um texto de Guillermo Saccomano (escritor de ficção sobre cuja [des]importância eu prefiro me calar) que, ancorado num relato que lhe fizera Osvaldo Bayer (historiador de alguma importância, que escreveu sobre revoltas na Patagônia e sobre as Mães da Praça de Maio), apresentava uma pesada acusação a Beatriz Sarlo, de que a acadêmica portenha havia uma vez convidado Soriano à Universidade de Buenos Aires para que ele fosse “ridicularizado” pelos alunos por “não ter diploma”. Pintaram uma história de ele havia sido humilhado por ela, a acadêmica-malvada-arrogante-que-desprezou-o-pobre-escritor-popular.
Quando li aquilo, sabia que era mentira. No máximo, imaginei que Soriano havia sido levado à UBA para um debate e que algum aluno ou professor houvesse dito algo que o tivesse ofendido. Não sabia de onde vinha a mentira sobre Beatriz Sarlo, se de Bayer, se de Saccomano, se de otro lugar. Mas conheço a obra e o caráter de Beatriz há décadas. Tirando antologias, ela escreveu uns vinte livros. Eu li todos os vinte. Fundou em 1978, na marra e em condições de verdadeiro pesadelo, uma revista que continua sendo uma das principais da América Latina. Dela, li todos quase todos os exemplares de cabo a rabo. Não sou amigo de Beatriz, mas já coincidimos em congressos; eu leio tudo o que ela escreve, ela já leu algum escrito meu e sabe quem eu sou. A isso se limita minha relação com ela.
Na edição seguinte, Beatriz Sarlo responde afirmando que há anos Osvaldo Bayer e Guillermo Saccomano difundem uma mentira sobre ela; que ela jamais convidou Soriano a visitar UBA nenhuma; que jamais levou ninguém à universidade para ser humilhado; que aqueles que a conhecem sabem que ela trabalhou sobre Juan José Saer, sobre Ricardo Piglia, sobre Manuel Puig, mas que nunca se ocupou de – nem atacou -- Soriano. E ponto.
Uma semana depois, no mesmo Radar, as respostas de Bayer e Saccomano são verdadeiros exercícios de lançamento de lama à distância. Em tom de ironia, usam o trabalho de Bayer com as Mães da Praça de Maio para avalizar a verdade da acusação, como se o fato de alguém ter trabalhado com as Mães passasse atestado de veracidade a qualquer coisa que diga. Usam o fato de que Sarlo escreve uma coluna numa revista pop para tentar ridicularizá-la. Comparam a sua negação a uma negativa de um general sobre as torturas. Fazem um desafio a um debate público que é um convite ao linchamento. Insistem em afirmar que Sarlo levou Soriano à universidade para ser ridicularizado. Para piorar, as acusações eram incongruentes: Saccomano dizia que “Sarlo convidou” e Bayer afirmava que “um grupo de docentes e alunos da cátedra Sarlo” convidou.
Na semana seguinte, Beatriz retruca a esse linchamento da única maneira que me parece digna: reiterando que a acusação é falsa, que o convite ao bate-boca público é uma arapuca onde ela não será ouvida e que a polêmica é a palavra dela contra a deles. Nesse momento, o debate, já disseminado no campo intelectual argentino, inspira intervenções de María Moreno, Amparo Rocha Alonso e Germán Ferrari, que discutem outros aspectos que não o que motiva este post.
Mas eis que na semana seguinte, fica provado mais uma vez, caro leitor, que a mentira tem pernas curtas. Aparece a professora que convidou Osvaldo Soriano à UBA. Hinde Pomeraniec, naquele momento docente e agora editora do caderno Mundo do jornal Clarín, relata que em 1991 Soriano havia sido convidado por ela – não por Sarlo – para um ciclo de palestras ao qual outros escritores (Fogwill, Bioy Casares, Aira) também haviam ido. Testemunha que Soriano, nervoso antes do encontro, temia um desastre; que estava tenso e que expressava o temor de que o hostilizassem; que desfilava uma série de ansiedades a respeito da academia. Pomeraniec também lembra-se de que havia reiterado a ele que estava tudo bem, que o clima seria ótimo. Conta com detalhes que Soriano – simpático e habilidoso orador – cativou o público, foi aplaudidíssimo pelas 300 ou 400 pessoas que foram vê-lo, assinou livros e saiu feliz. No entanto, coisa de maluco, logo depois da visita Pomeraniec fica sabendo de uma entrevista em que Soriano dizia “ter sido maltratado” na UBA por um “auditório hostil”. Pomeraniec confrontou-o com a mentira dias depois, e ele desconversou com brincadeiras que eram do seu estilo.
Moral da história? Osvaldo Soriano esteve na UBA. Foi muito bem recebido e aplaudido. Não quis ouvir. Seja lá por que motivo (vontade de aparecer como o pobre-escritor-popular-desprezado-pela-academia, suponho eu), inventou a mentira de que o haviam chamado para que ele fosse humilhado. É incômodo descobrir que um morto mentiu, especialmente um morto que tem estatuto meio mítico para algumas pessoas. Mas o papel do estudioso é buscar a verdade, não reforçar mitos. Osvaldo Bayer e Guillermo Saccomano, de má fé ou simplesmente repetindo preconceitos, não importa, insistiram na mentira com a acusação a Beatriz Sarlo. Posaram de paladinos do popular contra a “intelectual” arrogante. Procederam a realizar um linchamento. Tudo para que depois ficasse provado que ela estava certa e eles errados. Infelizmente, não voltaram a tocar no assunto.
Junto-me a Daniel Link na expectativa de que Guillermo Saccomano e Osvaldo Bayer tenham a hombridade de, antes de morrer, emitir um pedido de desculpas público a Beatriz Sarlo. Até agora, nove meses depois, não o fizeram.
PS: Deixo para um post futuro a discussão de tudo o que o episódio ensina sobre a fobia de certas pessoas sobre a universidade.
Escrito por Idelber às 05:41 | link para este post
| Comentários (9)
#1
Conheço Beatriz Sarlo da Flip e de alguns textos sobre Saer.
Não preciso mais para dizer que as acusações são falsíssimas, verdadeiros disparates. É simplesmente incrível que um caráter como Beatriz Sarlo tenha atraído a ira destes Bayer e Saccomano.
Fico boquiaberto.
Abraços, Idelber.
P.S.- Como li Roberto Bolaño e sobre Roberto Bolaño durante o fim de semana, estou escrevendo - por enquanto apenas em minha cabeça - uns dois ou três posts chamados provisoriamente de "Nenhum fígado para Roberto Bolaño". Mais uns dois dias e estarão prontos para ir ao papel daquela forma pobre mas limpinha que é meu jeitinho de escrever.
Milton Ribeiro em dezembro 17, 2007 9:03 AM
#2
Já tinho lido algo sobre essa polêmica. Foi aqui mesmo, idelber?
Agora me explica essa comparação com o João Ubaldo. Escritor popular sem traquejo com a academia? Tudo bem que, na cultura deixa-que-eu-chuto do Brasil nem o Zeca Pagodinho tem medo de universitário; mas o Ubaldo é sociólogo formado com obra publicada, useiro e vezeiro de falar a acadêmicos; e o tipo de popularidade dos seus livros é semelhante ao de um, sei lá, um Dias Gomes...
S Leo em dezembro 17, 2007 9:49 AM
#3
Estou ansioso para ler os posts sobre Bolaño, Milton :-)
Pois é, Sergio, como sempre acontece quando se tenta encontrar equivalências, distorce-se a coisa um pouco. Sei que o João Ubaldo é sociólogo, e andou até escrevendo desse lugar. Soriano também era diplomado, se não me engano, em jornalismo. Eu pensava mais na ficção de João Ubaldo, com seu forte apelo populista. Também vejo nela um certo ranço anti-intelectual. Não tanto como em Soriano, claro, para quem aparecer como "o anti-acadêmico" era uma espécie de carimbo de identidade, ainda que bem ansiosa e ambígua. Não sei... Quem seria o equivalente brasileiro? Escritores genuinamente "do povão", como João Antonio, não contam. Esses não costumam ter grandes ansiedades com a academia, não. É mais um certo tipo de escritor populista de classe média mesmo, apegado a certos mitos. Sei lá quem seria o equivalente brasileiro...
Idelber em dezembro 17, 2007 11:03 AM
#4
Idelber, estou ansioso para ler o que você irá escrever sobre esse ranço que algumas pessoas tem em relação à academia. Eu mesmo tenho um pouco, estou em duvida se faço mestrado por isso, mas não só pela maneira isolada que o meio acadêmico se move, mas também pelos egos!!!
No departamento de História da Universidade de Brasília, já teve até agressão física entre professores, que brigavam para ver qual área iria ganhar mais bolsas para a pós graduação!!
ps: estou lendo Manuel Puig, você já postou algo sobre ele aqui?
Guilherme Losilla em dezembro 17, 2007 1:10 PM
#5
bom post, Idelber. ainda bem que existe gente como você; os suplementos e cadernos 'culturais' que temos são medíocres por demais.
se um dia tiveres tempo, acho que seria muito útil um post recomendando periódicos latinos disponíveis na web, bem como sites literários. caso isso já tenha sido feito e eu desconheça, por favor informa o link!
abraços!
João Barreto em dezembro 17, 2007 1:55 PM
#6
Oi, Guilherme, sobre Puig acho que nunca postei -- coisa estranha mesmo, porque é um dos meus autores favoritos. O post sobre o "ranço" vai rolar sim, em breve.
João, sugestão anotadíssima, seria muito bom, mesmo, ter um arquivo com links ao qual pudéssemos enviar os interessados. Anotado. Abraços,
Idelber em dezembro 17, 2007 6:26 PM
#7
Tenho quase odio da academia, seus egos, suas salinhas com livros e suas disputas por territórios quase coronelisticas. Sobre malentendidos e mentiras, e palavras falsas, acabei de escrever sobre, após ter sido chamada de stalinista. olha, sinceramente, não sei o que outro lado quis dizer exatamente. só sei que isso virou uma espécie de xingamento sem perdão, que me tornaria imediatamente uma pária com a qual nenhuma discussão posterior fosse possível. peralá! pensei nesse caso lendo este seu ótimo post. acusações, falta de argumentos, jogo baixo. ó, ceus. o que são as esquerdas e as academias?
Kelly em dezembro 17, 2007 10:28 PM
#8
perdão, idelber, mas acho salutar que a questão não tenha tido espaço na mídia nacional. aos meus olhos, parece baixa picuinha.
bruno em dezembro 18, 2007 3:24 AM
#9
Com certeza é picuinha, bruno. Mas qual é a matéria que alimenta os suplementos culturais mesmo?
Idelber em dezembro 20, 2007 7:43 AM
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