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quinta-feira, 13 de dezembro 2007

A OTAN e suas atividades terroristas

hoita.jpg Há dois anos, o respeitado historiador suiço Daniele Ganser publicou um livro assombroso. Produto de anos de pesquisa, NATO's Secret Armies: Operation Gladio and Terrorism in Western Europe documenta quase 50 anos de envolvimento da OTAN, em coordenação com a CIA, o Pentágono, o serviço secreto britânico MI6, o serviço secreto israelense Mossad e as polícias secretas de uma série de estados europeus na manutenção de exércitos clandestinos e terroristas em toda a Europa Ocidental. Caracterizada em 1990 pelo jornal britânico The Times como “coisa que parece saída de romance policial”, a operação Gladio (“espada”, em italiano) incluiu assassinatos seletivos, tortura, intimidações e uma série de atentados de terroristas cometidos com o objetivo explícito de incriminar forças políticas de esquerda na Europa. A documentação apresentada por Ganser é impressionante.

Ganser demonstra que a OTAN comandou uma rede clandestina que operava em 18 países: EUA, Reino Unido, Itália, França, Espanha, Portugal, Bélgica, Holanda, Luxemburgo, Dinamarca, Noruega, Alemanha, Grécia, Turquia, Suécia, Finlândia, Suiça e Áustria. Na Alemanha, ela recrutou ex-oficiais da SS. No capítulo dedicado à Itália, Ganser recopila a documentação que prova que o atentado de Peteano, que sacudiu o país em 1972 e foi atribuído à esquerda, na verdade havia sido cometido por um militante de um grupo de extrema-direita. Até aí nada novo, pão com manteiga. No entanto, o que a pesquisa de Ganser demonstra é que esse grupo (Ordine Nuovo) atuava em estreita colaboração com os exércitos clandestinos mantidos pela Organização do Tratato do Atlântico Norte. Ganser também mostra a cumplicidade da OTAN com os atentados de 1954 no Egito, inicialmente atribuídos aos muçulmanos, mas de responsabilidade direta de agentes do Mossad, naquele que ficou conhecido como o caso Lavon.

Não foram poucas as vítimas dessa gigantesca operação terrorista comandada a partir das altas esferas da OTAN (leia-se: CIA, Pentágono, MI6). Só na Itália, foram, no mínimo, 491 mortos entre 1969 e 1980, boa parte deles vítimas de assassinatos ou ataques realizados com o objetivo de incriminar o poderoso Partido Comunista Italiano. Essas brigadas clandestinas também tiveram papel central no apoio a golpes de estado de direita na Grécia e na Turquia, na eliminação de adversários políticos na Espanha e Portugal e no assassinato de Eduardo Mondlane, líder independentista moçambicano. Mesmo a operação já sendo de conhecimento público há anos, somente na Itália, na Bélgica e na Suíça houve investigação formal sobre sua história.

O blog recomenda enfaticamente a leitura de uma entrevista com Daniele Ganser e a visita à sua página pessoal. Agradece ao amigo espanhol Jon Kepa pela dica e deixa uma singela pergunta: em meio às incontáveis resenhas de livros advindos dos Think Tanks conservadores norte-americanos, alguém viu uma única menção a esta obra na nossa imprensa?

PS: Excelente blog acadêmico, vale a visita: Que cazzo.



  Escrito por Idelber às 05:33 | link para este post | Comentários (14)


Comentários

#1

Idelber!
O assustador de tudo isso é que, como o próprio Daniele deixa no ar, estas estruturas não foram desmontadas, estão aí e certamente usando esta estratégia de tensão, dentro de novos conceitos.
Como sempre, ótimo post!
Abraço.

paulovilmar em dezembro 13, 2007 7:34 AM


#2

Pois é, a continuação dessas estruturas é outro mistério, paulo. Perguntado sobre o tema, o Ganser, historiador cuidadoso que é, disse que se recusava a afirmar qualquer coisa, porque sobre o período atual ele não havia pesquisado.

Mas nada garante que elas não estejam intactas por aí.

Idelber em dezembro 13, 2007 7:50 AM


#3

Não tenho dúvidas que as estruturas de apoio estão aí. De um lado e de outro. A Guerra Fria só era Fria no nome.

Pablo Vilarnovo em dezembro 13, 2007 7:54 AM


#4

Sempre que posso venho aqui no seu blog para ser surpreendido. Gosto muito! Por isso resolvi compartilhar com você minhas idéias. Mas elas não estão escritas, estão cantadas... Dá uma ouvidinha nas minhas músicas e me diz o que acha? Acredito que vc irá se identificar com minhas letras.
Estão em www.thiagocorrea.com
Obrigado pela atenção,
Thiago Corrêa

Thiago Corrêa em dezembro 13, 2007 8:17 AM


#5

Em relação a morte de Eduardo Mondlane, figura praticamente desconhecida dos brasileiros, há algum tempo é pacífico entre pesquisadores, que sua morte foi urdida com apoio de fora de sua organização (que segundo os mesmos estudiosos, era extremamente frágil na época). Mas também é provável que entre seus colaboradores íntimos houvesse agentes (talvez até na sua maioria), com conexões externas ao seu movimento. Nunca li informação que a PRÓPRIA OTAN (ou NATO, como está na capa do livro) estivesse envolvida, outras organizações são eventualmente citadas por algumas fontes. Alguns fatos ocorridos após a independência de Moçambique indicam que um POSSÍVEL acerto de contas em relação a indivíduos (e/ou grupos) teria ocorrido, em virtude DESTE ATENTADO contra a vida de Mondlane. Registre-se que o líder moçambicano teve educação formal na chamada missão suíça e graduou-se nos EUA, onde angariou bastante apoio. O fato é que se uma organização ligada a governos ocidentais eliminou Mondlane, foi a partir daí que a FRELIMO começou a se estruturar melhor.
O curioso de uma acusação contra a OTAN no caso das guerras de libertação em territórios ocupados por Portugal (no caso de Monlane em Moçambique) é que logo no início do conflito em Angola (e também em Bissau), fontes da OTAN (e do governo dos EUA) NO AUGE DA GUERRA FRIA CRITICARAM Portugal por utilizar, nos embates coloniais, armas que eram teoricamente “de uso exclusivo da OTAN”.

P.S. – Se antigas estruturas ainda estão de pé não sei. Mas a morte, em 2002 (mais de trinta anos após a morte de Mondlane), do líder angolano Jonas Savimbi está incluída no rol de eventos misteriosos. Há quem diga que o seu desaparecimento (ou neutralização) interessava a mais grupos/pessoas do que apenas ao governo de Luanda. Ficam as dúvidas.

Paulo em dezembro 13, 2007 8:57 AM


#6

nao sei como eu vim parar aqui no teu blog, soh sei que tudo começou pelo blog do azenha e dai em diante soh fui encontrando blogs de qualidade... as vezes me sinto como neo, que tomou a pilula vermelha e um novo mundo se abriu!!!
como nao estou no brasil, sempre leio o site do uol e da folha, mas procuro noticias por blogs e outras agencias. foi assim que acabei descobrindo uma rede maravilhosa de blogs, como o teu. uma pena que a inclusao digital nao chegou ao brasil, pois seria bem melhor se todos os brasileiros pudessem ter acesso a noticias por outros meios que nao somente o jornal nacional ou pelo menos poder contrabalançar as opinioes da grande midia corporativia com informaçoes coletadas diretamente da rede.
"de toute façon" teu blog eh excelente!!! continue trazendo a nos internautas informaçoes interessantes!

beijo

ps: jah entrei no site do ganser e baixei todos os pdf's pra ler com mais calma.

fabiana em dezembro 13, 2007 9:06 AM


#7

Será que aquelas "prisões secretas" da CIA na Europa, utilizadas para guardar e "amaciar" suspeitos de terrorismo, não seriam uma continuação desse esquema? Faria todo sentido.

Luiz em dezembro 13, 2007 9:40 AM


#8

Caro Paulo, já está estabelecido como fato, há algum tempo, que a bomba que matou Mondlane em 23 de fevereiro de 1969 foi plantada pela seção portuguesa da Gladio. Até aí é fato histórico, que ninguém disputa.

Fabiana, que bacana receber mensagens como a sua. A casa agradece, volte sempre :-)

Pois é, Luiz, linha de continuidade direta com Guantánamo também.

Idelber em dezembro 13, 2007 3:55 PM


#9

Muito interessante esse livro. Não conhecia.

Off Topic: Você viu que o projetinho do Aldo passou na CCJ?

Abraço

Guto em dezembro 13, 2007 4:12 PM


#10

Não a-cre-di-to, Guto. Puta merda. Eu odeio esse projeto. Vamos ter que voltar a fazer barulho sobre esse tema por aqui. Valeu o link :-)

Idelber em dezembro 13, 2007 4:36 PM


#11

Hola Idelber.

Te agradezco los comentarios que haces a propósito de mi, así como la referencia que das de mi escrito que ha servido para que lo visiten y enlacen desde otros lugares.

Como casi todos los que aquí escriben lo hacen en portugués, he colgado en el mismo escrito la versión en portugués así como en inglés y en ruso.

Así espero que sea más fácil de entender para quienes desde Brasil me visitan y a uno que lo hace desde Suecia, a los muchos que lo hacen desde USA y a unos cuantos que también lo hacen desde Rusia.

Un saludo.

Jon Kepa em dezembro 14, 2007 8:50 AM


#12

Riocentro, anyone?

Gabriel Ramalho em dezembro 14, 2007 10:11 AM


#13

Jon, tu gesto de traducir ese largo texto al portugués para facilitar la comprensión de los lectores brasileños, es de una generosidad indescriptible. Gracias.

Idelber em dezembro 15, 2007 5:01 AM


#14

He colgado otro escrito que tiene alguna que otra relación con éste, lo podeis ver en :http://jonkepa.wordpress.com/2007/12/17/la-secta-moon-una-secta-bien-particular/
Saludos.

Jon Kepa em dezembro 17, 2007 3:55 PM


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