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Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



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quinta-feira, 31 de janeiro 2008

John Edwards abandona a corrida

edw-nola.jpg Foi simbólica a despedida de John Edwards da campanha presidencial norte-americana. Ele viajou até aqui, New Orleans, onde havia começado a caminhada. Foi até o Lower Ninth Ward, bairro de Fats Domino, completamente devastado pela enchente que se seguiu ao furacão Katrina. Ali ele fez seu discurso (veja o vídeo). Além de emblemática musical e culinariamente, New Orleans é hoje o melhor retrato do fracasso do governo Bush, de seu descaso com os pobres, da falência do modelo entregue ao mercado que ele resolve. A cidade é também a mais eloqüente metonímia das dezenas de milhões de pobres que a América não consegue mais varrer para debaixo do tapete.

Edwards foi sua grande voz nestas eleições. Ele foi o único dos grandes candidatos a falar sistematicamente da pobreza e do colapso do sistema de saúde americano. Foi o único a enfatizar o simples fato de que o abismo entre os ricos e os pobres não diminui nos Estados Unidos, só aumenta. Não há como medir a importância que teve Edwards na campanha. Foi graças a ele que tanto Clinton como Obama se comprometeram com a proposta de um sistema genuinamente universal de assistência médica. Ele também foi o único dos grandes a encarar de frente a máquina de distorções da extrema-direita midiática americana. Em toda a base do Partido Democrata, pipocaram os agradecimentos ao longo do dia de ontem. Nas últimas cinco eleições presidenciais americanas que acompanhei diretamente, ele foi o único candidato que conseguiu empurrar o debate minimamente para a esquerda. Aqui em New Orleans, ele conquistou o respeito de todos ao mobilizar centenas de estudantes universitários e trazê-los à cidade no verão de 2006, para ajudar na reconstrução. A foto que ilustra o post (Fox News) é daquela época.

É óbvio que o apoio de Edwards a um dos candidatos pode ser decisivo. Imediatamente depois do anúncio da sua saída, tanto Clinton como Obama atualizaram seus websites com fotos de Edwards na página principal e agradecimentos a ele. Veículos de mídia que ignoraram e marginalizaram a mensagem de Edwards passaram a destacá-lo. Os funerais sempre foram ocasiões para elogios hipócritas.

São 6 da manhã na Costa Leste e a expectativa no campo de Obama é grande. Depois do discurso em New Orleans, Edwards falou com os dois candidatos restantes e arrancou deles a promessa de que o combate à pobreza seria central em suas campanhas e em seus eventuais mandatos. Edwards telefonou para Obama, mas a conversa com Clinton foi iniciativa desta última. Significará algo?

O movimento nas pesquisas é claro: Obama vem encurtando a distância que o separa de Clinton na maioria dos estados da Super Terça-Feira. Em Connecticut eles já estão empatados. A diferença na importantíssima Califórnia já diminuiu sensivelmente e agora há empate técnico, inimaginável há algumas semanas. Obama mantém a liderança na Geórgia. Em Massachussetts, a diferença de Clinton para Obama caiu de 37 para 6 pontos -- o endosso de Caroline e Ted Kennedy obviamente tem muito a ver com isso. O cálculo da Rassmussen Markets ainda é de que Clinton tem 62% de chances de ser a escolhida, enquanto Obama teria 38%. Mas o apoio de Edwards pode decidir a parada.

PS: O New York Times publica hoje uma longa matéria sobre a relação dos Clinton com mafiosos do Casaquistão.

PS 2: Também no campo republicano sobraram só dois: Mitt Romney, o ultramilionário ex-governador de Massachussetts e o senador do Arizona, John McCain, muito forte entre o eleitorado de centro mas não exatamente bem visto pela ala mais conservadora do partido. Depois da vitória na Flórida, McCain é o claro favorito. A mitologia do 11 de setembro não foi suficiente para fazer decolar a candidatura de Rudy Giuliani, que já saiu e apoiou McCain.

PS 3: Na terça-feira à noite e madrugada adentro, o Biscoito fará uma cobertura em tempo real dos resultados de 22 primárias democratas. Depois de voltar do baile de carnaval, se ligue aqui no blog, com um dedo na F5.



  Escrito por Idelber às 08:08 | link para este post | Comentários (27)



quarta-feira, 30 de janeiro 2008

Como a Veja virou o desastre que é

Uma seqüência de reportagens de Luis Nassif começa a demonstrar, passo a passo, como a Veja virou a merda que é.



  Escrito por Idelber às 11:40 | link para este post | Comentários (36)




Preparando o papo sobre Suassuna

suss.jpgAqui em Tulane, os doutorandos em literatura latino-americana andam mergulhados no mundo armorial. Tive uma grande surpresa na primeira aula sobre a Pedra do Reino, na quinta-feira passada. Ninguém achou a obra de Ariano Suassuna enfadonha ou longa demais. Passamos boa parte das duas horas e meia do seminário dando risadas com esse incrível delírio monárquico, revolucionário, sertanejo e medieval. Se você está em dúvida sobre se participa ou não do nosso papo sobre o romance no dia 18 de fevereiro, acredite: a obra vale a pena. Ainda dá tempo de começar a ler.

Há tanto material no romance de Suassuna que pensei em deixar também algumas possíveis pautas de leitura para orientar a conversa.

1.Sei que tenho alguns leitores em João Pessoa e em Campina Grande. Não me consta que tenha nenhum na fronteira sertaneja entre a Paraíba e Pernambuco. Mas quem sabe não operamos o milagre de ter algum depoimento sobre a região em que transcorre a história? Isso não é essencial para a compreensão do livro, óbvio. Mas seria divertido, mesmo porque, até onde pude averiguar, as referências são rigorosas e exatas. Portanto, paraibanos, apresentem-se!

2.Também são impecáveis, até onde confirmei, as referências intertextuais presentes na obra. São dezenas de citações de livros, revistas, folhetos, artigos. Por exemplo, realmente existiu um tal Antônio Attico de Souza e Leite, que deveras escreveu uma Memória sobre a Pedra Bonita ou Reino Encantado na Comarca de Vila Bela, Província de Pernambuco, em 1874, tal como referida no Folheto V, no começo do livro. Qualquer leitor que queira nos ajudar a rastrear parte dessa imensidão de referências terá a gratidão eterna do blog (e de futuras gerações de vestibulandos...).

3.Um dos eixos do livro é a persistência de uma cultura monárquica, messiânica e pré-moderna no sertão brasileiro. Quem quiser rastrear algo dessa história para a discussão também contribuirá muito.

4.A mescla de gêneros é um elemento chave da obra, como se nota na presença de uma série de “romances” em redondilhas maiores (versos de sete sílabas), forma tradicional na poesia popular, mas não só nela. Para quem se interessa pelo problema dos gêneros, o livro é um prato cheio. Poesia, teatro, epopéia, farsa, comédia, romance de cavalaria e uma longa lista de etecéteras: há de tudo.

5.O narrador-protagonista conta a história em 1938, da prisão, e seu relato regressa até o século XIX. O pano de fundo imediato dos eventos vividos por ele é a Revolução de 1930. Quem conhece bem a história do governo de João Pessoa terá muito a contribuir.

6. Eu vi a minisérie da Globo e, apesar de achá-la bem feita, não consegui me interessar muito. O humor foi para as cucuias, não é? Mas quem quiser trazê-la à baila, que fique à vontade.

Claro que é possível desfrutar o livro sem se preocupar com nada disso. Estas são só algumas idéias para ir esquentando os tamborins. Enquanto você se prepara, delicie-se com esse incrível vídeo de Ariano Suassuna (valeu, Serbão) e dê uma conferida nessa entrevista com ele, de onde tirei a foto que ilustra o post.

E aí, como vai a leitura? Temos sobreviventes?



  Escrito por Idelber às 04:20 | link para este post | Comentários (43)



segunda-feira, 28 de janeiro 2008

Por que Obama goleou na Carolina do Sul

Nas primárias da Carolina do Sul, de novo as pesquisas estavam erradas. Elas apontavam uma vitória de Obama por 8 a 12 pontos e o que se viu foi uma lavada: Obama 55.5% x Hillary 26.5%, com Edwards conquistando só 17.5% dos votos no seu estado natal, onde ele havia vencido as primárias contra John Kerry em 2004. Obama venceu em 44 dos 46 condados. Apresento abaixo um pouco da demografia do voto – sempre importante nos EUA -- e logo depois uma rápida análise.

Nas primárias democratas da Carolina do Sul este ano, os negros representavam 55% dos eleitores. Destes, 78% votaram em Obama, 19% em Clinton, 2% em Edwards, sem diferenças significativas entre homens e mulheres. Entre os brancos, 40% foram para Edwards, 36% para Clinton e 24% para Obama. Mas Obama teve metade dos eleitores brancos com menos de 30 anos de idade. Recebeu o apoio de nada menos que 75% de todos os eleitores nascidos depois da posse de Jimmy Carter.

Hillary Clinton fez campanha pesada na Carolina do Sul e só programou a saída rápida do estado – rumo ao Tennessee – quando já estava clara a derrota. Na manhã da votação, sua equipe chegou a enviar um release dizendo que esperavam uma derrota por 12%, dando uma margem generosa que lhes permitiria, depois, pintar com cores positivas o resultado, no caso de uma diferença menor. A margem acabou sendo mais que o dobro, 27%. Foi a primeira vez nesta temporada que um candidato venceu com mais de 50% dos votos. Também foi a primeira vez que um candidato dobrou os votos do segundo colocado.

Como a demografia destas primárias não foi muito diferente da que se esperava, a explicação para tamanha lavada é clara: os eleitores recusaram o tipo de campanha que Hillary Clinton resolveu fazer, com base em mentiras, distorções, divisão racial e ataques abaixo da cintura. O que se viu na Carolina do Sul ao longo da semana passada não fica nada a dever aos momentos mais malignos de Karl Rove ou, para quem não localiza essa referência, ao feito por Collor em 1989.

Todos os links que se seguem remetem a afirmações feitas pela própria Hillary, pelo seu marido ou por líderes de sua equipe: Houve referências ao uso de drogas feito por Obama na adolescência, coisa que ele mesmo reconhece no seu livro. Houve chamadas telefônicas enfatizando o segundo nome de Obama, Hussein. Houve um spam que falsamente afirmava que Obama era muçulmano. Houve manipulação de uma afirmação absolutamente banal de Obama, de que os Republicanos haviam sido o “partido das idéias e das transformações” nos últimos tempos, o que é a pura verdade -- a manipulação tentava sugerir que ele considerava essas idéias e transformações algo positivo, coisa que ele nunca disse. Houve sutis tentativas de confinar Obama à condição de “candidato negro”, num ignóbil uso das tensões raciais tão americanas e, acima de tudo, tão sulistas. Houve mais racismo, na sugestão de que latinos não votariam num negro. Houve até mesmo uma tentativa de jogar com a ignorância dos eleitores sobre um procedimento absolutamente normal em várias casas legislativas americanas – votar “presente” ao invés de “sim” como estratégia de aprovação de uma lei – para sugerir que Obama não defende o direito ao aborto. Tudo isso para não falar na embaraçosa armação envolvendo um cartaz sexista (Iron my shirt) exibido por um radialista num comício de Hillary, "levantando a bola" para que ela falasse sobre machismo. O radialista levava adesivo de Hillary no carro e foi visto conversando com lideranças da campanha antes do incidente que, aliás, ocorreu uns poucos instantes depois de que Hillary pedisse mais luz na platéia. Feio demais.

Os eleitores da Carolina do Sul rejeitaram essa lama. Mas ainda é cedo para dizer que o favoritismo de Clinton foi abalado. Edwards já não tem chances, mas cumprirá um papel decisivo, dependendo de que atitude tome e como negocie seu considerável número de delegados. Estamos a 8 dias da Super Terça-Feira, em que 22 estados realizam primárias. Em pesquisas feitas dias atrás, Clinton liderava em quase todos eles (a exceção é Illinois, estado natal de Obama). O efeito do resultado contundente da Carolina do Sul já se fez sentir na nova pesquisa de Colorado, onde Obama virou o jogo. A Califórnia e Nova York, evidentemente, são chave, dada a quantidade de delegados que levam à convenção. Neste domingo, Obama recebeu um comovente endosso da Caroline Kennedy, filha de JFK. Seu tio Ted Kennedy, neutro até agora, deve anunciar seu apoio a Obama nas próximas horas.

Duas coisas, nesta campanha, são certas: os Democratas preferimos enfrentar qualquer candidato republicano que não seja John McCain. Os Republicanos adorariam enfrentar Hillary Clinton, que tem taxa de rejeição de 52% no começo da brincadeira e que conseguiu alienar tanta gente em seu próprio partido que milhares de ativistas já declararam que nela não votam de jeito nenhum.

PS 1: O Left Coaster, um blog que já foi bom, se pergunta (ver caixa de comentários): o que Hillary fez para ser tão odiada? Às vezes eu não sei se é ingenuidade ou se é má fé.

PS 2: A super terça-feira cai no carnaval e vocês aí no Brasil estão 4 horas na minha frente. Considerando isso, será que vale a pena fazer uma cobertura em tempo real, com o post sendo atualizado a cada 10 ou 15 minutos com informações novas, ou deixo para publicar um texto na madrugada, como de costume? Os primeiros números reais só começarão a sair às 23 h de Brasília.



  Escrito por Idelber às 03:25 | link para este post | Comentários (35)



sábado, 26 de janeiro 2008

Galo aos sábados: A mística da massa

este texto é antigo e conhecido de muitos. Circulou pela internet como spam e com falsas atribuições de autoria. Publico-o aqui no blog pela primeira vez, como homenagem à torcida do Galo no ano do centenário.

Torcidas, as haverá mais numerosas, mas nenhum séquito futebolístico brasileiro se compara ao do Clube Atlético Mineiro em mística apaixonada, em anedótario heróico, em poesia acumulada ao longo dos anos. "A Massa", como é simplesmente conhecida em Minas Gerais, compartilha com a torcida corinthiana ("A Fiel") a honra de deixar-se conhecer com um substantivo ou adjetivo comum transformado em nome próprio, inconfundível. A Fiel, A Massa: poucas outras torcidas terão realizado tal operação de mutação de um nome comum em nome próprio.

Muito distintas são, no entanto, as torcidas dos alvi-negros paulistano e belo-horizontino. Quem já vestiu a camisa do time do Parque de São Jorge sabe que a Fiel é fiel em sua paixão, não em seu apoio. Na derrota, a Fiel é implacável; não desaparece, como a torcida do Cruzeiro. Está sempre lá. Mas é capaz de crucificar com um pequeno manifestar-se de sua raiva. Na vitória, cobra cada vez mais, e reinstala aí sua insatisfação, cuja raiz quiçá esteja no mal-resolvido trauma dos 23 anos sem título, e do grande pesadelo de duas décadas chamado Pelé. A Fiel é fiel, e sempre o foi, mas sua fidelidade se nutre de um descompasso entre a alma do torcedor e a alma do time.

No caso do atleticano, a alma do time não é senão a alma da torcida. Toda a mística da camisa, das vitórias sobre times tecnicamente superiores (e também das derrotas trágicas e traumáticas), emana da épica, das legendárias histórias que nutre sua apaixonada torcida: nem o Urubu, nem o Porco, nem o Peixe, nem a Raposa, nem o Leão, nem nenhum animal mascote se confunde com o nome do time, com sua identidade, com sua alma mesma, como o Galo com o Atlético Mineiro. E Galo é o nome da torcida (GA-LO), bíssilabo cantável e entoável como grito de guerra que ela eternizou ao encarnar em si o espírito do animal. Nenhum outro time é conhecido por tantas vitórias improváveis só conquistadas porque a Massa empurrou. Quem possui uma torcida como esta, é praticamente impossível de ser derrotado em casa (Telê Santana).

massa1.jpg

Pelos idos de 69 ou 70, o timaço do Cruzeiro já tetra ou pentacampeão entrava em campo mais uma vez e parecia que de novo ia humilhar o Atlético, que já amargava o quinto aniversário do Mineirão sem nenhum título estadual. A superioridade técnica de Tostão, Dirceu Lopes, Natal, Raul, Piazza e cia. era simplesmente incontestável. Mesmo naquele clássico durante vacas tão magras, a massa atleticana era, como sempre foi, maioria no Mineirão. Impotente, ela viu Dirceu Lopes abrir o placar e o time do Cruzeiro massacrar o Galo durante 45 minutos. No intervalo, a massa que cantava o hino do Atlético foi inflamada por um recado de Dadá Maravilha pelo rádio: Carro não anda sem combustível. A fanática multidão encheu-se de brios, fez barulho como nunca, entoou o grito de guerra como nunca, encurralou sonoramente a torcida cruzeirense, e o time do Atlético - infinitamente inferior, liderado pelo artilheiro Dario - virou o placar para 2 x 1 e abriu caminho para a reconquista da hegemonia em Minas, selada com o título estadual de 70 e o Brasileiro de 71. Nenhum dos jogadores atleticanos presentes nessa vitória jamais se esqueceu da energia que emanava das arquibancadas, e que literalmente ganhou o jogo.

Nenhuma testemunha ocular de alguma das façanhas da torcida do Atlético deixou de reconhecer que não há torcida igual. O Galo é o primeiro time brasileiro a alcançar a marca de 10 milhões de torcedores presentes no estádio durante o Brasileirão. Foi campeão de público em dez edições do Campeonato (1971, 1977, 1990, 1991, 1994, 1995, 1996, 1997, 1999, 2001), além de liderar todas as divisões do futebol brasileiro em 2006, com média de 31.622 torcedores por jogo no ano em que a equipe disputou a Série B.

massa2.jpg

Também as derrotas contribuíram para a mística e paixão atleticanas: como em 1998, quando o visitante Corinthians trouxe ao Mineirão sua máquina que se preparava para ser bicampeã brasileira e campeã mundial. O Galo se recuperava no Campeonato Brasileiro, vinha de uma vitória sobre o Grêmio no Olímpico e a Massa mais uma vez lotou o estádio. Com seu toque de bola, o Corinthians envolveu o time atleticano e no meio do segundo tempo já aplicava impiedosos 5 x 0, enquanto tocava a bola, colocava os atleticanos na roda e esperava o fim do jogo. Vendo seu time humilhado por um adversário superior dentro de seu próprio terreiro, a massa se levantou e cantou durante mais de 10 minutos o belo hino, mais alto e com mais amor que nunca. Nenhum jogador presente se esqueceu e um ano depois o Galo devolveria ao Corinthians os 5 x 1 do Mineirão, com sonoros 4x0 no Maracanã.

Só a tragédia de 1950 se compara ao silêncio sepulcral que envolveu o Mineirão em 05 de março de 1978, quando a grande equipe atleticana de Cerezo, Reinaldo, Paulo Isidoro, João Leite e Marcelo perdeu nos pênaltis o título que todos já consideravam seu, incluindo-se, às vezes parece, os próprios adversários são-paulinos. O time do Atlético jogou sem Reinaldo, suspenso num julgamento criminosa e maliciosamente marcado para a última semana do campeonato; foi empurrado pela torcida, mostrou-se muito superior ao São Paulo (como havia feito durante todo o campeonato em que acumulou 17 vitórias, 4 empates e nenhuma derrota), encurralou o adversário durante 120 minutos, mas o gol não saiu. O título foi perdido nos pênaltis, mesmo depois de duas grandes defesas de João Leite em cobranças são-paulinas. Ângelo, um dos craques do jovem time atleticano, deixou a partida quebrado por Neca e pisoteado por Chicão. Nunca mais seria o mesmo. O Galo, base da seleção brasileira de Osvaldo Brandão do ano anterior, saiu de campo vice-campeão invicto, 10 pontos à frente do campeão, com os 11 jogadores abraçados. A Massa recebia aí sua grande tarefa dos próximos anos: realizar o luto pelo enorme trauma. Começou a tarefa no domingo seguinte às 10 da manhã, levando legiões de bandeiras para uma amarga partida contra o Bahia no Mineirão. Nenhuma outra derrota de um favorito no Brasileirão se revestiria de tanta mística apaixonada. A partir daí a Massa acumularia 10 títulos mineiros em 12 anos. Veria o Galo vencer uma legião de torneios europeus (Paris, Amsterdã, Vigo, Bilbao, Ramón de Carranza) e realizar uma seqüência de campanhas sensacionais no Brasileirão, interrompidas na final ou semifinal em jogos fatídicos.

A magia atleticana se encarnaria no seu torcedor mais famoso, Sempre, cujo nome real não se conhece, tal é força do apelido. Durante décadas, Sempre ocupou as arquibancadas do Independência e do Mineirão, com sua bandeira e seus ditos legendários. Nunca deixou de comparecer e nunca vaiou o time, embora chorasse nas derrotas. Foi dos primeiros a entoar o hino composto por Vicente Motta em 1969 e depois aprendido por milhões em todo o Brasil. Abria e fechava o clube diariamente. Participou de epopéias memoráveis da massa atleticana, como num jogo dos anos 50, depois do qual a multidão carregou no colo o artilheiro Ubaldo, de sunga, ao longo dos 5,5 kilômetros que separam o estádio Independência da Praça Sete; como quando 20.000 atleticanos invadiram o Maracanã e empurraram o time à conquista do Primeiro Campeonato Brasileiro, em 1971, sobre o Botafogo de Jairzinho.

O Furacão de 70 sentiu seu peso de novo cinco anos mais tarde, na decisão do Mineiro de 76 - quando a Massa, mesmo tendo comemorado só 1 dos 11 campeonatos mineiros anteriores, tomou conta do Mineirão para empurrar uma turma de meninos de 18-21 anos (de nomes Reinaldo, Cerezo, Paulo Isidoro, Danival, Marcelo) a vitórias contundentes sobre o campeão da Libertadores. Estava aberto o caminho para o hexacampeonato de 1978-83.

Se houver uma camisa alvi-negra pendurada no varal num dia de tempestade, o atleticano torce contra o vento. O achado do cronista Roberto Drummond resume a mitologia do Galo: contra fenômenos naturais, contra todas as possibilidades, contra forças maiores, a torcida atleticana passa por radical metamorfose e se supera. Superou-se tantas vezes que já não duvida de nada, e cada superação reforça ainda mais a mística, como uma bola de neve da paixão futebolística. Nenhum atleticano hesitaria em apostar na capacidade da Massa de transformar o impossível em possível a qualquer momento, de fazer parar aquela tempestade que açoita o pavilhão alvi-negro deixado solitário no varal.

Não surpreende, então, o sucesso que tiveram os jogadores uruguaios que atuaram no Atlético Mineiro, do grande Mazurkiewcz ao maior lateral-esquerdo da história do clube, Cincunegui. Se há uma mística de garra e amor à camisa que se compara à atleticana, é a da celeste, não mineira, mas uruguaia. Só à seleção uruguaia a pura paixão por um nome e um símbolo levou a tantas vitórias inacreditáveis, improváveis, espíritas, puramente heróicas. Em 1966, as duas camisas legendárias se encontraram e o Galo derrotou o Uruguai duas vezes (26/04/66 - Atlético 3 x 2 Uruguai, 18/05/66 - Atlético 1 x 0 Uruguai).

Ao contrário das torcidas conhecidas por sua origem étnica (Palmeiras, Cruzeiro, Vasco), por sua origem social (Fluminense, Grêmio, São Paulo), ou por seu crescimento a partir de uma grande fase do time (Santos, Cruzeiro), qualquer menção da torcida do Atlético Mineiro evoca, invariavelmente, a substância mesma que constitui o torcer. O amor ao time na vitória e na derrota, o apoio incondicional, a garra, a crença de que sempre é possível virar um resultado, o hino entoado unissonamente: a legião fanática que ama o Galo acima de tudo sabe que ser atleticano é unir-se num estado de espírito, compartilhar uma memória e fazer da esperança uma permanente iminência.

A massa atleticana é a prova maior de que, mesmo em época de profissionalização total do futebol, do negócio futebol, para o povo brasileiro este é acima de tudo paixão por uma cor, um nome, um símbolo, a memória de um instante que pode ser um gol, um campeonato, um abraço ou um beijo. Galo é o nome que mais radical e verdadeiramente expressa, para tantos milhões de brasileiros, o inexplicável dessa paixão.

PS: O blog deseja boa sorte aos amigos Alex Castro e Lucia Malla em suas novas casas.



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quarta-feira, 23 de janeiro 2008

A violência, entre a biologia e a sociologia

Tenho sensações contraditórias com o qüiproquó que se armou acerca da pesquisa do neurocientista Jaderson da Costa, da PUC-RS e do geneticista Renato Zamora Flores, da UFRGS. O projeto consiste em determinar os fundamentos da violência e da agressividade através da análise do cerébro de 50 adolescentes homicidas de Porto Alegre. É o tipo de pesquisa que provoca compreensíveis suspeitas em todos nós, das ciências humanas: a aplicação de conceitos biológicos na explicação de fenômenos sociais tem uma triste história nos séculos XIX e XX, vinculada a atrocidades bem conhecidas. A pesquisa dos Profs. Flores e Costa provocou um irado abaixo-assinado de protesto, com signatários de várias disciplinas, especialmente da psicologia e do direito.

Foi o suficiente para que Reinaldinho Azevedo gritasse censura!, hipocritamente esquecendo-se de que foi ele mesmo quem organizou uma turba de fanáticos semi-analfabetos para linchar o trabalho de acadêmicas paulistas que desenvolviam pesquisa na área de redução de danos no consumo de ecstasy. A hipocrisia de Reinaldo Azevedo não consegue nem mesmo ser inteligente. Segundo ele, os signatários do protesto agem pelo medo de que se encontre algum componente neurobiológico no comportamento homicida, que ele supõe corroborar sua tese de que bandidos “escolhem” ser bandidos. Na verdade, a hipótese dos cientistas gaúchos vai exatamente na contra-mão desse pseudo-individualismo, ao (tentar) relativizar neurofisiologicamente a noção de escolha. É o próprio Prof. Flores quem diz: "Nessa questão o livre arbítrio está indo pelo ralo: as pessoas não escolhem ser violentas", argumento que ele usa, inclusive, para defender uma reavaliação da tradição jurídica sobre punição. Tudo isso, o Hermenauta já demonstrou no melhor post sobre o assunto.

Dito isso, eu acredito que o abaixo-assinado foi um erro. Que os seus 68 signatários escrevessem 68 textos individuais descendo o sarrafo nas hipóteses de trabalho de Costa e Flores (de preferência com argumentos melhores e mais elegantemente escritos que os encontrados no protesto), e eu os apoiaria, feliz da vida, aqui no blog. Mas abaixo-assinado contra uma hipótese de pesquisa, por mais suspeita que ela seja? Não dá. Um abaixo-assinado pela libertação de um refém, pela revogação de uma sentença judicial, pela realização de um plebiscito ou contra uma distorção midiática é absolutamente legítimo. Mas não se reúnem iguais para fazer um abaixo-assinado contra o trabalho de um igual, muito especialmente na academia. Por mais preconceituoso ou racista que possa ser o trabalho.

Evidentemente, eu não entendo patavinas de neurofisiologia e, ao contrário dos funcionários da Veja, não finjo entender do que não entendo. Mas acredito ter algo a dizer sobre 1) retórica; 2) lutas sociais em torno de como se legitima um saber. É sobre isso que proponho que conversemos aqui, porque o caso dá muito o que pensar (claro, quem entender de biologia, intervenha, melhor ainda). Lendo a retórica do Prof. Zamora, fica bem difícil não perceber o tremendo preconceito que se imiscui na sua ciência. Ele diz:

Mas se eu abrir um laboratório dizendo vendo testes de predisposição para você evitar do seu filho ter um risco aumentado de ser alcoolista ou homossexual, você não se interessaria? Mais cedo ou mais tarde vai haver um teste desses.

Ora, ora, evitar que seu filho seja homossexual? O que é isso? Vai justificar isso com qual ciência? Qual ciência legitima a comparação da homossexualidade com o alcoolismo? Há, sim, razões ética e cientificamente legítimas para se pesquisar se a opção sexual é ou não genética. Já acompanhei um debate fascinante em que ativistas gays americanos argumentavam que, caso se comprovasse alguma base biológica para a opção sexual orientação sexual, a descoberta poderia ser uma arma contra o preconceito – como as descobertas genuinamente científicas costumam ser, aliás. Mas no caso dessa retórica eivada de preconceito do Prof. Zamora, a afirmação de que os grupos gays daqui de Porto Alegre também acompanham nosso trabalho e nunca protestaram me soa a 1) engano; ou 2) mentira. Pesquisando um pouco mais sobre seu colega, o Prof. Flores, descubro que é ele quem defende que há diferenças de aptidão entre os sexos em todas as atividades muito competitivas. Eu adoraria que algum cientista me explicasse como se isola esta variável no interior de uma sociedade onde a mulher sempre teve uma posição subordinada.

No entanto, como dito acima, acredito que o abaixo-assinado foi um erro. Um abaixo-assinado contra uma pesquisa ainda não realizada só entrega argumentos de bandeja nas mãos dos Reinaldinhos da vida. Em segundo lugar, lamento que não haja um profissional de Letras entre os signatários, porque o texto está, pura e simplesmente, muito mal escrito. Numa frase como

Privilegiar aspectos biológicos para a compreensão dos atos infracionais dos adolescentes em detrimento de análises que levem em conta os jogos de poder-saber que se constituem na complexa realidade brasileira e que provocam tais fenômenos, é ratificar sob o agasalho da ciência que os adolescentes são o princípio, o meio e o fim do problema, identificando-os seja como "inimigo interno" seja como "perigo biológico", desconhecendo toda a luta pelos direitos das crianças e dos adolescentes, que culminou na aprovação da legislação em vigor - o Estatuto da Criança e do Adolescente.

estão faltando, pelo menos, dois pontos finais. Não se trata de picuinha. Se você quer intervir socialmente com o seu saber – e num abaixo-assinado de acadêmicos se trata sempre disso –, seja claro no que diz. Não misture alhos e bugalhos. Se a pesquisa viola o Estatuto da Criança e do Adolescente, explique o porquê. Trata-se de política, e não se faz política efetiva escrevendo assim. A frase pensar o fenômeno da violência no Brasil de hoje é construir um pensamento complexo, que leve em consideração as Redes que são cada vez mais fragmentadas, o medo do futuro cada vez mais concreto e a ausência de instituições que de fato construam alianças com as populações mais excluídas me dá a impressão de não ter sido lida antes de ser impressa. Pensar a violência é construir um pensamento? Que leve em consideração as Redes? Quais redes? A oração que inicia o parágrafo seguinte -- Enquanto a Universidade se colocar como um ente externo que apenas fragmenta, analisa e estuda este real, sem entender e analisar suas reais implicações na produção desta realidade -- me provoca calafrios. Será que não havia mais um cantinho para repetir a palavra real pela quinta vez? Reitero que não é implicância nem picuinha. Ao assinar um texto léxica, sintática e conceitualmente tão pobre, entregou-se a razão ao outro, mesmo que ele não a tivesse no começo da conversa. Se são 68 contra 1, fica mais feio ainda.

Por mais preconceituoso que possa ser o Prof. Costa, não dá para discordar quando ele diz que o foro para resolver essas coisas não é esse bate-boca com abaixo-assinado. O foro é a academia, a discussão acadêmica. O abaixo-assinado entrega de bandeja a posição de pesquisador genuíno a professores que podem, muito bem, estar trabalhando com motivos pouco confessáveis (lembremos que um dos alunos de mestrado no grupo é o secretário da Saúde do Estado, Osmar Terra, deputado federal licenciado pelo PMDB).

Os responsáveis pelo projeto afirmam que seus estudos não pretendem reduzir tudo ao neurofisiológico e que as variáveis “psicológicas e sociais” também serão levadas em conta. Sendo assim, seria coerente da parte do Prof. Flores, antes de acusar os psicólogos sociais que, de modo geral, desconhecem o conjunto de áreas do conhecimento denominadas de neurociências e que incluem, desde a bioquímica e a genética, até a neurologia e a psiquiatria , demonstrar um pouquinho de conhecimento sobre a vastíssima bibliografia sociológica e filosófica sobre a violência, boa parte da qual, talvez, levante algumas dúvidas sobre suas hipóteses. Essa bibliografia – indispensável para quem queira estudar as “causas” da violência, por mais que pretenda localizá-las no cérebro – é arqui-conhecida e já foi compilada até mesmo em livros ruins sobre o tema.



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terça-feira, 22 de janeiro 2008

Hoje, só jabá

De uma unha quebrada à morte de uma pessoa, da perda de um guarda-chuva à perda de um passaporte, parece-me que os enunciados "não era pra ser" e "podia ser pior" dividem a humanidade em dois grandes estilos de consolação. Diga-se logo de cara que, na morte, sobrevém uma terceira corrente consolatória: a dos que dizem que o morto "descansou". Mas, como até para descansar é preciso estar vivo, descartaremos qualquer análise mais profunda desta terceira via, por consistir ela na escolha preferencial daqueles que não têm a mais remota idéia do que dizer nas situações em que nada há a ser dito - saindo-se, então, com afirmações rigorosamente desprovidas de qualquer sentido. "O morto descansou" é afirmação de logicidade comparável a "o morto foi à praia e tomou um sorvete".

Tem mais lá, nesse blog absurdamente bom.


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é um triste destino o dos livros, o de só serem bonitos e perfeitos se não são usados.

Porque quem é rei não perde a majestade.

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Tem certos dias, quando passo no subúrbio, que vejo a gurizada jogando bola no barro vermelho. Estou eu lá dentro do ônibus, voltando esgualepado e com toda a mortalidade do mundo nas costas, e uns oito ou dez malandros estão correndo atrás de uma bola, já quase escuro. E tudo que eu mais queria era descer do ônibus e me infiltrar no meio do jogo, fingindo que não me envergonhava dos muitos centímetros e quinze anos a mais que meus companheiros de time e adversários

Tocante e bem escrito, no melhor blog do futebol do Brasil (junto com o Balípodo, claro).

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Estou enganado ou Roberto Requião andou incomodando alguns poderosos e agora querem calá-lo? (via Blog do Mello)

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E nada mais justo que no dia em que eu confirmei minha viagem para Porto Alegre (sim, esta bodega transmitirá dos pampas durante alguns dias em março), Milton Ribeiro, meu generoso anfitrião, disserte sobre Roberto Bolaño. Porque eu e Milton nos conhecemos virtualmente num dia já longínquo em que ele escreveu sobre Bolaño.



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segunda-feira, 21 de janeiro 2008

A reunião democrata em Nevada

No sábado, o Partido Democrata realizou o seu caucus em Nevada. O caucus é um tipo diferente de primária, na qual o voto não é secreto. Reúnem-se os eleitores em vários distritos e se formam grupos de apoio aos candidatos (reunião física mesmo: quem é Hillary pra cá, quem é Obama pra lá etc.). Depois de uma contagem inicial, os candidatos com menos de 15% são declarados “inviáveis” e seus apoiadores têm a possibilidade de escolher outro candidato ou largar a brincadeira. Enquanto isso, os líderes de cada grupo (chamados “capitães”) se dedicam a tentar levar os eleitores indecisos ou de candidatos inviáveis para seu grupo. Uma segunda contagem é feita. Define-se proporcionalmente o número de delegados daquele distrito. Como no caso da Wikipedia, a idéia é linda – não falta quem idealize isso como paradigma da democracia. Na prática, claro, a coisa é muito mais feia. E ficou bem feia em Nevada.

Em primeiro lugar, os números: mais de 115.000 eleitores participaram de reuniões democratas em Nevada. 2 de cada 3 eleitores do estado que participaram de um caucus escolheram o Partido Democrata. Não se trata exatamente de um estado azul: os dois últimos governadores são Republicanos e Bush venceu lá em 2000 e em 2004. Os números de sábado confirmam que os Democratas mais uma vez têm a faca e o queijo nas mãos. Concorrendo contra o desastre fiscal, político, diplomático e bélico de um dos governos mais impopulares da história, eles só não vencem se não quiserem. Isso não quer dizer que vencerão. Sua capacidade para produzir desastres é infinita. Posso estar errado, mas minha sensação é que vem mais um por aí.

Hillary Clinton venceu com 51%, Barack Obama teve 45% e John Edwards teve 4%. Foi uma derrota dura para os apoiadores do populista Edwards, que esperava ter algo em torno de 15 a 20%. Com a vitória, Hillary terá mais delegados de Nevada, correto? Errado. Devido à ausência de proporcionalidade na representação, no momento a estimativa é de que Obama tenha levado 13 delegados de Nevada, Hillary 12 (os votos de Hillary são fortemente concentrados em Clark County, onde fica Las Vegas; os de Obama são mais distribuídos). Isso significa que Nevada registrará, na convenção nacional, essa contagem de 13 x 12, correto? Não necessariamente. Os delegados serão definidos na convenção dos condados, em 19 de abril, e suas preferências podem mudar, num processo fortemente influenciado pela burocracia partidária.

Mas a história desse caucus, sem dúvida, foram as mais de 200 denúncias de fraudes e supressão de eleitores registradas contra a campanha de Hillary. Logo depois que o sindicato dos trabalhadores culinários (importante na região) declarou apoio a Obama, a Nevada State Education Association (com apoio explícito da campanha de Hillary, especialmente de Bill Clinton) entrou com uma ação judicial contra a abertura de caucus na região dos cassinos, o que facilitaria a participação dos trabalhadores de lá. A ação fracassou, mas ficou o gosto da tentativa de supressão de eleitores contrários, registrado por analistas de credibilidade. Nos próprios caucus, e limitando-me a linkar testemunhas oculares, algumas das irregularidades incluíram: fechamento de portas antes da hora, desaparição de cédulas, contagens fraudulentas e até deficientes físicos sendo arrastados contra sua vontade para o campo de apoiadores de Hillary (quanto à triste participação de um ex-presidente americano numa ação judicial que explicitamente tentava suprimir votos, até Edward Kennedy, neutro na disputa, chamou a atenção de Bill Clinton). Além disso, foram feitos milhares de telefonemas eletrônicos em Nevada -- não se sabe por ordem de quem -- que repetiam várias vezes o raramente usado segundo nome de Obama, Hussein.

Cresce em boa parte da base do Partido Democrata o sentimento – visível, por exemplo, em inúmeros diários do Daily Kos – de que caso aconteça o que se anuncia, ou seja, a vitória da candidata da máquina partidária, muitos eleitores democratas ficarão em casa ou optarão por um terceiro partido insignificante. Já ouvi de vários e várias, inclusive, a preferência por John McCain, caso ele seja o escolhido republicano. Alguns vêem nisso só uma conspiração da mídia para dividir os democratas, mas os indícios em contrário são bem conclusivos. Alguns outros dizem que tudo se cicatrizará depois da convenção. Pode ser, mas este é meu quinto engajamento em campanhas presidenciais americanas, e nunca vi tantos ativistas da base democrata -- muitos deles neutros na disputa ou apoiadores de candidatos menores -- tão enraivecidos com as táticas que estão sendo utilizadas.

PS: O homem voltou. Sim, voltou o MESTRE do CAPSLOCK



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sábado, 19 de janeiro 2008

Galo aos sábados

kafung.jpgReúna atleticanos de quatro ou cinco gerações diferentes. Se quiser lançar uma bomba incendiária capaz de gerar polêmica por vários dias, é só fazer uma singela pergunta: quem foi o maior goleiro do Galo em todos os tempos?

Se tivéssemos que fixar uma data para o início da mística dos goleiros do Atlético, seria o 19 de janeiro de 1935. A manchete do Estado de Minas anunciava: “Kafunga, novo keeper para o Athlético”. O niteroiense Olavo Leite Bastos havia protagonizado uma experiência insólita. Foi o goleiro da Seleção Fluminense massacrada por 10 x 2 pela Seleção Mineira em 1933 e, mesmo assim, havia sido eleito o melhor em campo. Na chegada a Belo Horizonte, Kafunga diria: O score me acabrunhou tanto que tentei abandonar o futebol. Depois, esqueci a derrota, ou por outra, a ‘lavagem’, e recomecei a jogar. Mas o que não pude esquecer foram aquelles tiros de Said, dentro da área… Naquella época, não podia eu prever que viria dar com os costados em Bello Horizonte e, muito menos, que jogaria no team do homem que me fez passar por muitos sustos e dissabores.

Ele fecharia o gol do Galo de 1935 até 1954. É o recordista em número de jogos realizados com o manto alvi-negro: foram 714 partidas. Dos 39 títulos mineiros conquistados pelo Atlético, nada menos que 12 contaram com Kafunga no gol. Foi ainda campeão dos campeões (do Sudeste) de 1936 e campeão do “gelo” na Europa em 1950. Ainda é possível encontrar, no Mercado Central ou em Lourdes, atleticanos que dão gargalhadas ante a menção dos nomes de Taffarel ou João Leite. Goleiro era Kafunga, dizem, convictos. Além do legado de jogador, deixou imensas contribuições à língua portuguesa: cabeça de bagre, não tem coré-coré, gol barra limpa, despingolar (verbo que Kafunga adorava usar para se referir às arrancadas de Paulo Isidoro) e vapt-vupt foram algumas de suas criações. Mil novecentos e Kafunga é até hoje uma expressão que circula em Minas Gerais para designar um passado longínquo. Fez inesquecível carreira como comentarista de rádio e televisão. Em seu velório, em 1991, atleticanos e cruzeirenses choravam juntos. Nós nos acostumáramos a imaginar que Kafunga não morreria nunca.

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Dali em diante, raríssimas vezes não nos sentimos seguros com nossos goleiros. Ainda na década de 50, Veludo, Sinval e Mão de Onça seriam ídolos da torcida. Na duríssima segunda metade dos anos 60, Mussula garantiu muitas partidas equilibradas contra o time superior que tinha o Cruzeiro. Na modesta equipe que conquistou o Campeonato Brasileiro em 1971, Renato participou de todas as 27 partidas. Numa época em que o Brasil esbanjava atacantes, sofreu só 22 gols. A Massa continua adorando-o, pela fidelidade que mantém ao clube. lmazurkiewicz.jpg

mazurc.jpgNo ano seguinte, chegaria o maior de todos. Algo de idealização retrospectiva da infância haverá nisto, mas jamais voltei a ver um goleiro como Ladislao Mazurkiewicz. Mais conhecido no Brasil pelo drible que lhe aplicou Pelé na Copa de 1970, Mazurka seria o responsável direto pela conquista do tricampeonato da Taça BH em 1972, numa época em que o Cruzeiro ainda possuía uma equipe indubitavelmente superior. Ele não era alto, mas tinha reflexos apurados, saída perfeita, colocação impecável e muita garra. Deu continuidade ao casamento feliz entre os jogadores uruguaios e o Galo, iniciado com o lateral-esquerdo Cincunegui e continuado pelo zagueiro-central Oliveira.

De 1977 até 1989, e entre 1991 e 1992, a meta do Galo teve um sucessor à altura. João Leite ganhou doze campeonatos mineiros, uma Copa Conmebol e vários torneios de verão na Europa. Ajudou a levar o Galo a dois vice-campeonatos nacionais. Na fatídica decisão por pênaltis de 1977 contra o São Paulo, João Leite encaixou no peito as duas primeiras cobranças, de Getúlio e Chicão, ambas no cantinho (sentado na arquibancada, daquele lado do estádio, eu pensei: com um goleiro destes, o título já é nosso). João Leite inovou nos pênaltis, ao flexionar os joelhos com os braços abertos, movendo-se antes da cobrança só na vertical – e portanto rigorosamente dentro da regra. Num esquadrão de craques como Cerezo, Reinaldo, Éder e Luisinho, o “goleiro de Deus” não era das estrelas mais badaladas. Mas jamais deixou de ter a confiança da Massa. Poderia, inclusive, ter ido mais longe na Seleção Brasileira, que teve sua meta defendida por goleiros bem inferiores durante a década de 80.

joaoleite_abre.jpg

Nos anos 90, a mística se manteria com Taffarel, campeão mineiro em 1995 e campeão da Conmebol em 1997, e com Velloso, vice-campeão brasileiro em 1999 e campeão mineiro em 2000. Já no novo século, o Galo revelaria um dos melhores goleiros dos últimos tempos, Diego, campeão mineiro de 2007 e logo depois vendido ao Almeria, da Espanha.

Traz um certo peso, a camisa 1 do Galo.



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sexta-feira, 18 de janeiro 2008

Por que eu não recomendo a Wikipedia

Ontem fiz um post criticando velhos intelectuais não aceitam a internet. Hoje vou falar como um velho intelectual que não aceita a internet. É que devo ao meu amigo Sergio Leo um post sobre meus motivos para jamais – ou raríssimamente – linkar ou recomendar a Wikipedia.

Poucas coisas foram saudadas com tanto triunfalismo como a Wikipedia. É muito sedutora a idéia de uma comunidade aberta, produzindo conhecimento coletivamente, com a possibilidade de permanentes revisões. Cheguei a ver gente inteligente, que eu respeito, dizendo que na Wikipedia qualquer erro se corrigia em questão de minutos. O Pedro Dória colocou uma semente de ceticismo bem fundamentado nessa discussão há uns tempos. Confirmei que ele estava certo. A quantidade de erros é absurda. Nos temas polêmicos – o que significa toda a esfera das ciências humanas e sociais --, vence a versão de quem tem mais tempo, grita mais alto e faz mais lobby. Não vale a pena.

Exemplos? Tomemos um bem anódino: o Campeonato Mineiro de 1956. Segundo a Wikipedia, o campeonato de 1956 foi dividido entre Atlético Mineiro e Cruzeiro. O Atlético escalou um jogador irregular em uma das partidas finais e o Cruzeiro pleiteou os pontos. O caso se arrastou nos tribunais durante dois anos e, finalmente, foi dado ganho de causa ao Cruzeiro. Dada a impossibilidade de se marcar nova partida com os jogadores inscritos à época, a Federação Mineira de Futebol dividiu o título.

Neste verbete, tudo o que é relevante está ausente, tudo o que está presente está errado. Em primero lugar, num campeonato decidido no Tribunal, em geral queremos saber quem ganhou a peleja dentro de campo. O verbete não diz. Pois bem, o Atlético venceu o jogo e sagrou-se pentacampeão. A prova? Está aqui, os campeões com a taça:

DSC03872.JPG


Segundo, o Cruzeiro entrou, sim, na justiça, mas o Tribunal não lhe deu ganho de causa coisa nenhuma. Com a pendenga arrastando-se, a FMF decidiu dividir o título. Você pode, se quiser, ir a Belo Horizonte, ao bairro do Barro Preto, e consultar um cruzeirense das antigas: nenhum deles comemora esse título. Oficialmente, é dividido, sim, mas toda a informação presente no verbete está errada. Nota-se que quem o escreveu 1) era cruzeirense; 2) estava mal informado; 3) redigiu com pretensões de neutralidade. Eu desafio qualquer editor da Wikipedia a me dizer qual foi o jogador irregular que o Atlético escalou na final de 1956, e por que ele estava irregular.

Já sei, futebol não vale. Tomemos outro verbete: Ariano Suassuna. Ali se diz – já na segunda frase, ou seja, ainda no momento em que se está descrevendo quem é o cabra -- que Suassuna é um defensor militante da cultura brasileira. Sinceramente, eu não sei o que é isso. Entendo que alguém se apresente assim, acreditando que a cultura brasileira seja algo que se possa “defender”. Não entendo que uma enciclopédia use essa frase, como se ela tivesse um sentido, um referente claro.

Em casos onde há desacordos e discussões – como na política – a Wikipedia oscila entre duas possibilidades. A primeira é que o grupo mais forte e organizado imponha sua versão, como no caso dos verbetes sobre o Oriente Médio, que são pouco mais que panfletos em defesa de Israel. A segunda é que as várias versões se neutralizem e se produza um monstrengo, onde um trecho contradiz o seguinte. É o caso do verbete sobre a liberdade de expressão em Cuba, onde um parágrafo desdiz o que anterior afirmou.

Não digo que não existam bons textos por lá, especialmente na Wikipedia em inglês. Mas a quantidade de erros e inconsistências é grande demais para que sirva como referência. Não se trata de que eu esteja esperando profundidade de uma tese acadêmica num verbete de enciclopédia. Tampouco se trata de “discordar” do que está escrito. Discordar é outra coisa. Se vou à Torre ou à Corja, sei que não vou concordar com nada, mas a perspectiva deles me enriquece. São textos pessoais, assinados. O irritante na Wikipedia é a pretensão de neutralidade, quando está óbvio que alguém ali ganhou uma batalha entre visões parciais, para depois conquistar o direito de se apresentar como versão objetiva. Neste sentido, ela produz, sim, efeitos daninhos, de uma forma que blogs bobagem não produzem. Jamais gasto bytes aqui criticando blogs que não têm nada a dizer -- ora, eles não me fazem mal nenhum. A Wikipedia é outro caso, porque posa de referência objetiva. Cada vez mais gente cita a Wikipedia como se estivesse citando um estudo sério. Isso sim, há que se combater.

PS: Na “democracia” da Wikipedia, a chefia decidiu que todos os links que saiam de lá para sites externos terão o atributo “nofollow”, mesmo depois da comunidade ter votado contra isso. Argumentaram que era para controlar o spam. É uma das decisões mais cretinas da história da internet. As páginas da Wiki aparecem bem colocadas nas buscas do Google por causa da quantidade de gente que as linka. Recebem seu ranking da comunidade de usuários da internet e se recusam a circulá-lo, devolvê-lo, compartilhá-lo. Eu tô fora. Aliás, em 3 anos e meio de blogagem, nunca houve um assunto sobre o qual eu não achasse uma referência melhor que o verbete da Wiki. Como no caso do Ariano Suassuna, outro dia, em que linkei um textinho modesto, mas sem erros e sem simplificações grosseiras.

PS 2: Se quiser me ajudar e fazer a prova dos nove, dê uma passada por lá, escolha um verbete na sua área de conhecimento, e me diga o que achou.



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quinta-feira, 17 de janeiro 2008

Blogofobia tangueira

Enquanto eu estava de férias, o pau comeu na blogosfera argentina. Foi o maior barraco da história. Naturalmente, dele não se teve notícias nos blogs brasileiros. Muro de Tordesilhas véio de guerra. A história já é antiga – coisa de um mês atrás, em blogs, é pré-história. Mas vale a pena acompanhar, porque diz muito sobre a reação dos jornalões às novas plataformas de publicação.

Quando um jornalão brasileiro quer destilar o seu ressentimento pela queda do público leitor e a perda de espaço para as novas mídias, ele contrata a agência Talent, que faz uma campanha comparando blogueiros a macacos. Quando um jornalão argentino – o Clarín – quer fazer o mesmo, quem se encarrega da tarefa é um ensaísta da estatura de Horacio González, diretor da Biblioteca Nacional, que assina, sob o título “Os blogs não tem futuro”, uma incrível, bizarra e barroca diatribe contra os blogs. As reações na blogosfera argentina foram sensacionais e muito bem humoradas. Vamos por partes.

De todas as “eras douradas” que os nostálgicos gostam de dizer que foram destruídas pelos blogs, a escolhida por González é a mais insólita: a época da carta do leitor ao jornal, que aparece em seu artigo como uma espécie de era de ouro da democracia! Sério, é isso: El género de la carta del lector nació con el periodismo mismo y postulaba un ejercicio superior de ciudadanía –la enmienda, la queja, la reescritura, la rectificación, la protesta–, así como exigía del periodismo el trabajo con un incipiente derecho a réplica o con perspicaces elaboraciones de un lector, que si pasaba el cedazo riguroso de la redacción estable de un diario, era una señal de fuerte opinión editorial proveniente de la sociedad civil.

Essa era a idade de ouro, em que a voz dos leitores encontrava o ilustre cantinho do painel das cartas – cuja publicação, evidentemente, ficava e fica a cargo do jornal. A barbárie atual, segundo González? É esta: Cuando en los últimos tiempos se invita a la opinión en el gran "blog" en que se está convirtiendo el mundo digital de la información, se desata una interesante pero al mismo tiempo borrosa disentería de escritos de rigor espontaneísta: Esos escritos quizás prometen una futura revulsión artística en la lengua, pero por ahora la desarticulan con banales juegos de irreverencia y pseudos-vandalismo. O texto de González defende essa estranha tese: os blogs podem, um dia, revolucionar a linguagem. Mas por enquanto então “desarticulando-a” e pondo fim ao exercício democrático do sujeito que ponderadamente enviava missivas ao jornal como um ato de cidadania. Reclamando do mundo em que qualquer um pode escrever, González cita o famoso tango de Discépolo: cualquiera es un bacán, cualquiera es un señor. Se usasse o Google, González saberia que sua citação está errada. O que disse o ilustre tangueiro foi cualquiera es un señor, cualquiera es un ladrón, erro de citação que não deixa de ser uma bela ironia no contexto do artigo.

Estamos na época da disolución del perfil autoral y la responsabilidad del multi-secular sujeto escribiente, lamenta González. Os blogs seriam a disenteria verbal, as rufadas de espontaneísmo, a barbárie da opinologia: quanto mais retorcida a linguagem, mais visível o ressentimento. Lendo uma coisa dessas, assinada por ninguém menos que o diretor da Biblioteca Nacional da República Argentina – instituição que foi dirigida por Jorge Luis Borges, grande precursor da internet –, não dá para deixar de pensar: do que esses intelectuais têm tanto medo?

As reações da blogoseira foram várias: fazendo uma gozação com a retórica de González, La barbarie ofereceu uma tradução do texto, frase por frase; acertando na mosca, Últimas de Babel lembrou que quem fala sobre “os blogs” em geral, é porque não sabe do que se trata; no excelente blog coletivo Nación Apache, Julio Zoppi fez uma análise do ressentimento e do susto que movem essas diatribes; no Lectora Provisoria, que fez seu primeiro aniversário no sábado passado, Juan Villegas pegou pesado; o Hipertextos tomou o mote “os blogs não tem futuro” e colocou-o ao lado de outras previsões furadas do passado; finalmente, o indispensável Tapera demonstrou que a idade de ouro da carta ao jornal não era tão de ouro assim.

Minha opinião? As respostas deles a González deram de 10 x 0 nas nossas respostas ao Estadão. Mais um capítulo, pois, da blogofobia. Vida que segue.



  Escrito por Idelber às 02:58 | link para este post | Comentários (18)



quarta-feira, 16 de janeiro 2008

Kucinich e a democracia dos oligopólios televisivos

dnes.jpg São duas as grandes histórias do debate democrata ocorrido ontem à noite em Nevada. Sobre uma delas – o tom de cordialidade entre os candidatos e a explícita recusa de todos a colocar raça ou gênero no meio da discussão – você poderá ler na grande mídia. A outra, a subterrânea, dificilmente será noticiada por algum grande jornal com qualquer destaque: o recurso judicial impetrado pela NBC Universal Inc. para excluir Dennis Kucinich do debate. Tiveram que ir até a Suprema Corte do estado de Nevada para reverter uma decisão anterior em favor do único candidato de esquerda do campo democrata. Conseguiram.

A NBC havia sido forçada a convidar Kucinich em virtude das regras estabelecidas por ela própria anteriormente, que rezavam que o patamar mínimo para a inclusão era o quarto lugar nas pesquisas. O cálculo era claro: Bill Richardson, o bonachão e inofensivo governador do Novo México, mantinha naquele momento um sólido quarto lugar. Mas Richardson anunciou oficialmente no dia 10 de janeiro que abandonava a corrida, depois de resultados fracos em Iowa e New Hampshire. 44 horas depois de convidar Kucinich, a NBC cancelou o convite, anunciando que os critérios haviam sido "mudados".

Entre blogs democratas e analistas políticos na web, o comentário mais freqüente foi de que a presença de Kucinich provocaria o pânico de que fossem feitas perguntas sobre as denúncias de fraude em New Hampshire – Kucinich é o único candidato a ter pedido recontagem dos votos em NH, mesmo dizendo explicitamente que ele não esperava, com isso, nenhuma mudança significativa no seu próprio total de votos. Além disso, claro, está o pavor de escutar um candidato que diz claramente que os Estados Unidos não têm o direito de invadir um país que jamais os atacou. Excluído mais uma vez de um debate, Kucinich recorreu à justiça e ganhou. O Juiz Charles Thompson, do Distrito do Condado de Clark, determinou que a MSNBC deveria incluí-lo no debate.

E não é que a corporação televisiva recorreu à Suprema Corte estadual e conseguiu reverter a decisão? O debate foi realizado sem Kucinich, que se juntou a populares que protestavam do lado de fora. Dá muito o que pensar, realmente, todo esse esforço para silenciar um candidato cuja base de apoio anda pelos 4 ou 5%. Kucinich já havia sido excluído do debate da ABC em Iowa com um argumento curioso: sua campanha no estado não tinha funcionários pagos (a paid staff) ou uma sede alugada, sendo operada por voluntários num endereço residencial. Tudo isso, lembremo-nos, depois que Kucinich havia vencido o debate entre 8 candidatos democratas em agosto, segundo pesquisa da própria ABC, como mostra o quadro abaixo:

poll.jpg

É a democracia do dinheiro e dos oligopólios. O curioso é quando se denunciam estas coisas, sempre há alguém para afirmar que acreditamos em “teoria da conspiração.” Como se a política fosse outra coisa que o perene choque de conspirações opostas.


PS: Em Michigan, Hillary Clinton concorreu sem adversários (com a exceção de Kucinich). A tradição é que quando um candidato de projeção concorre sem opositores nas primárias de algum estado, costuma levar 90% dos votos. Em Michigan, quase metade dos eleitores democratas encarou a neve para votar em branco (uncommitted). Em alguns condados, o uncommitted venceu Hillary.

Atualização: a melhor análise das suspeitas de fraude em New Hampshire que vi até agora -- e ela é inconclusiva -- foi feita no Ars Technica.



  Escrito por Idelber às 03:36 | link para este post | Comentários (17)



terça-feira, 15 de janeiro 2008

A última do judiciário, parte 328

Estou pensando seriamente em abrir dois blogs. Um continuaria se chamando Biscoito Fino e a Massa e traria o cardápio de sempre: futebol, política, música, literatura. O outro se dedicaria a publicar posts diários sobre os absurdos do judiciário brasileiro. O Febeapá não tem fim. Mais uma vez, tenho que adiar o post que tinha preparado para hoje e fazer outra denúncia, com o tradicional pedido de que você me ajude a disseminar o absurdo, porque, de novo, o nome do jogo é censura.

No dia 04 de novembro do ano passado, Fernando Mattos Roiz Jr., de 19 anos, Luciano Filgueiras Monteiro, de 21 e um menor de idade agrediram, usando um extintor de incêndio, um grupo de prostitutas na Barra da Tijuca. Receberam uma pena leve, de serviços comunitários. Foram dadas a eles várias opções, entre as quais escolheram a de trabalhar oito horas por semana como garis, durante um ano. O caso ganhou notoriedade quando Fernando Mattos Rois, o pai de um dos criminosos, deu entrevistas dizendo que eles não fizeram nada demais. Foi só uma brincadeira de criança.

Pois bem: o juiz Joaquim Domingos de Almeida Neto, do 9 Juizado Especial Criminal do Rio, proibiu os jornais O Globo, Jornal do Brasil, Extra e O Dia e as emissoras de TV Globo, Bandeirantes, Record, Rede TV!, CNT e Brasil (ex-TVE) de veicular imagens e ou até mesmo de publicar os nomes dos três universitários que gostam de sair por aí espancando prostitutas. A multa fixada pelo Dr. Joaquim para quem descumprir a proibição é 10 mil reais. Em outras palavras: há uma sentença judicial que condenou três criminosos, mas a imprensa está proibida de citar seus nomes ou divulgar suas imagens.

Segundo O Globo, o juiz achou que os jornais estavam rotulando os jovens. Na sua sentença, outra pérola do judiciário tupinambá, o Meritíssimo afirma: Pouco interessa a origem ou classe social dos envolvidos, ou a profissão ou o gênero a que pertence a vítima: para ser isenta, a matéria deveria relatar um conflito entre dois jovens recém entrados na vida adulta (e, por isso, penalmente responsáveis ) e um outro ser humano (pouco importa se homem ou mulher) que foi agredido .

Em primeiro lugar, Meritíssimo, a língua portuguesa possui palavras mais adequadas para descrever o que aconteceu na Barra da Tijuca em 04 de novembro. Não houve um “conflito”. Houve uma agressão, um espancamento. Em segundo lugar, qualquer estudante de psicologia percebe o que está em jogo na menção ao gênero, profissão e classe social dos envolvidos (alô alô, debate sobre a questão racial): é a clássica denegação freudiana. O doutor quer dizer que se os agressores fossem pretos e pobres, e o agredido branco e rico, a “imagem” daqueles também seria “protegida” por uma sentença sua? É isso? Por que sentiu necessidade de dizê-lo? Conte outra.

Nos comentários ao lúcido texto de Luiz Weiss no Observatório da Imprensa, apareceram dois advogados defendendo a censura. Sempre aparece um, não tem jeito. O Dr. Ricardo Pierre, de Santos, afirma que A lei manda não colocar os condenados em situação de inconveniente notoriedade, buscando protegê-los de represálias . Eu gostaria que o doutor me informasse qual é a lei que proíbe a divulgação de informações sobre condenados pela justiça; qual é a lei que coloca a proteção da “inconveniência” acima da liberdade de informação garantida pela constituição federal. O Dr. Charles Bakalarczyk, de São Luiz Gonzaga, nos sai com uma pérola ainda melhor: A mídia não foi proibida de noticiar o fato (e a condenação), mas de expor os nomes dos condenados e suas imagens. Será que o Dr. Charles poderia nos informar como é possível noticiar a condenação de Fernando Mattos Roiz Jr. e Luciano Filgueiras Monteiro sem citar os nomes de Fernando Mattos Roiz Jr. e Luciano Filgueiras Monteiro? Mas o Febeapá não termina aí. O Dr. Ricardo volta à baila, tentando defender a decisão do juiz com um argumento escrito numa língua que vagamente se assemelha ao português: A configuração do uso ou do abuso é matéria probatória, com toda a certeza, mas há alguns parâmetros que poderiam ser estabelecidos pela jurisprudência quanto a quais são os fatos perinentes (sic) e relevantes na configuração do abuso, sobretudo para que o jurisdicionado não fique com a impressão de que sofreu uma decisão "ad personam"... .

Traduzindo para o vernáculo, o Dr. Ricardo quer, eu acho, que a jurisprudência determine o que é uma informação abusiva e o que não é. Ouvi de um outro advogado o argumento de que a divulgação dos nomes dos condenados os expõe ao "linchamento". Isso me parece risível. Cometeu-se um crime, do tipo que negros e pobres sofrem todos os dias. E é a divulgação do nome dos criminosos que cria o risco? Ora, conte outra. De minha parte, não quero viver num mundo onde esses togados determinem o que eu posso ler, ver ou ouvir.

Já botaram a boca no trombone: Sergio Leo, Vejo tudo e não morro, Na média, Acorda Brasil. Bote você também.

Atualização: O Panóptico fez o melhor post sobre o caso.

PS: O Biscoito Fino e Massa recebeu o prêmio de blog com melhor conceito artístico do Spoiler News, em eleição com 2640 votantes. Valeu, pessoal.



  Escrito por Idelber às 04:38 | link para este post | Comentários (35)



segunda-feira, 14 de janeiro 2008

Clube de Leituras: Ariano Suassuna

282595.jpg O Clube de Leituras tem sido uma ocasião para que eu mesmo revisite certos preconceitos. Foi assim com Jorge Amado, autor pelo qual eu nunca havia nutrido muita simpatia e que passei a reler com outros olhos. Aproveitando o fato de que estou dando um seminário de pós-graduação sobre sagas brasileiras, decidi mergulhar agora na obra do paraibano Ariano Suassuna, dramaturgo e ficcionista de quem sempre tive incrível birra, movida pelo meu rechaço à sua concepção purista da cultura brasileira e especialmente por um dos erros aos que essa concepção o levou – a militância contra Chico Science e o Mangue Beat.

Mas a leitura dos primeiros capítulos do Romance d' a pedra do reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta já estão reiterando para mim, mais uma vez, aquela velha lição. A literatura tem razões que a ideologia desconhece. Lançada em 1971, esta saga-epopéia ocupa um lugar curioso na literatura brasileira. Acumulou uma certa aura de prestígio e erudição e é vista com reverência em várias comarcas. Continua, no entanto, pouco estudada. Um hipotético historiador ou crítico muito provavelmente não pensaria na obra de Suassuna ao ser perguntado sobre a ficção brasileira do período. Mesmo um estudo panorâmico como Literatura e vida literária, de Flora Süssekind, que passeia por mais de quarenta obras publicadas durante a ditadura, sequer menciona o romanção de Suassuna.

Pois bem, ao longo das próximas quatro semanas eu e meus alunos vamos encarar o calhamaço. Deixo aqui o convite para que você também leia a obra e se junte a nós na discussão. O prazo é razoável: o papo sobre o livro está marcado para segunda-feira, dia 18 de fevereiro, aqui no blog.

Alguém aí se habilita? Ou seremos só eu e meus alunos mesmo? Quem vai encarar?


PS: Meu amigo Leandro Oliveira escreveu um post argumentando que o cenário da discussão literária visto em 2007 na internet difere muito pouco dos outros anos: agressividade e falta de educação nas caixas de comentários, pessoas tentando provar que leram e sabem mais que qualquer outro e nenhuma questão relevante sendo abordada (grifos meus). Deixo nossas discussões sobre Borges (1, 2, 3), Jorge Amado (1,2), Martín Kohan (1,2) e Guimarães Rosa (1,2,3) como subsídios para uma futura revisão, oxalá mais matizada, dessa percepção.

PS 2: Já que de discordar de amigos se trata: meu querido Sergio Leo anda entusiasmado com a Wikipedia enquanto eu preparo, ainda para esta semana, um post intitulado “Por que eu não recomendo a Wikipedia de jeito nenhum”.

PS 3: Se você entende inglês, não deixe de ler a matéria notável feita pelo New York Times sobre os assassinatos cometidos pelos veteranos que voltam do Iraque.

PS 4: O post já está lá embaixo, mas continua o papo sobre o livro de Risério e a questão racial no Brasil (com participações muito especiais de minhas amigas Helê e Monix).



  Escrito por Idelber às 04:40 | link para este post | Comentários (37)



domingo, 13 de janeiro 2008

Denúncias de fraudes nas primárias de New Hampshire

Depois das primárias de New Hampshire, começaram a pipocar, nos dois partidos, denúncias de fraudes relacionadas ao uso das famigeradas máquinas eleitorais Diebold.

No Partido Republicano, o candidato Ron Paul – o único que é crítico incondicional da guerra no Iraque – apareceu com zero votos no precinto distrito de Sutton. No dia seguinte, um apoiador de Ron Paul se apresentou e disse que ele e toda a família haviam votado no candidato, naquele mesmo distrito. Depois de confrontados com o fato, os responsáveis relataram que Paul havia recebido 31 votos em Sutton, que haviam sido deixados de fora das atas de votação por “erro humano”.

No Partido Democrata, ocorreu uma coisa curiosa: 81% dos eleitores votaram em distritos com máquinas eleitorais da Diebold. 19% votaram com cédulas de papel, contadas à mão. Onde houve votação eletrônica, Hillary Clinton venceu Obama por uma margem de 5%. Nos distritos com cédulas de papel, a vitória foi de Obama, por aproximadamente 4%; ou seja, uma diferença de 9%. Para quem quiser conferir os resultados, o link é este. Já vários dias depois das primárias, discussão segue por aí.

Nada foi provado, evidentemente. Mas a história das máquinas Diebold não inspira lá muita confiança.

(via Slashdot)



  Escrito por Idelber às 04:39 | link para este post | Comentários (18)



sábado, 12 de janeiro 2008

Galo aos sábados

O mais movimentado campo de peladas da jovem Belo Horizonte ficava nas imediações do Parque Municipal. Diz a lenda que a primeira idéia de fundação do novo clube de futebol ocorreu no dia 22 de março de 1908. Mas aos domingos realizavam-se corridas de bicicletas que levavam moçoilas ao Parque. Atraídos pelos rabos-de-saia, os garotos adiaram o plano. Numa conspiração sensacional, 19 deles mataram aulas na quarta-feira seguinte e no dia 25 de março nascia o Atlético Mineiro Futebol Clube, cujo primeiro campo de jogo foi um terreno batido de, no máximo, 75 m x 30 m, na Rua Guajajaras, entre São Paulo e Curitiba. Só em 1911 o clube conseguiria uma cancha um pouco melhor, na Avenida Paraopeba (atual Av. Augusto de Lima).

O Galo não foi o primeiro clube de futebol da cidade. Existia então o Sport Club Futebol, contra quem o Atlético jogou sua primeira partida, em 21 de março de 1909. O Galo venceu por 3 x 0 e o esquadrão que entrou em campo foi Eurico Catão, Mauro e Leônidas; Raul Fracarolli, Mário Toledo e Hugo Fracarolli; Mário Neves, Aníbal Machado (sim, o escritor), Margival, Zeca Alves e Benjamin Moss. No domingo seguinte, novo jogo e nova vitória do Atlético por 2 x 0. Inconformado com as derrotas, o Sport pediu nova revanche para um mês depois. Apanhou de novo, desta vez de 4 x 0. Do Sport Club Futebol não mais se ouviu falar. Desapareceu.

Na assembléia realizada no seu quinto aniversário, em 25 de março de 1913, o nome passou a ser o que mundo conheceria: Clube Atlético Mineiro. O Galo já havia sofrido sua primeira derrota em 1912, para o Granbery, de Juiz de Fora, por 5 x 1. Convidados para a revanche, os granberyanos visitaram a capital no dia 04 de maio de 1913. A vingança foi doce: Atlético 7 x 0. Nascia a lenda: o vingador.

Em seu livro Os Subterrâneos do Futebol, João Saldanha inclui o Atlético na longa lista de times que não aceitavam negros e mulatos. Como já foi dito neste blog, é mentira. O Galo é um dos pouquíssimos grandes clubes brasileiros que jamais conheceu a segregação. Como dizer não basta, resolvi matar a cobra e mostrar o pau. Eis aqui, pela primeira vez na Internet, acredito, a foto tirada por Joanésio Moreira da equipe do Atlético que conquistou o primeiro campeonato de Belo Horizonte, a Taça Bueno Brandão de 1914:

DSC03867.JPG

Da esquerda para a direita, em pé: Morethzon, Alfredo Coutinho, Ferreira, Lé, Mourinha, Romeu; na fila de baixo: Tedinho, Jorge Pena, Afonso Coutinho, Mário Lott e Nilo Zauli.

Com a fundação da Liga Mineira de Esportes Atléticos em 1915, realizou-se naquele ano o primeiro campeonato mineiro oficial, com a participação de Atlético, América, Yale, Higiênicos e Cristóvão Colombo. Campeão? O Atlético, que inaugurava a tradição de conquistar a primeira edição de praticamente todos os torneios que disputa. A campanha do título consistiu em 7 jogos: 5 vitórias, 1 empate, 1 derrota. 20 gols a favor e 5 contra. O primeiro artilheiro do Glorioso foi Meirelles, com 7 tentos anotados naquele campeonato.

Fonte: Enciclopédia Atlético de Todos os Tempos, de Adelchi Ziller.

PS: Para comemorar o centenário, o Biscoito publicará aos sábados os principais momentos da história do Galo. Convido os atleticanos que queiram me ajudar a que enviem informações ou fotos ao endereço de email fornecido no canto esquerdo superior da página.



  Escrito por Idelber às 04:46 | link para este post | Comentários (11)



quinta-feira, 10 de janeiro 2008

Aniversários

2008 marca vários aniversários importantes e alguns deles serão lembrados durante todo o ano aqui no blog. Apertem os cintos:

No dia 25 de março o Glorioso primeiro campeão brasileiro completa 100 anos de existência. Foi ali no Parque Municipal, esquina de Afonso Pena com Bahia -- a dois quarteirões de onde Drummond, Pedro Nava, Abgar Renault e cia. aprontariam das suas uns poucos anos depois – que 19 benditos moleques resolveram matar aulas, sem saber que estavam inventando a maior paixão do povo de Minas. A idéia é, ao longo do ano, pesquisar e conhecer um pouco mais da história do único de clube de futebol do planeta a ter derrotado a Seleção de Pelé.

Começo com uma perguntinha de Trivia Games: alguém aí sabe quem é o autor do primeiro gol da história do Clube Atlético Mineiro? Os que conhecem um pouquinho de literatura brasiliera se assustarão com a resposta. Guglem aí que depois eu completo. A dica para acompanhar o dia-a-dia do Atlético é Galo é amor.

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No dia 29 de setembro comemora-se outro centenário, o da morte de Machado de Assis. Depois do incrível mico que foi a “biografia” de Daniel Piza – onde José Bonifácio vira português, o violento entrudo se transforma em festa de salão e Bentinho é rebatizado assassino, entre outras inacreditáveis gafes – o ano promete uma série de publicações e eventos de qualidade, por gente que estuda o assunto antes de escrever. O epistolário será editado por Sergio Paulo Rouanet; Ubiratan Machado coordena a edição de um dicionário para a Academia Brasileira de Letras; a Casa de Machado também organiza uma série de palestras aí no Rio, a partir de abril; a famosa Obra Completa em 3 volumes, da Aguilar, recebe segunda edição, bem mais fornida (por incrível que pareça, ainda não há uma edição verdadeiramente completa das obras de Machado); em julho a Globo lança a minisérie “Capitu”; a Record prepara uma recriação de 12 contos de Machado com autores contemporâneos (fonte). Ótimo momento, pois, para mergulhar em Machado.

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Em 2008 também se completam 60 anos do Nakba, palavra árabe que significa “catástrofe” e que é usada pelo povo palestino para designar o processo de expulsão e confisco sofrido por eles para a implantação do estado de Israel. A expulsão de 800.000 habitantes e a destruição de 531 vilas palestinas em menos de seis meses do ano de 1948 é história pouquíssimo conhecida, e freqüentemente soterrada sob uma série de mitos. Depois de vir à luz uma copiosa documentação desse evento, com o livro The Ethnic Cleansing of Palestine, do historiador Illan Pappe, já não há desculpas para ignorá-la. Ao longo do ano, o blog publicará parte dessa documentação aqui.

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Finalmente, no dia das bruxas eu completo 40. Espero que até lá o Aldo Rebelo não tenha conseguido transformar o 31 de outubro em dia nacional do Saci Pererê. 43 dias depois, claro, nosso querido AI-5 – o golpe dentro do golpe – também vira quarentão. 1968 marcou muito. Será interessante revisitar o seu legado aqui. É isso. Esqueci algum aniversário?

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PS: continua o papo ali embaixo, sobre a questão racial, com um desses leitores que são a razão pela qual vale a pena ter blog.

Atualização: E há o importantíssimo centenário de Simone de Beauvoir, ótimo pretexto para reler a pensadora de O Segundo Sexo (Obrigado, Cynthia).



  Escrito por Idelber às 02:59 | link para este post | Comentários (42)



quarta-feira, 09 de janeiro 2008

Virada de Hillary

I will never underestimate Hillary Clinton again: a frase é de Chris Matthews, da MSNBC – uma espécie de Galvão Bueno do comentário político americano. Durante o dia de ontem, todos os sites e blogs ligados ao Partido Democrata, todos os principais canais de televisão e praticamente todos os institutos de pesquisa apontavam o mesmo cenário, uma vitória de Obama até por dois dígitos, com as primárias de New Hampshire funcionando como a coroação final. A última pesquisa da respeitada Zogby dava vitória de Obama por 13 pontos. Dentro da própria campanha de Hillary, ao longo do dia, falou-se, à boca pequena, de tentar evitar uma derrota humilhante. Líderes da campanha já confidenciavam a repórteres o desejo de pular fora. Nos comícios de Obama, havia gente saindo pelo ladrão. Parecia o Campeonato Brasileiro de 1977 ou as Copas do Mundo de 1954 ou 1982. A partida era uma formalidade. Faltou combinar com os russos, como diria Garrincha. Resultado final: Hillary 39%, Obama 37%.

Numa das surpresas mais impressionantes da memória recente, Hillary deu a volta por cima e embolou o jogo de novo. Mente quem disser que tem todas as explicações, mas aí vão alguns eventos que marcaram os últimos dias:

1.Numa entrevista transmitida nacionalmente anteontem, perguntaram a Hillary como ela agüentava o tranco. Já era o tipo de pergunta que se faz ao técnico que está perdendo o jogo por 3 x 0 no intervalo. Na resposta, ela esgasgou e chorou (veja o vídeo). A mídia deu um tremendo destaque à história. John Edwards cometeu o infantil erro de atacá-la pelo episódio, como se isso demonstrasse que ela não está “preparada”. O tiro saiu pela culatra.

2.Depois do episódio do choro, os jornais New York Post e Boston Globe publicaram manchetes bem sensacionalistas, com termos como “pânico”, “desabou”, “desespero”. Fizeram esdrúxulas comparações. O fato é que poucas figuras públicas na história da democracia americana já sofreram o abuso que Hillary sofreu nos últimos 15 anos – nas mãos da mídia e dos adversários. Nos últimos dois dias, a pancadaria chegou a níveis bem altos. A resposta veio nas urnas. Com certeza, algo de reativo houve no voto.

3.Durante o debate do último sábado, em vários momentos da polarização Barack Obama x Hillary Clinton, John Edwards se colocou ao lado daquele, apresentando-se a si próprio e a Obama como candidatos da mudança, contra Hillary, a candidata do “establishment”. A movida de Edwards era calculada: tirar Hillary da parada e reduzir a corrida a dois concorrentes, com esperança de que pudesse alcançar Obama na Carolina do Sul -- onde Edwards é bem forte. Mas o 2 contra 1 produziu a nítida impressão de um ataque coletivo a ela. Edwards foi o grande perdedor da noite: ficou nos 17%.

4.Algumas horas antes das primárias, Bill Clinton deu uma declaração – putíssimo, como poucas vezes já o vi – acusando a imprensa de entrar no oba-oba de Obama, de não questioná-lo, de aplicar um padrão duplo, de ser injusto com Hillary. Assistindo as principais redes de televisão americanas, é difícil não concordar com ele. Até mesmo eleitores que não estão apoiando Hillary se horrorizaram um pouco com os ataques e passaram a torcer por uma sobrevida da sua candidatura.

5.Quanto à demografia das primárias de New Hampshire, alguns elementos pesaram: 44% dos eleitores de NH estão registrados como independentes. É um número altíssimo. Isso significa que eles podem escolher se participam das primárias democratas ou republicanas. Obama é mais forte entre os independentes, Hillary entre os eleitores registrados como democratas. Com a expectativa de uma goleada de Obama, uma parcela alta dos independentes optou por participar da primária republicana. As mulheres compareceram em peso e totalizaram 56% do eleitorado.

Nada definido, pois. A brincadeira vai ficar muito interessante. Continua na semana que vem, em Nevada e Carolina do Sul. Termina na super terça-feira, dia 05, com umas duas dezenas de estados.

PS: Continua a conversa sobre a questão racial no post ali de baixo, acerca do livro de Risério.

PS 2: Inaugurado mais um belo projeto na Verbeat: Faça a sua parte, blog ecológico. Boa sorte e parabéns, pessoal.

PS 3: Outro golaço recente da Verbeat: ius communicatio, imperdível para quem se interessa por questões relacionadas ao direito.



  Escrito por Idelber às 02:15 | link para este post | Comentários (19)



terça-feira, 08 de janeiro 2008

Eleições americanas: um ABC

Está precisando de informação sobre as eleições americanas? Não sabe – a exemplo de Reinaldo Azevedo – o que Barack Obama pensa sobre a guerra do Iraque? Está sem paciência de ler programas políticos? O Biscoito oferece o ABC das eleições americanas em pílulas rápidas e indolores. É só imaginar que se trata de uma eleição para o grêmio estudantil. Vamos lá.

Hillary Clinton
: É a sabichona que se senta na primeira fila e só tira nota 10. Conhece melhor que qualquer um o funcionamento da escola. É a que mais terá elementos para negociar com a diretora, os professores e os funcionários. Mas por ser mulher e sabida, despertou a ira dos brutamontes da última fila. Tendo que demonstrar que é durona, foi aos poucos adotando as suas táticas. Resultado: metade quer esmagá-la por ser petulante, enquanto a outra metade suspeita que ela se transformou num dos brutamontes que a atormentavam. Perdeu a base que tinha e não foi aceita entre os verdugos.

Mitt Romney
: É o candidato da diretora. Com mais grana que todos os outros, é filho do prefeito, a quem a diretora deve favores. Tem toda a máquina a seu favor, mas precisamente por isso não consegue deslanchar, pois o grêmio não vai muito bem das pernas. Veste-se melhor que os demais, mas numa escola onde tantos andam com roupas rasgadas, isso começa a contar contra ele. Tem modos. Esbanja tanta elegância, contatos e dinheiro que sua substância – se é que a possui – já ficou perdida no meio dos assessórios.

Rudy Giuliani: É o zero à esquerda que um dia teve a fortuna de estar passeando à beira do lago enquanto uma garota se afogava. Teve a sorte de salvá-la, o que lhe rendeu fama. Deu o azar de que a eleição para o grêmio aconteceu anos depois do quase afogamento da garota. Se ela tivesse ocorrido logo depois, teria sido barbada. Como passou o seu momento, só consegue ficar repetindo: eu salvei a garota, eu salvei a garota.

John Edwards: É o bonitinho da sala, que conta, além do mais, com a fama de proteger os mais fracos contra os brutamontes que lhes roubam o lanche. Vive dessa fama. Seu problema é que os pirralhos vão crescendo e perdendo a memória da época em que apanhavam dos grandes. Se os sacos-de-pancadas compusessem 50% do alunado em condições de votar, sua eleição seria barbada. Mas entre os verdugos e as vítimas há uma vasta camada média com a qual ele tem dificuldade de se comunicar. Vive nesse dilema.

Mike Huckabee: É o pobretão que entrou com bolsa. Com jaqueta maior que seu talhe – provavelmente herdada do irmão --, ele inicialmente espanta os outros pela rudeza. Não sabe usar talheres, diz nóis foi ao invés de nós fomos e começa a cativar exatamente por isso. É daquele grupo de alunos comuns aos quais os candidatos a presidente do grêmio sempre apelam na hora do voto, e dos quais depois se esquecem. Desta vez, um deles resolveu pleitear candidatura, e justo na cabeça-de-chapa apoiada pela diretora que, obviamente, está em pânico.

Dennis Kucinich: É aquele que diz o que a maioria dos alunos quer ouvir – quando lhe permitem falar, claro. Nada de negociações escusas com a diretora, nada de tramóias com funcionários para prejudicar outros alunos, nada de puxa-saquismo aos professores. Parece bom demais para ser verdade, o que acaba sendo profecia auto-realizada. Uma parte dos alunos pensa que a maioria jamais votaria em alguém tão bom, e a outra parte pensa que mesmo se votassem, a diretora não permitiria sua posse. Vive nessa tragédia.

John McCain: É da turma da diretora, mas também com trânsito entre os alunos. Tem fama de razoável e ponderado. Aliás, é o único que circula em todos os bandos: entre os puxa-saco da diretora, os marginais, os CDF's, os desportistas e até os maconheiros. Todos o respeitam e lhe têm algum afeto, mas ninguém confia 100% nele. É oficialista demais para os da última fila, puxa-saco demais para os desportistas, certinho demais para os maconheiros e doidão demais para os CDFs. É mais ou menos como o América-RJ ou a Portuguesa-SP: o segundo time de todo mundo. No Rio Grande do Sul, por exemplo, não teria nenhuma chance. Mas como a chapa da diretora anda muito fraturada, pode acabar levando.

Barack Obama?
Esse é o aluno que vem de fora, com outra experiência. Alto, bonito, excelente orador, cativa as mulheres sem provocar ressentimento nos homens. Parece falar uma língua diferente. Ao ouvi-lo, os alunos começam a acreditar que as fraturas do grêmio serão, quem sabe, superadas. Tem o dom de fazer que as soluções pareçam mais fáceis do que pareciam antes. Até a diretora parece fascinada com ele. Parece ter algo em comum com todos: o conhecimento de Clinton, a autenticidade de Huckabee, a ponderação de McCain, a elegância de Romney, o quase heroísmo de Giuliani, os ideais louváveis de Edwards e Kucinich. Ou talvez não tenha nada disso. Se ganhar, pode provocar uma das transformações mais radicais da história do grêmio. Mas pode também causar um fracasso estrepitoso, levando a parca metade dos alunos que ainda participa do processo a terminar concordando com a outra metade na convicção de que votar nas eleições desse grêmio é, no fundo, uma grande bobagem.

Atualização: vale conferir também os excelentes perfis feitos pelo André Kenji: democratas e republicanos.



  Escrito por Idelber às 02:15 | link para este post | Comentários (80)



segunda-feira, 07 de janeiro 2008

Joguinho político

Se você morasse nos EUA, qual seria sua posição sobre a guerra do Iraque, o casamento gay, a assistência médica, a política fiscal? Jogue este fascinante joguinho e descubra -- depois me conte -- qual é o seu candidato a presidente dos EUA.

(é uma animação em flash; pode demorar um pouco para carregar, mas vale a pena).



  Escrito por Idelber às 13:42 | link para este post | Comentários (35)




O livro do ano

ubmn.jpg Trata-se, na humilde opinião deste blog, do livro mais importante publicado no Brasil em 2007. A utopia brasileira e os movimentos negros, de Antonio Risério, já nasceu clássico. Racismo, cotas raciais, mestiçagem: nada disso já pode ser discutido seriamente sem referência a este livro corajoso e debochado, anti-acadêmico mas erudito, politicamente incorreto mas incendiário. Risério é uma voz quase que solitária no debate sobre estes temas. Conhecedor profundo das culturas negromestiças brasileiras – autor, afinal de contas, de Carnaval Ijexá e Oriki Orixá -- Risério vem alertando: é um suicídio jogar fora o bebê da mestiçagem junto com a água suja do combate ao racismo. Importar as lentes bicolores americanas é importar o que os Estados Unidos têm de pior.

É difícil resumir a tese de um livro tão rico (há até um capítulo sobre o futebol), mas aí vai minha melhor tentativa: a importação do paradigma racial dicotômico americano, obra do academicismo bem-pensante e dos movimentos “neonegros” (o termo é de Risério), choca-se com a realidade multicromática do país. Tenta encaixá-la numa camisa-de-força binária. Confunde a mestiçagem – maravilha e legado do Brasil ao mundo – com o escamoteamento do racismo, como se celebrar a mistura significasse esquecer que ainda existe discriminação no Brasil. Sim, sim, você já ouviu esse argumento. Dito assim, parece à toa. Mas fundamentado como está neste livro, jamais.

Há um capítulo sobre as origens da one-drop rule, a incrível classificação racial americana que determina que um sujeito com 1/32 de sangue negro seja catalogado como negro: paradigma que tem suas origens no horror puritano ante a mistura, depois curiosamente adotado pelas suas vítimas. Risério manda ver, sem floreios acadêmicos e sem medo: Os EUA são o único país do mundo em que o filho de um preto com uma branca é preto ... Estranho é que os norte-americanos estranhem que o resto do mundo não classifique pretos e mulatos do mesmo modo que eles. Falam aqui a cegueira e a arrogância imperialistas de sempre (p. 94). Daí Risério emplaca uma análise sobre a “morte dos deuses” nos EUA, a completa ausência de sobrevivências africanas entre os negros americanos, do tipo visto em qualquer esquina de Salvador ou Havana (mostra-se como a criatividade negra nos EUA foi rapidamente canalizada para a criação de um cristianismo negro). Na seqüência, Risério desmonta, um por um, os argumentos dos racialistas binários, que estudam o Brasil com o paradigma americano na cabeça, como Peter Blanchard ou Jacques D'Adesky.

É notória, para qualquer um que tenha lecionado nos EUA, a ânsia dos estudantes norte-americanos que se dedicam ao Brasil de escrever trabalhos de “crítica ao mito da democracia racial”. É um pouco constrangedor ver a reação deles quando você coloca a singela pergunta: “você vê esse mito onde mesmo?” Não há aprendizagem mais difícil para um estudante norte-americano que a descoberta de que não existe mito da democracia racial no Brasil; que no livro mais freqüentemente associado à idéia (Casa Grande e Senzala), essa expressão jamais aparece; que ninguém em sã consciência no Brasil diria que vive numa democracia racial. E que isso, obviamente, não implica que não exista racismo no país – só implica que as coisas são um pouco mais complexas, menos cartesianas. Hermano Vianna uma vez me disse que o que precisamos mesmo é de uma genealogia do mito do mito da democracia racial. Ou seja, uma explicação do porquê de tanta gente ter pensado que pensamos isso. Pois bem, a explicação chegou. Está em A utopia brasileira e os movimentos negros.

Há muito mais. Há um capítulo espetacular sobre o neopentecostalismo (que, na bela frase de Risério, partiu para cima do candomblé, decidido a detoná-lo em sua cidade sagrada); há outro irretocável sobre a língua (onde Risério reflete sobre o tremendo paradoxo de que um militante do movimento negro censure alguém por usar a palavra batuqueiro – vocábulo africano! -- ao invés de percussionista – termo latino!); há outro ainda sobre Cuba, que é talvez o que de mais erudito se escreveu sobre a ilha em português. Há também um capítulo sobre o futebol, onde se encontra uma citação de João Saldanha que comete uma injustiça que Risério não pescou: o Atlético Mineiro jamais impediu negros e mulatos de comporem sua equipe; o América e o Palestra Itália, sim. O Galo, jamais. Eu não poderia terminar esta resenha sem fazer a correção. A equipe campeã de 1915 já era formada por negromestiços.

Quem lê este blog desde 2005 sabe da minha defesa das cotas raciais. O Biscoito Fino e a Massa não apaga posts. O que eu pensava sobre as cotas raciais em 2005 está aqui. O que penso hoje, bem, deve ter ficado claro acima. É maravilhoso poder mudar de idéia, convencido por um argumento superior. Evoé, Risério.



  Escrito por Idelber às 04:54 | link para este post | Comentários (95)