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segunda-feira, 21 de janeiro 2008
A reunião democrata em Nevada
No sábado, o Partido Democrata realizou o seu caucus em Nevada. O caucus é um tipo diferente de primária, na qual o voto não é secreto. Reúnem-se os eleitores em vários distritos e se formam grupos de apoio aos candidatos (reunião física mesmo: quem é Hillary pra cá, quem é Obama pra lá etc.). Depois de uma contagem inicial, os candidatos com menos de 15% são declarados “inviáveis” e seus apoiadores têm a possibilidade de escolher outro candidato ou largar a brincadeira. Enquanto isso, os líderes de cada grupo (chamados “capitães”) se dedicam a tentar levar os eleitores indecisos ou de candidatos inviáveis para seu grupo. Uma segunda contagem é feita. Define-se proporcionalmente o número de delegados daquele distrito. Como no caso da Wikipedia, a idéia é linda – não falta quem idealize isso como paradigma da democracia. Na prática, claro, a coisa é muito mais feia. E ficou bem feia em Nevada.
Em primeiro lugar, os números: mais de 115.000 eleitores participaram de reuniões democratas em Nevada. 2 de cada 3 eleitores do estado que participaram de um caucus escolheram o Partido Democrata. Não se trata exatamente de um estado azul: os dois últimos governadores são Republicanos e Bush venceu lá em 2000 e em 2004. Os números de sábado confirmam que os Democratas mais uma vez têm a faca e o queijo nas mãos. Concorrendo contra o desastre fiscal, político, diplomático e bélico de um dos governos mais impopulares da história, eles só não vencem se não quiserem. Isso não quer dizer que vencerão. Sua capacidade para produzir desastres é infinita. Posso estar errado, mas minha sensação é que vem mais um por aí.
Hillary Clinton venceu com 51%, Barack Obama teve 45% e John Edwards teve 4%. Foi uma derrota dura para os apoiadores do populista Edwards, que esperava ter algo em torno de 15 a 20%. Com a vitória, Hillary terá mais delegados de Nevada, correto? Errado. Devido à ausência de proporcionalidade na representação, no momento a estimativa é de que Obama tenha levado 13 delegados de Nevada, Hillary 12 (os votos de Hillary são fortemente concentrados em Clark County, onde fica Las Vegas; os de Obama são mais distribuídos). Isso significa que Nevada registrará, na convenção nacional, essa contagem de 13 x 12, correto? Não necessariamente. Os delegados serão definidos na convenção dos condados, em 19 de abril, e suas preferências podem mudar, num processo fortemente influenciado pela burocracia partidária.
Mas a história desse caucus, sem dúvida, foram as mais de 200 denúncias de fraudes e supressão de eleitores registradas contra a campanha de Hillary. Logo depois que o sindicato dos trabalhadores culinários (importante na região) declarou apoio a Obama, a Nevada State Education Association (com apoio explícito da campanha de Hillary, especialmente de Bill Clinton) entrou com uma ação judicial contra a abertura de caucus na região dos cassinos, o que facilitaria a participação dos trabalhadores de lá. A ação fracassou, mas ficou o gosto da tentativa de supressão de eleitores contrários, registrado por analistas de credibilidade. Nos próprios caucus, e limitando-me a linkar testemunhas oculares, algumas das irregularidades incluíram: fechamento de portas antes da hora, desaparição de cédulas, contagens fraudulentas e até deficientes físicos sendo arrastados contra sua vontade para o campo de apoiadores de Hillary (quanto à triste participação de um ex-presidente americano numa ação judicial que explicitamente tentava suprimir votos, até Edward Kennedy, neutro na disputa, chamou a atenção de Bill Clinton). Além disso, foram feitos milhares de telefonemas eletrônicos em Nevada -- não se sabe por ordem de quem -- que repetiam várias vezes o raramente usado segundo nome de Obama, Hussein.
Cresce em boa parte da base do Partido Democrata o sentimento – visível, por exemplo, em inúmeros diários do Daily Kos – de que caso aconteça o que se anuncia, ou seja, a vitória da candidata da máquina partidária, muitos eleitores democratas ficarão em casa ou optarão por um terceiro partido insignificante. Já ouvi de vários e várias, inclusive, a preferência por John McCain, caso ele seja o escolhido republicano. Alguns vêem nisso só uma conspiração da mídia para dividir os democratas, mas os indícios em contrário são bem conclusivos. Alguns outros dizem que tudo se cicatrizará depois da convenção. Pode ser, mas este é meu quinto engajamento em campanhas presidenciais americanas, e nunca vi tantos ativistas da base democrata -- muitos deles neutros na disputa ou apoiadores de candidatos menores -- tão enraivecidos com as táticas que estão sendo utilizadas.
PS: O homem voltou. Sim, voltou o MESTRE do CAPSLOCK
Escrito por Idelber às 04:04 | link para este post
| Comentários (9)
#1
Me coloco entre os que acham essa fórmula de eleição muito bacana mas na prática deve ser uma canalice só. Parece-me aquelas coisas de antigamente, quando os que tinham saber ou poder, se reuniam e decidiam tudo para o resto, sempre movidos por deus e pela boa vontade dos homens...Vamos ser claros, não dá certo! Mas tem funcionado nos EUA, pelo menos até agora. Será que a internet, cada vez mais escafrunchando os detalhes de cada evento político não vai acabar por mostrar que esse negócio tá contaminado e as pessoas, tomando consciencia disso, vão ou fazer algo para mudar ou entrar no jogo para participar?
Do ponto de vista de uma pessoa que mora no Brasil e que sempre se manteve informada, o que posso dizer é que eu nunca recebi tanta informação sobre eleições dos EUA como desta vez. Acho mesmo que é por causa da internet, vários sites falam disso, até alguns que não tratam de política. Isso faz o assunto vir a tona e mais pessoas discutirem. Ponto para Internet!
Quanto ao mestre do capslock eu não entendi...o link não está funcionando.
aiaiai em janeiro 21, 2008 7:53 AM
#2
Eu acho a fórmula de caucus ruim, mesmo em teoria. Ainda mais considerando o limite de 15%. Só pelo fato do "voto" ser público já é uma furada.
E se eu fosse americano, votaria em McCain sobre Hillary fácil. Aliás, votaria até no Fred Thompson sobre Hillary fácil. Obama me deixaria na dúvida, provavelmente ficaria em casa.
André Kenji em janeiro 21, 2008 10:38 AM
#3
Somando o seu blog, com o Pedro Doria e o Azenha, mais alguns sites gringos é possível ter uma idéia bem melhor do que está rolando lá. Se depender da mídia local, eles erram até o resultado da eleição depois da apuração.
Parabéns.
PS: Para quem acha que eleição é jogo sujo no Brasil, já deve ter percebido que somos café-com-leite.
Fernando em janeiro 21, 2008 4:22 PM
#4
aiaiai, é o blog do Cardoso Czanorbai, figura importante na internet brasileira.
André, esta eleição anda curiosa: já vi Republicanos dizendo que, em caso de escolha de John McCain, votarão democratas. E democratas de esquerda dizendo que, em caso de escolha de Hillary, votariam em McCain ou em terceiro candidato. Sonolenta não vai ser a disputa...
Obrigado, Fernando. Sim, acho que em termos de fraudes o Brasil anda bem "atrás" ....
Idelber em janeiro 21, 2008 5:37 PM
André Kenji em janeiro 21, 2008 7:26 PM
#6
Bom artigo, André, gracias. O ponto que os mais direitistas não conseguem ver -- cegados pela ideologia -- é que McCain não é "the Democrats' favorite Republican," como o artigo mostra bem.
Ele é o terror do Partido Democrata, o seu pior pesadelo. Especialmente numa eleição contra Hillary.
Idelber em janeiro 21, 2008 7:40 PM
#7
Idelber,
como voce, eu estou cada vez mais incomodado com a campanha da Hillary, e essa estoria de duas familias se alternando no controle da maior maquina de guerra do planeta eh um pesadelo!
agora voce viu o que os democratas conseguiram fazer aqui em Michigan? o comite estadual mudou a data das primarias a revelia do comite nacional e foi punido. Os candidatos promoteram nao fazer campanha aqui (e todos cumpriram) e de retirar seus nomes da cedula (todos cumpriram, menos Hillary). Resultado: uma primaria xoxa com o nome de uma soh candidata e uma oportunidade perdida porque por duas semanas so se falou de McCain, Rommey e Huckabee. Como voce disse, apesar de todo a vento a favor os democratas conseguem perder ate pra eles mesmos.
fernando lara em janeiro 21, 2008 11:18 PM
#8
Pois é, Fernando -- para não mencionar o fato de que mais de 40% do eleitores que participaram da primária em Michigan encararam a neve para votar uncommitted numa eleição com uma só candidata na cédula. Se isso não é um recado, eu não sei o que seria...
Abraços a você e Letícia.
Idelber em janeiro 21, 2008 11:45 PM
#9
Idelber, vai por mim, o panorama para os democratas é bem menos róseo que parece. Das seis cadeiras no Senado que os democratas ganharam no Senado em 2006, três o foram por menos de dois porcento, de forma bem mais suada que se pensa. Jon Tester, um ótimo candidato, suou para vencer um senador decadente em Montana.
E este ano eles não terão Bush, mas provavelmente um candidato com grande rejeição do lado deles. O problema que eu vejo com Obama, Hillary e Edwards é que a rejeição a eles é maior justamente na demografia que votou contra Kerry e eu pessoalmente já vejo o mesmo jogo da eleição ser decidida pelos mesmos estados: Flórida, Novo México, Iowa, New Hampshire, Wisconsin e Ohio.
E o grande risco é um democrata ser eleito, enfrentar uma série de problemas, como, por exemplo, uma recessão ou alguma crise internacional e surgir em 2012 um candidato republicano com força *reaganesca*. Sei lá, tipo um Charlie Crist, um Sonny Perdue ou mesmo um Bobby Jindal. ;-)
André Kenji em janeiro 22, 2008 9:46 AM
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