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quarta-feira, 23 de janeiro 2008

A violência, entre a biologia e a sociologia

Tenho sensações contraditórias com o qüiproquó que se armou acerca da pesquisa do neurocientista Jaderson da Costa, da PUC-RS e do geneticista Renato Zamora Flores, da UFRGS. O projeto consiste em determinar os fundamentos da violência e da agressividade através da análise do cerébro de 50 adolescentes homicidas de Porto Alegre. É o tipo de pesquisa que provoca compreensíveis suspeitas em todos nós, das ciências humanas: a aplicação de conceitos biológicos na explicação de fenômenos sociais tem uma triste história nos séculos XIX e XX, vinculada a atrocidades bem conhecidas. A pesquisa dos Profs. Flores e Costa provocou um irado abaixo-assinado de protesto, com signatários de várias disciplinas, especialmente da psicologia e do direito.

Foi o suficiente para que Reinaldinho Azevedo gritasse censura!, hipocritamente esquecendo-se de que foi ele mesmo quem organizou uma turba de fanáticos semi-analfabetos para linchar o trabalho de acadêmicas paulistas que desenvolviam pesquisa na área de redução de danos no consumo de ecstasy. A hipocrisia de Reinaldo Azevedo não consegue nem mesmo ser inteligente. Segundo ele, os signatários do protesto agem pelo medo de que se encontre algum componente neurobiológico no comportamento homicida, que ele supõe corroborar sua tese de que bandidos “escolhem” ser bandidos. Na verdade, a hipótese dos cientistas gaúchos vai exatamente na contra-mão desse pseudo-individualismo, ao (tentar) relativizar neurofisiologicamente a noção de escolha. É o próprio Prof. Flores quem diz: "Nessa questão o livre arbítrio está indo pelo ralo: as pessoas não escolhem ser violentas", argumento que ele usa, inclusive, para defender uma reavaliação da tradição jurídica sobre punição. Tudo isso, o Hermenauta já demonstrou no melhor post sobre o assunto.

Dito isso, eu acredito que o abaixo-assinado foi um erro. Que os seus 68 signatários escrevessem 68 textos individuais descendo o sarrafo nas hipóteses de trabalho de Costa e Flores (de preferência com argumentos melhores e mais elegantemente escritos que os encontrados no protesto), e eu os apoiaria, feliz da vida, aqui no blog. Mas abaixo-assinado contra uma hipótese de pesquisa, por mais suspeita que ela seja? Não dá. Um abaixo-assinado pela libertação de um refém, pela revogação de uma sentença judicial, pela realização de um plebiscito ou contra uma distorção midiática é absolutamente legítimo. Mas não se reúnem iguais para fazer um abaixo-assinado contra o trabalho de um igual, muito especialmente na academia. Por mais preconceituoso ou racista que possa ser o trabalho.

Evidentemente, eu não entendo patavinas de neurofisiologia e, ao contrário dos funcionários da Veja, não finjo entender do que não entendo. Mas acredito ter algo a dizer sobre 1) retórica; 2) lutas sociais em torno de como se legitima um saber. É sobre isso que proponho que conversemos aqui, porque o caso dá muito o que pensar (claro, quem entender de biologia, intervenha, melhor ainda). Lendo a retórica do Prof. Zamora, fica bem difícil não perceber o tremendo preconceito que se imiscui na sua ciência. Ele diz:

Mas se eu abrir um laboratório dizendo vendo testes de predisposição para você evitar do seu filho ter um risco aumentado de ser alcoolista ou homossexual, você não se interessaria? Mais cedo ou mais tarde vai haver um teste desses.

Ora, ora, evitar que seu filho seja homossexual? O que é isso? Vai justificar isso com qual ciência? Qual ciência legitima a comparação da homossexualidade com o alcoolismo? Há, sim, razões ética e cientificamente legítimas para se pesquisar se a opção sexual é ou não genética. Já acompanhei um debate fascinante em que ativistas gays americanos argumentavam que, caso se comprovasse alguma base biológica para a opção sexual orientação sexual, a descoberta poderia ser uma arma contra o preconceito – como as descobertas genuinamente científicas costumam ser, aliás. Mas no caso dessa retórica eivada de preconceito do Prof. Zamora, a afirmação de que os grupos gays daqui de Porto Alegre também acompanham nosso trabalho e nunca protestaram me soa a 1) engano; ou 2) mentira. Pesquisando um pouco mais sobre seu colega, o Prof. Flores, descubro que é ele quem defende que há diferenças de aptidão entre os sexos em todas as atividades muito competitivas. Eu adoraria que algum cientista me explicasse como se isola esta variável no interior de uma sociedade onde a mulher sempre teve uma posição subordinada.

No entanto, como dito acima, acredito que o abaixo-assinado foi um erro. Um abaixo-assinado contra uma pesquisa ainda não realizada só entrega argumentos de bandeja nas mãos dos Reinaldinhos da vida. Em segundo lugar, lamento que não haja um profissional de Letras entre os signatários, porque o texto está, pura e simplesmente, muito mal escrito. Numa frase como

Privilegiar aspectos biológicos para a compreensão dos atos infracionais dos adolescentes em detrimento de análises que levem em conta os jogos de poder-saber que se constituem na complexa realidade brasileira e que provocam tais fenômenos, é ratificar sob o agasalho da ciência que os adolescentes são o princípio, o meio e o fim do problema, identificando-os seja como "inimigo interno" seja como "perigo biológico", desconhecendo toda a luta pelos direitos das crianças e dos adolescentes, que culminou na aprovação da legislação em vigor - o Estatuto da Criança e do Adolescente.

estão faltando, pelo menos, dois pontos finais. Não se trata de picuinha. Se você quer intervir socialmente com o seu saber – e num abaixo-assinado de acadêmicos se trata sempre disso –, seja claro no que diz. Não misture alhos e bugalhos. Se a pesquisa viola o Estatuto da Criança e do Adolescente, explique o porquê. Trata-se de política, e não se faz política efetiva escrevendo assim. A frase pensar o fenômeno da violência no Brasil de hoje é construir um pensamento complexo, que leve em consideração as Redes que são cada vez mais fragmentadas, o medo do futuro cada vez mais concreto e a ausência de instituições que de fato construam alianças com as populações mais excluídas me dá a impressão de não ter sido lida antes de ser impressa. Pensar a violência é construir um pensamento? Que leve em consideração as Redes? Quais redes? A oração que inicia o parágrafo seguinte -- Enquanto a Universidade se colocar como um ente externo que apenas fragmenta, analisa e estuda este real, sem entender e analisar suas reais implicações na produção desta realidade -- me provoca calafrios. Será que não havia mais um cantinho para repetir a palavra real pela quinta vez? Reitero que não é implicância nem picuinha. Ao assinar um texto léxica, sintática e conceitualmente tão pobre, entregou-se a razão ao outro, mesmo que ele não a tivesse no começo da conversa. Se são 68 contra 1, fica mais feio ainda.

Por mais preconceituoso que possa ser o Prof. Costa, não dá para discordar quando ele diz que o foro para resolver essas coisas não é esse bate-boca com abaixo-assinado. O foro é a academia, a discussão acadêmica. O abaixo-assinado entrega de bandeja a posição de pesquisador genuíno a professores que podem, muito bem, estar trabalhando com motivos pouco confessáveis (lembremos que um dos alunos de mestrado no grupo é o secretário da Saúde do Estado, Osmar Terra, deputado federal licenciado pelo PMDB).

Os responsáveis pelo projeto afirmam que seus estudos não pretendem reduzir tudo ao neurofisiológico e que as variáveis “psicológicas e sociais” também serão levadas em conta. Sendo assim, seria coerente da parte do Prof. Flores, antes de acusar os psicólogos sociais que, de modo geral, desconhecem o conjunto de áreas do conhecimento denominadas de neurociências e que incluem, desde a bioquímica e a genética, até a neurologia e a psiquiatria , demonstrar um pouquinho de conhecimento sobre a vastíssima bibliografia sociológica e filosófica sobre a violência, boa parte da qual, talvez, levante algumas dúvidas sobre suas hipóteses. Essa bibliografia – indispensável para quem queira estudar as “causas” da violência, por mais que pretenda localizá-las no cérebro – é arqui-conhecida e já foi compilada até mesmo em livros ruins sobre o tema.



  Escrito por Idelber às 02:52 | link para este post | Comentários (51)


Comentários

#1

Também acho que não cabe abaixo-assinado para o caso. Ainda mais com um texto prolixo e hermético como este...aiaiai
No entanto, essa pesquisa me parece um exercício do inútil. Afinal, o que querem os neurocientistas descobrir? Que existe um componente neurológico que incita à violência? E se tiver? Vamos fazer o que com essa informação? "tratar" as pessoas para elas não serem violentas???
Ai me vem a pergunta: quem autorizou os bravos cientistas? Quem está pagando a pesquisa?
Acho que o esforço cientifico (e provavelmente o dinheiro que está sendo gasto) poderiam ser usados em ações mais produtivas - na teoria e na prática.

aiaiai em janeiro 23, 2008 7:56 AM


#2

É muito otimismo seu achar que "um profissional de Letras entre os signatários" evitaria o desastre.

Primeiro porque não há motivo no mundo que justifique um texto tão ruim ainda que todos os signatários fossem engenheiros e matemáticos (aliás, engenheiros e matemáticos, quando fazem estas coisas, em geral se enchem de humildade e revisam(idéia nova!!) o texto). Todo mundo ali passou pela universidade e a maioria pelas humanas - se um aluno de graduação em psicologia entrega um trabalho escrito assim tira 2 só pela confusão mental.

Segundo, além do profissional de Letras ter toda chance de acabar sendo voto vencido contra a turba psico-pedagógica, nada garante que ele seria melhor: são pedagogos(as) e psicólogos(as), gente que tinha obrigação de expor com clareza suas idéias (ou mesmo "its lack thereof").

O triste é que quando você está do lado de fora, imagina que na universidade há um padrão mínimo de texto, que qualquer professor universitário tem a obrigação de escrever melhor que a média do mundo. A descoberta da triste verdade, ali pelo meio de qualquer graduação, é como a descoberta da inexistência do Papai Noel.

Paulo Candido em janeiro 23, 2008 7:58 AM


#3

Freqüento com assiduidade uma das inúmeras jogadoras de búzios da W3 Sul, em Brasília. Tive uma sessão com dona Anastácia, que sabe tudo (de amarração de amor às metas de inflação do Banco Central). Não erra uma sequer. Ela me fez uma revelação estarrecedora: Ali Kamel deve assumir nos próximos anos a direção geral da revista "Veja". O melhor da nossa sessão foi a descrição de qual será a primeira capa da revista sob a gestão de Kamel.
Disse ela, dona Anastácia: “Estou vendo vários rostos sobrepostos numa foto, ou são várias fotos. Uma frase com letras grandes: ‘A origem do mal’. Em letras pequenas, aparece um EXCLUSIVO. Não consigo entender o resto, está muito confuso. Vamos abrir a revista e ver alguma coisa. Tem uma página com letras grandes: HERANÇA MALDITA. Vou ler o que está escrito embaixo dessa coisa de ´herança´. Começa assim: ‘Marx, Lênin, Stalin, Sartre, Brecht, Mao Tse-Tung, Fidel, Che Guevara, Lula, Stedile, Emir Sader, Dilma Roussef. O que essa gente tem comum, além de idéias jurássicas? Cientistas da Universidade Civitas, nos Estados Unidos, descobriram a existência de um cromossomo duplicado, no par 17, em todos eles. Para o escritor inglês Paul Johnson, o maior gênio da cultura ocidental, essa é a confirmação de que o esquerdismo é genético. Pior: é degenerativo".
Parece que dona Anastácia viu também uma capa com o mesmo assunto na revista "Superinteressante", toda colorida e que incluía a Marta Suplicy no rol da genética dos esquerdistas.

enio em janeiro 23, 2008 8:38 AM


#4

Pois é, essa pequisa, pelo que foi noticiado e pelas declarações dos envolvidos, parece não ser muito consistente. A impressão é de que pegaram o bonde andando achando que estão inaugurando alguma coisa.

De qualquer forma, a idéia/realização do abaixo assinado é uma bobagem enorme.

Guto em janeiro 23, 2008 9:21 AM


#5

Caro Idelber,

Esquecendo o Reinaldinho (para o seu texto creio que era necessário citar este ser, mas não vamos dar a ele uma importância que não merece), o seu texto e o comentário do Guto vão no ponto exato do problema. Só posso felicitar.

Assim como você não entendo patavinas de neurofisiologia e nem sei o grau de profundidade desta pesquisa, mas estou surpreso com a amostragem da pesquisa: 50 pessoas é pouco (quase nada) para formular tais hipóteses não?

Abraços!

Márcio Pimenta em janeiro 23, 2008 9:32 AM


#6

Caro Idelber, que bom poder ler o seu texto e lembrar da possibilidade de ponderação mesmo numa questão explosiva como essa. Me permita apenas sugerir que, em de "opção sexual", você use "orientação sexual": seja por determinação genética, resposta ao meio ou uma mistura disso tudo, nenhum homossexual opta pela sua homossexualidade, assim como nenhum heterossexual escolhe a heterossexualidade. Nos orientamos conforme nosso desejo, com toda a complexidade disso, e não por opção.

Um abraço

Cleber em janeiro 23, 2008 9:57 AM


#7

Idelber, sou ligado a esse universo "psi", e sigo participando da conversa lá no Hermenauta. Quero dizer que ouço essas discussões sobre as predisposições genéticas da agressividade desde que estava na graduação. Há referências bem antigas (estudos dos anos 50, por exemplo) a pesquisas buscando as bases biológicas da violência, assim como muitas outras bem mais recentes.

[Aliás, procurando dados para um post que escrevi tempos atrás, encontrei num texto bacana do médico Drauzio Varela intitulado "Raízes orgânicas e sociais da violência urbana", referências a uma pesquisa relativamente recente (1999) que encontrou

(...)mutações num gene responsável por uma enzima que limita a produção de serotonina. Os autores foram capazes de identificar mutações nesse gene associadas a diversas manifestações de agressividade, incluindo a tendência de experimentar sensação de raiva sem motivo aparente. (Varela, op. cit.).

Para mim, o interessante do texto é que como ele termina esse tópico (o de # 4):

Muitos biólogos moleculares estão convencidos de que essas interações são tão complexas, que dificilmente serão entendidas a ponto de podermos manipulá-las com segurança para modificar um comportamento de forma previsível, por mais elementar que seja ele (idem)]

Continuando, não assinei e nem pretendo assinar esse abaixo-assinado dos meus pares, por mais que compartilhe de algumas de suas (deles) preocupações. Como vc disse na sua menção ao Prof. Costa, "(...)o foro para resolver essas coisas não é esse bate-boca com abaixo-assinado. O foro é a academia, a discussão acadêmica". Mas não posso deixar de ressaltar os enormes interesses comerciais, políticos e religiosos — muitos deles bem mais poderosos do que os interesses científicos — que também se imiscuem nesse foro, não é?

Por último, e como exemplo das últimas linhas do parágrafo acima, as referências à homossexualidade que vc trouxe — tanto a preconceituosa do Prof. Zamora, quanto a dos debates que vc presenciou — vêm bem a calhar. Como você, também lembro de debates em torno de pesquisas sobre as bases biológicas para a orientação sexual, especialmente por conta dos interesses em torno dessas pesquisas, que por mais científicas que sejam, não deixam de carregar expectativas sobre resultados positivos ou negativos das mesmas (alguns querendo que a homossexualidade "fossem" genética, alegando que assim os argumentos morais perderiam a sua razão de ser, enquanto outros querendo o contrário, já que, como indica o próprio Prof. Zamora, exames que apontassem a tal homossexualidade durante uma gestação poderiam resultar na interrupção intencional da mesma, opção esta que nada teria de biológica, diga-se de passagem...). De certo modo, creio ser essa uma das principais preocupações que geraram o comentado abaixo-assinado, que por mais equivocado que seja, levanta novamente a bola sobre a pretensa neutralidade científica. (Nada de Khun, prometo, isto daqui já ficou extenso demais!)

Um abraço

P.S. Dois últimos pontos e termino. 1) Sei que o termo "homossexualismo" não é incorreto do ponto de vista da língua portuguesa, mas aqui faço coro com os meus pares e opto pela outra forma, "homossexualidade, que enxergo bem menos vinculada à noção de "doença", por mais que nos meios "psis" não se diga que a orientação homossexual seja em si mesma uma patologia. 2) Evite a expressão "opção sexual", prefira "orientação sexual". Opção reforça a noção de "escolha", como escolher pôr um piercing, uma tatuagem, ou mesmo experimentar transar com alguém do mesmo sexo só para satisfazer uma curiosidade, por exemplo. A palavra "orientação" não impede nenhum dos exemplos anteriores, mas tb não elimina um possível caráter bem mais forte do que o de mero interesse pessoal. Como a condição homossexual é minoritária em todas (ou quase todas, vá lá) as sociedades do planeta, se fosse apenas uma escolha, é bem provável que bem poucos a "quisessem", simplesmente para não serem discriminados, não é? E não creio que seja bem esse o caso...

Ricardo Cabral em janeiro 23, 2008 10:06 AM


#8

Êpa, desculpe: "Querendo que a homossexualidade 'FOSSE'

Ricardo Cabral em janeiro 23, 2008 10:08 AM


#9

Idelber,o que você faria se fizerem um exame de sangue no seu filho e descobrirem que ele vai ser cruzeirense?

Rodrigo em janeiro 23, 2008 12:09 PM


#10

Questionaria a metodologia do exame, evidentemente :-)

Idelber em janeiro 23, 2008 12:22 PM


#11

Olá Idelber, obrigado pela citação! :)

Aiaiai, pesquisas não precisam ser "autorizadas", em geral. No caso, é óbvio que deve ter havido autorização da FASE, instituição que abriga os jovens criminosos. Pelo que apurei, quem paga a pesquisa é a Gerdau.

Hermenauta em janeiro 23, 2008 1:30 PM


#12

Putz, estou por fora, cheguei de para-quedas! Bom, o que está em questão seria a pesquisa, ou o fato de que a pesquisa atuaria indiscriminadamente na análise dos presos, reduzindo-os a ratos de laboratório?

Catatau em janeiro 23, 2008 1:33 PM


#13

Idelber,

apesar de ser leitor do seu blogue há algum tempo, nunca me atrevi a escrever nenhum comentário(não vou me alongar com razões). Mas hoje, impelido por algumas inquietações que não vêm necessariamente contradizer seus argumentos, gostaria de ponderar sobre o foco de sua argumentação que, me corrija se estiver errado, trata da autonomia em jogo no debate científico. Um abaixo-assinado não cabe nas regras do jogo daquele embate específico, porque é teoricamente embasado em critérios não compatíveis com o propósito de um debate acadêmico (leia-se aqui, uma preocupação com os pares, com os códigos e critérios de rigor reconhecíveis dentro das comunidades acadêmicas). Pois bem. A reflexão que seu texto me trouxe me fez lembrar de um caso ocorrido na França no departamento de sociologia da Sorbone que envolvia a validação da tese de uma astróloga bastante conhecida por lá. A tese passou por todo o protocolo oficial das instituições de ensino superior e, apesar de no seu conteúdo não existir basicamente nada de sociologia ( a tese se pretendia uma crítica astrológica da sociologia dita ou reconhecida como oficial), foi aprovada e até com certa dinstição(uma análise sobre esse caso pode ser lida nesse livro http://www.evene.fr/livres/livre/bernard-lahire-l-esprit-sociologique-28657.php ). Não vou me ater a explicar as razões políticas que fizeram com que uma tese de astrologia fosse aprovada num departamento de sociologia. O fato é que o ocorrido causou a reação de uma série de profissionais da sociologia e gerou um bafafá daqueles. Lembro de ter visto abaixo-assinados na época os quais não assinei porque, como você, acho que o procedimento não cabe. Mas aí fica a questão: qual a melhor forma de lidar com as armadilhas da "identificação" dos "pares" num universo onde lógicas que escapam às "regras do jogo científico" exercem com certa freqüência sua força? Responder a cada momento esses disparates de maneira rigorosa não nos impõe uma tarefa ingrata e contra-produtiva? É evidente que é uma das tarefas da ciência indetificar os procedimentos inadequados, os limites de uma metodologia, sua propriede ao tratar de objetos específicos, mas nos casos como o da astrologa, já não se trata mais disso... As regras do jogo estavam "adulteradas" desde do início. Bem, peço desculpas pelo longo comentário. Não sei se consegui ser claro em minha ponderação. Fica aí e mesmo assim meu questionamento.

jampa em janeiro 23, 2008 1:37 PM


#14

Cleber, obrigado pela sugestão -- vou adotá-la a partir de agora. Inclusive, "orientação", e não "opção", é o termo que usamos em inglês. Faz sentido.

Hermê: de nada. Você pôs ordem no assunto. Sem o seu post, o meu não existiria.

Jampa, obrigado. O caso que você cita vem bem a propósito. Vou ler a referência com cuidado, mas já de cara, eu poderia dizer que ele tem uma diferença importante com o caso gaúcho. No exemplo que você cita, a "pesquisa" já havia sido feita, a tese já estava pronta. Ou seja, não se tratava de uma hipótese. Mas, sem dúvida, o caso apresenta um imbróglio danado. Porque, evidentemente, é obrigação do membro da disciplina resguardar alguns mínimos protocolos de rigor da dita cuja.

E sou obrigado a concordar com o Paulo, que presença de um profissional de Letras não seria garantia de nada.

Catatau, acho que são as duas coisas. É a biologização de fenômenos sociais, no fundo. Se é que dá para se inferir algo daquele abaixo-assinado, claro.

Ricardo, Márcio, enio, Guto, obrigado pelas excelentes contribuições. Volto mais tarde.

Idelber em janeiro 23, 2008 1:45 PM


#15

De fato, a história contribui para este excesso de cautela no tocante às pesquisas que tentam explicar fenômenos sociais através do estudo de sua base biológica. A eugenia, o racismo soi-disant científico e tals... Mas aí vem a questão-matraca, a pergunta que não quer calar: seria bom jogar a criança junto com a água do balde? Apesar da flagrante necessidade de controles quanto à pesquisa científica (viu, Smernauta?), de se perguntar também: quem seriam os controladores? Os inegáveis interesses político-econômicos por trás de muitas pesquisas devem servir para justificar a paralisação destas? De minha parte, observando essa caixa de comentários, noto que, a despeito de ponderações muito válidas, como a do Ricardo Cabral, que escreveu um bom post sobre o tema (link no blog do Hermenauta), existe uma gama de críticas de quem, ao que me parece, não leio nada a respeito da pesquisa (que ainda não foi feita!!!!), ou leu só o que saiu na imprensa.O tal manifesto e esses comentários dão um pouco da medida do perigo de tentar a tutela da ciência. Ora, como 99% dos assuntos hoje, tudo se resumiria a uma disputinha política, entre grupos pouco ou nada interessados no progresso científico.

Xtrmntr Bill em janeiro 23, 2008 2:00 PM


#16

idelber,
que bom o seu post! também achei um tanto tacanha a forma como se deu essa reação a pesquisa proposta, ainda mais que esse tipo de estudo é corrente faz tempo no mundo todo - os ingleses, principalmente, já há muito estão acostumados a buscar (e achar) na biologia a explicação para tudo quanto é comportamento humano; inclusive nas ciências humanas. enfim, bastante enriquecedor seu texto.

lu em janeiro 23, 2008 2:51 PM


#17

Bill,

Quanto a "quem seriam os controladores":

O controle social de atividades descentralizadas é um tema consagrado na ciência política. Eu não sou um especialista no assunto, sei que tem muita gente estudando isso, e na minha avaliação de alguém um tanto interessado no assunto, acho que no Brasil o implementação prática destes mecanismos ainda deixa muito a desejar.

Na área da pesquisa científica, porém, dada a enorme assimetria de informação existente entre os praticantes e os leigos (que entretanto são muitas vezes os financiadores da pesquisa, no caso dela ser feita com verba pública), esse problema é multiplicado por mil.

Particularmente, eu acredito que por boas razões as soluções "intra muros" que a comunidade científica criou para dar conta disso não são suficientemente eficazes no caso de certas tecnologias críticas. Por exemplo, "peer review" ou "comitês de ética" podem estar maculados por certos "modos de falha" típicos da comunidade científica, como diz Cosma Shalizi em um trecho que botei lá em um comentário no blog e transcrevo aqui:

"“A journal’s peer review is only as good as the peers it uses as reviewers. If everyone, or almost everyone, who referees for some journal is in the grip of the same mistake, then they will not catch it in papers they review, and the journal will propagate it. In fact, since journals usually recruit new referees from their published authors or people recommended by old referees, mistakes and delusions can become endemic and self-confirming in epistemic communities associated with particular journals.”"

Fica clara a charada. Se o mecanismo de controle é endógeno à comunidade científica, o perigo mora nessa relação incestuosa dentro das comunidades epistêmicas. Se o mecanismo de controle admite gente de fora dessas comunidades, há o sério risco de uma assimetria de informação tão grande que ou gera a possibilidade de que os pesquisadores enganem os "controladores", ou de que os controladores controlem a pesquisa segundo a sua ignorância.

Diante disso, eis-me aqui quase mudando de idéia quanto ao abaixo assinado, em um sentido não totalmente premeditado pelos seus promotores: é claro que continuo com os dois pés atrás quanto à idéia de que uma turba se arvore a controlar a pesquisa científica na base do grito. Por outro lado, o abaixo assinado certamente gerou não só calor como a necessária luz sobre o assunto. O ideal, claro, é que tais arenas fossem mais institucionalizadas, eu acho.

Desculpe aí o discurso, Idalba!

Hermenauta em janeiro 23, 2008 5:41 PM


#18

Idelber, muito bem argumentado o seu post. Só que acho que a questão não é simplesmente o de censurar uma pesquisa a partir da política, mas de questionar, do ponto de vista ético, sua legitimidade. Me parece que ninguém de bom senso mais questiona que as pesquisas científicas devem passar pelo crivo ético antes da sua realização. A existência de uma hipótese não é, por si só, suficiente para justificar que a pesquisa atenta aos requisitos mínimos da ética.

Isso implica enfrentar o argumento do Reinaldo Azevedo, de que é proibido pesquisar base biológica do delito. Ora, escrevi sobre isso no meu blog: desde os anos 60, com a criminologia da reação social, a possibilidade de relação "causa-efeito" do crime (inclusive sociológica) já foi desmitificada, de sorte que essa pesquisa só vai contribuir para estigmatização dos adolescentes. Por isso é questionável do ponto de vista ético.

Moysés Neto em janeiro 23, 2008 6:30 PM


#19

Tentando informar melhor a discussão do controle público de pesquisas com seres humanos, vale a pena saber que existe uma resolução do Conselho Nacional de Saúde que rege os Comitês de Ética (desculpe, não sei usar HTML tags):


http://www1.pucminas.br/documentos/pesquisa_cns.pdf?PHPSESSID=91c1a1a54f2bab1d446455b48d1ea5a8


Ver também no site do CNS, sobre a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa:


http://conselho.saude.gov.br/comissao/conep/resolucao.html


Alguns highlights:


A resolução principal é de 1996, é bem detalhada e me pareceu fruto de um trabalho sério. Ela não foi escrita do vácuo: sua origem está em declarações e acordos internacionais importantes.

Alguns itens interessantes:

"Toda pesquisa envolvendo seres humanos deverá ser submetida à apreciação de um Comitê de Ética
em Pesquisa."

"O CEP deverá ser constituído por colegiado com número não inferior a 7 (sete) membros. Sua constituição deverá incluir a participação de profissionais da área de saúde, das ciências exatas, sociais e humanas, incluindo, por exemplo, juristas, teólogos, sociólogos, filósofos, bioeticistas e, pelo menos, um membro da sociedade representando os usuários da instituição."

Concordo que é uma questão complicada, mas não é como ninguém se preocupasse com isso.

caliban em janeiro 23, 2008 6:53 PM


#20

De novo, obrigado pelos excelentes comentários. O caliban, o Moisés e o Hermê deram contribuições que se complementam. Acho que pouca gente discordaria que uma sociedade tem o direito de limitar a "liberdade individual" de pesquisa por motivos éticos como o que essa pesquisa suscita. Inclusive, pelo que li, o projeto em questão ainda não passou no Comitê de Ética das universidades envolvidas. Se não me engano, a apreciação está marcada para março.

O Hermê dá um exemplo muito bom no post dele: o chamado "neuromarketing". Ora, sem dúvida uma sociedade tem o direito de dizer: "não queremos que o cérebro de ninguém seja submetido a pesquisas com esse fim". Acho muito legítimo.

Que a pesquisa dos Profs. Flores e Costa tem boa pinta, isso não tem mesmo. Mas eu aprendi a não julgar pesquisas -- qualquer pesquisa -- com base em reportagens. E continuo lamentando que os signatários do abaixo-assinado tenham se expressado tão mal. Dois parágrafos sobre o que isso implicaria para os adolescentes em questão, por exemplo, teriam sido mais efetivos.

Mas mesmo ruim, o abaixo-assinado talvez tenha tido esse mérito: levantar a bola de uma discussão que deve, sim, passar por um crivo mais amplo. Afinal a pesquisa inclui seres humanos em condições muito precárias de se defenderem.

O que será que a Lucia Malla pensa de tudo isso, hein?

Idelber em janeiro 23, 2008 7:02 PM


#21

Eu escrevi o mais longo de meus comentários aqui e me arrependi. Deletei. Continha muitos detalhes pessoais sobre o Renato Zamora e eu acabaria demonstrando minha fonte de informações por vias indiretas.

Vamos mais devagar e cuidadosamente.

Bem, ele é muito inteligente, mas sua maior característica é a inata perspicácia para identificar o que causa escândalo. A frase em que ele sugere que os homossexuais poderiam ser evitados é típica e é claro que ele espera pela repercussão. Ele não tem nada contra os gays, o Zamora é muito razoável e alternativo para tanto, mas ele quer que pensemos: "Poderíamos criar uma super-raça livre deles!". É isso que faz (ou faria) a alegria do Zamora, entende? O que quero dizer é que, por trás de um interesse científico talvez real, haverá sempre uma distorção semelhante às do médico italino Antinori e suas parturientes de 70 anos... O homem quer ser famoso e até já cometeu atos graves contra si mesmo só para ser notado. Isso é claro, claríssimo para quem o conhece. Um minuto com ele e já se sabe do que o homem é capaz.

Então, quando leio os argumentos de vocês, as pessoas que conseguiu movimentar, penso que ele já chegou a seu objetivo. Talvez ele até mude de interesse agora e crie outra tese original (nem sempre ele acerta, às vezes é apenas cômico!). Os textos do Zamora sempre me pareceram voluntariamente irrefletidos e sua singeleza está sempre rondando a medida exata para... aparecer.

É como o volante brucutu que gosta de chutar em gol. Um dia, ele acerta o ângulo e todo o país fala nele.

Abraço.

Milton Ribeiro em janeiro 23, 2008 8:04 PM


#22

Confesso, Idelber, q li pouco sobre o assunto - seu post e o do Hermê. Não tive ânimo para checar as informações da pesquisa, porque logo de cara acho q há um jump lógico de causalidade muito sinistro (o mesmo q o Hermê detectou) na entrevista à Galileu. Imagino q aquela deva ter sido a forma de se expressar ao público q o pesquisador achou mais fácil, mas é pobre, em minha parca opinião.

Lembrando antes de mais nada q neurociência está beeeeem longe da minha área de conhecimento e pesquisa, meu pitaco sobre achar marcadores genéticos/moleculares da violência: eu acho extremamente possível q hajam vários. O pesquisador diz q certos indivíduos violentos "desligam o cortisol" (como endocrinóloga, posso dizer q só isso já gera uma cascata de eventos de difícil track no final das contas), o Kenji lá no Hermê cita os índices de testosterona (outra variável complicada), e por aí vai. E aí é q mora o problema, nesse monte de pecinhas do quebra-cabeça. Porque a interação de todos eles é q conta, e não um ou poucos isolados. Algo como se há X, Y, Z, T, O presentes no conjunto genômico/transcriptômico/proteômico do sujeito, e H, G, K, P, E e A ausentes, a pessoa terá estatisticamente 90% (é um exemplo/chute) de chance de ser mais violento. Não precisa ser excelente matemático para perceber q a análise combinatória dessas variáveis já dá um número absurdo de possibilidades. Em q lugar da distribuição estatística o pesquisador vai escolher os outliers para essa confusão toda? É claro, os computadores estão aí pra isso, ajudar nessas tarefas hercúleas, mas mais q apenas mapear para gerar um rótulo simples, é preciso entender todas essas interações tintim por tintim, a natureza bioquímica delas... ainda tem muito chão pela frente pra se pesquisar, antes de chegarmos nessa conclusão comportamental q é tão complexa para a sociedade.

Lucia Malla em janeiro 23, 2008 8:46 PM


#23

Caro Idelber,
Parabéns pelo equilíbrio de seu texto sobre um tema tão melindroso e elicitador de paixões. A elaboração desse abaixo-assinado foi um anacronismo: para que jogar holofotes sobre um projeto de pesquisa de relevância natimorta? Explico-me: a complexidade do tema exige interdisciplinaridade de fato, não "pró-forma".O grupo a ser estudado é ínfimo (estatisticamente insignificante).O estabelecimento de um grupo-controle confiável para confrontar os resultados é praticamente impossível (como qualificar-quantificar infração e seu contraponto?).Historicamente as análises neurofisiológicas e neuroanatômicas de estados comportamentais são inconsistentes, mesmo com todo "progresso" da neuroimagem e da neurofisiologia- eu, particularmente, muito lamento esse fracasso). A comunidade científica deve ser suficientemente séria para não estimular a histeria midiática da última década no que se refere à Genética e às Neurociências.Concorda?

homo antiquus em janeiro 23, 2008 9:36 PM


#24

Difícil acrescentar algo à discussão, dado o (alto, claro) nível dos interlocutores. Só diria que parece-me risível a referência às 'diferenças de aptidão entre os sexos'. Um cabra desses não tem que se informar antes de falar bobagem? David Le Breton, por exemplo, cita estudos etnográficos que identificaram sociedades onde os papéis chegam a se inverter (comparados aos nossos homem e mulher civilizados) - perdão, fico devendo a referência, não tenho o livro aqui.

Theo em janeiro 23, 2008 10:21 PM


#25

O desejo de identificar nos fatores biológicos determinantes sociais é a face especular do ideal racionalista de traduzir a experiência segundo categorias de um eu insular. Traduz o desejo que se preserva nos dois pólos de identificar um ponto fixo que sirva de norma para as condutas humanas -- daí o conflito político.

É a responsabilidade pela configuração histórica que está em jogo. Reinaldo tentando entregá-la ao fluxo natural e, portanto, em alguma medida desonerar o Estado das obrigações cujo cumprimento cabe aos governos inclinados a realizações sociais -- o que parece contrariar sua agenda política -- e da parte dos que assinaram a carta, o interesse de preservar tal responsabilidade. Não posso deixar de dizer que simpatizo com a opinião de que os fenômenos sociais são complexos irredutíveis, que sua composição só pode ser entendida por relações que nunca se reduzem a causalidade entre dois elementos. Além disso confesso que, a despeito da minha ignorância quanto aos instrumentos teóricos mobilizados, não consigo imaginar um discurso que pretenda seriamente estabelecer fatores biológicos como causa única de qualquer evento social. Pelo que você relatou, também não parece ser essa a proposta do professor. O que nos leva de volta ao conflito político como causa de tudo. Nesses momentos o melhor mesmo é invocar a regra sagrada do futebol amador e endereçar aos pesquisadores o mesmo cuidado que destinamos aos pernas de pau, cuidado esse plasmado na regra: "Deixe que a natureza marca!".

Leonardo Bernardes em janeiro 23, 2008 10:53 PM


#26

Puxa, como agradecer comentários tão bons?

Eu sabia que a Lucia iluminaria ainda mais a coisa: a descrição da quantidade de fatores envolvidos e da dificílima correlação entre eles está clara, eu acho, mesmo para um leigo como eu. Obrigado, Lu. Muitas das críticas das ciências sociais e humanas às pretensões de descrição comportamental de certa ciência biológica passam exatamente pela lógica que você coloca.

O deixe que a natureza marca é uma ótima metáfora futebolística (eu sou fã delas, como Lula!) para apontar o que deveria ter sido feito aqui -- especialmente depois dos dados trazidos pelo Milton. Compartilho com o homo antiquus a preocupação com a histeria midiática envolvendo certas pesquisas -- embora, aqui no caso, talvez a barulheira tenha sido benéfica. Ainda não se sabe.

Certíssimo, Theo. Aliás, doses cavalares de antropologia deveriam ser obrigatórias para cientistas que pretendem isolar pautas e tendências comportamentais.

Idelber em janeiro 23, 2008 11:31 PM


#27

Pode até estar mal escrito. Mas eu entendi o que o protesto quis dizer. Que proteçao uma criança que nasceu pra ser violenta terá? o ECA nao vai valer pra ela.

mary w em janeiro 24, 2008 1:56 AM


#28

eu entendo isso, mary. Mas eu precisava escrever este post, porque achei um erro estratégico grave terem feito a coisa daquele jeito: deram a faca e o queijo para o cara posar de perseguido.

Mas devo dizer que depois desta caixa de comentários estou concordando mais e mais com o seu post.

Idelber em janeiro 24, 2008 4:43 AM


#29

Recomendo algo que saiu em comentário no Ôlho-Dínamo:

"O problema, como sempre, são os pressupostos. No que toca à circunscrição de um corpus, só pra começar. Um estudo sobre a base genética da violência talvez não seja, por si só, "horrível". Mas a naturalidade com que os pesquisadores se encaminham a jovens infratores, bem... Não sou eu que vou ensinar a missa ao vigário, mas veja: se o foco da pesquisa são os genes, eu suponho que uma abordagem mais context-free viria bem a calhar -- e isso para dizer o mínimo. Manifestações de violência são freqüentes lá onde as pessoas não são pobres nem fodidas nem apanharam na infância, sabe? Playboys espancadores de prostitutas, motoristas prepotentes e infratores, quer-me parecer, são tão freqüentes quanto delinqüentes juvenis. Mais: são também freqüentemente HOMICIDAS -- mesmo que disso não se faça muita estatística. Ou, se se faz, dela não se faz muito caso, convenhamos. Paúra mesmo quem dá é pobrinho batedor de carteira." (Marden Müller)

César em janeiro 24, 2008 5:25 AM


#30

Moro em Porto Alegre e aqui está "o maior bafafá" sobre esse caso. Hoje (24) inclusive saiu uma matéria de página inteira sobre o assunto na Zero Hora (o jornal de maior tiragem daqui). Será que um projeto de pesquisa feito por sociólogos e antropólogos com os mesmos jovens causaria tanta polêmica? A "questão da genética" pesa porque as pessoas se recordam daquele (infeliz) geneticista que associou cor da pele à "burrice congênita"...

João Barreto em janeiro 24, 2008 9:52 AM


#31

Esse pessoal do abaixo-assinado foi muito infeliz. Estão fazendo com o grupo de pesquisadores o que fizeram com Galileu Galilei. O crime tem origens múltiplas e é um fenômeno muito complexo. Impedir a pesquisa é um retrocesso para o conhecimento humano.

Aliás, o ECA existir siginifica o fim da "delinquência juvenil", tema estudado universalmente pela moderna Criminologia? Claro que não.

Faltou respeito acadêmico (e científico) com os pesquisadores.

Lélio Braga Calhau
www.novacriminologia.blogspot.com

Lélio Braga Calhau em janeiro 24, 2008 11:06 AM


#32

Coisa boa de se ter um blog é isso: continuam chegando as informações sobre o Prof. Zamora. Nenhuma delas muito abonadora.

Idelber em janeiro 24, 2008 1:53 PM


#33

Concordo que talvez haja algo que não valha a pena pesquisar, mas talvez meus limites sejam mais amplos.

No caso do professor Flores, acho válida a pesquisa. Mas acho também que os resultados serão inconclusivos ou limitados. (por exemplo, ele pode quando muito descobrir que há uma chance maior do que zero de que exista algum componente genético / processo biológico que influencia a violência -- e vai ressalvar que não se pode descartar a hipótese de que o ambiente talvez tenha influência maior)

Por conta disso, se eu fosse gestor de uma CNPQ ou de uma FAPESP e tivesse que escolher financiar esta pesquisa, ela possivelmente não estaria entre minhas prioridades. Se a Gerdau topou financiar, problema dela e aplaudo o avanço da ciência (mesmo que for um avanço marginal).

Enfim, sintetizando: Pesquisa do professor Flores: Inútil? Não. Muito relevante? Também não. Vale a pena fazer? Se ele quiser e eu não tiver que pagar, vai lá, divirta-se.

No caso do Neuromarketing, citada como exemplo de coisa a ser evitada e não financiada, eu acho que eu defenderia a pesquisa. Talvez eu não saiba direito o que seja neuromarketing, mas pelo pouco que pude entender, trata-se da aplicação de pesquisas sobre como funciona a mente para vender mais coisas.

Defendo a pesquisa em Neuromarketing, nesta definição, pelas seguintes razões:

1. Neuromarketing seria, antes de tudo, neurociência. Um marketeiro está interessado em duas coisas: Primeiro, como uma pessoa percebe informações, segundo, como uma toma decisões. É o processo de quem compra qualquer coisa. Acontece que esse processo é interessantíssimo de ser estudado do ponto de vista neurológico, e os resultados podem ser usados para várias coisas, desde como médicos avaliam informação e tomam decisões sobre diagnóstico e tratamento até como mostrar à motoristas que eles superestimam sua capacidade de direção.

Há estudos para isso e para outras coisas. Um marketeiro bebe dessas fontes sim, e vai usar os resultados para tentar vender mais coisas sim. Agora, até que ponto vamos proibir pesquisas com o argumento de que os resultados podem ser utilizados para neuromarketing? Acho mais perigoso tentar achar este limite do que deixar a pesquisa livre.

2. Parece-me que há o pressuposto de que estudar como vender mais coisas é ruim porque seria manipulação. Acho que o ser humano é bem mais complexo do que isso. Se se descobrisse um método infalível (que hoje não existe) para empurrar um produto para outra pessoa, logo haverá mil e uma empresas fazendo isso, acabando com a utilidade do método. O consumidor, bombardeado de mensagens mandando ele fazer isso e aquilo, muda a forma como toma decisões, jogando no lixo anos e anos de pesquisa em neuromarketing.

No final das contas, na prática mesmo, o que é que você está evitando impedindo pesquisas de neuromarketing? Que uma empresa x consiga convencer 2% a mais dos consumidores a comprar o seu produto e não os do concorrente, por um certo período de tempo. Eu acabo chegando na pergunta: quanto é o valor disso para a sociedade? Compensa o custo de proibir? Outra vez, acho mais perigoso proibir do que deixar a pesquisa livre.

Como um auxílio aos meus argumentos, escrevi este post:

http://trpz.org/2008/01/23/leis-judaicas-e-uma-lembranca-romana/

Enfim, tudo isso para dizer que sempre vou desconfiar bastante quando alguém propor proibições de pesquisar alguma coisa. Acho que os motivos têm que ser bem fortes para que algum ramo de pesquisa seja proibido. Porque senão, as regras que impomos podem ir contra o que queremos...

Rafael M em janeiro 24, 2008 2:18 PM


#34

Rafael M,

Em sendo eu o sujeito que fez a alusão ao Neuromarketing, acho que me cabe fazer a réplica.

No limite eu até acho que a pesquisa em Neuromarketing não deveria ser proibida, mas sua aplicação sim (mais sobre isso adiante). O problema é que há uma lembrança, não romana, mas grega, que me deixa cético quanto a isso: a caixa de Pandora. Se for preciso explicar essa metáfora, o que quero dizer é que certas tecnologias, depois de testadas e comprovadas, são muito difíceis de serem controladas.

Agora ao Neuromarketing propriamente. É difícil falar em abstrato sobre algo que ainda não existe, mas em seu discurso, julgo vislumbrar um problema de princípio. Deixe-me reproduzir o trecho:

"Se se descobrisse um método infalível (que hoje não existe) para empurrar um produto para outra pessoa, logo haverá mil e uma empresas fazendo isso, acabando com a utilidade do método. O consumidor, bombardeado de mensagens mandando ele fazer isso e aquilo, muda a forma como toma decisões, jogando no lixo anos e anos de pesquisa em neuromarketing."

Claro, há muita gente boa que acha que a ambição do neuromarketing é ilusória ou inatingível. Mas suponhamos por um momento que não. Suponhamos que seja mesmo possível desenvolver técnicas persuasivas tão poderosas que uma pessoa desavisada _ ou pior, mesmo uma pessoa ciente do que está acontecendo _ seja completamente incapaz de resistir ao apelo.

Temos aí problemas de duas ordens:

a) Você, acertadamente, lembrou a questão das externalidades dessa pesquisa, chamando a atenção de que o processo geral poderia ser usado em muitas outras coisas benignas. Faltou lembrar que ele também poderia ser utilizado para muitas outras coisas malignas. Nem preciso lembrar o problema que uma ferramenta assim representaria na mão de um regime político inescrupuloso, por exemplo _ ou mesmo nas mãos de um candidato inescrupuloso. Então a equação custo/benefício tem que ser completada em todos os seus termos.

b) Mesmo desconsiderando os outros usos potencialmente malignos da tecnologia, sua caracterização das consequencias possíveis é muito incompleta. Porque uma pessoa submetida a este tipo de propaganda não ficaria na dúvida entre dois produtos: ele compraria os dois, três, quatro, até quebrar, ou assaltar alguém para poder comprá-los. O que quero dizer é que esta tecnologia geraria efeitos muito, muito piores do que os piores pesadelos de quem é contra as drogas, por exemplo.

Particularmente, fico aqui pensando nas consequencias legais. O Código de Defesa do Consumidor, por exemplo, em seu capítulo sobre propaganda, diz o seguinte:

"Art. 36. A publicidade deve ser veiculada de tal forma que o consumidor, fácil e imediatamente, a identifique como tal.

(...)

Art. 37. É proibida toda publicidade enganosa ou abusiva.

§ 1° É enganosa qualquer modalidade de informação ou comunicação de caráter publicitário, inteira ou parcialmente falsa, ou, por qualquer outro modo, mesmo por omissão, capaz de induzir em erro o consumidor a respeito da natureza, características, qualidade, quantidade, propriedades, origem, preço e quaisquer outros dados sobre produtos e serviços.

§ 2° É abusiva, dentre outras a publicidade discriminatória de qualquer natureza, a que incite à violência, explore o medo ou a superstição, se aproveite da deficiência de julgamento e experiência da criança, desrespeita valores ambientais, ou que seja capaz de induzir o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa à sua saúde ou segurança.

§ 3° Para os efeitos deste código, a publicidade é enganosa por omissão quando deixar de informar sobre dado essencial do produto ou serviço."

Dificilmente uma propaganda turbinada pelo neuromarketing deixaria de se enquadrar na categoria "propaganda enganosa" _ e de formas muito sutis e que demandariam um tremendo esforço interpretativo do Judiciário. Porque a enganosidade, no caso, não estaria no produto ou serviço comercializado, mas na indução feita ao consumidor de que ele precisa de alguma coisa da qual REALMENTE não precisa. O mais fantástico é que não é difícil imaginar formas de demonstrar isso cabal e cientificamente.

Idelber, desculpe do discurso [2]! :)

Hermenauta em janeiro 24, 2008 3:58 PM


#35

Hermê, meu caro, para de pedir desculpa! A página espicha e a casa é sua.

De todos :-)

Idelber em janeiro 24, 2008 6:53 PM


#36

Muito bem lembrado pelo Hermenauta o mito da caixa de Pandora.
Creio porém que, como metáfora do Neuromaketing não seja apenas uma possibilidade, uma ameaça.
Há um artigo da Varda Burstyn no The Socialist Register 2005 (em português mas não sei se o link será clicável. Se não for o
link para é; http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/social/2005pt/social.html) que partindo da leitura de "Admirável Mundo Novo' e ' 1984, trata do Neuromarketing não como coisa inexistentes mas sim como um recurso em desenvolvimento. E segundo esse artigo é muito natural que uma empresa privada financie o tal projeto.
Depois de ler o artigo é impossível resumir a questão somente aos Neuromaketeiros. Seria banalizar a questão.
Mas o absurdo da proposta de RZF esta , como já foi dito aqui, exatamente no fato dela embora não ser novidade, ser clara nos objetivos.

Fm em janeiro 24, 2008 7:33 PM


#37

Idelber

nesse conflito que só conheci aqui, fico já com todos os pés atrás depois do comentário do Milton. mas de qualquer modo,não entendi algumas coisas...Cristérios de inclusão, qual é a definição de criminoso para esse estudo, financiado por quem, o que vão analisar no cérebro e com que metodos(invasivos ou não), que comissão de ética vai dar o consentimento, enfim, desculpe mas basicamente não entendi que tipo de reservas coloca o tal estudo.
concordo completamente com as observações do Hermenauta no post dele. só numa coisa o outro tem razão: "A pesquisa não foi nem mesmo protocolada e já enfrenta reação"
é verdade, onde está o protocolo, afnal, para se saber do que estamos a falar?
no resto mete o pé na argora.

em principio, se tudo estiver acima de qualquer suspeita depois de analisado por um conselho de ética independente e for devidamente fundamentado, nem vejo muito por onde a discussão pode ir. os 50...tudo depende do que vão realmente fazer. podem ser poucos, ou podem representar uma boa amostra, se for encontrado algo completamente anormal.

um abraço

cristina em janeiro 24, 2008 8:08 PM


#38

Prezado Idelber

Achei seu blog por acaso no google. É um dos bons blogs brasileiros. Claro, provocador e inteligente. Quanto à pesquisa do atabalhoado Dr Flores e do brilhante dr Costa, repito o comentário de um dos seus leitores. Este tipo de pesquisa é absolutamente corriqueira em diversos países. Distúrbios no lobo frontal são frequentemente associados a alterações comportamentais que se manifestam por crises de violencia e agressividade. Certas substancias tóxicas tambem podem provocar este efeito (todo mundo conhece aquele sujeito pacato que quando toma umas cervejas quer quebrar o bar). Qual é o grande problema em se buscar compreender um pouco mais como a ativação descoordenada neuronal em certas área cerebrais poderia contribuir para comportamentos agressivos ? Como crítica aos comentários do Dr Flores fica a pretensão de se conseguir tratamentos para este comportamento com a pesquisa proposta. A mesma não envolve tratamentos farmacológicos e nem tem este end-point arrolado nos objetivos. No máximo teremos alguns dados neurofisiológicos interessantes que poderão jogar luzes a pesquisas futuras. Quanto ao número de pacientes escolhidos, devo argumentar que a amostragem é adequada, dependendo da diferença estatística esperada entre os grupos de pacientes a serem estudados. Enfim " much ado about nothing"...

Um abraço e mais uma vez parabens pelo seu blog.

Bernardo Garicochea
prof Titular de Oncologia da PUC-RS

Bernardo em janeiro 24, 2008 9:02 PM


#39

Prezado Prof. Bernardo:

Muito obrigado pelo comentário; é sempre bom ter a voz do especialista nestes momentos. Eu entendo o raciocínio, mas creio que parte do imbróglio se justifica pela escolha do corpus - e aqui a sociologia pode nos ajudar. Não há indicadores sociológicos que confirmem que o comportamento violento se manifeste de forma mais acentuada nos sujeitos escolhidos (internos da FASE, ou seja, garotos das classes populares) que, digamos, entre os sujeitos das classes abastadas que encontramos por aí espancando domésticas, por exemplo. A escolha do corpus reforçaria, então, um estigma de natureza classista. Sem dúvida, nenhum humanista ou cientista social responsável e consequente se consideraria equipado para julgar a relevância do estudo neurofisiológico em si. O que preocupa alguns de nós é o critério (ou ausência de critério) que presidiu a escolha do corpus.

Um abraço fraterno e obrigado pela participação,

Idelber

Idelber em janeiro 24, 2008 9:48 PM


#40

Idelber,

Assino embaixo da sua resposta ao Bernardo.

César em janeiro 25, 2008 5:44 AM


#41

Idelbert

Obrigada pela sua resposta.
Pois exactamente, o meu comentario vai no sentido do comentador anterior. ou seja, depois de protocolado, analisado, etica e tecnicamente aceite, os motivos, quaiquer que sejam, ficam imediatamente em segundo plano. aqui, seria assim. A NÃO SER QUE...haja motivo politico importante para que não se realize, mas isso é outra questão.

nós vivemos ums discussão importante a gora com o fecho de varias urgencias no pais. a medida é extremamente impopular, mas estando tecnicamente bem fundamentada, não há alegação possivel...

um abraço

cristina em janeiro 25, 2008 5:49 AM


#42

Idelber

deixe-me provoca-lo quanto ao corpus, e por isso é que perguntei qual é a população alvo...partindo do principio que criminosos estão presos pelos seu crimes e o estudo incidiria sobre presidiários, "classes abastadas que encontramos por aí espancando domésticas," por exemplo, estão onde? ou seja, há "classes" de pessoas que sendo criminosos não seriam apanhados no grupo de estudo? :p

cristina em janeiro 25, 2008 8:12 AM


#43

Quanto à intervenção do Prof. Garicochea, eu teria a dizer o seguinte:

Tenho um post hoje sobre um outro grupo do qual me lembrei ter tido algum contato há tempos, no Rio de Janeiro, e que realiza pesquisas semelhantes. No entanto, o fato de tal pesquisa ser "corriqueira" pode ser interpretado, alternativamente, como uma prova de que realmente a pesquisa científica é feita sem muito controle social (para o bem ou para o mal). No sentido de que simplesmente não estão na agenda pública, já que vem sendo desenvolvidos sem que a opinião pública sequer tenha conhecimento deles.

Hermenauta em janeiro 25, 2008 8:28 AM


#44

Hermenauta desculpe meter-me, mas acho esta discussão interessante..

tem que ter "controlo social", seja lá isso o que for? quanto a mim não.... tudo se resume à ética! ou existe controlo ou não, é exactamente para isso que existem conselhos de ética, para avaliar da legitimidade de determinados ostudos.
o que eu quero dizer é: coloca nas mãos da opinião publica decidir? e se não, quem serão os eleitos que estão nessas condições?

quando se diz acima que é corriqueiro, é corriqueiro obedecendo a regras, entendo eu, ou você entendeu diferente?

cristina em janeiro 25, 2008 10:15 AM


#45

Cristina,

a) Controle social não é a mesma coisa que submeter uma atividade à banalização da opinião pública. Não sei como se dá aí em Portugal, mas aqui no Brasil, a Constituição de 88, por exemplo, criou uma série de mecanismos participativos para a definição de políticas públicas, como os vários Conselhos, onde entidades da sociedade civil têm voz e voto. Há muitos outros tipos de experiência em controle social; tenho conhecimento da riqueza desse campo, mas realmente não sou um especialista no assunto.

b) eu entendi "corriqueiro" no sentido de que "não é original"...

abçs!

Hermenauta em janeiro 25, 2008 11:16 AM


#46

Caro Hermenauta,

Por isso eu gosto deste blog. As discussões sempre avançam. Achei intrigante o argumento da Caixa de Pandora, me fez pensar. Tenho alguns contra-argumentos.

Antes de mais nada, vale dizer que o seu raciocínio da Caixa de Pandora é irrefutável sob certo ângulo. De fato, podem haver tecnologias que uma vez soltas no ar serão difíceis de controlar. Não consigo imaginar uma neste momento (pensei em energia nuclear e genética, mas os benefícios ultrapassaram os malefícios -- e ambas conseguiram ser controladas).

Mas vamos usar a imaginação. Inventaram algo que concordaremos que é ruim para a sociedade. Como é esse algo? Será um aparato tal qual você descreveu: "uma pessoa submetida a este tipo de propaganda não ficaria na dúvida entre dois produtos: ele compraria os dois, três, quatro, até quebrar, ou assaltar alguém para poder comprá-los. O que quero dizer é que esta tecnologia geraria efeitos muito, muito piores do que os piores pesadelos de quem é contra as drogas, por exemplo". Eu também não gosto disso.

Quero impedir que tal tecnologia seja criada. Quero fazer algo para impedir que as pessoas sejam manipuladas dessa forma. Quero aumentar os impostos brasileiros em 100% para criar estruturas de controle para impedir que tal tecnologia seja criada. Vamos criar todo o aparato burocrático para controlar esse bicho.

Humm... Soou absurdo. Mas porquê? É que não vale a pena. Os gastos que eu propus para controlar as pesquisas são claramente excessivos. Nesse caso, significa que concordamos que não faz sentido tentar controlar pesquisas em Neuromarketing a qualquer custo. Há um limite para quanto quero gastar com isso. O diabo é decidir qual é esse limite. Até que ponto estamos dispostos a ir para controlar o Neuromarketing?

Vejamos. Na minha opinião, acho que esse limite deveria estar ligado ao risco da coisa ruim acontecer. Há um certo risco (minúsculo) de um vaso cair na minha cabeça enquanto ando na rua. Mas não ando de capacete, porque andar de capacete me custaria em termos de conforto e aparência. Mas o risco de eu cair da minha moto é bem maior, e eu ando de capacete porque o desconforto do capacete é vastamente superado pela segurança a mais.

Vamos então decidir até que ponto vamos para controlar o Neuromarketing. Se você está disposto a criar controles e conselhos de ética para controlar as pesquisas e a aplicação disso na nossa vida cotidiana e eu não, deve ser porque não concordamos quanto ao risco de alguém criar a "Ferramenta 1984 de Neuromarketing".

Neste caso, coloco porque acho altamente improvável o surgimento de tal monstro da publicidade:

1. Tudo o que eu sei sobre o cérebro me diz que temos uma maquininha complexa e difícil de entender. Já se comprovou que somos bem susceptíveis a certas mensagens, mas mesmo nos Milgram experiments (que analisavam o quanto as pessoas poderiam ser induzidas a "matar" outra) quando se explicava a natureza do exercício as pessoas aprendiam sobre si mesmas e tornavam tal forma de indução menos efetiva. Outros experimentos que tentavam induzir as pessoas a trabalhar mais dado o ambiente (como os de Hawtorne) só provaram que as pessoas são bem complicadas de influir numa determinada direção. Enfim, difícil.

2. Conheço um pouco o estado da arte em marketing. Já vi o currículo de boas escolas de negócio (de fora do Brasil). Não há neuromarketing. Se algo assim existe, as pessoas que deveriam utilizar tal ferramental não sabem que existe essa área -- porque não aprendem sobre isso. Nunca vi tal tema ser discutido -- o que, concedo, não quer dizer que não exista, só significa que quem entende de marketing parece não estar muito empolgado com o tema.

3. Fiz uma pesquisa rápida no ProQuest (um search engine de journals acadêmicos internacionais). Há exatos 10 documentos publicados em journals acadêmicos com a palavra no título ou no abstract. São 3 de 2007, 4 de 2006 e 3 de 2005. Dá para ver que não é um tema muito analisado no mundo acadêmico -- e como o ProQuest tem todos os bons journals, significa também que há poucos bons pesquisadores preocupados com isso.

4. Dei uma lida nos abstracts desses 10 artigos. Há um, publicado recentemente no "Décisions Marketing" de Paris, que quer discutir os perigos possíveis de se usar MIR (magnetic image ressonance) em marketing. Outro só cita um artigo que diz que a imagem que aparece no scan muda se a pessoa toma Coca-cola ou um refrigerante sem marca, e diz que se deveria pensar em como usar essa informação para algo útil. Outro é este artigo (o único que vai na direção de nosso medo). Este está no Journal of Consumer Research, se vocês quiserem pesquisar. Um último artigo fala que esse negócio de Neuromarketing é uma grande bobagem (foi publicado no Journal of Targeting, Measurement and Analysis for Marketing). Os outros usam a palavra por outros motivos. A evidência não me causa calafrios.

Com tudo isso, voltamos à questão. Até onde quero ir para controlar o desenvolvimento do Neuromarketing? Agora que pesquisei um pouco mais, não faço questão nem de sair da cama. Que quem estiver interessado se divirta pesquisando sobre o tema. Não tenho medo da Caixa de Pandora.

E você?

Rafael M em janeiro 25, 2008 1:49 PM


#47

Muito bons argumentos, Rafael M. Vamos lá:

a) Você foi ao ponto: no espírito da gestão moderna, esta é uma discussão que sem dúvida traz à baila o assunto "relação custo/benefício". O próprio conceito de "custo/benefício" é um tanto controverso nas ciências sociais (menos, é claro, na Economia), mas vamos por agora adotar uma postura benevolente para com a técnica. Problema: entra aí o Princípio Precaucionário. Há muitas formas de enunciá-lo, mas a mais comum é esta: se existe uma ação, ou política, cuja adoção pode significar um dano irreparável à comunidade, o ônus da prova de que esse risco é inexistente está com os proponentes da ação e não com seus opositores.

O Princípio, é lógico, causa uma controvérsia por si só no mundo dos tomadores de decisão; por isso, por enquanto, a não ser que provocado, vou deixar a coisa nesse pé. Só aduzo que mesmo intelectuais públicos insuspeitos de "progressismo", como o Juiz Richard Posner, tido com um dos criadores da law&economics, acham o seguinte:

"Question: … Nothing in the Constitution does (or could) provide a guarantee of safety. I suspect that I am statistically much more at risk of being run over by a car than of being killed by a terrorist (even though I live within five miles of the White House). Should the government ban all automobiles to protect me?

Richard Posner: If your premise were correct, your conclusion would follow. But how do you know you’re at less risk of being killed by a terrorist than being run down by a car? The risk in the sense of probability of being killed by a nuclear bomb attack on Washington, a dirty-bomb attack, an attack using bioengineered smallpox virus, a sarin attack on the Washington Metro (do you ever take the metro?), etc., etc., cannot be quantified. That doesn’t mean it’s small. For all we know, it’s great. Better safe than sorry."

"Better safe than sorry" é uma das leituras possíveis do princípio precaucionário (embora em seu livro Catastrophe:Risk and Evidence Posner não admita que usa o princípio, mas uma variante moderada que preserva o núcleo da análise custo/benefício _ apenas, com a "aversão ao risco" inteiramente assumida).

Bem, eu acho que sendo a raça humana uma espécie totalmente social e dependente da ação coordenada e da interação social para sobreviver enquanto espécie, qualquer tecnologia que altere radicalmente os termos da interação dentro dos grupamentos humanos pode ser equiparada a uma catástrofe. E nesse caso acho que o princípio precaucionário tem validade total.

b) Incidentalmente, acho que sua avaliação do custo do controle social da pesquisa está chutadíssimo para o alto. Ele seria, provavelmente, uma fração insignicante do próprio custo da pesquisa - até porque poderia se beneficiar de efeitos de escala.

c) Sua consulta ao Proquest foi prejudicada pelo fato de que poucos pesquisadores dignos de ser chamados assim submeteriam um projeto de pesquisa com o nome "Neuromarketing" a um agente financiador público (que é responsável pela maior parte da pesquisa básica e não-protegida ou secreta). Você teria muito mais êxito utilizando outros termos, tais como "neuroeconomics". "Neuromarketing", por exemplo, produz 325 hits no Google Scholar, contra 1490 de "Neuroeconomics". Para não falarmos de outros termos que poderiam ser usados; "neural correlates" mais "moral reasoning" traz mais 189 resultados, por exemplo.

Hermenauta em janeiro 25, 2008 4:04 PM


#48

Hermenauta,

Novamente, uma resposta intrigante. Vou pensar no assunto. Mas antes de escrever uma quadréplica (isso existe?), queria entender melhor no que concordamos e no que discordamos. Gostaria que você comentasse sobre três coisas de sua resposta.

1. Na sua visão, como o neuromarketing poderia ser usado de maneira maléfica? Onde reside o medo (talvez você esteja vendo algo que eu não esteja).

2. Na sua visão, qual a probabilidade de que tal mecanismo maléfico seja desenvolvido? Você acha que já existe, ou que a pesquisa já está em andamento?

3. Que mecanismo de controle social você implementaria para impedir o desenvolvimento do neuromarketing? Como ele funcionaria?

Fora do assunto, fiquei curioso sobre como o conceito de custo/benefício é controverso nas ciências sociais. Fica como sugestão para outro post.

Rafael M em janeiro 25, 2008 5:25 PM


#49

Idelber, o assunto já esfriou um pouco, mas acabei de ver uma matéria no El País que faz um apanhado interessante sobre pesquisas em neuro e psicobiologia. Essa matéria tb está no UOL, em português, mas é só para assinantes.

Um abraço

Ricardo Cabral em janeiro 26, 2008 8:56 AM


#50

Obrigado pelo link, Ricardo.

Rafael e Hermê, venho acompanhando com interesse o papo de vocês.

E continuo insistindo na imensa contribuição da psicanálise, é claro. Aqui vão dois links: uma definição básica do conceito de agressividade em Lacan e o ensaio clássico de Lacan sobre o tema (o primeiro link em inglês, o segundo em francês -- infelizmente não encontrei equivalentes em português).

Idelber em janeiro 26, 2008 9:24 PM


#51

eu gostei muito do projeto comtra há VIOLÊNCIA e AGRESSIVIDADE

tauana em maio 9, 2008 11:10 AM


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