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Um blog atleticano e antropocêntrico.



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Mini-observatório da imprensa
1. Em coluna para a Folha de São Paulo em 23/08/2008, Fernando Rodrigues afirma que John McCain é a "síntese de uma ala republicana liberal". Evidentemente, ninguém nos EUA caracteriza McCain como liberal, nem ele mesmo.

2. Na edição 2.020 da Revista IstoÉ, sob o título Símbolo da fundação de Roma, o monumento Lupa Capitolina é mais novo do que se imaginava, a reportagem afirma: ... os historiadores sempre acreditaram que fora erigido por volta de 500 anos antes da era cristã. Como é esse monumento que data o nascimento da capital italiana, fixou-se então, logicamente, o surgimento de Roma nesse mesmo período (...) Na semana passada ocorreu uma reviravolta envolvendo tal marco: arqueólogos revelaram que a estátua é datada do ano 1300 a. C, ou seja, Roma é mais jovem do que se supunha.... A Revista IstoÉ se esqueceu de que 1.300 a.C é mais velho que 500 a.C., ou seja, deu a impressão de não saber que, antes de Cristo, a contagem das datas se faz para trás (obrigado, Serbão).

3. Em coluna publicada na Folha de São Paulo em 06 de agosto, Abram Szajman, presidente da Federação do Comércio de São Paulo, diz que o voto hispânico "já alcança cerca de 25% dos eleitores" dos EUA. Errou só por 100%. Segundo os últimos números oficiais, o eleitorado hispânico dos EUA é 12,5%.

4. A Folha Online relata que o último spot publicitário da campanha de Obama afirma que McCain é um político submisso às grandes petrolíferas e lembra que o senador conservador recebeu milhões em contribuições eleitorais dessa indústria. O anúncio divulgado hoje por McCain procura desfazer esses mitos. A palavra mitos vem assim, sem aspas. Alguém esqueceu de avisar à Folha que as milionárias contribuições das petrolíferas a McCain não são mitos.

5. Em entrevista a João Pereira Coutinho na Folha Online, Daniel Piza, o homem que enforcou Jesus Cristo e transformou o entrudo em "dança de salão", afirma que muitos na verdade ainda estão em Bakunin, "toda propriedade é um roubo". A frase "a propriedade é um roubo", evidentemente, é de Proudhon (obrigado, Tiago Mesquita).



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segunda-feira, 07 de janeiro 2008

O livro do ano

ubmn.jpg Trata-se, na humilde opinião deste blog, do livro mais importante publicado no Brasil em 2007. A utopia brasileira e os movimentos negros, de Antonio Risério, já nasceu clássico. Racismo, cotas raciais, mestiçagem: nada disso já pode ser discutido seriamente sem referência a este livro corajoso e debochado, anti-acadêmico mas erudito, politicamente incorreto mas incendiário. Risério é uma voz quase que solitária no debate sobre estes temas. Conhecedor profundo das culturas negromestiças brasileiras – autor, afinal de contas, de Carnaval Ijexá e Oriki Orixá -- Risério vem alertando: é um suicídio jogar fora o bebê da mestiçagem junto com a água suja do combate ao racismo. Importar as lentes bicolores americanas é importar o que os Estados Unidos têm de pior.

É difícil resumir a tese de um livro tão rico (há até um capítulo sobre o futebol), mas aí vai minha melhor tentativa: a importação do paradigma racial dicotômico americano, obra do academicismo bem-pensante e dos movimentos “neonegros” (o termo é de Risério), choca-se com a realidade multicromática do país. Tenta encaixá-la numa camisa-de-força binária. Confunde a mestiçagem – maravilha e legado do Brasil ao mundo – com o escamoteamento do racismo, como se celebrar a mistura significasse esquecer que ainda existe discriminação no Brasil. Sim, sim, você já ouviu esse argumento. Dito assim, parece à toa. Mas fundamentado como está neste livro, jamais.

Há um capítulo sobre as origens da one-drop rule, a incrível classificação racial americana que determina que um sujeito com 1/32 de sangue negro seja catalogado como negro: paradigma que tem suas origens no horror puritano ante a mistura, depois curiosamente adotado pelas suas vítimas. Risério manda ver, sem floreios acadêmicos e sem medo: Os EUA são o único país do mundo em que o filho de um preto com uma branca é preto ... Estranho é que os norte-americanos estranhem que o resto do mundo não classifique pretos e mulatos do mesmo modo que eles. Falam aqui a cegueira e a arrogância imperialistas de sempre (p. 94). Daí Risério emplaca uma análise sobre a “morte dos deuses” nos EUA, a completa ausência de sobrevivências africanas entre os negros americanos, do tipo visto em qualquer esquina de Salvador ou Havana (mostra-se como a criatividade negra nos EUA foi rapidamente canalizada para a criação de um cristianismo negro). Na seqüência, Risério desmonta, um por um, os argumentos dos racialistas binários, que estudam o Brasil com o paradigma americano na cabeça, como Peter Blanchard ou Jacques D'Adesky.

É notória, para qualquer um que tenha lecionado nos EUA, a ânsia dos estudantes norte-americanos que se dedicam ao Brasil de escrever trabalhos de “crítica ao mito da democracia racial”. É um pouco constrangedor ver a reação deles quando você coloca a singela pergunta: “você vê esse mito onde mesmo?” Não há aprendizagem mais difícil para um estudante norte-americano que a descoberta de que não existe mito da democracia racial no Brasil; que no livro mais freqüentemente associado à idéia (Casa Grande e Senzala), essa expressão jamais aparece; que ninguém em sã consciência no Brasil diria que vive numa democracia racial. E que isso, obviamente, não implica que não exista racismo no país – só implica que as coisas são um pouco mais complexas, menos cartesianas. Hermano Vianna uma vez me disse que o que precisamos mesmo é de uma genealogia do mito do mito da democracia racial. Ou seja, uma explicação do porquê de tanta gente ter pensado que pensamos isso. Pois bem, a explicação chegou. Está em A utopia brasileira e os movimentos negros.

Há muito mais. Há um capítulo espetacular sobre o neopentecostalismo (que, na bela frase de Risério, partiu para cima do candomblé, decidido a detoná-lo em sua cidade sagrada); há outro irretocável sobre a língua (onde Risério reflete sobre o tremendo paradoxo de que um militante do movimento negro censure alguém por usar a palavra batuqueiro – vocábulo africano! -- ao invés de percussionista – termo latino!); há outro ainda sobre Cuba, que é talvez o que de mais erudito se escreveu sobre a ilha em português. Há também um capítulo sobre o futebol, onde se encontra uma citação de João Saldanha que comete uma injustiça que Risério não pescou: o Atlético Mineiro jamais impediu negros e mulatos de comporem sua equipe; o América e o Palestra Itália, sim. O Galo, jamais. Eu não poderia terminar esta resenha sem fazer a correção. A equipe campeã de 1915 já era formada por negromestiços.

Quem lê este blog desde 2005 sabe da minha defesa das cotas raciais. O Biscoito Fino e a Massa não apaga posts. O que eu pensava sobre as cotas raciais em 2005 está aqui. O que penso hoje, bem, deve ter ficado claro acima. É maravilhoso poder mudar de idéia, convencido por um argumento superior. Evoé, Risério.



  Escrito por Idelber às 04:54 | link para este post | Comentários (95)


Comentários

#1

Gostei muito da sua opinião. Logo no início você fala que Risério realizou um trabalho “anti-acadêmico mas erudito”. Que bom!!!! Mas....talvez não seja por isso mesmo a “voz quase solitária”? Sobre o neopentecostalismo e o “partiu para cima” conferi, CONFIRMO a percepção de Risério. Assim como outros que viviam ou passaram por Salvador às vésperas das últimas eleições para prefeito e vereadores (em 2004), havia um clima instalado de verdadeira guerra religiosa. Risério parece ser indispensável.

P.S.: Feliz 2008 e espero sinceramente que o PACOTE ECONÔMICO BAIXADO em 2 de janeiro de 2008 não o alcance em situação difícil.

Paulo em janeiro 7, 2008 7:25 AM


#2

Meio off-topic, Idelber: Recentemente, conversei com um teólogo da PUC sobre o neopentecostalismo, principalmente nas comunidades menores e isoladas - ele falava do Brasil pois estudara tal tema, mas eu complementei q o fenômeno é quase mundial, visto q as ilhas do Pacífico foram todas evangelizadas. É uma história interessantíssima de "evolução" religiosa: o mito precisa se modificar, ser selecionado e o mais "apto" dentro de uma comunidade específica é o mito escolhido, a ser seguido. E toda essa diversidade de mitos q se espalham hj por essas comunidades gera uma salada pra igreja tradicional q nem eles entendem muito bem. Fascinante.

Lucia Malla em janeiro 7, 2008 8:06 AM


#3

Idelber, esse assunto muito me interessa e esse post me fez ter vontade de ler esse livro já, correndo. Vou providenciar e ler, porque sua apresentação dele foi uma delícia, deu muita vontade de conferir. Abraços.

Nalu em janeiro 7, 2008 9:10 AM


#4

Recomendei a sua resenha a algumas pessoas que conheço, algumas que sempre me falaram sobre a quantidade de negros e mulatos em posições importantes ao longo da história do Brasil, e como agora essa discussão tem sido posta de forma binária, como você bem disse, o que empobreceu o debate...
Abraços.

Ricardo C. em janeiro 7, 2008 9:23 AM


#5

Esta brasileira que não tem a mínima idéia de em qual categoria racial pode se encaixar (sou uma mistura de índio, português, negro, escocês (!), francês e espanhol, com características físicas que tendem para o indígena)concorda plenamente com o que diz seu artigo. É tudo que eu sempre disse, mas desta vez validado pela palavra de um autor respeitado.
Em tempo: em que "raça" devo classificar minha neta mais nova - judia porque a mãe também o é - mas contendo em seus genes toda essa mistura acima descrita?

Sonia em janeiro 7, 2008 9:50 AM


#6

Idelber,
Francamente, o debate está tão esquentado que está difícil se posicionar em relação às cotas raciais. Poucos assuntos conseguiram despertar tantas reações no Brasil como esse das cotas raciais nos últimos anos. Até o guardião da doutrina e da fé da TV Globo escreveu um livro para desmontar a idéia de que o Brasil tem racismo e para combater os defensores das cotas. Num episódio grotesco e risível, um professor da UnB falou que não adianta criar tais mecanismos para a “crioulada”. Alguns alunos reagiram, e ele acabou punido pela incontinência verbal.
Os críticos das cotas estão preocupados com a instalação de um conflito na linha “ebony” vs “ivory”. Que se dê o nome que for: racismo, discriminação, preconceito, exclusão. A questão é que existe alguma coisa nessa história. Não dá para desconhecer que algo estranho, que tenha o nome que for. Antes de tomar partido, seria bom pôr alguns outras referências. Na linha da “ivory tower”, dá até para torturar números.
O PNUD das Nações Unidas realizou em 2004 um trabalho com o Cedeplar da UFMG, que é o maior centro de demografia no Brasil. Uma parte do material está no endereço www.pnud.org.br/publicacoes/atlas_racial/ARB-Pobreza_e_Indigencia.doc. De 1995 a 2003, o quadro se manteve inalterado: 50% da população negra brasileira e 25% da branca estão abaixo da linha da pobreza. Os negros são 65% dos pobres e 70% dos indigentes. Em suma, os negros são duas vezes mais pobres que os brancos. Podem dar o nome que quiserem para essas proporções, mas a pobreza no Brasil tem cor.
Se olharmos a taxa de homicídios, a situação se complica. Quem quiser consultar alguns dados pode ir ao www.oei.org.br/mapaviolencia.pdf. Em 2004, o Brasil teve 27 homicídios por 100 mil habitantes, o que colocou o país entre os quatro mais violentos do mundo, junto com a Colômbia e a Rússia. A taxa de assassinatos de brancos é de 18,3 mortes por 100 mil pessoas, e a dos negros é de 31,7. Os estados da Paraíba e Alagoas têm oito homicídios de negros para cada branco morto.
Quando se observa a faixa etária de 15 a 24 anos (os jovens), a foto piora. Morrem 34,9 brancos em cada grupo de 100 mil pessoas. A taxa de homicídio de jovens negros é de 64,7. Em Alagoas, a chance de um jovem negro morrer é 13 vezes maior que a de um jovem branco. De novo: assim como a pobreza, a taxa de homicídios tem uma cor no Brasil. Recentemente, o governo propôs um programa de renda mínima para jovens em “situação de risco”, que é o pessoal que está se matando. Pois bem, o blogueiro-anta da revista Veja chamou de “bolsa bandido”. Como discutir nesse nível de indigência?
É impressionante como as cotas raciais ressuscitaram, da maneira mais grotesca, a idéia de miscigenação de Gilberto Freyre. Qualquer um cita a miscigenação para falar mal das cotas, sem ao menos conhecer os estudos de Ricardo Benzaquen sobre Freyre. A genealogia do mito do “mito da democracia racial” está num ensaio da historiadora Emília Viotti da Costa, salvo engano no livro “Do império à república”. Freyre falou de “democracia social” nas palestras que fez nos Estados Unidos nos anos 1940, mas insistiu para que não fossem publicadas aqui. É o livro “Interpretações do Brasil”.
Hoje, segundo quem estuda o tema, existe uma reconfiguração das identidades negras. O neo-pentecostalismo está tomando o lugar do umbanda e do candomblé que se tornam coisa de classe média branca, conforme já mostraram há tempos Reginaldo Prandi e Flavio Pierucci. Essa discussão está num texto de Pierucci na revista “Novos Estudos” (www.scielo.br/pdf/nec/n75/a08n75.pdf).

enio em janeiro 7, 2008 9:59 AM


#7

humilde opinião.
Tá bom...
Perfeito

gugala em janeiro 7, 2008 10:47 AM


#8

Eu morei em Salvador em 2004, por oito meses. E, de fato, houve uma espécie de, vá lá, "Guerra Santa" na eleição municipal. O candidato vencedor, do PDT, fez um missa-mício (missa com comício, como chamamos isso?) ao lado do meu prédio.

O pastor, lá pelas tantas, dizia coisas singelas como "ele é o candidato que realmente representa nosso senhor jesus cristo", entre outras frases extremamente politizadas.

Mas é burrice supor que tal fenômeno seja recente. O neopentecostalismo é gritante e às vezes incomoda, mas a presença clerical em campanhas políticas vem desde o tempo do Onça (e, pra quem não sabe, o Onça existiu e - sim - era um político... HONESTO!).

Em Salvador, sobretudo por parte da "elite branca" (lá isso realmente existe e não é mito!), notei um tipo de racismo que jamais vi em São Paulo.

Aqui, os pobres são discriminados. Há uma discriminação antes de tudo social, e depois étnica ou regional (afinal, nordestinos pardos ou mulados ou até "quase brancos" são discriminados de forma praticamente igual).

Na Bahia, como a elite já é ela toda nordestina, seria ridículo fazer essa discriminação; então eles discriminam... OS NEGROS. Descobri, não sem sentir profunda ânsia de vômito, que parte considerável da "elite branca soteropolitana" se refere aos negros - e em especial aos ambientes por eles freqüentados - como "baixo-astral".

Certa vez, uma pessoa me disse "não vá para lá, Férnându, é báxuastráu". Pensei que fosse um alerta sobre o ânimo do pessoal, sei lá, vai que é um show do Egberto Gismonti com o Uakti, seguido de um show de embaixadinhas do Betão.

Mas não.

O "baixo-astral" era por conta da predominância de negros em tal festa.

Aquilo me deu muito nojo, muita raiva, e então conheci - e convivi por alguns meses - com um racismo que nunca tinha visto nem mesmo em São Paulo.

E olha que - não sei se isso é privilégio ou maldição - tive e tenho acesso a rodas sociais altíssimas tanto lá quanto cá, de modo que posso mais ou menos dizer como pensam essas pessoas desprezíveis.

Os de lá, quanto ao racismo, são piores. Na empáfia, arrogância e ignorância, claro, há empate técnico. Na discriminação social, São Paulo ganha.

* * *

Quanto às cotas, já fui favorável à ação afirmativa puramente racial. Hoje, penso em algum tipo de ação afirmativa social, mas não nas Universidades. "Meu modelo", se posso chamar assim, seria o de cotas em COLÉGIOS PARTICULARES, para alunos sem condições de pagá-los.

Assim, quando chegasse a Faculdade, tais alunos teriam condições de disputar o vestibular em condições mais ou menos parecidas com a dos colegas "ricos". E, a médio ou longo prazo, o abismo seria diminuído.

Abraço, meu caro. E desculpe pelo comment-bíblia.

Gravatai Merengue em janeiro 7, 2008 11:34 AM


#9

Bom dia :-) (Boa tarde aí no Brasil)

Hoje deu vontade de responder os comentários com calma. Vou ao chuveiro, tomo um cafezinho e já volto. Tem muito pano prá manga aí.

Idelber em janeiro 7, 2008 11:49 AM


#10

Paulo, meu caro, feliz ano novo para você também. Mas o pacote econômico que realmente me afeta anda em curso desde 2000, com a chegada do Bush...

gugala, sumido, salve e feliz ano novo :-)

Nalu e Ricardo, podem recomendar e ir atrás, porque é um livro para marcar época, independente de qualquer desacordo que se possa ter com ele.

Lu, não é off-topic de jeito nenhum. Um dos argumentos fascinantes do Risério é acerca de como o neopentecostalismo vai se adaptando às sociedades nas quais intervém, apropriando, no Brasil, por exemplo, traços do candomblé e da umbanda -- mas agora dentro de um projeto utilitarista, imediatista e monetário. Há estudos de mais fôlego sobre o neopentecostalismo no Brasil, mas o capítulo do Risério, em termos de verve e insight, é único.

Pois é, Sonia. o que você relata é a cara do Brasil. Eu sou um branco que tem avô preto. Eu e Ana, nos EUA, somos um "casal inter-racial". É uma demência importar esse paradigma para o Brasil.

Gravata, não surpreende. Não conheço a Bahia bem o suficiente para acrescentar nada, mas não surpreende. Também sou favorável a cotas sociais, combinadas com investimento maciço na educação pública, senão não adianta.

Enio, meu caro, vamos lá. Concordo com tudo. Talvez a indigência do debate, que você descreve, tenha sido parte do que me levou a mudar de idéia. Que a pobreza no Brasil tem cor, não há dúvida. A questão é o remédio. E aí há que se pensar se uma solução que implique segregacionismo e etiquetas raciais binárias, fixas, não joga o bebê fora junto com a água do banho. Essa é a questão. Conheço o contra-argumento: a segregação já existe no nosso apartheid social. Perfeito. Mas qualquer solução que jogue esses 25% de brancos que estão abaixo da linha da pobreza contra os 50% dos negros que estão na mesma condição (para não falar da imensa população de mestiços, que não se identificam nem como negros nem como brancos!) passou a me parecer contra-producente.

Sobre Freyre: lembro-me de ter lido Interpretação do Brasil (acho que o título é no singular), mas a menção a "democracia racial" não terá sido como objetivo a se alcançar, e não como realidade existente? Se for como objetivo a se alcançar, estou dentro! Esse é o sentido, inclusive, da "utopia brasileira" à qual Risério alude no título.

De qualquer forma, a genealogia do termo democracia racial é curiosa: muito antes dos anos 40 ela foi usada para descrever o Brasil por viajantes .... americanos! Muitos deles negros, inclusive. W.E.B. DuBois e o nacionalista negro Henry McNeal Turner, por exemplo, escreveram sobre o Brasil nestes termos. Essa é a questão, o termo tem uma história perversa, porque depois ele passa a habitar as ciências sociais americanas como se fosse uma espécie de mito no qual os brasileiros sempre tivessem acreditado. Mas vou revisitar o Interpretação do Brasil e o texto da Emília Viotti, obrigado.

Outra coisa que é importante sublinhar: o livro de Risério não é sobre as cotas. Mal toca no assunto, na verdade. A conclusão sobre as cotas é minha.

Abraços,

Idelber em janeiro 7, 2008 1:30 PM


#11

Não sou acadêmico e nem erudito, mas nem por isso deixei de adorar a sua resenha e ficar com uma vontade incrível de ler esse livro.

Também fico feliz por saber que sua opinião sobre cotas raciais mudou.

Abração

Henrique Cintra em janeiro 7, 2008 2:17 PM


#12

O debate racial está todo e tão somente na questão das cotas nas universidades. A polêmica toda surgiu com essa proposta que levanta os instintos mais básicos. Daí a fúria cega do cardeal Ratzinger da TV Globo.
O termo "crioulada" foi um dos mais educados no caso ocorrido com o professor Paulo Kramer, na UnB. Ele falava do raio dessas cotas. E depois esse senhor fez uma defesa comovente do liberalismo. (Nesse episódio, me lembrei do filme "Nascimento de uma nação", D.W. Griffith, que mostra os negros se embebedando no Congresso dos Estados Unidos.)
Na prática, as cotas raciais aumentam a competição pelas vagas na universidade pública entre os brancos, sobretudo de classe média. O resultado é essa grita geral (dos brancos, é claro). Parece que foram ao nervo do problema.
É a velha disputa pelos recursos públicos. Mas ninguém no Brasil quer discutir por que um negro pobre é duas vezes mais pobre que o branco pobre e e por que um jovem negro tem muita mais chances de morrer no Brasil. Virou um tabu, que o debate das cotas só começa a tocar.

enio em janeiro 7, 2008 3:26 PM


#13

Oi, Idelber,
vou procurar ler esse livro, para conhecer melhor esse assunto. Gostei de saber que ele foge a determinadas posições consideradas definidas. Vou ler.
Aproveito para desejar um Feliz 2008, com muita Paz e Saúde.
forte abraço
fernando cals

fernando cals em janeiro 7, 2008 4:07 PM


#14

ahhhh sim..por isso os negros americanos estão na maior merda e brasileiros na boa..genio..

Barnardo caicendo em janeiro 7, 2008 5:13 PM


#15

ah bom...agora entendi...nao se pode falar em politicas de cota no Brasil (o que é bom para os EUA nao é bom para o Brasil) pq aqui nao se sabe quem é quem...por causa da miscigenação...então faz o seguinte: escala uma guarnição da PM em qualquer busão de cidade grande de madrugada; vão ver como eles sabem direitinho separar a s coisas..se sabem

Barnardo De Toboso em janeiro 7, 2008 5:21 PM


#16

Pois é, Barnardo, a questão é se queremos desenhar políticas sociais com base nos critérios da polícia racista.

Idelber em janeiro 7, 2008 5:29 PM


#17

"50% da população negra brasileira e 25% da branca estão abaixo da linha da pobreza. Os negros são 65% dos pobres e 70% dos indigentes."

Mas como? Provavelmente os brancos acima da linha de pobreza devem ser gente como eu, que nos documentos figuro como "branca", mas não passaria no teste de cor de qualquer país racista.

Sonia em janeiro 7, 2008 7:02 PM


#18

É sempre pela autodeclaração no IBGE, Sonia.

O que é outro baita angu de caroço. A categoria do IBGE para o mestiço é um termo que praticamente não tem existência lingüística real no Brasil: "pardo". Risério cita uma pesquisa que constatou que se o censo incluísse a categoria "moreno", por exemplo -- que é um termo que nós, falantes da língua, usamos todos os dias, ao contrário de "pardo" -- uma imensa porcentagem dos que declaram "brancos" e também "pardos" optariam por ela. O que dá a pensar, me parece.

É nisso aí que Risério insiste: o estatuto do mestiço, num país em que a imensa maioria é brancamestiça ou negromestiça (estes termos são do Risério, e eu adotei).

Não acha, Enio? Tem gritaria de branco com medo de perder o privilégio, sim. Mas também tem gritaria de gente preocupada com perder esse "bebê" junto com a água do banho. É um argumento que vale ser considerado, eu acho.

Idelber em janeiro 7, 2008 8:23 PM


#19

Enio e Idelber,
Uma coisa que devemos ter sempre bem claro nessas discussões. O primeiro passo é admitir o que o problema existe. Aquele moleque que trabalha na Globo, quer vender a idéia de que o problema não existe. Depois de admiti-lo, é que se pode discutir se a política de cotas raciais resolve o problema ou não e se não resolve, o que pode ser feito. Digo isso, pois é bem comum os debates acabarem encontrando defeitos na solução através de cotas e esquecendo do problema original.

Fernando em janeiro 7, 2008 9:22 PM


#20

pois é bem comum os debates acabarem encontrando defeitos na solução através de cotas e esquecendo do problema original.

clap, clap, Fernando. Acho que você pôs o dedo na ferida. E acho que nisso tanto eu como o Enio estamos com você.

Idelber em janeiro 7, 2008 11:08 PM


#21

Nunca cheguei a ter uma posição definida contra ou a favor das cotas. Mas tampouco fui muito simpático às cotas raciais. Do que conversei algumas vezes foi sobre a possibilidade de uma política de cotas, com prazo preestabelecido para acabar, para oriundos de camadas sócio-econômicas mais baixas, de preferência — e neste ponto tenho dúvidas — que tivessem estudado em escolas públicas — exceto, dentre elas, aquelas escolas (ainda) consideradas de nível elevado —, escolhidos em função do ENEM, por exemplo — os melhores de suas escolas (meritocracia no meio dessa história é bom, não?), ainda que estas tenham tido desempenho regular no próprio ENEM —, e que tivessem a possibilidade de fazer cursos de nivelamento. Claro, essa política seria atrelada a um projeto nacional para mudar o próprio panorama do ensino público (mas não apenas deste último), com metas e prazos para tal melhora. O alcance dessas metas faria com que pouco a pouco a política de cotas deixasse de ser necessária.
Penso que qualquer conversa sobre cotas deveria definir prazos para que estas acabassem, para que não virassem uma CPMF, que de provisória não teve nada. Cotas sem prazo para acabar não me parecem solução para nada, mas sim a criação de um novo problema...

Ricardo Cabral em janeiro 8, 2008 7:28 AM


#22

Ouvi, faz algum tempo, militantes do movimento negro dizendo que não haveria chance alguma de frutificar qualquer tipo de política de integração racial no Brasil. O motivo alegado era o de que nem o branco brasileiro sequer sabe o que ele mesmo almejava para si. Quanto mais pensar no que precisariam os não brancos, os pobres, os indigentes etc. Dai, que políticas indulgentes, piegas e com enorme compaixão tenham espaço para frutificar na análise da questão. Tanto quanto as políticas de exclusão total, apoio ou alheamento frente à violência contra negros, pobres, indigentes. Ou aquelas em que o mulatismo ou o morenismo, a malemolência a folclorização são a tônica, notadamente para enaltecer o Brasil junto a estrangeiros. Numa situação como a última, então, não poderia existir racismo. Tai uma boa questão. Afinal, como pode haver interesse real em ter-se um País multiracial (embora afirme-se que não existe raça), multicultural (embora exista apenas uma cultura por aqui e esta tenha cor), que possa ser harmônico (embora existam mais violências contra não brancos)? É possível criar arcabouço institucional para tanto?

Dawran Numida em janeiro 8, 2008 10:06 AM


#23

Ricardo, concordo em gênero, número e grau.

Dawran, ponderação ouvida. Com muita atenção. Mas acho que seria injusto condenar uma análise como a do Risério como "piegas" ou "para enaltecer o Brasil junto a estrangeiros". Eu, pelo menos, não vestiria essa carapuça: nas minhas aulas sobre o Brasil para estrangeiros, o que não faltam são críticas, lhe garanto. Mas não vou igualar o que não pode ser igualado só para que os estrangeiros se sintam melhor com o apartheid de suas próprias sociedades. Há muita gente que acredita de verdade que o Brasil tem algo a ensinar ao mundo neste quesito. Eu e Risério nos incluímos nessa turma. Seria um reducionismo ver a posição dessas pessoas como "macumba para turistas".

Quanto ao multiculturalismo, eu realmente recomendo uma visita ao capítulo de Risério sobre o tema. Ele concorda com você que o Brasil possui "uma" cultura, com unidade na diversidade. Mas se ela "tem cor", é a da mistura. Como pensar o país de Dorival Caymmi e Machado de Assis afirmando que ele só tem uma cor?

Idelber em janeiro 8, 2008 11:25 AM


#24

Bem, eu já tinha postado aqui algumas colocações em relação as idéias do Professor Risério, entretanto devido a pressa acredito que faltou um pouco de "substância" naquilo que escrevi naquele momento. Dito isso, tentarei agora elaborar um raciocínio um pouquinho mais elaborado acerca das idéias do professor, deixando bem claro de antemão que não li o livro "A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros" e que tudo que eu falar aqui é baseado na entrevista do Professor Risério publicada no "Biscoito Fino", nas observações que o mantenedor do sítio fez sobre a obra supracitada, nas minhas impressões sobre o Movimento Negro Brasileiro e principalmente em tudo aquilo eu li e vi sobre a Questão do Negro na adorável Terra de Pindorama. Vamos lá?
Então vejamos...O Brasil é um país mestiço, né? Bom, isso é uma verdade verdadeira e até um tanto quanto óbvia. Entretanto, todos os países que compõem o continente americano são mestiços em sua origem. Todos eles nasceram do intercurso carnal e cultural de povos nativos com outros que vieram para cá no Período Colonial. Caso isso não fosse verdade, não existiram garotos brancos estadunidenses consumidores de rap, o "redneck" americano não seria um devorador de tacos e nachos, bolivianos descendentes de indios aymarás que gostassem de música clássica seriam uma impossibilidade, o Dia de los Muertos mexicano (festa que congrega tradições cristãs e indigenas) seria apenas um devaneio e gêneros musicais como o samba, jazz, blues, tango, rock, guarânia, calipso, reggae e tantas outras jamais teriam visto a luz do dia. Daí, acredito que o discurso de que somos uma "nação -mestiça-e-somos-diferentes-dos-outros-talvez-até-melhores-e-o-que-é-bom-pros-outros-não-serve-pra-nós" me soa altamente questionável. Ora, ultimamente até a Europa anda se miscigenando a largos passos devido a imigração de africanos e asiáticos! Poxa vida, não somos nem o país mais miscigenado da América do Sul! Basta dar uma olhada para as Guianas (Holandesa, Francesa e Inglesa) para ver o que realmente é mistura racial, já que nesses países há um caldeirão que mistura dentro de si europeus, indios, africanos, chineses, indianos e indonésios. Francamente, será que em um país supostamente "binário" como os States não há milhares de brancos descendentes de negros e vice-versa? E mesmo que essas pessoas não existissem ou sejam em um número irrisório, façamos um breve exercício de imaginação: como seria a Terra do Tio Sam sem a presença negra? Deixô vê...Hum...Viver sem Elvis Presley? Viver sem Rock'nRoll? Não poder comer frango frito com pimenta? Uma lingua inglesa dura e com ares shakespereanos? Jamais poder escutar as composições dos Irmãos Gershwin (compositores judeus que beberam na fonte do Jazz)? Nãããããããããããããõooooooooooooo! Pára esse bonde que eu quero descer! É... E todo esse discurso "bunitinho" que eu fiz serve apenas para entrar na questão da "morte dos deuses africanos" nos EUA e na "sobrevida" que eles tiveram aqui em Pindorama...

Claudio Roberto Basilio em janeiro 8, 2008 8:58 PM


#25

Pesquisadores estimam que algo entre dez e quatorze milhões de africanos foram "convidados" a trabalhar nas Américas até meados do século XIX. Esses mesmos pesquisadores deduzem que 50% desse contingente de "trabalhadores" foi espalhado entre a América do Norte, Caribe, América Central e países hispânicos da América do Sul. Os outros 50% foram parar em um certo país chamado Brasil. Já deu para entender onde eu quero chegar, né? Durante um bom tempo nós fomos a maior nação escravagista do mundo! O Brasil tinha muito, muitos mais negros que os EUA! Havia tantos, mas tantos negros por aqui que alguns historiadores calculam que até o final do século XIX 80% da população brasileira era eminentemente africana. Nossa, o coeficiente de negros entre nós era tão alto que existiam até negões proprietários de outros negões! Aliás, sobre isso eu irei falar um pouquinho mais para frente, mesmo porque o negócio agora é falar sobre a sobrevida do divino panteão africano no Brasil. Tanto aqui quanto lá (nos States) se tentou de todas as formas possíveis e imagináveis sufocar a adoração de Oxalá e cia, mesmo porque o senhor de engenho até gostava de transar com as negrinhas da senzala, mas achava que veneração de deuses pagãos era muita pouca-vergonha! A sobrevivência de cultos africanos, misturando-se com tradições católicas e indigenas foi um dos primeiros e mais importantes atos de resistência do povo negro brasileiro contra a escravidão, e o fato de em um determinado momento da História uma enorme parte da população brasileira ter notórias raízes africanas com certeza ajudou o Candomblé, a Umbanda, Tambor de Mina e tantas outras crenças a persistirem entre nós. Coisa que não aconteceu nos States, já que pelo que eu sei apenas algo em torno de 10% a 15% da população estadunidense é afro-descendente, o que naturalmente foi muito útil no momento de exterminar crenças africanas. Daí, concluímos óbvio: não foi uma suposta "bondade-do-colonizador-ou-então-tolerância-inerente-ao-cárater-miscigenado-do-povo-brasileiro" que fez com que Ogum tivesse tantos adoradores brasileiros até hoje, mas sim a força de um povo! E olha que não faltaram tentativas para exterminar o culto aos Orixás durante o século XX, e essas tentativas não foram executadas por neopentecostais com a Bíblia debaixo do braço (por quem eu não nutro muito apreço), e sim pela nossa sempre amada elite, que ordenava batidas policiais aos terreiros sempre que tinha uma chance para isso. E quando não ordenava batidas policiais, a nossa elite importava da França o Espiritismo (uma religião animista muito mais "limpinha" que a imundície dos vodums africanos) ou então despejava o seu veneno nos editoriais de seus jornais. Gostaria de ler um deles? Acesse esse link e procure dentro do texto trechos de um editorial que o "Estadão" publicou sobre a morte de Mãe Menininha do Gantois -- http://www.ufes.br/~mlb/fronteiras/pdf/racismo_Jorge_Luiz_Nascimento.pdf -- Leu? Legal ele, né? E pensar que ele foi publicado "apenas" em 1986, uma época onde supostamente jornalões não deveriam ter coragem de publicar textos tão racistas quanto esse... Para finalizar, não conheço nada de New Orleans, mas sei que bem ou mal tradições religiosas da África ainda persistem por lá. Será que isso acontece porque a cidade foi originalmente fundada por franceses, que eram mais "bonzinhos" que os ingleses? Sei lá... Assim como os EUA a Jamaica foi colonizada por ingleses, e até hoje tradições africanas milenares são lembradas na ilha caribenha... Vai ver os colonizadores da ilha eram caras legais...Pois é... Se eu tivesse vergonha e fosse um cara legal pararia por aqui, mas como ainda estou a fim de aporrinhar, então vamos que vamos!

Claudio Roberto Basilio em janeiro 8, 2008 8:59 PM


#26

Acho extremamente interessante a afirmação de "não existe mito da democracia racial no Brasil". Sabe por que? Porque ultimamente o Movimento Negro Brasileiro anda sendo torpedeado por todos os lados e o principal argumento usado contra as organizações negras é justamente aquele que preconiza que "somos-uma-grande-nação-mestiça-onde-não-se-sabe-quem-é-negro-e-onde-nunca-ocorreram-conflitos-raciais-e-onde-só-o-pobre-é-discriminado". Ora, talvez "Casa Grande e Senzala" não trouxesse a expressão "democracia racial" em suas páginas mas uma das raízes dessa crença mitológica indiscutivelmente está lá. E, de mais a mais, ficar discutindo a origem semântica de expressões é apenas um mero exercício de futilidade, tendo em vista que grande parte da academia e da elite brasileira em sã consciência realmente acredita na utopia da bela nação mestiça e pacificada, independente da expressão supostamente ter sido criada por viajantes negros americanos. Maiores informações podem ser encontradas neste link para o blog do nosso eterno amigão Reinaldo Azevedo -- http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/2007/06/veja-4-matria-de-capa-raa-no-existe.html --. E, por favor, não pensem que a partir do momento que eu cito o glorioso Tio Rei estou afirmando que apenas reacionários acreditam na "democracia racial". Até mesmo indivíduos que se consideram progressistas acreditam piamente que todos os problemas do Brasil são apenas de ordem sócio-econômica!
O exemplo do ativista negro que não gosta da palavra "batuqueiro" é fascinante. Um leitor desavisado que se deparasse com isso provavelmente pensaria que todo participante do Movimento Negro é um ignorante de marca maior que prefere usar as expressões "percussionist" ou "drummer", já que supostamente todos aqueles que participam do Movimento Negro não passam de indivíduos ansiosos para serem os novos Malcom X da periferia. Ora, o Movimento Negro brasileiro não foi fabricado com Certificado ISO9000 de santidade e perfeição, todavia ele é muito mais do que uma mera importação de conceitos americanos. Ou será que existe algo como o Olodum e o Yle-Aiê nas terras do Tio Sam? Ou será que os negros fugidos da senzala, Mãe Menininha, Abdias do Nascimento, a Frente Negra, Teatro Experimental do Negro e Lélia Gonzales formaram seus conceitos após assistir filmes do Spike Lee? Segundo boa parte dos acadêmicos brasileiros a coisa é por ai...

Claudio Roberto Basilio em janeiro 8, 2008 9:00 PM


#27

Agora, eu gostaria de voltar um pouco ao primeiro tópico postado aqui sobre a obra do Risério, tópico esse que traz dentro de si uma entrevista com ele. Lá o autor chora as pitangas afirmando que não encontra interlocutores para trocar idéias. Bem, o que ficou patente para mim lendo aquela entrevista é que para o Professor Risério "interlocutor" é o indivíduo que concorda com as idéias dele, e não aquele que eventualmente pode discordar dele. Assim fica díficil encontrar "interlocutores", não é mesmo? Mas essa é uma questão meramente acessória e desimportante. Importante mesmo é o trecho da entrevista que irei destacar logo abaixo, trecho esse que trata sobre o pedido de perdão que o Presidente Lula fez pelas centenas de anos em que o Brasil escravizou seres humanos:

"E é ignorante, como Lula pedindo perdão no Senegal. Quem tem de pedir perdão aos povos africanos, pela escravidão, são as elites africanas, que participaram ativa e lucrativamente do tráfico de escravos. Como se não bastasse, há uma certa covardia dos intelectuais, que temem contrariar os movimentos negros e serem classificados como racistas."

Não sei porque essa frase do Professor Risério me lembra outra do sensacional Tim Maia. O Síndico sempre dizia: "O Brasil é o único país do mundo onde puta goza, cafetão tem ciúme e traficante é viciado". Depois dessa fala do Professor Risério acrescentaria outro item a antológica frase do soulman brasileiro: "O Brasil é o único país do mundo onde a vitima é culpada pelos crimes cometidos contra ela". Me deixa explicar... É óbvio que negros africanos venderam outros negros africanos para os navios mercantes europeus e é óbvio que no Brasil não faltaram pretos e mulatos senhores de escravos. O que não parece óbvio para o Professor Risério é que ninguem no Brasil foi escravizado por ser branco! Por favor, me mostrem relatos de canaviais e cafezais dirigidos por indios e negros que usaram força de trabalho branca e escrava! Ora, o fato de o Brasil ter tido o auxílio luxuoso de uma elite africana mau-caráter no processo escravagista não muda o fato de que o Estado Brasileiro deu respaldo jurídico para a escravidão em pleno século XIX, uma época onde já estava bem difundido no Ocidente o conceito de que a escravidão não era uma coisa lá muito bacana. E não muda também o fato de que a escravidão tinha como alvos preferenciais os negros e indios, e que até hoje essas populações vivem as conseqüências dessa abominação. Resumindo: o Estado Brasileiro foi cumplice de uma monstruosidade, o que torna perfeitamente aceitável e até mesmo obrigatório que o Presidente Lula peça desculpa pela Escravidão, independente do que as elites africanas façam ou deixem de fazer nos dias de hoje para melhorar a situação dos povos africanos. Sendo bem canalha eu poderia usar a lógica do Professor Risério para outra questão, que é a da violência urbana no Brasil. Vamos supor que daqui a duzentos anos sociólogos começassem a estudar esse fenômeno típico dos nossos dias. Usando essa linha de raciocínio eles poderiam afirmar que as comunidades carentes dos grandes centros urbanos brasileiros eram culpadas pela violência que somos obrigados a assistir hoje só porque a maioria dos bandidos e lideres do tráfico eram oriundos delas! Ai questões como a pobreza e o tráfico globalizado de armas e drogas seriam espertamente deixadas de lado por eles, né? Todavia, não precisamos esperar duzentos anos para ver constatações como essa serem firmemente defendidas, considerando-se que o fã-clube do Capitão Nascimento aumenta a cada dia que passa. É por essas e outras que realmente amo o meu país: é o único lugar do mundo onde teses do tipo "o-negro-é-culpado-pela-escravidão" e "a-policia-tem-mais-é-que-reprimir-mesmo" são alegre e desavergonhadamente defendidas até por intelectuais supostamente progressistas! Taí algo onde realmente somos singulares!

Claudio Roberto Basilio em janeiro 8, 2008 9:01 PM


#28

Quanto a "covardia dos intelectuais" em enfrentar os Movimentos Negros, sinceramente eu pediria ao Professor Risério que parasse de ser tão irônico. Após o "escândalo-da-ministra-que-pregava-o-racismo-negro" não faltaram em nossos jornalões artigos "provando" que "negros-escravizavam-negros", "cota-é-coisa-de-gringo", "o-movimento-negro-quer-acabar-com-os-mestiços",etc. Qualquer levantamento informal demonstra cabalmente que o Movimento Negro Brasileiro atualmente é um dos dos movimentos sociais mais combatidos no Brasil, senão o mais combatido! O poderoso Ali Kamel que o diga, já que até matérias sobre o assunto são censuradas na Globo!
O Movimento Negro Brasileiro não nega (e nem tem como negar) que o nosso país surgiu da confluência de diversas culturas, que aqui se misturaram e criaram coisas maravilhosas como a capoeira, camdomblé e o carnaval. O grande questionamento atual do Movimento Negro é porque no topo da pirâmide social brasileira não existe a mesma diversidade encontrada na base. Afinal de contas porque existem tão poucos professores universitários pretos, pardos ou "negromestiços"? Por que um indivíduo "moreninho" quando é parado pela polícia é chamado de "crioulo safado"? Por que um casal interracial no Brasil só chama menos a atenção que um casal homossexual? Por que o Brasil é tão "unitário" no seio das suas elites? Será que o Doutor Roberto Marinho (filho de um portugues com uma mulata carioca) se enxergava como mulato toda vez que se olhava no espelho? Colocar esses temas em pauta e pedir a implementação de ações afirmativas não é "importar costumes americanos", e sim questionar coisas erradas, mesmo porque o racismo atinge igualmente pretos e pardos, o que leva o Movimento Negro Brasileiro a agrupá-los em um grande grupo, que é o dos afro-descendentes. Para finalizar de vez a questão, Idelber, peço desculpas a você pelo desabafo quilométrico que enviei ao seu blog, mesmo porque mesmo sem ler o livro do Professor Risério não consigo deixar de ficar com a impressão que o propósito dele é unica e exclusivamente tentar meter um "cala-a-boca" em todos os ativistas do Movimento Negro Brasileiro. E termino citando aqui Nelson Rodrigues (um reacionário que sabia das coisas) :

Aí está "Sortilégio", o seu mistério, que vive, justamente, do seu dilaceramento de negro. Eu já imagino o que vão dizer três ou quatro críticos da nova geração: - que o problema não existe no Brasil etc., etc., etc. Mas existe.
E só a obtusidade pétrea ou a má-fé cínica poderão negá-lo. Não caçamos pretos, no meio da rua, a pauladas, como nos Estados Unidos. Mas fazemos o que talvez seja pior. A vida do preto Brasileiro é toda tecida de humilhações. Nós o tratamos com uma cordialidade que é o disfarce pusilânime de um desprezo que fermenta em nós, dia e noite. Acho o branco brasileiro um dos mais racistas do mundo.

alguns links interessantes sobre os temas que foram discutidos aqui:

Artigo comentando o livro do Risério
http://www.irohin.org.br/onl/new.php?sec=news&id=2583

Artigo que comenta os ataques ao Movimento Negro
http://www.irohin.org.br/imp/template.php?edition=20&id=93

Nei Lopes comenta a relação entre pretos e pardos
http://www.afropress.com/colunista_2.asp?id=176
http://www.afropress.com/colunista_2.asp?id=228

Nei Lopes comenta essa mania dos brasileiros de imitar americano
http://neilopes.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html

Claudio Roberto Basilio em janeiro 8, 2008 9:02 PM


#29

Cheguei meio atrasado na discussão, mas queria, já que sou baiano, dar uma opinião rápida sobre a questão da "elite branca" de Salvador citada pelo Gravatai. Não tenho condições de dizer que ela não existe. Deve existir. "Ou não". Mas é que essa coisa da expressão "baixo-astral" não me pareceu muito correta, não: eu ouço essa expressão aqui há uns 5 anos e não exatamente como referência aos locais frequentados por negros. Sério. Talvez o caso que o Gravatai ouviu tenha sido realmente nesse sentido - mas, no geral, não é. Diz-se, aliás, que qualquer coisa pode ser "baixo-astral": desde uma ida ao dentista até uma aula de Literatura Brasileira I sobre Anchieta. A expressão racista "por excelência" usada na Bahia é "brown" (variações são permitidas: brau, braum etc.), designando um pessoal da periferia (em geral negros, marrons, browns, naturalmente) que fala de certo modo, anda de outro e vai a tal ou tal local. Mas é claro que existe "brown" branco e amarelo.

Mas era só um esclarecimento sobre gírias. Continuem a discussão.

Rodrigo em janeiro 8, 2008 9:56 PM


#30

Claudio, de novo vou ter que me limitar, por enquanto, a agradecer – de verdade, agradeço a atenção ao blog e o tempo dedicado a argumentar – e dizer que só vou responder alguns dos pontos que você coloca. É uma posição complicada para mim, veja só, porque estou acostumado – há mais de 20 anos – a ocupar, neste debate, a posição que você agora ocupa, enfrentando pessoas que ocupavam um lugar mais ou menos análogo ao que eu escolhi (ou, pelo menos, o lugar ao qual eu venho tendendo, deixando claro, como deixei, que minha opinião sobre parte desses temas ainda está em formação). Por exemplo, na época do episódio com o Grafite, eu escrevi isso, na época do episódio com a Ministra Matilde o meu post foi esse, e sobre as comunidades quilombolas eu escrevi isso. Não se trata de apresentar credenciais