Meu Perfil
Um blog sobre política, literatura, música e futebol basquetebol. Na rede desde outubro de 2004.



Email: idelberavelar arroba gmail ponto com

O autor
 No Twitter
 No Facebook
 Curriculum Vitae
 Página pessoal em Tulane


Histórico
 agosto 2009
 julho 2009
 junho 2009
 maio 2009
 abril 2009
 março 2009
 fevereiro 2009
 janeiro 2009
 dezembro 2008
 novembro 2008
 outubro 2008
 setembro 2008
 agosto 2008
 julho 2008
 junho 2008
 maio 2008
 abril 2008
 março 2008
 fevereiro 2008
 janeiro 2008
 dezembro 2007
 novembro 2007
 outubro 2007
 setembro 2007
 agosto 2007
 julho 2007
 junho 2007
 maio 2007
 abril 2007
 março 2007
 fevereiro 2007
 janeiro 2007
 novembro 2006
 outubro 2006
 setembro 2006
 agosto 2006
 julho 2006
 junho 2006
 maio 2006
 abril 2006
 março 2006
 janeiro 2006
 dezembro 2005
 novembro 2005
 outubro 2005
 setembro 2005
 agosto 2005
 julho 2005
 junho 2005
 maio 2005
 abril 2005
 março 2005
 fevereiro 2005
 janeiro 2005
 dezembro 2004
 novembro 2004
 outubro 2004


Assuntos
 A eleição de Obama
 Clube de leituras
 Direito e Justiça
 Fenomenologia da Fumaça
 Filosofia
 Futebol e redondezas
 Gênero
 Literatura
 Metablogagem
 Música
 New Orleans
 Palestina Ocupada
 Polí­tica
 Primeira Pessoa



Visito
 Abobrinhas psicodélicas
 Ademonista
 Afonso, o Chato
 Agência Carta Maior
 Ágora com dazibao no meio
 Aguafuertes
 Alcinéa Cavalcante
 Além do jogo
 Alessandra Alves
 Alfarrábio
 Alto volta
 Amálgama
 Amante profissional
 Os amigos do Presidente Lula
 André Deak
 Animot
 Ao mirante, Nelson!
 Argemiro Ferreira
 Arlesophia
 Até aqui tudo bem
 Atemporalizando
 Bala perdida
 Balípodo
 Bereteando
 Biajoni!
 Blog do Alon
 Blog do Favre
 Blog do Juarez
 Blog do Juca
 Blog do Mello
 Blog dos Perrusi
 Blog do Protógenes
 Blog do Rovai
 Blog do Sakamoto
 Blog do Tsavkko, Angry Brazilian
 Blogafora
 blowg
 Botequim do Bruno
 Branco Leone
 Brasília, eu vi
 Bratislava
 Bugio
 A bundacanalha
 O caderno de Patrick
 Caldos de tipos
 Caquis caídos
 O carapuceiro
 Carla Rodrigues
 Carnet de notes
 Carreira solo
 Carta da Itália
 Caryorker
 A casa da colina
 Casa da tolerância
 Casa de paragens
 Catarro Verde
 Catatau
 Cidadania
 Cinema e outras artes
 Cinematógrafo
 Cintaliga
 Cloaca News
 Conejillo de Indias
 Consenso, só no paredão
 Contemporânea
 Contra Capa
 Controvérsia
 Conversa afiada
 Conversa de bar
 Cria Minha
 Cris Dias
 Cyn City
 Cynthia Semíramis
 Uma dama não comenta
 Daniel Aurélio
 Daniel Lopes
 de-grau
 De olho no fato
 De primeira
 Descurvo
 Diálogico
 Diário de Bordo
 Diario de trabajo
 Diário gauche
 Didascália e ..
 Diplomacia bossa nova
 Direito e internet
 Direitos fundamentais
 Disparada
 Dissidência
 Dito assim parece à toa
 Doidivana
 Don Quijote
 Dossiê Alex Primo
 ¡Drops da Fal!
 Duas Fridas
 É bom pra quem gosta
 eblog
 Ecologia Digital
 Enloucrescendo
 Escreva, Lola, escreva
 O escrevinhador
 Escrúpulos Precários
 Escudinhos
 Estado anarquista
 Eu sei que vivo em louca utopia
 Eugenia in the meadow
 Fabricio Carpinejar
 Faca de fogo
 Faça sua parte
 Favoritos
 A Feminista
 Ferréz
 Fiapo de jaca
 Flor do maracujá
 Fósforo
 Fina flor
 A flor da pele
 Fogo nas entranhas
 Fotógrafos brasileiros
 Frankamente
 Fundo do poço
 Futebol, política e cachaça
 Gabinete dentário
 Galo é amor
 Garotas que dizem ni
 Gravatá
 Groselha news
 Googalayon
 Guaciara
 Guerrilheiro do entardecer
 Hargentina
 Hedonismos
 Hermenauta
 Hipopótamo Zeno
 História em projetos
 Histórias do Brasil
 Homem do plano
 Idéias mutantes
 Imaginação sociológica
 Impedimento
 Impostor
 Incautos do ontem
 O incrível exército Blogoleone
 Ingresia
 Inquietudine
 Inside
 Interney
 Ius communicatio
 jAGauDArTE
 Jean Scharlau
 João Villaverde
 O jornalismo morreu
 Kit básico da mulher moderna
 Lembrança eterna de uma mente sem brilho
 A Lenda
 Liberal Libertário Libertino
 Limpo no lance
 Linkillo
 Lixo Tipo Especial
 Lixomania
 Luis Nassif
 Luz de Luma
 Mac's daily miscellany
 O malfazejo
 Uma Malla pelo mundo
 Malvados
 Márcia Bechara
 Marconi Leal
 Maria Frô
 Marmota
 Marjorie Rodrigues
 Meta.comunix
 Milton Ribeiro
 Mineiras, uai!
 Modos de fazer mundos
 Mox in the sky with diamonds
 Mundo-Abrigo
 Mundo de K
 NaMaria News
 Na prática a teoria é outra
 Nababu
 Nación apache
 Nalu
 Namorado imaginário
 Nei Lopes
 Nova corja
 Nóvoa em folha
 Odisséia literária
 Óleo do diabo
 Onde anda Su?
 Ontem e hoje
 Overmundo
 Palestina do espetáculo triunfante
 Pálido ponto branco
 Panóptico
 Para ler sem olhar
 Parede de meia
 Paulodaluzmoreira
 Pecus Bilis
 Pedro Alexandre Sanches
 Pedro Doria
 Peneira do rato
 O pensador selvagem
 Pensar enlouquece
 Pictura Pixel
 O pífano e o escaninho
 Pirão sem dono
 Poemas del alma
 políticAética
 Política & políticas
 Politika etc.
 Ponto media
 Por um punhado de pixels
 Porão abaixo
 Posthegemony
 Prás cabeças
 Prosa caótica
 Quarentena
 Que cazzo
 Quelque chose
 Quintarola
 Quitanda
 Rafael Galvão
 Recordar repetir elaborar
 Reinventando Santa Maria
 Retrato do artista quando tolo
 Roda de ciência
 RS urgente
 Samurai no Outono
 Sergio Leo
 Sérgio Telles
 Serbão
 Sergio Amadeu
 Sérgio blog 2.3
 Silenzio, no hay banda
 O sinistro
 Sob(re) a pálpebra da página
 A Sopa no exílio
 Sorriso de medusa
 Sovaco de cobra
 Stella psicanálise
 Sub rosa v.2
 SublimeSucubuS
 Superfície reflexiva
 Talqualmente
 Taxitramas
 Terapia Zero
 A terceira margem do Sena
 Tiago Dória
 Tiago Pereira
 Todos os fogos o fogo
 Tom Zé
 Tordesilhas
 Torre de marfim
 Träsel blog
 Tudo pode acontecer
 Túlio Vianna
 Ultimas de Babel
 Um que toque
 Urbanamente
 Vê de vegano
 Velho do farol
 Viajando nas palavras
 La vieja bruja
 Viomundo
 Virunduns
 Vistos e escritos
 A volta dos que não foram
 Zema Ribeiro




selinho_idelba.jpg


Movable Type 3.36
« Boas festas e feliz 2008 :: Pag. Principal :: Joguinho político »

segunda-feira, 07 de janeiro 2008

O livro do ano

ubmn.jpg Trata-se, na humilde opinião deste blog, do livro mais importante publicado no Brasil em 2007. A utopia brasileira e os movimentos negros, de Antonio Risério, já nasceu clássico. Racismo, cotas raciais, mestiçagem: nada disso já pode ser discutido seriamente sem referência a este livro corajoso e debochado, anti-acadêmico mas erudito, politicamente incorreto mas incendiário. Risério é uma voz quase que solitária no debate sobre estes temas. Conhecedor profundo das culturas negromestiças brasileiras – autor, afinal de contas, de Carnaval Ijexá e Oriki Orixá -- Risério vem alertando: é um suicídio jogar fora o bebê da mestiçagem junto com a água suja do combate ao racismo. Importar as lentes bicolores americanas é importar o que os Estados Unidos têm de pior.

É difícil resumir a tese de um livro tão rico (há até um capítulo sobre o futebol), mas aí vai minha melhor tentativa: a importação do paradigma racial dicotômico americano, obra do academicismo bem-pensante e dos movimentos “neonegros” (o termo é de Risério), choca-se com a realidade multicromática do país. Tenta encaixá-la numa camisa-de-força binária. Confunde a mestiçagem – maravilha e legado do Brasil ao mundo – com o escamoteamento do racismo, como se celebrar a mistura significasse esquecer que ainda existe discriminação no Brasil. Sim, sim, você já ouviu esse argumento. Dito assim, parece à toa. Mas fundamentado como está neste livro, jamais.

Há um capítulo sobre as origens da one-drop rule, a incrível classificação racial americana que determina que um sujeito com 1/32 de sangue negro seja catalogado como negro: paradigma que tem suas origens no horror puritano ante a mistura, depois curiosamente adotado pelas suas vítimas. Risério manda ver, sem floreios acadêmicos e sem medo: Os EUA são o único país do mundo em que o filho de um preto com uma branca é preto ... Estranho é que os norte-americanos estranhem que o resto do mundo não classifique pretos e mulatos do mesmo modo que eles. Falam aqui a cegueira e a arrogância imperialistas de sempre (p. 94). Daí Risério emplaca uma análise sobre a “morte dos deuses” nos EUA, a completa ausência de sobrevivências africanas entre os negros americanos, do tipo visto em qualquer esquina de Salvador ou Havana (mostra-se como a criatividade negra nos EUA foi rapidamente canalizada para a criação de um cristianismo negro). Na seqüência, Risério desmonta, um por um, os argumentos dos racialistas binários, que estudam o Brasil com o paradigma americano na cabeça, como Peter Blanchard ou Jacques D'Adesky.

É notória, para qualquer um que tenha lecionado nos EUA, a ânsia dos estudantes norte-americanos que se dedicam ao Brasil de escrever trabalhos de “crítica ao mito da democracia racial”. É um pouco constrangedor ver a reação deles quando você coloca a singela pergunta: “você vê esse mito onde mesmo?” Não há aprendizagem mais difícil para um estudante norte-americano que a descoberta de que não existe mito da democracia racial no Brasil; que no livro mais freqüentemente associado à idéia (Casa Grande e Senzala), essa expressão jamais aparece; que ninguém em sã consciência no Brasil diria que vive numa democracia racial. E que isso, obviamente, não implica que não exista racismo no país – só implica que as coisas são um pouco mais complexas, menos cartesianas. Hermano Vianna uma vez me disse que o que precisamos mesmo é de uma genealogia do mito do mito da democracia racial. Ou seja, uma explicação do porquê de tanta gente ter pensado que pensamos isso. Pois bem, a explicação chegou. Está em A utopia brasileira e os movimentos negros.

Há muito mais. Há um capítulo espetacular sobre o neopentecostalismo (que, na bela frase de Risério, partiu para cima do candomblé, decidido a detoná-lo em sua cidade sagrada); há outro irretocável sobre a língua (onde Risério reflete sobre o tremendo paradoxo de que um militante do movimento negro censure alguém por usar a palavra batuqueiro – vocábulo africano! -- ao invés de percussionista – termo latino!); há outro ainda sobre Cuba, que é talvez o que de mais erudito se escreveu sobre a ilha em português. Há também um capítulo sobre o futebol, onde se encontra uma citação de João Saldanha que comete uma injustiça que Risério não pescou: o Atlético Mineiro jamais impediu negros e mulatos de comporem sua equipe; o América e o Palestra Itália, sim. O Galo, jamais. Eu não poderia terminar esta resenha sem fazer a correção. A equipe campeã de 1915 já era formada por negromestiços.

Quem lê este blog desde 2005 sabe da minha defesa das cotas raciais. O Biscoito Fino e a Massa não apaga posts. O que eu pensava sobre as cotas raciais em 2005 está aqui. O que penso hoje, bem, deve ter ficado claro acima. É maravilhoso poder mudar de idéia, convencido por um argumento superior. Evoé, Risério.



  Escrito por Idelber às 04:54 | link para este post | Comentários (95)


Comentários

#1

Gostei muito da sua opinião. Logo no início você fala que Risério realizou um trabalho “anti-acadêmico mas erudito”. Que bom!!!! Mas....talvez não seja por isso mesmo a “voz quase solitária”? Sobre o neopentecostalismo e o “partiu para cima” conferi, CONFIRMO a percepção de Risério. Assim como outros que viviam ou passaram por Salvador às vésperas das últimas eleições para prefeito e vereadores (em 2004), havia um clima instalado de verdadeira guerra religiosa. Risério parece ser indispensável.

P.S.: Feliz 2008 e espero sinceramente que o PACOTE ECONÔMICO BAIXADO em 2 de janeiro de 2008 não o alcance em situação difícil.

Paulo em janeiro 7, 2008 7:25 AM


#2

Meio off-topic, Idelber: Recentemente, conversei com um teólogo da PUC sobre o neopentecostalismo, principalmente nas comunidades menores e isoladas - ele falava do Brasil pois estudara tal tema, mas eu complementei q o fenômeno é quase mundial, visto q as ilhas do Pacífico foram todas evangelizadas. É uma história interessantíssima de "evolução" religiosa: o mito precisa se modificar, ser selecionado e o mais "apto" dentro de uma comunidade específica é o mito escolhido, a ser seguido. E toda essa diversidade de mitos q se espalham hj por essas comunidades gera uma salada pra igreja tradicional q nem eles entendem muito bem. Fascinante.

Lucia Malla em janeiro 7, 2008 8:06 AM


#3

Idelber, esse assunto muito me interessa e esse post me fez ter vontade de ler esse livro já, correndo. Vou providenciar e ler, porque sua apresentação dele foi uma delícia, deu muita vontade de conferir. Abraços.

Nalu em janeiro 7, 2008 9:10 AM


#4

Recomendei a sua resenha a algumas pessoas que conheço, algumas que sempre me falaram sobre a quantidade de negros e mulatos em posições importantes ao longo da história do Brasil, e como agora essa discussão tem sido posta de forma binária, como você bem disse, o que empobreceu o debate...
Abraços.

Ricardo C. em janeiro 7, 2008 9:23 AM


#5

Esta brasileira que não tem a mínima idéia de em qual categoria racial pode se encaixar (sou uma mistura de índio, português, negro, escocês (!), francês e espanhol, com características físicas que tendem para o indígena)concorda plenamente com o que diz seu artigo. É tudo que eu sempre disse, mas desta vez validado pela palavra de um autor respeitado.
Em tempo: em que "raça" devo classificar minha neta mais nova - judia porque a mãe também o é - mas contendo em seus genes toda essa mistura acima descrita?

Sonia em janeiro 7, 2008 9:50 AM


#6

Idelber,
Francamente, o debate está tão esquentado que está difícil se posicionar em relação às cotas raciais. Poucos assuntos conseguiram despertar tantas reações no Brasil como esse das cotas raciais nos últimos anos. Até o guardião da doutrina e da fé da TV Globo escreveu um livro para desmontar a idéia de que o Brasil tem racismo e para combater os defensores das cotas. Num episódio grotesco e risível, um professor da UnB falou que não adianta criar tais mecanismos para a “crioulada”. Alguns alunos reagiram, e ele acabou punido pela incontinência verbal.
Os críticos das cotas estão preocupados com a instalação de um conflito na linha “ebony” vs “ivory”. Que se dê o nome que for: racismo, discriminação, preconceito, exclusão. A questão é que existe alguma coisa nessa história. Não dá para desconhecer que algo estranho, que tenha o nome que for. Antes de tomar partido, seria bom pôr alguns outras referências. Na linha da “ivory tower”, dá até para torturar números.
O PNUD das Nações Unidas realizou em 2004 um trabalho com o Cedeplar da UFMG, que é o maior centro de demografia no Brasil. Uma parte do material está no endereço www.pnud.org.br/publicacoes/atlas_racial/ARB-Pobreza_e_Indigencia.doc. De 1995 a 2003, o quadro se manteve inalterado: 50% da população negra brasileira e 25% da branca estão abaixo da linha da pobreza. Os negros são 65% dos pobres e 70% dos indigentes. Em suma, os negros são duas vezes mais pobres que os brancos. Podem dar o nome que quiserem para essas proporções, mas a pobreza no Brasil tem cor.
Se olharmos a taxa de homicídios, a situação se complica. Quem quiser consultar alguns dados pode ir ao www.oei.org.br/mapaviolencia.pdf. Em 2004, o Brasil teve 27 homicídios por 100 mil habitantes, o que colocou o país entre os quatro mais violentos do mundo, junto com a Colômbia e a Rússia. A taxa de assassinatos de brancos é de 18,3 mortes por 100 mil pessoas, e a dos negros é de 31,7. Os estados da Paraíba e Alagoas têm oito homicídios de negros para cada branco morto.
Quando se observa a faixa etária de 15 a 24 anos (os jovens), a foto piora. Morrem 34,9 brancos em cada grupo de 100 mil pessoas. A taxa de homicídio de jovens negros é de 64,7. Em Alagoas, a chance de um jovem negro morrer é 13 vezes maior que a de um jovem branco. De novo: assim como a pobreza, a taxa de homicídios tem uma cor no Brasil. Recentemente, o governo propôs um programa de renda mínima para jovens em “situação de risco”, que é o pessoal que está se matando. Pois bem, o blogueiro-anta da revista Veja chamou de “bolsa bandido”. Como discutir nesse nível de indigência?
É impressionante como as cotas raciais ressuscitaram, da maneira mais grotesca, a idéia de miscigenação de Gilberto Freyre. Qualquer um cita a miscigenação para falar mal das cotas, sem ao menos conhecer os estudos de Ricardo Benzaquen sobre Freyre. A genealogia do mito do “mito da democracia racial” está num ensaio da historiadora Emília Viotti da Costa, salvo engano no livro “Do império à república”. Freyre falou de “democracia social” nas palestras que fez nos Estados Unidos nos anos 1940, mas insistiu para que não fossem publicadas aqui. É o livro “Interpretações do Brasil”.
Hoje, segundo quem estuda o tema, existe uma reconfiguração das identidades negras. O neo-pentecostalismo está tomando o lugar do umbanda e do candomblé que se tornam coisa de classe média branca, conforme já mostraram há tempos Reginaldo Prandi e Flavio Pierucci. Essa discussão está num texto de Pierucci na revista “Novos Estudos” (www.scielo.br/pdf/nec/n75/a08n75.pdf).

enio em janeiro 7, 2008 9:59 AM


#7

humilde opinião.
Tá bom...
Perfeito

gugala em janeiro 7, 2008 10:47 AM


#8

Eu morei em Salvador em 2004, por oito meses. E, de fato, houve uma espécie de, vá lá, "Guerra Santa" na eleição municipal. O candidato vencedor, do PDT, fez um missa-mício (missa com comício, como chamamos isso?) ao lado do meu prédio.

O pastor, lá pelas tantas, dizia coisas singelas como "ele é o candidato que realmente representa nosso senhor jesus cristo", entre outras frases extremamente politizadas.

Mas é burrice supor que tal fenômeno seja recente. O neopentecostalismo é gritante e às vezes incomoda, mas a presença clerical em campanhas políticas vem desde o tempo do Onça (e, pra quem não sabe, o Onça existiu e - sim - era um político... HONESTO!).

Em Salvador, sobretudo por parte da "elite branca" (lá isso realmente existe e não é mito!), notei um tipo de racismo que jamais vi em São Paulo.

Aqui, os pobres são discriminados. Há uma discriminação antes de tudo social, e depois étnica ou regional (afinal, nordestinos pardos ou mulados ou até "quase brancos" são discriminados de forma praticamente igual).

Na Bahia, como a elite já é ela toda nordestina, seria ridículo fazer essa discriminação; então eles discriminam... OS NEGROS. Descobri, não sem sentir profunda ânsia de vômito, que parte considerável da "elite branca soteropolitana" se refere aos negros - e em especial aos ambientes por eles freqüentados - como "baixo-astral".

Certa vez, uma pessoa me disse "não vá para lá, Férnându, é báxuastráu". Pensei que fosse um alerta sobre o ânimo do pessoal, sei lá, vai que é um show do Egberto Gismonti com o Uakti, seguido de um show de embaixadinhas do Betão.

Mas não.

O "baixo-astral" era por conta da predominância de negros em tal festa.

Aquilo me deu muito nojo, muita raiva, e então conheci - e convivi por alguns meses - com um racismo que nunca tinha visto nem mesmo em São Paulo.

E olha que - não sei se isso é privilégio ou maldição - tive e tenho acesso a rodas sociais altíssimas tanto lá quanto cá, de modo que posso mais ou menos dizer como pensam essas pessoas desprezíveis.

Os de lá, quanto ao racismo, são piores. Na empáfia, arrogância e ignorância, claro, há empate técnico. Na discriminação social, São Paulo ganha.

* * *

Quanto às cotas, já fui favorável à ação afirmativa puramente racial. Hoje, penso em algum tipo de ação afirmativa social, mas não nas Universidades. "Meu modelo", se posso chamar assim, seria o de cotas em COLÉGIOS PARTICULARES, para alunos sem condições de pagá-los.

Assim, quando chegasse a Faculdade, tais alunos teriam condições de disputar o vestibular em condições mais ou menos parecidas com a dos colegas "ricos". E, a médio ou longo prazo, o abismo seria diminuído.

Abraço, meu caro. E desculpe pelo comment-bíblia.

Gravatai Merengue em janeiro 7, 2008 11:34 AM


#9

Bom dia :-) (Boa tarde aí no Brasil)

Hoje deu vontade de responder os comentários com calma. Vou ao chuveiro, tomo um cafezinho e já volto. Tem muito pano prá manga aí.

Idelber em janeiro 7, 2008 11:49 AM


#10

Paulo, meu caro, feliz ano novo para você também. Mas o pacote econômico que realmente me afeta anda em curso desde 2000, com a chegada do Bush...

gugala, sumido, salve e feliz ano novo :-)

Nalu e Ricardo, podem recomendar e ir atrás, porque é um livro para marcar época, independente de qualquer desacordo que se possa ter com ele.

Lu, não é off-topic de jeito nenhum. Um dos argumentos fascinantes do Risério é acerca de como o neopentecostalismo vai se adaptando às sociedades nas quais intervém, apropriando, no Brasil, por exemplo, traços do candomblé e da umbanda -- mas agora dentro de um projeto utilitarista, imediatista e monetário. Há estudos de mais fôlego sobre o neopentecostalismo no Brasil, mas o capítulo do Risério, em termos de verve e insight, é único.

Pois é, Sonia. o que você relata é a cara do Brasil. Eu sou um branco que tem avô preto. Eu e Ana, nos EUA, somos um "casal inter-racial". É uma demência importar esse paradigma para o Brasil.

Gravata, não surpreende. Não conheço a Bahia bem o suficiente para acrescentar nada, mas não surpreende. Também sou favorável a cotas sociais, combinadas com investimento maciço na educação pública, senão não adianta.

Enio, meu caro, vamos lá. Concordo com tudo. Talvez a indigência do debate, que você descreve, tenha sido parte do que me levou a mudar de idéia. Que a pobreza no Brasil tem cor, não há dúvida. A questão é o remédio. E aí há que se pensar se uma solução que implique segregacionismo e etiquetas raciais binárias, fixas, não joga o bebê fora junto com a água do banho. Essa é a questão. Conheço o contra-argumento: a segregação já existe no nosso apartheid social. Perfeito. Mas qualquer solução que jogue esses 25% de brancos que estão abaixo da linha da pobreza contra os 50% dos negros que estão na mesma condição (para não falar da imensa população de mestiços, que não se identificam nem como negros nem como brancos!) passou a me parecer contra-producente.

Sobre Freyre: lembro-me de ter lido Interpretação do Brasil (acho que o título é no singular), mas a menção a "democracia racial" não terá sido como objetivo a se alcançar, e não como realidade existente? Se for como objetivo a se alcançar, estou dentro! Esse é o sentido, inclusive, da "utopia brasileira" à qual Risério alude no título.

De qualquer forma, a genealogia do termo democracia racial é curiosa: muito antes dos anos 40 ela foi usada para descrever o Brasil por viajantes .... americanos! Muitos deles negros, inclusive. W.E.B. DuBois e o nacionalista negro Henry McNeal Turner, por exemplo, escreveram sobre o Brasil nestes termos. Essa é a questão, o termo tem uma história perversa, porque depois ele passa a habitar as ciências sociais americanas como se fosse uma espécie de mito no qual os brasileiros sempre tivessem acreditado. Mas vou revisitar o Interpretação do Brasil e o texto da Emília Viotti, obrigado.

Outra coisa que é importante sublinhar: o livro de Risério não é sobre as cotas. Mal toca no assunto, na verdade. A conclusão sobre as cotas é minha.

Abraços,

Idelber em janeiro 7, 2008 1:30 PM


#11

Não sou acadêmico e nem erudito, mas nem por isso deixei de adorar a sua resenha e ficar com uma vontade incrível de ler esse livro.

Também fico feliz por saber que sua opinião sobre cotas raciais mudou.

Abração

Henrique Cintra em janeiro 7, 2008 2:17 PM


#12

O debate racial está todo e tão somente na questão das cotas nas universidades. A polêmica toda surgiu com essa proposta que levanta os instintos mais básicos. Daí a fúria cega do cardeal Ratzinger da TV Globo.
O termo "crioulada" foi um dos mais educados no caso ocorrido com o professor Paulo Kramer, na UnB. Ele falava do raio dessas cotas. E depois esse senhor fez uma defesa comovente do liberalismo. (Nesse episódio, me lembrei do filme "Nascimento de uma nação", D.W. Griffith, que mostra os negros se embebedando no Congresso dos Estados Unidos.)
Na prática, as cotas raciais aumentam a competição pelas vagas na universidade pública entre os brancos, sobretudo de classe média. O resultado é essa grita geral (dos brancos, é claro). Parece que foram ao nervo do problema.
É a velha disputa pelos recursos públicos. Mas ninguém no Brasil quer discutir por que um negro pobre é duas vezes mais pobre que o branco pobre e e por que um jovem negro tem muita mais chances de morrer no Brasil. Virou um tabu, que o debate das cotas só começa a tocar.

enio em janeiro 7, 2008 3:26 PM


#13

Oi, Idelber,
vou procurar ler esse livro, para conhecer melhor esse assunto. Gostei de saber que ele foge a determinadas posições consideradas definidas. Vou ler.
Aproveito para desejar um Feliz 2008, com muita Paz e Saúde.
forte abraço
fernando cals

fernando cals em janeiro 7, 2008 4:07 PM


#14

ahhhh sim..por isso os negros americanos estão na maior merda e brasileiros na boa..genio..

Barnardo caicendo em janeiro 7, 2008 5:13 PM


#15

ah bom...agora entendi...nao se pode falar em politicas de cota no Brasil (o que é bom para os EUA nao é bom para o Brasil) pq aqui nao se sabe quem é quem...por causa da miscigenação...então faz o seguinte: escala uma guarnição da PM em qualquer busão de cidade grande de madrugada; vão ver como eles sabem direitinho separar a s coisas..se sabem

Barnardo De Toboso em janeiro 7, 2008 5:21 PM


#16

Pois é, Barnardo, a questão é se queremos desenhar políticas sociais com base nos critérios da polícia racista.

Idelber em janeiro 7, 2008 5:29 PM


#17

"50% da população negra brasileira e 25% da branca estão abaixo da linha da pobreza. Os negros são 65% dos pobres e 70% dos indigentes."

Mas como? Provavelmente os brancos acima da linha de pobreza devem ser gente como eu, que nos documentos figuro como "branca", mas não passaria no teste de cor de qualquer país racista.

Sonia em janeiro 7, 2008 7:02 PM


#18

É sempre pela autodeclaração no IBGE, Sonia.

O que é outro baita angu de caroço. A categoria do IBGE para o mestiço é um termo que praticamente não tem existência lingüística real no Brasil: "pardo". Risério cita uma pesquisa que constatou que se o censo incluísse a categoria "moreno", por exemplo -- que é um termo que nós, falantes da língua, usamos todos os dias, ao contrário de "pardo" -- uma imensa porcentagem dos que declaram "brancos" e também "pardos" optariam por ela. O que dá a pensar, me parece.

É nisso aí que Risério insiste: o estatuto do mestiço, num país em que a imensa maioria é brancamestiça ou negromestiça (estes termos são do Risério, e eu adotei).

Não acha, Enio? Tem gritaria de branco com medo de perder o privilégio, sim. Mas também tem gritaria de gente preocupada com perder esse "bebê" junto com a água do banho. É um argumento que vale ser considerado, eu acho.

Idelber em janeiro 7, 2008 8:23 PM


#19

Enio e Idelber,
Uma coisa que devemos ter sempre bem claro nessas discussões. O primeiro passo é admitir o que o problema existe. Aquele moleque que trabalha na Globo, quer vender a idéia de que o problema não existe. Depois de admiti-lo, é que se pode discutir se a política de cotas raciais resolve o problema ou não e se não resolve, o que pode ser feito. Digo isso, pois é bem comum os debates acabarem encontrando defeitos na solução através de cotas e esquecendo do problema original.

Fernando em janeiro 7, 2008 9:22 PM


#20

pois é bem comum os debates acabarem encontrando defeitos na solução através de cotas e esquecendo do problema original.

clap, clap, Fernando. Acho que você pôs o dedo na ferida. E acho que nisso tanto eu como o Enio estamos com você.

Idelber em janeiro 7, 2008 11:08 PM


#21

Nunca cheguei a ter uma posição definida contra ou a favor das cotas. Mas tampouco fui muito simpático às cotas raciais. Do que conversei algumas vezes foi sobre a possibilidade de uma política de cotas, com prazo preestabelecido para acabar, para oriundos de camadas sócio-econômicas mais baixas, de preferência — e neste ponto tenho dúvidas — que tivessem estudado em escolas públicas — exceto, dentre elas, aquelas escolas (ainda) consideradas de nível elevado —, escolhidos em função do ENEM, por exemplo — os melhores de suas escolas (meritocracia no meio dessa história é bom, não?), ainda que estas tenham tido desempenho regular no próprio ENEM —, e que tivessem a possibilidade de fazer cursos de nivelamento. Claro, essa política seria atrelada a um projeto nacional para mudar o próprio panorama do ensino público (mas não apenas deste último), com metas e prazos para tal melhora. O alcance dessas metas faria com que pouco a pouco a política de cotas deixasse de ser necessária.
Penso que qualquer conversa sobre cotas deveria definir prazos para que estas acabassem, para que não virassem uma CPMF, que de provisória não teve nada. Cotas sem prazo para acabar não me parecem solução para nada, mas sim a criação de um novo problema...

Ricardo Cabral em janeiro 8, 2008 7:28 AM


#22

Ouvi, faz algum tempo, militantes do movimento negro dizendo que não haveria chance alguma de frutificar qualquer tipo de política de integração racial no Brasil. O motivo alegado era o de que nem o branco brasileiro sequer sabe o que ele mesmo almejava para si. Quanto mais pensar no que precisariam os não brancos, os pobres, os indigentes etc. Dai, que políticas indulgentes, piegas e com enorme compaixão tenham espaço para frutificar na análise da questão. Tanto quanto as políticas de exclusão total, apoio ou alheamento frente à violência contra negros, pobres, indigentes. Ou aquelas em que o mulatismo ou o morenismo, a malemolência a folclorização são a tônica, notadamente para enaltecer o Brasil junto a estrangeiros. Numa situação como a última, então, não poderia existir racismo. Tai uma boa questão. Afinal, como pode haver interesse real em ter-se um País multiracial (embora afirme-se que não existe raça), multicultural (embora exista apenas uma cultura por aqui e esta tenha cor), que possa ser harmônico (embora existam mais violências contra não brancos)? É possível criar arcabouço institucional para tanto?

Dawran Numida em janeiro 8, 2008 10:06 AM


#23

Ricardo, concordo em gênero, número e grau.

Dawran, ponderação ouvida. Com muita atenção. Mas acho que seria injusto condenar uma análise como a do Risério como "piegas" ou "para enaltecer o Brasil junto a estrangeiros". Eu, pelo menos, não vestiria essa carapuça: nas minhas aulas sobre o Brasil para estrangeiros, o que não faltam são críticas, lhe garanto. Mas não vou igualar o que não pode ser igualado só para que os estrangeiros se sintam melhor com o apartheid de suas próprias sociedades. Há muita gente que acredita de verdade que o Brasil tem algo a ensinar ao mundo neste quesito. Eu e Risério nos incluímos nessa turma. Seria um reducionismo ver a posição dessas pessoas como "macumba para turistas".

Quanto ao multiculturalismo, eu realmente recomendo uma visita ao capítulo de Risério sobre o tema. Ele concorda com você que o Brasil possui "uma" cultura, com unidade na diversidade. Mas se ela "tem cor", é a da mistura. Como pensar o país de Dorival Caymmi e Machado de Assis afirmando que ele só tem uma cor?

Idelber em janeiro 8, 2008 11:25 AM


#24

Bem, eu já tinha postado aqui algumas colocações em relação as idéias do Professor Risério, entretanto devido a pressa acredito que faltou um pouco de "substância" naquilo que escrevi naquele momento. Dito isso, tentarei agora elaborar um raciocínio um pouquinho mais elaborado acerca das idéias do professor, deixando bem claro de antemão que não li o livro "A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros" e que tudo que eu falar aqui é baseado na entrevista do Professor Risério publicada no "Biscoito Fino", nas observações que o mantenedor do sítio fez sobre a obra supracitada, nas minhas impressões sobre o Movimento Negro Brasileiro e principalmente em tudo aquilo eu li e vi sobre a Questão do Negro na adorável Terra de Pindorama. Vamos lá?
Então vejamos...O Brasil é um país mestiço, né? Bom, isso é uma verdade verdadeira e até um tanto quanto óbvia. Entretanto, todos os países que compõem o continente americano são mestiços em sua origem. Todos eles nasceram do intercurso carnal e cultural de povos nativos com outros que vieram para cá no Período Colonial. Caso isso não fosse verdade, não existiram garotos brancos estadunidenses consumidores de rap, o "redneck" americano não seria um devorador de tacos e nachos, bolivianos descendentes de indios aymarás que gostassem de música clássica seriam uma impossibilidade, o Dia de los Muertos mexicano (festa que congrega tradições cristãs e indigenas) seria apenas um devaneio e gêneros musicais como o samba, jazz, blues, tango, rock, guarânia, calipso, reggae e tantas outras jamais teriam visto a luz do dia. Daí, acredito que o discurso de que somos uma "nação -mestiça-e-somos-diferentes-dos-outros-talvez-até-melhores-e-o-que-é-bom-pros-outros-não-serve-pra-nós" me soa altamente questionável. Ora, ultimamente até a Europa anda se miscigenando a largos passos devido a imigração de africanos e asiáticos! Poxa vida, não somos nem o país mais miscigenado da América do Sul! Basta dar uma olhada para as Guianas (Holandesa, Francesa e Inglesa) para ver o que realmente é mistura racial, já que nesses países há um caldeirão que mistura dentro de si europeus, indios, africanos, chineses, indianos e indonésios. Francamente, será que em um país supostamente "binário" como os States não há milhares de brancos descendentes de negros e vice-versa? E mesmo que essas pessoas não existissem ou sejam em um número irrisório, façamos um breve exercício de imaginação: como seria a Terra do Tio Sam sem a presença negra? Deixô vê...Hum...Viver sem Elvis Presley? Viver sem Rock'nRoll? Não poder comer frango frito com pimenta? Uma lingua inglesa dura e com ares shakespereanos? Jamais poder escutar as composições dos Irmãos Gershwin (compositores judeus que beberam na fonte do Jazz)? Nãããããããããããããõooooooooooooo! Pára esse bonde que eu quero descer! É... E todo esse discurso "bunitinho" que eu fiz serve apenas para entrar na questão da "morte dos deuses africanos" nos EUA e na "sobrevida" que eles tiveram aqui em Pindorama...

Claudio Roberto Basilio em janeiro 8, 2008 8:58 PM


#25

Pesquisadores estimam que algo entre dez e quatorze milhões de africanos foram "convidados" a trabalhar nas Américas até meados do século XIX. Esses mesmos pesquisadores deduzem que 50% desse contingente de "trabalhadores" foi espalhado entre a América do Norte, Caribe, América Central e países hispânicos da América do Sul. Os outros 50% foram parar em um certo país chamado Brasil. Já deu para entender onde eu quero chegar, né? Durante um bom tempo nós fomos a maior nação escravagista do mundo! O Brasil tinha muito, muitos mais negros que os EUA! Havia tantos, mas tantos negros por aqui que alguns historiadores calculam que até o final do século XIX 80% da população brasileira era eminentemente africana. Nossa, o coeficiente de negros entre nós era tão alto que existiam até negões proprietários de outros negões! Aliás, sobre isso eu irei falar um pouquinho mais para frente, mesmo porque o negócio agora é falar sobre a sobrevida do divino panteão africano no Brasil. Tanto aqui quanto lá (nos States) se tentou de todas as formas possíveis e imagináveis sufocar a adoração de Oxalá e cia, mesmo porque o senhor de engenho até gostava de transar com as negrinhas da senzala, mas achava que veneração de deuses pagãos era muita pouca-vergonha! A sobrevivência de cultos africanos, misturando-se com tradições católicas e indigenas foi um dos primeiros e mais importantes atos de resistência do povo negro brasileiro contra a escravidão, e o fato de em um determinado momento da História uma enorme parte da população brasileira ter notórias raízes africanas com certeza ajudou o Candomblé, a Umbanda, Tambor de Mina e tantas outras crenças a persistirem entre nós. Coisa que não aconteceu nos States, já que pelo que eu sei apenas algo em torno de 10% a 15% da população estadunidense é afro-descendente, o que naturalmente foi muito útil no momento de exterminar crenças africanas. Daí, concluímos óbvio: não foi uma suposta "bondade-do-colonizador-ou-então-tolerância-inerente-ao-cárater-miscigenado-do-povo-brasileiro" que fez com que Ogum tivesse tantos adoradores brasileiros até hoje, mas sim a força de um povo! E olha que não faltaram tentativas para exterminar o culto aos Orixás durante o século XX, e essas tentativas não foram executadas por neopentecostais com a Bíblia debaixo do braço (por quem eu não nutro muito apreço), e sim pela nossa sempre amada elite, que ordenava batidas policiais aos terreiros sempre que tinha uma chance para isso. E quando não ordenava batidas policiais, a nossa elite importava da França o Espiritismo (uma religião animista muito mais "limpinha" que a imundície dos vodums africanos) ou então despejava o seu veneno nos editoriais de seus jornais. Gostaria de ler um deles? Acesse esse link e procure dentro do texto trechos de um editorial que o "Estadão" publicou sobre a morte de Mãe Menininha do Gantois -- http://www.ufes.br/~mlb/fronteiras/pdf/racismo_Jorge_Luiz_Nascimento.pdf -- Leu? Legal ele, né? E pensar que ele foi publicado "apenas" em 1986, uma época onde supostamente jornalões não deveriam ter coragem de publicar textos tão racistas quanto esse... Para finalizar, não conheço nada de New Orleans, mas sei que bem ou mal tradições religiosas da África ainda persistem por lá. Será que isso acontece porque a cidade foi originalmente fundada por franceses, que eram mais "bonzinhos" que os ingleses? Sei lá... Assim como os EUA a Jamaica foi colonizada por ingleses, e até hoje tradições africanas milenares são lembradas na ilha caribenha... Vai ver os colonizadores da ilha eram caras legais...Pois é... Se eu tivesse vergonha e fosse um cara legal pararia por aqui, mas como ainda estou a fim de aporrinhar, então vamos que vamos!

Claudio Roberto Basilio em janeiro 8, 2008 8:59 PM


#26

Acho extremamente interessante a afirmação de "não existe mito da democracia racial no Brasil". Sabe por que? Porque ultimamente o Movimento Negro Brasileiro anda sendo torpedeado por todos os lados e o principal argumento usado contra as organizações negras é justamente aquele que preconiza que "somos-uma-grande-nação-mestiça-onde-não-se-sabe-quem-é-negro-e-onde-nunca-ocorreram-conflitos-raciais-e-onde-só-o-pobre-é-discriminado". Ora, talvez "Casa Grande e Senzala" não trouxesse a expressão "democracia racial" em suas páginas mas uma das raízes dessa crença mitológica indiscutivelmente está lá. E, de mais a mais, ficar discutindo a origem semântica de expressões é apenas um mero exercício de futilidade, tendo em vista que grande parte da academia e da elite brasileira em sã consciência realmente acredita na utopia da bela nação mestiça e pacificada, independente da expressão supostamente ter sido criada por viajantes negros americanos. Maiores informações podem ser encontradas neste link para o blog do nosso eterno amigão Reinaldo Azevedo -- http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/2007/06/veja-4-matria-de-capa-raa-no-existe.html --. E, por favor, não pensem que a partir do momento que eu cito o glorioso Tio Rei estou afirmando que apenas reacionários acreditam na "democracia racial". Até mesmo indivíduos que se consideram progressistas acreditam piamente que todos os problemas do Brasil são apenas de ordem sócio-econômica!
O exemplo do ativista negro que não gosta da palavra "batuqueiro" é fascinante. Um leitor desavisado que se deparasse com isso provavelmente pensaria que todo participante do Movimento Negro é um ignorante de marca maior que prefere usar as expressões "percussionist" ou "drummer", já que supostamente todos aqueles que participam do Movimento Negro não passam de indivíduos ansiosos para serem os novos Malcom X da periferia. Ora, o Movimento Negro brasileiro não foi fabricado com Certificado ISO9000 de santidade e perfeição, todavia ele é muito mais do que uma mera importação de conceitos americanos. Ou será que existe algo como o Olodum e o Yle-Aiê nas terras do Tio Sam? Ou será que os negros fugidos da senzala, Mãe Menininha, Abdias do Nascimento, a Frente Negra, Teatro Experimental do Negro e Lélia Gonzales formaram seus conceitos após assistir filmes do Spike Lee? Segundo boa parte dos acadêmicos brasileiros a coisa é por ai...

Claudio Roberto Basilio em janeiro 8, 2008 9:00 PM


#27

Agora, eu gostaria de voltar um pouco ao primeiro tópico postado aqui sobre a obra do Risério, tópico esse que traz dentro de si uma entrevista com ele. Lá o autor chora as pitangas afirmando que não encontra interlocutores para trocar idéias. Bem, o que ficou patente para mim lendo aquela entrevista é que para o Professor Risério "interlocutor" é o indivíduo que concorda com as idéias dele, e não aquele que eventualmente pode discordar dele. Assim fica díficil encontrar "interlocutores", não é mesmo? Mas essa é uma questão meramente acessória e desimportante. Importante mesmo é o trecho da entrevista que irei destacar logo abaixo, trecho esse que trata sobre o pedido de perdão que o Presidente Lula fez pelas centenas de anos em que o Brasil escravizou seres humanos:

"E é ignorante, como Lula pedindo perdão no Senegal. Quem tem de pedir perdão aos povos africanos, pela escravidão, são as elites africanas, que participaram ativa e lucrativamente do tráfico de escravos. Como se não bastasse, há uma certa covardia dos intelectuais, que temem contrariar os movimentos negros e serem classificados como racistas."

Não sei porque essa frase do Professor Risério me lembra outra do sensacional Tim Maia. O Síndico sempre dizia: "O Brasil é o único país do mundo onde puta goza, cafetão tem ciúme e traficante é viciado". Depois dessa fala do Professor Risério acrescentaria outro item a antológica frase do soulman brasileiro: "O Brasil é o único país do mundo onde a vitima é culpada pelos crimes cometidos contra ela". Me deixa explicar... É óbvio que negros africanos venderam outros negros africanos para os navios mercantes europeus e é óbvio que no Brasil não faltaram pretos e mulatos senhores de escravos. O que não parece óbvio para o Professor Risério é que ninguem no Brasil foi escravizado por ser branco! Por favor, me mostrem relatos de canaviais e cafezais dirigidos por indios e negros que usaram força de trabalho branca e escrava! Ora, o fato de o Brasil ter tido o auxílio luxuoso de uma elite africana mau-caráter no processo escravagista não muda o fato de que o Estado Brasileiro deu respaldo jurídico para a escravidão em pleno século XIX, uma época onde já estava bem difundido no Ocidente o conceito de que a escravidão não era uma coisa lá muito bacana. E não muda também o fato de que a escravidão tinha como alvos preferenciais os negros e indios, e que até hoje essas populações vivem as conseqüências dessa abominação. Resumindo: o Estado Brasileiro foi cumplice de uma monstruosidade, o que torna perfeitamente aceitável e até mesmo obrigatório que o Presidente Lula peça desculpa pela Escravidão, independente do que as elites africanas façam ou deixem de fazer nos dias de hoje para melhorar a situação dos povos africanos. Sendo bem canalha eu poderia usar a lógica do Professor Risério para outra questão, que é a da violência urbana no Brasil. Vamos supor que daqui a duzentos anos sociólogos começassem a estudar esse fenômeno típico dos nossos dias. Usando essa linha de raciocínio eles poderiam afirmar que as comunidades carentes dos grandes centros urbanos brasileiros eram culpadas pela violência que somos obrigados a assistir hoje só porque a maioria dos bandidos e lideres do tráfico eram oriundos delas! Ai questões como a pobreza e o tráfico globalizado de armas e drogas seriam espertamente deixadas de lado por eles, né? Todavia, não precisamos esperar duzentos anos para ver constatações como essa serem firmemente defendidas, considerando-se que o fã-clube do Capitão Nascimento aumenta a cada dia que passa. É por essas e outras que realmente amo o meu país: é o único lugar do mundo onde teses do tipo "o-negro-é-culpado-pela-escravidão" e "a-policia-tem-mais-é-que-reprimir-mesmo" são alegre e desavergonhadamente defendidas até por intelectuais supostamente progressistas! Taí algo onde realmente somos singulares!

Claudio Roberto Basilio em janeiro 8, 2008 9:01 PM


#28

Quanto a "covardia dos intelectuais" em enfrentar os Movimentos Negros, sinceramente eu pediria ao Professor Risério que parasse de ser tão irônico. Após o "escândalo-da-ministra-que-pregava-o-racismo-negro" não faltaram em nossos jornalões artigos "provando" que "negros-escravizavam-negros", "cota-é-coisa-de-gringo", "o-movimento-negro-quer-acabar-com-os-mestiços",etc. Qualquer levantamento informal demonstra cabalmente que o Movimento Negro Brasileiro atualmente é um dos dos movimentos sociais mais combatidos no Brasil, senão o mais combatido! O poderoso Ali Kamel que o diga, já que até matérias sobre o assunto são censuradas na Globo!
O Movimento Negro Brasileiro não nega (e nem tem como negar) que o nosso país surgiu da confluência de diversas culturas, que aqui se misturaram e criaram coisas maravilhosas como a capoeira, camdomblé e o carnaval. O grande questionamento atual do Movimento Negro é porque no topo da pirâmide social brasileira não existe a mesma diversidade encontrada na base. Afinal de contas porque existem tão poucos professores universitários pretos, pardos ou "negromestiços"? Por que um indivíduo "moreninho" quando é parado pela polícia é chamado de "crioulo safado"? Por que um casal interracial no Brasil só chama menos a atenção que um casal homossexual? Por que o Brasil é tão "unitário" no seio das suas elites? Será que o Doutor Roberto Marinho (filho de um portugues com uma mulata carioca) se enxergava como mulato toda vez que se olhava no espelho? Colocar esses temas em pauta e pedir a implementação de ações afirmativas não é "importar costumes americanos", e sim questionar coisas erradas, mesmo porque o racismo atinge igualmente pretos e pardos, o que leva o Movimento Negro Brasileiro a agrupá-los em um grande grupo, que é o dos afro-descendentes. Para finalizar de vez a questão, Idelber, peço desculpas a você pelo desabafo quilométrico que enviei ao seu blog, mesmo porque mesmo sem ler o livro do Professor Risério não consigo deixar de ficar com a impressão que o propósito dele é unica e exclusivamente tentar meter um "cala-a-boca" em todos os ativistas do Movimento Negro Brasileiro. E termino citando aqui Nelson Rodrigues (um reacionário que sabia das coisas) :

Aí está "Sortilégio", o seu mistério, que vive, justamente, do seu dilaceramento de negro. Eu já imagino o que vão dizer três ou quatro críticos da nova geração: - que o problema não existe no Brasil etc., etc., etc. Mas existe.
E só a obtusidade pétrea ou a má-fé cínica poderão negá-lo. Não caçamos pretos, no meio da rua, a pauladas, como nos Estados Unidos. Mas fazemos o que talvez seja pior. A vida do preto Brasileiro é toda tecida de humilhações. Nós o tratamos com uma cordialidade que é o disfarce pusilânime de um desprezo que fermenta em nós, dia e noite. Acho o branco brasileiro um dos mais racistas do mundo.

alguns links interessantes sobre os temas que foram discutidos aqui:

Artigo comentando o livro do Risério
http://www.irohin.org.br/onl/new.php?sec=news&id=2583

Artigo que comenta os ataques ao Movimento Negro
http://www.irohin.org.br/imp/template.php?edition=20&id=93

Nei Lopes comenta a relação entre pretos e pardos
http://www.afropress.com/colunista_2.asp?id=176
http://www.afropress.com/colunista_2.asp?id=228

Nei Lopes comenta essa mania dos brasileiros de imitar americano
http://neilopes.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html

Claudio Roberto Basilio em janeiro 8, 2008 9:02 PM


#29

Cheguei meio atrasado na discussão, mas queria, já que sou baiano, dar uma opinião rápida sobre a questão da "elite branca" de Salvador citada pelo Gravatai. Não tenho condições de dizer que ela não existe. Deve existir. "Ou não". Mas é que essa coisa da expressão "baixo-astral" não me pareceu muito correta, não: eu ouço essa expressão aqui há uns 5 anos e não exatamente como referência aos locais frequentados por negros. Sério. Talvez o caso que o Gravatai ouviu tenha sido realmente nesse sentido - mas, no geral, não é. Diz-se, aliás, que qualquer coisa pode ser "baixo-astral": desde uma ida ao dentista até uma aula de Literatura Brasileira I sobre Anchieta. A expressão racista "por excelência" usada na Bahia é "brown" (variações são permitidas: brau, braum etc.), designando um pessoal da periferia (em geral negros, marrons, browns, naturalmente) que fala de certo modo, anda de outro e vai a tal ou tal local. Mas é claro que existe "brown" branco e amarelo.

Mas era só um esclarecimento sobre gírias. Continuem a discussão.

Rodrigo em janeiro 8, 2008 9:56 PM


#30

Claudio, de novo vou ter que me limitar, por enquanto, a agradecer – de verdade, agradeço a atenção ao blog e o tempo dedicado a argumentar – e dizer que só vou responder alguns dos pontos que você coloca. É uma posição complicada para mim, veja só, porque estou acostumado – há mais de 20 anos – a ocupar, neste debate, a posição que você agora ocupa, enfrentando pessoas que ocupavam um lugar mais ou menos análogo ao que eu escolhi (ou, pelo menos, o lugar ao qual eu venho tendendo, deixando claro, como deixei, que minha opinião sobre parte desses temas ainda está em formação). Por exemplo, na época do episódio com o Grafite, eu escrevi isso, na época do episódio com a Ministra Matilde o meu post foi esse, e sobre as comunidades quilombolas eu escrevi isso. Não se trata de apresentar credenciais, mas simplesmente de apresentar um percurso de um pensamento que vai se formando na prática e no diálogo. Dito isso, vamos lá. Sempre com a ressalva de que não conheço Risério e não tenho procuração para falar em seu nome.

1.Dizer que o que quer Risério é dar um cala-boca no movimento negro é uma tremenda injustiça. Monumental. Dizer sem ter lido o livro, bom, aí beira a leviandade. Não misturemos Reinaldo Azevedo com Risério, meu caro. Eu sei que você vê a diferença, mas sinceramente, dê uma olhada no post de hoje do RA sobre o meu candidato Obama – o explícito, odioso racismo – e leiamos o livro do Risério sem fazer pré-julgamento. Risério está chamando o movimento negro – ou pelo menos a vertente nele dominante – para um debate. A chamada é provocativa. Mas não dá para entrar numa conversa já acusando o interlocutor de querer calá-lo.

2.Não conheço nenhum intelectual progressista – defina o termo como quiser – que diga que “o negro é culpado pela escravidão”. Risério, com certeza, não está nem passando perto de dizer isso. O que está apresentado no livro é outra coisa. É não esquecer que a história não é um casal de gavetinhas onde todos já têm uma posição pré-determinada. É não esquecer que houve escravidão entre os tupinambás; que as elites africanas praticaram a escravidão; que negros libertos tiveram escravos, etc. etc. etc. Nada disso reduz a dívida do Brasil com a população negra. Nada disso apaga a violência policial dirigida contra os negros. Nada disso faz da elite brasileira menos branca. Será que é impossível afirmar essas duas coisas ao mesmo tempo? Eu gostaria de poder manter as duas afirmações, senão por compromisso ético, pelo menos por compromisso com a verdade.

3.Também no espírito de ser fiel à verdade, não é fato que “o racismo atinge igualmente pretos e pardos”. Não há frase que falsifique o racismo brasileiro mais que esta. Um pardo na Bahia pode ser um preto em Santa Catarina. Um preto com grana pode virar pardo. Aliás, essa palavra “pardo”, quando é que a usamos mesmo? Ela tem alguma existência fora do IBGE?

4.Não. Não é uma bobagem acadêmica saber de onde vem o papo sobre democracia racial. Saber de onde vêm os termos nunca é uma bobagem. Eu passei 15 anos ouvindo gringos dizerem que o “mito” da democracia racial brasileira provava que era tudo a mesma coisa – é visível, Claudio, o desejo dos caras de afirmar que o seu apartheid não foi tão ruim assim, porque afinal de contas, o “mito” da democracia racial brasileira era falso. Eu quero ver esse mito encarnar na realidade. Você não quer? Eu prefiro um lugar onde não existam racistas. Se o racismo sempre vai existir, eu não sei. O que sabemos é que ele existe. E enquanto existir, eu prefiro um lugar onde os racistas tenham vergonha de se assumir enquanto tais.

5.não foi uma suposta "bondade-do-colonizador-ou-então-tolerância-inerente-ao-cárater-miscigenado-do-povo-brasileiro" que fez com que Ogum tivesse tantos adoradores brasileiros até hoje, mas sim a força de um povo . É exatamente isso que Risério está dizendo. O argumento da “bondade do colonizador” passa longe, longe, desculpe-me. Nada a ver com o que ele diz. O que ele estuda é porque a força desse povo foi canalizada para uma ocidentalização quase completa nos EUA. Não acredito que isso possa ser explicado só pela demografia, só pelo fato de que a população afrodescendente nos EUA é somente 13%.

6.Somente 1% dos brancos americanos têm ascendência africana (os dados são de F. James Davis, em Who's Black: One Nation's Definition, Penn State UP, 1991).

7.Questiono a afirmação de que o movimento negro seja o mais combatido do Brasil. Por atenção aos fatos. Olhe o MST. Qualquer Reinaldo Azevedo da vida é capaz de dizer impunemente que os integrantes do MST são bandidos. Por mais racista que ele seja, ele não pode dizer isso do movimento negro. Você não acha que isso é uma vitória?

8.Sobre a singularidade do Brasil como nação mestiça e a sobrevivência do africano nos EUA eu prometo resposta mais detalhada para depois.

Fortíssimo abraço,

Idelber em janeiro 8, 2008 10:38 PM


#31

Idelber, fiz um post requerendo minha vaga segundo o sistema de cotas. :)

Hermenauta em janeiro 9, 2008 6:45 AM


#32

Um ponto dessa discussão toda é a idéia do povo mestiço, que vem sendo muito rediscutida.
Uns geneticistas da UFMG fizeram uma pesquisa anos atrás e concluíram que há uma carga elevada de mistura de brancos, negros e índios no Brasil. Mais precisamente, concluíram que se trata de um homem branco de origem ibérica tendo filhos com mulheres de origem africana e ameríndia. Algo como o encontro do romance "Iracema", de José de Alencar.
Pois bem, a mestiçagem não é só uma conclusão genética e científica. É sim uma construção cultural, o que se comprava nas idéias de um Risério. No século XIX, Von Martius ganhou o concurso de "Como escrever a História Brasil", do Instituto Brasileiro Histórico e Geográfico, ao sugerir que o ponto de partida seria o encontro das três raças.
A mestiçagem foi discutida fartamente no final do século XIX nas polêmcias e livros de Silvio Romero. Nos anos 1930, o Brasil ganha suas interpretações de mestiçagem. Um ponto relevante é que se trata de uma construção de "identidade", e não de um "caráter".
Lá pelos anos 1950, Dante Moreira Leite já ressaltava a diferença entre identidade e caráter.
O que chama a atenção hoje é a defesa da mestiçagem como um "caráter", uma essência do brasileiro. Não seria mais uma "identidade" socialmente constituída. As pesquisas genéticas induzem a essa visão essencialista da mestiçagem, levando às torturas numéricas de um Ali Kamel no livro "Não somos racistas".
Sinceramente, depois da desconstrução de Derrida, fica difícil acreditar num "caráter".
No livro "Dois atlânticos" (ed UFMG), o antropólogo Sérgio Costa relata como o movimento negro vai se afastando desde os anos 1970, mais ou menos, da idéia da mestiçagem e busca a retomada da identidade africana. Ela cita o caso de uma pesquisa em salões de beleza em Belo Horizonte, onde negros começam a usar pentados afro e deixam de lado a prática de alisar o cabelo. Cita o caso do funk carioca e o hip hop paulista, cuja ligação são os Estados Unidos.
No caso dos quilombolas, a afirmação de uma identidade negra envolve a disputa por terras, que no Brasil é uma briga de tiros.


enio em janeiro 9, 2008 7:36 AM


#33

Eu ia escrever algo, mas o Ricardo Cabral (#21) acabou por tornar minha participação irrelevante.

Concordo com tudo o que ele escreveu.

Idelber - Só um ponto para corroborar sua afirmação: tanto nos EUA quanto no Brasil há pessoas dentro do movimento negro que possuem opiniões iguais as do Risério. Mas como os cientistas que não vão na onda do Aquecimento Global estas pessoas são totalmente ignoradas.

Pablo Vilarnovo em janeiro 9, 2008 7:37 AM


#34

Só um pergunta: será que alguém nos EUA ainda pode ser considerado Africano? Fora os que vieram efetivamente da África?

Idelber - Quando você coloca a "sobrevivência do Africano nos EUA" você quer dizer da cultura Africana nos EUA?

Pablo Vilarnovo em janeiro 9, 2008 7:45 AM


#35

Acho que o caso dos gêmeos da UnB _ um tendo sido aprovado, outro rejeitado _ já demonstrou em demasia que o sistema é uma esculhambação.

Eu até entendo que a idéia tem a ver com o combate ao preconceito derivado da aparência. Neste caso, o first-best seria fazer a seleção usando um colorímetro, aparelho isento de subjetividade (o diabo seria chegar a um consenso sobre a tonalidade onde começa o preconceito, desconsiderando, é claro, pessoas queimadas de sol _ desde que o bronzeado se deva a férias e não a trabalho ao ar livre).

O second-best seria formar uma comissão julgadora composta exclusivamente de pessoas racistas, que são os melhores sujeitos para verificarmos o funcionamento do preconceito.

O problema é que em seguida teríamos que considerar também brancos e pardos de má aparência, de aspecto desleixado, mal penteados, com dentes estragados, roupas rasgadas...etc. Já vi no metrô em Paris arianos puros que eu não deixaria entrar em minha casa.

O tom desse comentário é só aparentemente de pilhéria, mas eu realmente falo sério. Acho que as cotas criam mais problemas do que os resolvem.

Recentemente, peguei no pé de Reinaldo Azevedo por ele dizer que a África do Sul usa políticas universalistas em lugar de políticas de ação afirmativa. No entanto a AS usa MUITO a ação afirmativa. Acho meio evidente que lá não existem crianças brancas pobres. Eu acho que lá, como aqui, a melhoria da educação básica para todos faria mais sentido que cotas na universidade, mas concedo que a racionalidade de uma política de cotas lá é maior do que seu uso aqui.

Hermenauta em janeiro 9, 2008 9:06 AM


#36

"O second-best seria formar uma comissão julgadora composta exclusivamente de pessoas racistas, que são os melhores sujeitos para verificarmos o funcionamento do preconceito."

Isso já não existe na UnB???

Pablo Vilarnovo em janeiro 9, 2008 9:13 AM


#37

Grato pela atenção Idelber. Não tive a pretensão de criticar avaliações e produção sérias sobre assunto de tal importância. Mas sim, chamar a atenção sobre alguns aspectos. A benevolência e pieguice, como que, como exemplo, foi recepcionado o Estatuto da Igualdade Racial que, após rasgados elogios redentoristas no Congresso, gerou contestações como testes de origem de negros famosos, livros e debates contra cotas e ações afirmativas etc. Tudo para provar que raça não existe, que o Brasil é mestiço, que a resposta deveria vir do lado social e não racial etc. Além de qualquer denúncia contra atitudes racistas, ser relegada, de forma truculenta, ao descrédito. Depois disso, nada mais surgiu sobre o andamento da discussão da proposta, se continua tramitando, se foi aprovada, se foi abandonada. E as questões que o Estatuto pretendia resolver? Que respostas tiveram? Um alheamento total. Também acho que políticas sociais bem articuladas poderiam ter mais eficácia. Mas, se é assim, por que, então, gerar diploma com tanto estardalhaço e depois renegá-lo ao silêncio? Os negros que, em tese, seriam beneficiados, passaram a vilões, oportunistas e racistas usurpadores de recursos e empregos públicos. São tais distorções que pretendi abordar.

Dawran Numida em janeiro 9, 2008 11:19 AM


#38

Pablo, menos revista "Veja", mais um pouquinho de bom senso. Um tiquinho só. Rascismo na UnB? Ao menos, informe-se melhor. Deixe esse enfoque para o blogueiro-anta da "Veja".

enio em janeiro 9, 2008 1:18 PM


#39

enio - Bom, para mim cotas são medidas racistas. Isso só para começar. Agora o que eu falei sobre a UnB é que lá há uma comissão para definir quem é negro e quem não é. Essa comissão é formada por "de movimentos ligados à questão da igualdade racial e especialistas no tema". O candidato tem que tirar uma foto que será analisada por essa comissão que detém o poder de dizer quem é negro ou não.


E para mim é sintomático onde pessoas que se dizem ligados a movimentos para a igualdade adotem medidas racistas e desiguais.

Racismo amigo é uma via de mão dupla. E sim, a UnB é uma das universidades mais racistas do Brasil.

Pablo Vilarnovo em janeiro 9, 2008 1:42 PM


#40

Pablo Vilarnovo (# 33), o novo por aqui sou eu, mas nós dois já tivemos alguns debates no Pedro Doria e também no finado NoMínimo... Quer dizer que concordamos? Devo começar a me preocupar? (risos!!)
Abraços

Ricardo Cabral em janeiro 9, 2008 1:56 PM


#41

Pablo, repito, não siga a revista "Veja" (ela emburrece as pessoas). E, por favor, mantenha as boas maneiras ao falar de uma universidade que tem uma História e da qual você certamente não conhece sequer o endereço no Google Earth. Deixa esse tipo de linguagem chula (o racistômetro) para o Olavo de Carvalho, o Jim Jones do liberalismo brasileiro.

enio em janeiro 9, 2008 2:44 PM


#42

enio - o fato da UnB ter história não quer dizer que não tenha adotado medidas racistas. Um "conselho" organizado para através de fotos definir quem é negro ou não é algo racista.

"Há um sentimento generalizado que a nomeação de comissões para definir a 'raça' dos cidadãos é um retrocesso com sinistros odores do apartheid da África do Sul, e dos mecanismos desenvolvidos pelos eugenistas de antanho no Brasil. "

Peter Fry

É... ele está certo.

Pablo Vilarnovo em janeiro 9, 2008 3:04 PM


#43

Gosto, não se discute; lamenta-se.
Se uma pessoa não entende o on/off de uma ironia, é um leitor da revista "Veja" e vê rascismo em sistema de cotas, só podemos lamentar por ela.

enio em janeiro 9, 2008 3:15 PM


#44

Enio - É aquilo que se diz sobre opinião e bundas...

Pablo Vilarnovo em janeiro 9, 2008 4:06 PM


#45

Meu comentário sobre racismo é o seguinte:

Uma vez, conversando com uma chinesa que estava pela primeira vez fora da China, chegamos a questões a respeito de relacionamenos. Discutimos várias combinações e ela me informou que sairia com um ocidental branco, mas nunca com um negro. Na verdade, ela fez uma cara feia quando perguntei do negro.

Pensei comigo: É... isto é racismo.

Também pensei que a mesma resposta no Brasil seria bem diferente. O que me faz pensar que no Brasil a coisa não é simples.

Quando falamos de salários, duvido que o salário do negro seja menor do que o do branco, quando em mesma situação de responsabilidade, escolaridade e afins. Digo isso porque há na CLT uma lei que trata de isonomia: mesmo cargo / responsabilidade, mesmo salário. Se a empresa sair da linha, o empregado processa a empresa, o que hoje em dia (pelo menos em São Paulo) é a coisa mais simples. A menos que os juízes decidam contra os negros, mas acho difícil. Se alguém tiver algum estudo contrário, ficaria feliz em ler. O que li até agora reforça minha opinião.

Em relação a cotas, acho injusto. Creio haver métodos melhores de trazer mais negros à universidade. Nesse ponto, gosto do que faz minha alma mater -- cursinho preparatório para pessoas pobres. Até onde verifiquei (faz tempo, reconheço) funciona.


Rafael M em janeiro 9, 2008 4:58 PM


#46

Outra coisa:

Uma coisa nociva do racismo nos EUA é que eles vendiam a todos que os negros eram inferiores. O que era nocivo porque os negros acreditavam. Quando os negros nos EUA querem promover seus pares, tratam logo de tentar elevar a auto-estima da população negra -- citam Martin Luther King, lançam filmes sobre os debatedores negros que venceram Harvard.

No Brasil, ninguém cita Machado como exemplo negro (o que é uma pena), mas não acho que falte auto-estima aos negros. (muito embora não saiba muito sobre isso).

Rafael M em janeiro 9, 2008 5:02 PM


#47

Idelber, desculpa a demora em responder, mas sabe como são as coisas... As contas não param! Dessa vez tentarei ser mais "sintético" do que fui nos meus primeiros posts, até para não torturar você e os outros visitantes do sítio com a minha chatice.
Quanto as suas credenciais, você não tem a menor necessidade de apresentá-las para mim. Apesar de habitualmente não postar minhas opiniões no sitio pelo menos duas ou três vezes por semana eu o visito, já que se tem uma coisa que eu adoro ler são opiniões bem embasadas. A única coisa que eu lamento é infelizmente ter parado minhas leituras latino-americanas em Neruda e Garcia Marquez. Caso eu não tivesse cometido esse "desvio de conduta" durante a minha vida adulta com certeza tiraria melhor proveito das suas opiniões! Mas pode ter certeza que uma das minhas resoluções de Ano Novo é iniciar-me no Mundo de Jorge Luis Borges. Afinal de contas, antes tarde do que nunca! Mas, voltando ao debate, tentarei dar uma "contra-resposta" as suas colocações na mesma ordem em que vocês as colocou. Vambora?

1) Idelber, quando eu afirmei categoricamente em meu primeiro post que não tinha lido o livro eu quis dizer o seguinte: "Essa é a minha primeira impressão superficial e não é improvável que eu esteja errado!". Eu fiz isso justamente para deixar claro que estou aberto ao debate e para não ser "leviano". Tá certo que sou um sujeito franca e absolutamente "genial", mas ainda não virei o Dono Absoluto da Verdade Verdadeira! Mas um dia eu serei, viu? Pessoalmente eu acredito que o Professor é uma ótima pessoa e eu sei que o tema não é estranho a ele, e tenho certeza absoluta que Risério não se mistura com uma uma certa escumalha direitóide-reacionária que conhecemos muito bem. Todavia, boa parte dos argumentos apresentados por ele na entrevista postada por você estão sendo aproveitados por essa direita pilantra, como tentei demonstrar postando um link para o blog do Tio Rei. Agora, quanto a parte do "calar o Movimento Negro"... Well...Por que será que o Professor "não encontra interlocutores" no Movimento Negro? Será que todos os ativistas negros brasileiros que são favoráveis a aplicação de ações afirmativas são sujeitos vestidos com boinas e roupas pretas e que andam por aí com o braço direito levantado (que nem o Reinaldo do Atlético Mineiro, baita jogador!) pregando a luta armada contra o Poder Branco constituido e pregando o extermínio de mulatos, cafuzos e mamelucos? Vai ver o Professor Risério não consegue falar com eles porque na ânsia de imitar americanos os ativistas negros brasileiros falam em inglês e uma ou outra coisa se perca na tradução. Ora, não dá para "iniciar um debate" falando que não existem interlocutores do outro lado e chamando praticamente quase todo mundo do outro lado de "imitador-de-americano", pô! Por isso infelizmente ainda mantenho a minha primeira impressão que o objetivo do Professor Risério é enquadrar (o que eu errôneamente defini como "calar" em meus primeiros posts) os Movimentos Negros Brasileiros dentro daquilo que ele acha "correto"... Aí a coisa fica meio dificil, né?

Claudio Roberto Basilio em janeiro 9, 2008 9:27 PM


#48

2) Eu vou responder essa te fazendo uma provocação: você considera uma completa ignorância do "discurso racialista" o pedido de perdão que o Presidente Lula fez no Senegal pelas centenas de anos em que o Brasil foi um dos maiores importadores de carne humana da História da Humanidade? O Professor Risério considera... Os detratores das ações afirmativas e do Estatuto da Igualdade Racial consideram... Os reacionários que morrem de medo de perder a vaga na faculdade consideram... A Mídia Brasileira considera... Quanto a mim, bem... Eu acho que a minha opinião ficou clara nos meus primeiros posts, onde eu reconheço que negros participaram ativamente do processo escravagista. Em 2007 o premiê Tony Blair (graaaaaaaandeeeeee líder e cachorrinho lulu dos EUA!) fez um discurso diante do Parlamento Inglês pedindo perdão pelo Escravidão a mídia inglesa (mesmo a conservadora) tratou o assunto com imensa sobriedade. Quando o Lula fez a mesma coisa em um discurso informal lá pras bandas do Senegal em Pindorama não faltaram jornais e intelectuais praguejando contra o Presidente. A bem do "espirito da verdade", quem está certo nessa pendenga? Pensemos... Segue abaixo alguns links sobre o assunto:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u105488.shtml
http://www.irohin.org.br/onl/clip.php?sec=clip&id=957
http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/brasil/2005/04/14/jorbra20050414008.html

3) Aí sou obrigado a fazer uma coisa que não gosto muito: entrar no campo da minha experiência pessoal. Sabe, eu sou descendente de espanhóis, portugueses, indios e negros. Meu cabelo não é tão "ruim" e minha pele é "moreninha-queimadinha-de-sol". Como um típico mestiço brasileiro e morador do estado de São Paulo (um dos mais diversos etnicamentes do Brasil, se não o mais diverso) eu vivencio por aqui algumas situações engraçadas em relação a minha "raça", já que ela muda ao sabor das circunstâncias. Veja só:
-- Quando namoro uma loira, eu viro "o-negão-que-só-curte-branca".
-- Quando alguém quer elogiar a minha aparência (acredite, eu sou lindchuuuu!) me transformo em "moreno simpático".
-- Quando sou parado pela Polícia para averiguação eu sou o "crioulo safado".
-- Quando sento no meu bar favorito para tomar uma cervejinha o garçom diz pra mim: "E ai, Zulu, vai uma Brahma?"
-- Quando eu afirmo para quem quiser ouvir que me considero negro, escuto: "Ah, você só tá queimado de sol!"
-- Quando exigo a aplicação de ações afirmativas, aí... Bem, aí, magia e misteriosamente não tenho raça, já que raça não existe!
Ai eu pergunto: porque será que em situações desagradáveis eu viro preto, mesmo sendo "moreninho"?
Eu poderia postar vários e vários artigos aqui tentando mostrar como a mestiçagem na verdade funciona como uma "escala de valores" em determinadas situações, mas até mesmo você compreendeu isso, dados os exemplos que você colocou. Nessa situação, invoco a ajuda de Nei Lopes:
http://www.afropress.com/colunista_2.asp?id=176
http://www.afropress.com/colunista_2.asp?id=228

4) Quando eu falei que era uma "discussão fútil" a etimologia da expressão "democracia racial" estava querendo dizer que esse tipo de discussão desvia o debate daquilo que realmente importa, que é o fato de que inúmeros intelectuais se recusam a enxergar a situação de penúria dos negros brasileiros baseados na crença quase religiosa de que somos uma nação sem conflitos raciais. É claro que é interessante e importante traçar a genealogia do mito da Democracia Racial, até para refinar a interpretração daquilo que é o nosso simpático país. Agora, quanto ao racismo envergonhado... Por favor, me perdoe Idelber... Por mais diferenças que haja entre o racismo brasileiro e o racismo estadunidense o resultado final dos dois é o mesmo: a alocação de pretos e pardos na base da pirâmide social. E um racista "envergonhado" ainda assim é racista, ora pois! Eu prefiro racistas abertos porque com certeza é muito mais fácil combatê-los, enquanto o racista "envergonhado" sempre alega que estava "brincando" quando disse que não "adiantava dar dinheiro para a crioulada" (vide o caso Prof. Kramer x UNB) ou que a empregada era uma "negra vadia".

Claudio Roberto Basilio em janeiro 9, 2008 9:29 PM


#49

5) Para falar a verdade quando me meti a besta em discutir a opressão as religiões afro-brasileiras estava mais a fim de agregar informações sobre o assunto do que criticar as posições do Professor Risério. Veja bem, não sou sociólogo, geográfo, historiador, militante ativo do Movimento Negro e nem nada que o valha, sou apenas um "gênio incompreendido"! Todavia, do alto da minha ignorância sobre o assunto acredito que o peso demográfico é um fator importante na manutenção de tradições de povos expatriados. Vide o espanhol, que está quase virando a segunda lingua oficial dos Estates...Aí, as coisas acabam descambando para a interpretação que cada um dá sobre o tema.

6) Hã... justamente por isso usei a frase "e mesmo que essas pessoas não existissem ou sejam em um número irrisório" em meu primeiro post, Idelber.

7) Idelber, desde que a Questão do Negro e Ações Afirmativas entraram na agenda política brasileira sempre que existe uma oportunidade a Mídia baixa o sarrafo com gosto nos Movimentos Negros Brasileiros. Vide o caso da "Ministra-e-o-Racismo-Negro". Por isso que eu afirmei que o Professor Risério estava sendo irônico quando dizia que ninguem tinha coragem de criticar os ativistas negros, porque candidatos para a função não faltam! Veja bem, eu leio quase todos os dias o Estadão, O Globo e Folha de São Paulo e considerando essas leituras acabei formando a opinião pessoal que o MST (movimento de quem tenho algumas pequenas discordâncias, mas que considero importantissimo e necessário) de três anos para cá virou o segundo pior vilão do Brasil, enquanto que o Movimento Negro virou o inimigos público número um, principalmente a sua vertente ligada a Questão Quilombola. Para exemplificar meu ponto de vista novamente invoco Nei Lopes, que no link abaixo comenta um editorial de O Globo publicado no dia 06/01/2008
http://www.afropress.com/colunista_2.asp?id=463

Ah, invoco também o auxílio de Edson Cardoso, que nesse artigo comenta os ataques que o Movimento Negro sofreu esse ano:
http://www.irohin.org.br/imp/template.php?edition=20&id=93

Ah, sugiro também a leitura dessa entrevista com o jornalista Rodrigo Vianna, onde ele comenta um caso explicito de censura na Rede Globo. Aliás, você sabia que em uma entrevista o Ali Kamel também falou que preferia o racismo envergonhado brasileiro?
http://www.fazendomedia.com/novas/entrevista120407b.htm

E, só uma coisinha que é muito importante: convido-o a uma visita ao conteúdo publicado nos últimos seis meses no blog do nosso amiguinho da Veja. Lá, ao se deparar com as opiniões do dito cujo sobre Mano Brown, Ferréz, Frei David e sobre o Movimento Negro você constatará que ele até que foi "bonzinho" em sua análise sobre o candidato Barack Obama.

8) Estarei no aguardo, Idelber. Nem que seja para "quebrar o pau" contigo, viu? Olha lá o que você vai escrever, rapaz! Rs...rs...rs...rs....rs...rs...rs.... Ah, eu sei que lá em cima eu prometi ser "sintético", só que acabei me excedendo um pouco. Desculpa!

Claudio Roberto Basilio em janeiro 9, 2008 9:35 PM


#50

O comentário tinha ficado preso por causa dos links, Claudio. Às vezes a pasta de junk faz isso. Logo que vi fui lá e liberei. Tô lendo, tô lendo -- vou responder com calma :-)

Idelber em janeiro 9, 2008 10:23 PM


#51

Claudio, meu caro, minha resposta vai ser super anti-climática, porque vou concordar com quase tudo. Nós só discordamos mesmo no remédio – se ele inclui ou não as cotas raciais. No resto, você está pregando para o já convertido. Mas vamos lá.

Há um esclarecimento que é muito importante para mim – quando falei em “credenciais” só quis dizer que este blog tem um histórico de tematizar o racismo brasileiro; tem um histórico de denunciar episódios de discriminação racial; tem um histórico de questionar esse papo de que as lutas do Movimento Negro são “racismo ao revés”. Só isso que eu quis dizer com “credenciais”. Nada a ver com credenciais de outro tipo.

1 – O Risério não está iniciando um debate dizendo que não há interlocutores do outro lado. Puxa, o que não falta no livro são interlocutores. Há incontáveis no MN: Abdias e muitos outros. Ele é crítico em relação a muitos deles, sim. O que eu sinto nele – e aí eu me identifico – é uma certa solidão, dada a forma como o debate está estruturado no Brasil. Como vamos redesenhar essa conversa, Claudio? Porque eu não quero a companhia de Reinaldo Azevedo e Ali Kamel, e você, provavelmente, não quer a companhia de Peter Blanchard. É essa a questão. O Fla x Flu entre defensores e apoiadores das cotas fez um dano lascado à própria causa do combate ao racismo. Há que se reinventar essa conversa. E aí, eu acho, Risério é um cara que diz coisas que valem a pena serem ouvidas. Puxa, consiga o livro aí! Que tal você escrever uma resenha, do jeito que quiser, do tamanho que quiser, e eu publico aqui no Biscoito? Está feito o convite.

2 – Eu vou suspender a resposta ao seu desafio sobre a questão Lula / Senegal. Vou suspender a resposta porque eu acho que você está certo, mas há matizes no que Risério disse no livro; a entrevista é outra história. Ali está tudo muito tosco. Do jeito que está, fica parecendo outra coisa. A Ana, minha mulher (Ana Maria Gonçalves, autora de Um defeito de cor), deu uma entrevista ao Estadão, na qual mencionou o tal do “homem cordial” do Sergio Buarque de Hollanda. Retalharam a resposta e ficou parecendo que ela havia dito outra coisa. Festa da blogoseira direitosa, falando da “ignorância” dela, sem atentar para a própria ignorância que é não investigar mais a fundo os escritos de alguém além das entrevistas. A mídia malhar o Lula não é privilégio, convenhamos, dos seus pronunciamentos sobre a escravidão. Fazem troça de qualquer coisa que ele diga. E quando mais fazem troça, mais o povo segue firme com a aprovação acima de 60%.

3.Os casos que você relata são típicos. É a cara do racismo brasileiro. A história do “negro que só quer namorar com branca” é típica. Agora, deixe-me retrucar com outra história pessoal. Não para negar a sua, mas só para justapor outra e tentar decidir se nós queremos um país onde existem comissões para decidir quem é negro e quem é branco. A Ana é morena / mulata, de uma família onde há brancos e pretos; “brancomestiços” e “negromestiços”, como queira. Ela nunca se definiu como negra, apesar de ter escrito a primeira saga histórica do povo negro na literatura brasileira. Diz que nunca sofreu racismo, embora haja membros da família dela que já o sofreram muito nitidamente. Pois bem, nós tivemos um papo com um antropólogo norte-americano (que estuda o Brasil!), autor de livros sobre o candomblé, e tal. Ana dizia que na família dela as pessoas se relacionam sem nenhum registro dessa diferença. O cara insistia com a pergunta sobre se os brancos da família não discriminavam os negros. Ela insistia que não, que dentro da família isso não ocorria. Aí o cara insistia sobre se os negros não estavam subordinados dentro da família. Ela continuava dizendo que não. Aí o cara passou a forçá-la a tentar “escolher o lado dos oprimidos” dentro da família. A bizarrice daquela experiência sacramentou as coisas para mim: meu apoio às cotas ruiu ali. Eu sei que parece um salto maluco de uma coisa a outra, mas para quem já refletiu tanto sobre o tema, como eu e você, imagino que a coisa esteja visível. O livro do Risério só confirmou as coisas depois. Entenda a história como quiser, mas o bicromatismo e o binarismo americano, para se pensar a realidade brasileira, meu caro, não dá.

5)Com relação à “morte dos deuses” nos EUA, acho que a demografia explica pouco. A escravidão americana foi baseada em propiedades menores, a base não era o latifúndio – tudo isso pesou. Está fartamente explicado no Risério, e não dá para resumir aqui, mas nada do que está lá, já antecipo, nega o fato de que os orixás estão vivos no Brasil pela luta de um povo. New Orleans é um caso muito aparte nos EUA, mas mesmo aqui – cidade de fortíssima cultura negra – as referências aos universos congo-angolanos ou jêje-nagô, por exemplo, são muito pouco visíveis. O que há é uma vital cultura negra americana. É mais complicado que isso, mas deixemos essa distinção aí por enquanto.
6- ok!

7- Os ataques ao Movimento Negro: olha, me desculpe, mas esse texto do Edson Cardoso, por exemplo, não serve para nada. Ele fala de “avalanche” da mídia, “terrorismo” da mídia, etc. etc. sem citar um único exemplo! Não há uma referência a nada, a não ser uma bobagem escrita numa revista. Se há “avalanche”, mostre aí capítulo e verso. Reinaldo Azevedo não vale. Ele já é racista reconhecido como tal, na extrema da extrema, e não é levado a sério nem por aqueles a quem ele quer apoiar. O cara inventa os comentaristas do seu próprio blog! Impropérios e xingatórios ali vão para todo mundo. Acho, sim, que há má vontade da mídia. Mas acho que há matizes. Nem tudo é a mesma “avalanche”, para usar a expressão infeliz do Edson Cardoso. Quanto à entrevista do Viana, sobre a Globo: perfeito. É política da Globo negar a existência do racismo no Brasil. É política da Veja não colocar negros na revista, a não ser quando é inevitável (Pelé, Daiane dos Santos, etc.).

8 - Quanto ao texto do Nei Lopes: olha, Nei é meu mestre, tenho o maior respeito por ele. Mas dizer que o racismo opera por “dividir e conquistar”, sinceramente, é simplificar muito. Se fosse assim, como é que o racismo foi tão virulento nos EUA, onde todos que tivessem pelo menos 1/16 de sangue negro foram agrupados sob a mesma categoria? Segundo o raciocínio dele, teríamos que ter tido menos racismo nos EUA, já que aqui não houve o “dividir”, não é? E, me desculpe, mas o que aconteceu na Revolução Haitiana não foi que os “mulatos ricos” começaram a forjar “títulos falsos” depois da vitória da Revolução. Só falta ele dizer que a coalizão se fraturou porque os mulatos eram malvados e os negros impolutos. Não foi assim. A coalizão que liderou a Revolução Haitiana se fraturou por mil razões, que seria leviano tentar resumir aqui – mas é contra esse tipo de maniqueísmo bobo que Risério se insurge. Não precisamos disso para lutar contra o racismo.

OK, pronto! Responda à vontade, claro, mas eu acho que já deixei o que penso explicitado aí. E fica o convite para você resenhar o livro do Risério como blogueiro convidado no Biscoito. Um abraço forte,

Idelber em janeiro 10, 2008 12:09 AM


#52

Idelber - Só gostaria de entender algo. Pequena história:

Sou filho de imigrante espanhol assim como o amigo Claudio. Meu pai chegou aqui nesse país sem nada. Trabalhou a vida inteira sujo de graxa em uma oficina mecânica. Criou dois filhos. Investiu o que tinha e o que não tinha na educação desses dois filhos. Nada nos caiu de mão beijada.

Desculpe-me por achar ridículo e até mesmo ofensivo alguém chegar e dizer que sou reacionário porque não desejo ser discriminado na hora de realizar um vestibular em uma faculdade pública pela cor da minha pele.

Pablo Vilarnovo em janeiro 10, 2008 7:56 AM


#53

Caro Pablo,

Vou me ater apenas à primeira parte do seu comentário.

Longe de mim querer entender toda a História, mas vejo uma enorme diferença entre o contexto histórico da vinda do seu pai e de muitos outros imigrantes e o contexto histórico da vinda dos escravos, e as implicações disso no momento que vivemos hoje.

Não sei quais foram os motivos que trouxeram seu pai, mas acredito que ele deve ter podido escolher o lugar para onde ia. Não deve ter sido embarcado a força em um navio, como carga, e como tal ser vendido assim que desembarcou, não sabendo se agradecia por ter chegado vivo ou maldizia a sina de não ter morrido no caminho. Se trabalhou bastante, pode ter chegado a dono da oficina. Pôde criar uma família e laços de afeto com ela, sem o medo, ou quase a certeza, de que a qualquer momento mulher ou filhos fossem vendidos ou separados por questões de pagamento de dívidas, trocas, ou heranças de seus donos. Seus filhos eram considerados "seus" filhos, e não bens moventes de um proprietário qualquer,condição que os "proibia" de estudar.

E ainda, se por qualquer motivo a vinda dele não tivesse dado certo, ou ele não tivesse gostado da cidade ou do país, ele tinha a opção de voltar para a Espanha e encontrar por lá parte da família que não emigrou, uma cidade que ele tinha deixado pra trás, uma cultura, uma língua preservada, etc; ou seja, um passado que teria transformado sua vinda ao Brasil em uma aventura abortada, e não em um trauma.

Bem, acho que é isso ;-)

Ana em janeiro 10, 2008 12:38 PM


#54

O livro do Risério é apaixonante! Tô lendo. Foi um grande presente de Natal, vai dizer?.

Bjo,

Cipy em janeiro 10, 2008 12:41 PM


#55

Ana - Concordo com todas as histórias sobre os escravos.

Mas eu nunca tive um escravo, meu paí nunca teve um escravo. Quantos dos que pleiteiam por cotas foram escravos?

É justo eu ser discriminado porque houve escravidão? Eu tenho culpa disso só porque sou branco?

O Sr. King nunca pediu tratamento diferenciado e sim igualdade jurídica.

Seria mais justo solicitarem reparação das famílias, muitas ainda aí, que no passado tiveram escravos.

Para mim colocar a culpa da sim, concordo e muito, diferenças sociais entre negros e brancos na escravidão é a mesma coisa que colocar a culpa do nosso subdesenvolvimento na colonização portuguesa.

Nosso problema não é um problema de cor e sim de economia, de oportunidade, se atacar os problemas e não as causas. O problema é a qualidade de nossas escolas públicas, dos serviços oferecidos pelo Estado frente aos impostos pagos.

Por mais que existam cotas apenas uma pequena e ínfima parcela de negros será beneficiadas por elas. E os outros? Vão ficar de lado? Aqueles que continuarão sem ter uma escola descente que proporcione um emprego com uma maior remuneração?

Para mim, cotas racistas é querer apagar incêndio jogando mais gasolina.

Pablo Vilarnovo em janeiro 10, 2008 2:12 PM


#56

Narrativas pessoais são bem curiosas e tem a intenção de serem ilustrativas. O Ali Kamel também vive dizendo nas entrevistas que seu pai era sírio, veio para o Brasil, se matou de trabalhar na venda de tapetes e se esforçou para colocar todos os filhos na escola. Conclusão do Kamel: só deixa filho fora da escola quem quer. Quase um cão pavloviano.
Quem é filho de imigrante europeu tem hoje até o passaporte da Comunidade Européia, o que permite a esse descendente se livrar dos horrores do Brasil. Quem é negro brasileiro tem que ficar por aqui mesmo, correndo de ser caluniado com a idéia de "racista às avessas".
Um filho de imigrante europeu deveria observar os filhos daquela moça que trabalha na sua casa, no quartinho dos fundos, nos filhos dos porteiros do prédio onde mora. São esses filhos de brasileiros, quase sempre negros, que encontram um baita muro na frente. Por quê? Porque são avós, bisávos, tetravós foram descendentes de escravos que trabalhavam nas fazendas espalhadas pelo Brasil e encontraram a mesma barreira.
Quando acabou a escravidão, o governo do Brasil fez uma coisa bacana e juridicamente legal: convidou estrangeiros para vir para cá. Os negros ficaram ao deusdará, sem emprego. Como diria Gustavo Franco (o novo especialista em Machado de Assis), o fim da escravidão aumentou o Custo Brasil porque subiu o custo da mão-de-obra. São os pensadores!
O que são os quilombolas? Negros levados para trabalhar em garimpos no norte de MG, BA, TO, GO, e que ficaram por lá após o esgotamento das minas. Hoje, estão lá tendo de disputar terra com fazendeiros e grileiros.
Colonização portuguesa nada ter a ver com o subdesenvolvimento? Com uma dessas, prefiro me retirar do recinto porque, caso contrário, vai virar humilhação e explanação "professoral", conforme gritaram do alto a dupla da "Ivory Tower".
PS: alguns comentários cretinos e abjetos relacionaram as cotas da UnB a um modelo racista. Se houver algum interesse sincero de conhecer a vida de Brasília, sugiro um estudo do arquiteto Marcel Sant'ana (http://bdtd.bce.unb.br/tedesimplificado/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=1589. Ele mostra a divisão de cor no Distrito Federal. A parte rica (Plano Piloto) tem renda sueca e população 80% branca. Nas cidades-satélites, a relação se inverte, com 80% de negros no total da população.
PS2: a urbanista Raquel Rolnik diz que, igual a Brasília de hoje, só Pretória na África do Sul. Os ônibus saem das satélites da manhã, levam os trabalhadores para as áreas dos ricos no Plano Piloto, ficam o dia inteiro parados num estacionamento e retornam essas pessoas para suas casas no final do dia, a uns 30 km de distância. É uma democracia ou não é?

enio em janeiro 10, 2008 3:35 PM


#57

Tio King?
Pelamordedeus...

enio em janeiro 10, 2008 3:38 PM


#58

"Colonização portuguesa nada ter a ver com o subdesenvolvimento? Com uma dessas, prefiro me retirar do recinto porque, caso contrário, vai virar humilhação e explanação "professoral", conforme gritaram do alto a dupla da "Ivory Tower"."

Só respondo a esta parte. A colonização portuguesa acabou há quanto tempo? 100 anos? 150 anos? De lá para cá, quanto poderia ter sido feito (por brasileiros) para desenvolver o país? Quanto foi feito realmente?

Há algum exemplo de país nesse meio tempo que tenha superado obstáculos e se desenvolvido? Eu gosto de alguns: Espanha, Japão, Coréia do Sul. Que obstáculos superaram? Uma guerra civil? Anos sob ditadura cerrada? Destruição total pela guerra? Cidadãos escravizados e massacrados?

São obstáculos. Não sei se tão nocivos quanto a maléfica influência portuguesa no Brasil. Mas aqueles exemplos conseguiram superá-los. Eu vejo mérito, muito mérito nisso.

Eu tenho para mim a opinião de que culpar qualquer coisa que não nós mesmos pelo subdesenvolvimento do Brasil resulta em mais atraso.

Rafael M em janeiro 11, 2008 7:47 AM


#59

Rafael M - É por aí mesmo.

Pablo Vilarnovo em janeiro 11, 2008 7:59 AM


#60

"Eu prefiro um lugar onde não existam racistas. Se o racismo sempre vai existir, eu não sei. O que sabemos é que ele existe. E enquanto existir, eu prefiro um lugar onde os racistas tenham vergonha de se assumir enquanto tais."

Bem colocado, Idelber. Eu também prefiro. Mas, como o mundo não é preto-e-branco, muito pelo contrário, somos todos em tons de cinza, me parece que essa verginha do racismo é, ao mesmo tempo, o que nos salva do apartheid e o que nos torna ainda mais reprováveis. Em meus 37 anos de vida, tendo trabalhado e convivido com centenas de pessoas diferentes, conheci apenas UMA que se assumia como racista (embora tentasse justificar pelo fato de ser nordestina (?) e ter sido "criada dessa forma"). No entanto, até em minha família cansei de ver situações em que negros ou mestiços foram tratados com condescendência ou de maneira humilhante. Quem bate, esquece, já diz o ditado. Para evitar apanhar - e hoje em dia, nós, da classe média iluminada, temos o orgulho discutível de poder afirmar que esse "apanhar" é em geral metafórico -, tantos e tantos mestiços (diria que quase todos os que eu conheço) se comportam como e se intitulam brancos. Por essas e outras, continuo seguindo o argumento da minha sócia Helê, que diz: quem é preto, no Brasil, sabe.
Sem querer ser intelectualmente leviana, e baseada apenas na minha parca experiência de turista, em Cuba vi uma realidade bem diferente da brasileira - e me parece que historicamente temos características semelhantes tanto na estrutura do escravagismo quanto na proporção entre as populações negra/branca/mestiça. Lá tive a sensação de que a cultura negra é bem mais valorizada e há, aparentemente, uma mobilidade social - na medida em que se possa usar esse termo num país socialista - menos ditada pelo tom da pele. Corrijam-se se estiver errada: como disse, esta é apenas uma impressão de turista. De qualquer forma, cito essa impressão apenas para questionar as alegadas razões históricas para a especificidade brasileira. Claro que as relações de causa e conseqüência não são tão diretas assim, mas de qualquer forma essa distinção me fez pensar, agora, qual o papel desempenhado pela estrutura de classes brasileira no processo de discriminação racial.
Para mim, este é o "xis" da questão quando se debatem cotas raciais. Há o predomínio de uma linha argumentativa, pelo menos no meu "círculo social" (pô, me senti uma socialite escrevendo isso, hahahaha), que defende as cotas sociais em detrimento das raciais. Eu não vejo o porquê de uma eliminar a outra, acho que ambas podem ter sua razão de existir. Mas o fato é que no Brasil o racismo e a gritante desigualdade social (leia-se econômica) se interrelacionam de forma muito particular, e por isso é difícil transpor o modelo americano sem adaptá-lo à nossa realidade.
Em relação ao pouco que conheço sobre o problema racial nos Estados Unidos, uma das coisas que mais me impressinou foi justamente o sistema de 'one drop rule'. Extrapolando um pouco, fico aqui viajando que a 'democracia'/hipocrisia racial brasileira se baseia no conceito oposto: para nós, uma gota de sangue branco deveria ser o passaporte para uma suposta purificação - o que, na prática, só complica as classificações. Um dos argumentos mais simplificadores dos que são contrários às cotas é o de que é impossível determinar quem é negro no Brasil, e que "qualquer um" pode pedir acesso à Universidade alegando ser negro. (Bem, eu não posso... nem você, né, Idelber? Pois é.) Deixando de lado o fato de que esse argumento totally miss the point, ele só reforça, a partir de uma questão meramente operacional, a dificuldade de se discutir racismo num país predominantemente mestiço como o Brasil.
Enfim, continuo achando, basicamente, o seguinte: 1) o grande mérito da implementação do sistema de cotas no Brasil - que, por definição, tem que ser temporário, e essa, na minha opinião, é a maior falha do sistema atual - é fazer com que os intelectuais, a academia, os políticos e a classe média finalmente tenham se decidido a discutir o problema do racismo, que, historicamente, vinha sendo empurrado para debaixo do tapete; e 2) só a auto-declaração salva: eu não sei quem é negro, mas tenho certeza de que quem é negro, sabe.

Monix em janeiro 11, 2008 9:53 AM


#61

Sobre desenvolvimento e colonizações, o recomendável é que se leiam Immanuel Wallerstein, Gianni Arrighi, Fernand Braudel e José Luis Fiori. Depois que a rapaziada ler esses senhores, dá para convesar. Porque não dá nem para humilhar.

enio em janeiro 11, 2008 10:52 AM


#62

@enio:

De fato, não li nenhum dos autores que você citou. Na verdade, os quatro me são estranhos: não se trata de minha área de especialização.

Humildemente, no entanto, respondo com um texto que acho interessante: http://coolhaus.de/art-of-controversy/erist30.htm

Rafael M em janeiro 11, 2008 11:23 AM


#63

Belíssimo comentário, obrigado, obrigado, Monix.

Mais um desses e você me convence de volta :-)

Deixo este rápido alô também para dizer que Risério me escreveu, está acompanhando o debate e gostando muito.

Axé.

Idelber em janeiro 11, 2008 11:56 AM


#64

Se esquecermos a colonização portuguesa na formação do Brasil, vão para o lixo todos os livros de Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr, Celso Furtado e Raymundo Faoro. Até o livro do Risério que está sendo discutido nesse post.
Nessa linha de esquecimento, pode-se rebatizar uma empregada doméstica de "gerente de limpeza do lar", no segmento de "colaboradores flexíveis" do moderno setor de serviços.
Quem é advogado no Brasil deve saber muito bem de onde vem esse sistema judiciário que é feito para adiantar infinitamente uma sentença.
E as usinas de biocombustíveis, a última moda no pedaço? É o velho engenho de cana-de-açúcar, em sua versão pós-moderna.
PS: "http://coolhaus.de/art-of-controversy/erist30.htm" é um texto do Schopenhaeur? É incrível como a direita mais rasteira no Brasil, sobretudo Olavo de Carvalho e Tio King (que coisa patética chamar o sujeito de King), se apropriou da obra dele.

enio em janeiro 11, 2008 12:52 PM


#65

O certo é "adiar infinitamente" um sentença.

enio em janeiro 11, 2008 12:57 PM


#66

Muito boa dica Idelber. Agradeço.
Sobre os comentários, interessantíssimos.
Vou deixar minha opnião:
As cotas raciais não serão nunca justas por um único motivo: só existe uma raça,a humana. Logo,se querem melhor o sistema, mudem-no. Com cotas para pobres, pra egressos do sistema público, para orfãos (pq não?) etc...
Acho q nessa questão e em muitas outras deveriámos agir e não ficar culpando o passado pelo nosso atraso.
Por fim, uma dúvida, vc acha normal alguém que combate o racismo cogitar a possibilidade de humilhar outra pessoa ? A mim não parece. A arrogância e a discriminação andam juntas.

Luis Roberto de Vasconcellos em janeiro 11, 2008 1:01 PM


#67

Monix - O problema de racismo pode ser visto por dois ângulos: um individual e outro legal.

Quem não apóias as cotas, como eu, não simplificam a situação no simples identificar. Não apoiamos por achar que cota simplismente cria dois tipos de cidadãos perante a lei. O que é errado.

Esse tipo de separação é o que havia na África do Sul. Independente de que lado esteja, a lei não pode, nunca separar indivíduos de acordo com sua cor de pele. Por razão nenhuma.

Portanto uns e outros que são contra a cotas e dizem que não há racismo no Brasil falam isso em relação às leis existentes.

O vestibular, antes das cotas, não via cor do candidato. Entrava aquele que era mais preparado. Negro ou branco. E é assim que deve ser. Sempre.

E o entendimento da justiça tem sido esse. Vários vestibulandos já ganharam ações aqui ou aqui.

Cotas É um problema jurídico.

Recomendo procurar no Google textos de JOSÉ ROBERTO F. MILITAO que é militante negro e contra as cotas. Uma boa entrevista à Caros Amigos pode encontar Aqui .

Esse artigo é altamente recomendável.

Cotas não resolvem a causa de haver poucos negros em universidades públicas. E o pior, se fizerem uma pesquisa dentro das próprias universidades brasileiras e realizar um cruzamento com os dados do IBGE PODE ser que encontrem uma proporção maior de negros. No Censo de 2000 do IGBE mais de 50% da população brasileira se considera branca, 6% negra e mais de 30% parda. É um argumento válido não é? Podes até não concordar. Agora se separar entre ricos e pobres, duvido que vá encontrar essa proporção.

Os pardos, com certeza possuem sangue negro (não que os brancos não possam possuir). E aí? É justo ou não uma pessoa parda ter acesso a cotas?

Enquanto a questão individual. Como fazer que um indivíduo não seja racista? Duas maneiras: educação e preteção às leis.

Mas será que criação de leis racistas como as cotas não podem piorar o problema do racismo individual? Ou isso é um mal menor?

Pablo Vilarnovo em janeiro 11, 2008 1:25 PM


#68

enio - Você está meio equivocado. Primeiramente ninguém aqui falou em esquercer a colonização portugesa. Você adora dar respostas a coisas que ninguém falou.
E segundo, não faço a menor idéia de quem seja o tio King aqual está se referindo. O Sr. King que eu me referi era o Doutor Luther King.

Idelber - Mandei um texto mas acho que ficou preso por ter hiperlinks.

Pablo Vilarnovo em janeiro 11, 2008 1:38 PM


#69

Liberado :-)

Idelber em janeiro 11, 2008 1:58 PM


#70

Pablo, eu consertei as tags, os links agora funcionam. Aí apaguei os comentários supérfluos, ok?

Abraços, que siga o papo. Hoje estou na correria.

Idelber em janeiro 11, 2008 2:07 PM


#71

@enio:

O Pablo deu a dica. Quem pediu para esquecer a colonização portuguesa?

O ponto original do Pablo foi que hoje em dia é risível culpar a colonização portuguesa pelo subdesenvolvimento do Brasil.

Você comentou evitando humilhar o Pablo.

Como concordo com ele e não achei seu comentário sobre o tema especialmente iluminado, resolvi colocar a minha opinião. Obstáculos para o desenvolvimento há para todos -- a questão é o que se faz diante disso.

Você citou alguns autores -- e aparentemente me humilharia se eu os tivesse lido. Achei graça e mandei o texto do Schopenhauer sobre o apelo à autoridade.

Você comentou dizendo que não podemos esquecer a colonização portuguesa, coisa que ninguém havia pedido. Meu ponto era que há muito que poderia ter sido feito para avançar o país apesar da colonização portuguesa. E que há exemplos de obstáculos piores ao desenvolvimento que foram superados por outros. E, por fim, que o tempo seria mais bem gasto procurando-se por maneiras de ultrapassar os obstáculos ao desenvolvimento.

Você também comentou que a direita rasteira usa os textos do Schopenhauer. Achei graça mais uma vez. Mando outro deles para você: http://coolhaus.de/art-of-controversy/erist32.htm. Este é sobre tentar desqualificar o adversário classificando-o em alguma categoria odiosa.

Sinto-me particularmente livre para citar Schopenhauer porque o encontrei através de vias ideologicamente limpas. Houve uma época em que me interessei por lógica básica, e encontrei um livro muito interessante de Robert Thouless sobre "How to think straight". Ele citava Schopenhauer. Se você tiver interesse, aqui há um link. Se você quiser folhear o livro, dou a dica, a única cópia que encontrei desse livro no Brasil foi na biblioteca da Filosofia na FFLCH/USP. Tenho uma xerox em casa.

Desde aquela época, tenho o link com os textos do Schopenhauer nos meus favoritos. Às vezes são úteis.

Rafael M em janeiro 11, 2008 2:32 PM


#72

A referência à "colonização portuguesa" foi muito clara nos comentários: não existiria ligação dela com o subdesenvolvimento do Brasil. Não dá para discutir nada a partir de uma crença nesse nível. Daí a ironia de que seria "humilhante" rebater um argumento tão simplório e disparatado.
Quanto a Schopenhauer, esse livro dos estratagemas de argumentação saiu no Brasil numa tradução feito por Olavo de Carvalho. Este é possivelmente o intelectual mais lamentável surgido nos últimos anos no Brasil - já devidamente enquadrado pelo filósofo Paulo Ghiraldelli Jr.
Um sujeito como esse Olavo, que prega explicitamente a violência como forma de debate, inspira a turma da "Veja" e os inflamados críticos das cotas raciais.
Cotas raciais equivale a apartheid? Jesus, hit me. Além de colonização, o conhecimento sobre África do Sul é zero. O Olavo de Carvalho está fazendo escola.
PS: OK, King é Martin Luther.

enio em janeiro 11, 2008 4:32 PM


#73

Epa, após uma longa ausência brigando com a NET/Virtua (maldita seja!) eu voltei! Vamos lá:

01) Por uma série de razões, e principalmente pela minha assumida ignorância geral eu tenho que declinar o convite. Ser um diletante sobre um tema e dar três ou quatro pitacos sobre o assunto como fiz aqui é a coisa mais fácil do mundo; ler uma obra que com certeza é complexa e fazer uma pesquisa extensa a fim de contradizê-la é outra história completamente diferente, que cabe a intelectuais que se ombreiem ao Professor Risério fazer. E, com certeza o "desafio" do Professor Risério será aceito por muita gente boa. Eu o aceitei dentro das minhas parcas possibilidades (quando postei aqui no blog), e infelizmente sou obrigado a admitir que não que não posso levá-lo adiante em um nível um pouco mais elevado. Mas esse debate com certeza vai continuar, nas mais diferentes esferas, com "direitóides" aprontando das suas e membros do Movimento Negro eventualmente passando da conta. E, Idelber, mesmo com todos os problemas que ocorrem no debate e que foram apontados corretamente por você aqui em última análise o vencedor dele não será eu, você, o Tio Rei, o Professor Risério ou Nei Lopes... Será o Brasil.

02) Quer dizer que a sua patroa é a autora de "Um defeito de cor"? Poxa vida, eu não sabia! Um colega meu leu esse livro e o elogiou pacas! Só falta o filho-da-mãe me emprestá-lo, mas aí é outro papo! Quando ao fato da "entrevista ser uma coisa e o livro ser outra"... Well... Darei ao Professor Risério o benefício da dúvida nesse caso, mesmo porque as estrepulias da nossa Imprensa são conhecidas, principalmente quando se trata de qualquer coisa que sirva para malhar o Presidente Lula.

03) Aí é a aquela velha história: eu não posso especular sobre a experiência pessoal da sua esposa, posso apenas fazê-lo sobre a minha experência de vida e a de pessoas próximas a mim. E a maior parte dessas minhas experiências demonstram que no momento de discriminar um certo grupo de individuos (em especial os portadores de pele escura) viramos uma nação pra-lá-de-binária, onde os matizes milagrosamente desaparecem.

05) Vamos fazer o seguinte? Vamos em um centro espírita invocar a alma do Professor Milton Santos (um dos maiores geógrafos do mundo) e vamos pedir para ele arbitrar essa questão! Brincadeirinha....Não vou aqui "bater o martelo" e falar que você está completamente errado e que eu estou absolutamente certo, mesmo porque ainda não retirei meu diploma de Sociologia e Geografia no boteco aqui perto de casa. Quando atribui o peso demográfico a manutenção de tradições de povos expatriados eu estava apenas seguindo um raciocínio relativamente lógico (e bota relativamente nisso!), tanto que eu até te dei o exemplo de como a cultura americana ultimamente anda incorporando muitos "latinismos" devido a chegada maciça de imigrantes hispânicos. Com certeza a quarenta anos atrás o consumo de nachos e tacos era menor aí nos States.

07) Idelber, eu te prometo: o dia em que eu tomar vergonha na cara e parar de ler meus gibis e de tomar meu goró no boteco e farei um levantamento detalhado sobre o assunto. Eu linkei aqui o texto do Edson porque nele há um bom exemplo sobre como o tema é tratado pela grande Mídia, sem que o outro lado (os Movimentos Negros Brasileiros) seja ouvido: o da Revista de História da Biblioteca Nacional. Agora, em um ponto eu sou obrigado a te dar o meu braço para torcer: usar a Globo, a Veja e o Tio Rei como exemplos realmente não vale!

08) Legal as suas considerações, e não vou nem tentar discutir contigo a História do Haiti porque não tô a fim de me machucar! Só que afirmar categoricamente que os Movimentos Negros Brasileiros são uma cópia em papel carbono dos Movimentos Negros Americanos também me soa meio maniqueísta. Valorizar o elemento negro na formação do Povo Brasileiro não é pura e simplesmente imitar culturas estrangeiras, na minha opinião é justamente resgatar um aspecto da brasilidade que é renegado por uma elite supostamente bem-pensante. Exigir a implementação de ações afirmativas é desejar que a nossa vetusta Academia seja tão mestiça e diversa quanto a favela. Ora, vamos pegar o Doutor Nei Lopes: o cara é o maior defensor-doente-da-tradição-musical-sambístico-brasileira que eu conheço, tanto que ele abomina a cultura hip-hop! O Olodum e tudo que tem na Bahia tem uma singularidade que não há imitador-brasileiro-do-Malcom-X que consiga derrubar.

Para finalizar de vez, eu agradeço publicamente a atenção que o mantenedor desse sítio reservou para minha pessoa e peço desculpa pelos textos quilométricos e principalmente pelo excesso de ironia que algumas vezes eu acabo deixando escapar. E reafirmo: esse debate, apesar do clima de "Fla x Flu", apesar dos eventuais excessos de parte a parte, terá um único vencedor: o Brasil. Nossa, pareci uma porra dum político com essa última frase, cacete! Vai, vamos fazer uma última provocação, dessa vez invocando trecho de um artigo do Nei Lopes:

"Enquanto o protesto negro, mesmo de dread-locks, tênis Nike e uniforme de beisebol, se restringiu à música, ele foi bem vindo e bem aceito, porque era pop. Mas quando ele transcendeu o entretenimento e passou à esfera legislativa, reivindicando inclusive, de terno e gravata, um Estatuto de Igualdade Racial, aí ele passou a ser 'imitação de negro americano' e ameaça à 'cordialidade que sempre reinou, entre brancos e negros, neste país sem racismo'."
http://neilopes.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html

Claudio Roberto Basilio em janeiro 11, 2008 9:45 PM


#74

Maravilha, Claudio, eu é que devo agradecer. Não quero ficar me estendendo muito nos elogios a você, porque sendo eu o anfitrião, pode ficar parecendo autoelogio. Mas acho que este papo deu, sim, uma amostra do que pode ser um debate, para além de qualquer Fla x Flu. Reforçou minha crença nos blogs como possibilidade de exercício da democracia.

Nada a acrescentar ao que você disse, mas não resisto à tentação de dar mais um pitaco sobre a citação de Nei Lopes: a moçada do Black Power e dos dreadlocks apanhou e apanhou muito. Enquanto Nei Lopes não revir sua noção de que o Black Rio, por exemplo, foi uma mera cópia dos gringos, eu acho que essa distinção aí "pretos protestando pela música x pretos chegando à via legislativa" tem que ser questionada -- porque, como sabemos, junto com a música vêm shows, vem sociabilidade, vem uma voz que se projeta politicamente, etc. etc.

E aí é triste ver um mestre do calibre de Nei Lopes negando-se, até hoje, a reconhecer a importância do Black Rio.

Mas isso é papo para outra jornada. Abraços!

Idelber em janeiro 11, 2008 10:32 PM


#75

Amigos,

Muito importante a discussão sobre a adoção de cotas raciais nas universidades brasileiras.

Porém, não podemos esperar a discussão acabar para que as cotas sejam adotadas, sob pena de deixar de cumprir um dos objetivos fundamentis da República Federativa do Brasil que é o de reduzir as desigualdades sociais, inscrito no inciso III do art. 3º da Carta Democrática de 1988.

Como ninguém nega que a escravidão relegou uma parcela da sociedade brasileira a uma situação de desigualdade social por mais de 300 anos, para que a Constituição seja cumprida é necessário criar medidas temporárias para possibilitar que essa parcela da população e seus descendentes equiparem-se às demais.

Primeiro temos que cumprir a Constituição, depois discutir se ela está certa ou errada.

Saudações democráticas

p.s.1: não sou homem de ficar em cima do muro. Concordo com tudo o que o Cláudio Roberto Basílio e o enio disseram e com o que vierem a dizer.

p.s. 2: Idelber, não acredito que você já não tenha voltado a sua opinião original sobre o tema.

Ricardo Petrucci Souto em janeiro 12, 2008 10:35 AM


#76

Só uma observação rápida para o Rafel M: a questão não é de legalidade, e sim de realidade. O princípio da isonomia salarial não se questiona, o que se questiona é a mobilidade social e as possibilidades de ascenção. Não é que dois gerentes, um negro e outro branco, ganhem salários diferentes. É que entre dois funcionários mais ou menos com a mesma qualificação, sendo um negro e outro branco, geralmente o branco leva a promoção. Quantos diretores de empresa negros você conhece? Na que eu trabalho, só há as moças do cafezinho e os contínuos - sem nenhum exagero, pura realidade. É isso que provoca a distorção na média dos salários. Os brancos levam os cargos de chefia e os melhores salários. E é por isso que é importante ter cotas nas universidades: para acelerar o processo de eliminação desse tipo de desigualdade. Porque quando a gente constata que uma situação está muito errada, muito injusta, não há motivo para esperar duas ou três gerações para consertar: a gente quer consertar é agora. Eu quero, pelo menos.
Beijos,

Monix em janeiro 12, 2008 6:16 PM


#77

Exatamente, Monix. Uma das poucas restrições que eu tenho ao livro do Risério é o momento em que ele recorre a uma citação do Ali Kamel (só podia ser!) que tenta encobrir a disparidade salarial entre negros e brancos com o argumento da isonomia. Ora, é claro que não se trata disso. O fato é no momento da contratação ou da promoção a discriminação acontece. Aí depois fica fácil dizer que todos os que têm a mesma função recebem o mesmo salário.

Ai, ai. Eu pareço uma gangorra esquizofrênica neste debate.

Idelber em janeiro 12, 2008 6:39 PM


#78

Idelber, querido, infelizmente não pude aparecer antes, e acho que perdi o bonde dessa história. Não pude ler todos os comentários, mas até onde fui, acho que o debate já foi riquíssimo, e eu não tenho contribuições significativas a dar. Então seguem aqui apenas breves pitacos, pra responder ao seu convite:

1) Se um dia eu escrever um livro, e ele for minimamente razoável, quero que você faça a resenha. Seu post cumpriu brilhantemente o objetivo primeiro, que era chamar a atenção para o livro. Perfeito.
2) Não acho que importar algo dos Estados Unidos seja algo ruim per si, Idelber. E as “importações” sempre sofrem influências e adaptações e acabam virando uma outra coisa. Ou várias coisas. Acho essa idéia de comissão (da UNB) realmente uma aberração, mas o sistema de cotas não é assim em todas as universidades brasileiras, e algumas inclusive combinam cotas raciais e sociais – se não me engano é o caso da Uerj aqui no Rio. Então vamos devagar com o andor e não tomemos a parte pelo todo, não é mesmo?
3) O Fla x Flu entre defensores e apoiadores das cotas fez um dano lascado à própria causa do combate ao racismo. Como diria minha sócia pheeena e inglesa, I beg to differ, Idelber. E muito. A limitação da discussão a um Fla x Flu com certeza empobreceu a discussão, mas o tema das cotas trouxe a discussão sobre racismo, preconceito e discriminação a patamares totalmente novos. Como gosta de dizer o Lula, nunca antes na história do Brasil se discutiu racismo dessa maneira, Idelber. E só isso já vale a pena, na minha modestíssima opinião. Foi preciso que o lugar dos filhos da elite branca fosse ameaçado para que o assunto ganhasse projeção num país em que há racismo mas não racistas.
4) O problema maior pra mim dos argumentos contrário às cotas é o seguinte: tá, então tiremos as cotas. E colocamos o que no lugar? Quando, na história desse país, foi feita uma política pública para negros, desde a escravidão? E por favor, não me digam que vamos investir em ensino para todos porque essa é a política que temos hoje, e sabemos todos no que deu.
5) As cotas não são a panacéia de todos os males, e como bem lembrou a Monix, devem ter sim um tempo previsto de aplicação e análise. Como disse o Muniz Sodré, são como uma cunha que se coloca na porta enquanto é necessário. Então vamos experimentar? Estamos falando de projetos que tem 5, 6 anos, se tanto? Vamos já desistir dessa experiência, foi possível avaliá-la, já? Será que os possíveis efeitos perversos são mesmo mais letais que os ganhos? Eu prefiro esperar mais um pouco.

Helê em janeiro 13, 2008 8:46 AM


#79

Bom ponto Monix. Abala minhas convicções. De fato, a questão da mobilidade social é importante e estraga o argumento da isonomia, se for verdade.

Neste caso os defensores de cotas e etc usam o argumento errado no debate. Toda a vez que vejo este debate, o principal argumento usado é a da diferença na média de salários (em conjunto com a essencial evidência anedotal). Acho este um argumento errado, porque a diferença de salários pode ser explicada então por duas hipóteses diferentes:

1. Os negros em média, por pobres, recebem menos formação etc. Por isso, têm empregos que pagam menos, o que explica a diferença na média (era o meu argumento anterior).

2. Os negros, por negros, com a mesma formação de brancos, têm impedida a sua ascensão social, o que resulta na diferença na média (é o seu argumento).

Na minha opinião, ambos argumentos são razoáveis e plausíveis. E com isso podemos avançar o debate. Não deve ser muito difícil estudar a mobilidade social de negros e brancos e evidenciar se ela é ou não atrapalhada pelo racismo.

Se se evidencia isso, vocês terão um argumento muito mais forte do que a mera média de salários, o que serviria para calar a boca de vários (inclusive, reconheço, eu).

Se se evidencia o contrário, bom, aí a minha hipótese ganha força.

Claro que o que fazer diante de qualquer das hipóteses é uma outra questão (cotas, etc resolvem em que caso?). Mas aposto que o debate fica mais iluminado com um diagnóstico mais preciso.

E aposto que alguém já fez algum estudo nesse sentido. E se bobear, algum de vocês (muito mais versados nestes temas) conhece algum estudo desses. Alguma sugestão? Eu teria interesse em ler, se estiver disponível.

Rafael M em janeiro 13, 2008 11:00 AM


#80

Na africa do sul durante o apartheid havia, proporcionalmente, mais estudantes negros na universidade que no Brasil em qualquer epoca, inclusive hoje...

Bernaido Caicedo em janeiro 13, 2008 12:57 PM


#81

Outro dia, uma amiga me disse: "É diferente pra você que percebe o racismo e pra mim, que sinto o racismo." Por que ela tem pele preta e cabelo crespo e eu não. Vivendo numa cidade como Salvador, eu vejo isso no meu dia-a dia. É verdade, sim, que os baianos que se acham brancos chamam de baixo-astral os lugares que são mais frequentados por negros. E só não vê isso quem guarda seu racismo num lugar muito bem-guardado. Por aqui, é comum ler nos jornais ou ouvir alguém dizer: "só tinha gente bonita naquela festa", eufemismo pra dizer que só tinha branco bem-nascido. Ou que faz um esforço danado pra ser igual a eles.
Estou curiosa pra ler o livro de Risério. Até porque ele é baiano de Salvador. Conhece bem a nossa elite. E não tem perdão se estiver defendendo os interesses dela.
Eu não sou intelectual, mas vivo em Salvador num bairro de classe média-baixa e vejo como muitos garotos negros inteligentes estão fora das universidades. E, conversando com alguns deles, penso como seriam úteis para suas comunidades se tivessem alguma chance. Tenho uma amiga juíza que é negra e percebo como ela se preocupa em ser eficiente porque entende a urgência dos que precisam das decisões dela.
Por isso, continuo apoiando o sistema de cotas. Conheço algumas pessoas que saíram da Uneb - a primeira universidade a adotar o sistema - e vejo como são profissionais competentes e conscientes da sua função na sociedade. Como vêem a profissão como meio de transformar a vida do outro.
Por que será que numa cidade como Salvador tem tão poucos negros médicos, juizes, jornalistas... Como diz a letra de uma música do baiano Edson Gomes, os negros estão nos piores lugares. Aqui, a maioria dos empregados domésticos, dos garis, dos cordeiros nos blocos de carnaval, dos vendedores ambulantes, dos desempregados, dos detentos nas penitenciárias são negros. Por que será?
Sobre esse racismo que a gente acha que não existe, tem um depoimento interessante de Chico Buarque no DVD Os Saltimbancos. Quando ele fala dos netos e do genro Carlinhos Brown. Talvez Chico, mais que Risério, tenha conseguido enxergar o quanto somos racistas.
Quem é de Salvador e tem mais de 40 anos lembra do tempo que negro não saía na maioria dos blocos de carnaval da cidade. E de como o Ilê Aiyê foi importante pra resgatar a auto-estima dos negros. Pois é, o Ilê tem apenas 30 anos. E quem acha que o sistema de cotas ou o estatuto da desigualdade divide também diz que quando o Ilê não permite que saiam "brancos" também está sendo racista.

Socorro em janeiro 13, 2008 3:22 PM


#82

Rafael M, de fato seria interessante um estudo que tentasse "isolar" essas duas hióteses/variáveis e estabelecesse uma conclusão, ou, pelo menos, iluminasse um pouco mais o debate.
Respondendo ao seu questionamento, acredito que o sistema de cotas ajudaria a acelerar essa desigualdade nos dois casos. No primeiro, ou seja, os negros têm formação inferior, acho auto-explicativo o benefício: se os negros passarem a ter formação melhor, automaticamente a média salarial aumentaria. (O curioso é que você acha justamente o oposto, pelo que entendi. Adoro me dar conta de como o mesmo argumento pode originar pontos de vista opostos... viva o debate!) NO segundo caso, acredito que o benefício é mais indireto, pois mesmo que a população negra passasse a ter uma formação melhor, isso não implicaria necessariamente num aumento imediato da média salarial. Mesmo assim continuo achando válido o sistema de cotas, por motivos mais subjetivos. Acredito que os filhos da elite branca (desculpem o termo pejorativo, é só para ressaltar a suposta "oposição" entre os dois "grupos), ao conviver mais e melhor com os "diferentes", com os que antes eram excluídos, acabarão por reduzir a carga de preconceito, e a inclusão acabaria por acontecer como decorrência desse processo de des-mistificação. Afinal, na minha opinião, preconceito nada mais é que medo do desconhecido.
Beijocas,

Monix em janeiro 13, 2008 5:41 PM


#83

Falou-se acima que o sistema de cotas pode criar uma discriminação jurídica e tal. Assim, os brasileiros não seriam iguais perante a lei. Alguns exemplos de falta de isonomia legal com a qual a população convive muito bem no Brasil:
1) Uma pessoa com diploma de ensino superior tem direito a cela espacial ao ser preso.
2) Desde o governo Vargas, existe uma cota para trabalhadores: 2/3 dos empregados de empresa devem ser brasileiros, fixando um teto para os estrangeiros.
3) Empresas recebem inúmeros benefícios fiscais para se instalar em regiões, como a Zona Franca de Manaus. Cria-se uma vantagem que as demais empresas de outras regiões não têm.
Não dá para falar que existe isonomia legal no Brasil. O mais curioso é a grita quando se tenta estabelecer uma cota para negros na universidade.

enio em janeiro 14, 2008 8:30 AM


#84

Amigos,amigas (penso que posso tratar vocês assim): tenho lido os comentários com o mais vivo interesse. O importante não é exatamente o meu livro, mas a discussão que ele pode provocar, como provocou e está provocando aqui, graças ao Idelber. É para isso que trabalhamos. Para que as coisas andem, aprofundando sempre mais a dimensão democrática de nossos pensares e fazeres. Grande Abraço,
Antonio Risério.

antonio risério em janeiro 14, 2008 11:33 AM


#85

Monix,

De fato, muito bom o debate. Você colocou que a solução das cotas é benéfica em qualquer das hipóteses que distutimos antes. Não sei se é bem assim e vou colocar minhas razões. Acho que vai ficar meio comprido, mas tentarei ser objetivo.

A política de cotas, como qualquer coisa, tem um "custo". A palavra vai entre aspas porque não necessariamente estou falando de dinheiro. Para dar um exemplo: Discute-se nos EUA o fim do habeas corpus como uma forma de aumentar a segurança do país (acho que a idéia é prender terroristas mais fácil). Isso é uma boa idéia?

Sei lá. O fim do habeas corpus acaba com um direito tradicional dos americanos e aumenta o risco do estado encher o saco do cidadão. Em compensação, ao menos em teoria, aumenta a segurança. E aí? Trocamos um direito por mais segurança? Mas será que o aumento da segurança é real? E a discussão vai por aí. Na minha opinião, neste caso o aumento da segurança é muito pequeno comparado o valor do direito ao habeas corpus. Eu seria contra a troca.

Claro que esse caso não tem nada a ver com o caso das cotas. É só um exemplo de troca de uma coisa por outra.

No caso das cotas, qual é a troca? Troca-se um sistema objetivo e impessoal (uma nota de vestibular ou o Enem, ou alguma coisa assim), por um sistema que promove uma certa parte da sociedade em detrimento de outra (estou tentando achar as palavras mais neutras possíveis).

Eu, na minha opinião, prefiro sistemas impessoais e objetivos, por princípio. Na minha opinião, no longo prazo, a sociedade desenvolve-se melhor assim. É mais justo, na minha opinião. Assim, com as cotas, eu perco algo a qual dou valor como alguém que quer construir um país melhor no longo prazo. Vale a pena? É justo? Talvez sim, talvez não. Sei lá. Temos que ver.

Voltemos as hipóteses.

1) A diferença na média de salários é causada só pela diferença em formação entre a média dos negros e a média dos brancos (era minha idéia anterior). Neste caso, não há racismo no sentido que ninguém ativamente atrapalha a evolução dos negros. Só existem dificuldades econômico-sociais.

Caso esta hipótese esteja correta, acho complicado defender o regime de cotas. Pensa só: Você tem duas pessoas pobres: um negro e um branco. Antes das cotas, a chance deles irem a universidade era igualmente baixa: 5%. Com as cotas, a chance do negro aumenta para 7%, mas a do branco diminui para 3%. Isso é extremamente injusto para o branco pobre. Por que o branco pobre deveria ter prejudicado o seu acesso à universidade? Só porque há brancos ricos por lá?

Com esta hipótese, acho que se perde mais com as cotas do que o que se ganha.

2) Os negros sofrem preconceito ativo. Eles têm a ascensão pessoal prejudicada por serem negros. Era o seu argumento. Neste caso, como diminuir estas barreiras? Não sou especialista, mas para mim parece razoável a idéia de que este tipo de racismo diminuiria com uma maior interação entre as pessoas. Assim, obrigar que brancos e negros em uma fase específica de sua formação sentem juntos e compartilhem espaço e estudos talvez ajude.

Veja bem que mesmo nesse caso as cotas são injustas com brancos pobres. Mas o buraco sendo mais embaixo, o benefício de diminuir o racismo torna-se mais atrativo.

Com tudo isso, consigo mais ou menos explicar porque sou a favor de outras medidas em alternativa às cotas. Por exemplo, cursinhos pré-vestibulares focalizados. Com uma política assim não perco algo que me é importante (a impessoalidade do vestibular), e ajudo a solucionar uma lacuna que talvez exista entre ricos e pobres (o acesso a uma preparação melhor para os testes). Se o foco de um cursinho pré-vestibular como este forem as pessoas pobres, ao invés de pessoas negras, aí ainda melhor, porque mantenho a impessoalidade até nisto.

Ficou comprido, desculpe. É um rascunho de mais ou menos como minha mente tenta entender o assunto.

Rafael M em janeiro 14, 2008 11:48 AM


#86

Salve, Monix e Helê! Quando eu crescer, quero ser igual a vocês ;-), pois sou péssima em argumentos, debates e afins... Mas não poderia deixar de dizer que concordo plenamente com a Monix sobre um dos grandes motivos do preconceito: medo do desconhecido. E o pior disso é que, principalmente nas grandes cidades, as crianças brancas convivem cada vez menos com as crianças pretas, levando a um ciclo bem perigoso.

Desde que venho me inteirando do assunto, a declaração que mais me chocou foi essa aqui, do Seu Jorge falando sobre a filha: http://www.bbc.co.uk/portuguese/meta/dps/2007/05/bb/070516_dnaseujorge_console_16x9_bb.asx
(para quem não conseguir abrir direto do link acima, clique no canto superior direito, na página da BBC: http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2007/05/070409_dna_seujorge_cg.shtml)

Que crueldade é essa com as crianças(as pretas e as brancas)?

beijo,
Ana

Ana em janeiro 14, 2008 12:02 PM


#87

Enio,

O "perigoso comunista" Aristóteles sugeriu: "Tratai desigualmente os desiguais e obterás a igualdade".

Portanto, a direita (que jamais foi contrária à Lei do Boi - Lei n.º 5.465/68) não tem qualquer chance de contestar a política de cotas com o hipócrita argumento da igualdade formal de todos perante a lei.

Pelo contrário, como eu disse no "post" 75, é obrigação jurídica da República Federativa do Brasil implementar o sistema de cotas para, entre outras ações afirmativas, reduzir as desigualdades sociais e buscar a igualdade material.

Ricardo Petrucci Souto em janeiro 14, 2008 12:13 PM


#88

Brutal mesmo a história relatada nesse vídeo que a Ana deixou aí. Recomendo. É sempre bom lembrar: as crianças não fazem isso "espontaneamente". O racismo lhes é ensinado.

Meu muito obrigado à Helê e à Monix por terem atendido ao convite para que se juntassem à discussão. Deu para ver aí o quanto contribuíram.

E obrigado ao Risério, claro, por nos acompanhar. Este será um daqueles links que vou guardar com carinho para quando eu ouça -- pela enésima vez -- que "nada de interessante" acontece nos blogs.

Idelber em janeiro 14, 2008 3:26 PM


#89

Idelber, falo em nome das Duas Fridas: para nós é sempre uma honra receber um convite seu; não pega nem bem não aceitar. :-)
Rafael, entendi seu raciocínio... De fato, a questão interessante a verificar é: qual das duas hipóteses é verdadeira? (Ou temos um misto de ambas? Vai saber.) Na dúvida, fecho com a opinião da Helê, minha blog-sócia: por que encerrar uma experiência que acabou de começar? Acho que precisamos de mais tempo para avaliar os resultados, e os possíveis benefícios, ou mesmo danos.
Ana, o vídeo que você inidcou é realmente muito ilustrativo da questão do "medo do desconhecido". Para quem não consegue abrir - ou tem preguiça de clicar no link -, trata-se de um depoimento do Seu Jorge sobre preconceitos sofridos, em que ele conta da filha, que ao entrar na aula de balé de uma escola de elite passou pelo constrangimento de nenhuma criança (todas as outras, brancas) querer dar as mãos para ela. Aliás, a propósito disso, o mesmo aconteceu na escola do meu filho, em que crianças de 3 anos se referiam a um coleguinha como "macaco". Obviamente isso foi ensinado em casa, e a escola tratou de instaurar um debate sobre diferenças, raças, preconceitos etc e tal, mas... desnecessário passar por isso, né? Por essas e outras que eu fecho de novo com a minha sócia: no Brasil, quem é negro sabe.
Beijos

Monix em janeiro 14, 2008 8:51 PM


#90

Ricardo,

De acordo com suas palavras, como não sou de direita, tenho "toda a chance" de argumentar contra as cotas para negros.

O grandessíssimo problema do sistema de cotas raciais é justamente a impessoalidade deste sistema. Ele se baseia somente na cor da pele, e não na real necessidade da pessoa receber ajuda para ingressar na universidade. Se o objetivo do sistema é fazer reparação social e tentar dar acesso a pessoas que de outra maneira não teriam acesso à universidade, porque não cotas para pessoas pobres?

Afinal qual a premissa de um sistema de cotas para negros? Que pessoas negras são menos capazes? Claro que não. Uma das pessoas mais inteligentes que conheço (e meu grande amigo) é negro. Meu orientador de doutorado é "Pardo" ou algo que o valha (essa é a classificação mais estranha que eu conheço. Quantas pessoas vocês conhecem que se autodenominam pardos? Moreno é um termo muito melhor). Mas voltando: Se a premissa não é de uma "inferioridade racial", o que obviamente não é, acredito que seja o conhecido (e não estou negando de forma alguma ele aqui) argumento que a maioria dos pobres são negros, e pessoas pobres tem acesso a uma educação sabida e notoriamente inferior na maioria dos casos.

Correto. Porém existem, "pasmem", negros ricos e de classe média. Um exemplo rápido: Amazonino Mendes, dono do Amazonas por mais de 20 anos, é carinhosamente conhecido como "o Negão" (por mais que ele esteja mais para pardo). Interessantemente tanto meu amigo do paragrafo anterior quanto o meu orientador também são extremamente abonados (pelo menos muito mais que eu). Pois bem: tendo-se a premissa anterior de que os pobres tem mais dificuldades de ingressar na universidade, não fica claro que o sistema de cotas iria primariamente afetar em massa os negros pertencentes às classes média e ricos, e minoritáriamente aos pobres? Na prática, os maiores beneficiários desta política são pessoas que já teriam capacidades de disputar de igual para igual vagas na universidade. Quem ganha principalmente é aquele que teve condições (bons estudos em colégios particulares, cursinhos e etc) de passar mas obteve um desempenho que não o classificaria normalmente. Os realmente necessitados continuariam sendo preteridos, por mais que suas chances aumentassem um pouco. Da forma que está posto, sistema de cotas tem um aspecto muito maior de "reparação histórica" do que de redução de desigualdades sociais. E justamente reparando com quem já vive uma situação privilegiada.

Outro problema existe na idéia de que o sistema de cotas pode ajudar a diminuir o racismo, com o argumento do "medo do desconhecido". Isto pode ocorrer, mas o oposto tem uma grande chance de ocorrer também: imaginem um adolescente inconsequente típico, tipo não incomum entre calouros, será que ele não pensaria algo como "Onde já se viu? É muita injustiça! Eu passo três anos me matando pra estudar pra entrar numa universidade boa e esse aí entrou só porque é negro". É assim que se pretende combater o racismo? As vezes uma pessoa destas nem era racista, mas pode passar a ter um certo desprezo depois disso, especialmente quando em volta de pessoas negras bem-sucedidas.

Uma maneira muito mais interessante de fazer justiça social é a cota para alunos pobres:

1) Os negros realmente necessitados seriam muito mais atingidos.Fazendo uma rápida análise estatística crua e altamente simplificada: Considerando-se que negros e brancos possuem a mesma capacidade acadêmica, independente de suas raças, sendo os negros e mestiços a maioria dos pobres (de acordo com estudos citados) a maioria dos aprovados nas cotas seriam negros e mestiços, o que acabaria com o problema de pessoas que não necessitassem fossem aprovadas nas vagas cotistas. Além disso, outras raças, como índios e suas miscigenações, também seriam beneficiadas. Na região norte por exemplo, existem poucos negros de fato em comparação aos miscigenados com sangue indígena, e o sistema de cotas raciais faria que estes últimos ou fossem ignorados pelo sistema ou tivessem que se declarar negros.

2) Além disso, cotas para pobres tem um impacto muito maior no aumento da capacidade de ascensão social. Discriminando estas vagas para quem realmente precisa, ao invés de um critério mais arbitrário como raça, se consegue um aproveitamento muito maior desta oportunidade.

Bem é isso, me desculpem pelo post longo. Mas é meu primeiro e eu tinha que causar boa impressão :)

André Carvalho em janeiro 15, 2008 4:16 AM


#91

Olá, André

Concordo com você com a adoção de cotas para pobres.

Isso não exclui cotas para negros.

Seria importante também cotas para prostitutas e outros segmentos da sociedade historicamente desfavorecidos.

O objetivo das cotas não é acabar com o preconceito, mas dar dignidade aos segmentos da sociedade vítimas de preconceito.

Saudações democráticas.

Ricardo Petrucci Souto em janeiro 15, 2008 6:15 AM


#92

Livro irrepreensível. Texto idem. Meu único senão: o livro não é "politicamente incorreto MAS incendiário". Na verdade ele é incendiário PORQUE é politicamente incorreto.

Xtrmntr Bill em janeiro 16, 2008 8:38 AM


#93

Idelber, como eu adoro o seu blog. Posso passar o tempo que for sem acessa-lo, sempre sou surpreendida por discussoes super ricas.
Estou fazendo mestrado em antropologia cultural e vou justamente estudar um pouquinho da cultura afro-brasileira, esse assunto me interessa demais. Jah estou aqui caçando o livro em sites que possam me entrega-lo aqui na França.
Sao tantos comentarios, além da sua analise, interessantissima, a adicionar que parei de ler um pouco pra poder escrever. Sou soteropolitana e nada mais claro para mim que a questao da "guerra de religioes" em Salvador que é também abordada por Risério. Tenho lido alguns artigos sobre isso. Para mim, é justamente a mistura do candomblé com o catolicismo que faz da Bahia algo tao unico, de uma religiosidade tao bonita.
Caso vc saiba de algum site (procurei na amazon.com, mas o livro ainda nao esta na lista) que faça entregas internacionais sem muita burocracia (procurei no submarino, mas eles nao facilitam links quando a entrega é internacional), por favor avise-me... o proprio Antonio Risério, caso leia estas humildes linhas, podendo me ajudar neste ponto, serei eternamente grata...! Nunca comprei livros pela net.
Um grande abraço a todos, perdao pelas faltas de acentos :)

Ananda em janeiro 18, 2008 12:39 PM


#94

Não é que eu achei um trabalho escolar com esse tema.

Henrique Cintra em fevereiro 4, 2008 9:35 PM


#95

Uma pena o papo ter acabado. Cheguei tarde.

Igor Lucas Adorno Santos em junho 28, 2008 2:07 AM


Deixe seu comentário:






Lembrar seus dados?

(you may use HTML tags for style)