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quinta-feira, 17 de janeiro 2008

Blogofobia tangueira

Enquanto eu estava de férias, o pau comeu na blogosfera argentina. Foi o maior barraco da história. Naturalmente, dele não se teve notícias nos blogs brasileiros. Muro de Tordesilhas véio de guerra. A história já é antiga – coisa de um mês atrás, em blogs, é pré-história. Mas vale a pena acompanhar, porque diz muito sobre a reação dos jornalões às novas plataformas de publicação.

Quando um jornalão brasileiro quer destilar o seu ressentimento pela queda do público leitor e a perda de espaço para as novas mídias, ele contrata a agência Talent, que faz uma campanha comparando blogueiros a macacos. Quando um jornalão argentino – o Clarín – quer fazer o mesmo, quem se encarrega da tarefa é um ensaísta da estatura de Horacio González, diretor da Biblioteca Nacional, que assina, sob o título “Os blogs não tem futuro”, uma incrível, bizarra e barroca diatribe contra os blogs. As reações na blogosfera argentina foram sensacionais e muito bem humoradas. Vamos por partes.

De todas as “eras douradas” que os nostálgicos gostam de dizer que foram destruídas pelos blogs, a escolhida por González é a mais insólita: a época da carta do leitor ao jornal, que aparece em seu artigo como uma espécie de era de ouro da democracia! Sério, é isso: El género de la carta del lector nació con el periodismo mismo y postulaba un ejercicio superior de ciudadanía –la enmienda, la queja, la reescritura, la rectificación, la protesta–, así como exigía del periodismo el trabajo con un incipiente derecho a réplica o con perspicaces elaboraciones de un lector, que si pasaba el cedazo riguroso de la redacción estable de un diario, era una señal de fuerte opinión editorial proveniente de la sociedad civil.

Essa era a idade de ouro, em que a voz dos leitores encontrava o ilustre cantinho do painel das cartas – cuja publicação, evidentemente, ficava e fica a cargo do jornal. A barbárie atual, segundo González? É esta: Cuando en los últimos tiempos se invita a la opinión en el gran "blog" en que se está convirtiendo el mundo digital de la información, se desata una interesante pero al mismo tiempo borrosa disentería de escritos de rigor espontaneísta: Esos escritos quizás prometen una futura revulsión artística en la lengua, pero por ahora la desarticulan con banales juegos de irreverencia y pseudos-vandalismo. O texto de González defende essa estranha tese: os blogs podem, um dia, revolucionar a linguagem. Mas por enquanto então “desarticulando-a” e pondo fim ao exercício democrático do sujeito que ponderadamente enviava missivas ao jornal como um ato de cidadania. Reclamando do mundo em que qualquer um pode escrever, González cita o famoso tango de Discépolo: cualquiera es un bacán, cualquiera es un señor. Se usasse o Google, González saberia que sua citação está errada. O que disse o ilustre tangueiro foi cualquiera es un señor, cualquiera es un ladrón, erro de citação que não deixa de ser uma bela ironia no contexto do artigo.

Estamos na época da disolución del perfil autoral y la responsabilidad del multi-secular sujeto escribiente, lamenta González. Os blogs seriam a disenteria verbal, as rufadas de espontaneísmo, a barbárie da opinologia: quanto mais retorcida a linguagem, mais visível o ressentimento. Lendo uma coisa dessas, assinada por ninguém menos que o diretor da Biblioteca Nacional da República Argentina – instituição que foi dirigida por Jorge Luis Borges, grande precursor da internet –, não dá para deixar de pensar: do que esses intelectuais têm tanto medo?

As reações da blogoseira foram várias: fazendo uma gozação com a retórica de González, La barbarie ofereceu uma tradução do texto, frase por frase; acertando na mosca, Últimas de Babel lembrou que quem fala sobre “os blogs” em geral, é porque não sabe do que se trata; no excelente blog coletivo Nación Apache, Julio Zoppi fez uma análise do ressentimento e do susto que movem essas diatribes; no Lectora Provisoria, que fez seu primeiro aniversário no sábado passado, Juan Villegas pegou pesado; o Hipertextos tomou o mote “os blogs não tem futuro” e colocou-o ao lado de outras previsões furadas do passado; finalmente, o indispensável Tapera demonstrou que a idade de ouro da carta ao jornal não era tão de ouro assim.

Minha opinião? As respostas deles a González deram de 10 x 0 nas nossas respostas ao Estadão. Mais um capítulo, pois, da blogofobia. Vida que segue.



  Escrito por Idelber às 02:58 | link para este post | Comentários (18)


Comentários

#1

Adorei esse post, domingo estou indo para a Argentina pela primeira vez e tinha procurado blogs argentinos sem encontrar muitos. Estes que vc fala eu não conhecia. Já fui lá ler alguns. E engraçado é que eu li num blog argentino essa semana que o clarin agora, este mês, abriu a possibilidade dos seus usuários terem seus próprios blogs no blogs.clarin.com

Abraços.

Nalu em janeiro 17, 2008 9:08 AM


#2

Sou tão proficiente em espanhol quanto o Collor-Duela-a-Quien-Duela-de-Mello, mas, mesmo entendendo pelas metades, achei hilária a tradução da carta, genial!

Ju Sampaio em janeiro 17, 2008 9:34 AM


#3

Argentino e conhecedor do Clarín são um jornalzinho conservador mas no sentido horrendo que a palavra conservador guarda consigo.É uma entidade com fim criminoso, sequestrou bebês de presas em campos de concentração durante a ditadura argentina, apoio feroforosamente o regime. São a ralé e o bom é que a maioria das pessoas sabe, se é bem verdade que compram o jornal não deixam ( os que podem ) comprar o La Nacion ou La Pagina 12 juntos e sempre.

O Clarín tem uma tiragem gigantesca, a maior dentro do território nacional, se não me engano, mas é um jornal de merda na qualidade de texto, reportagens, tudo, esse aparato gigantesco que tem por trás deveria lhe conceder o título de anão mais alto do mundo. O Clarín cospe e vocífera certeza, sempre, pra qualquer assunto.
Se pro Clarín já não bastasse ser ele mesmo, ele é addicto na certeza, não volta atras nunca, claro que se aquele que paga a matéira manda voltar ele volta.... mas via de regra é um meio obcecado com a certeza, não há margem pra dúvida com essa gente.
Sempre é bom e sempre será bom desconfiar de quem tem tanta certeza e nenhuma dúvida....

sergio em janeiro 17, 2008 10:12 AM


#4

Que há muita porcaria escrita em blogs, isso é fato. Até pela facilidade de se fazer um e postar textos, é inevitável que saia muita inutilidade. Mas há muita besteira publicada em jornais e revistas também, ou não?

Um dos argumentos dos antiblog é a pobreza dos textos da web. Bem, cada um lê o que quer; eu tenho uns 40 blogs em meu Bloglines e garanto que em pelo menos metade deles eu leio textos muito mais elegantes e informativos do que os que estão em seções de "opinião e análise" de jornais brasileiros e estrangeiros.

E outro argumento, de que os blogs vão matar os livros, é pura infantilidade. Eu sou jovem, tenho um blog, mas meu maior prazer ainda é comprar livros novos e usados e, perdão, escrever sobre eles no blog.

Daniel em janeiro 17, 2008 11:38 AM


#5

Oi Idelber

Por estas e por outras tantas é que cada vez mais se fala (sem conhecer ou não) sobre os blogs. Tanto e até, que surge, agarrados na cauda do cometa, mas já experts no assunto, os integrantes de uma blogosfera voltada para o que eles chamam de 'monetização dos blogs'.

Não me admira que daqui a pouco se anuncie postagens por telemarketing.

abração!

Suzana em janeiro 17, 2008 12:10 PM


#6

Confessa aí, você adorou que o cara tenha citado o chapa Alan Pauls, autor do excelente "Pasado" que elevou Idelber Avelar aos píncaros habitados pelos personagens da literatura argentina, ao lado de gente como Funes, o Memorioso, e Luis Molina...

A tradução está divertidíssima mesmo. A verdade é que essa raça de blogueiros ameaça mesmo o mundo com sua diarréia, digo "borrosa disenteria de escritos de rigor espontaneísta"... Que figura, o Horácio!

S Leo em janeiro 17, 2008 3:31 PM


#7

Uai, Idelber, só pq eu adoro ler blogs vou deixar de ler (os grandes) jornais? É assim que os blogofóbicos pensam? Me parece que os melhores blogueiros são ávidos leitores, inclusive de jornais e revistas.

LucianA em janeiro 17, 2008 6:09 PM


#8

Tenho vindo aqui com freqüência e sempre gosto, mas como meu hábito é recente perdi essa do Estadão...era um post seu? Como posso acessá-lo?

aiaiai em janeiro 17, 2008 6:48 PM


#9

Mas que crítica com mais cara-de-que-quer-convencer-leitores-fracos-a-não-ler-blogs...

Muito legal a reação!

Marília em janeiro 17, 2008 6:57 PM


#10

Cáspita, essa de ficar louvando a seção de cartas dos leitores foi de lascar. E ainda falando como se ela não existisse mais. O cara não tinha argumento melhor não? Se ele visse a Folha de São Paulo, onde o ombudsman trava uma heróica e mesopotâmica batalha (como diz o Zé Simão) para que as cartas dos leitores comuns não sejam desprezadas em favor das cartas de pessoas consideradas ilustres.

Te em janeiro 17, 2008 7:38 PM


#11

Esse González é um palhaço. Fala muito (do que ele sabe muito pouco) e não diz praticamente nada, fica repetindo e repetindo o que já falou, usa palavras bonitas que não acrescentam nada ao texto... Dá pra resumir tudo o que ele disse em um parágrafo, mais resumido do que fizeram os caras do La Barbarie.
Esses intelectualóides gostariam que o mundo tivesse se estancado na época em que eles eram jóvens. Só rindo mesmo dessa gente.
Abraço

Alex em janeiro 17, 2008 8:11 PM


#12

a resposta do Nacion Apache é espantosa.

em Portugal temos um Horacio González também, o autor do Abrupto. os ataques são mais no sentido de que a blogosfera é composta por uma cambada de vandalos, mentirosos, desonestos e ignorantes. à excepção do blog de sua excelencia, que é de fino recorte literário :))

claro que de tempos a tempos vira saco de pancada, mas continua. bem diz o outro, a senilidade é uma merda...

cristina em janeiro 17, 2008 8:48 PM


#13

Putz, não leio nenhum blog argentino. Entendida a questão, vou dar meu passeio pelas respostas à González.

Abraço.

Milton Ribeiro em janeiro 17, 2008 9:46 PM


#14

Hoje vou me permitir um alô geral; que todo mundo se sinta cumprimentado. Do pessoal que passa aqui pela primeira vez (Marília, Alex, Sergio) já visitei os blogs também.

Alguns toques a partir do que vocês colocaram:

A Nalu tem razão. Logo depois de publicar as diatribes (além desta havia outra, que saiu só na versão impressa), o Clarín abriu um portal de blogs.

Aiaiai, o post meu sobre o Estadão é este aqui .

E uma palavrinha sobre Horacio González: na verdade eu sou fã do cabra. É um baita ensaísta. Eu havia até preparado um parágrafo sobre a sua obra (há um livro belíssimo chamado Restos pampeanos), mas achei que o post ia ficar longo demais.

O caso é que ele, como tantos outros intelectuais de uma certa geração, não estão conseguindo entender muito bem o turbilhão.

Idelber em janeiro 17, 2008 10:59 PM


#15

E o Clarín é publicado online como blog. Mas não acho que um op-ed reflita a opinião do jornal.

André Kenji em janeiro 18, 2008 12:46 AM


#16

E o Clarín é publicado online como blog. Mas não acho que um op-ed reflita a opinião do jornal.

André Kenji em janeiro 18, 2008 8:47 AM


#17

Idelber, querido, obrigada por pular o Muro de Tordesilhas e me informar sobre tudo isso de que não tinha conhecimento. Correndo o risco de ser leviana na minha análise, talvez as respostas de lá tenham sido melhores porque o ataque, ainda que equivocado, também tenha maior envergadura que a propaganda do macaco...

Frida Helê em janeiro 18, 2008 9:05 PM


#18

Horacio González es un ser incoherente, sus discursos son incomprensibles, hace días hablaba sobre que el blog no tiene futuro y hoy tiene "su propio blog"
http://blogs.clarin.com/horaciogonzalez/posts
Donde escribe: "Pensaba, decía, que los blogs disuelven el latido patriota del corazón y taponan las venas por donde corre la sangre nacional. Es cierto que muchas veces el nacionalismo es causa en sí misma de algunas propuestas digitales, pero la mercadotecnia que motoriza el engranaje de sentidos, consume Patria como nafta un cero km."
Mercadotecnia, mercadotecnia, mercadotecnia ... esa es la palabra ... No hay otra cosa que le interese a HG que aparecer en los diarios y asi no solo consume "Patria", esta consumiendo uno de los mayores bienes culturales de Argentina, la Biblioteca Nacional. No hay mas que recorrer "su historia" en el cargo para conocer su pedigrí ... vendido a un gremio que conduce la Biblioteca, ingresos a granel de personal sin formación, los informes de control interno de la Sindicatura General de la Nación son lapidarios [ http://www.sigen.gov.ar/informes.asp - Completar de la siguiente forma: Organismo: BIBLIOTECA NACIONAL;
Año: todos; Tipo de Informe: (marcar ESCI – Informes de control interno); Cliquear: Buscar], el edificio de la Biblioteca esta sin terminar ( http://www.clarin.com/diario/2008/01/27/laciudad/h-05704.htm). No importa, hay que hacer "circo", salir en los diarios, con eso basta, y para ello nada mejor que crear un museo y escribir un libro sobre Perón. "Mantener el sillón" es el único interes que moviliza a este ¿ex-montonero? y un grupo de "paracaidistas" que lo rodean.

Omar Otegui em fevereiro 14, 2008 5:17 PM


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