« Por que eu não recomendo a Wikipedia ::
Pag. Principal
:: A reunião democrata em Nevada »
sábado, 19 de janeiro 2008
Galo aos sábados
Reúna atleticanos de quatro ou cinco gerações diferentes. Se quiser lançar uma bomba incendiária capaz de gerar polêmica por vários dias, é só fazer uma singela pergunta: quem foi o maior goleiro do Galo em todos os tempos?
Se tivéssemos que fixar uma data para o início da mística dos goleiros do Atlético, seria o 19 de janeiro de 1935. A manchete do Estado de Minas anunciava: “Kafunga, novo keeper para o Athlético”. O niteroiense Olavo Leite Bastos havia protagonizado uma experiência insólita. Foi o goleiro da Seleção Fluminense massacrada por 10 x 2 pela Seleção Mineira em 1933 e, mesmo assim, havia sido eleito o melhor em campo. Na chegada a Belo Horizonte, Kafunga diria: O score me acabrunhou tanto que tentei abandonar o futebol. Depois, esqueci a derrota, ou por outra, a ‘lavagem’, e recomecei a jogar. Mas o que não pude esquecer foram aquelles tiros de Said, dentro da área… Naquella época, não podia eu prever que viria dar com os costados em Bello Horizonte e, muito menos, que jogaria no team do homem que me fez passar por muitos sustos e dissabores.
Ele fecharia o gol do Galo de 1935 até 1954. É o recordista em número de jogos realizados com o manto alvi-negro: foram 714 partidas. Dos 39 títulos mineiros conquistados pelo Atlético, nada menos que 12 contaram com Kafunga no gol. Foi ainda campeão dos campeões (do Sudeste) de 1936 e campeão do “gelo” na Europa em 1950. Ainda é possível encontrar, no Mercado Central ou em Lourdes, atleticanos que dão gargalhadas ante a menção dos nomes de Taffarel ou João Leite. Goleiro era Kafunga, dizem, convictos. Além do legado de jogador, deixou imensas contribuições à língua portuguesa: cabeça de bagre, não tem coré-coré, gol barra limpa, despingolar (verbo que Kafunga adorava usar para se referir às arrancadas de Paulo Isidoro) e vapt-vupt foram algumas de suas criações. Mil novecentos e Kafunga é até hoje uma expressão que circula em Minas Gerais para designar um passado longínquo. Fez inesquecível carreira como comentarista de rádio e televisão. Em seu velório, em 1991, atleticanos e cruzeirenses choravam juntos. Nós nos acostumáramos a imaginar que Kafunga não morreria nunca.

Dali em diante, raríssimas vezes não nos sentimos seguros com nossos goleiros. Ainda na década de 50, Veludo, Sinval e Mão de Onça seriam ídolos da torcida. Na duríssima segunda metade dos anos 60, Mussula garantiu muitas partidas equilibradas contra o time superior que tinha o Cruzeiro. Na modesta equipe que conquistou o Campeonato Brasileiro em 1971, Renato participou de todas as 27 partidas. Numa época em que o Brasil esbanjava atacantes, sofreu só 22 gols. A Massa continua adorando-o, pela fidelidade que mantém ao clube. 
No ano seguinte, chegaria o maior de todos. Algo de idealização retrospectiva da infância haverá nisto, mas jamais voltei a ver um goleiro como Ladislao Mazurkiewicz. Mais conhecido no Brasil pelo drible que lhe aplicou Pelé na Copa de 1970, Mazurka seria o responsável direto pela conquista do tricampeonato da Taça BH em 1972, numa época em que o Cruzeiro ainda possuía uma equipe indubitavelmente superior. Ele não era alto, mas tinha reflexos apurados, saída perfeita, colocação impecável e muita garra. Deu continuidade ao casamento feliz entre os jogadores uruguaios e o Galo, iniciado com o lateral-esquerdo Cincunegui e continuado pelo zagueiro-central Oliveira.
De 1977 até 1989, e entre 1991 e 1992, a meta do Galo teve um sucessor à altura. João Leite ganhou doze campeonatos mineiros, uma Copa Conmebol e vários torneios de verão na Europa. Ajudou a levar o Galo a dois vice-campeonatos nacionais. Na fatídica decisão por pênaltis de 1977 contra o São Paulo, João Leite encaixou no peito as duas primeiras cobranças, de Getúlio e Chicão, ambas no cantinho (sentado na arquibancada, daquele lado do estádio, eu pensei: com um goleiro destes, o título já é nosso). João Leite inovou nos pênaltis, ao flexionar os joelhos com os braços abertos, movendo-se antes da cobrança só na vertical – e portanto rigorosamente dentro da regra. Num esquadrão de craques como Cerezo, Reinaldo, Éder e Luisinho, o “goleiro de Deus” não era das estrelas mais badaladas. Mas jamais deixou de ter a confiança da Massa. Poderia, inclusive, ter ido mais longe na Seleção Brasileira, que teve sua meta defendida por goleiros bem inferiores durante a década de 80.

Nos anos 90, a mística se manteria com Taffarel, campeão mineiro em 1995 e campeão da Conmebol em 1997, e com Velloso, vice-campeão brasileiro em 1999 e campeão mineiro em 2000. Já no novo século, o Galo revelaria um dos melhores goleiros dos últimos tempos, Diego, campeão mineiro de 2007 e logo depois vendido ao Almeria, da Espanha.
Traz um certo peso, a camisa 1 do Galo.
Escrito por Idelber às 04:37 | link para este post
| Comentários (15)
#1
A camisa 1 sempre foi a minha preferida. Desde criança, sempre fui goleiro (provavelmente pq eu era – e sou – ruim para diabo na linha), de maneira que sempre admirei quem sabia catar bem. Até hoje, época em quem meu interesse por futebol há muito deixou de existir, acho muito mais legal ver defesas espetaculares, chutes que ninguém acreditava que alguém poderia pegar sendo defendidos do que gols...
Ulisses Adirt em janeiro 19, 2008 8:12 AM
#2
Infelizmente a atual diretoria quer fechar a fábrica de bons goleiros do glorioso: de Bruno (mascarado!!) ao Juninho - para citar os recentes -, pelo menos na meta, não podemos reclamar da sorte... Parece que a mística da camisa 1 alvinegra não vai acabar nunca. Amém!
luizao em janeiro 19, 2008 9:27 AM
#3
Idelber, lembro que quando comecei a acompanhar futebol, o Atletico tinha um goleiro chamado Zolini, no campeonato brasileiro de 1974. e as partidas que vi, me deram a impressão que ele era bom. eu tinha 8 anos, nunca mais ouvi falar dele. o Zolini era bom mesmo?
PS1 - acabei entregando minha idade neste comentário.
PS2 - falando em futebol e efemérides, amanhã(20) faz 25 anos da convocação de Mané Garrincha pra seleção do Andar de Cima.
Serbão em janeiro 19, 2008 9:49 AM
#4
O Diego tinha tudo para virar ídolo do Galo. Mas há muito tempo o a diretoria não faz uma boa negociação de um jogador desde a venda do Caçapa para o Lyon.
Gabriel Mendes em janeiro 19, 2008 10:16 AM
#5
Caro Idelber,
no início dos anos 70 assisti a jogos com Renato, Careca e Zollini(todos medianos).O Ortiz causou furor na meninada,proliferando a famigerada moda das fitinhas e bermudões (ainda teve aquela polêmica com o Revetria). Já o João Leite, era um bom goleiro, mas você não ficava um pouco tenso com aquelas saídas de gol dele, parecendo um caçador de borboletas?...rs
Mariano em janeiro 19, 2008 11:01 AM
#6
Idelber
Para quem viu Mazurkiewicz jogar, sempre ficará a lembrança deste excelente goleiro.
E o Marcial hem?
Paulo em janeiro 19, 2008 11:30 AM
FM em janeiro 19, 2008 3:06 PM
#8
Caro Frank, você é sempre bem vindo, meu caro, não tem contragosto nenhum. Esqueçamos a pendenga Atlético x Flamengo. E não é que o Sr. Milton Neves publicou meu texto sem indicação de autoria? Eita, copy/paste véio de guerra! Valeu o link, Frank.
Serbão, alguém um pouco mais velho poderia lhe dar mais detalhes, mas acho que o Zollini era um goleiro mediano -- não comprometia, mas não era nenhum Mazurka. De qualquer forma, minhas memórias dele são precárias.
Paulo lembrou muito bem -- Marcial fechou a meta alvi-negra no começo dos anos 60. Muita gente ainda o considera o maior goleiro da história do Galo. Foi injustiçado neste post.
Como também foi injustiçado o Ortiz, que era um excelente goleiro, mas que ficou marcado pelos gols que levou de Revétria na final do mineiro de 77, um título que o Galo dava como certo.
luizao: Amém!
Gabriel, acho que a venda do Diego, infelizmente, era inevitável. É a nossa sina, não só do Galo, mas de todo o futebol brasileiro: não ter ídolos que durem mais de um ano. R. Ceni, no São Paulo, é a exceção que confirma a regra.
Mariano, João Leite assustava nas saídas, às vezes, sim. Ele era absurdamente bom, mas cometia alguns -- pouquíssimos -- erros grosseiros, especialmente ao sair do gol.
Ulisses, nunca me arrisquei a jogar no gol, mas admiro muito a arte do goleiro. Alguns jogos valem pela atuação do guarda-metas. Exemplo clássico: Internacional 1 x 0 Cruzeiro, na final de 75. Manga só não fez chover.
Idelber em janeiro 19, 2008 3:49 PM
#9
Detalhe importante: o texto sobre Mazurka linkado no post é o melhor que encontrei sobre ele na internet. Mas comete um erro grave. Mazurka não foi campeão brasileiro em 1971. Ele chegou já bem depois de terminado o campeonato.
Idelber em janeiro 19, 2008 4:53 PM
#10
Caro Idelber, esse negócio de ser goleiro é uma coisa esquisita.
Assim que me iniciei na carreira futebolística, comecei pronto;
Chuteiras engraxadas, bola nova, camiseta branca de algodão engomada, calção também branco, cabelos lisos e olhos verdes. Dai pra ser goleiro foi um passo...puro preconceito é claro eh eh eh .
Na época todos tinham apelidos, 'Zoca' batia um bolão, 'Foca', cujo irmão jogou no time principal do São Paulo com o nome Viana e o 'Prego', que jogou no segundo time de todos paulistanos, o Juventus, com sei lá que nome. Sem contar os amigos ídolos que jogaram no Timão, que infelizmente não me lembro os nomes.
Meu apelido seguia se confundindo com meu próprio nome, Frank.
Lá no fundo isso me parecia indicar que minha carreira estava fadada ao fracasso.
Eu comecei a me interessar por futebol depois da copa de 1970, meu ídolo era Pelé, mas eu já sabia da existência de Cruyff .
Não ter um apelido bissilábico e com sonoridade onomatopéica era um claro sinal de fracasso na época, naquele Brasil.
Mas eu seguia confiante e quando algum neguinho me chamava de 'alemão', embora alí houvesse um não sei o que de revolta e preconceito, eu adorava.
Mas os jogos se sucederam e continuei sendo Frank, o goleiro. Havia é claro as fãns, mas era só mais um motivo para me afastar do grupo que jogava na linha.
Era uma frustração.
Jogamos o campeonato paulista dente de leite, e nosso time era formado pelo centro avante 'Limpa Trilho', o ponta esquerda 'Serelepe, 'Doca' o beque central, 'Lingüiça o médio volante 'Rui Meningite' o ponta direita, 'Café' o meia direita ,'Manso' lateral direito, 'Tinguaça' meia esquerda. Nas outras posições tinhamos o 'Gaguinho', 'Timbó' e no gol o 'Frank'. O técnico era o seu Darcy, um negão autoritário a quem devo meu primeiro esforço de superação.
Porém poucos anos mais tarde conhecí um garoto que nascera na favela, logo alí perto de minha casa. Era loiro como eu, porém falante e cômico. E logo me tornei seu amigo.
Seus pais eram alemães, sua 'casa' na favela era maior que as outras, mais eles estavam completamente integrado na vida da 'comunidade'.
Me lembro até hoje a alegria que senti no dia dia em que ele me confessou querer ser goleiro.
Nós treináva-mos aos sábados, e no sábado seguinte à confissão, lá estava o 'Alemão', amparado por mim, se apresentando ao time.
O cara era bom, e já no próximo jogo lá estava ele no gol, e eu no banco, como reserva do lateral esquerdo 'Timbó'.
Alegria total, mas não passei disso. E o Timbó era um grosso.
Mas encerar minha carreira como reserva do Timbó e não como o goleiro titular foi na época, um dos maiores feitos.
O curioso é que depois de 1950 criou-se a mística de que goleiro negro 'dava azar'.
A contradição é que na minha 'época', qualquer garoto branquelo era considerado grosso, e assim, tinha seu lugar garantido no gol.
Mas foi no banco, na reserva do Timbó, que eu ví o meu amigo Alemão fazer defesas impossíveis.
Pena que na época não havia video tape para os amadores.
FM em janeiro 19, 2008 7:07 PM
#11
Meu Deus: Timbó, Gaguinho, Rui Menegite e Lingüiça.
É de dar medo!
Grande Frank :-)
Idelber em janeiro 19, 2008 7:15 PM
#12
Idelber,
a propósito das tiradas hilárias do Kafunga, lembrei-me de uma passagem, ao vivo, quando ouvia uma transmissão radiofônica de um jogo do Glorioso, e ele saiu com essa:"...o Nelinho bate tudo nesse time, bate lateral, bate falta, bate tiro de meta, bate pênalti, bate escanteio; pô!Ele tá parecendo é o Batman."
Mariano em janeiro 20, 2008 2:53 PM
#13
Para um palmeirense, é curioso ver o nome do Velloso em uma lista dos melhores goleiros da história de um time. Jogou bem aqui, mas a lista dos melhores tem ao menos uns 10 nomes antes do dele.
carcamano em janeiro 21, 2008 11:35 AM
#14
É estranho... Aqui no Sul, existe a convicção de que Mazurka fracassou no Brasil. Chega a ser utilizado com exemplo de grande jogador que afundou aqui... Lembro pouco dele no Galo, mas o vi jogar muitas vezes no Beira-Rio pelo Peñarol. Fazia-se muitos amistosos aqui contra Nacional e Peñarol e era comum vermos Marzurca, Manga (em seus tempos uruguaios), Pedro Rocha e o terrível e catimbeiro ponta Luis Cubilla, acompanhado do implacável Artime.
Grandes tempos.
Milton Ribeiro em janeiro 21, 2008 1:07 PM
#15
Tenho 42 anos e me lembro de ver jogar mazurkievicz. Ia com meu pai e, vez ou outra, também ia meu tio. São fragmentos da memória. Quando eu ia ao Mineirão. Tinha aquelas almofadinhas com o escudo do Galo onde a gente se sentava. Quanto ao Kafunga, tinha uma que eu adorava: Tava na mordomia!
jozahfa em janeiro 23, 2008 7:21 PM
Deixe seu comentário: