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quinta-feira, 31 de janeiro 2008
John Edwards abandona a corrida
Foi simbólica a despedida de John Edwards da campanha presidencial norte-americana. Ele viajou até aqui, New Orleans, onde havia começado a caminhada. Foi até o Lower Ninth Ward, bairro de Fats Domino, completamente devastado pela enchente que se seguiu ao furacão Katrina. Ali ele fez seu discurso (veja o vídeo). Além de emblemática musical e culinariamente, New Orleans é hoje o melhor retrato do fracasso do governo Bush, de seu descaso com os pobres, da falência do modelo entregue ao mercado que ele resolve. A cidade é também a mais eloqüente metonímia das dezenas de milhões de pobres que a América não consegue mais varrer para debaixo do tapete.
Edwards foi sua grande voz nestas eleições. Ele foi o único dos grandes candidatos a falar sistematicamente da pobreza e do colapso do sistema de saúde americano. Foi o único a enfatizar o simples fato de que o abismo entre os ricos e os pobres não diminui nos Estados Unidos, só aumenta. Não há como medir a importância que teve Edwards na campanha. Foi graças a ele que tanto Clinton como Obama se comprometeram com a proposta de um sistema genuinamente universal de assistência médica. Ele também foi o único dos grandes a encarar de frente a máquina de distorções da extrema-direita midiática americana. Em toda a base do Partido Democrata, pipocaram os agradecimentos ao longo do dia de ontem. Nas últimas cinco eleições presidenciais americanas que acompanhei diretamente, ele foi o único candidato que conseguiu empurrar o debate minimamente para a esquerda. Aqui em New Orleans, ele conquistou o respeito de todos ao mobilizar centenas de estudantes universitários e trazê-los à cidade no verão de 2006, para ajudar na reconstrução. A foto que ilustra o post (Fox News) é daquela época.
É óbvio que o apoio de Edwards a um dos candidatos pode ser decisivo. Imediatamente depois do anúncio da sua saída, tanto Clinton como Obama atualizaram seus websites com fotos de Edwards na página principal e agradecimentos a ele. Veículos de mídia que ignoraram e marginalizaram a mensagem de Edwards passaram a destacá-lo. Os funerais sempre foram ocasiões para elogios hipócritas.
São 6 da manhã na Costa Leste e a expectativa no campo de Obama é grande. Depois do discurso em New Orleans, Edwards falou com os dois candidatos restantes e arrancou deles a promessa de que o combate à pobreza seria central em suas campanhas e em seus eventuais mandatos. Edwards telefonou para Obama, mas a conversa com Clinton foi iniciativa desta última. Significará algo?
O movimento nas pesquisas é claro: Obama vem encurtando a distância que o separa de Clinton na maioria dos estados da Super Terça-Feira. Em Connecticut eles já estão empatados. A diferença na importantíssima Califórnia já diminuiu sensivelmente e agora há empate técnico, inimaginável há algumas semanas. Obama mantém a liderança na Geórgia. Em Massachussetts, a diferença de Clinton para Obama caiu de 37 para 6 pontos -- o endosso de Caroline e Ted Kennedy obviamente tem muito a ver com isso. O cálculo da Rassmussen Markets ainda é de que Clinton tem 62% de chances de ser a escolhida, enquanto Obama teria 38%. Mas o apoio de Edwards pode decidir a parada.
PS: O New York Times publica hoje uma longa matéria sobre a relação dos Clinton com mafiosos do Casaquistão.
PS 2: Também no campo republicano sobraram só dois: Mitt Romney, o ultramilionário ex-governador de Massachussetts e o senador do Arizona, John McCain, muito forte entre o eleitorado de centro mas não exatamente bem visto pela ala mais conservadora do partido. Depois da vitória na Flórida, McCain é o claro favorito. A mitologia do 11 de setembro não foi suficiente para fazer decolar a candidatura de Rudy Giuliani, que já saiu e apoiou McCain.
PS 3: Na terça-feira à noite e madrugada adentro, o Biscoito fará uma cobertura em tempo real dos resultados de 22 primárias democratas. Depois de voltar do baile de carnaval, se ligue aqui no blog, com um dedo na F5.
Escrito por Idelber às 08:08 | link para este post
| Comentários (27)
#1
Oi, Tulane,
nem sei como vim parar aqui, mas gostei muito do título do seu blog. Divertido.
Quanto às eleições americanas, escrevi sobre elas recentemente em meu blog.
Abs,
Tatiana.
TATIANA REZENDE em janeiro 31, 2008 9:19 AM
#2
Não sei. Considerando o histórico de votação de Edwards e seus gastos pessoais sempre achei que ele fosse insuportavelmente hipócrita e nunca entendi a paixão dos democratas pelo cara.
André Kenji em janeiro 31, 2008 9:46 AM
#3
É Idelber, mas não foi você que o chamou de populista alguns posts atrás?
rafael em janeiro 31, 2008 10:01 AM
#4
Rafael, populista aqui é elogio (quando a pessoa que escreve é de esquerda).
Foi um anglicismo, em outras palavras.
Idelber em janeiro 31, 2008 10:23 AM
#5
Aliás, "populista" e "liberal" são dois exemplos interessantíssimos de como as palavras adquirem sentidos completamente distintos em diferentes países.
André, deixa o Edwards com seu corte de cabelo de 200 dólares, pô!
Eu ganho uma ínfima fração do que ele ganha, mas só aceito tomar cerveja de qualidade. Cada um com a sua idiossincrasia.
Idelber em janeiro 31, 2008 10:25 AM
#6
Idelber,
Muito boas as suas análises sobre a eleição americana. Você tem dado atenção a detalhes sobre a postura dos candidatos e o processo eleitoral que têm passado batido por aqui.
Uma pergunta: agora que parece que já está decidido que o candidato republicano será o John McCain, não seria o caso de os democratas escolherem o candidato que for mais viável eleitoralmente para derrotá-lo? Entre Hillary e Obama, quem você acha que tem mais chances de bater o McCain?
PS: Sim, nos EUA eu torço para os democratas
Um abraço,
Marcos
Marcos Matamoros em janeiro 31, 2008 11:47 AM
#7
Parabéns pela cobertura !
César em janeiro 31, 2008 11:48 AM
André Kenji em janeiro 31, 2008 11:54 AM
#9
Caro Marcos, a elegibilidade seria o primeiro critério para a escolha do candidato democrata se o partido estivesse unificado. É aquela história: todo mundo quer que o partido vença, mas ninguém quer abrir mão.
Quanto a qual candidato é mais elegível: há pessoas que discordam de mim, mas no meu modo ver é o Obama, disparado. Os que acham que é a Hillary ainda não me apresentaram nenhum argumento convincente. A taxa de rejeição dela, a última vez que olhei, era 52%. Ela possui uma capacidade incrível de mobilizar a base republicana, que a odeia com todas as forças. O que mais se vê por aqui são ultra-conservadores que dizem "não voto em John McCain de jeito nenhum, a não ser que seja para derrotar Hillary". Para piorar, ela alienou uma parte da base (mais à esquerda) do próprio Partido Democrata. Por mais que o racismo possa cumprir algum papel no caso de uma candidatura Obama, os lugares onde isso aconteceria (Alabama, Mississippi, Louisiana) são estados onde os democratas nunca vencem, de qualquer forma.
Ainda por cima, Obama tem levado às urnas um eleitorado (o mais jovem) que só se mobilizou a partir da candidatura dele. Numa eleição Hillary x McCain a coisa ficaria muito feia para os Democratas.
César: gracias!
André: bota essa aí na pastinha "pendente". Eu vou voltar ao assunto.
Idelber em janeiro 31, 2008 12:08 PM
#10
Idelber
O artigo é longo, entendo. Mas minha crítica é que o John Edwards era um senador um tanto quanto conservador quando isso era conveniente, e assumiu o papel da reencarnação do Huey Long quando isso se mostrou pertinente à ele.
E se a questão é elegibilidade, bem, os democratas deveriam escolher um governador popular de um estado que não costuma votar sempre nos democratas. Tanto Obama quanto Hillary pecam nisso.
R com relação ao racismo contra Obama, bem, são pontos pertinentes, por mais triste que seja:
http://andrewsullivan.theatlantic.com/the_daily_dish/2008/01/obama-is-a-musl.html
André Kenji em janeiro 31, 2008 1:10 PM
#11
Idelber
Outro ponto que levantei é que McCain pode colocar alguém com credenciais conservadoras impecáveis como vice. Tom Coburn, por exemplo, que já declarou apoio a ele, seria uma opção para calar a boca dos republicanos...
André Kenji em janeiro 31, 2008 1:11 PM
#12
Escreve aí: se o candidato for Obama, McCain vai atrás de Colin Powell para a Vice-Presidência.
Você leu aqui no Biscoito primeiro :-)
Idelber em janeiro 31, 2008 1:13 PM
#13
Vamos acompanhar. Pelas análises ainda acho a Hilary favorita entre os Democratas. E o McCain já levou.
Roberson em janeiro 31, 2008 1:39 PM
#14
Idelber
Como a derrota de Michael Steele para o Senado em Maryland em 2006 demonstra, os negros não estão dispostos a votarem em republicanos, mesmo se estes forem bom candidatos carismáticos fazendo campanhas impecáveis contra oponentes fracos.
Se a McCain optar por agradar uma minoria pode escolher um vice hispânico para segurar a Flórida e Cuba, por mais que a opção mais óbvia(O senador Mel Martinez, nascido em Cuba) não possa concorrer.
André Kenji em janeiro 31, 2008 2:47 PM
#15
Flórida e Novo México, não Cuba. Dã...
André Kenji em janeiro 31, 2008 2:58 PM
#16
Idelber,
Gostaria de saber sua opinião: Quem você acha que o Edwards vai apoiar: Hillary ou Obama?
Quem você acha que tem mais chances de derrotar o candidato republicano se esse for o MacCain: Hillary ou Obama? Eu torço pelo Obama , mas estou um pouco receoso , pois me parece que existe uma "solução de continuidade" entre eleitores dele com o do John MacCain...
Um abraço,
Bruno
Bruno Pinheiro em janeiro 31, 2008 5:34 PM
#17
Idelber,
cansei de Obamas, Hillaries, McCains e Romneys. Vamos radicalizar:
Bartlett 4 América!
Somente Josiah Bartlett pode conduzir os Estados Unidos para longe do abismo. E tem mais: depois da experiência adquirida em dois mandatos durante 7 temporadas ele agora está ainda melhor - mais sábio, mais experiente, mais hábil.
Bartlett 4 America!!!!!!!!! - o resto mal pode beijar suas botas.
luiz afonso franz em janeiro 31, 2008 6:17 PM
#18
Agora falando sério - embora Josiah Bartlett também seja assunto sério: tenho a triste impressão de que nem Obama, nem Hillary derrotam McCain. Na hora do vamos ver, na solidão da cabine, o conservadorismo vai falar muito alto.
Obama e Hillary já estão se destruindo mutuamente, o vencedor entre os democratas chegará à verdadeira campanha maculado por toneladas de denúncias e acusações vindas de seu próprio partido, enquanto o McCain estará virginalmente limpo.
E os republicanos terão dinheiro e tempo para completar o trabalho de jogar lama.
McCain ganha. Triste. A não ser que um marqueteiro consiga convencer os EUA de que ele está velho demais.
luiz afonso franz em janeiro 31, 2008 6:25 PM
#19
Isso que o Luiz Afonso disse a respeito do conservadorismo falando mais alto na solidão da cabine (ou depois de tanta inflência midiática), infelizmente me parece que não muda, a não ser que os EUA deixe de ser a grande potência mundial. Mesmo assim Hillary não me parece uma boa escolha...
Gabriel Mendes em janeiro 31, 2008 6:55 PM
#20
Idelber,
sobre o teu PS3:
o que é um baile de carnaval?
luiz afonso franz em janeiro 31, 2008 9:02 PM
#21
Pois eu já começo a achar que o vice da Clinton será o Clinton... hehehe. É brincadeira, mas é sério. Até ontem, em todos os programas tratando da candidatura, lá estava ele. Para algum desavisado que lesse os cartazes da campanha que diziam apenas "Clinton for president" ou algo do gênero, sem citar o nome dela, ele era o próprio condidato. Sem contar que quem pega duro com o Obama (principalmente, mas com outros também) sempre é ele, para que ela não se queime. Ou seja, um típico "dois contra um", com a Hillary usando e abusando do charme, da "experiência", da proteção e da capacidade oratória do marido. Triste, triste, para quem levanta a bandeira do "já sou a própria mudança, por ser mulher". Era revoltante vê-lo tomando o microfone da mão dela, ou completamente dono do púlpito, enquanto ela permanecia parada ao seu lado, como fazia na campanha dele.
Hoje parace que a coisa melhorou um pouco, e o Clinton ainda não apareceu; nem mesmo chegou junto com ela para o debate. De acordo com o que ouvi, ele fez algumas declarações ontem à noite que não pegaram bem para ela. E parece que o povo acordou para a dobradinha, pois ela já está tendo que responder perguntas do tipo "será que, na Casa Branca, você conseguirá exercer um mandato sem a influência do seu marido?". Ela respondeu que sim, que basta um presidente de cada vez. Vamos ver até quando ele vai conseguir ficar calado.
Queria muito que o Obama tivesse coragem de tocar nesse assunto agora, pois o debate já está começando...
Ana em janeiro 31, 2008 9:03 PM
#22
Bruno, respondendo sua primeira pergunta (a segunda já está respondida lá em cima): o normal seria esperar que Edwards apoiasse Obama. Tudo na campanha se encaminhava para isso. Até por motivos de coincidências programáticas, seria o mais lógico.
Mas, como sabemos, na política, nem sempre as coincidências programáticas definem as coisas.
Resumindo: não sei.
Idelber em fevereiro 1, 2008 1:59 AM
#23
Possible running mates:
President/VP
Obama - Edwards
Clinton - Obama
McCain - Powell
Romney - ?
Mac Williams em fevereiro 1, 2008 1:16 PM
Marcelo Camanho em fevereiro 1, 2008 4:14 PM
#25
Excelente link, Marcelo, valeu. Só li um pouquinho, já deu para ver que é de qualidade.
Obrigadão :-)
Idelber em fevereiro 1, 2008 5:45 PM
#26
Bom dia! Sou americana que mora no Brasil por 35 anos e, Deus permitindo, quero morrer aqui pois amo este pais e seu povo! Lia no Jornal NH (RS) sobre sua analise da eleição americana, comparado com grêmio estudantil. Achei o máximo!! Queria mostra para meus filhos nos EUA, mas não acha no BLOG. Tambem, tenho uma pergunta: porque Dr. Ron Paul não foi incluido? Ele é o "dark horse" que vai ganhar meu voto e de muitos outros Americanos que querem salvar nossa República. Abç, Lottie
Lottie B. Haswell em fevereiro 3, 2008 6:38 AM
Idelber em fevereiro 3, 2008 4:08 PM