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quarta-feira, 16 de janeiro 2008
Kucinich e a democracia dos oligopólios televisivos
São duas as grandes histórias do debate democrata ocorrido ontem à noite em Nevada. Sobre uma delas – o tom de cordialidade entre os candidatos e a explícita recusa de todos a colocar raça ou gênero no meio da discussão – você poderá ler na grande mídia. A outra, a subterrânea, dificilmente será noticiada por algum grande jornal com qualquer destaque: o recurso judicial impetrado pela NBC Universal Inc. para excluir Dennis Kucinich do debate. Tiveram que ir até a Suprema Corte do estado de Nevada para reverter uma decisão anterior em favor do único candidato de esquerda do campo democrata. Conseguiram.
A NBC havia sido forçada a convidar Kucinich em virtude das regras estabelecidas por ela própria anteriormente, que rezavam que o patamar mínimo para a inclusão era o quarto lugar nas pesquisas. O cálculo era claro: Bill Richardson, o bonachão e inofensivo governador do Novo México, mantinha naquele momento um sólido quarto lugar. Mas Richardson anunciou oficialmente no dia 10 de janeiro que abandonava a corrida, depois de resultados fracos em Iowa e New Hampshire. 44 horas depois de convidar Kucinich, a NBC cancelou o convite, anunciando que os critérios haviam sido "mudados".
Entre blogs democratas e analistas políticos na web, o comentário mais freqüente foi de que a presença de Kucinich provocaria o pânico de que fossem feitas perguntas sobre as denúncias de fraude em New Hampshire – Kucinich é o único candidato a ter pedido recontagem dos votos em NH, mesmo dizendo explicitamente que ele não esperava, com isso, nenhuma mudança significativa no seu próprio total de votos. Além disso, claro, está o pavor de escutar um candidato que diz claramente que os Estados Unidos não têm o direito de invadir um país que jamais os atacou. Excluído mais uma vez de um debate, Kucinich recorreu à justiça e ganhou. O Juiz Charles Thompson, do Distrito do Condado de Clark, determinou que a MSNBC deveria incluí-lo no debate.
E não é que a corporação televisiva recorreu à Suprema Corte estadual e conseguiu reverter a decisão? O debate foi realizado sem Kucinich, que se juntou a populares que protestavam do lado de fora. Dá muito o que pensar, realmente, todo esse esforço para silenciar um candidato cuja base de apoio anda pelos 4 ou 5%. Kucinich já havia sido excluído do debate da ABC em Iowa com um argumento curioso: sua campanha no estado não tinha funcionários pagos (a paid staff) ou uma sede alugada, sendo operada por voluntários num endereço residencial. Tudo isso, lembremo-nos, depois que Kucinich havia vencido o debate entre 8 candidatos democratas em agosto, segundo pesquisa da própria ABC, como mostra o quadro abaixo:

É a democracia do dinheiro e dos oligopólios. O curioso é quando se denunciam estas coisas, sempre há alguém para afirmar que acreditamos em “teoria da conspiração.” Como se a política fosse outra coisa que o perene choque de conspirações opostas.
PS: Em Michigan, Hillary Clinton concorreu sem adversários (com a exceção de Kucinich). A tradição é que quando um candidato de projeção concorre sem opositores nas primárias de algum estado, costuma levar 90% dos votos. Em Michigan, quase metade dos eleitores democratas encarou a neve para votar em branco (uncommitted). Em alguns condados, o uncommitted venceu Hillary.
Atualização: a melhor análise das suspeitas de fraude em New Hampshire que vi até agora -- e ela é inconclusiva -- foi feita no Ars Technica.
Escrito por Idelber às 03:36 | link para este post
| Comentários (17)
#1
É impressionante o quanto são sofríveis e insatisfatórios vários aspectos do sistema político estadunidense, usualmente chamado de "democracia".
Isso não é fora do comum, eu sei, e nós também temos graves problemas. Mas ao menos não estamos desempenhando o patético papel geopolítico de tentar "espalhar a democracia" pelo mundo sem ter democracia em casa.
César em janeiro 16, 2008 8:20 AM
Guto em janeiro 16, 2008 8:45 AM
#3
A mídia patropi acompanha os oligopólios da imprensa americana. Não vi o nome de Kucinich em nenhum dos grandes jornais brasileiros (Folha, Estadão, Globo). Não há qualquer menção ao homem... fui saber da existência por aqui e nos sites americanos.
Roberson em janeiro 16, 2008 10:18 AM
#4
Sim, viva Dennis. Morra a Megalopolia.
Votarei nele aqui no mais
"democra'tico" dos estados na pre-eleiça~o este mes.
Da Flo'rida.
CAP
PS Certo, a imprensa brasileira "limitada". Amigo de SP escreveu que nunca ouvira falar de Kucinich...
cap em janeiro 16, 2008 12:01 PM
#5
Feliz Ano Novo, meu amigo. Pra você, a Ana, a família. Eu estava de férias no litoral da Bahia, offline, e cheguei encantada com a quantidade de textos excelentes por aqui (como sempre, né?). Aquele debate sobre o livro do Risério eu transformei praticamente num spam, de tanto que ando espalhando o link entre os amigos. Tomara que o Biscoito continue neste ritmo em 2008 inteiro, porque estou adorando! Beijo.
Ju Sampaio em janeiro 16, 2008 12:47 PM
#6
Feliz ano novo, Ju. Em março vou dar uma passada por aí, depois escrevo :-)
Anjo, meu velho, mas tem um monte de gente aqui nos EUA que se informa pela televisão e que não sabe quem é Kucinich tampouco.
Guto: sensacional! Realmente a Piauí não dá para deixar passar batido.
Na mosca, Roberson e Cesar: pode-se discordar de Kucinich, mas quando colocado num debate frente aos outros, ele em geral vence. O banho de autenticidade fica visível demais.
Idelber em janeiro 16, 2008 1:00 PM
Mac Williams em janeiro 16, 2008 1:49 PM
#8
Brilliant post, Mac. There's no need to apologize; feel free to post links to your blog here at any time. And welcome to my blogroll :-)
Idelber em janeiro 16, 2008 3:15 PM
#9
Idelber,
O Hermenauta aprontou mais uma...
Luiz em janeiro 16, 2008 3:30 PM
#10
hehehe, grande Hermê. Mas a minha foto é melhor :-)
A dele é mais verdadeira, mas a minha é melhor.
Idelber em janeiro 16, 2008 4:06 PM
S Leo em janeiro 16, 2008 5:01 PM
Idelber em janeiro 16, 2008 5:36 PM
#13
Boa noite, Professor Avelar:
Custo a crer que haja gente que nunca ouviu falar no Kucinich, que é o único democrata que votou contra a guerra desde sempre. Seu nome consta na TV a cabo e acho isso estranho.
O Michigan é um estado ferrado economicamente e educacionalmente. A Detroit Public Schools é um desastre. Ou seja, Michigan se enquadra nas palavras do discurso do MLK, "...when a negro in the south cannot vote and a negro in the northern ghettos has no reason to vote for." Negros no sul não podem votar e negros nos ghettos no norte não têm em quem votar.
Mais ou menos isso. Desde 1985 votava no Peace and Freedom Party. Votei no Jerry Brown em vez do Clinton. O partido republicano levou todas menos a era do Clinton-Gore. Quando era jovem era contra o voto útil pelo MDB e fiz campanha pelo voto nulo. Minha experiência enquanto cidadã me diz que o voto que vale é na Hillary. Dennis Kucinich e o voto Peace Freedom Pary wue levou o Reagan e o H Walker Bush ao poder. Acho que chega.
tina oiticica harris em janeiro 16, 2008 8:47 PM
#14
Pois é, Idelber. E isso porque eles se arvoram ser o país da democracia e da liberdade de imprensa. Depois a gente critica o poder dado às grandes redes de televisão e somos chamados de totalitários, comunistas ou coisas do tipo.
Bruno Ribeiro em janeiro 17, 2008 8:58 AM
#15
e defensores de teoria da conspiração :-)
Idelber em janeiro 17, 2008 11:43 AM
#16
Votaria no Dennis SIM.
Kucinich pelos animais, pelos homossexuais, pela transparência democrática... espero vê-lo na presidência dos EUA algum dia.
Silas Cordeiro Pascoal em janeiro 17, 2008 2:43 PM
#17
If you're an avid PS3 gamer, then you know the importance of saving your progress for future game play.
Pls, help me!
gutenmter em março 26, 2008 5:16 PM