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sexta-feira, 18 de janeiro 2008
Por que eu não recomendo a Wikipedia
Ontem fiz um post criticando velhos intelectuais não aceitam a internet. Hoje vou falar como um velho intelectual que não aceita a internet. É que devo ao meu amigo Sergio Leo um post sobre meus motivos para jamais – ou raríssimamente – linkar ou recomendar a Wikipedia.
Poucas coisas foram saudadas com tanto triunfalismo como a Wikipedia. É muito sedutora a idéia de uma comunidade aberta, produzindo conhecimento coletivamente, com a possibilidade de permanentes revisões. Cheguei a ver gente inteligente, que eu respeito, dizendo que na Wikipedia qualquer erro se corrigia em questão de minutos. O Pedro Dória colocou uma semente de ceticismo bem fundamentado nessa discussão há uns tempos. Confirmei que ele estava certo. A quantidade de erros é absurda. Nos temas polêmicos – o que significa toda a esfera das ciências humanas e sociais --, vence a versão de quem tem mais tempo, grita mais alto e faz mais lobby. Não vale a pena.
Exemplos? Tomemos um bem anódino: o Campeonato Mineiro de 1956. Segundo a Wikipedia, o campeonato de 1956 foi dividido entre Atlético Mineiro e Cruzeiro. O Atlético escalou um jogador irregular em uma das partidas finais e o Cruzeiro pleiteou os pontos. O caso se arrastou nos tribunais durante dois anos e, finalmente, foi dado ganho de causa ao Cruzeiro. Dada a impossibilidade de se marcar nova partida com os jogadores inscritos à época, a Federação Mineira de Futebol dividiu o título.
Neste verbete, tudo o que é relevante está ausente, tudo o que está presente está errado. Em primero lugar, num campeonato decidido no Tribunal, em geral queremos saber quem ganhou a peleja dentro de campo. O verbete não diz. Pois bem, o Atlético venceu o jogo e sagrou-se pentacampeão. A prova? Está aqui, os campeões com a taça:

Segundo, o Cruzeiro entrou, sim, na justiça, mas o Tribunal não lhe deu ganho de causa coisa nenhuma. Com a pendenga arrastando-se, a FMF decidiu dividir o título. Você pode, se quiser, ir a Belo Horizonte, ao bairro do Barro Preto, e consultar um cruzeirense das antigas: nenhum deles comemora esse título. Oficialmente, é dividido, sim, mas toda a informação presente no verbete está errada. Nota-se que quem o escreveu 1) era cruzeirense; 2) estava mal informado; 3) redigiu com pretensões de neutralidade. Eu desafio qualquer editor da Wikipedia a me dizer qual foi o jogador irregular que o Atlético escalou na final de 1956, e por que ele estava irregular.
Já sei, futebol não vale. Tomemos outro verbete: Ariano Suassuna. Ali se diz – já na segunda frase, ou seja, ainda no momento em que se está descrevendo quem é o cabra -- que Suassuna é um defensor militante da cultura brasileira. Sinceramente, eu não sei o que é isso. Entendo que alguém se apresente assim, acreditando que a cultura brasileira seja algo que se possa “defender”. Não entendo que uma enciclopédia use essa frase, como se ela tivesse um sentido, um referente claro.
Em casos onde há desacordos e discussões – como na política – a Wikipedia oscila entre duas possibilidades. A primeira é que o grupo mais forte e organizado imponha sua versão, como no caso dos verbetes sobre o Oriente Médio, que são pouco mais que panfletos em defesa de Israel. A segunda é que as várias versões se neutralizem e se produza um monstrengo, onde um trecho contradiz o seguinte. É o caso do verbete sobre a liberdade de expressão em Cuba, onde um parágrafo desdiz o que anterior afirmou.
Não digo que não existam bons textos por lá, especialmente na Wikipedia em inglês. Mas a quantidade de erros e inconsistências é grande demais para que sirva como referência. Não se trata de que eu esteja esperando profundidade de uma tese acadêmica num verbete de enciclopédia. Tampouco se trata de “discordar” do que está escrito. Discordar é outra coisa. Se vou à Torre ou à Corja, sei que não vou concordar com nada, mas a perspectiva deles me enriquece. São textos pessoais, assinados. O irritante na Wikipedia é a pretensão de neutralidade, quando está óbvio que alguém ali ganhou uma batalha entre visões parciais, para depois conquistar o direito de se apresentar como versão objetiva. Neste sentido, ela produz, sim, efeitos daninhos, de uma forma que blogs bobagem não produzem. Jamais gasto bytes aqui criticando blogs que não têm nada a dizer -- ora, eles não me fazem mal nenhum. A Wikipedia é outro caso, porque posa de referência objetiva. Cada vez mais gente cita a Wikipedia como se estivesse citando um estudo sério. Isso sim, há que se combater.
PS: Na “democracia” da Wikipedia, a chefia decidiu que todos os links que saiam de lá para sites externos terão o atributo “nofollow”, mesmo depois da comunidade ter votado contra isso. Argumentaram que era para controlar o spam. É uma das decisões mais cretinas da história da internet. As páginas da Wiki aparecem bem colocadas nas buscas do Google por causa da quantidade de gente que as linka. Recebem seu ranking da comunidade de usuários da internet e se recusam a circulá-lo, devolvê-lo, compartilhá-lo. Eu tô fora. Aliás, em 3 anos e meio de blogagem, nunca houve um assunto sobre o qual eu não achasse uma referência melhor que o verbete da Wiki. Como no caso do Ariano Suassuna, outro dia, em que linkei um textinho modesto, mas sem erros e sem simplificações grosseiras.
PS 2: Se quiser me ajudar e fazer a prova dos nove, dê uma passada por lá, escolha um verbete na sua área de conhecimento, e me diga o que achou.
Escrito por Idelber às 04:28 | link para este post
| Comentários (60)
#1
Minha posição está entre a sua e a do Sérgio Léo. Dependendo do assunto (Geografia, por exemplo), dá até para passar, desde que sem muitas exigências. Em outras áreas (como História), de fato, salve-se quem puder ...
Uma das coisas (além dos erros de conteúdo) que me deixa mais bravo é a tendência de pegar textos vindos do inglês, passar por um tradutor automático, ajeitar os erros mais graves e publicar. Sai cada coisa sem pé nem cabeça...
Ontem mesmo, fui tentar ler o verbete em português sobre o extremo oeste da China, o Turquestão Oriental. Era extremamente curto e incompleto, mera tradução dos dois primeiros parágrafos da versão em inglês. Mesmo assim, dali fui para o verbete falando de um povo de origem mongol que dominou a região. Piorou. O texto era bem pequeno e ainda mais confuso gramaticalmente que o anterior. Deu tanta pena que eu até corrigi alguns dos erros...
Em suma: para brincar ou pescar informações muito básicas (dependendo do assunto) até vai. E ainda assim, se possível, comparando com as versões em outras línguas.
Mais que isso, é risco.
Luiz em janeiro 18, 2008 5:59 AM
#2
Ah concordo com vc Idelber, sem falar que a wikipedia em portugues é apenas uma sombra do que é a wiki em ingles ou em frances.. Recomendo comparar textos sobre o mesmo tema nas tres linguas, principalmente sobre ciencias humanas. Exemplo disso: compare Complexo de Edipo nas tres versoes e veja a diferença..
Acho que a Wiki serve para referencias rapidas, uma data de nascimento, um nome de um filme, um boato que vc nao sabe se é verdade.. e depois vc vai se aprofundar em outros lugares. Nunca como referencia de pesquisa aprofundada e jamais como unica fonte.. Qqr pessoa pode modifica-la para bem e para mal - haja visto a avalanche de RP de empresas que passam por la para mudar as paginas dos seus clientes..
Abraço!
Celinho em janeiro 18, 2008 6:02 AM
#3
Idelber,
por acaso tem um artigo sobre a wiki hoje no libé:
http://www.ecrans.fr/Wikipedia-banning,2684.html
No fundo acho que o problema é a falta de senso crítico de quem consulta a wiki ou qq outra informação na rede.
Achei interessante o comentário de um leitor do libé dizendo que a galera começou a ter umas máquinas de calcular para lá de esotéricas o que obrigou o professor a propor questões de prova de forma que ficasse claro que o importante não era saber a fórmula mas compreender o mecanismo que a gerou. Nesse sentido, acho que nos cabe arregaçar as manguinhas e conquistar nossos espaços nesse imenso latifúndio digital.
Márcia W. em janeiro 18, 2008 6:39 AM
#4
Idelber: parabéns pelo site. Agora uma pergunta: o que fazia o Orlando Silva (cantor) nesta foto comemorativa?
José do Vale em janeiro 18, 2008 7:10 AM
#5
Grande Mestre Idelber!
Primeiro de tudo, feliz 2008 :-)
Sua crítica é bem tendenciosa, pois não é colocado qual a relação entre artigos ruins e bons na wikipedia... (segundo estudo esta relação é melhor do que da enciclopédia britânica!) tomar dois exemplos, na quantidade de verbetes que há por lá, não dá pra fazer nenhum juízo de vlaor...
Segundo, você parte do pressuposto implícito de que os artigos da academia são isentos e sem erros o que não é, nem de longe a verdade...
Pra tomar as ciências sociais, como você disse... um físico escreveu um artigo acadêmico cheio de verborragia técnica e o mesmo foi publicado numa revista acadêmica de renome (infelizmente não tenho aqui os apontadores para o episódio)...
Eu penso que a liberdade de edição que existe na wikipedia torna a correção ou ao menos a explicitação das disputas de hegemonia da verdade mias explícitas (e portanto benéficas|).
Agora uma outra coisa, bem distinta é a não recomendação de usar a wikiepdia (ou qualquer url na internet) para artigos acadêmicos... mas isso por que o princípio da reprodutividade da pesquisa pode ficar inviabilizado pelas mudanças no texto, ou da url ou etc...
Finalmente (nossa ficou grande este comentário, desculpe) é recomedável só referenciar artigos que você tenha lido e concordado com os dados... independente de preconceitos ewm relação a fonte...
Grande abraço
Sérgio F. Lima em janeiro 18, 2008 7:26 AM
#6
Meus dois centavos. Os editores da Wikipedia falham ao não esclarecer que o registro fiel de fatos deveria ser objetivo final. Aquilo não é blog mas acabou inserido no contexto dos mesmos pela sua popularidade entre eles. Essa estoria de "no follow" é uma tremenda sacanagem. Sacanagem alias que tem a companhia da maioria dos jornais e sites que se tornaram populares e famosos via blogs. Abs.
Fabio S. em janeiro 18, 2008 7:27 AM
Sérgio F. Lima em janeiro 18, 2008 7:31 AM
Sérgio F. Lima em janeiro 18, 2008 7:37 AM
#9
Sérgio, esse estudo da Nature foi alardeado bastante em blogs pq foi a confirmação final de um esforço da comunidade científica americana para cobrir a Wikipedia de informações corretas e/ou coerentes nas ciências biológicas. Isso ocorreu há uns 2 anos, mais ou menos. O verbete sobre o meu ex-campo de trabalho, por exemplo, está informativo e "digerível" (na medida do possível) ao público geral (http://en.wikipedia.org/wiki/Selenocysteine). É claro, faltam lá discussões aprofundadas sobre detalhes bioquímicos, moleculares e funcionais do aminoácido, mas não acho q isso caiba na Wikipedia nem em enciclopédias em geral; é coisa pra livro de biologia molecular.
Por outro lado, Idelber, eu já ouvi exatamente a mesma reclamação q vc coloca vinda de uma amiga minha professora da área de Humanas. Acho q nas humanidades, como há muita informação "interpretativa" (não consigo achar outra palavra melhor, mas espero q vc entenda o q quero dizer), esse problema seja mais fácil de ser encontrado.
Eu não uso a Wikipedia em português, acho muito pobre, mesmo quando fala sobre Brasil - pelo menos os verbetes que eu procuro estão sempre em poucas linhas e na versão em inglês melhor explicados.
Por outro lado, como o Luis comentou, para assuntos gerais, como geografia física acho bastante razoável e um bom resumo. Essa semana, por exemplo, eu publiquei um post no meu blog falando sobre a ilha de Chuuk, no Pacífico. A Wikipedia é de longe a fonte de informações agregada mais completa sobre a ilha na rede, e foi a referência que eu usei. Nem o site oficial do governo prestava direito para o q eu procurava - os demais sites sobre Chuuk eram de operadoras de mergulho comentando sobre locais de mergulho, apenas.
Acho q nem tanto ao mar, nem tanto à terra. A Wikipedia deve ser tratada com ceticismo? Com certeza, assim como 99.999% do q se lê pela rede. Mas tbm jogar tudo no saco do lixo acho uma atitude meio exagerada. Quando eu sinto no ar um cheiro meio "podre" do artigo, tendencioso (o sobre ateísmo é um belo exemplo disso), eu não a leio, passo a outra fonte. Para mim, a Wikipedia ainda funciona em alguns casos. O leitor, no caso, precisa aprender a exercer seu bom senso e não usá-la como base. A Wikipedia é o início da informação pro leigo naquela área de conhecimento - partindo do geral, o leitor deve caminhar para as minúcias em outras fontes.
Lucia Malla em janeiro 18, 2008 8:23 AM
#10
Temos que tomar muito cuidado com o que lemos (na net, nos jornais, etc), pois nada está isento de parcialidade...
Marília em janeiro 18, 2008 8:28 AM
#11
Bota rel="nofollow" nos seus links, Idelber! ;p
De qualquer forma. Concordo com você que a wikipedia não é material de citação, mas essa é uma das coisas que se pode fazer com ela. Agora, na Letras, tá badalado fazer trabalho semextral sobre hipertexto. E dá-lhe analisar e-mail e blog e wiki quanto à sociolingüística, oralidade, retórica etc.
Daí vem que uma das coisas discutidas com mais ou menos freqüência quando se cai no assunto wikipédia, pelo menos entre as turmas da noite (que são sempre mais cheias de movimento político e de panfleto) é como justamente essa parcialidade da wikipédia é frutífera.
Exemplo? Eu me lembro de, uns tempos atrás, fuçar o artigo sobre o Médici nas wikipédias em português, inglês e espanhol. A primeira falava da repressão, do Filinto Müller, dos horrores da tortura, e mencionava de passagem o milagre econômico. A segunda falava do milagre econômico e da eficiente repressão (num bom sentido) aos comunistas. A terceira descrevia o governo do cara com um tom de livro de "história da guerra", como se fosse tudo pecinha no tabuleiro, e comparava o Médici com uns ditatores latinos.
Fui ver se o exemplo ainda valia, hoje os três artigos estão mais pasteurizados. O em português é simplesmente hilário, com comentários do tipo "é dessa época o slogan: 'Brasil: ame-o ou deixe-o'", com um corolário em seguida: "(Ame-o significava concordar com o governo)". Ai, que delícia! Dá pra ver o menino que saiu da aula de história no terceiro colegial e entrou na wikipedia determinado a escrever essas duas linhas.
Acho que a graça está aí: em olhar pra wikipedia não como um texto acadêmico com citações e um mínimo aceitável de lógica (ou retórica). Está mais para uma grande materialização da vox populi. Nesse sentido, legal é ler a wikipedia em busca da parcialidade, e não tentando evitá-la a todo o custo. Aliás, se as páginas principais são engraçadas, as páginas de discussão dos artigos são ainda mais divertidas. Vale a pena checar.
Bruno em janeiro 18, 2008 9:25 AM
#12
Acho muita “forçação” de barra criticar a wikipédia usando exemplos como:
1 (uma) frase num texto sobre o Suassuna;
A final do ruralito de 56;
Falta de neutralidade em artigos sobre Cuba e o conflito no Oriente Médio.
Vale lembrar que a wikipédia (que têm apenas 7 anos) é a primeira tentativa de produção de conteúdo colaborativo, em tempo real, sem nenhum tipo de hierarquia. Naturalmente, este sistema ainda precisa evoluir muito.
guilherme em janeiro 18, 2008 9:41 AM
#13
putz, estou totalmente de acordo. nao confio nem um pouco na wikipedia, jah vi muitos erros. mas o golpe definitivo foi saber desse site aqui: http://wikiscanner.virgil.gr/
eh um americano que criou, nao sei qual eh a historia do site nem o nome do criador. soh sei o mais importante, ali onde pede o nome da instituiçao, escreva fbi, vaticano, cia ou coisa que o valha e voces encontrarao todos os artigos que estas organizaçoes modificaram. busquem um artigo em ingles sobre a inquisiçao e pode ter certeza que alguem do vaticano tirou as criticas mais ferozes.
wikipedia? to fora!!!
abraço
fabiana em janeiro 18, 2008 9:51 AM
#14
Pronto... acabei me divertindo fazendo isso. Estou fazendo uma pequena pesquisa sobre peregrinação e ainda não havia olhado para o verbete da Wikipédia. Além de ter alguns erros grosseiros, ainda ri, só para minha diversão própria, de um monte de pontos que entram em conflito com o meu textinho introdutório (http://incautosdoontem.blogspot.com/2008/01/proximidade-dos-infiis-aumenta.html). Adorei fazer isso.
Idelber, só me conte uma coisa: vc criticou tb a política de “nofollow” da Wikipédia. Vc não acha q valeria a pena ter respondido um pouco na mesma moeda e colocado “nofollow” para os seus links para a Wikipédia?
Ulisses Adirt em janeiro 18, 2008 10:37 AM
#15
Concordo com quem disse que não é o caso de jogar toda a wikipedia fora. Pode ser útil em algumas situações. Mas concordo também que tem que ser usada com grande cuidado.
Como referência para estudos científicos/acadêmicos acho que não dá nem a pau. E sempre falo isso para os meus alunos.
E o problema fica mais sério quando o assunto é mais "interpretativo", como disse a Lúcia Malla.
A wikipedia em português é uma tragédia. Consultei o verbete sobre o sociólogo francês Émile Durkheim. É medonho. Citam um tal "Mafuso" que não existe em outro lugar a não ser no verbete da wikipedia e nos sites que o copiaram (ou que foram copiados por quem escreveu o verbete).
Pra piorar a ruindade da wikipedia, temos ainda a cultura da cópia que vai se firmando. Todo professor hoje começa a corrigir um trabalho escolar googlando as frases suspeitas. Os "estudantes" copiam e colam as bombas da wikipedia sem ao menos ler e tirar os links.
Guto em janeiro 18, 2008 11:16 AM
#16
Já colaborei com a wikipedia, mas não perco mais meu tempo com ela. Passei muita raiva com revisores que achavam que eu estava vandalizando, pois eu apagava trechos incorretos e substituía por informações atualizadas (desconfio que a política oficial é de aceitem apenas o acréscimo de informação, mesmo que o resultado fique contraditório). A burocracia pra reverter a decisão dos revisores é tanta, e tão mal explicada em milhares de páginas, que o esforço não vale a pena (especialmente se for pra ler distorções do princípio da imparcialidade para encaixá-lo na opinião/preconceito do revisor). Quem ainda acredita que a wikipedia não tem hierarquia é muito inocente...
Hoje eu apenas acesso a wiki para obter informações rápidas e que não permitem muitas opiniões divergentes, como a localização de cidades. Para todo o resto, e eu aviso isso aos meus alunos, uma boa biblioteca faz milagres.
Cynthia Semíramis em janeiro 18, 2008 11:55 AM
#17
Gosto da Wiki.
O que não devemos esquecer sobre ela é que não faz parte de uma enciclopédia 'a la carte'.
Não é formada, mas sim criada pelos próprios usuários.
Para uma primeira pesquisa, sempre recorro à ela. É simples e me guia nos primeiros passos. Depois, para um pesquisa mais profunda, já não funciona.
Abraços
Larissa Lisboa em janeiro 18, 2008 2:48 PM
#18
Puxa, que comentários excelentes. Obrigado. Vou voltar com mais calma, mas só para responder as pendências.
José do Vale, sim, a foto é da comemoração do pentacampeonato de 1956 no Minas Tênis Clube, animada pela voz de Orlando Silva! Você tem o olho bom, hein?
Para o pessoal que me cobrou a retaliação colocando o "nofollow" no links. Não sei, não sei mesmo. É meio que uma questão ética para mim. Estou mandando os leitores para lá, puxa, que isso se reflita nos mecanismos de busca. Não sei, vou dar uma pensada...
Sim, Lu e Guto, a questão é que a geografia física está mais para as ciências naturais que para as humanas. Nas humanas, a informação é sempre passível de interpretação (a palavra está ótima, Lu) e aí é onde acontecem os problemas mais graves.
Mas o ponto chave mesmo é o que a Cynthia colocou: corrigir uma informação na Wikipedia muitas vezes pressupõe apagar coisas erradas e reescrever. Muitas vezes não dá simplesmente para acrescentar. Aí criam-se esses monstrengos que se contradizem a cada parágrafo.
Também li com atenção o pessoal que discorda:
guilherme, meu caro, eu usei quatro exemplos porque o post tinha que acabar. Eu poderia ter dado quarenta. Na Wikipedia em espanhol, por exemplo, o verbete sobre "literatura argentina" diz que "a tensão com a literatura francesa criou o criollismo" -- assim, de cara, na primeira fase. Não tem o menor sentido.
Sergio, caríssimo, ah, the Sokal affair! Sobre isso eu teria que escrever outro post. Foi uma tremenda jogada de marketing dos setores mais conservadores da academia americana. Eu acompanhei o caso bem de perto, cobre-me uma reflexão mais detalhada em breve. Mas acho, Sergio, que talvez seu entusiasmo com a Wiki possa ter algo a ver com o fato de você ser físico? Você conhece alguém das humanas que compartilhe seu entusiasmo com ela?
Sublinho: não estou criticando a Wiki porque os verbetes não tem " profundidade" suficiente. Eu entendo a diferença entre uma enciclopédia e um trabalho acadêmico. O problema é as pessoas já começarem com uma referência que traz tantos problemas. Eu volto com mais depois e que siga o papo.
Idelber em janeiro 18, 2008 3:21 PM
#19
Outra coisa importante que a Cynthia disse e que eu quero sublinhar: é muita ingenuidade acreditar na "democracia" da Wikipedia.... Muita mesmo.
Idelber em janeiro 18, 2008 3:25 PM
#20
Já fiz ajustes em artigos da Wikipedia, e sempre coloco uma pitada de sal em tudo que leio por lá.
Mas até que gosto de ler alguns artigos na Wikipedia, e volta e meia consulto alguma coisa por lá.
PS: Enquanto escrevia esse comentário, dei um pulinho na Wikipedia para dar uma olhada no artigo sobre o Campeonato Brasileiro e, advinhem... Fiz uma correção no texto. :)
Ricardo Antunes da Costa em janeiro 18, 2008 3:53 PM
#21
Já devem ter dito, mas acho que preciso repetir. Os verbetes em português da Wikipédia são lastimáveis - com raríssimas e honrosas exceções. São redigidos sem cuidado, no mais das vezes sem referências bibliográficas externas, num tom até leviano, com repetições e contradições sem fim. São mesmo muito poucas as exceções. Nem mesmo o verbete Língua Portuguesa foi construído com cuidado.
No entanto, o que se faz em outras línguas tem, sim, condições de servir como referência segura, Idelber. Especialmente a Wikipédia em inglês, em espanhol e em francês. Os verbetes são mais bem estruturados, mais "recheados" de referências externas e internas... Enfim, mais bem cuidados.
De toda forma, não desacredite o projeto inteiro por conta da má condução de sua seção lusófona. Seria cometer uma injustiça, Idelber.
Abraço.
Thiago em janeiro 18, 2008 4:00 PM
#22
1-) O script de buscas do Google favorece a Wikipedia. Então, mesmo que ninguém linkasse a Wikipedia ela estaria bem posicionada.
2-) Até o surgimento da Wikipedia era muito difícil encontrar dados sobre coisas obscuras, e a Wikipedia tem dados sobre coisas absurdas que eu não acharia em nenhum lugar. Por exemplo, Yearbook, mock trial, charter school e outras singularidades do sistema educacional americano.
Ela é uma fonte de dados abrangente, para gente que desconfia das informações que recebe. Uma das razões que tanta gente no Brasil deve criticar a Wikipedia é que a gente não está acostumado a checar ou rebater informações de nenhum lugar.
Este artigo traduz bem o que eu penso:
http://www.strike-the-root.com/62/nonentity/nonentity1.html
Veja esta análise econométrica sobre o SAEB que muita gente jura de pé junto que comprova que salários e número de alunos por sala são irrelevantes nos resultados escolares. Isso não é coisa que seria levada a sério em outros países.
http://www.eg.fjp.mg.gov.br/seminarioiv/download/menezes_filho.pdf
E sim, uma das principais vantagens que eu uso a Wikipedia é como fonte de links, e inclusive li a ótima biografia de Robert Moses pelo Robert Caro. Se alguém não é capaz de distinguir dados e ter desconfiômetro, bem, sempre existe a Barsa.
Se bem que acho que mesmo a Wikipedia em português, que é fraquissima, é mais confiável que a mídia escrita brasileira.
André Kenji em janeiro 18, 2008 4:05 PM
#23
"Sergio, que talvez seu entusiasmo com a Wiki possa ter algo a ver com o fato de você ser físico? Você conhece alguém das humanas que compartilhe seu entusiasmo com ela?"
Minha área é artes, e gosto bastante da Wikipedia. Mas nunca pesquiso sobre artes por lá. :-)
André Kenji em janeiro 18, 2008 4:07 PM
#24
Eu nem preciso tirar a prova dos nove, não confio em nada lá, acho interessante como fonte de informação de como as pessoas veem determinados assuntos, mas confiar...
aiaiai em janeiro 18, 2008 4:21 PM
#25
Sou colaborador da Wikipédia, mas isso não me faz discordar da sua posição. Ao contrário:
1 - Concordo que boa parte dos artigos mais dá um o-que-eu-sei-é, mero palpite, do que uma opinião ou informação bem embasada, o que esperaríamos da Wikipédia.
2 - As decisões "da comunidade" são algo sofrível. (Só consigo continuar contribuindo porque faço que aqueles debates não existem.)
Bem, mas por que contribuo? Por dois motivos.
Primeiro, tenho minha parcela de o-que-eu-sei-é para dar :), principalmente em verbetes que digam respeito à minha pesquisa. E não vejo problema nisso, desde que se veja a Wikipédia não como uma enciclopédia, mas como uma espécie de catálogo do verossímil. A vejo assim, e me divirto em notar quanta coisa que eu imaginaria inverossímil é verossímil segundo a Wikipédia! Você mostrou isso muito bem na postagem.
Segundo, porque acho que o inverossímil da Wikipédia lusófona é devido, em grande parte, ao fato dos intelectuais e acadêmicos lusófonos a desdenharem. Ou seja, prefiro contribuir pelas bordas por um verossímil menos inverossímil do que manter distância.
César em janeiro 18, 2008 4:45 PM
#26
Gostei muito de duas expressões que apareceram aqui para descrever a Wikipedia: "catálogo do verossímil" (César) e "materialização da vox populi"(Bruno).
Eu entendo e admiro a posição do César, de se engajar assim mesmo na tentativa de melhorar o que está lá. Admiro de verdade. Não quero cometer essa injustiça que você menciona, Thiago. Mas francamente, a minha experiência editando aquilo foi a pior possível. Acho que posso contribuir mais escrevendo aqui mesmo, com liberdade.
Ainda devo ao Sergio um comentário sobre o affaire Sokal (o professor de física que "enganou" uma revista acadêmica de humanas), mas tenho uma observação sobre o artigo da Nature: nas ciências duras, o que é um erro e o que é um acerto são matérias muito menos ambíguas. Nas humanas, é mais complicado: a frase que citei sobre o Suassuna, por exemplo, não está "errada". Não sei como se mediriam essas coisas.
E Ricardo, qual foi o erro que você corrigiu lá sobre o Brasileirão?
André, você é entusiasta da Wikipedia mas na sua área você não pesquisa lá?
Eu "resto meu caso", como diz o Hermê ;)
Idelber em janeiro 18, 2008 6:15 PM
#27
Do artigo sobre a língua portuguesa, linkado pelo Thiago:
De um ponto de vista político e, portanto, oficial, o galego é uma língua porque assim o determinam os organismos de Estado espanhol e da Região Autónoma da Galiza, com legitimidade democrática. De um ponto de vista científico, a ideia de que o galego é uma variedade dialectal da língua portuguesa reúne hoje um vasto consenso .
Só pode ser brincadeira.
Idelber em janeiro 18, 2008 6:27 PM
#28
Esse "consenso" a que se refere o artigo deve ser o mesmo tipo de "consenso" que estabelece que o que aconteceu em 1948 foi uma "guerra de independência" de Israel.
Evidentemente, se você for ao verbete sobre a língua galega na Wikipedia em galego, o "consenso" é exatamente o oposto.
Vida que segue.
Idelber em janeiro 18, 2008 6:35 PM
#29
olá, idelber!
a wikipédia acho que sempre vai ter vários erros...
mas enquanto tradutora pro inglês, eu consulto muitos dicionários e thesaurus online, e posso dizer que o wikicionário em inglês é excelente, e vem crescendo bastante. colaboro sempre com o wikicionário com o maior prazer de fazer parte dele!
o melhor dos dicionários online é não ter limites de tamanho nem de verbetes, e o wikicionário me parece ter mais potencial que os demais pra explorar essa vantagem, já que não pára de crescer e melhorar...
lu em janeiro 18, 2008 6:40 PM
#30
Idelber
É este o ponto. Mais da minha metade da minha biblioteca é sobre História da Arte, Estética e similares, logo, é para lá que eu vou se tenho alguma dúvida sobre o assunto.
Mas se eu tenho alguma dúvida sobre algum maquinário obscuro ou uma cidade obscura dos EUA ou México eu fuço na Wikipedia mesmo. Ela é uma base de dados generalista, em que certas áreas (Como Política e Transportes) se saem melhores que outras.
Mas a sua abrangência é inigualável.
André Kenji em janeiro 18, 2008 8:26 PM
#31
lu, taí: um wikidicionário já é algo no qual eu ponho um pouco mais de fé. Não é necessário chegar a um "consenso". As várias acepções dos termos podem coexistir lado a lado. Presta-se mais a uma labuta coletiva do que a tarefa de definir o que foi a Revolução Cubana, por exemplo. Valeu :-)
Idelber em janeiro 18, 2008 9:33 PM
Fernando em janeiro 18, 2008 10:28 PM
#33
Já li cada barbaridade, e não é só lá. Vi uma citação que coloca o nome de Drummond assim: "Carlos drumonti da andrade" quase tive um colapso.
Meus alunos usam e abusam do ctrl c + ctrl v.
Prefiro milhões de vezes um texto, uma opinião que contenha certas incoerências, porém que foram formuladas por expressão própria, sem recalques de terceirtos que na maioria das vezes não sabem o que falam. Prezo muito mais o que eles têm a falar e ratifico que é muito importante mesmo que achem absurdo...pois o diálogo formula aprendizado.
Internet é maravilhosa mas para quem sabe usufrui-la sem desfazer-se de seu cérebro.
beijãoooo
sou sua fã.
Drikaflor em janeiro 18, 2008 10:29 PM
#34
No post que motivou a polêmica, Sergio Leo não se diz um "crente incondicional da Wikipedia", e sim "um adorador incondicional" do projeto.
Fecho com esta posição: sou um fã incondicional do projeto da Wikipédia, pela possibilidade que ela representa de adotarmos uma nova postura perante as informações que consumimos.
O Biscoito Fino... teve, até o momento, 32 comentários no post citado. A maioria esmagadora limitou-se a criticar o projeto, apontar erros crassos encontrados em algum artigo e/ou exaltar as fontes confiáveis (normalmente, impressas).
O que espera-se num wiki é que, identificado um erro, o visitante ocupe-se de consertá-lo, e não criticá-lo. Ao meu ver, o uso de um site colaborativo está submetido a uma ética que nos fazem co-responsáveis pelo produto em construção. Somos responsáveis inclusive quando somos omissos.
A Wikipédia está dominada por uma burocracia stalinista que dá pouco espaço para um debate democrático? É frequentada por assessores de comunicação corporativa pagos para manter uma boa imagem da sua empresa ou causa? Sofre de um perigoso processo de "juniorização", comandada por sábios de 14, 15, 16 anos de idade? Sim, sim, sim.
Não recomendo aos meus alunos consultas à Wikipédia. Mostro a eles como o projeto funciona (surpresa! decepção! nunca mais acesso! vou vandalizar!) e em seguida coloco-os para atualizar artigos de seu interesse (poucos trabalhos os motivam tanto). Muitos continuam acessando e alguns passam a colaborar.
A meu ver, devemos armar todos os usuários com "paus e pedras" (isto é, mostrar como um wiki funciona e ensinar a operá-lo) e fazer da Wikipédia uma praça pública em constante guerra civil. Teremos mais sobreviventes do que vítimas.
P.S. Publiquei um post sobre o tema (Por que torço pela Wikipédia) com alguns links e argumentos adicionais.
Carlos d'Andréa em janeiro 19, 2008 7:51 AM
#35
Para mi, usaba wikipedia para buscar fuentes. El problem mayor que veo es que muchas de las fuentes son del internet; son pocas las citas de libros y de articulos.
La democracia no existe en wikipedia. Hay personas creidas que "toman control" de un articulo y siempre cambian las cosas que no les gustan. El articulo en ingles sobre Jorge Luis Borges es un trainwreck.
Les digo a mis estudiantes que entregar un ensayo con citas de wikipedia equivale no recibir puntos en la tarea porque quiero que vayan a la biblioteca (o por lo menos print.google.com) para buscar citas academicas. Cualquier podria publicar bobagem en wikipedia, y luego mis estudiantes acreditam que e the Gospel truth. En verdad, mas y mas, son unos vagos en cuanto a hacer indagaciones verdaderas.
Esto de poner "no follow" en los links es injusto. Lo que dijo Idelber es la verdad; ellos ganan todo su exposure de los links de otros y no reciprocan. Es injusto.
Mac Williams em janeiro 19, 2008 8:52 AM
#36
Ola a todos!
A postura do Carlos d'Andrea é exemplar... [Aliás, você poderia documentar este procedimento com os seus alunos, pois muito me interessou :-)] a opção de " tá cheio de erro não vou apontar nenhum artigo de lá" reflete um pouco a seguinte concepção:
- A Web (1.0) é ainda um espaço só de leitura... e o paradigma do Wikipedia (como bem lembrado pelo Carlos) é de uma web de leitura e escrita...
A diferença é que lá você pode melhorar a qualidade de modo mais efetivo do que numa eciclopédia ou numa revista acadêmica...
O ponto central que questino é partir do pressuposto que tudo lá é ruim e então não se aponta nenhum artigo de lá, quando me parece que o mais adequado é sempre apontar textos que lemos e julgamos correto, independente da fonte... pois o princípio do contraditório está sempre implícito!
Idelber vou ficar no aguardo do texto sobre o caso Sokal :-) Como você deve saber ocorreu um "episódio-vingança", se é que podemos chamar assim...
Alguém da área de ciências humanas escreveu um artigo de gravitação (se não me engano) e um grupo de físicos especialistas em gravitação não conseguiram distinguir entre vários artigos escritos por físicos e pelo cientista social,. qual fora escrito pelo cientista social...
Ou seja, esta idéia de que se é escrito por especialistas é melhor não resiste ao mundo real :-) Inteligência coletiva (não burrice coletiva) é ainda muito melhor!
Claro que distinguir entre as duas é uma competências que temos que desenvolver em todos que vivem na Era da Informação!
Sérgio F. Lima em janeiro 19, 2008 9:33 AM
#37
A Wikipedia em português, lamentavelmente, não chega sequer aos dedos dos pés da Wikipedia em inglês. Eu, que em outros tempos já reescrevi artigos inteiros (por exemplo, o do Guarani Futebol Clube, que era um mero esboço antes que eu inserisse a história do clube, dados estatísticos e curiosidades), não tenho mais paciência para me dar a esse trabalho após ver as inúmeras vandalizações e edições de caráter muito mais passionais do que informativos. No máximo, corrijo ou atualizo uma e outra informação, como o ano em que João Cabral recebeu o prêmio Neustadt, e olhe lá. Mas, como bem apontou o André Kenji, a Wikipedia é apenas um ponto de partida. Ainda há bons links de referência em boa parte dos verbetes, e o internauta sério que quiser se informar a fundo sobre determinado assunto encontra, em especial na Wikipedia em inglês, úteis pontos de partida para iniciar seus trabalhos de apuração séria dos dados que acha por lá.
Inagaki em janeiro 19, 2008 1:12 PM
#38
Caro Carlos, agradeço sua contribuição. Não quero ser irônico, mas sua sugestão:
devemos armar todos os usuários com "paus e pedras" (isto é, mostrar como um wiki funciona e ensinar a operá-lo) e fazer da Wikipédia uma praça pública em constante guerra civil. Teremos mais sobreviventes do que vítimas.
Seria perfeita para mim, caso eu não tivesse um emprego e pudesse me dedicar a editar a Wikipédia o dia inteiro. Vários comentaristas (o mais recente é o Inagaki, logo acima) deram testemunho de suas experiências frustrantes tentando editar artigos. Chega um momento em que a pessoa diz: ora, vou escrever meus próprios textos, é melhor.
Sergio, eu não parti do pressuposto que lá tudo é ruim. Para cada tema sobre o qual procuro um link para um post, sempre olho o da Wikipedia. O que eu disse foi que em nenhum caso, em 3 anos e meio de blogagem, eu deixei de encontrar uma fonte melhor.
Está prometido o post sobre Sokal :-)
Idelber em janeiro 19, 2008 3:36 PM
#39
Mais uma coisinha, Carlos: ninguém disse que o Sergio Leo é "crente incondicional" da Wikipedia. Ora, ora, tenho a inteligência do meu amigo em alta conta. Jamais diria isso dele :-)
Idelber em janeiro 19, 2008 3:39 PM
#40
Carlos e Sérgio apontam o fato da wikipédia ser um campo colaborativo justamente como ponto a favor de seus argumentos. Mas cara, não é justamente esse o problema que todos os outros apontam? A wikipédia é meio quimera, nesse sentido, tipo "meu nome é legião, pois somos muitos". Você olha pra um artigo, e ele não se filia a uma tradição, não se atém a um estilo de exposição (jornalístico, acadêmico, enciclopédico...). Eles se contradizem, são porcamente escritos, mas quanto a isso tudo bem, o problema é que não há uma personalidade associada a cada verbete da wikipédia.
Esclareço: não é à toa, na minha opinião, que a academia se estruture (para o bem e para o mal) sobre nomes, escolas, tradições e obras. Há uma necessidade de individuação das opiniões --- especialmente nas humanas, sim, mas em qualquer escola de pensamento --- no sentido de que não há possibilidade de diálogo com um texto que se encontra em franco embate contra si mesmo. A wikipédia não é autoridade, não desenvolve pesquisa, não tem rigor de nenhum tipo, não tem nome.
Não existe, na wikipédia, a possibilidade de um diálogo como o que nós temos aqui, nesse fórum de comentários do Idelber. O próprio fato de ser material da wikipédia virou ad-hoc, ela virou o café com leite do texto acadêmico: "ah, dá um desconto, é um artigo da wikipédia". Ora, se a wikipédia falha em produzir, falha em expor, falha em manter-se neutra, se ela se mostra mais chamativa à ação passional que à discussão de cabeça fria, que leva tempo e paciência, então de fato ela não é uma fonte confiável.
Aquele bom parágrafo, estruturado e expositivo, pode amanhã ser substituído por um péssimo, passional e dissertativo. Não há confiança, porque não há garantias da manutenção de qualquer coisa na wikipédia. É uma batalha perdida. Quando você joga um parágrafo lá, ele ganha visibilidade e autoridade que não teria, por exemplo, num blog meio underground que você possa ter; por outro lado, ele se torna morto. Vai servir de pesquisa colegial e corpus de estudo da ideologia, porque sem nome, sem credenciais, sem metodologia, sem face, sem nada, Legião parece mais um pobre-coitado confuso e contraditório que um texto de qualidade com o qual valha a pena se discutir.
Bruno em janeiro 19, 2008 3:44 PM
#41
não há possibilidade de diálogo com um texto que se encontra em franco embate contra si mesmo
Independente de estarmos de acordo, Bruno, seu comentário foi um dos mais brilhantes que já recebi aqui. Obrigado. É importante que fique clara essa diferença entre uma fonte de pesquisa e o reflexo da doxa de uma sociedade (mesmo que, com freqüência, como você aponta, essa doxa tenha uma legião de tensões internas, auto-contraditórias).
Idelber em janeiro 19, 2008 3:59 PM
#42
Eu acho que o fato de ser um campo colaborativo é irrelevante. Já o fato dela permitir um rápido acesso à informações demográficas ou rodoviárias ou uma definição rápida de qualquer outro assunto, bem, é aí que eu defendo.
;-)
André Kenji em janeiro 19, 2008 6:57 PM
#43
Idelber,
a expressão "crente incondicional" é do próprio Sergio, está no post dele!
Na maioria das vezes também prefiro escrever meus próprios textos, por apego à autoria ou pelos motivos que o Inagaki apresentou. Muitas vezes não vejo futuro na Wikipédia. Provavelmente ela continuará como está, administrada por poucos.
Mas isso não tira sua importância histórica (como é difícil usar esta palavra quando tratamos de web...). É um projeto exemplar, o grande case do novo paradigma (êta palavrinha!), não podemos simplesmente descartá-la. "Brigar" lá dentro é imprescindível para formarmo-nos para as práticas emergentes, para as instabilidades.
Sérgio, em breve te dou mais detalhes sobre os exercícios com os alunos, ok?
Carlos d'Andréa em janeiro 19, 2008 6:57 PM
#44
Caro Carlos, mais além da discordância, devo registrar que tenho profunda admiração pela sua energia e entusiasmo. É de se admirar, realmente, inclusive porque -- lembremos -- você não tem nenhuma garantia de que o parágrafo que você escreveu na Wiki vai amanhecer lá :-)
Idelber em janeiro 19, 2008 7:02 PM
#45
Olá! Concordo plenamente... a Wikipédia só serve como um tira-dúvidas rápido, no estilo "o que será que as pessoas em geral pensam sobre isso"? A confiabilidade é 0...
O artigo sobre Aborto, por exemplo, é claramente pró-escolha, com excessão da introdução. Há tempos está marcado para revisão, mas ninguém faz nada...
Gabriel em janeiro 20, 2008 2:24 AM
#46
Bruno e Idelber (e todos)!
Claro que há "diálogo" na wikipedia" clique no apontador (discussão) ou (discussion) onde há o tal diálogo (as vezes com foices e pedras) sobre pontos controversos e etc...
Obviamente que a idéia de um "mantenedor" de cada verbete (como existe um mantenedor de cada pacote/software no projeto Debian) é algo qe seria desejável...
Você não precisa largar o seu emprego para melhorar a wikipedia... eu sugiro assinar o rss de um único verbete e investir 1h por semana para "fazer uma manutenção" na qualidade do mesmo...
Como já foi dito a idéia da wikipedia é ótima mas o modo de funcionar precisa melhorar, daí a dizer que ela é ruim vai uma grande distância :-)
Sérgio F. Lima em janeiro 20, 2008 11:26 AM
#47
Oi Idelber,
Obrigada pelo blog! Virei leitora há pouco e já sou habitué.
Concordo em parte. O que acho que a Wikipédia criou de tabela foi o leitor desconfiado. Agora tu abre a Barsa e a Britânica e pensa, "Ué, mas isso é A verdade ou é UMA verdade?"
E... você podia ter corrigido a informação errada. Eu contribuo vez em quando com a Wikipédia, e se coloco uma mensagem na página de discussão do artigo explicando a modificação e me dou ao trabalho de botar a referência, a informação nova fica lá. Em 20 anos, com a política de referência, e o pessoal que manja ficando mais disposto a compartilhar seu conhecimento, imagina no que vai dar? E em 40 anos? A wiki em inglês já dá mostras do que essa obra pode significar. Quantos anos têm a Britânica? Uns 200? A Wikipédia, em menos de dez, tem milhões de artigos. Esse conceito é tão poderoso... Tem um país aí, acho que a Alemanha, que tem uma equipe *paga* de wikipedistas só para atualizar e corrigir as páginas sobre saúde e medicina da Wikipédia. Só pesquisadores e cinetistas profissionais. Porque eles acharam que valia mais a pena do que fazer um site deles, separado.
Beijos, Biscoito, keep up the good work!
Eloisa em janeiro 20, 2008 1:06 PM
#48
Ah, tem mais uma prática nova que eu curti, e que está rolando por aqui (Canadá), ouvi dizer. O professor chega pros alunos da faculdade ou universidade e diz, "Ó, vcs vão fazer um trabalho sobre (digamos) Lygia Clark. Assim:
1) Leiam o artigo da Wikipédia;
2) Façam a pesquisa em livros, obras de referência, jornais, entrevistas, críticas, diabo a 4;
3) Escrevam o seu ensaio;
4) Voltem na Wikipédia e enriqueçam/corrijam o artigo *com informação referenciada*."
A nota final vale pelo ensaio e pela contribuição na Wikipédia.
Cool.
Eloisa em janeiro 20, 2008 1:30 PM
#49
Eu achei a prática descrita pela Eloisa bem interessante. Dependendo do lugar em que eu der aula, é bem aplicavel.
Ulisses Adirt em janeiro 20, 2008 6:06 PM
#50
O que parece é que a idéia da Wikipedia em tese é mais interessante do que acontece na prática. Mas iniciativas como a contada pela Eloisa podem contribuir para melhorar a qualidade dos textos.
Pessoalmente, concordo com o que disse o Inagaki - alguns artigos, principalmente os em inglês, podem servir como ponto de partida para produções mais aprofundadas (na medida em que fornecem links para as fontes de informação). No mais, considero-me uma entusiasta dos textos em estilo 'cronologia em tempo real' (para quando há um grande acontecimento em desdobramento, e a comunidade da Wikipedia se esforça para manter o verbete atualizado com as últimas informações) -- no sentido de que isso poderia ser aplicado ao Jornalismo (poderia, pq as tentativas até agora de usar wikis em jornalismo não deram muito certo).
Gabriela em janeiro 20, 2008 7:03 PM
#51
Vendo o verbete sobre Cuba, tinha ainda esta pérola na parte sobre os recursos naturais e o petróleo...
"Se opina que dichas reservas de petróleo están conectadas con las de Venezuela, aunque no ha sido provado y dicha conección oficialmente no ha sido encontrada".
Como assim!? "Oficialmente no ha sido encontrada"? Que tipo de informação "confiável" é essa!?
Andre em janeiro 21, 2008 1:14 PM
#52
Cheguei atrasado...
Como tenho um blog anônimo que fala muito em história, sei dos perigos da Wiki. Mais de 10 vezes fui corrigido pelos leitores por... ter copiado da Wiki e ter confiado mais nela do que em minha memória. Quando busco dados a respeito de algum autor, a experiência demonstra que o correto é ir primeiro aos livros, depois aos blogs e só depois à Wiki e sites em geral.
É isso.
Milton Ribeiro em janeiro 21, 2008 1:15 PM
#53
Querido Idelber, quisera eu despertar tantos comentários interessantes quanto suas intervenções nessa blogaláxia. Agradeço ao Carlos por lembrar que meus comentários sobre a Wikipedia estão mais na linha do entusiasmo que tenho pelo projeto do que na cconfiança nas informações que dele saem.
E, em alguns pontos não nos opomos, pelo contrário: acho loucura basear uma opinião ou um texto num evrbete da Wikipedia; mas ainda acho a dita-cuja uma excelente fonte de referências para pesquisas na net. Quando falo em referência quero dizer exatamente isso: os verbetes se referenm aos temas, trazem informações interessantes, ainda que algumas possam estar equivocadas. Uma leitura em algumas das opiniões aqui do post mostram como é um projeto interessante, esse dos textos que contradizem a si mesmos, mutáveis, mexidos por milhares de mãos anônimas _ e outra nem tanto _ em que, quando algumas se cansam, outras tomam o lugar. Não dá para simplesmente descartar uma coisa assim. É sensacional.
O problemma que te preocupa me preocupa também, e a todos, inclusive ao carlos, como ele bem descreve: a preguiça mental cultivada no sistema escolar ameaça fazer da Wikipedia a principal e, não raramente, a única, fonte de referência e consulta de grande parte dos estudantes. Isso seria um desatre. Mas isso é um problema da educação, não da Wikipedia.
S Leo em janeiro 21, 2008 2:47 PM
#54
hehe, em resumo, meu cao, suspeito que concordamos mais que discordamos em relação à wikipedia (à exceção do essencial; eu quero vê-la em todas as casas; você a prefere na lata do lixo(((-;). Mas quanto ao caso Sokal, estou doido para ver o que vai escrever.
"Jogada de marketing", Idelber? Foi bem mais que isso, para mim pareceu uma joelhada na virilha do establishment nas Ciências Sociais. Tenho o livro, é chatíssimo em alguns pontos, e, em outros, simplesmente desonesto, ao tratar devaneios ensaísticos como se tivessem pretensão de axioma científico; mas é fatal no que se propôs: mostrar que certos intelectuais no ramo das Ciências Humanas usam terminologia científica de maneira descuidada, equivocada e mistificadora...
S Leo em janeiro 21, 2008 2:50 PM
#55
Me desculpe pela sucessão de comentários, mas esqueci de falar uma coisa: que diabos é nofollow???Me parece uma instrução para não dar acesso a links externos, mas há uma seção na Wikipedia para links externos! Procurei por nofollow na Wikipedia e não achei nada! Essa porqueira não serve para coisa que preste mesmo...
S Leo em janeiro 21, 2008 2:54 PM
#56
Sergio, meu caro, sim, sim -- acho que concordamos mais que discordamos. Só tomei você como mote mesmo (pretexto para dar um link, sem "nofollow").
"Nofollow" é o seguinte. Trata-se de uma tag que diz aos motores de busca: "não prestem atenção neste link no que diz respeito a rankings e colocação da página". Em outras palavras, "no follow" não designa a relação do leitor com o link -- o link continua apontando para onde tem que apontar, e o leitor, clicando nele, chega lá. Ele simplesmente avisa ao Google e aos outros motores de busca que o link não deve ser "rankeado".
Alô, turma sabida em tecnologia: é mais ou menos isso, né?
Idelber em janeiro 21, 2008 3:07 PM
#57
Sérgio,
não encontrei seu e-mail, tão usarei este espaço público para responder sua pergunta sobre o trabalho feito com os alunos.
O exercício com a Wikipédia é um dos vários que passo aos alunos do segundo período do curso de Comunicação. Folksonomia, agregador de rss, wikis, blogs e podcasts são temas e ferramentas trabalhadas simultaneamente no laboratório de informática e conceitualmente em sala. O choque de web2.0 acontece durante dois meses do semestre e tem sido muito proveitoso.
Este ano pretendo aprofundar especialmente nos wikis, até porque a Wikipédia é o objeto de estudo do doutorado que inicio em breve. Aproveitando, alguém aqui participa de wikis restritos a um grupo de interesse?
Em tempo: acho louvável o fato de artigos em diversas línguas terem versões diferentes ou mesmo conflitantes. Não seria uma amostra do que cada os nativos de cada língua pensam sobre assuntos polêmicos?
Carlos d'Andréa em janeiro 21, 2008 8:54 PM
#58
acho louvável o fato de artigos em diversas línguas terem versões diferentes ou mesmo conflitantes. Não seria uma amostra do que cada os nativos de cada língua pensam sobre assuntos polêmicos?
Sem dúvida. Contanto que os artigos não afirmem falsamente que seus pontos de vista distorcidos representam um "consenso científico", Carlos.
Não há definição lingüisticamente aceitável de "dialeto" sob a qual o galego seria um "dialeto" do português. A afirmação é, pura e simplesmente, falsa.
Idelber em janeiro 21, 2008 9:28 PM
#59
Acabo de chegar na leitura deste blog e estou muito impressionado pelo nível elevadíssimo do autor e dos leitores.
Sobre a Wikipedia, tenho algo pessoal, pouco científico, mas, espero, significativo.
Tenho 21 anos, então cresci à base de enciclopédias de papel, sempre as achei geniais. Contudo elas eram caras e só pude ter um arremedo de enciclopédia, que era o que minha mãe podia pagar.
Daí, eu entrei na universidade e comprei meu primeiro computador. Com o tempo consegui um acesso à banda larga. Mais um ínterim e, voilà, encontro a wikipedia.
À primeira vista, soou como o santo graal de tudo, empatada em primeiro lugar com o HowStuffWorks, embora este esteja definitivamente em um outro nível, é inegável que se mostra menos abrangente.
Pode parecer inócuo o meu comentário, mas peço apenas que reflitam sobre a possibilidade de ter acesso direto a alguma informação, qualquer coisa, por mínima que seja, que referencie algo sobre o qual voce não tem o menor conhecimento. O poder de destravar uma leitura pela revelação mínima de um termo obscuro. Cogito que se não fosse pela Wikipedia, muito desse conhecimento mínimo sobre várias coisas estaria ainda lá, intacto nas cabeças de seus anônimos autores.
Quanto à imparcialidade, correção, acurácia, etc. Bom, é evidente que o projeto tem falhas. Seja por seu tamanho imenso ou por sua tenra idade, não há como negar que uma leitura proveitosa de seus artigos requer, antes de tudo, bom senso.
Mas, encerrando este comentário desnecessariamente extenso, quero deixar minhas impressões sobre o site. É uma iniciativa muito positiva, a meu ver. Democratiza a informação, incute o gosto pela pesquisa, distrai com conhecimentos ditos "inúteis" sobre as mais variadas coisas e, muitas vezes, permite que eu possa, anonimamente, dizer a você que exatamente aquilo que voce está curioso para saber (e que eu aprendi a duras penas em dez parágrafos isolados de dez livros diferentes) está logo ali à sua disposição para consulta.
Luciano em fevereiro 19, 2008 3:42 AM
#60
Olá Idelber!
Sou estudante de jornalismo em Belo Horizonte. Estou fazendo um trabalho sobre jornalismo colaborativo e achei interessante suas considerações sobre o wikipedia. Será que vc poderia me dar uma mãozinha nesse trabalho?
Abraços,
Flora Libânio
Flora em maio 22, 2008 1:53 PM
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