« Eleições americanas: um ABC ::
Pag. Principal
:: Aniversários »
quarta-feira, 09 de janeiro 2008
Virada de Hillary
I will never underestimate Hillary Clinton again: a frase é de Chris Matthews, da MSNBC – uma espécie de Galvão Bueno do comentário político americano. Durante o dia de ontem, todos os sites e blogs ligados ao Partido Democrata, todos os principais canais de televisão e praticamente todos os institutos de pesquisa apontavam o mesmo cenário, uma vitória de Obama até por dois dígitos, com as primárias de New Hampshire funcionando como a coroação final. A última pesquisa da respeitada Zogby dava vitória de Obama por 13 pontos. Dentro da própria campanha de Hillary, ao longo do dia, falou-se, à boca pequena, de tentar evitar uma derrota humilhante. Líderes da campanha já confidenciavam a repórteres o desejo de pular fora. Nos comícios de Obama, havia gente saindo pelo ladrão. Parecia o Campeonato Brasileiro de 1977 ou as Copas do Mundo de 1954 ou 1982. A partida era uma formalidade. Faltou combinar com os russos, como diria Garrincha. Resultado final: Hillary 39%, Obama 37%.
Numa das surpresas mais impressionantes da memória recente, Hillary deu a volta por cima e embolou o jogo de novo. Mente quem disser que tem todas as explicações, mas aí vão alguns eventos que marcaram os últimos dias:
1.Numa entrevista transmitida nacionalmente anteontem, perguntaram a Hillary como ela agüentava o tranco. Já era o tipo de pergunta que se faz ao técnico que está perdendo o jogo por 3 x 0 no intervalo. Na resposta, ela esgasgou e chorou (veja o vídeo). A mídia deu um tremendo destaque à história. John Edwards cometeu o infantil erro de atacá-la pelo episódio, como se isso demonstrasse que ela não está “preparada”. O tiro saiu pela culatra.
2.Depois do episódio do choro, os jornais New York Post e Boston Globe publicaram manchetes bem sensacionalistas, com termos como “pânico”, “desabou”, “desespero”. Fizeram esdrúxulas comparações. O fato é que poucas figuras públicas na história da democracia americana já sofreram o abuso que Hillary sofreu nos últimos 15 anos – nas mãos da mídia e dos adversários. Nos últimos dois dias, a pancadaria chegou a níveis bem altos. A resposta veio nas urnas. Com certeza, algo de reativo houve no voto.
3.Durante o debate do último sábado, em vários momentos da polarização Barack Obama x Hillary Clinton, John Edwards se colocou ao lado daquele, apresentando-se a si próprio e a Obama como candidatos da mudança, contra Hillary, a candidata do “establishment”. A movida de Edwards era calculada: tirar Hillary da parada e reduzir a corrida a dois concorrentes, com esperança de que pudesse alcançar Obama na Carolina do Sul -- onde Edwards é bem forte. Mas o 2 contra 1 produziu a nítida impressão de um ataque coletivo a ela. Edwards foi o grande perdedor da noite: ficou nos 17%.
4.Algumas horas antes das primárias, Bill Clinton deu uma declaração – putíssimo, como poucas vezes já o vi – acusando a imprensa de entrar no oba-oba de Obama, de não questioná-lo, de aplicar um padrão duplo, de ser injusto com Hillary. Assistindo as principais redes de televisão americanas, é difícil não concordar com ele. Até mesmo eleitores que não estão apoiando Hillary se horrorizaram um pouco com os ataques e passaram a torcer por uma sobrevida da sua candidatura.
5.Quanto à demografia das primárias de New Hampshire, alguns elementos pesaram: 44% dos eleitores de NH estão registrados como independentes. É um número altíssimo. Isso significa que eles podem escolher se participam das primárias democratas ou republicanas. Obama é mais forte entre os independentes, Hillary entre os eleitores registrados como democratas. Com a expectativa de uma goleada de Obama, uma parcela alta dos independentes optou por participar da primária republicana. As mulheres compareceram em peso e totalizaram 56% do eleitorado.
Nada definido, pois. A brincadeira vai ficar muito interessante. Continua na semana que vem, em Nevada e Carolina do Sul. Termina na super terça-feira, dia 05, com umas duas dezenas de estados.
PS: Continua a conversa sobre a questão racial no post ali de baixo, acerca do livro de Risério.
PS 2: Inaugurado mais um belo projeto na Verbeat: Faça a sua parte, blog ecológico. Boa sorte e parabéns, pessoal.
PS 3: Outro golaço recente da Verbeat: ius communicatio, imperdível para quem se interessa por questões relacionadas ao direito.
Escrito por Idelber às 02:15 | link para este post
| Comentários (19)
#1
Não acompanho as eleições americanas, nem pretendo, mas pelos posts recentes aqui, ali e alhures, umas considerações:
1 - Não esqueçam a força orgânica da máquina partidária. Os Clinton sempre foram bons nisso.
2 - Se bem usado, Clinton vai ser o grande eleitor dessa eleição.
3 - A tese dos independentes indo pras primárias republicanas não faz sentido.
4 - E no fim das contas, se McCain levar os republicanos mesmo, a coisa vai ficar feia tanto para Obama quanto para Hillary.
Rafael em janeiro 9, 2008 9:11 AM
#2
Idelber, primeiramente, obrigado por suas respostas às minhas primeiras perguntas. Mas a cada vez que leio sobre o assunto, me vêm novas questões. 1 - Se Hillary é a candidata do “establishment”, por que é tanto atacada pela mídia? 2 - Você acha que em algum momento da campanha Edwards renunciaria em favor de Obama? Isso o ajudaria ou atrapalharia? 3 - McCain seria o candidato mais moderado dentre os republicanos? Dentre eles, seria o melhor nome, na sua opinião, ou o menos ruim no caso de uma vitória republicana?
SIdarta em janeiro 9, 2008 9:51 AM
#3
Bom dia :-)
Sidarta, já volto com as respostas depois do café.
Rafa, 1, 2 e 4: OK. Por que a tese dos independentes indo pras primárias republicanas não faz sentido?
Idelber em janeiro 9, 2008 10:50 AM
#4
Sidarda, respostas rápidas:
1. Os ataques da mídia à Hillary são uma combinação de horror da direita aos Clinton, sexismo e outros fatores. Isso não quer dizer que ela não seja a candidata do establishment democrata, ou que não seja bem palatável para os lobbies corporativos, incluindo-se aí o da indústria da "saúde", que num determinado momento a odiava como o demônio incarnado.
2. Provavelmente não, já que Edwards tem base razoável na Carolina do Sul, que é um dos próximos estados. Mas há a possibilidade de que ele tente emplacar o lugar de vice.
3. Sim, McCain em certas esferas é o republicano mais moderado. Mas para mim, apoiar qualquer democrata já é tapar o nariz o suficiente. No momento não estou nem considerando a hipótese dos republicanos. Posso quebrar a cara, claro -- o que, aliás, já é uma tradição :-)
Idelber em janeiro 9, 2008 11:56 AM
#5
Idelber,
Para contextualizar a coisa, vale lembrar que Hillary foi sempre muito atacada por ser superficial, treinadinha demais. O choro antes de NH serviu para quebrar um pouco essa imagem, exatamente a maior barreira que ela enfrenta junto aos eleitores. Quando ela mostra que o negocio ficou feio e que ela e´"gente como a gente", ela chega perto do eleitor e ganha muito com isso.
Quanto ao Edwards, acho que nao da´ mais para ele porque ficou para tras em NH apesar de ter sido segundo em Iowa por uma diferenca bem pequena de Hillary. Acredito que va´ ficar mesmo entre Obama e Hillary. Achei interessante uma materia do NYT outro dia sugerindo que a cada 4 anos os democratas tentam um novo JFK - Obama talvez se encaixe ai´, como o jovem, o novo, fresco e diferente. Mas quanto 'a candidatura de vice - vc acha mesmo que da´ para Edwards? Fiquei pensando em uma dobradinha Hillary/Obama, mas acho improvavel que qualquer um desses dois aceite ser vice. O que acha?
O negocio vai pegar fogo nas proximas semanas, ate´ 5 de Fevereiro. Eu adoro seguir tudo, mas espero que os democratas nao apenas se engalfinhem, mas apostem em ganhar de fato em Novembro. Meu receio e´sempre esse: comecar com o favoritismo democrata agora e nao levar em Novembro... de novo.
Grande abraco e feliz ano novo,
Leticia.
Leticia Marteleto. em janeiro 9, 2008 3:11 PM
#6
Ainda voto Hillary -- vai virar torcida de corrida de cavalos. Vou ver se acho um balcão de apostas.
Faço o seguinte comentário: George Bush traiu uma série de republicanos pró-mercado, com uma gestão fiscal toda esculhambada. Só por conta disso, vai ser difícil para um republicano ganhar, em qualquer caso.
O Bill Clinton teve um governo impecável do ponto de vista econômico. Se a Hillary ganhar a nominação, ela leva fácil a eleição.
Entre ela e o Obama, ela parece ser mais preparada, o que é uma vantagem a longo prazo. O comentário mais comum sobre o Obama é que ele é firme, mas superficial. Sei lá. Assisti uma palestra do John Mack, presidente do Morgan Stanley, na qual ele (republicano) contava como estava impressionado com a articulação da Hillary sobre qualquer assunto -- e por conta disso, ele tinha mudado seu voto. Tenho a impressão que ela anda seduzindo os figurões americanos. Entre essas e outras, tenho a impressão que quanto mais debates, mais a Hillary leva.
Rafael M em janeiro 9, 2008 3:54 PM
#7
Aliás, os Iowa Electronic Markets viraram a favor da Hillary ontem -- sem as notícias de New Hampshire. Veremos amanhã.
Rafael M em janeiro 9, 2008 3:55 PM
#8
As prévias das eleições norte-americanas andam mais instáveis que final de Copa do Mundo. Tudo pode acontecer.
E obrigada pela menção :)
Gabriela em janeiro 9, 2008 5:08 PM
#9
Rafael, da preparação da Hillary não há a menor dúvida. Procure por aí a entrevista que ela deu sobre o Paquistão (não tenho o link à mão, ou o deixaria aqui). É um show. Meus problemas com ela são políticos mesmo. Mas da preparação não resta dúvida.
Leticia, que bom revê-la. Olha, pouca gente acredita em dobradinha Hillary/Obama. Os ataques foram pesados demais. Não parece haver muito espaço para isso, segundo os analistas. Mas ontem à noite viu-se com quantos pés atrás se deve tomar as previsões dos analistas, né? Beijão.
Idelber em janeiro 9, 2008 5:11 PM
#10
oi, idelber! como uma querida amiga comentava comigo hoje mesmo, desconcerta e causa desconforto essa polarização simbólica entre dois tipos distintos, embora idênticos, de minorias. mas, nossa..., desde já soa empolgante esse xadrez delicadíssimo que iremos testemunhar, entre os abusos que uma mulher rotineiramente conhece e os abusos que um negro rotineiramente conhece...
que tempo doido (pro "bem") estamos vivendo, não?!
pedro alexandre sanches em janeiro 9, 2008 5:22 PM
#11
Esse é o tipo de coisa que faz com que até os democratas que não apóiam Hillary se sintam tentados a torcer por ela. Essa lama na imprensa contra ela é todo santo dia.
Salve pedro, Gabriela :-)
Idelber em janeiro 9, 2008 5:59 PM
#12
Agora vou ficar esperando um post explicando essa bagunça que são as eleições estadunidences, prévias de eleições? Democratas e Republicanos? É tudo tão confuso...
Henrique Cintra em janeiro 10, 2008 12:45 AM
#13
Que chorinho mais fingido da Hillary, tem bbb que finge melhor e todo mundo acreditou.....
Luigi em janeiro 10, 2008 1:03 PM
#14
O primeiro gol válido do Galo foi do centro-avante-e-rígido Pinto, em 1908, contra a Sra. Galinha, é óbvio. Foi aí que nasceu o Frango, uma curiosidade à parte.
Para q fique bem claro não estão computados os gols anteriores à estas datas que não terminaram em ovos fecundados, nem os que furaram a rede de latéx.
abç
gugala em janeiro 10, 2008 5:41 PM
#15
Idelber, vi agora que Jonh Kerry declarou apoio a Obama. Quanto valeria o apoio de Al Gore a uma das candidaturas democratas? Será que o ganhador do Nobel da Paz se manifestará? Qual o seu palpite?
Sidarta em janeiro 10, 2008 11:02 PM
#16
Estou ainda embriagada de alegria com a vitória da Hillary; não porque seja mulher, mas por toda a lama jogada na era 1992-2000 Clinton-Gore. Clinton_Gore apoiaram o desenvolvimento de tecnologia nas escolas, apoio às leis de Título VII e Título I, que propiciaram dinheiro para projetos de ensino bilingue e ensino a pais de alunos de baixa renda, entre outros programas. Fui coordenadora de Título I e me orgulho da gestão Clinton Gore. A mídia faz de conta que este governo é igual ao do Bush. Havia responsabilidade fiscal e progresso. A irresponsabilidade foi da outra cabeça do Clinton e na França isso não seria nada demais.
Quanto ao Obama, de sunguinha é espetacular. Mas se eu quisesse um pastiche de Kennedy/MLK/missionário eu iria à igreja. Ele fala muito bem para um púlpito-- até o sotaque muda quando cita MLK-- mas eu quero um presidente e não um sacerdote.
Você definiu bem a Hillary. Fico feliz pr ela e que chore mais e se expressse mas abertamente. O ponto alto do meu dia de hoje foi votar nela no meu voto pelo correio. Desculpe-me a ausência prolongada no seu blog. Não ando bem de saúde e vou ter que fazer cirurgia de hidrocefalia. A Hillary sabe que mesmo com seguro(dois) ainda não tenho data ou diagnóstico firme.
Você sempre foi muito honesto comigo, estou contente que a Gabriela Zago tenha sido descoberta, ela é bem mais antenada que eu. Espero ver meu duplo sintagma com marca regstrada e o meu Glorioso campeão. Ganhei um livro fantástico do Sérgio Augusto. Boa sorte ao seu glorioso.
Beijos, Professor Avelar,
tina oticica em janeiro 11, 2008 3:49 AM
#17
Idelber, obrigada por lembrar do Faça e da nova casa dele. É um projeto muito querido para mim, e fico feliz q vc o tenha destacado aqui. Obrigada de coração. :)
Lucia Malla em janeiro 11, 2008 8:10 AM
#18
Esse Chris Matthews parece o Galvão Bueno em quê? É muito chato?
João Câmara Cascudo em janeiro 14, 2008 3:44 PM
#19
De nada, Lu. Mais que merecido :-)
João: é chato, arrogante e muito, mas muito machista mesmo. É de dar vergonha alheia.
Sidarta: taí uma pergunta sobre a qual eu não tenho nem palpite. Se brincar, nem ele tem :-)
Idelber em janeiro 14, 2008 11:58 PM
Deixe seu comentário: