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Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



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sexta-feira, 29 de fevereiro 2008

Israel continua seus massacres em Gaza

A sanha assassina do estado de Israel não tem fim. 33 palestinos assassinados em dois dias. 10 deles bebês e crianças. Casas bombardeadas indiscriminadamente em Gaza. Assista se tiver estômago.




  Escrito por Idelber às 18:49 | link para este post




Convites e jabás

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Convite aos paulistas: Se você é paulistano e se interessa por música popular – especialmente por Chico Science e o Mangue Beat – há um programa imperdível neste sábado. É o lançamento de Hibridismos musicais de Chico Science e Nação Zumbi, do meu amigo Herom Vargas. Acontece na Livraria da Vila -- Lorena (Al. Lorena, 1731) a partir das 19 horas. Já terminei de ler e recomendo o livro com toda ênfase. É uma versão da tese de doutorado do Herom, defendida na PUC-SP. Apesar de sua origem, o livro não tem qualquer ranço que atrapalhe o desfrute do leitor não-acadêmico. É um passeio elegante pela noção de hibridismo musical, com histórias saborosas sobre as origens da cena contemporânea de música popular do Recife, que este blog considera a mais rica do Brasil. Daí, Herom passa a oferecer análises originais das canções de Chico Science e Nação Zumbi e de sua inserção na história da música brasileira contemporânea. O início do livro nos traz de volta àquela comovente cena, de Ariano Suassuna – inimigo número 1 do mangue beat – chorando, inconsolável, no enterro de Chico. Livraço. Não perca. Se for ao lançamento, procure o Herom por lá e diga que chegou via Biscoito.

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Convite aos mineiros
: Minha amiga Maria Esther Maciel lança seu novo romance, O Livro dos Nomes, pela Companhia das Letras, em Belo Horizonte. O lançamento acontece no dia 04 de março, terça-feira que vem, a partir das 18 horas, na Biblioteca Pública Luiz de Bessa (ali na Praça da Liberdade). Se você acha que eu sou produtivo, é porque não conhece Esther – sem dúvida, uma das principais ensaístas brasileiras contemporâneas, além de reconhecida poeta e romancista. O Biscoito já resenhou um romance anterior de Esther, O Livro de Zenóbia. Este, eu não li ainda mas, sendo de Esther, é coisa fina. Se você está na Alterosas, compareça. Dá tempo de tomar um vinho com ela e voltar para o computador para acompanhar a cobertura das primárias americanas aqui no Biscoito.

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pui-kiss.jpg

Agora, o auto-jabá: Saíram alguns livros com artigos meus. Deixo o anúncio para quem se interessar. O MLA (Modern Language Association) tem uma série muito útil para professores de literatura, não só universitários, mas de nível secundário também. É o “Approaches to Teaching....”, que reúne artigos destinados a auxiliar o trabalho docente com obras já consagradas. Saiu o Approaches to Teaching the Kiss of the Spider Woman. Se você mora nos EUA (ou não mora, mas lê inglês) e se interessa pela obra prima de Puig, dê uma conferida nesse volume. O meu artigo traz algumas dicas para o trabalho pedagógico com o romance de Puig e o filme de Babenco.

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Saiu o The Ethics of Latin American Criticism: Reading Otherwise, com artigo meu sobre blogs e cidadania, que traz citações a vários blogueiros brasileiros. Não, não posso postar o texto aqui, infelizmente. Tudo o que escrevo para o blog é Creative Commons: copie à vontade, citando a fonte. O que entrego a uma editora ainda está sujeito àquela ultrapassada lei do mundo gutemberguiano, o copyright (não é, meu caro Sergio?).

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boca-de-lobo.jpg

Recebi o Boca de lobo, de Sergio Chejfec, lançado no Brasil em tradução de Marcelo Barbão, já conhecido dos leitores deste blog por ter traduzido Duas vezes junho, de Martín Kohan. A versão em português do Boca de lobo, como já de costume para Barbão, é impecável. O prólogo do livro é deste atleticano blogueiro.

PS: A querida Marina W pede para avisar que está de endereço novo. Vai .



  Escrito por Idelber às 05:01 | link para este post | Comentários (12)



quinta-feira, 28 de fevereiro 2008

As primárias democratas no Texas

No próximo dia 04, terça-feira, o Partido Democrata realiza primárias em Vermont, Rhode Island, Ohio e Texas. A sorte da candidatura de Hillary Clinton se joga nestes dois últimos, grandes e ricos em delegados. O próprio Bill Clinton declarou em comício na semana passada que, sem vencer em Ohio e no Texas, Hillary não emplaca a indicação. Os números das quatro últimas pesquisas realizadas no Texas são: Rassmussen, Clinton 46 x 45 Obama; Survey USA, Obama 49 x 45 Clinton; Public Strategies, Clinton 46 x 43 Obama; Insider Advantage, Obama 47 x 46 Clinton. Apesar dos números apertados, o Biscoito está pronto para fazer uma previsão: Obama deverá conquistar a maioria dos delegados do Texas. O primeiro motivo é a curva:

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As regras para as primárias do Texas fazem Wittgenstein parecer história em quadrinhos. Vou explicar a parte que entendo. Tem café aí? Está sentado? Vamos lá. 193 delegados estarão em jogo no Texas na terça-feira. Trata-se de um sistema híbrido, de primárias e assembléias (caucus). 126 delegados são alocados pela votação em urna, durante o dia. Os outros 67 serão disputados à noite, no sistema de assembléias. O mesmo eleitor pode votar durante o dia e ir depois às assembléias. Aqui começa a vantagem de Obama. No sistema de assembléias, onde vale a mobilização da base, a diferença em favor de Obama é enorme e não se reflete necessariamente nas pesquisas. Podem esperar uma vantagem dele no universo desses 67 delegados disputados à noite nas assembléias. As primárias do Texas permitem o voto antecipado. Até segunda-feira, já haviam votado 419.404 eleitores. São simplesmente 347.216 mais do que havia sido o caso até este momento em 2004. As primárias do Texas são abertas, ou seja, você não precisa ser um democrata registrado para votar. É outra vantagem para Obama, que goleia com folga entre os eleitores independentes. Os delegados são distribuídos pelos distritos do Senado Estadual:

TXPrimary2.jpg

Desses 31 distritos, os 4 maiores em termos de números de delegados são:

Distrito 14, Austin (8 delegados): linda, boêmia, musical, Austin é a casa da Universidade do Texas, uma das principais universidades públicas do país. É o único lugar do Texas em que eu aceitaria morar. Com enorme população universitária, deverá votar em peso em Obama. A campanha de Hillary despachou Bill Clinton para lá hoje, tentando estancar o sangue. Bill é muito querido na cidade. Os garotos escutaram e deram risadas com o Big Dog. Na terça, votarão em Obama.

Distrito 13, Houston (7 delegados): em Houston se localiza uma das maiores concentrações afro-americanas do estado. Todas as fontes de lá confirmam diferença grande em favor de Obama.

Distrito 23, Dallas (6 delegados): entre os 280.000 negros da cidade Obama leva grande vantagem. Ao contrário do que aconteceu na Califórnia, onde Clinton goleou entre os latinos, os 270.000 votos hispânicos de Dallas devem ser disputados pau a pau. Aliás, entenda-se: a população latina do Texas tem pouco a ver com a da Califórnia. 50% dos latinos da Califórnia são imigrantes. No Texas, este número é 18%. Junto com Nova York e Flórida, a Califórnia tem população latina em sua maioria hispano-falante. No Texas, Arizona, Colorado e Novo México, domina, entre os latinos, a língua inglesa.

Distrito 25, San Antonio (6 delegados): este distrito contém algumas áreas rurais além da urbe, San Antonio. Vantagem de Obama na cidade, vantagem de Clinton nas áreas rurais.

De onde saem, então, os votos de Hillary no Texas? Do sul, na fronteira com o México, e do leste do estado. Nessas regiões, Clinton vem goleando por margem considerável nas pesquisas. O problema para ela é que são distritos pequenos, cuja representatividade é prejudicada pelo sistema de alocação de delegados: vários desses distritos – 16, para ser exato -- têm direito a 4 delegados. Para abocanhar 3 dos 4 delegados, um candidato tem que ter 62.5% dos votos. Se vencer por 60 x 40 num distrito de 4 delegados, a alocação fica 2 x 2. Coisas da democracia texana.

O Texas, assim como a Flórida, tem longa história de falcatruas eleitorais. A mais conhecida delas foi o inacreditável processo pelo qual se redesenharam as zonas eleitorais em 2003, com o objetivo de criar distritos que, às vezes, vão se retorcendo como cobras no mapa -- é o chamado gerrymandering, que enclausurou os eleitores negros em bantustões com cada vez menos representatividade. Na eleição de 2006, centenas de eleitores negros denunciaram terem sido impedidos de votar. Desta vez, pelo menos a garotada não quis ter surpresas. Mais de 2.000 alunos da Prairie View A & M, histórica universidade negra, andaram a pé 7,3 milhas até Hampstead para votar no último dia 19. Digam se não é bonito:


march-to-vote.jpg
(fonte da foto)

O que mais complica as coisas para Hillary é a campanha incrivelmente desastrada que ela vem fazendo. Em primeiro lugar, há os efeitos negativos do constante discurso “tudo- é- muito- difícil- inspiração- e- esperança- não- resolvem”. Esses garotos que marcharam 7 milhas para votar não querem escutar de um candidato que eles estão se iludindo e que a esperança não resolve. Depois, repercutiu muito mal a declaração de que eu adoraria ganhar no Texas, mas ele em geral não entra no cálculo eleitoral de um democrata, frase no típico estilo Mark Penn. Ninguém gosta de escutar que seu voto não interessa – especialmente no Texas, onde os democratas já sofrem o suficiente. Todos os grandes jornais do Texas endossaram a candidatura de Obama: Austin Chronicle, Dallas Morning News, El Paso Times, Houston Chronicle, San Antonio's Express News e Fort Worth Star Telegram.

PS: Para saber tudo sobre as primárias do Texas, confira o excelente blog Burnt Orange Report, que é a fonte de boa parte das informações compiladas aqui. Veja também o Texans for Obama e o Texans for Hillary.

PS 2:
Como eu já disse aqui, uma das baixas desta campanha eleitoral é o Left Coaster, que era um excelente blog. A última explicação para o sucesso de Obama: Ah, ele tem mais dinheiro. Esqueceram de explicar por que mais de um milhão de pessoas já se sentiram inspiradas a doar para a campanha, com contribuições em média inferiores a 110 dólares por pessoa. O Left Coaster parou de postar do planeta Terra, simplesmente. Há que se entender as diferenças: Digby, um blog pró-Hillary, continua com a lucidez de sempre.

PS 3: Na terça-feira à noite, o Biscoito fará a cobertura em tempo real das primárias do Texas, Ohio, Vermont e Rhode Island, a partir das 20 horas de Brasília.



  Escrito por Idelber às 04:15 | link para este post | Comentários (33)



quarta-feira, 27 de fevereiro 2008

Drops

Já há alguns anos, Zé Carlos Cipriano vem fazendo um dos mais belos trabalhos da blogosfera: um arquivo de canções, entrevistas, resenhas e comentários sobre a música brasileira no Sovaco de Cobra. Dedique um pouco do seu tempo a mergulhar nos posts atuais e nos arquivos desse extraordinário blog.

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Douglas Ceconello escreveu um magnífico e comovente texto sobre mais um evento trágico num estádio brasileiro: o sr. de 60 anos de idade, torcedor do Criciúma, que perdeu a mão direita na explosão de uma bomba no domingo passado. Está passando da hora de se discutir a sério, no Brasil, a abolição das torcidas organizadas. Não há outro jeito.

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Parabéns, parabéns, parabéns! Eu tenho orgulho de ser amigo de Milton Ribeiro.


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Mais parabéns: Marconi Leal detalha os dez conceitos chave do conservador moderno.

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O Paraíba me passou esse estranhíssimo meme chamado Mulher Frankenstein para Onanistas Fetichentos, e começou com a voz da Peta Wilson. Emendo de primeira: o cabelo da Maria Bethânia dos anos 70, fase Doces Bárbaros. Agora é a vez do Biajoni.


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Minhas impressões dos debates presidenciais da última semana: no Texas, ambos fizeram magníficas apresentações, talvez com ligeira vantagem para Clinton. Ontem, em Cincinnatti, Obama deu uma goleada. Concordo com 2/3 dos que responderam a pesquisa da MSNBC sobre o debate.

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PS: Se alguém quiser me dar umas dicas sobre como ensinar, a distância, um garoto a mexer no iPod nano, eu agradeço. Pelo jeito, a maquininha é bem diferente dos iPods de gerações anteriores. No meu, mais antigo, ao ligá-lo no computador já se abre um “mapa” que lhe permite fazer o “drag and drop” e passar canções do disco rígido para o iPod. Pelo jeito, o nano é diferente. O que aparece é a ficha de um cadastro. Confere? Como lhe ensino a carregar as canções sem nunca ter visto a máquina?



  Escrito por Idelber às 05:10 | link para este post | Comentários (18)



terça-feira, 26 de fevereiro 2008

O Adeus de Fidel

Dedicado a Ju Sampaio, que insistiu.

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Um certo professor de literatura cubana de uma universidade pública da Flórida preparava seu histórico de pesquisa e magistério para apresentar aos comitês avaliadores que decidiriam sobre seu tenure, a estabilidade no emprego que, nas universidades americanas, se conquista (ou não) depois de sete anos, em geral. O trabalho do cabra era completamente apolítico. Ele se filiava à semiótica, a chamada ciência geral dos signos, método de leitura bem formalista e asséptico para meu gosto mas que, como qualquer método, tem seus prós e seus contras. Popularíssimo professor, com excelentes avaliações, amplo leque de artigos nas revistas mais conceituadas, dois livros publicados (o requisito para o tenure costuma ser um livro), ele foi aprovado numa votação unânime do departamento. O dossiê seguiu para a esfera superior, a do college, e também ali ele foi aprovado por unanimidade. O presidente da universidade corroborou, como é de costume, a decisão dos especialistas. Só ficou pendente o carimbo do governo estadual, coisa absolutamente pró-forma nas universidades públicas americanas.

Até que um setor da comunidade cubana de Miami entrou em ação. Protestos e abaixo-assinados pediam que o governador cancelasse o tenure do sujeito com um curiosíssimo argumento: o fato de que ele não lecionava a “literatura do exílio” cubano em suas aulas era uma violação do direito de livre expressão da comunidade exilada. Isso mesmo: eu não ensinar sua sub-literatura nas minhas aulas é uma violação dos seus direitos. Um caso comum e corrente de avaliação acadêmica transformava-se numa estranha guerra política. Foi a primeira aula que tive sobre o que a comunidade exilada cubana entende por livre expressão. Seus métodos, que aqui nos EUA têm bastante em comum com os do lobby pró-Israel, colocam boas dúvidas sobre seu compromisso com a democracia, que tanto apregoam querer trazer de volta a Cuba. O tenure foi revertido e a carreira do profissional foi destruída.

O segundo caso é curioso e aconteceu comigo. Passeando pelo centro de Miami, me lembrei de que havia uma notícia argentina, já não me lembro se política ou esportiva, que eu queria conferir. Parei numa banca de jornal e vi o Página 12. Como sabe quem o lê, o Página 12 é um jornal que está, digamos, alguns centímetros à esquerda da Folha de São Paulo. Não é nem de longe um jornal “comunista”. Pedi o jornal ao cubano que estava na banca e lhe estendi uma nota de dez dólares. O sujeito imediatamente iniciou uma diatribe inesquecível: ¿qué quiere Usted con ese diario de comunistas? ¿qué va a hacer con un periódico de comunistas? Por qué leer esas cosas de comunistas? De cada três palavras, uma era “comunista”. O cabra perorava com a velocidade de um locutor de corrida de cavalos. Atônito, eu o olhava, sem acreditar que, em nome do capitalismo, ele se recusava a me vender um produto da sua própria banca de jornais! Era uma mistura de Fellini com o teatro do absurdo. Normalmente, eu evito esses confrontos, mas decidi que não sairia dali sem o jornal. Coloquei a nota de dez dólares no bolso, tirei o dinheiro trocado, peguei o jornal, enfiei o dinheiro na mão dele, esperei que ele terminasse e lhe disse uma frase da qual depois, em alguns momentos, me arrependi: não vou escutar palestra política de jornaleiro.

Conto os casos para ilustrar a imensa falta de credibilidade de boa parte dos que gritam por “democracia” em Cuba. O problema é que, do outro lado, na esquerda, a situação é bem problemática também. Eu tenho amigos que até muito recentemente diziam que essa história de presos políticos em Cuba é propaganda. Movida pela compreensível solidariedade a uma Revolução acuada e sabotada pelo país mais poderoso do mundo, pela indignação com as centenas de tentativas de assassinato a Fidel, a esquerda fez vista grossa a uma situação indefensável. Agindo assim, perdeu credibilidade também. Cuba se transformou numa espécie de espelho distorcido onde cada um projeta uma visão que já traz de antemão. Amigos de esquerda viajam à ilha e voltam com relatos acerca de um povo muito orgulhoso do que fez. Mas também não dá para negar uma outra realidade: a da quase prostituição das relações pessoais com estrangeiros e a dura vida dos presos políticos. Aí eu não posso deixar de lamentar que as pessoas dedicadas a defender a Revolução Cubana -- causa mui legítima -- simplesmente não mencionem o fato. Vira uma ladainha: os defensores mencionam educação e saúde; os detratores mencionam a falta de imprensa livre e os presos políticos. Ambos têm razão. Ambos vão perdendo a razão na medida em que se recusam a olhar a coisa de uma maneira mais trimensional.

O bloqueio americano tem o seu papel no quadro que vemos hoje? Sem dúvida. Mas também é fato que já em 1965, quando o bloqueio americano ainda não havia tido grande impacto, o Comitê Central já estava discutindo se autorizava ou não a publicação de uma obra prima como Paradiso, de Lezama Lima (um extraordinário escritor que jamais saiu da ilha, talvez o maior escritor cubano de todos os tempos). No final das contas, a obra foi publicada, mas o próprio fato de que a discussão tenha existido já indica que a vertente autoritária é bem antiga. Quando se revela ao mundo, em 1971, que a perseguição aos homossexuais é política estatal explícita, fica sacramentada uma relação minha bem ambígua com a Revolução. Não sei se vocês já repararam, mas este blog, que regularmente discute política internacional, jamais fez um post sobre Cuba.

Conta-se que nos anos 1960, ao Premiê Zhou Enlai foi dirigida a pergunta acerca do que ele achava da Revolução Francesa. A resposta foi lapidar, pura sabedoria chinesa: ainda é muito cedo para saber. Não há frase mais perfeita para definir o legado da Revolução Cubana. Sou defensor intransigente da soberania dos povos e inimigo declarado de qualquer intervenção estrangeira, em Cuba ou em qualquer lugar. Mas não vou maquiar o sofrimento alheio por preguiça de repensar a derrota de um sonho.



  Escrito por Idelber às 05:42 | link para este post | Comentários (61)



segunda-feira, 25 de fevereiro 2008

Marcelo de Lima Henrique, o sr. dormiu bem à noite?

Eu já havia preparado links e anotações para um post sobre a judicialização do debate jornalístico no Brasil. Nos domingos, em geral, dedico a tarde e a noite ao trabalho acadêmico, reservando um par de horas na madrugada para o post da segunda. Como já estava preparado o post, fui fazer uma das coisas que mais gosto: ver um bom jogo de futebol. Era a final da Taça Guanabara, entre Botafogo e Flamengo.

O Maracanã é, sim, o grande templo do futebol – que me desculpem os paulistas. A Taça Guanabara é o que chamamos, em outros estados, “primeiro turno”. Mas tem um charme e uma tradição incomparáveis. Esquentei uma carninha, abri uma Dos Equis Amber e fui ver a partida. Maraca lotado, jogo aberto, bonito: um sonho para qualquer fã de futebol.

Mais uma vez senti vergonha de ser brasileiro. O que foi feito com o Botafogo ontem no Maracanã é uma dessas coisas que, em qualquer país sério, terminaria na delegacia de polícia ou na barra dos tribunais. Há 18 anos acompanho basquete universitário e profissional, futebol americano universitário e profissional. Tenho meus times (Universidade da Carolina do Norte, New Orleans Hornets, New Orleans Saints, além de ter algum carinho pelo Carolina Panthers, clube que vi nascer). Nunca, em 18 anos, presenciei espetáculos grotescos de arbitragem como os que acontecem no Brasil quase todas as semanas.

Faço questão de escrever este post porque não faltam leitores que apontam “choro de perdedor” cada vez que assinalo os incontáveis roubos de arbitragem de que o Atlético-MG foi vítima ao longo dos anos. Pois bem, agora não foi com o meu time. Botafogo, Vasco, Fluminense, São Paulo, Palmeiras, Corinthians: para mim dá tudo na mesma. Sou Galo, sinto simpatia pelos times do sul, especialmente pelo Inter, e tenho lá um cantinho de amor pela Ponte Preta e pelo Vitória-BA. Desta vez, eu só queria ver um bom jogo. Que vencesse o melhor.

O pênalti marcado em favor do Flamengo, quando o Botafogo vencia por 1 x 0, é daqueles que teriam que ser marcados 20 vezes por jogo. Não pode segurar a camisa do adversário ao subir para cabecear? Perfeito. Que se apite 20 pênaltis por jogo então. Eu não teria problema com isso. Um outro critério, que uns poucos juízes honestos utilizam, é marcar esse tipo de pênalti quando o atacante estiver sendo impedido de fazer a jogada. Não era o caso, já que não havia nenhum perigo de gol. Mas, claro, a camisa sendo agarrada era rubro-negra. Não é preciso dizer que a mesma jogada aconteceu pelo menos 5 vezes do outro lado, sem que se marcasse nada.

Esqueçam o pênalti. Que eu saiba, existe uma regra no futebol que determina que, numa bola recuada intencionalmente com os pés para o goleiro, este não pode segurá-la com as mãos, sob pena de tiro livre indireto na área – a não ser, claro, que o jogador que fizer o recuo se chame Léo Moura e vista uma camisa rubro-negra. O cartão vermelho para Zé Carlos e o cartão amarelo para Lúcio Flávio, do Botafogo, aconteceram por quê mesmo? Uma cotovelada no adversário, em geral, é jogada para cartão vermelho – a não ser, claro, que o autor se chame Souza e vista uma camisa rubro-negra, e a vítima for um goleiro uruguaio (aliás, a xenofobia dos árbitros brasileiros é outro tema que mereceria longa discussão; Valdivia que o diga). Eu poderia listar outros exemplos.

Um árbitro que permanecerá inomeado uma vez me disse: “Idelber, se você quer prejudicar uma equipe, não espere as jogadas decisivas na área. Trave-a no meio-campo”. Assistam o VT da partida e vejam essa regra em ação. O pior é que ela não foi suficiente. O juiz roubou no meio-campo e roubou na área. O Botafogo foi imensamente superior ao Flamengo? Não, não foi. Poderia ter perdido na bola? Poderia. Desequilibrou-se emocionalmente a partir de um certo momento? Sem dúvida. Mas nada justifica a bandidagem. O impressionante no Brasil é que mesmo os melhores e mais honestos cronistas observam essas coisas e acham tudo normal. Não deve ser coincidência que, nos campeonatos cariocas, o time sistematicamente roubado seja justo aquele que é (ou era) dirigido por um ser humano íntegro, não cúmplice dos bandidos da Federação de Futebol do Estado do Rio – ainda que, nas competições nacionais, e especialmente contra mineiros e gaúchos, essa mesma equipe seja auxiliada pelas arbitragens.

Alguém em sã consciência é capaz de dizer que o pênalti que sofreu Tinga, do Internacional, no jogo contra o Corinthians que poderia ter decidido o Brasileirão de 2005, não teria sido marcado caso a sua camisa vermelha tivesse um par de listras horizontais negras? É frustrante, porque os flamenguistas (e, em menor medida, os corinthianos) já se acostumaram a ganhar dessa forma. Mesmo gente instruída e sensata se recusa a discutir o tema, não entendendo que o futebol brasileiro é um patrimônio do país, destruído e pisoteado cada vez que isso acontece. O problema transcende o esporte. É um roubo contra o consumidor, numa esfera que movimenta muito dinheiro e tem enorme significação simbólica para o Brasil, dentro e fora de suas fronteiras. Cada rubro-negro que repete "é choro de perdedor" quando acontecem esses escândalos, me desculpe, é um cúmplice do crime organizado.

Esta semana, chegou a notícia de que a Nike assinou um contrato de patrocínio com a seleção francesa por um valor cinco vezes maior que aquele destinado à seleção brasileira. Eu pergunto: em qual bolsa de apostas da galáxia a seleção francesa vale cinco vezes mais que a brasileira? Ou será que o valor oficial não é o efetivamente pago à CBF? Aliás, eu entendo que o Banco do Brasil patrocine a seleção de voleibol. Trata-se da seleção brasileira de vôlei. Alguém poderia me explicar porque a Petrobras, uma empresa estatal sem concorrência no país, patrocina o Flamengo?

Atualização: Juca, não é possível, Juca. Se você acha que essa foto encerra a discussão sobre tudo o que está dito acima, e tudo o que observaram milhões de torcedores, só nos resta dizer: então tá. Quando alguém com a integridade de Juca Kfouri começa a defender o que aconteceu ontem no Maracanã, sinceramente, dá vontade de jogar a toalha e assistir só futebol americano mesmo.



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sábado, 23 de fevereiro 2008

Galo aos sábados: Homenagem à maior de todas

Elis Regina tinha mais recursos técnicos e Carmen Miranda teve mais impacto fora do Brasil e em outras artes, como o cinema. Mas a maior cantora dessa terra de cantoras foi Cássia Eller, a atleticana:

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Duas das melhores memórias de minha vida são de shows de Cássia. Às vezes ela entrava, parava ante o microfone, virava a cabeça e cuspia no chão, dava uma “coçada no saco” e gritava: Galôôô! Nos shows em Minas Gerais, era delírio coletivo na certa. Tímida e reservada, ela explodia quando subia ao palco. Despretensiosa, ela tinha um conhecimento musical gigantesco. Tudo o que gravava trazia a sua assinatura, inconfundível. Quando gravou “Na Cadência do Samba”, de Ataulfo Alves e Paulo Gesta, deu à canção uma sonoridade blues que fazia aflorar toda uma conversa entre esses dois gêneros musicais. Assim era Cássia: inventava coisas que ninguém havia visto. Depois da invenção, tudo parecia óbvio e cristalino. Não é uma boa definição para o que sempre faz um verdadeiro artista?

Os dois grandes letristas da geração roqueira que se consolidou na década de 80 – Cazuza e Renato Russo – não podiam imaginar que nos anos 90 uma excepcional cantora extrairia de suas músicas sentidos que eles mal puderam entrever originalmente. Cássia tinha sobre sua colega de geração mais badalada pela mídia, Marisa Monte, uma série de vantagens: era uma artista mais autêntica, mais propensa a correr riscos, além de ser uma instrumentista superior. Poucas roqueiras foram tão respeitadas por sambistas. Poucas artistas da MPB foram tão idolatradas por metaleiros e punks. Até na morte ela foi pioneira, quando sua companheira Maria Eugênia venceu a mais justa das batalhas judiciais, pela guarda do filho Chicão, derrotando uma absurda demanda do avô do garoto e abrindo um precedente jurídico importantíssimo para casais de gays e lésbicas no Brasil.

A minha foto favorita de Cássia é a da capa de seu primeiro disco:

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Também gosto muito do jeito que ela segura o cigarro na capa do segundo:

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Quando mais "invocada", mais sexy ela parecia:

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E o charme com que ela cantava "Malandragem"?

Na entrega das faixas de campeão da Série B de 2006, contra o América-RN no Mineirão, o Atlético-MG homenageou Cássia Eller com o Galo de Prata, a mais alta honraria concedida a um atleticano. Sua mãe recebeu o troféu, enquanto 60.000 torcedores gritavam o nome de Cássia.

Cássia Eller foi enterrada com um bótom do Galo preso a um lenço laranja amarrado à cabeça. Que ela tenha morrido aos 39 anos de idade é um desses acontecimentos que nos lembram que não existe justiça no mundo.



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sexta-feira, 22 de fevereiro 2008

Obama, Clinton e política externa americana

Alguns leitores me pediram um post detalhando como seria a política externa sob Obama ou sob Clinton. Suponho que esteja claro que, com qualquer um dos dois, ela seria bem diferente do que tem sido sob Bush. Nem o eleitor mais convicto de Ralph Nader, o candidato a presidente pelo Partido Verde em 2000, teria coragem de dizer hoje que uma presidência de Al Gore teria sido idêntica à de George W. Bush. Sim, às vezes o malfadado voto útil é uma questão de compromisso com a espécie humana.

É fato que há muitas semelhanças entre os programas de Hillary Clinton e de Barack Obama. Mas talvez a política externa seja uma das áreas onde os contrastes são mais nítidos – e eles ficaram claros para quem assistiu o debate da CNN ontem à noite. Na questão decisiva do nosso tempo, a Guerra do Iraque, eles estiveram em lados opostos. No dia 11 de outubro de 2002, o Senado votou a resolução para o uso de força contra o Iraque. A emenda foi aprovada por 77 votos a 23. Exatamente 21 senadores democratas votaram com George Bush, incluindo-se aí Hillary Clinton. Dez dias antes, Barack Obama, então membro do legislativo de Illinois, participou de um comício em Chicago onde fez um veemente discurso contra a guerra.

A diferença foi decisiva nesta campanha, especialmente pela forma como Hillary lidou com o voto depois que a guerra perdeu popularidade. Entre os candidatos presidenciais que apoiaram a resolução de Bush também estava John Edwards, mas este último pediu desculpas pelo voto. Hillary preferiu racionalizá-lo, dizendo que a resolução exigia que Bush esgotasse as vias diplomáticas e que o presidente havia enganado o Congresso. O problema com a justificativa é que qualquer residente dos EUA com um mínimo de informação e independência de juízo sabia, já em 2002, que Bush mentia sobre o Iraque. A diferença é que antes éramos 10%. Hoje somos 77%. Evidentemente, a senadora fez um cálculo político que, a longo prazo, saiu pela culatra. Esse cálculo já estava nítido -- para quem sabe ler -- no discurso com o qual ela acompanhou o voto.

Também na política com Cuba há diferenças marcantes. Obama já declarou, no debate de ontem e em outros lugares, que está disposto a sentar-se para conversar, sem pré-condições, com qualquer líder estrangeiro, incluídos Raúl Castro e Ahmadinejad. Clinton defende a tese das pré-condições para o diálogo: que Cuba deve democratizar-se, liberar prisioneiros políticos, abrir a imprensa etc. antes de que possa haver qualquer negociação. A diferença se manifesta em históricos diferentes de votação no Senado. Nos últimos anos, Clinton votou duas vezes para renovar o financiamento da TV Martí, a rede americana de transmissão de propaganda para os cubanos. Obama, já no Senado, votou em ambas ocasiões contra o financiamento à TV Martí. Quanto à normalização das viagens de famílias cubano-americanas à ilha, também há diferença: Obama a favor, Clinton contra.

No que se refere ao desarmamento, os históricos de votação também são bem diferentes. No dia 06 de setembro de 2006, votou-se no Senado a emenda Feinstein, que proibia os EUA de exportar bombas de dispersão (cluster bombs) a não ser que a compra incluísse a proibição de seu uso e estocagem em áreas habitadas por civis. A emenda foi derrotada por 70 x 30. Obama votou a favor. Clinton foi uma de 15 democratas que votaram com os Republicanos para derrotá-la. No dia 26 de setembro deste ano, Clinton também votou com os Republicanos na aprovação da medida Lieberman-Kyl, que designava as forças armadas do Irã como uma organização terrorista. Foi, convenhamos, uma votação bem insólita: o Senado americano se reuniu para declarar terroristas as forças armadas de uma nação soberana. É mais um sinal do desgaste de uma palavra.

Clinton e Obama também estiveram em lados opostos de votações sobre direitos humanos, venda de armamentos e proliferação nuclear. Esse texto pega um pouco pesado com Clinton na retórica, mas todos fatos relatados ali são verdadeiros. Quanto à América Latina, a linha típica dos discursos de Obama tem sido de que a era do junior partner acabou; que a conversa será sempre horizontal; que o continente receberá o respeito de uma interlocução de igual para igual. O tema é sistematicamente mencionado em seus discursos (veja, por exemplo, esse vídeo). Há que se ver tudo com ceticismo, evidentemente. Mas não há dúvidas de que há sinais encorajadores.

PS: Quem tiver assistido o debate de ontem à noite, fique à vontade para comentar. Eu assisti e gostei muito. Foi, provavelmente, a melhor performance de ambos.

PS 2: Já não são dez, e sim onze, as vitórias consecutivas de Obama. Saiu hoje o resultado da votação nas primárias entre os democratas residentes no exterior, com vitória de Obama por 65,6% contra 32,7% de Clinton. Estão curiosos para saber como foi no Brasil? Entre os democratas residentes aí, a vitória foi de Obama por 69,6% contra 30,4% de Clinton (veja os números completos nesse pdf).

PS 3: Em breve, uma explicação sobre as incríveis primárias do Texas, onde é possível conquistar 60% dos votos e ficar com 40% dos delegados. Ou vice-versa. Ou muito antes pelo contrário.



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quinta-feira, 21 de fevereiro 2008

Perguntas que a imprensa americana não fará, 1

Nas ocasiões em que assinalei a vergonhosa cumplicidade da grande mídia americana com as mentiras e manipulações do governo Bush, não faltou quem me colocasse o rótulo de “anti-americano”, como se aceitar uma imprensa subserviente fosse um valor americano sacramentado em algum lugar da constituição. Pois bem, ao invés de fazer críticas iradas, iniciemos hoje uma nova série no blog, que eu espero manter funcionando até as eleições presidencias americanas: perguntas que a imprensa americana jamais fará.

Um artigo da Associated Press de 1985 dizia o seguinte (tradução e grifo meus):

O deputado Tom Loeffler (R-TX), apresentou o prêmio “Lutador da Liberdade do Ano” ao líder da resistência afegã Wali Khan em nome do Conselho Americano para a Liberdade Mundial no dia 03 de outubro.

Loeffler convocou o Congresso e o povo americano para “ampliar o apoio” aos lutadores da liberdade no Afeganistão, lembrando aos ouvintes a luta da própria América pela liberdade.

O Congresso aceitou dar 15 milhões de dólares em assistência encoberta à causa afegã, sendo esta a primeira vez que os legisladores “se prontificaram” a ajudar desde o começo do conflito, de acordo com Loeffler....

Aceitando o prêmio em nome de Khan estava Pir Syed Ahmed Gailani, chefe da Frente Islâmica Nacional do Afeganistão, na qual Khan comanda 20.000 lutadores da resistência.

Outros congressistas que se juntaram a Loeffler incluíam o Deputado Eldon Rudd e o Deputado John McCain, ambos republicanos do Arizona.

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Considerando que: 1) os ataques do 11 de setembro de 2001 foram perpetrados por uma organização terrorista cujo embrião é precisamente o grupo “premiado” por McCain e seus colegas; 2) que os EUA continuam envolvidos numa guerra civil no Afeganistão contra a mesma força política que antes haviam homenageado e financiado; 3) que o Senador McCain foi parte tanto da homenagem como da aprovação do financiamento para dita organização; 4) que o Senador McCain é hoje o virtual candidato a presidente pelo Partido Republicano, não seria lógico e esperável que uma imprensa livre em algum momento colocasse a ele a seguinte pergunta:

Senador McCain, qual foi o seu papel no financiamento e na homenagem ao embrião do Talibã em 1985?

Como dito antes, não faço previsões em política. Neste caso, no entanto, prevejo sem medo de errar: nenhum veículo da grande mídia americana sequer se lembrará do episódio. É mais fácil e inofensivo investigar com quem ele trepou ou não trepou. Se algum veículo da grande mídia americana se lembrar de fazer ao Senador McCain qualquer pergunta sobre seu papel nos primórdios do financiamento americano ao extremismo islâmico no Afeganistão, eu tiro uma foto com a camisa do ex-Ipiranga e poso com a dita cuja para escárnio geral aqui no blog.

É a imprensa “livre” americana, que tantos jornalistas brasileiros tomam como modelo de democracia, enquanto se queixam dos horrores da “censura” no governo Lula, entre um impropério e outro dirigido sempre livremente contra o presidente do Brasil.

(inspiração e fonte: Juan Cole)



  Escrito por Idelber às 05:41 | link para este post | Comentários (38)



quarta-feira, 20 de fevereiro 2008

Décima vitória consecutiva de Obama

Desde que os irmãos Bush nos roubaram a eleição de 2000, eu prometi nunca mais fazer previsões em política. Mas o fato é que ficou difícil, muito difícil para Clinton. Quem sabe o Alon ou o Rafael possam me ajudar a lembrar alguma eleição – no Brasil ou em qualquer outro lugar – em que tenha havido uma virada de 30 pontos em duas semanas. Porque foi exatamente isso que Obama fez em Wisconsin, no coração da base clintoniana. Há 15 dias, Clinton chegou a liderar por 13 pontos.Obama venceu ontem por 58 x 41, num estado em que a população negra não passa de 4%. Talvez não fique claro de imediato para o leitor brasileiro a dimensão desse resultado. Para efeitos de comparação, imagine Lula vencendo José Serra por 7 x 3 em Higienópolis e nos Jardins. Ou, não importa, imagine Alckmin enfiando 7 x 3 em Lula no estado de Pernambuco. Foi mais ou menos isso o que aconteceu em Wisconsin ontem, numa primária em que 58% do eleitorado era feminino e 92% branco.

Digamos, então, que o Biscoito está preparado para fazer a seguinte afirmação: as chances de Hillary conquistar a indicação democrata para a presidência dos EUA são comparáveis às do São Paulo ser rebaixado para a segunda divisão no Campeonato Brasileiro deste ano. Para alcançar Obama, ela teria que vencer Ohio, Texas e Pensilvânia por diferenças de 65 a 35, o que simplesmente não parece possível neste momento. No próximo dia 04, votam Ohio, Texas e Rhode Island.

Em futuros posts, vou tentar explicar o que me parece que aconteceu aqui nos últimos meses. É verdade que a campanha de Obama tem mobilizado – particulamente entre os jovens – uma energia que há décadas não se via na política americana. Mas também é verdade que poucas vezes na vida vi uma campanha tão incompetente como a de Hillary Clinton. Até mesmo uma campanha razoavelmente administrada teria sido suficiente para ela, dada a grande diferença de reconhecimento entre os dois nomes e a colossal diferença de poder entre os dois grupos dentro do Partido Democrata.

Mas a campanha foi enterrada pela estratégia de ignorar os lugares onde sofria derrotas (não oferecendo parabéns ao vencedor e nem mesmo agradecendo seus voluntários), pelo recurso à sistemática negatividade (as pesquisas de boca-de-urna em Wisconsin mostraram uma imensa rejeição a essa estratégia, um dia depois de que a campanha de Clinton tirou da cartola uma incrível acusação de plágio contra Obama) e pela desqualificação dos estados vencidos pelo senador de Illinois (com argumentos do tipo: assembléias não contam, estados com população negra não contam, estados republicanos não contam etc., até o ponto em que Wisconsin, que é a epítome do estado que, segundo essa lógica, deveria “contar”, terminou rejeitando-a) .

Na quinta-feira à noite há um debate na CNN. Dentro do campo de Clinton há um intenso debate acerca da estratégia. Reforçar os ataques pessoais contra Obama ou dar outro giro, enfatizando os planos e as qualidades da senadora? A briga em torno disso é tremenda: ainda existe – acreditem – um setor da campanha argumentando que a estratégia negativa funcionou, pois a margem de Obama havia sido maior na Virgínia do que foi em Wisconsin! Quanto a Obama, tudo o que ele precisa fazer no debate é não prometer bombardear o Canadá.

PS: O Biscoito saúda Digby, blogueira pró-Hillary que já está pronta para unir forças em torno de Obama para o que verdadeiramente importa, que é derrotar a máquina republicana. Ao longo desta campanha, Digby se firmou como a melhor analista política democrata na blogosfera, mantendo sanidade e ponderação ao longo do processo. No Daily Kos, a fascinação com Obama às vezes prejudica bastante a percepção da realidade. E o clintoniano Left Coaster, que era um bom blog, já não posta do planeta Terra há meses. Em breve, faço um post sobre o terrível legado desta campanha sobre a blogosfera progressista gringa. O saldo não é positivo, não.

PS 2: Não, não tenho nada a dizer sobre a aposentadoria de Fidel. Pelo menos não aqui no blog. A discussão que se armaria já é por demais previsível e eu estou um pouco cansado dela. Eu até poderia tentar fazer uma avaliação mais tridimensional sobre o legado da Revolução Cubana. Mas a discussão descamba, não tem jeito. Até mesmo aqui ela descambaria.



  Escrito por Idelber às 03:50 | link para este post | Comentários (59)



terça-feira, 19 de fevereiro 2008

Primeiras impressões da votação em Wisconsin

Ainda faltam algumas horas para que se fechem as urnas em Wisconsin, mas já há algumas notícias. A vitória nesse mui progressista estado do meio-oeste americano é importante para ambos, muito mais para Clinton que para Obama. Em primeiro lugar, porque já são oito vitórias consecutivas do senador de Illinois. Em segundo lugar, porque a demografia de Wisconsin deveria favorecer Clinton. Nove de cada dez eleitores democratas de Wisconsin são brancos (números de 2004). A porcentagem de subúrbios em Wisconsin é maior que a média nacional. Mais que pela diferença numérica de delegados, Wisconsin é chave pelo seu impacto psicológico. Uma vitória de Obama colocaria a campanha de Clinton nas cordas. Uma vitória de senadora de Nova York pode ajudar a reverter o embalo de Obama e criar as condições para o que espera a campanha de Hillary: uma virada em Ohio e no Texas, no próximo dia 04.

Em Wisconsin, Clinton liderou durante meses, a coisa ficou bem disputada nas últimas semanas e os números fresquinhos que chegam dizem o seguinte: Rassmussen: Obama 47 x 43 Clinton (pesquisa do dia 13); Research 2000: Obama 47 x 42 Clinton (dias 13/14); Public Policy Polling (pdf): Obama 53 x 40 Clinton (dias 16/17). Quanto ao American Research Group, os números são curiosos: a pesquisa dos dias 15/16 dava vitória de Clinton por diferença superior à margem de erro, 49 x 43. A pesquisa dos dias 17/18 já apontava uma diferença de 10 pontos em favor de Obama: 52 x 42. Segundo o PPP, Obama vence Clinton por 64 x 32 entre os eleitores de 18 a 29 anos de idade; vence por 65 x 27 entre os balzaquianos de 30 a 45; vence por 51 x 41 entre a turma de idades entre 45 e 60; Clinton vence Obama por 54 x 39 entre os eleitores de mais de 65 anos de idade. Obama vence entre os homens por 57 a 36 e também vence entre as mulheres, por 50 a 43. São números de pesquisas, claro.

A rádio WUWM de Milwaukee está confirmando comparecimento gigantesco às urnas em Wisconsin. Em condições normais, isso deveria favorecer Clinton. À luz da evolução dos números, não seria surpresa se favorecesse Obama, especialmente se a votação em Madison for grande. Em Madison fica o campus principal da Universidade de Wisconsin, onde fui tão bem recebido. É uma das cidades mais progressistas dos Estados Unidos, além de ter a melhor oferta de cervejas deste lado do Atlântico. Em Madison, acredito numa diferença bem grande em favor de Obama. A conferir.



  Escrito por Idelber às 13:11 | link para este post | Comentários (12)




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Aí vão uns anúncios que podem ser de interesse:

1.Eu estudei literatura com algumas sumidades, de Fredric Jameson a Silviano Santiago. Mas o professor que mais me influenciou na alegria da leitura e na atenção ao texto literário se chama Antônio Sérgio Bueno. Eis que descubro que Serginho, no seu Núcleo de Estudos Paidéia, está dando cursos de literatura para a comunidade – sem nenhum requisito, só a vontade de ler. Se você mora em Belo Horizonte ou imediações, gosta de literatura e quer se aprofundar no seu estudo, não perca. Os cursos que estão rolando no momento são sobre a linguagem poética, a memorialística de Pedro Nava, o Grande Sertão: Veredas, de Rosa, os romances da maturidade de Machado de Assis e a poesia de Drummond. O Paidéia fica na Av. Contorno 4023, Edifício Liberal Center, sls.: 601 e 602, ali no Santa Efigênia. Informações pelos telefones (31) 3281-3115 ou (31) 9791-1561, ou pelo email nucleodeestudospaideia arroba gmail ponto com. Confira.

2.Acontece nos dias 3 e 4 de maio deste ano, em Rosario, na Argentina, o Primeiro Encontro Nacional de Mulheres Lésbicas e Bisexuais. As rosarinas estão procurando atrizes, cantoras, fotógrafas e artistas plásticas que desejem participar. Informações no email informes arroba encuentrolb ponto com ponto ar.

3.Se você é acadêmico, trabalha em ciências humanas ou sociais, desenvolve pesquisa comparativa que relacione o Brasil com algum país do Cone Sul e tem interesse em apresentar uma comunicação no próximo congresso da Latin American Studies Association (11 a 14 de junho de 2009, na PUC-RJ), entre em contato comigo pelo email idelberavelar arroba gmail ponto com. A associação me pediu que organizasse uma mesa sobre o diálogo Brasil / Cone Sul. Só há quatro vagas e se houver muitas propostas, eu farei uma seleção, evidentemente.

4.Nos dias 27 a 29 de março, New Orleans será ainda mais brasileira do que normalmente já é. Reúne-se aqui a BRASA (Brazilian Studies Association), com a presença de centenas de acadêmicos brasileiros ou brasilianistas. A palestra de abertura será do meu chapa José Miguel Wisnik. Já comecei a receber uma enxurrada de emails com perguntas sobre a cidade. Se você vem à BRASA, se ligue aqui no blog porque em breve eu publico um post com um mini-guia a New Orleans. Já aviso que sobre os hotéis da cidade eu, por razões óbvias, não sei nada. Mas posso ajudar em outras coisas.

5.Se você é falante nativo de alemão ou tem proficiência em nível de Zertifikat Deutsch ou Großes Deutsches Sprachdiplom, mora em Belo Horizonte e tem disponibilidade para me dar umas aulas de conversação de maio a agosto deste ano, entre em contato comigo. Fecharam o raio do Goethe-Institut aí de BH.

PS: Amanhã, publico uma análise dos resultados das primárias democratas em Wisconsin e no Havaí. Neste, a expectativa é de vitória tranqüila de Obama. Em Wisconsin, as pesquisas indicam disputa acirrada. A demografia deveria favorecer Cliton: baixa população afro-americana e muita gente morando em subúrbios. Mas o embalo, como se sabe, é de Obama. A conferir.



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segunda-feira, 18 de fevereiro 2008

Clube de Leituras: O Romance d'A Pedra do Reino

p-rein.jpgPublicado em 1971, o Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, de Ariano Suassuna, foi elogiadíssimo na época do lançamento e teve tiragens surpreendentes, considerando-se que a obra é tão longa e complexa. Ela tem um estatuto curioso na literatura brasileira: conta com leitores apaixonados, mas eles foram se tornando, ao longo dos anos, cada vez mais escassos. Não seria exagerado dizer que já se trata de um romance canônico, mas sua fortuna crítica não é exatamente extensa ou iluminadora. Aqui em Tulane, acabo de dedicar a ele três semanas de discussões com um grupo de 11 doutorandos, só dois dos quais são falantes nativos de português (um deles é o Alex). Tomara que eles não me desmintam na caixa de comentários, mas minha sensação foi de que ficaram fascinados com o livro.

Tentar defini-lo já é um baita desafio. Como uma epopéia, ele narra a história de guerreiros identificados com um povo. A épica se torna farsa, no entanto, já que os ideais que regem as batalhas parecem anacrônicos, às vezes cômicos e sempre meio divorciados da realidade. Como numa picaresca, a história é narrada em primeira pessoa por um sujeito destituído que deve legitimar-se ante uma autoridade. Como num romance de cavalaria, o herói deve restaurar uma ordem perdida, em meio a brasões, insígnias e todo um aparato de símbolos. Quaderna se declara nada menos que Rei do Brasil, herdeiro da verdadeira família real – não aqueles “charlatães” dos Bragança, diz ele. O pano de fundo d'A Pedra do Reino é esse secular delírio monarquista no sertão brasileiro.

A história é narrada por Pedro Dinis Ferreira-Quaderna em 1938, na prisão, acusado de ser parte de uma conspiração contra as autoridades constituídas. Para se defender, Quaderna volta um século, até a “primeira notícia dos Quaderna”, que se remonta à mítica pedra encontrada no Sertão do Pajeú, fronteira da Paraíba com Pernambuco. Depois de relatar a história de quatro Impérios dos seus antepassados no sertão – incluindo-se aí o terrível degolador Dom Ferreira-Quaderna, o execrável –, ele passa a reconstituir a sua própria trajetória, marcada por tentativas de restaurar esse sebastianismo sertanejo. Aí a obra entra em seus momentos mais cômicos.

Ariano Suassuna disse uma vez, numa entrevista – e com Suassuna você nunca sabe quando ele está falando sério –, que o Brasil verdadeiro se localiza entre a Paraíba, Pernambuco e Alagoas. Qualquer coisa a oeste do Rio Grande do Norte e ao sul de Sergipe já não é Brasil. É estrangeiro. O monarquismo de Quaderna se alimenta desse messianismo: ali no sertão profundo teria permanecido um núcleo mouro-ibérico heróico, não corrompido pelas frescuras do litoral burguês.

Quaderna tem dois hilários gurus, Samuel, monárquico, conservador e tradicionalista, e Clemente, negro-tapuia, popular e revolucionário. A filosofia de Quaderna é um amálgama dessas duas influências, que produzem um divertido híbrido: um monarquista de esquerda. Para Samuel, Dom Pedro II (o de Bragança) foi um liberal subversivo que feriu de morte, em favor da plebe, os feudos da Aristocracia brasileira. Clemente, por sua vez, não aceita os Cantadores, porque deviam colocar a Arte deles a serviço do Povo, desmistificando e denunciando a sociedade feudal do Sertão. Dessa tensão Quaderna deriva seu monarquismo de esquerda: meu sonho é fazer do Brasil um Império do Belo Monte de Canudos, um Reino de república-popular, com a justiça e a verdade da Esquerda e com a beleza fidalga, os cavalos, o desfile, a grandeza, o sonho e as bandeiras da Monarquia Sertaneja!

Ainda há incontáveis aspectos não estudados no livro, mas o que eu me animaria a analisar, caso escrevesse sobre o livro no futuro, seria o processo pelo qual um movimento monárquico e restaurador passa a representar anseios genuinamente populares. O livro se apóia numa estranha aliança de classes que une os mais miseráveis com os mais aristocráticos contra a superficialidade e a viadagem burguesas. Sertanejos e fidalgos teriam em comum o respeito pelos rituais e a compreensão do poder dos símbolos. Apesar do que pode parecer, não se trata de uma mensagem facilmente identificável como conservadora. Aliás, uma das questões que orientou nossas discussões em sala foi uma singela pergunta: até que ponto esses valores seriam algo que a obra está subscrevendo? Até que ponto eles seriam algo que está sendo ironizado no romance? A pergunta é simples. A resposta eu já não sei. A bola é de vocês.

PS: Este post e caixa de comentários são parte do Clube de Leituras do Biscoito. Este clube tem uma única regra: não pedir desculpas por não ser especialista ou erudito, não acanhar-se, não achar que sua opinião vale menos que a de ninguém. Fale à vontade, inclusive para criticar o livro. Cite seus episódios favoritos, coloque problemas para os outros leitores, participe como quiser.



  Escrito por Idelber às 04:06 | link para este post | Comentários (41)



domingo, 17 de fevereiro 2008

Contrate o Duda, Hillary

Um dia há que se escrever a história de como uma senadora bem informada e competente como Hillary Clinton colocou o seu destino eleitoral nas mãos de um completo imbecil como esse Mark Penn. Trata-se de um pseudo-estrategista político que, com uma única exceção, só acumulou derrotas até hoje. Foi ele o autor da “brilhante” idéia dos focus groups, que transformou a campanha de Hillary numa colcha de retalhos de apelos a faixas segmentadas da população, tática suicida no enfrentamento contra um candidato ancorado no apelo à união e à superação das divisões. O pior de tudo é que os nomes dos grupos que o sujeito cunhou como alvos são pérolas de mistificação: “as elites impressionáveis”, “os pais permissivos”, “os aposentados que trabalham” e outras sandices do tipo. No ano passado, Mark Penn inventou o infeliz termo "a candidata inevitável", para transformar em destino o favoritismo claríssimo de que a senadora de Nova York desfrutava naquele momento. Não poucos eleitores reagiram com a compreensível indignação: uai, inevitável por quê? Eu não votei ainda!

Também foi ele o responsável pela tática de descartar a importância dos estados vencidos por Obama e passar a ignorá-los. Repetidamente, o “estrategista” afirmou que estados com assembléias em vez de primárias não contavam; que estados pequenos não contavam; que estados com ampla população negra não contavam; que estados vermelhos não contavam. Numa corrida onde Obama já venceu 22 estados contra 11 de Clinton, o sujeito me sai com essa pérola: como podemos ter um candidato que não venceu em nenhum estado significativo além de Illinois? Segundo o sábio, Connecticut, Minnesota, Missouri, Louisiana, Maryland, Utah, Washington, Virgínia, Delaware, Alaska, Colorado, North Dakota, Maine, Kansas, Nebraska, Iowa, Idaho, Alabama, Geórgia, Carolina do Sul e o Distrito de Columbia não são “significativos”. Não é surpresa, portanto, que os conselheiros da campanha de Hillary já tenham começado a brigar entre si.

A última pérola de Mark Penn já denota certo desespero. Eis a citação, em toda sua genialidade: ganhar as primárias democratas não é uma qualificação ou um sinal de quem pode ganhar a eleição geral. Se fosse, todos os indicados venceriam, porque todos os indicados ganharam as primárias democratas. É mais ou menos como dizer: "aprender a ler não é uma qualificação para ser doutor. Se fosse, todos os que aprendem a ler fariam um doutorado". Esta é a besta quadrada que coordena a campanha de Hillary Clinton. Em qualquer eleição que eu disputasse, sem hesitação eu colocaria meu destino nas mãos do Paraíba contra esse Mark Penn. Seria um massacre. O Paraíba faria xinxim de galinha do sujeito.

A última notícia é no mínimo estranha: Hillary Clinton vai deixar Wisconsin na segunda-feira de manhã, 36 horas antes do final das votações no estado, que é o único, juntamente com o Havaí, a realizar primárias na terça-feira. Se eu não conhecesse os Clintons, diria que Hillary decidiu entregar as eleições para Obama. Eis o gráfico das intenções de voto de acordo com a última pesquisa em Wisconsin:

wisc-poll-2.jpg

O salário de Mark Penn é 5 milhões de dólares por ano.



  Escrito por Idelber às 04:05 | link para este post | Comentários (17)



sábado, 16 de fevereiro 2008

Adivinhação

Todos conhecem a história de que os esquimós possuem não sei quantos substantivos diferentes para designar a neve, não é mesmo? Pois bem, quais são as três palavras com mais sinônimos dicionarizados na língua portuguesa falada no Brasil?

Deixe primeiro o seu palpite aqui na caixa de comentários e depois descubra a resposta certa de acordo com esse post do excelente blog Fósforo.

Se acertar, não comemore por enquanto, para não atrapalhar a adivinhação do próximo leitor.



  Escrito por Idelber às 12:51 | link para este post | Comentários (29)




Galo aos sábados: O Campeão dos Campeões de 1936

Sim, houve um Torneio Inter-Estadual de Clubes em 1920 e um Torneio Rio-São Paulo em 1933. Mas não seria exagero dizer que o primeiro grande campeão inter-estadual do Brasil foi o Clube Atlético Mineiro, seguindo sua tradição de pioneirismo. A Federação Brasileira de Futebol convocou os detentores dos títulos de 1936 nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo para decidir quem seria o “campeão dos campeões”.

O Galo, depois do bicampeonato de 1926-27 e da histórica inauguração do Estádio Antônio Carlos em 1929, narrados no post anterior, foi bicampeão em 1931-32. O primeiro campeonato mineiro profissional foi realizado em 1936, também com vitória do Galo, numa campanha sensacional: 12 jogos, 9 vitórias, 1 empate, 1 derrota; 49 gols pró, 14 gols contra. Foi essa conquista que carimbou o passaporte da equipe para a disputa inter-estadual, que também contou com o Fluminense, a Portuguesa de Desportos e o Rio Branco.

A estréia não poderia ter sido pior. O Galo foi às Laranjeiras enfrentar os tricolores e levou uma goleada impiedosa: 6 x 0. Chegou a se dizer que o time daria vexame. Depois de apanhar no Rio, o Galo fez uma viagem ao Espírito Santo e ficou no empate em 1 x 1 com o Rio Branco. Mais animada, a equipe voltou a Belo Horizonte sabendo que teria três jogos consecutivos em casa. Ainda mordido pela goleada sofrida no Rio, o Galo massacrou a Portuguesa por 5 x 0.

Tendo terminado o turno com 1 vitória, 1 empate e 1 derrota, o time ainda estava em boas condições de brigar pelo título, pois faria 2 dos 3 últimos jogos nas Alterosas. O próximo desafio era a revanche contra o forte time tricolor. Motivado, o Atlético-MG mais uma vez o honrou o apelido de Galo Vingador. Goleou com facilidade por 4 x 1. Já embalados, os atleticanos sabiam que o Rio Branco, jogando em Belo Horizonte, não seria páreo. E não foi. Galo 5 x 1.

A viagem para São Paulo, diz a lenda, foi cercada de tensão. Um empate já seria suficiente para garantir o título, mas o Galo fez melhor. Derrotou a Portuguesa de novo, desta vez em seus domínios, por 3 x 2, sagrando-se Campeão dos Campeões, título que depois entraria com destaque no hino definitivo do clube, composto por Vicente Mota em 1969. Como é de costume nas conquistas do Galo, a comemoração em Belo Horizonte ficou marcada nos anais como uma festa inesquecível. A Massa tomou a cidade na recepção aos ídolos.

O time Campeão dos Campeões de 1936 formava com Kafunga, Florindo e Quim; Zezé Procópio, Lôla e João Bala; Paulista, Alfredo Bernardino, Guará, Nicola e Resende. Aí vai a foto, que é retirada do Estado de Minas. Note-se mais uma vez o pioneirismo do Galo (e não me canso de insistir nisso): em pleno 1936, o Campeão dos Campeões do Brasil levou às Laranjeiras uma equipe formada quase em sua totalidade por negros e mulatos:

campeao-36.jpg
Em pé: Floriano (técnico), Zezé Procópio, João Bala, Lôla, Florindo, Quim; na fileira de baixo: Paulista, Alfredo Bernardino, Guará, Nicola, Kafunga e Resende, este último, infelizmente, quase fora da foto.

PS: O Biscoito recomenda à nação alvi-negra uma visita diária ao Galo é amor, o mais ativo dos muitos blogs atleticanos.



  Escrito por Idelber às 05:41 | link para este post | Comentários (13)



sexta-feira, 15 de fevereiro 2008

Carta aberta aos senadores americanos

O texto é meu, mas está tudo na primeira pessoa do plural porque a versão que será publicada em inglês e enviada ao Senado será assinada por uma série de professores universitários. Na versão em português, embuti algumas explicações para facilitar a compreensão do leitor brasileiro.


Prezados Senadores dos EUA:

Atônitos, assistimos esta semana ao Senado dar seu aval, por duas vezes, a mais de cinco anos de espionagem ilegal do governo Bush contra cidadãos americanos. Como infelizmente já é de conhecimento do resto do planeta, a invasão de privacidade, a violação de correspondência, o grampeamento de telefones e o monitoramento de atividade eletrônica já viraram rotina nos EUA. O presidente admite que faz uso dessas práticas sem qualquer amparo na lei. O FISA – Foreign Intelligence Surveillance Act --, de 1978, detalha as condições sob as quais o governo pode legalmente monitorar a comunicação de cidadãos americanos por razões de segurança nacional, estabelecendo a obrigatoriedade de um mandado judicial concedido por um tribunal específico, composto por juízes anônimos. Nas dezenas de vezes em que a FISA foi emendada desde então, invariavelmente houve consenso no Congresso, tratando-se, na maioria dos casos, de adaptar a lei à evolução das novas tecnologias. Nas atividades ilegais do governo Bush, não só a FISA foi repetidamente desrespeitada; várias empresas de comunicação conspiraram junto com o governo, fornecendo a ele, ilegalmente, informações de caráter pessoal de cidadãos americanos cumpridores da lei.

O Senado teve a oportunidade de rejeitar essas práticas e reafirmar os parâmetros estabelecidos pelo FISA – os parâmetros da democracia e da liberdade -- como os únicos aceitáveis para o monitoramento de qualquer comunicação por razões de segurança nacional. Esse era, em essência, o conteúdo da emenda da Senadora Dianne Feinstein (D-CA): reafirmar a lei, à luz de seu sistemático descumprimento pelo atual governo. Apoiada por 57 senadores contra 41, ela não conseguiu os 60 votos necessários para a aprovação de emendas que foram objeto de obstrução (filibuster). Na prática, o Senado rasgou a lei e entregou ao governo Bush uma carta branca para a continuação de seu programa de espionagem contra cidadãos americanos. Para completar uma semana lamentável para a democracia americana, foi derrotada por 67 votos a 31 a emenda dos Senadores Russ Feingold (D-WI) e Christopher Dodd (D-CT), que eliminaria a inacreditável imunidade legal retroativa para as companhias telefônicas que colaboraram com o programa ilegal de espionagem. O Senado decidiu que, mesmo tendo atuado criminosamente, violando a privacidade e fornecendo dados pessoais sem ordem judicial, a lei não vale para elas. Não poderão ser processadas por esses atos.

Parabenizamos o Senador Christopher Dodd pelo seu inesquecível discurso em prol de nossa privacidade. Não terá sido em vão a fúria com que o Sr. defendeu a liberdade e a inviolabilidade da comunicação pessoal até altas horas da noite na tribuna do Senado. Não serão esquecidas suas palavras, que fecharam uma das derrotas mais dignas da história da Casa: Esta será uma daquelas decisões que, daqui a 30 anos, as pessoas olharão e dirão, que raios eles estavam pensando? Parabenizamos também a Senadora Dianne Feinstein pela luta incansável pela aprovação da sua emenda. Obrigado. A Sra. honrou o mandato que lhe conferiu o povo da Califórnia. Sua indignação ante a triste realidade da mais antiga democracia do mundo sendo corroída pela espionagem governamental e pela manipulação do medo tampouco serão esquecidas. Como o(a) próximo(a) presidente da nação será um membro do atual Senado, nos dirigimos aos atuais candidatos individualmente.

Senador Barack Obama (D-IL), obrigado por interromper a campanha eleitoral para participar nestas históricas votações do lado da liberdade e do direito à privacidade nos dois casos. Agradecemos o seu apoio à emenda Feinstein e à emenda Feingold/Dodd. Os seus votos a ambas nos dão esperanças de que esses direitos básicos serão restaurados num eventual governo seu.

Senador John McCain (R-AZ), lamentamos os seus votos contra as emendas Feinstein e Feingold/Dodd. Lamentamos que um homem conhecido por sua integridade não tenha ficado do lado da lei em duas votações nas quais estavam em jogo o direito dos americanos à privacidade em suas comunicações pessoais. O que aconteceu com o Partido de Lincoln, Senador? Como podem os defensores da individualidade e da livre iniciativa sancionar a espionagem ilegal contra cidadãos cumpridores da lei? Os seus votos contra as emendas Feinstein e Feingold/Dodd teriam envergonhado Lincoln e Einsenhower.

Senadora Hillary Clinton (D-NY), lamentamos a sua ausência nestas que foram duas das mais importantes votações da história recente do Senado. Lamentamos que algumas horas antes de seu discurso de campanha em defesa da democracia, esta tenha sido solapada no Senado com a ajuda decisiva de sua abstenção. Não era possível reservar 3 horas para deslocar-se e votar em favor da inviolabilidade de nossas comunicações pessoais em face do crescente monitoramento ilegal? Tememos, Senadora, que não tenha sido pela falta de tempo. Suspeitamos que sua recusa a votar as emendas Feinstein e Feingold/Dodd tenha algo a ver com sua condição de senadora democrata que mais contribuições recebeu das companhias telefônicas parceiras da espionagem do governo Bush. Tememos que sua recusa a nos apoiar nesta mais justa das causas advenha de sua conhecida associação com lobistas das empresas telecom. A Sra. acaba de entrar para a história como a única senadora democrata a não ter votado contra a espionagem ilegal do governo Bush.



  Escrito por Idelber às 04:55 | link para este post | Comentários (47)



quinta-feira, 14 de fevereiro 2008

Sobre blogs e spam

Pode ser que eu esteja errado, mas acredito que tem chegado a este blog, nos últimos tempos, um tipo diferente de leitor. Trata-se de um leitorado que acompanha blogs hospedados em grandes portais (Globo, Abril, UOL, IG) e que não possui ainda muito traquejo com blogs artesanais, pessoais. São leitores que não estão exatamente inseridos numa conversa entre blogs, mas num Fla x Flu cada vez mais raivoso entre apoiadores e detratores do atual governo brasileiro ou, o que infelizmente dá na mesma, apoiadores e detratores do governo passado. Aos que chegam, um aviso: este blog não é parte desse Fla x Flu.

O Biscoito denunciou o mensalão no primeiro dia, criticou a delubianização do PT e, meses depois, apoiou a campanha da reeleição do presidente Lula. Ridicularizou a xenofobia do deputado Aldo Rebelo e apoiou a série de denúncias que o jornalista Luis Nassif vem arrolando contra a Revista Veja. Morre de rir de blogs que não conseguem enxergar neoliberalismo na América Latina, mas continua lendo-os (e linkando-os) com gosto e proveito. Criticou o oportunismo de José Serra mas, no episódio dos cartões corporativos, concorda integralmente com um colega blogueiro que declarou voto em Serra. As razões para estas posturas estão amplamente explicadas nos arquivos. Se alguém vê nelas uma “contradição”, paciência.

Posso estar errado de novo, mas acho que o caracteriza esse leitorado que vem dos grandes portais e do interior desse Fla x Flu é uma certa sensação de direito adquirido, o que chamamos em inglês sense of entitlement. Explico, então, pela milésima vez o que qualquer blogueiro sabe: num blog pessoal, não existe “censura”. Se eu lhe impedisse de abrir o seu próprio blog, isso sim, configuraria censura. Este blog não é uma democracia. É um espaço editado. Procuro, em geral, responder os comentários, mas também me dou o direito de ignorar o que acho que deve ser ignorado e apagar o que acho que deve ser apagado. A tolerância com comentários discordantes aqui é bem ampla, como podem atestar vários leitores que estão à direita de Médici e que continuam lendo e comentando neste blog inequivocamente esquerdista.

Mas se, por exemplo, num post sobre o Atlético-MG, você ofender a Massa, terá seu comentário apagado. Se, num post sobre a decadência da Fox, você me fizer uma pergunta agressiva que pressupõe incompreensão do que está escrito no post e que parte da incrível premissa de que as cadeias de TV americanas são de “esquerda”, não adianta ficar bravinho por ter seu comentário ignorado. Este aviso vai para uma parte ínfima do público que chega. A todos os demais, boas vindas. Se você chegou via blogs de jornalistas dos grandes portais, ou via alguma menção ao Biscoito num veículo de grande porte, reitero: bem vindo mas, por favor, entenda que este blog tem mais de três anos de história, é parte de uma conversa que se gesta há tempos entre uma rede de blogs e não se pauta pela premissa de que eu tenha a obrigação de responder perguntas agressivamente colocadas, como se o idelberavelar.com fosse uma espécie de cadeia de TV paga com dinheiro público.

Nos últimos dias, comecei a receber spams de uma geringonça chamada “Credibilidade e Ética”. Trata-se de uma colagem de textos os mais estapafúrdios, como por exemplo um inacreditável delírio que acusa FHC de ter recebido, em 1969, dinheiro da CIA via Fundação Ford. Sinceramente, quem confunde a Fundação Ford com a CIA deveria estar se informando melhor, não mandando spams. Esta recomendação vem de alguém que é insuspeito de ter qualquer simpatia por FHC.

Jornalistas de peso não deveriam incentivar seus leitores a mandar spam. Não há nada que irrite mais quem trabalha com a internet do que correspondências massivas e não solicitadas enviadas indiscriminadamente. Isso só corrói a credibilidade de quem manda. É importante que os jornalistas que chegam à internet oriundos dos grandes veículos entendam isso. Este blog está à esquerda de Miguel Rossetto, mas nem por isso vou deixar de denunciar a prática do spam só porque seus autores são pessoas que concordam comigo sobre a Reforma Agrária e as privatizações de FHC.

PS 1: Recentemente, dei uma atualizada no blogroll, incluindo vários blogs novos e eliminando links a blogs que estão fora do ar ou inativos (entendendo-se “inativo” como um blog não atualizado há mais de dois meses). É possível que algum link tenha sido perdido no processo. Se havia um link para o seu blog aqui no Biscoito durante a passagem do ano e esse link sumiu, me avise. A idéia não era deslinkar ninguém, mas manter o blogroll atualizado. As deslinkagens por incompatibilidade, digamos, ética, já foram feitas há muito tempo. Se o seu blog estava inativo e você voltou a blogar, avise também. O blig do Tão, por exemplo, tem cadeira cativa no meu blogroll no minuto em que ele voltar a blogar (por onde andas, Tão?)

PS 2:
A Gabriela Zago continua fazendo um trabalho que já a coloca, na minha opinião, entre os melhores blogs do Brasil.

PS 3: Confirmo que no domingo à noite coloco aqui um texto sobre Ariano Suassuna para preparar a discussão do Clube de Leituras sobre A Pedra do Reino, a se realizar na segunda-feira.

PS 4: Poxa, sai um artigo meu n'O Globo e ninguém me avisa? Alguém aí teria, por favor, um exemplar do jornal de sábado passado que pudesse me enviar? Eu pago, claro, as despesas com o correio. Quem me deu o toque foi a gentilíssima Chris Nóvoa, que anda com o blog temporariamente fora do ar.



  Escrito por Idelber às 07:09 | link para este post | Comentários (50)



quarta-feira, 13 de fevereiro 2008

As primárias do Potomac

Foram realizadas na noite passada as chamadas primárias do (rio) Potomac: os estados de Virgínia e Maryland e o Distrito de Columbia votaram para escolher o candidato democrata. Já se sabia que a vitória seria de Obama. A demografia lhe era favorável: a altíssima população afro-americana do Distrito de Columbia e a concentração de jovens em Virgínia garantia uma boa performance. Mas nem mesmo a campanha de Obama esperava a goleada que aconteceu. No post anterior sobre as primárias, eu citava uma pesquisa da Rassmussen que dava Obama por 55 x 37 na Virgínia, notando que os números poderiam estar exagerados, já que entre a população de trabalhadores blue-collar (proleta) da Virgínia, Hillary tinha boa penetração. E não é que os números da Rassmussen não estavam exagerados, e sim demasiado modestos? Obama ganhou a Virgínia por 64 x 35.

A goleada em DC foi 75 x 24 e em Maryland a diferença foi 62 x 35. A pior notícia para Hillary não é exatamente a diferença, mas a demografia dos votos. Em cada um dos grupos sociais em que Hillary vinha sistematicamente vencendo, Obama virou o jogo. 6 de cada 10 mulheres de Maryland votaram em Obama. 6 de cada 10 mulheres em Virgínia votaram em Obama. Na Califórnia, a vantagem entre o eleitorado latino havia sido chave para Hillary. Em primeiro lugar, acredito eu, porque eles se lembravam da administração de Bill Clinton, onde pela primeira vez os latinos tiveram postos de liderança. Em segundo lugar, pelas conhecidas tensões existentes -- em alguns lugares -- entre negros e latinos. Pois, na Virgínia, Obama carregou o voto latino com quase 60%. Há que se conhecer os EUA para saber a revolução que representa isso. Por pura curiosidade, passei a procurar informação sobre os eleitores de mais de 60 anos de idade, que era o único grupo social em que Hillary ainda ganhava de Obama em qualquer estado. Até mesmo com os velhinhos, entre os quais Hillary costumava vencer com mais de 30 pontos, ela perdeu. Todos os grupos que constituíam a base da candidatura de Hillary vão migrando para Obama.

Para piorar a situação de Hillary, a campanha entrou em parafuso. A coordenadora foi despedida. No seu discurso de ontem à noite no Texas, ela quebrou pela segunda vez uma longa tradição da política americana, ao não oferecer os parabéns a Obama pelas vitórias e nem mesmo agradecer aos seus voluntários no Potomac. Discursou como se não tivesse havido primárias na noite de ontem. Para quem, como eu, acompanhou cinco campanhas presidenciais americanas, é sinal de que o lateral-esquerdo já está na direita levantando chuveirinhos para o volante cabecear: confusão total. Minhas fontes dentro da campanha de Hillary são poucas, mas são unânimes: pegou mal, muito mal. A aposta de Clinton é clara neste momento: ganhar no Texas, em Ohio e na Pensilvânia. Mas na terça-feira que vem falam os eleitores de Wisconsin onde, pelo que parece, Obama já virou o jogo.

Agora Obama já tem uma vantagem de mais de 100 votos sobre Hillary entre os delegados conquistados democraticamente, nas primárias. Como a estas alturas já sabem os leitores do Biscoito, 20% da convenção democrata vem de “superdelegados” -- parlamentares e burocratas no partido -- nos quais Hillary tem maioria. Mas pela primeira vez nesta campanha, Obama já vence no cômputo geral até mesmo depois que consideramos os superdelegados (veja aqui e aqui). Para piorar a situação para a senadora de Nova York, cresce entre os democratas a sensação de que os superdelegados não podem reverter a vontade dos eleitores. Um a um, os superdelegados vão migrando para Obama.

PS: Amanhã, aqui no Biscoito: um texto sobre o que eu considero a votação mais importante do Senado americano nos últimos dez anos – surpreendentemente ignorada pela imprensa brasileira.



  Escrito por Idelber às 02:09 | link para este post | Comentários (19)



segunda-feira, 11 de fevereiro 2008

Por que não engulo Hillary Clinton, por Ana Maria Gonçalves

Hoje quem escreve o post é a patroa.

Em 2005, Idelber e eu passamos um mês no Chile, exatamente quando tudo apontava que Michelle Bachelet seria a primeira mulher a assumir a presidência daquele país. Coincidentemente, eu também estava na Argentina no dia da posse de Cristina Kirchner, e voltei animada para os Estados Unidos, diante da perspectiva de acompanhar a caminhada de mais uma mulher rumo à presidência. Hillary Clinton, aliás, tinha uma trajetória bastante parecida com a de Cristina: ambas eram senadoras e tinham sido primeiras damas (na verdade Cristina ainda o era quando foi eleita, sendo empossada pelo marido, o ex-presidente Nestor Kirchner).

Embora um dos meus grandes dilemas seja a incapacidade de me entregar completamente a alguma causa ou ideologia, por inércia ou falta de paciência, ou mesmo falta de desprendimento, estava torcendo pelo que seria uma grande vitória feminina. Estava torcendo por Hillary Clinton. A vitória dela representaria para mim um grande prazer, um quase capricho, um afago no ego coletivo feminino, do qual faço parte. Mas não só isso, pois também seria um fato importante ter uma mulher na Casa Branca, dada a atual conjuntura política e econômica do país e sua relação turbulenta e atravessada com o "resto do mundo". Seria interessante ver uma mulher mudando tudo isso e, quem sabe, abrindo caminho para outras mulheres.

Mesmo não votando aqui, eu queria me identificar com Hillary Clinton. Fiquei bastante frustrada quando não consegui, quando não me senti tocada pela presença ou pelas palavras dela, naquele tipo de empatia que é tão importante num primeiro momento. Eu tinha vontade de me identificar com a pessoa que eu achava que ela era: forte, inteligente, corajosa, determinada e prestes a alcançar o posto mais alto dentro da carreira que escolheu. Eu tinha dela a imagem de uma mulher que faz e acontece, e eu gosto de aprender com mulheres que fazem (ou fizeram) e acontecem (ou aconteceram). Tenho vários exemplos na família e escrevi um livro de mais de 900 páginas sobre a vida (inventada, está certo) de uma delas. Mas não consegui gostar do discurso de Hillary Clinton, não me senti representada por ela. E resolvi tentar descobrir o porquê.

Minhas impressões e descobertas:

- Hillary mal consegue deixar de admirar a si e a suas vitórias, passando a impressão de que ninguém precisa ir atrás de mais sonhos e mais conquistas, pois ela está lá, prestes a realizar o sonho mor que, generosamente, vai compartilhar com todos.

- Hillary não consegue se comunicar com pessoas que não tenham um perfil parecido com o dela. Não é por falta de esforço, mas porque tem um discurso muito autocentrado. Fala durante alguns minutos sobre um projeto coletivo de governo e todo o resto do tempo sobre um "eu" que parece ter mais importância que tudo no mundo. É sempre um "eu" fiz, "eu" farei, "eu"quero, "eu" preciso, "eu", "eu", "eu" qualquer coisa, e um "nós" de vez em quando, provavelmente ao seguir o script tantas vezes ensaiado para esse momento.

- Hillary acha que estar na Casa Branca é um direito adquirido, apenas pelo que já fez no passado.

- Hillary não tem o menor pudor em distorcer fatos, acrescentar dados e omitir informações quando percebe que pode se beneficiar da situação criada, como fez naquele caso em que acusou Obama de não ser um verdadeiro democrata.

- Hillary é capaz de continuar representando situações que tiveram certo impacto e montando teatrinhos, seja fingindo choro em mais duas situações depois daquela de New Hampshire, seja contratando (ou deixando contratar, tanto faz) aqueles rapazes que seguraram cartazes com os dizeres "Iron my shirt!", apenas para levantar a bandeira do sexismo.

- Hillary não consegue entender o que os americanos querem dizer quando clamam por "change". Essa mudança se refere ao modo de fazer política, mais que a qualquer outra coisa. É claro que uma mulher no comando da Casa Branca já seria uma grande "change", mas não vejo "change" numa líder política à moda antiga, corrompida pelo sistema.

- Hillary não vê nenhum problema em se comprometer com doações feitas por lobistas ou em chamar para si bons feitos alheios.

- Hillary é mestre em tentar agradar a gregos e a troianos, como no caso da carta de motorista para imigrantes ilegais, assunto no qual ela já mudou de lado tantas vezes que já nem mais sei se continua contra, ou a favor, ou muito pelo contrário. Na verdade ela não defende opiniões próprias, pois está sempre preocupada com o que possíveis eleitores vão pensar, ou deixar de pensar, ou muito pelo contrário também.

- Hillary quebra acordos com a mesma facilidade com que os faz. No caso das primárias na Flórida e em Michigan, por exemplo, foi feito um acordo para que nenhum dos candidatos fizesse campanha por lá. Os delegados desses estados não teriam poder de voto na escolha do candidato na convenção do partido, pois anteciparam as datas de suas primárias para que tivessem mais influência no resultado final. Todos os candidatos concordaram com isso, inclusive a Hillary. Mas ela foi a única a fazer campanha nos dois estados e a esquecer de mandar tirar seu nome das cédulas (é interessante que em Michigan, mesmo como candidata única, ela quase perde para os "uncommited"). Ganhou nos dois e agora diz que vai entrar na justiça para validar suas "vitórias".

- Hillary é covarde, ou então nos chama de burros quando fala de sua posição quanto à guerra. É orgulhosa demais para reconhecer que errou ao assinar a autorização para a invasão do Iraque. Muitos dos que a assinaram junto com ela já reconheceram o erro, como foi o caso de John Edwards. Ela diz que não errou, que continua absolutamente certa de que era a melhor decisão que tinha a tomar naquele momento com os dados de que dispunha, e que depois foi enganada por Bush. Bem, isso quase me dá o direito de pensar que ela não será esperta o suficiente para não cair em armadilhas similares, caso ocupe um dos cargos mais importantes do mundo. Ou então, ela acha que não sou esperta o suficiente para desconfiar de uma desculpa esfarrapada como essa. Todos sabiam que se iniciava ali uma guerra irresponsável, covarde, injustificada.

Vou parar por aqui, embora tenha certeza de que encontraria muitos outros motivos se continuasse pesquisando ou puxasse um pouco mais pela memória. Mas os aqui apresentados foram mais do que suficientes para me deixarem feliz por não me identificar com Hillary Clinton. Se votasse aqui nos EUA e votasse nela, estaria aprovando tudo isso aí acima. Por isso, eu fico um pouco incomodada quando leio textos como esse ou esse, que querem fazer com que eu me sinta uma menina inocente, manipulável e bobinha ou uma grande traidora alienada, por ser mulher e não apoiar uma mulher num momento tão importante. Não, eu realmente não quero me sentir obrigada a apoiar uma mulher apenas porque se trata de uma mulher, porque eu preciso de um pouco mais que isto. Eu preciso, no mínimo, de confiar nela; e na Hillary eu não confio.

Não há como deixar de admirar mulheres como as autoras dos textos que citei, e estar eternamente agradecida, pois, com certeza, sem a dedicação delas ao movimento feminista, minha vida seria muito diferente do que é hoje. Mas não consigo concordar com seus argumentos. Entendo o quanto a eleição da Hillary seria uma coroação, uma validação de tantos anos de trabalho, luta, revolta e entrega. Eis aqui algo que eu também queria ver: uma mulher na Casa Branca. Mas não a Hillary Clinton. Acredito que sua nomeação como candidata democrata será um tiro no pé do movimento feminista, pois ela levaria uma lavada do candidato republicano, fazendo com que qualquer mulher que chegue onde ela está agora tenha que se esforçar muito mais para provar que merece estar lá, para provar que não é nenhuma Hillary Clinton.

*****

Na verdade, a idéia deste texto era explicar por que sou a favor de Obama mas talvez a decepção com Clinton tenha feito com que, hoje, eu veja mais motivos para não apoiá-la do que para apoiar Obama. Foi quase um desabafo. Não tenho a menor idéia se Obama será um bom candidato ou um bom presidente, mas aquilo de que gosto nele e nem cheguei a vislumbrar nela é a capacidade de mobilizar e de fazer as pessoas acreditarem que sonhos são possíveis, que mudanças são viáveis e estão ao alcance de todos. A impressão que dá é que as pessoas querem mudar este cenário contaminado e velho representado por Hillary, com o apoio de Obama. E estão dispostas a ajudá-lo e a cobrá-lo, caso ele não esteja à altura de suas expectativas. Então, para dizer por que torço por Obama, deixo esse link e endosso esse vídeo maravilhoso (que também está transcrito aqui).



  Escrito por Idelber às 06:47 | link para este post | Comentários (58)



domingo, 10 de fevereiro 2008

Goleadas de Obama em Washington, Nebraska e Louisiana

A primeira sensação que tive durante a votação aqui na Louisiana estava correta – o comparecimento às urnas foi menor que o esperado, embora o Partido Democrata tenha continuado a tradição de levar bem mais gente para votar este ano que os Republicanos. Pelo menos algumas centenas de afro-americanos foram impedidos de votar por terem sido misteriosamente registrados como Independentes e não como Democratas, mesmo tendo clara memória de que seu registro não era esse. A segunda sensação estava errada. Eu achei que a diferença pró-Obama não seria tão grande. Terminou sendo bem maior que a prevista. Obama levou a Louisiana por 57% a 36%, uma goleada superior às mais otimistas previsões feitas pela campanha do senador de Illinois. Aqui em New Orleans, foi um massacre de 3 x 1. Obama teve 34.267 votos contra 10.239 de Clinton. As goleadas também foram superiores às esperadas nas assembléias de Washington (68% a 31%) e de Nebraska (68% a 32%). Nas Ilhas Virgens, Obama teve praticamente 90% dos votos e levou os 3 delegados da minúscula delegação do arquipélago.

Com margem de erro de um pra cá ou pra lá, Obama conquistou 52 delegados em Washington, 32 na Louisiana e 16 em Nebraska. Hillary levou 26 em Washington, 24 na Louisiana e 8 em Nebraska. No momento, portanto, a contagem dos delegados conquistados pelo voto – excluindo-se os superdelegados, que são os biônicos que podem mudar de idéia a qualquer hora – Obama tem 1.012 contra 940 de Clinton (no momento em que escrevo este post, a CNN ainda não atualizou todos os números; veja aqui e aqui). Se você vir uma alguma fonte apresentando a senadora de Nova York na frente, trata-se de uma contagem que inclui os tais superdelegados, onde ela tem uma substancial vantagem até agora. As próximas primárias acontecem na terça-feira, no Distrito de Columbia (onde fica a capital do país), em Maryland e na Virgínia. Hoje se reúnem as assembléias de Maine, estado branquíssimo onde a coisa parece estar pau a pau. Em DC e em Maryland, a expectativa é de vitória relativamente tranqüila de Obama. Na Virgínia, até há pouco tempo, havia empate técnico, mas tudo indica que a trajetória de Obama é ascendente também por lá. A última Rassmussen já dava 55 a 37 para Obama, mas o número pode estar um pouco exagerado.

Hillary pode superar a diferença pró-Obama nos grandes estados de Ohio, Pensilvânia e Texas, onde ela tem expectativa de vitória. O problema para ela é que várias semanas com manchetes anunciando vitórias seguidas de Obama podem criar um clima difícil de se reverter. Ohio e Texas só votam no dia 4 de março, e a Pensilvânia no dia 22 de abril (veja o calendário completo). Tampouco nesses estados, onde ela era favorita disparada há poucas semanas, a coisa será fácil: o maior jornal de Ohio acaba de endossar Obama.

Um cenário que alguns analistas vêm imaginando – e que a direita republicana saliva de alegria ao escutar – é que é perfeitamente possível que Obama chegue na convenção com mais delegados eleitos que Hillary, mas que ela tire a diferença nos superdelegados e conquiste a indicação. Isso significaria, na prática, que o Partido Democrata estaria escolhendo um candidato pelo voto da burocracia, contra a vontade de seus eleitores. É impossível prever quais seriam as reações caso isso ocorresse. Por exemplo, uma analista da CNN e superdelegada do Partido Democrata à convenção, a new-orleaneana Donna Brazile, já declarou que se os superdelegados escolherem o candidato, ela abandona o partido.

O outro cenário é que os superdelegados – que são, na sua maioria, gente que também terá que se submeter às urnas para renovar seus mandatos de deputado, senador etc. -- se recusem a contrariar a vontade dos eleitores e entrem no trem-da-alegria do candidato que tiver mais votos.

O outro cenário seria engraçadíssimo: que o candidato do Partido Democrata seja decidido na primária de Porto Rico, que se realiza em junho. Teríamos a hilária situação de ver o candidato democrata escolhido por cidadãos de um território que não tem direito a voto nas eleições presidenciais americanas.

Uma coisa é certa: a disputa ainda promete muita emoção e vai levar o intrincado sistema de primárias norte-americano ao seu limite.

PS: O lado republicano não se cansa de dar demonstrações de desconforto com seu virtual indicado, John McCain. O carolão-que-se-recusa-a-sair, Mike Huckabee, ganhou de lavada nas assembléias de Kansas e também venceu na Louisiana.

Atualização: Tem entrevista comigo sobre as eleições americanas lá no Imprensa Marrom.



  Escrito por Idelber às 04:31 | link para este post | Comentários (45)



sábado, 09 de fevereiro 2008

Notícia rapidinha do front

Aqui na Louisiana o comparecimento às urnas parece ter sido baixo. É má notícia para Obama, que esperava uma avalanche de votos em New Orleans. Se essa impressão minha se confirma, haverá que se procurar uma explicação, porque faz um dia lindo em New Orleans. A burocracia partidária estava lá em peso, religiosamente fazendo tudo para que o menor número possível de gente votasse.

Obama vence, mas não pela diferença esperada.

É só um palpite, por enquanto.

11:27: Vitória de Obama nas assembléias de Nebraska: 69% dos votos, com 3/4 dos distritos já computados.

11:38: Vitória de Obama nas assembléias de Washington. 67% dos votos, com 1/2 dos votos computados.

0:06: Vitória de Obama nas primárias da Louisiana. A margem, no momento, é 52 x 39. Os números são atualizados a cada minuto aqui.

1:43: Obama vence as Ilhas Virgens com quase 90% dos votos.



  Escrito por Idelber às 19:00 | link para este post | Comentários (5)




Galo aos sábados: 1926-1929

A equipe atleticana retratada abaixo foi a responsável pela quebra da mais longa seqüência de títulos estaduais da história do futebol brasileiro. Junto com o ABC-RN, o América-MG é o único clube a jamais ter conquistado um decacampeonato. Em Minas, isso aconteceu na época do amadorismo, de 1916 a 1925, logo depois do título pioneiro do Galo em 1915.

Depois disso, o Atlético-MG nunca mais passaria por uma seca igual. A equipe de 1926 colocou o Galo no rumo da hegemonia que o clube jamais voltaria a ceder: o de maior campeão mineiro. O título de 1926 foi surpreendemente fácil, considerando-se o jejum de uma década. Foram 10 jogos; 8 vitórias, 1 empate, 1 derrota. 42 gols pró e 19 contra. O artilheiro foi Mário de Castro, o primeiro grande ídolo atleticano, com 20 gols. Eis aí os bicampeões de 1926-27, com destaque para o sensacional penteado de Neném Aluoto:

campeao-26.jpg
Da esquerda para a direita: Getulinho, Franco, Ruy Lage, Jairo, Getúlio, Neném Aluoto, Calígula, Ivo Melo, Amador, Mário de Castro, Cardoso, Chiquinho e o diretor de futebol Adelino Testi. A foto é do legendário Joanésio Moreira.

O bicampeonato de 1927 também foi conquistado de forma avassaladora: 12 jogos, 10 vitórias, 1 empate, 1 derrota. 58 gols a favor e 18 contra. Mário de Castro de novo foi o artilheiro, desta vez com 27 gols. Naquele ano, dois jogos ficaram imortalizados. No dia 26 de novembro, o Cruzeiro, então Palestra Itália, amargaria mais um momento da freguesia que o coloca hoje 40 vitórias atrás do Atlético em confrontos diretos. Mas naquele dia foi especial: 9 x 2, até hoje a maior goleada da história do clássico. Antes disso, no dia 04 de setembro, o Galo enfrentara o Vila Nova no temido campo de Nova Lima. Saíra para o intervalo do jogo perdendo por 4 x 1. Os palestrinos comemoravam intensamente, pois se tratava da última rodada e mesmo um empate do Vila com o Galo daria o título ao Palestra. Mário de Castro se retirara para o vestiário sob intensas gozações dos vila-novenses. Diz a lenda que voltou possuído. Em 15 minutos, enfiou um, dois, três, quatro gols. Galo 5 x 4 Vila, Atlético bicampeão mineiro de 1927.

30 de maio de 1929 é outra data histórica para o Galo. Belo Horizonte era uma cidade de 40.000 habitantes e mais de 10% da população se reuniu num mesmo lugar. O Glorioso inaugurava o Estádio Presidente Antônio Carlos, para pouco mais de 5.000 pessoas, no quarteirão número 13 da 9a seção urbana, no bairro de Lourdes – hoje área nobre de BH, na época um deserto. O convidado do Galo foi o Corinthians, que saiu vencendo por 1 x 0. Mário de Castro empatou ainda no primeiro tempo. No segundo, Mário de Castro faria mais dois, Said marcaria o seu e o Corinthians diminuiria. Final: Galo 4 x 2, sobre aquele que era considerado por muitos o melhor time do Brasil. O juiz ainda anularia 2 gols do Galo.

O Galo venceu com Osvaldo, Chiquinho e Binga; Cordeiro, Brant e Ivo; Dalmy, Said, Jairo, Mário de Castro e Geraldino. Aí vai uma foto da inauguração, também de Joanésio Moreira:

1929.jpg

Fonte das fotos e informações: Atlético de todos os tempos, de Adelchi Ziller.


PS:
Em breve, no Galo aos sábados: a homenagem a uma grande atleticana que foi a maior de todas na carreira que escolheu.

PS 2: No domingo de manhã, o blog publicará informações e análise sobre os primárias democratas da Louisiana e as assembléias (caucus) de Washington e Nebraska.



  Escrito por Idelber às 01:57 | link para este post | Comentários (22)



sexta-feira, 08 de fevereiro 2008

My enemy's enemy....

Aí vai um post-bobagem, para desintoxicar um pouco da política americana:

1.O volante Bilu, ex-Atlético, é um dos seres humanos mais ruins de bola que já pisou o planeta. Mas de tanto ver a torcida pegar no pé do rapaz, ajudada pela infeliz oxítona do seu nome, eu me sinto tentado a me levantar e gritar o nome do sujeito na arquibancada.

2.Os Clintons traíram todas as bandeiras progressistas que poderiam ter traído nos anos 90. Com eles na Casa Branca, o Partido Democrata passou de 30 governadores em 1992 a 18 governadores em 2000, 258 deputados em 1992 a 212 oito anos depois. Hillary Clinton é a única candidata democrata a ter falado em guerra com o Irã. Mas de tanto presenciar o massacre sexista contra ela na mídia, dá até vontade de apoiá-la.

3.Tenho incontáveis críticas ao governo Lula, na política de alianças e na política econômica. Mas é só escutar os "argumentos" da oposição tucano-pefelê e da blogoseira anaeróbica que dá vontade de reforçar meu apoio.

4.O nível dos blogs literários de jovens escritores no Brasil realmente é muito baixo. Mas é só ouvir “jornalistas literários” -- uma espécie de eufemismo para designar leitores de orelhas de livro – pontificando sobre um suposto cenário apocalíptico na literatura que eu me sinto com vontade de publicar um post por dia louvando cada jovem escritor como o novo Guimarães Rosa.

Continuem vocês aí, leitores. Vale qualquer assunto. Eu não passo memes, mas adoraria, num futuro próximo, ler listas semelhantes dos meus camaradas Alexandre Inagaki e Hermenauta. E já imagino o que o Paraíba seria capaz de fazer com a idéia.

Atualização: O Hermenauta já respondeu, com a verve habitual.

Atualização II: Resposta brilhante do Paraíba.



  Escrito por Idelber às 08:57 | link para este post | Comentários (23)



quinta-feira, 07 de fevereiro 2008

Só um link

Hoje, só um convite: dediquem o tempo que passariam aqui a ler os posts atuais e os arquivos de um extraordinário blog: Palestina do espetáculo triunfante.

Não dá para descrever. Tem que ler. Aos poucos. Sem pressa. Com calma. Vai lá.



  Escrito por Idelber às 05:16 | link para este post | Comentários (8)



quarta-feira, 06 de fevereiro 2008

Acredito ter encontrado a fonte do erro da Folha

Levantei-me hoje bem tarde e li, estupefato, comentários de leitores que me chamavam a atenção para uma matéria da Folha de São Paulo que declarava vitória de Hillary Clinton na Super Terça e “noticiava” que “as chances de Obama diminuíram”. Como pode atestar qualquer pessoa que não more em Plutão e saiba usar a internet, tais “notícias” não condizem com os fatos. Sabendo que era um caso de erro e não de distorção deliberada, comecei a matutar acerca de qual seria a fonte do equívoco da Folha.

E não é que encontrei? Acho que encontrei, quero dizer.

Josh Marshall relata que ontem à noite viu uma manchete do New York Times que dizia que Obama estava “atrás” e colocava Clinton junto com McCain como os “vencedores” da noite. Josh pode errar, mas não mente. Garanto. Ele conta que a manchete foi retirada e substituída pela que agora se encontra no site e na versão em papel, que diz, mais ou menos, que Clinton e Obama “trocaram vitórias” -- o que é o correto. Obviamente, ele lamenta não ter feito o printscreen da manchete anterior.

Hohoho, de onde será que veio o erro da Folha?

Alguém sabe se é possível recuperar eletronicamente uma manchete que esteve no site do NYT durante poucos minutos, ou talvez um hora, ontem à noite? Impossível, correto?

Atualização: Ao contrário dos jornais brasileiros, a própria campanha de Clinton declara que não venceu a Super Terça.



  Escrito por Idelber às 17:37 | link para este post | Comentários (22)




Balanço da super terça e a guerra do spinning

É mais ou menos como os Campeonatos Brasileiros do final da década de 1970. Um time pode liderar estando atrás. Quem está na frente, ou quem “ganhou” a Super Terça, é uma questão que depende de seu interlocutor. Adotando o ponto de vista de como as coisas estavam há três semanas, não há como negar o enorme salto de Obama. Hillary liderava em praticamente todos os estados da Super Terça, com a exceção de Illinois. E Obama venceu em treze (Alaska, Alabama, Colorado, Connecticut, Delaware, Geórgia, Idaho, Illinois, Kansas, Minnesota, Missouri, North Dakota e Utah), enquanto Clinton venceu em oito (Arizona, Arkansas, Califórnia, Massachusetts, New Jersey, New York, Oklahoma e Tennessee), com o Novo México ainda indefinido às 6:50 de Brasília.

Mas Hillary também tem motivos para declarar vitória. Ela venceu em três dos quatro grandes estados (New York, Califórnia, New Jersey, perdendo só em Illinois) e abocanhou os estados “azuis”, que costumam votar nos democratas nas eleições gerais. Obama pode declarar que ganhou num número maior de estados, venceu nos lugares onde os democratas costumam perder para os republicanos e confirmou sua elegibilidade, vencendo em estados tradicionalmente racistas como o Alabama ou “brancos” como o Utah e o Idaho. Se consideramos “goleada” uma vitória com mais de 60% dos votos, Obama goleou em oito estados, enquanto Hillary goleou só em um (Arkansas). O número que realmente importa, que é o de delegados, está praticamente empatado.

Ainda é cedo para dizer que Obama virou o jogo, mas já não é correto dizer que Hillary é a favorita, como era indubitavelmente o caso até ontem. Isso, por três motivos: 1) o dinheiro. Obama levantou 32 milhões em janeiro, enquanto Hillary levantou 13 milhões. 64% dos doadores de Clinton chegaram ao seu teto legal. No levantamento de verbas para Obama, há um vasto campo de pequenos doadores, mobilizados via internet, que ainda têm muito gás. 2) a tendência geral do voto, que nitidamente favorece Obama, considerando-se que até muito pouco tempo atrás Hillary era a candidata considerada inevitável. 3) o calendário. As próximas primárias são em lugares onde a vantagem é de Obama. No próximo dia 09 de fevereiro, os democratas de Washington State (não a capital, mas o estado, que fica no extremo noroeste do país), Nebraska, Ilhas Virgens e daqui da Louisiana darão o seu pitaco. No dia 12, reúnem-se os democratas de Maryland, que tem a maior população negra do norte do país (28%) e de Virgínia, onde Obama é favorito. Do jeito que vai a coisa, é difícil imaginar que ela se defina antes da convenção.

A campanha de Obama, ancorada principalmente nos jovens -- homens e mulheres -- não cometeu, este ano, o erro cometido pela campanha de Howard Dean em 2004. O entusiasmo dos jovens em torno a Dean em 2004 acabou criando expectativas enormes e projeções irreais. Quando Dean perdeu a primeira primária, a de Iowa, acabou tendo que fazer um discurso exaltado para manter o ânimo dos apoiadores. O discurso pareceu grosseiramente anti-presidencial e a campanha desabou. Ao longo desta semana, as lideranças ligadas a Obama fizeram questão de estabelecer objetivos modestos: se ficarmos até 100 delegados atrás e conquistarmos alguns estados, estaremos em ótimas condições. O resultado é que com os números desta terça, a base sai com a sensação de vitória.

A emocionante contagem dos votos na noite passada registrou mais um gol da blogosfera sobre a grande mídia. Enquanto apoiadores de Clinton e de Obama roíam as unhas na contagem dos votos em Missouri, o site Político e a cadeia de televisão MSNBC declararam vitória para Clinton, já que ela liderava com 3% de vantagem (a prova está aqui, graças ao Gravata). Até o mestre Josh Marshall embarcou nessa. Às 02:59 eu coloquei uma atualização que basicamente dizia: vocês são irresponsáveis; os votos que faltam são todos de Saint Louis e Kansas City, áreas de Obama! Foi dito e feito. Obama virou. Fica aí a lição. Cuidado com as projeções da grande mídia, sempre.

No lado republicano, a grande história foi o carolão. A dúvida geral antes da Super Terça era se John McCain confimaria a indicação ou se o Barbie Mitt Romney conseguiria equilibrar o jogo. Não aconteceu nem uma coisa nem outra. Sem grana e sem mídia, o carola Huckabee, que quer emendar a constituição para que ela se adeque à Bíblia, ganhou em todo o sul do país. A nominação dificilmente escapa de McCain, que ainda lidera com folga, mas quem lhe deu o susto foi o carolão, não o Barbie.

PS: Meu muito obrigado aos leitores que animaram a caixa de comentários nesta noite. Foi muito bom :-)



  Escrito por Idelber às 05:34 | link para este post | Comentários (38)



terça-feira, 05 de fevereiro 2008

Cobertura em tempo real das primárias americanas

Este é o post que será atualizado várias vezes por hora com comentários e links sobre a Super Terça-Feira. Já estou a postos: dezenas de abas do Firefox abertas, televisão ligada entre a CNN, a MSNBC e a Fox, rádio na Air America e toneladas de informação para compartilhar. Coisa de junkie político, mesmo. Nesta noite, acompanhe também o blog do padrinho Pedro Dória que, como eu, está cobrindo em tempo real. Se houver comentários de leitores ou perguntas, tentarei dialogar ou responder aqui em cima, no post. Indicarei o momento de cada atualização com o horário de Brasília.

20: 59. Em primeiro lugar, o quadro republicano: é muito difícil que Mitt Romney, a última esperança do establishment conservador, consiga deter a avalanche John McCain. Entre democratas e republicanos, estes últimos são os únicos que podem sair da Super Terça com o candidato já definido. Seja o que for que aconteça no campo democrata, a noite de hoje pode terminar com um favorito, não com um candidato já ungido.

21:15: No campo democrata: há um ano, Hillary Clinton chegou a ter ares de candidata inevitável. Nos últimos meses, a Obamamania tomou conta de boa parte da base do partido. No momento, Obama tem 63 delegados e Hillary tem 48. Estes números são enganosos. Hillary ainda é a favorita. Na verdade, há algumas semanas a campanha de Hillary chegou a sugerir que a disputa terminaria hoje. Claramente, não será o caso. Para que assim fosse, ela teria que ter uma vantagem de 400 delegados hoje, o que não acontecerá. Para Obama, mesmo uma derrota por pequena margem hoje pode ser uma vitória. Daqui a quatro dias, as primárias democratas serão em Nebraska, Washington State, Virgin Islands e aqui na Louisiana. Esta última é um estado importante: são 67 delegados, e a vantagem de Obama aqui é nítida. Portanto, uma derrota por 100 delegados ou menos na noite de hoje não seria, para Obama, um desastre – especialmente considerando-se a questão do dinheiro, que vou tratar numa das próximas atualizações. O candidato democrata precisa assegurar 2.025 delegados. Veja este excelente guia do New York Times.

21:23: Califórnia, Missouri, New Jersey e Massachusets são estados onde a vantagem de Hillary era enorme (para ver as últimas pesquisas nestes e em outros estados, veja este post do Biscoito). Se Obama ganha um (ou dois) desses quatro estados, o impacto será considerável. Há que se registrar a diferença: em quase todas as primárias republicanas de hoje, quem vence o estado leva todos os delegados. Nas democratas, há uma combinação entre representação proporcional (pelos votos no estado todo) e "vencedor leva tudo" (dentro de cada distrito).

21:59: São duas as principais razões pelas quais o prolongamento do jogo favorece Obama. A primeira é óbvia: Hillary era a favorita inevitável há poucos meses e Obama é uma força emergente que, com certeza, tem interesse em prologar a disputa. A segunda razão é pouco comentada: 64% dos doadores da campanha de Hillary já chegaram ao seu teto legal. Este número, na campanha de Obama, é 40%. A diferença é importante. Clinton só levantou pouco mais de 10 milhões de dólares em janeiro. Obama levantou bem mais. Se o jogo se prolonga por muito tempo, o dinheiro passa a ser chave. Os doadores de Clinton são muito menos numerosos e contribuem em quantidades muito maiores – tendem a pensar na contribuição como uma compra de direitos e se frustram mais facilmente com as derrotas. Os doadores de Obama são herdeiros da mobilização de base via internet, que catapultou a campanha de Howard Dean em 2004. Uma boa performance de Obama nesta noite coloca o quadro financeiro em situação complicada para Clinton.

22:01: Fecharam as urnas na Geórgia. A CNN anuncia a vitória de Obama no estado.

22:22:
Na Geórgia, entre os negros: Obama 88 x 11. Entre os brancos: Clinton 61 x 39 (margem inferior à projetada pelas pesquisas). Entre os homens brancos, há empate, resultado superior ao esperado pela campanha de Obama. O senador de Chicago vencerá a Geórgia e, pelo que parece, com diferença maior que a esperada. Estou ansioso para ver o comparecimento em Atlanta e Athens. O estado é importante. São 87 delegados.

22:30: Quando começarem a chegar os números da Califórnia, uma coisa é certa: ou o Zogby ou a Survey USA vai ficar com cara de tacho. A diferença entre as projeções de cada instituto é absurda.

22:53: A grande história do dia (como notou o André) é a histeria da ultra-direita do Partido Republicano, inconformada com o fato de que o moderado John McCain, odiado por eles devido a iniciativas como a McCain-Feingold ou a McCain-Kennedy, provavelmente será o candidato republicano. Rush Limbaugh, o ultra-reacionário radialista, inimigo número 1 dos Clinton, declarou que apoiaria Hillary contra McCain, porque seria, segundo ele, melhor ter um inimigo claro na Casa Branca do que um Republicano que não é um conservador de verdade. Será uma delícia acompanhar esta história. Seria como ver Reinaldinho Azevedo apoiando Marta Suplicy!

23: 22. No lado republicano, a grande surpresa até agora é a performance de Mike Huckabee, o pastor carolão de Arkansas que quer emendar a constituição para que ela se conforme com a Bíblia. Huckabee vem liderando na Geórgia e no Tennessee, além de vencer na Virgínia Ocidental. John McCain, como previsto, vencerá em New Jersey. Veremos se o desenrolar na noite confirma a nominação de McCain ou se Huckabee embolou a coisa, criando uma corrida entre dois ou entre três.

23:25. Projeção de todos os canais: Hillary Clinton vence Oklahoma. Barack Obama vence Illinois. Nenhuma surpresa. Aguardemos a diferença, porque os delegados são indicados proporcionalmente.

23:29. Mitt Romney, o bonequinho de plástico, conseguiu vencer seu estado natal, Massachusetts, onde John McCain vinha ameaçando. Se não conseguisse, seria uma humilhação federal. Mesmo com este dado, e com as vitórias de Huckabee em alguns estados do sul, não acredito que a nomeação de McCain esteja ameaçada.

23:32. Primeira notícia não óbvia da noite: Hillary Clinton vencerá no Tennessee.

23:36: Os primeiros números do miolinho do sul do país (Oklahoma, Tennessee, Arkansas) não são bons para Obama. Se tendência continuar no vizinho Missouri, Cliton terá o que comemorar.

00:00: Até agora: Obama carrega Illinois e Geórgia. Hillary leva Tennessee, Oklahama e Arkansas.

00:21: Obama vence em Delaware.

00:31: Obama vence no Alabama, por margem maior que a esperada. Hillary vence em Nova York e em Massachusetts. Em Nova York, parece que a margem será grande, pois Obama não vai muito bem entre os latinos e Hillary conseguiu mais votos entre os negros do que o esperado. Foi muito sábio da parte da campanha de Obama não exagerar nas expectativas -- esse foi o erro cometido pela campanha de Howard Dean em 2004.

00:50.
Hillary Clinton leva New Jersey. Os vantagem de Obama nos arredores de Newark não foi alta o suficiente e o comparecimento nos subúrbios da Filadélfia -- área de Clinton -- foi bem significativo. Veremos como fica a divisão dos delegados.

01:07: Obama vence em North Dakota. Lá, não houve primárias, e sim um caucus. Obama lidera com 61%, com quase 90% dos votos apurados.

01:19: O Pedro Dória publicou mapas das vitórias de cada candidato. Alguns leitores -- por aqui pelo menos -- estão confusos. A alocação dos delegados é proporcional, ou seja, é de pouca monta saber quem ganhou onde se você não souber qual é a margem e qual a distribuição de delegados que ela determina. Inclusive, em alguns estados, é possível vencer o voto popular e não ter a maioria dos delegados.

01:22: Obama vence em Kansas.

01:24: Obama vence em Connecticut. É uma vitória psicologicamente muito importante, porque Hillary carregou todos os outros estados do nordeste do país (Massachusetts, New Jersey, Nova York). A vitória em CT era essencial para Obama.

01: 41:
Obama vence em Minnesota por margem que parece bem maior que a esperada. A coisa parece melhorar para ele à medida em que nos movemos para o oeste, depois de uma forte onda Clinton no começo da noite, impulsionada pelos estados do nordeste.

01: 51: Obama vence em Utah. Alabama e Utah escolhem um negro para representá-los numa eleição presidencial. Não dá para imaginar a importância histórica disso.

02:05:
Para quem quiser brincar de calcular os delegados.

02: 17: A expectativa é grande pelos resultados em dois estados: Missouri e Califórnia. Nesta última, a votação encerrou-se há poucos minutos. Em Missouri, Clinton ganha em todas as áreas rurais, mas Obama vence de goleada nas cidades: St. Louis e as imediações de Kansas City. Hillary lidera, mas St. Louis é famosa por contar os votos devagar. A importância de uma vitória lá é enorme. Se Obama vence em Missouri, fica em condições de brandir sobre Hillary a etiqueta de que ela só vence no Nordeste liberal.

02: 40: Acompanhe o pau a pau em Missouri.

02: 59: Vejam a irresponsabilidade do site Politico: já declararam Hillary vitoriosa em Missouri. Acontece que faltam 7% dos votos. Se Obama vencer por 57% neste universo, vira o jogo. E estes votos vêm de regiões onde ele tem liderado por 70%. Os caras não aprendem mesmo.

03: 02: No lado republicano, o carolão Huckabee, sem grana, sem apoio da mídia, leva Arkansas, Georgia, Alabama, Virgínia Ocidental, Tennessee. É o Huckmentum! Viva a Bíblia! O Barbie Romney apostou na chamada ao voto útil conservador contra McCain, dizendo que apoiar o carolão significava um endosso indireto ao "liberal" de Arizona. Mais uma vez, a chamada ao voto útil sai pela culatra.

03: 14:
Hillary Clinton vence em Arizona. Vitória esperada, neste estado que seguramente será "vermelho" (Republicano) em novembro.

03:19: Obama ultrapassou Hillary no Missouri. E agora, Politico? E agora, MSNBC? Sublinhe-se: ainda não estou declarando Obama vitorioso lá. Há votos de condados clintonianos (do interior) para chegar. Hillary pode virar o jogo de novo. Mas já deu para demonstrar a irresponsabilidade dos caras.

03:25: Hillary Clinton vencerá na Califórnia. É importantíssimo acompanhar qual será a diferença. Se ela não for muito grande, Obama sem dúvida sai da Super Terça em excelentes condições.

03:33:
Os primeiros números do Alaska apontam vitória enorme de Obama.

03:40: Em Idaho, Obama vence por 80 x 16. É a maior diferença da noite. Detalhe: a população negra de Idaho não chega a 1%. Há 12 mil democratas registrados no estado. Obama levou 14 mil pessoas a um comício recente em Boise.

03:56: Logo, logo, deve começar a guerra do spinning entre Clinton e Obama. Numa disputa emocionante e acirrada como esta, a Super Terça é, até certo ponto, uma guerra pelos direitos de distorção discursiva nas semanas que seguem. Obama já acumulou algumas vitórias além do esperado que lhe permitem direitos de spinning sobre o resultado. Clinton precisa virar o jogo em Missouri e dar uma goleada inesperada na Califórnia para ter algum elemento para o spinning.

04:10: O Biscoito declara Obama vencedor em Missouri, por diferença de alguns milhares de votos. Alô, Politico? Alô, MSNBC? Até você errou, Josh Marshall? Não viu que os votos que faltavam eram de Saint Louis e de Kansas City? O que é isso, cumpadi? Até meus leitores no Brasil sabiam que era cedo.

04:29:
Uma das principais líderes feministas dos EUA abandona a campanha de Hillary e abraça a de Obama.

04: 55: Resumão do dia. Clinton venceu em oito estados: Arizona, Arkansas, Califórnia, Massachusetts, New Jersey, New York, Oklahoma e Tennessee. Obama venceu em treze: Alaska, Alabama, Colorado, Connecticut, Delaware, Geórgia, Idaho, Illinois, Kansas, Minnesota, Missouri, North Dakota e Utah. Faltam dois elementos chave: quem vencerá no Novo México e qual será a diferença em favor de Hillary na Califórnia.

05:17: Aqui vai um cálculo da situação atual dos delegados democratas. Como se vê, pau a pau.



  Escrito por Idelber às 18:52 | link para este post | Comentários (104)




A decadência da Fox

Há uma história nesta campanha eleitoral americana que eu ainda não vi discutida no Brasil -- e que os fãs da revista Veja deveriam acompanhar com atenção. É o declínio paulatino da relevância e da audiência da Fox News, a outrora temida cadeia de televisão que redefiniu não só o jornalismo, mas a própria política norte-americana. A Fox conseguiu o que em 1996 parecia impossível: desbancar a CNN no negócio de notícias via TV a cabo, enquanto realizava a proeza de transformar o extremismo de ultra-direita em suposto centro do espectro político, com um slogan que era o troféu óleo de peroba do século: fair and balanced. Funcionou durante muito tempo e foi decisivo para o roubo de uma eleição presidencial americana (2000) e para o resultado da seguinte (2004). Parece não estar funcionando mais.

A partir de um chamado ao boicote liderado pelo site Fox Attacks e por vários blogueiros e ativistas progressistas, os candidatos democratas tomaram a difícil – mas, viu-se depois, acertada – decisão de ignorar o canal e não aceitar debater lá. Tratá-la como o que ela é, um canal de manipulação e doutrinação extremistas, não um veículo de notícias. Este ano, foi tudo morro abaixo para a Fox. O candidato queridinho da Fox, Rudy Nine-Eleven Giuliani, amargou uma humilhação atrás da outra nas primárias, perdendo até para o azarão Ron Paul. Teve que abandonar a corrida antes de ser esmagado dentro do seu próprio estado de Nova York, apesar de todos os esforços do canal. A estrela da Fox, o histriônico Bill O'Reilly, chegou a trocar empurrões com agentes do serviço secreto para tentar se aproximar de Barack Obama, humilhação impensável dois anos atrás. Depois da Fox excluir do seu debate o candidato anti-guerra Ron Paul, mesmo Paul tendo conseguido 10% dos votos em Iowa (quase o dobro do queridinho Guiliani), o todo-poderoso âncora da Fox, Sean Hannity, foi perseguido pelos seguidores de Paul aos gritos de Fox News sucks! (veja o hilário vídeo). Para piorar a situação, o ex-executivo da Fox, Dan Cooper, vem publicando trechos do livro em que conta toda a lama por trás do projeto do canal de notícias liderado por Robert Ailes, um sujeito capaz de ameaçar uma criança de 3 anos cujo único crime é ser filha de um jornalista que fez um retrato crítico do seu amado radialista de ultra-direita Rush Limbaugh.

O que os Democratas entenderam, finalmente, é que em alguns terrenos não vale a pena lutar. O resultado do jogo já está dado de antemão, como sabem os que já presenciaram os massacres manipulados que são as “entrevistas” da Fox com qualquer um que não compartilhe o extremismo bélico do canal. Que isso sirva de lição para os que acham válido conversar com determinados veículos, ao invés de seguir o exemplo dos incontáveis brasileiros que já tivemos o gostinho de um dia dizer ao telefone: Você é da Veja? Desculpe, com a Veja eu não falo.

Nas primárias de New Hampshire em 2004, mesmo sem qualquer oposição a Bush, a Fox teve 200.000 telespectadores a mais que a CNN na noite da primária democrata. Em 2008, com um campo de candidatos competitivos entre os Republicanos, a CNN teve 250.000 a mais. Dos dez debates mais assistidos desta campanha, cinco foram na CNN, só dois na Fox. O debate democrata da Carolina do Sul, transmitido pela CNN, bateu o recorde: foi o mais assistido da história das primárias americanas. O canal de negócios da corporação Fox, o Fox Business Network, que estreava com o intuito de fazer com a CNBC o que a Fox News fizera com a CNN, não consegue mais que ínfimos 6.300 telespectadores, ou 0,05% do mercado, bem longe dos 265.000 da CNBC (fonte).

A lição me parece clara: Fox subiu com Bush e está caindo com ele.

PS: Volto à noite, com a cobertura em tempo real das primárias democratas.



  Escrito por Idelber às 05:40 | link para este post | Comentários (58)



domingo, 03 de fevereiro 2008

O que eu quero saber também

Até que enfim há um texto imperdível, realmente indispensável para se ler no Daily Kos. Mcjoan se dirige às campanhas de Obama e Clinton com algumas perguntas: What I want to know.

A lista é perfeita. Foi completada muito bem neste e neste comentário. Este acréscimo é meu.



  Escrito por Idelber às 19:15 | link para este post | Comentários (6)




Guia completo da super terça-feira democrata

Aí vão algumas observações sobre o estado atual das pesquisas nos estados da Super Terça. Estas primárias democratas não serão do tipo “vencedor leva tudo”, mas também não são exatamente proporcionais. Na maioria dos estados, o vencedor de cada distrito leva a totalidade dos delegados do dito cujo. O saldo de gols, portanto, importa, mas vencer um estado por 60 x 40 não garante 60% dos delegados. Todos os gráficos abaixo foram retirados do Talking Points Memo e parte da minha análise também é baseada na do Josh Marshall, que tem sido um ótimo guia da campanha. Boa parte dos outros blogs democratas se perderam neste ano. A observação vale para os dois lados.

Alabama, 52 delegados: Hillary chegou a estar na frente por 20 pontos em algumas pesquisas, mas a situação atual é de empate técnico. A diferença caiu 10 pontos em uma semana. No Alabama, o eleitorado negro é parte significativa da primária democrata e há motivos para acreditar que a goleada de Obama na Carolina do Sul terá impacto por lá. A curva da pesquisa é clara:

alabama.png


Alaska, 13 delegados: Não há pesquisas. É um dos estados mais “vermelhos” (Republicanos) da União e os Clinton não são exatamente populares por lá. Tudo aqui é chute, mas eu cravaria um 8 x 5 ou um 7 x 6 para Obama.

Arizona, 56 delegados: O TPM está trabalhando com uma pesquisa que mostra Hillary na frente por 10 pontos, mas a Rassmussen de hoje já mostra 46 x 41, quase um empate técnico. A popular governadora Janet Napolitano apóia Obama e o congressista Raul Grijalva pulou do barco de Edwards para o de Obama. Este é um estado que você já pode cravar Republicano em novembro. McCain não perde lá de jeito nenhum. Nas primárias democratas, no entanto, o Arizona é importante. Escrevam aí: esta pesquisa do AZ Central, dando vantagem de 21 pontos para Hillary, está maluca.

Arkansas, 35 delegados: Não há pesquisas, mas é goleada de Hillary, claro. É o seu antigo estado. Bill Clinton lá é mais popular que Elvis Presley. A esperança da campanha de Obama é abocanhar alguns delegados graças à população afro-americana de Little Rock.

Califórnia, 370 delegados. Não há dúvidas: é o estado chave. Acompanhe com interesse qualquer movimentação de 1 ponto na Califórnia na terça-feira. Hillary chegou a estar na frente por 25 pontos. O gráfico abaixo mostra um 45 x 37, mas a Rassmussen de hoje já registra um empate técnico: 43 x 40 para Clinton. O dado mais interessante da pesquisa de hoje é que Edwards ainda consegue 9%, número que ele dificilmente manterá na terça, apesar de que seu nome ainda consta da cédula. A migração desses votos é decisiva. Para tornar a coisa mais emocionante, só 69% dos eleitores declaram ter certeza de seu voto. É um número baixo, considerando que estamos na antevéspera das primárias.

california.png

Colorado, 55 delegados
. Obama lidera por 2 pontos, ou seja, a situação é de empate técnico. Como o antigo prefeito de Denver, Federico Peña, só há pouco tempo declarou o apoio o Obama, seus números entre o importante eleitorado hispânico devem crescer.

Connecticut, 48 delegados
. Outro importantíssimo estado. Hillary teve enorme vantagem aqui, mas os apoios de Caroline e Ted Kennedy, do vizinho Massachusetts, sem dúvida tiveram seu impacto. A pesquisa que está manejando o TPM mostra empate, mas a Survey USA dá Obama 48 x 44. Não se assuste se essa diferença aumentar.

Delaware, 15 delegados
. Não há pesquisas.

Geórgia, 87 delegados. Obama está na frente por 6 pontos. Os negros representam 47% dos eleitores das primárias democratas. Ali é batata: quanto mais gente votar em Atlanta e na cidade universitária de Athens, terra do nosso querido REM, melhor para Obama. Quando mais gente votar nos subúrbios ricos e no meio do mato, melhor para Hillary.

georgia.png

Idaho, 18 delegados. Acreditem em mim: qualquer pessoa que disser que sabe o que vai acontecer lá está chutando.

Illinois, 153 delegados. Goleada fácil de Obama, senador pelo estado. É possível que seja a maior diferença de toda a Super Tuesday. Não se espante se Obama vencer com o dobro de votos de Hillary. Quanto maior for o comparecimento, evidentemente, melhor para ele.

Kansas, 32 delegados. Não há pesquisas, mas é o estado em que moraram os avós maternos de Obama e ele tem o apoio da governadora Kathleen Sebelius. O Biscoito aposta numa vitória de Obama por margem que pode ir de pequena até bem significativa.

Massachusetts, 93 delegados
. Estado importante, e não só pelo número de delegados. Hillary tinha uma vantagem imensa, mas o apoio dos nativos Ted e Caroline Kennedy fez toda a diferença. A Hassmussen ainda registra 43 x 37, mas a diferença vem caindo em ritmo vertiginoso. Se Obama vencer Massachusetts, será a virada do século. Comparável àquele 4 x 3 do Vasco no Palmeiras.

Minnesota, 72 delegados
. Há uma vantagem pequena de Clinton. Outra batata demográfica: Obama vence nas “cidades gêmeas” (Minneapolis e Saint Paul) e Hillary vence nos subúrbios ricos. As áreas rurais registravam forte apoio a Edwards e podem decidir a parada.

Missouri, 72 delegados
. Quadro muito parecido, com vantagem pequena para Clinton.

New Jersey, 107 delegados. A vantagem de Clinton aqui é bem grande. A pesquisa da Quinnipiac registra Clinton 49 x 32 Obama.

New Mexico, 26 delegados
. Não há pesquisas. Um espirro do Governador Bill Richardson aqui, para um lado ou outro, pode decidir a parada. Ele é bem popular.

New York, 232 delegados. Será uma vitória de Clinton, sem dúvida. Ela é senadora pelo estado. Mas o que se esperava era uma goleada e talvez não seja bem assim. A pesquisa da Rassmussen registra um 52 x 34. A curva é semelhante a dos outros estados, com crescimento de Obama, especialmente na cidade de Nova York. No norte do estado e nos subúrbios, é goleada de Clinton.

North Dakota, 13 delegados. Não há pesquisas. Sim, há seres humanos morando lá.

Oklahoma, 38 delegados. Vantagem bem significativa de Clinton. Edwards tinha muito apoio aqui e estava em segundo nas pesquisas, na frente de Obama. A Survey USA de 27/01 dava Hillary com 44%, Edwards com 27, Obama com 19. Para onde migrarão os 27 de Edwards é chave, claro. É bem possível que migrem majoritariamente para Hillary, aumentando ainda mais a vantagem sobre Obama.

Tennessee, 68 delegates. Vantagem bem razoável de Hillary. Tennessee deve seguir o padrão de outros estados do sul, com voto racializado. O eleitorado negro lá, no entanto, é bem menor que o da Carolina do Sul ou da Geórgia (representarão não mais que 23% das primárias democratas). Minha aposta é que Clinton leva, não sei por quanto.

Utah, 23 delegados. Num dos estados mais “vermelhos” (Republicano) e mais brancos (racialmente) do país, Hillary lidera com boa margem. Mas Obama viaja para lá amanhã. Deverá haver gente no comício que estará vendo, pela primeira vez na vida, um negro ao vivo fora da arena de basquete do Utah Jazz.

Como se vê, a tendência é de curva ascendente de Obama na maioria dos estados. Não se sabe se ela é acentuada o suficiente. O jogo estava 4 x 1 para Clinton no primeiro tempo. Estamos a 30 minutos do segundo e Obama já encostou, 4 x 3. Os quinze minutos finais serão eletrizantes. O Biscoito acompanhará, na noite de terça-feira, em tempo real.

PS 1: O custo das guerras dos Estados Unidos, em dólares de 2007.

PS 2: O blog deseja toda a sorte na casa nova ao Imprensa Marrom e ao Gravataí Merengue.

PS 3: Estou temporariamente sem acesso à Folha e ao Globo. Quem quiser, pode deixar algum comentário sobre a cobertura desses jornais.



  Escrito por Idelber às 06:22 | link para este post | Comentários (15)



sexta-feira, 01 de fevereiro 2008

A nova pesquisa Gallup

gallupjan30.jpg

Esta é a curva da pesquisa Gallup de intenção de votos nacional, feita no dia 30 de janeiro, entre os eleitores dos candidatos democratas. A outra pesquisa quentinha é da Califórnia: empate técnico.

(via o indispensável Talking Points Memo)



  Escrito por Idelber às 00:54 | link para este post | Comentários (7)