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segunda-feira, 18 de fevereiro 2008

Clube de Leituras: O Romance d'A Pedra do Reino

p-rein.jpgPublicado em 1971, o Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, de Ariano Suassuna, foi elogiadíssimo na época do lançamento e teve tiragens surpreendentes, considerando-se que a obra é tão longa e complexa. Ela tem um estatuto curioso na literatura brasileira: conta com leitores apaixonados, mas eles foram se tornando, ao longo dos anos, cada vez mais escassos. Não seria exagerado dizer que já se trata de um romance canônico, mas sua fortuna crítica não é exatamente extensa ou iluminadora. Aqui em Tulane, acabo de dedicar a ele três semanas de discussões com um grupo de 11 doutorandos, só dois dos quais são falantes nativos de português (um deles é o Alex). Tomara que eles não me desmintam na caixa de comentários, mas minha sensação foi de que ficaram fascinados com o livro.

Tentar defini-lo já é um baita desafio. Como uma epopéia, ele narra a história de guerreiros identificados com um povo. A épica se torna farsa, no entanto, já que os ideais que regem as batalhas parecem anacrônicos, às vezes cômicos e sempre meio divorciados da realidade. Como numa picaresca, a história é narrada em primeira pessoa por um sujeito destituído que deve legitimar-se ante uma autoridade. Como num romance de cavalaria, o herói deve restaurar uma ordem perdida, em meio a brasões, insígnias e todo um aparato de símbolos. Quaderna se declara nada menos que Rei do Brasil, herdeiro da verdadeira família real – não aqueles “charlatães” dos Bragança, diz ele. O pano de fundo d'A Pedra do Reino é esse secular delírio monarquista no sertão brasileiro.

A história é narrada por Pedro Dinis Ferreira-Quaderna em 1938, na prisão, acusado de ser parte de uma conspiração contra as autoridades constituídas. Para se defender, Quaderna volta um século, até a “primeira notícia dos Quaderna”, que se remonta à mítica pedra encontrada no Sertão do Pajeú, fronteira da Paraíba com Pernambuco. Depois de relatar a história de quatro Impérios dos seus antepassados no sertão – incluindo-se aí o terrível degolador Dom Ferreira-Quaderna, o execrável –, ele passa a reconstituir a sua própria trajetória, marcada por tentativas de restaurar esse sebastianismo sertanejo. Aí a obra entra em seus momentos mais cômicos.

Ariano Suassuna disse uma vez, numa entrevista – e com Suassuna você nunca sabe quando ele está falando sério –, que o Brasil verdadeiro se localiza entre a Paraíba, Pernambuco e Alagoas. Qualquer coisa a oeste do Rio Grande do Norte e ao sul de Sergipe já não é Brasil. É estrangeiro. O monarquismo de Quaderna se alimenta desse messianismo: ali no sertão profundo teria permanecido um núcleo mouro-ibérico heróico, não corrompido pelas frescuras do litoral burguês.

Quaderna tem dois hilários gurus, Samuel, monárquico, conservador e tradicionalista, e Clemente, negro-tapuia, popular e revolucionário. A filosofia de Quaderna é um amálgama dessas duas influências, que produzem um divertido híbrido: um monarquista de esquerda. Para Samuel, Dom Pedro II (o de Bragança) foi um liberal subversivo que feriu de morte, em favor da plebe, os feudos da Aristocracia brasileira. Clemente, por sua vez, não aceita os Cantadores, porque deviam colocar a Arte deles a serviço do Povo, desmistificando e denunciando a sociedade feudal do Sertão. Dessa tensão Quaderna deriva seu monarquismo de esquerda: meu sonho é fazer do Brasil um Império do Belo Monte de Canudos, um Reino de república-popular, com a justiça e a verdade da Esquerda e com a beleza fidalga, os cavalos, o desfile, a grandeza, o sonho e as bandeiras da Monarquia Sertaneja!

Ainda há incontáveis aspectos não estudados no livro, mas o que eu me animaria a analisar, caso escrevesse sobre o livro no futuro, seria o processo pelo qual um movimento monárquico e restaurador passa a representar anseios genuinamente populares. O livro se apóia numa estranha aliança de classes que une os mais miseráveis com os mais aristocráticos contra a superficialidade e a viadagem burguesas. Sertanejos e fidalgos teriam em comum o respeito pelos rituais e a compreensão do poder dos símbolos. Apesar do que pode parecer, não se trata de uma mensagem facilmente identificável como conservadora. Aliás, uma das questões que orientou nossas discussões em sala foi uma singela pergunta: até que ponto esses valores seriam algo que a obra está subscrevendo? Até que ponto eles seriam algo que está sendo ironizado no romance? A pergunta é simples. A resposta eu já não sei. A bola é de vocês.

PS: Este post e caixa de comentários são parte do Clube de Leituras do Biscoito. Este clube tem uma única regra: não pedir desculpas por não ser especialista ou erudito, não acanhar-se, não achar que sua opinião vale menos que a de ninguém. Fale à vontade, inclusive para criticar o livro. Cite seus episódios favoritos, coloque problemas para os outros leitores, participe como quiser.



  Escrito por Idelber às 04:06 | link para este post | Comentários (41)


Comentários

#1

POis é , o ano passado muito se falou sobre essa obra, o festejado Ariano Suassuna, comemorando seus 80 anos de vida teve uma adaptação da sua obra para a televisão, infelizmente a minisérie ficou conhecida como a obra-prima que ninguem quis assistir.A adaptação,texto do grande Braulio Tavares, e direção do Luiz Fernando Carvalho, pode , realmente ser considerado uma boa obra , destaque para a interpretação do ator Irandhir Santos, termino o meu comentário lembrando um poema do Ariano;

Aqui morava um rei

"Aqui morava um rei quando eu menino
Vestia ouro e castanho no gibão,
Pedra da Sorte sobre meu Destino,
Pulsava junto ao meu, seu coração.

Para mim, o seu cantar era Divino,
Quando ao som da viola e do bordão,
Cantava com voz rouca, o Desatino,
O Sangue, o riso e as mortes do Sertão.

Mas mataram meu pai. Desde esse dia
Eu me vi, como cego sem meu guia
Que se foi para o Sol, transfigurado.

Sua efígie me queima. Eu sou a presa.
Ele, a brasa que impele ao Fogo acesa
Espada de Ouro em pasto ensanguentado."

Bruno Fernandes em fevereiro 18, 2008 4:59 AM


#2

Idelber, levei tão a sério o comentário, desta vez, que ele virou um post (um postão!) lá no blog, e ainda inaugurou uma nova seção naquele espaço. Convido os colegas do clube a dar um pulinho lá também.

Beijos!

Alessandra Alves em fevereiro 18, 2008 8:47 AM


#3

Não vou desmentir o Idelber: esta leitura foi realmente uma surpresa e um prazer. O livro é fascinante em muitos aspectos, o que acaba compensando a má impressão de algumas partes enfadonhas, que no exagero de referências históricas irreconhecíveis, torturam o leitor com seus parágrafos intermináveis. Acho que a obra não perderia nada sem algumas delas, principalmente na segunda metade do livro, quando já entendemos o seu projeto, e estas acabam gerando momentos de anti-clímax, quebrando o ritmo gostoso da leitura. O talento cômico de Suassuna brilha n’A Pedra do reino e faz com que a gente pense em João Grilo como um mero ensaio para o grandioso herói picaresco que é Dom Pedro Diniz Ferreira-Quaderna.
Fiquei impressionada com a habilidade com que Suassuna brinca com diversos gêneros literários, como se estivesse se alimentando destes para desconstruí-los e assim erguer sua verdadeira obra do Gênio da raça brasileira. Assim, tanto seu castelo literário, como o povo castanho que o habita, representariam uma espécie de fusão criativa que se propõe a superar as qualidades individuais de cada elemento gerador. Foi pensando nisso que um dia durante a leitura me ocorreu uma semelhança com a utopia da raça cósmica de José Vasconcelos que se materializava ali nos cafundós do sertão nordestino, e não na Amazônia como propôs o mexicano. Creio que esta idéia surgiu porque em termos ideológicos o livro me parecia uma viagem no tempo e estávamos de volta à primeira metade do século XX tentando pensar o caráter nacional e o espaço do Brasil mestiço no mundo moderno.
Neste sentido, tentando responder à questão sobre o conservadorismo da obra, eu tenderia a considerá-la tão reacionária quanto o pensamento de Gilberto Freyre, quando visto de uma perspectiva atual (em muitas partes do livro é exatamente esta sensação de um absurdo anacronismo que leva ao cômico). Tanto Freyre quanto Suassuna deixam transparecer o elemento nostálgico autobiográfico que constrói uma visão idealizada de um passado feudal, antes da corrupção republicana aliada à superficialidade burguesa. Ambos contrapõe uma noção de autenticidade dos valores rurais à decadência da sociedade urbana. O patriarcado rural funciona neste contexto como único ambiente seguro para o povo desamparado, que necessita da proteção e da generosidade genuínas de um líder aristocrata, seja este para Freyre o senhor de engenho, ou para Suassuna, o monarca.
Falando em anacronismo, que dizer dos papéis de gênero no texto?! Dentro deste contexto de patriarcado rural, Suassuna apresenta as personagens femininas de maneira semelhante a que Freyre evoca o papel sexual das mulatas na construção do povo brasileiro. Chega a ser difícil pensar nas mulheres da obra como verdadeiras personagens, já que não são possuem nenhuma subjetividade, estando divididas entre os estereótipos de prostitutas e pecadoras ou de musas adoradas e etéreas. Neste universo nordestino masculino e machista, a mulher simboliza desde a morte Caetana até o perigoso Bicho Mundo, que sendo fêmea, torna a sobrevivência do Bicho Homem mais difícil.
Não tenho a pretensão de responder à questão sobre a equivalência da proposta da obra como projeto que reflete a visão de mundo do autor. Entretanto, termino meu comentário deixando a confissão de que tenho sérias suspeitas de que Suassuna acredita em muitos dos absurdos que nos apresenta... Lendo entrevistas do autor em que este expõe sua defesa de uma monarquia socialista e explica sua prolongada idealização da figura paterna (proprietário rural assassinado durante a revolução de 30), me pergunto se o riso e a ironia não funcionam aqui como humor carnavalesco, nos apresentando de alguma maneira sua visão alternativa e utópica da sociedade brasileira.

Luciana Monteiro em fevereiro 18, 2008 12:20 PM


#4

Eu também achei o Pedra fascinante e estou adorando a oportunidade de “participar do curso” do Idelber, através deste blog (já que moro na Flórida). Estou ansiosa pela próxima leitura. Muito obrigada, Idelber!

Já escrevi aqui que achei o começo do livro "pedregoso e espinhento", com muita informação despejada em cima da gente de uma só vez e de forma caótica. Precisei ler e reler, fazendo um resumo e uma lista de personagens. Eu disse também que o esforço inicial valeu a pena, porque o livro é delicioso, exuberante, colorido e - o melhor de tudo - extremamente engraçado. Reclamei da visão de mundo da obra: patriarcal, violenta, prepotente. E é disso que vou falar um pouco aqui.

Quando o Idelber diz que o livro é revolucionário, eu concordo com ele só quanto ao aspecto artístico. Para dar apenas um exemplo (entre tantos), a arte literária do Suassuna é tão espetacular que consegue transformar um defeito - um desenrolar narrativo “disforme” - em uma qualidade, fazendo dessa deformidade mais um charmoso elemento estético.

O problema é que a ideologia enfeitada por essa arte é reacionária. Para começar, a tal monarquia de esquerda, que o protagonista pretende representar numa obra literária (e que no final das contas acaba sendo a própria obra do Suassuana, que temos em nossas mãos), é uma contradição em termos. O que o Dinis Quaderna quer dizer com monarquia de esquerda não passa disto: o mesmo sertão miserável de sempre, fantasiado com símbolos monarquistas medievais. Esquerda, para ele, não tem nada a ver com justiça social, igualdade de direitos, socialismo de verdade. Tem a ver com o “povão” do jeito que ele é: oprimido por senhores feudais, miserável, machista, supersticioso - só que fantasiado, embandeirado, insigniado e toda essa coisa de escola de samba. Quaderna não é um esquerdista, e sim um monarquista paternalista e demagogo que valoriza o status quo popular miserável. A semelhança que ele e seu projeto artístico têm com Suassuna e seu movimento armorial não é mera coincidência.

O machista, demagogo e oportunista Quaderna naturalmente me caracterizaria como uma burguesa fresca e aviadada, por causa das minhas opiniões. Mas, como eu não vivo sob o efeito de vinhos alucinatórios, na minha “burguesa” opinião a miséria, a dominação, o machismo, a violência e a superstição não são bonitos nem nobres nem “régios” nem glamurosos: sempre foram, e continuam sendo, uma baixaria muito feia e condenável em qualquer época, em qualquer cultura e em qualquer lugar, seja na Europa da idade média, seja no sertão do Pajeú de hoje. Quem duvidar, que pergunte às vítimas da dominação e da miséria.

Uma das coisas que ilustram a visão patriarcal/prepotente do livro são as personagens femininas. Com exceção da tia Filipa e algum outro caso raro, a presença das mulheres está sempre associada ao sexo - que quase sempre envolve estupros, incestos ou “perversões”. Outra coisa que ilustra esse modelo patriarcal onde o homem poderoso domina todo o “resto” do universo é o uso de animais. Por exemplo, nos folhetos descrevendo as caçadas - que eu aliás achei bem tediosos - o sofrimento e a morte dos animais só importam enquanto medida da macheza do sujeito que está lhes causando sofrimento e morte; não há qualquer empatia, por parte desse sujeito, com relação ao interesse do animal em não sofrer e em não morrer. (Mas importar-se com o interesse dos animais é “burguês”, então não presta).

Há inúmeros exemplos bem mais óbvios de tentativa de embelezar, enobrecer - e de elevar à categoria de arte - a baixaria da violência, da miséria e da ignorância. Mas se eu for citar tais exemplos, vou ter de copiar praticamente o livro inteiro. Disso tudo, então, eu concluo o seguinte.

Talvez o principal mérito do autor, nesse livro, é o de ter conseguido transformar um projeto reacionário num livro revolucionário. Porque por mais aviltante que seja o projeto monarco-sertanejo (armorial?) de Dinis Quaderna (Suassuna?), a escrita é feita com um talento tão grande que o reacionarismo ideológico sai perdendo e a revolução formal sai ganhando.

Regina Rheda em fevereiro 18, 2008 1:00 PM


#5

"El amor, madre, a la patria/ No es el amor ridículo a la tierra;/ ni a la yerba que pisan nuestras plantas; /es el odio invencible a quien la oprime, /es el rencor eterno a quien la ataca;/ y tal amor despierta en nuestro pecho/ el mundo de recuerdos que nos llama/ a la vida otra vez, cuando la sangre,/ herida brota con angustia el alma;/ la imagen del amor que nos consuela,/ y las memorias plácidas que guarda!" (El amor, madre, a la patria de José Martí).


Que la pluma del talentoso Martí esgrimiera versos tan significativos, a la tierna edad de dieciséis años, nunca me ha dejado de asombrar de forma magna. No obstante, lo que me deja aún más estupefacta es que, exactamente un siglo después, la novela Romance d'A Pedra do Reino de Ariano Suassuna pareciera albergar en su esencia el mismo anhelo de los versos martianos: la creación de un auténtico proyecto nacional. Claro, que como bien nos muestra el texto, este proyecto nacional excluye del todo la integración legítima de la burguesía brasileña. Una burguesía que representa, para seguir haciendo uso de las palabras de Martí, “el odio invencible” y “rencor eterno” de ese Otro que oprime al “verdadero” Brasil. Entonces, ¿por qué proponer un “movimiento monárquico y restaurador” que asegure “representar los deseos/añoranzas genuinamente populares”? Creo que, en gran parte, la invocación y evocación de un pasado “común” (ya sea glorioso o no) intenta buscar en la semilla los elementos constitutivos del enigma en cuestión. Y puedo estar mal, pero el libro parece sugerir que es la aristocracia letrada quien debe lanzarse a la tarea de construir, de-construir e idealizar el modelo a seguir. Este modelo cultural propone enaltecer aspectos de la parte más decadente de la estratificación social. Si hemos de ver esta narrativa como una de deseo, entonces, pienso que el proyecto monárquico y restaurador del libro falla ipso facto. En este sentido, el propio proceso de escritura se convierte en un acto violento en donde la tinta asume y distorsiona la realidad social a su propio gusto. No sé para los demás, pero cuando acabé de leer el libro, no sentí que tenía en mis manos la esencia auténtica de un pueblo. Más allá de eso, pude experimentar el sinsabor de una hipótesis que nunca llega a la etapa de experimentación. Y creo que era de esperarse. Por ejemplo, el libro termina con un final abierto, la imaginación de Quaderna no pudo escapar de las garras de su realidad política y la propia estructura de la obra niega la integración y/o asimilación completa a ningún género literario. Supongo que la idea de una monarquía de izquierda sólo podrá mantenerse viva dentro del mundo anacrónico que cobra vida cada vez que un lector ávido comienza aventurarse por entre las páginas de esta novela. Y de igual forma, este ideal se quedará petrificado como legado inacabado una vez las últimas palabras del libro sean pronunciadas. Podría seguir comentando por indeterminado tiempo sobre esta rica y jugosa creación literaria. No obstante, quisiera dejarlos con una pregunta. Si asumimos que el libro no logra concretizar en sí mismo la implantación de un proyecto monárquico restaurador de forma exitosa, ¿podemos descartarlo del todo como símbolo genuino de la cultura popular brasileña? Quizás es el fatídico “no poder ser” del castillo literario (“pedregoso e espinheto”) de Quaderna el que nos refleja de forma inversa la esencia conflictiva de la identidad nacional brasileña…

Ana Villar em fevereiro 18, 2008 2:02 PM


#6

Pedra do Reino é um livro gostoso de ler porque, por mais que seja um romance “canônico” e cheio de grandes méritos literários, está cheia de linguagem é assuntos que o povo pode apreciar. Que mais gostei do romance é o uso de linguagem rítmico e poético, incorporando versos para contar as várias historias que se unem ao correr o livro. Eu podia facilmente imaginar as historias, contadas ao ritmo do violão, saindo da boca de algum repentista popular do nordeste. Suassuna consegue não só criar um livro que narra o processo pelo qual um movimento monárquico e restaurador passa a representar anseios genuinamente populares mas, também, ele escreve um livro que merece méritos dos intelectuais e também do povo comum. Isso é o grande logro da figura de Quaderna. Por mais que ele seja uma palhaçada, ele tem esse poder de “comunicar” com uma nação, uma entidade que é quase sempre divida por líneas de classe.
Você não tem que ser estudante de doutorado para gostar de ler esse romance. (Mas você, sim, tem que gostar de ler para poder chegar ao final de um livro de mais de 700 páginas. Especialmente quando vc não está lendo em sua língua materna!) Na verdade, para mim, o livro teria sido muito mais poderoso cortando a metade. Concordo com Luciana que eu gostei do livro a pesar das partes enfadonhas com parágrafos intermináveis, mas, acho que a obra seria muito melhor sem elas. Foi muito mais gostoso ler o começo do que ler o fim do romance por essa razão.
Para chegar nas perguntas de Idelber: até que ponto esses valores monárquicas seriam algo que a obra está subscrevendo? E até que ponto eles seriam algo que está sendo ironizado no romance? Para mim, Suassuna está bastante consciente de que as idéias monárquicas parecem uma loucura para os leitores...e até para ele não creio que ele realmente acredita completamente nas idéias de messianismo apresentadas no livro. Suassuna, sim, acredita em o poder dos mitos. Aristóteles falou “A friend of wisdom is a friend of myth.” Suassuna subscreve a essa idéia. A critica que eu vejo nesse romance é que o mundo “sano” está perdendo nossos contistas, nossa cultura oral onde mitos são a fábrica para a criação de uma sociedade. Não importa se Dom Sebastião está no nordeste ou não, ou que importa é que existe pessoas que acreditam e que esse mito guia a criação da cultura em alguma maneira.
Quando Suassuna falou que o Brasil verdadeiro se localiza entre a Paraíba, Pernambuco e Alagoas e que qualquer coisa a oeste do Rio Grande do Norte e ao sul de Sergipe já não é Brasil, é estrangeiro, ele está falando especificamente sobre os mitos sendo a fábrica de uma cultura. Ele está criticando a perdida dos mitos em outros locais.
Quaderna chega a ser a figura chave porque ele facilmente vive o mundo dos mitos e também o mundo intelectual. Ele, esse protagonista meio louco, é a união entre a classe popular e o erudito do Brasil. Com mitos, vc não deve levar todo a pé da letra. (Se tomamos a Bíblia como um texto literal em vez de um texto metafórico, por exemplo, já começamos a contradizer todo que realmente está escrito na Bíblia). Esse paradoxo é o grande logro dos mitos. Trabalha a construção de uma imaginação de um povo. Não é necessariamente a construção do povo mesmo.
Carpentier escreveu em seu livro Reino de Este Mundo que pessoas que não acreditam nos mitos/lendas de uma região já não podem entender as conseqüências desses mitos. Pedra do Reino nos mostra o poder dos mitos para as pessoas que acreditam neles e também nos mostra como esses mesmos mitos entram em conflito com nossa sociedade “real”. Quaderna é um verdadeiro visionário porque logra “viver” o mundo dos mitos e o mundo “intelectual”. A ironia do romance é que Quaderna perde a cabeça e vai preso navegando um mundo onde os mitos estão divorciados dos processos da sociedade. Aqui temos o grande conflito entre cultura popular e processos de desenvolvimento. Será que cultura "tradicional" é sempre em conflito com modernização?


Annie Gibson em fevereiro 18, 2008 3:33 PM


#7

Idelber,
antes de tudo, desculpas por não ser especialista ou erudito.)
Mas, mesmo acanhado, deixarei meus two cents. Meus, vírgula. O primeiro é de Drummond e, creio, resume a ligação Suassuna/Quaderna. Ei-lo: "Não é qualquer vida que gera uma obra desse calibre".
O segundo é a definição do próprio livro, que está na página 342: "É um romance heróico-brasileiro, ibero-aventuresco, criminológico-dialético e tapuio-enigmático de galhofa e safadeza, de amor legendário e de cavalaria épico-sertaneja".

Por falar em safadeza, na página meia nove da edição que tenho, há a seguinte e deliciosa malícia:
"Frei Bedegueba dizia
A freia Manzape em disputa
Que há uma espécie de gruta
Onde três não podem entrar
Só entram um. Ficam dois
Ajudando a trabalhar..."

Franciel em fevereiro 18, 2008 4:28 PM


#8

Em A Pedra do Reino, Suassuna dedica às tradições sertanejas um olhar erudito, afetuoso e ao mesmo tempo irônico. Com isso, ele fica à vontade para falar do que conhece profundamente, já que viveu sempre naquelas terras de Paraíba e Pernambuco, foi criado entre as crenças e desavenças políticas de seu povo, desavenças que afinal custaram a vida de seu próprio pai. Defendendo ou desconstruindo a cultura sertaneja nordestina, Suassuna sempre fala sua língua.
A Pedra do Reino é uma obra de luz própria, completa em si mesma. Sua visão de mundo é um retrato fiel das tradições míticas do sertão nordestino – a crença na volta de dom Sebastião, a figura de um predestinado (Senésio, o Alumioso) e as influências mouro-ibéricas introduzidas pelos colonizadores. A narrativa admite muitas leituras. As lutas, cavalgadas, desfiles triunfais e pretensões ao trono, assim como os argumentos de Quaderna, são ora épicos, ora farsescos.

Quando comecei a ler A Pedra do Reino, há alguns anos, imaginava encontrar uma outra versão de Os Sertões. Longe disso. Entendo a empatia e a simpatia com que o texto trata a realidade sertaneja como características da personalidade do próprio Ariano, também ele sertanejo e familiar aos embates da política local, não raro sangüinária. As utopias sebastianistas e as pretensões de uma nobreza nuclear do sertão recebem dele um sorriso complacente e compreensivo de seus motivos. Os focos são diferentes, tanto na temática específica quanto na atitude dos autores em relação à cultura regional e sua história: muito à vontade, Suassuna faz ficção e explora o lado grotesco dessa cultura mítica com certa ternura irônica, sem compromisso formal com fatos calcados numa realidade que Euclides da Cunha descreve em um documento histórico carrancudo, pretensamente comprometido com a verdade dos fatos e com um partido tomado. Em torno dos mitos, crenças e costumes, A Pedra fala uma linguagem simpática aos crentes, que Os Sertões condena tacitamente desde o início da narrativa.

Outro aspecto do romance que me desperta a atenção é a disposição conservadora de Suassuna, confirmada pela fundação do movimento armorial que ele lidera. Empenha-se em difundir a cultura sertaneja no que ela possa ter de menos rebarbativo. Resta esclarecer como se resolveriam alguns de seus traços que soariam como um retrocesso em relação a valores já reconhecidos, como o lugar da mulher na sociedade, a liberdade, a cidadania, a igualdade de direitos. O trabalho de Suassuna é de respeito. É uma obra rica, vasta, fruto de dedicação e talento, que assegura um lugar de grande destaque na literatura. Mas a aversão ao estrangeiro e à contribuição da cultura universal que deixa transparecer em suas obras, nas aulas, entrevistas e declarações à mídia sugere um viés reducionista, talvez explicado pelas influências recebidas na formação de sua subjetividade. Mas muita coisa pode ser explicada pela veia lúdica que Ariano manifesta em quase tudo que diz e escreve. Às vezes me pergunto se ele não estará rindo de si mesmo, e até que ponto não fez de A Pedra do Reino um sofisticado livro de memórias...

adelaide em fevereiro 18, 2008 7:49 PM


#9

Minha leitura de Suassuna não é nada parcial. Passei meus anos de faculdade no Recife, no final da década de 90, um período incrível de efervescência cultural no estado de Pernambuco. E o secretário de cultura - do governo de "esquerda" de Miguel Arraes - era Ariano Suassuna, que virou as costas para tudo que estava acontecendo no estado. Que um intelectual não goste de um estilo musical (manguebeat), tudo bem, mas que o secretário de cultura ignore o fenômeno mais importante da música brasileira da década de 1990 - que acontecia debaixo de seu nariz - é um pouco demais.

Inicio meu comentário com esse contexto, pois foi durante os anos de Suassuna como secretário de cultura que fomos expostos a seu conceito do que seria "popular". E aí seria interessante discutir esse conceito do popular de Suassuna - que a meu ver, não tem nada de genuíno. O popular de Suassuna é o pré-moderno, o povo na sua santa e miserável sabedoria, vivendo isolado na tradição. Quando jovens da periferia do Recife e de Olinda produziram música de primeira, Suassana não enxergava isso como popular. Para ele, era coisa de alienado, pois misturava maracatu com rock americano. Portanto, o popular de Suassuna é um popular tutelado, purista, e nesse sentido, anacrônico, tendo em vista a cultura de massas em que vivemos.

Não é à toa que o livro de Suassuna, embora respeitado por grandes medalhões da cultura brasileira (foi prefaciado, salvo engano, por Raquel de Queiroz) não teve grande repercussão. Em 1972, a cultura de massas já era uma realidade no Brasil, o Tropicalismo mostrava vigor, incorporando linguagens dessa cultura de massa, a demografia brasileira mudava rapidamente com a intensa urbanização, e no campo político, a ditadura comia solta. Com tudo isso acontecendo, Suassuna escreve um livro cujo grande dilema ideológico se remete à década de 30: sua hesitação entre um mestre integralista e outro mestre comunista. O que é na verdade, um falso dilema, pois ele se vê como uma síntese, uma soma do oncismo e do taperismo (e formalmente, o romance se beneficia muito do bi-perspectivismo dessas duas óticas ideológicas).

A grande questão é: o romance supera a visão-de-mundo de seu autor? Ele consegue ser polifônico e oferecer resistência a essa ideologia reacionária do Suassuna? Eu acho que não. Mas adoraria saber o ponto de vista de alguém que pensa o contrário.

Cesar em fevereiro 18, 2008 8:31 PM


#10

Passo só para registrar meu agradecimento e para confirmar que estou lendo com muita atenção os comentários. Claro que, dada a complexidade dos temas levantados, eu não poderia responder um por um.

Mas compartilho as reservas que tanto o Cesar como a Adelaide expressaram sobre essa visão um tanto redutora que tem Suassuna sobre o que seria "o popular".

A questão que, vira e mexe, voltava nas nossas discussões em aula é que essa concepção é apresentada no livro de forma tão exagerada, paródica, cômica mesmo, que fica difícil não achar que ela está sendo objeto de ironia -- mesmo o autor a tendo repetido incontáveis vezes em entrevistas e em textos não ficcionais.

É essa, me parece, a grande ambiguidade de Suassuna, ainda não muito bem resolvida na bibliografia crítica -- que em sua maior parte, tenta observar Suassuna com as lentes que ele usa para olhar a si mesmo.

Idelber em fevereiro 18, 2008 9:01 PM


#11

passei o fim de semana fora, cheguei agora e descubro que praticamente tudo o que eu tinha pra dizer já foi dito! sobra então o seguinte:

gostei muito do que disseram o Cesar, velho amigo de Berkeley que me recebeu tao bem depois do Katrina, e a Regina, autora do Pau-de-Arara que eu estou lendo como pesquisa pro meu romance sobre domesticas brasileiras nos EUA.

disse a regina: "O problema é que a ideologia enfeitada por essa arte é reacionária." e o cesar perguntou: "o romance supera a visão-de-mundo de seu autor? Ele consegue ser polifônico e oferecer resistência a essa ideologia reacionária do Suassuna?"

Sim. O humor do Suassuna corrói completamente sua ideologia reacionária. Ao mesmo tempo em que apresenta suas idéias armoriais pela boca de Quaderna, Suassuna também as desmonta e satiriza pela boca do mesmo personagem. A Regina tem razão que a ideologia do Suassuana é reacionária, mas não a do romance. É impossível fechar o livro concordando seja com Quaderna seja com as opiniões verbalizadas por Suassuna em suas entrevistas (que são praticamente as mesmas de Quaderna!). De modo bem real, o romance não é armorial: é anti-armorial.

O Romance da Pedra é o típico exemplo do romance mais inteligente que seu autor.

alex castro em fevereiro 19, 2008 1:10 AM


#12

A pesar de su tamaño enciclopédico y algunas partes medio aburridonas me encantó leer A Pedra do Reino. Es una novela divertida, a veces tan divertida que me cuesta distinguir la posición "seria" de Suassuna, si es que existe tal cosa. Su visión de la cultura nordestina, como ya mencionó Cesar, es purista y tal vez hasta fundamentalista. Sin embargo, me parece que Suassuna está consciente de todo esto y se burla de su propia posición. Para mí está claro que Quaderna es el álter ego de Suassuna, no sólo por las semejanzas biográficas (hasta tienen la misma fecha de nacimiento), sino también porque conceptos como los de la "cultura castanha" son compartidos por el autor y su figura. En la novela, Quaderna vive entre la ficción y la realidad, siempre enfatizando que su propio relato no se debe tomar al pie de la letra por el "estilo régio" y porque "quem conta um conto aumenta um ponto." Sus ídolos, Samuel y Clemente, son caricaturas de la derecha y la izquierda que demuestran lo que pasa cuando la ideología se convierte en una fórmula que se sigue literalmente. Son los extremos ridículos de dos visiones rígidas del mundo. La presentación de la exagerada fidelidad ideológica de estos dos personajes es una crítica a la pureza del pensamiento. La síntesis entre oncismo y tapirismo que es la filosofÌa de Quaderna es totalmente incoherente, pero esto le permite ser flexible; culturalmente todo es permitido en su "monarquismo de izquierda." Su filosofía no hace ningún sentido, solamente existe para legitimar "académicamente" su afición a los folletos y a la simbología medieval. En la novela, lo académico no sirve para nada más que para complicar la vida, véase la "filosofÌa do penetral" de Clemente. Los únicos que se interesan por teorías son los que no tienen lugar en el mundo práctico; Quaderna, Clemente y Samuel son absolutamente inútiles, se proclaman intelectuales porque no les queda de otra. Creo que es hora de terminar este comentario antes de empezar a pensar sobre el papel de los académicos en el "mundo real" y entrar en una crisis existencial...

Katharina Kniess em fevereiro 19, 2008 2:17 AM


#13

Idelber e comedores dp fino Biscoito,
eu como o papagaio da piada, não falo, mas estou prestando a MAIOR atenção!!!!

Márcia W. em fevereiro 19, 2008 6:05 AM


#14

Uma coisa que não recebeu nenhum comentário ainda, mas que achei interessante, foi o uso dos desenhos junto com o texto. Estão feitos no mesmo estilo que as xilogravuras que enfeitam os capas dos folhetos tão amados pelo Quaderna: linhas fortes e primitivas que se juntam para traçar um reforço da ideia já apresentada no texto. Por um lado, parece que servem a mesma finalidade, ao existir principalmente para chamar e segurar a atenção do leitor. No outro, sua incorporação pode ser vista como mais um elemento adicionado por Suassuna para forçar a conexão entre sua obra extremamente erudita e a arte popular nordestina. Mesmo gostando do uso das xilogravuras, para mim sua presença fica um tanto banal.

Elise em fevereiro 19, 2008 12:12 PM


#15

Eu acho que ironia e humor muitas vezes existem só pelo prazer de rir. Não é sempre que têm a função de criticar alguma coisa. Principalmente numa obra extensa, quando o autor precisa animar o leitor com trechos engraçados. Às vezes, o riso e a ironia têm a função oposta à de criticar: eles tornam mais simpático o objeto do riso. No Pedra, se o riso e a ironia podem significar que o autor está condenando o reacionarismo do objeto de seu riso, também podem significar o contrário: que ele está reforçando valores reacionários, ao torná-los "divertidos".

Regina Rheda em fevereiro 19, 2008 3:58 PM


#16

regina, é verdade, é verdade, mas acho que o romance ridiculariza tanto o quaderna que é quase impossível fechar o livro concordando com ele...

alex castro em fevereiro 19, 2008 4:35 PM


#17

Alô violeiros e violeiras dos sertões do norte e até mesmo da zona da mata e dos Brasis em sentido amplo:
aqui nossa turma está lendo o primeiro Suassuna bem sucedido: o de _Auto da Compadecida_, peça toda chupada do romanceiro popular (entenda-se folhetos de literatura de cordel) e que é uma obra "armorial" avant la lettre. No fundo o mesmo problema ideológico, de forma reduzida. No que se refere ao relacionamento com as fontes: veja minha sugestão em post anterior, acima. Nos posts vejo também referências à literatura de cordel, a seu aproveitamento literário e a um romance da autora Regina Rheda. Juntando isso tudo aproveito para lembrar o romance dela _Livro que vende: rockordel_ (2003), cuja segunda parte é com efeito um longo folheto (em papel marrom!) de caráter pós-moderno, que apropria heavy metal e outros meios para sugerir lances bem mais atuais e "realistas" (a pesar de fantasiosos) do que as posições medievais de Suassuna. (PS: em UMA ocasião lembro de ter ficado surpreso por ele estar falando BEM de CHico SCience, acho que depois de ser secretário de PE).

charles em fevereiro 19, 2008 4:36 PM


#18

Folk tradition and the artist: the Northeast Brazilian Movimento Armorial,
Candace Slater
Luso Braziian Review 16.2 (1979), 160 ff.

Ao som da rabeca...

cap em fevereiro 19, 2008 4:46 PM


#19

Oi Alex. Vou aproveitar para comentar outros comentários, além do seu. Minha implicância maior quanto ao Pedra é com a perspectiva patriarcal que permeia o romance inteiro: a exaltação do machismo, das guerras, das degolas, a dominação de vulneráveis como pobres, mulheres, crianças e animais, o uso do Outro como recurso próprio... Essa perspectiva está presente tanto na arte erudita do Suassuna (Pedra) quanto na arte popular que ela usa. Se ele usa mitos, são mitos patriarcalistas, mitos impregnados de concepções reacionárias e violentas. O fato de ser um mito, ou de ser uma cultura, não livra esse mito e essa cultura de serem reacionários. Suassuna promove essa concepção patriarcalista, com risada ou sem. Quanto ao Quaderna, mesmo ele sendo ridículo e merecendo nosso desprezo, ele não é a única coisa que existe no livro. Sabendo das posições do Suassuna, fica difícil, para mim, acreditar que ele tenha publicado, em 1971, um livro contrário a suas posições, para depois continuar mantendo as antigas posições... Acho que ele teria de aumentar bastante sua dose de ironia contra o reacionarismo, nas entrevistas e nas obras, para me fazer achar que ele não é conivente com o próprio reacionarismo de que se alimenta. Bem, ele pode ter se arrependido e hoje pode ser um cara revolucionário ideologicamente. Mas no Pedra eu acho que não é.

Regina Rheda em fevereiro 19, 2008 5:49 PM


#20

Anjo, eu entrei em contato com a Candace para pedir uma cópia da tese. A tese é tão antiga que a Candace não a possui em arquivo word. É possível comprá-la, mas por 40 dólares. Você teria um xerox aí?

Idelber em fevereiro 19, 2008 5:51 PM


#21

Pois é somos velhos mesmo. A Apple lançou um PC em 1977 e a IBM em 1980. E depois veio Word. A tese e' de 1975! Alguma biblioteca pode ter exemplar impresso para interlibrary loan, ou em microfilme como UCLA (acho que eu a vi assim se não tiver sido em Stanford, hace mucho tiempo, y para que me acuerde perfectamente...). Xerox je n'ai pas mon pote. / Eu me referia ao livro _Cultura popular e dominação o caso PE 1961/1977_; diria post abaixo (dias antes) e não acima como falei aqui hoje. Chs.

chas em fevereiro 19, 2008 6:19 PM


#22

Ó eu de novo, Alex: só para dar outro exemplo da prepotência patriarcal que permeia o livro, eu quero lembrar do personagem socialista Adalberto Coura. O cara é um socialista verossímel, não uma caricatura esquemática como o Clemente nem um pseudo-esquerdista como o Quaderna. Quando ele defende sua posição, não há uso de ironia ou humor (folheto LXXIX). A gente fica pensando: Puxa, o Suassuna botou um personagem socialista sério na história! Mas é ler o folheto e ver que o tal Adalberto Coura preconiza o terrorismo e o socialismo totalitário... Quero dizer, até quando aparece um personagem socialista no texto, falando a sério sobre justiça social, a idéia que está por trás é a da prepotência! É com esse tipo de coisa que eu implico. O livro é "muito macho". Contam-se nos dedos de uma mão os exemplos contrários.

Regina Rheda em fevereiro 19, 2008 7:40 PM


#23

Quero meter minha colher no debate sobre o machismo que permeia a obra. Depois de ler "Grande Sertão: Veredas" e a "A Pedra do Reino", fiquei com muita vontade de reler "Memorial de Maria Moura", porque acho que a Rachel de Queiroz lavou a honra feminina sertaneja nesse romance. Chego a pensar que ela, com Maria Moura, deliberadamente deu uma cutucada nessa tradição patriarcal sexista que é sempre tão presente nas sagas sertanejas.

Alessandra Alves em fevereiro 20, 2008 7:58 PM


#24

Oi Alessandra. Pelo menos o Grande Sertão é meio gay, meio Brokeback Mountain. Mas você me deixou curiosa também, sobre o Memorial de Maria Moura. Só que eu não sei não, viu, se nesse livro a protagonista não acaba assumindo a mesma posição machista de que foi vítima. Aí não adianta muito. Quando entrou para a ABL, a Rachel disse isto: "Tenho amigos queridos aqui dentro. Quase todos os meus amigos são homens, eu não confio muito nas mulheres". E fica difícil ver como antipatriarcal uma mulher que apoiou a ditadura. Mas enfim, não custa nada ir atrás do livro... mais machismo do que o Pedra ele não vai ter.

Regina Rheda em fevereiro 20, 2008 9:46 PM


#25

Regina, estou contigo. Para mim, o humor não altera em nada a ideologia do livro que é reacionária em todos os aspectos e radicalmente avessa à modernidade. A sua concepção essencialista de arte “genuinamente” popular, a maneira como reduz a direita e a esquerda a um duelo de penicos, além dos papéis de gênero que remontam a misoginia das cantigas medievais, acabam construindo uma visão de mundo que idealiza nostalgicamente o patriarcado rural em contraponto à nossa futilidade burguesa. E digo “nossa” porque não tenho dúvidas de que se por um lado Suassuna nos faz rir, por outro, consciente de quem é sua massa de leitores, também se diverte rindo da gente.

Luciana Monteiro em fevereiro 21, 2008 10:45 AM


#26

No pequeno livro "Arte popular e dominação: o caso de Pernambuco - 1961/77", uma das idéias discutidas é a de que arte e cultura popular são coisa de subdesenvolvido. Sem “pobre” não existe “arte popular autêntica”. Numa sociedade economicamente justa, toda arte acaba sendo erudita, porque todo mundo é erudito. (Eu acrescentaria que o modelo patriarcal seria extinto por uma sociedade social e economicamente justa). Num país que se torne justo, a arte dos pobres, feita anteriormente, vira peça de museu, mantida artificialmente por governos, fundações, etc. E assim esse livro (Arte popular e dominação) vai explorando o seguinte problema político/ético/social/etc.: como é que fica a coisa de, num país social e economicamente injusto, um artista da elite “elevar” a arte dos pobres à categoria erudita, valendo-se inclusive de uma forma de apropriação daquela arte que (desconfio) seria classificada como roubo ou plágio até pelos pós-mais-moderninhos? O livro reproduz um trecho de uma entrevista sobre o assunto, feita pelo semanário Movimento com o próprio Suassuna. Estou dando esta notícia só para quem não tiver lido esse livro, lógico.

Regina Rheda em fevereiro 21, 2008 12:38 PM


#27

Ops, quanto ao comentário anterior, antes que se debata o conceito de "arte popular": leia-se folclore, não arte pop. Folclore, acho eu, é o que Suassuna entende por "arte popular autêntica". Não é?

Regina Rheda em fevereiro 21, 2008 1:32 PM


#28

Concordo com o conceito de reacionário dado ao livro " A pedra do Reino". Há ali o patriarcalismo exaltado, a apologia a um feudalismo sertanejo, o machismo descarado(como dito por alguém em um comentário anterior, a única quase personagem feminina é a Tia Felipa), a indiferença ante a condição de extrema pobreza do povo ( quando muito se lamenta o fato), um culto à violência, entre outras coisas. Por outro lado, há, também, a comédia: o livro é engraçado. Suassuna tem um talento especial para fazer rir, como todos sabem. Quanto à questão de se há ironia, em meu modo de ver, há sim. Tive a impressão que Suassuna, através de Quaderna, busca ironizar a si mesmo. No entanto não sei o quanto havia de consciência em fazê-lo. Quero dizer, me parece que o autor, ainda que o livro tenha sido maturado por longos anos, ao conclui-lo, não estava muito certo se aquilo era ironia ou apologia ao feudalismo machista sertanejo. Talvez por isto fica a pergunta: Subscrição ou ironia? Enfim, acho que o próprio Ariano não o sabia. Quero comentar, também, a importância de se ler os demais livros que compõem a epopéia. Não sei exatamente quais ou quantos são, mas pude conseguir "O rei degolado", que me parece ser aquele que dá imediata sequência ao Romance do qual falamos. O que me chamou mais a atenção ao terminar de lê-lo, foi a mudança radical no tom do discurso de Quaderna. No lugar do delírio cômico, aparece um delírio melancólico, quase trágico. Me causou estranheza em se tratando do Suassuna. Não consigo imaginá-lo um trágico. No entanto tem o texto uma tonalidade de tristeza e de seriedade, ainda que prevalescendo o delírio. Delírio causado pelo vinho, não podemos esquecer. Para concluir, independentemente do que a crítica possa descobrir de bom ou ruim no romance da "pedra", o que me encantou mais foi mesmo a viagem "imaginatória" à história do Brasil que o livro me produziu. Tanto que fui atrás do outro "o rei degolado" e, agora, estou terminando de ler um calhamaço de 800 páginas sobre a história de Portugal.
obs. Gostei muito mais de "Viva o povo brasileiro". mas este, parece, é para depois.

jozahfa em fevereiro 21, 2008 2:18 PM


#29

Gostei do comentário de Jozahfa. Que leitor(a) aplicado(a)! Invejo quem consegue ler tanto livro... Também acho que a perspectiva ideológica do Pedra é reacionária. Mas acho a parte formal, a parte estética, revolucionária. Eu queria que alguém comentasse aqui se acha impossível uma obra literária ser, ao mesmo tempo, revolucionária na forma e reacionária no conteúdo.

Regina Rheda em fevereiro 21, 2008 3:13 PM


#30

regina, foi justamente para analisar a personagem da maria moura que me deu vontade de reler. não sei se ela reproduz a posição machista de sempre ou se apenas resolve ser uma mulher à frente de um bando de homens. se a opção dela foi se masculinizar na forma para impor respeito, isso pode ser considerado uma reafirmação do machismo? ela precisaria ser doce e delicada para vencer como mulher? não podemos, nós, mulheres, optar pelo endurecimento, também? não estou contestando sua colocação, estou só refletindo mesmo. eu não conhecia essa fala da rachel de queiróz na sua posse. eu, que sempre convivi muito no universo masculino, também acabo me identificando mais com os homens. não chego a desprezar as mulheres, longe disso, mas entendo a inclinação da autora.

Alessandra Alves em fevereiro 21, 2008 9:14 PM


#31

O livro de Ariano Suassuna é uma grande empreitada literária que consumiu doze anos de trabalho do mestre paraibano. Conheci o livro nos anos 1990, mas só agora (2007) pude lê-lo. Vejo muitas qualidades na obra, mas vejo também algumas falhas.
No exemplar que tenho (é novo, lançado no embalo da minisérie), há um comentário de Hermilo Borba Filho que o compara à Divina Comédia. Achei muito, mas muuuuuuuuito exagerado. O comentário de Carlos Lacerda é mais apropriado: Dom Quixote. Afinal, Diniz Quaderna é um personagem quixotesco. E macunaímico também.
O que mais admirei no livro foi a maneira lúdica (de brincadeira mesmo) com que o autor deu tratamento aos gêneros. Misturou a narrativa tradicional às narrativas populares nordestinas com ênfase para estas. Citou à vontade, copiou tudo quanto pôde (seguindo as lições de Mário de Andrade em sua grande rapsódia) com a liberdade máxima a que se permitiu, viajou e inventou, pintou e bordou. Adorei as ilustrações inseridas ao longo do livro – enriquecem e selam definitivamente o parentesco da narrativa com a tradição do cordel, tão cara ao livro. O resultado é a riqueza do universo popular que aflora a cada página do livro em seu estado mais puro.
E o modo como o humor (popular e escrachado, debochado e desbocado, sutil e irônico...) aparece ao longo da narrativa é realmente um dos pontos altos do livro. Acho o Quaderna um personagem muito bem inventado e, igualmente, muito bem trabalho. Mas...
Mas...
O livro é enfadonho. Ou fica enfadonho. A partir do momento em que Quaderna entra para a sala onde será inquirido pelo Corregedor Joaquim Cabeça-de-Porco (não exatamente "a partir do momento", mas em algum lugar dessa interminável cena), a narrativa se torna enfadonha, cansativa, labiríntica (no mau sentido de sem saída). O inquérito se estende por um tempo interminável, não há uma explicação clara de determinados detalhes, alguns pontos são repetidos à exaustão, há parágrafos-tijolos (a mim assim parecem) completamente dispensáveis para o todo da obra, há incoerências (como pode o relato de Quaderna ser tão detalhado se ele não "presenciou" todos os fatos que relata ao Corregedor - embora o autor coloque na boca do personagem palavras que tentam [mas não conseguem] justificar o modo como Quaderna tomara conhecimento de determinados fatos) geradas pelo foco narrativo adotado por Suassuna, uma primeira pessoa onisciente... Enfim: do meio para o desfecho, achei o livro mal resolvido.
Podem parecer, esses apontamentos, meio superficiais demais, meio empíricos demais. Não gostaria de aprofundar num debate "intelectual", com aqueles "cortes epistemológicos" e repletos de "segundo Bakhtin". É apenas o parecer de um leitor de cama e banheiro.
O começo do Romance da Pedra do Reino é muito bom, num ritmo fantástico. Diniz e sua imodesta narrativa de sua vida lembrou-me o Ponciano de Azeredo Furtado de O Coronel e o Lobisomem. Mas depois o livro se tornou chato e enfadonho. Sei lá, daqui alguns anos talvez o leia novamente e tenha outra impressão. Mas por agora, ele vai ficar de castigo na estante.

Um abraço para todos e parabéns pela iniciativa.

Juvenal Bernardes em fevereiro 21, 2008 9:28 PM


#32

Oi Alessandra. É verdade, só lendo o livro para discutir o assunto, que não é simples. Não sei se entendi o que você quis dizer com uma mulher "endurecer na forma". De qualquer maneira, eu não me referi a "modos femininos" X "modos masculinos" (se foi isso o que você quis dizer). Refiro-me a paz X violência. A Maria Moura contrata jagunços para matar e depois chefia um bando de matadores... Será que sair matando os outros resolve os problemas ou perpetua o problema principal, que é a violência? Será que não há uma forma de romper o círculo de violência e se dar bem? É isso...

Regina Rheda em fevereiro 21, 2008 10:22 PM


#33

Regina,
Sou homem. Meu nome é Josaphat. Prazer em conhecê-la. De fato gosto de ler. E o tempo tem permitido. Em seu comentário, percebo uma pontinha de ironia no uso das reticências? hehehe. Quanto a este livro, sobre Portugal, não recomendo. Chama-se "História de Portugal" e o autor é João Ameal. O sujeito têm uma produção literária significativa. Não gostei e me explico. Ele não disfarça seu gosto pela monarquia, pelo catolicismo e pelo imperialismo português. Um ufano-monarca-saudosista. Fez falta uma visão mais imparcial sobre a história portuguesa. Em relação ao "Memorial de Maria Moura", que nunca li, será que a personagem tem algo a ver com uma outra Maria, se não me engana o nome, do livro de João Ubaldo "Viva o povo brasileiro"?
Alguém saberia?
Ps. De fato, Regina, na "Pedra" o aspecto formal do livro é delicioso. Mas não sei se chega a ser revolucionário. Em que sentido vc vê esta revolução? seria o regionalismo?

jozahfa em fevereiro 22, 2008 12:56 PM


#34

Estou aqui acompanhando a discussão, com muito, muito gosto :-)

Idelber em fevereiro 22, 2008 1:00 PM


#35

Oi Josaphat. O prazer é meu. Minhas reticências não foram irônicas não. Foram mais como um suspiro, um "ai, quem me dera ler tanto quanto Josaphat...". E estas reticências depois do seu nome também não são ironia, e sim a continuação do meu suspiro pela leitura. Mas então você já acabou de ler o calhamaço português também?? Pois aumentou minha inveja.

Na minha humilde opinião, o Pedra é revolucionário na forma porque reúne as seguintes características, costuradas por uma escrita brilhante: 1. Carnavaliza corajosa e chanchadisticamente a pungente questão da miséria sertaneja, até então tratada com muita seriedade e cenho franzido pelos outros escritores eruditos. 2. Não segue as convenções narrativas de um romance com começo, meio e fim, onde o motor da história é a tensão gerada por conflitos que precisam ser resolvidos, e cujo final é o alívio definitivo dessa tensão. Ao contrário, é um romance de narrativa disforme (os diálogos-tijolos na 2a. metade do livro são apenas um dos exemplos que ilustram essa deformidade). 3. Apropria-se (transformando ou chupando) pós-modernamente de inúmeras referências e citações históricas, eruditas, não-eruditas, mentirosas ou verdadeiras, num hilário tratado “acadêmico” caleidoscópico que inclui imagens de xilogravuras. 4) É um romance sobre a vontade de fazer um romance sem final (como tantas epopéias), e essa vontade não se realiza dentro da ficção, mas se realiza na vida real, produzindo o próprio Romance d’A Pedra do Reino.

Posso ter esquecido outras características importantes, mas só a combinação dessas 4 já fazem do Pedra um romance esteticamente inovador.

Regina Rheda em fevereiro 22, 2008 6:37 PM


#36

Regina,
Não precisa dizer mais nada não. Acho que meu conhecimento de literatura brasileira é mesmo pequeno. A linguagem de Suassuna, que vc caracterizou muito bem, não me causou espanto. Certamente por desconhecer outros autores seus contemporâneos. É preciso situar o contexto histórico para julgar o revolucionarismo de uma obra. Agora, pondo em foco apenas uma das características por ti citadas, não te parece que a carnavalização da miséria, como vc colocou, já aparece, ainda que de forma ingênua talvez, nos romances e cordéis populares, tão citados no livro? E que Ariano apenas lhes empresta sua erudição? Quero dizer, de onde virá o tratamento humorístico dado a tão triste questão? Uma espécie de humor medieval? Algo por onde andou Cervantes? Me interessa a velocidade das influências medievais (ou até anteriores, como é o caso da formatação epopéica) das quais são construídas várias características do livro, como a inserção de imagens-xilogravuras e o transporte do imaginário cavaleiresco medieval como exemplos. Não resolvi ler um calhamaço sobre a história de Portugal apenas por ter lido a Pedra do Reino. Acho que me interessa mais o enredo que a forma. Estas memórias-histórias me fascinam. De tal forma que, tendo tempo (o que é bom e ruim), um livro vai empurrando o outro. E nem te falo o que comecei a ler agora, se não, aí vc vai ficar com inveja mesmo. hehehe.
Obrigado, adorei teu comentário e a elucidação-questionamento que me causou. E obrigado a Idelber também por ter criado um espaço possível para tão interessantes discussões.
Josaphat

Ps. Ainda fica sem ser respondida a questão: A Maria de "Viva o povo brasileiro" é a mesma Maria Moura, ambas mulheres guerreiras?

jozahfa em fevereiro 23, 2008 3:19 PM


#37

Oi Josaphat. Foi um prazer bater bola com você também. Sim, a carnavalização já existia nos folhetos populares, mas o que eu disse foi justamente que nenhum autor erudito havia, ainda, carnavalizado a situação sertaneja em livros, não havia tratado, em romance, o contexto da miséria sertaneja de forma humorística, escrachada. (Se alguém souber de um, me corrija por favor). Suassuna foi o primeiro erudito a fazer isso - e sim, ele usou material popular, bem de acordo com seu projeto armorial. Já sobre as Marias guerreiras eu não sei, não li os livros que você citou. Vamos ver qual vai ser a outra saga que o Idelber vai nos recomendar.

Regina Rheda em fevereiro 23, 2008 3:42 PM


#38

Está espetacular este bate-bola de vocês. Espero que os alunos estejam acompanhando :-)

Idelber em fevereiro 23, 2008 3:50 PM


#39

Vamos esperar sim.

jozahfa em fevereiro 27, 2008 11:16 AM


#40

Espero, Idelber, que o seu “participe como quiser” no post-scriptum, tb esteja estendido aos que tem vontade de participar mais tarde... Acabei hoje o meu texto sobre a obra (bem atrasado, eu sei... Sorry...). Está neste endereço caso interesse: http://incautosdoontem.blogspot.com/2008/03/razes-medievais-do-romance-da-pedra-do.html

Abraços.

Ulisses Adirt em março 9, 2008 2:07 PM


#41

Sou um leitor tardio da Pedra e não pude me aprofundar na análise, ainda. Mas a ironia do Suassuna me lembra a definição do Thomas Mann - o modo como ele via tanto Settembrini quanto Nafta, em A Montanha Mágica: "O amor que tudo o que é grande tem pelo que é pequeno". Acho que a leitura que o Suassuna faz da herança do romance europeu (Cervantes, Goethe, Mann) pode explicar um pouco essa tensão irônica entre a obra e seu principal personagem. Mas é só um palpite. Quem sabe depois que eu terminar meu serviço militar - doutorado - eu possa me dedicar mais aos biscoitos finos.

Daniel Christino em março 9, 2009 6:56 PM