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Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



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segunda-feira, 31 de março 2008

BRASA, nono congresso: Um balanço

Fundada em 1992, a BRASA já havia se reunido em Atlanta (1994 e 2002), Minneapolis (1995), Cambridge (1996), Washington (1997), Recife (2000) e Rio de Janeiro (2004), antes de visitar New Orleans em 2008. Não sou veterano de muitos congressos, mas acho difícil que algum tenha sido comparável a este em astral, satisfação e entusiasmo dos convidados. Todos com quem conversei saíram contagiados pelo espírito incomparável da cidade.

Em 2005, depois do furacão Katrina, quando Christopher Dunn avisou que bancaria a organização deste gigantesco congresso, um certo blogueiro atleticano e barbudo vociferou: você está completamente louco. Sim, fui um anfitrião incrédulo até bem adiantada a preparação do evento. Cristóforo foi o grande responsável pelo sucesso de um encontro que deixou centenas de acadêmicos brasileiros e brasilianistas encantados.

Na sexta-feira à tarde, coordenei um bate-papo memorável sobre as implicações da proibição do trabalho escrito por Paulo Cesar de Araújo sobre Roberto Carlos. A diretora da Record, Luciana Villas-Boas, aceitou meu convite e veio especialmente do Brasil. Falou com propriedade e lucidez sobre o perigo que corre o gênero biográfico (e também o gênero jornalístico em livro) com a indústria dos processos. Relatou um caso assombroso, recente, de um livro de ficção que está ameaçado (prometo, sobre isto, um post em breve). O próprio Paulo falou, emocionado, sobre os detalhes da proibição de seu livro. Sua advogada, Deborah Sztajnberg, que lidera uma verdadeira batalha de Davi contra Golias, apresentou o ponto de vista jurídico, com considerações agudas sobre alguns artigos da constituição brasileira e o tremendo imbróglio que é a limitação imposta à liberdade de expressão pelo tal “direito à imagem”. Foi um dos momentos mais elogiados do congresso e intensificou meu interesse em continuar acompanhando – mesmo sem ser especialista -- a dimensão jurídica da produção e circulação de cultura e de saber.

Na sexta à noite, a bodega dos Avelar-Gonçalves recebeu umas 60 pessoas para a festa de inauguração da casa, também memorável para mim. Na verdade, eu poderia tê-la anunciado aqui no blog com endereço e tudo, pois havia comida para umas 200 pessoas. Tendo optado pelo boca-a-boca, resta-me pedir desculpas a todos aqueles a quem não pude avisar pessoalmente. Sobraram cervejas suficientes para receber o Biajoni e o Almirante aqui por dois meses. No final, na varanda, umas 15 pessoas presenciaram uma leitura de O Machete, de Machado de Assis, dramatizado e debatido por mim e por José Miguel Wisnik, que interpretamos o conto de duas formas contrastantes. Quem viu, viu.

Aliás, ser amigo, interlocutor e anfitrião de José Miguel Wisnik e da artista plástica Laura Vinci é uma dessas alegrias para as quais não há palavras. Se você quiser conhecer Laura um pouco melhor, procure o recente textículo que escreveu Ferreira Gullar, atacando sua arte na Folha. Depois, encontre a resposta de Laura, na Ilustrada – um nocaute perfeito, brilhante, inapelável.

A lamentar, de minha parte, só o sono e o cansaço que me obrigaram a perder as sessões de 11:00 e de 2:00 do sábado, tal era a necessidade de um cochilo. Também lamentei não ter podido ver a apresentação de nenhum de meus alunos e orientandos. Sei que Aaron Lorenz, Renata Nascimento e Alex Castro brilharam, falando, respectivamente, sobre Cidade de Deus, o Black Rio e Mariana, de Machado de Assis. Às 9 da manhã do sábado, ainda em estado de semi-ressaca, coordenei um papo com os escritores Gustavo Bernardo, Regina Rheda, Adriana Lisboa e Aninha. Gostei de ouvir Adriana dissertar com fluência sobre os cruzamentos entre os seus trabalhos de tradutora e de escritora. Às 4:00, um grupo de quatro jovens pesquisadoras – Carla Melo, da Arizona State, Rebecca Atencio, da Universidade da Carolina do Norte em Charlotte, Alessandra Santos e Elena Shtromberg, da UCLA (esta última com o seu trabalho lido por Steve Butterman, já que ela acaba de ganhar neném) – me encantaram com análises de obras teatrais, literárias e plásticas que focalizam o corpo em situações traumáticas. O belo texto de Rebecca, sobre o monumento Tortura Nunca Mais, em Recife, foi especialmente iluminador para mim. Rebecca prepara um livro sobre a história da tortura e de suas representações na cultura brasileira -- volume que promete.

A quantidade de mesas simultâneas era tal que todos saímos com a sensação de não ter assistido nem uma fração do que deveríamos. Achei tempo para acompanhar meus amigos e interlocutores Márcio Seligmann (UNICAMP), Jaime Ginzburg (USP), Rosana Kohl Bines (PUC-RJ) e Karl Erik Schollhammer (PUC-RJ), que há tempos burilam e aprofundam um fino projeto de reflexão sobre a violência, com o qual este blogueiro desenvolve um diálogo cada vez mais estreito. Na mesa de discussão, uma série de temas foram levantados, mas a conversa sobre Tropa de Elite, em especial, teria interessado a muitos leitores deste blog.

No domingo, a cereja que é melhor que o bolo inteiro: dezenas de brasileiros felizardos acompanharam a secondline Revolution, um dos maiores desfiles de bandas de metais e sacolejo-de-esqueletos do calendário de festas de New Orleans. Éramos mais de mil dançando no rastro da banda, calculo. Cobrimos, literalmente, uns 15 kilômetros. Se eu conseguir algumas fotos, posto aqui nesta segunda.

O próximo congresso da BRASA se reúne .... er .... hmmmm, em Brasília, Distrito Federal.

PS: A todos os maravilhosos alunos de pós-graduação que trabalharam como voluntários e tornaram o congresso possível: muito obrigado. Não os nomearei individualmente porque certamente cometerei omissões imperdoáveis.

PS 2: Dou os parabéns à jornalista Juliana Krapp, pela excelente matéria sobre a nova literatura latino-americana no JB de sábado, para a qual este blogueiro deu a sua contribuição. Sinto-me muito bem parafraseado no texto de Juliana.

PS 3: Barack Obama é a pessoa mais seguida no Twitter (aprendi com o Tiago Dória).

PS 4: Vale a pena conferir essa do Serbão: Frases de pára-choque de caminhão em tempos de internet.



  Escrito por Idelber às 04:48 | link para este post | Comentários (24)



sexta-feira, 28 de março 2008

José Miguel Wisnik ovacionado em New Orleans; Invasão brasileira no legendário Vaughn's

Foi uma das aberturas de congresso mais memoráveis da história. Para iniciar os trabalhos do nono congresso da BRASA, reunido aqui em New Orleans, convidamos meu amigo José Miguel Wisnik, que apresentou uma belíssima meditação sobre a música em Machado de Assis. É um velho tema de Zé Miguel, que desentranha como ninguém as tensões e ambiguidades da cultura brasileira tal como codificadas em contos como "Um Homem Célebre" e "O Machete". Ele vai mostrando como chega a polca ao Brasil; como ela vai absorvendo sonoridades afro-atlânticas; como Machado esteve atento a esse processo e registrou-o nesses dois contos. No final, para matar qualquer um de inveja, faz aquela demonstração ao piano, passando por Ernesto Nazareth e Scott Joplin porque, afinal de contas, nada como a música ilustra o profundo parentesco entre New Orleans e o Brasil.

P1010043.JPG


Centenas de pessoas aplaudiram de pé aquele que é, sem dúvida, um dos maiores pensadores da cultura brasileira na atualidade. O grande Paulo Cesar de Araújo dizia, deslumbrado: Idelber, se não acontecer mais nada neste congresso, já valeu a pena. Alex zanzava atônito, dizendo que foi uma das palestras mais impressionantes que já viu na vida. Camila, nossa nova aluna de pós-graduação, ficou encantada. A abertura ainda contou com o embaixador brasileiro nos EUA, Antonio de Aguiar Patriota, que fez um belo discurso em inglês impecável.

Parece que a dica dada aqui no blog há uns dias valeu, pois no show de Kermit Ruffins, no Vaughn's, só se ouvia português no salão. Presenciei uma sensacional cena, em que um dos convidados do congresso – desconhecido para mim – me disse: pois é, está cheio de brasileiros aqui porque dizem que um cara aí colocou a dica no blog dele. Um adorniano que permanecerá inomeado foi visto saculejando o esqueleto ao som do trumpete de Kermit, esquecendo todas as caretices frankfurtianas anti-jazz. Neste fim de semana, aqui em Tulane, só dá Brasil. São centenas e centenas de visitantes brasileiros e brasilianistas.

As mesas começam hoje e o blog convida a todos que assistam comunicações a que me enviem uma apreciação do que assistiram. Assim podemos compartilhar com os leitores do blog algo deste belo congresso. Há mesas sobre absolutamente tudo, desde história mineira do século XVIII até agricultura; estudos da mídia brasileira até trabalhos sobre economia; literatura, música, filosofia, sociologia – há muita coisa acontecendo por aqui neste fim de semana, e tudo enfocado no Brasil. Nós, os anfitriões, estamos absolutamente comovidos de ver a alegria nos rostos brasileiros contagiados pelo astral incomparável de New Orleans. Bem vindos, bem vindos, bem vindos.

PS: Hoje, às 16 horas, não percam a mesa-redonda sobre “Privacidade e Liberdade de Expressão”, com o historiador Paulo Cesar de Araújo, a editora Luciana Villas Boas, a advogada Deborah Sztajnberg e o atleticano blogueiro.

PS 2: No domingo, a partir da 1 da tarde, tem secondlining saindo do Louis Armstrong Park. Se você nunca presenciou essa singularíssima manifestação cultural -- a toma musical, dançante do espaço da cidade -- não perca.

PS 3: A foto do Zé é cortesia da querida Emanuelle Oliveira, professora em Vanderbilt University.

PS 4: Alô, neófitos, muita, muita atenção: o livro de Zé Miguel sobre o futebol sai pela Companhia das Letras, no final de maio. Imperdível é pouco para descrever o que vem por aí.



  Escrito por Idelber às 05:33 | link para este post | Comentários (15)



quarta-feira, 26 de março 2008

Judiciário brasileiro inventa a campanha eleitoral sem internet

Numa mesa-redonda com a participação da editora Luciana Villas Boas, do escritor Paulo Cesar de Araújo e da advogada Deborah Sztajnberg que se realizará às 16 horas de sexta-feira, aqui em Tulane, como parte do congresso da BRASA, eu defenderei a tese de que a grande ameaça contemporânea à democracia brasileira é a inacreditável tacanhice, ignorância, atraso e reacionarismo do seu Judiciário. Que se critique o que for no Executivo e no Legislativo, mas que se reconheça: o Judiciário é hors-concours.

Considerando que a história recente do Judiciário brasileiro inclui os atos de proibir livros, condenar um blog por um comentário anônimo feito seis meses depois do post, lavrar sentença concedendo a um político o direito de resposta num blog extinto pela própria sentença, multar jornalista a priori por ofensa que pudesse vir a ser feita, impedir a divulgação de sentença do próprio judiciário e finalmente proibir joguinhos, eu não precisava de mais nenhuma munição para a intervenção nessa mesa-redonda em solidariedade ao grande pesquisador Paulo Cesar de Araújo. Não precisava, mas é claro que nestes casos, desgraça pouca é bobagem.

Acabo de ler a inacreditável resolução 22.718 do Tribunal Superior Eleitoral, que regulamenta a campanha deste ano no Brasil. Não se fiem do meu resumo. Sigam o link e leiam por si próprios. O artigo 1 estabelece que a propaganda eleitoral nas eleições municipais de 2008, mesmo quando realizada pela Internet e por outros meios eletrônicos, seguirá o determinado pela resolução. Até aí, tudo bem. Daí em diante, começa o Febeapá.

O artigo 3 estabelece que a propaganda só será permitida a partir de 6 de julho. Se alguém resolver fazer campanha para seu candidato no seu próprio blog antes disso, vão fazer o quê? Tirar o blog do ar? Impugnar a candidatura? O artigo 18 é a pérola mais sensacional: a propaganda eleitoral na internet somente será permitida na página do candidato destinada exclusivamente à campanha eleitoral. Em outras palavras? Ou eu já não entendo a língua portuguesa ou o Tribunal Superior Eleitoral acaba de proibir a campanha política na Internet, com a exceção de uma página para cada candidato. Está proibida, nos blogs, no orkut, no facebook, qualquer manifestação de preferência eleitoral que possa ser entendida como campanha.

A proibição refere-se, claro, a uma realidade sobre a qual ela não tem nenhum controle. A Internet continuará ignorando o Judiciário brasileiro – talvez não tanto como este a ignora, mas o suficiente para que suas resoluções continuem caindo no ridículo. Mas também me parece evidente que a repetida publicação de resoluções como esta vai criando aberturas judiciais para atos de supressão de opinião, justamente num momento em que a democratização proporcionada pela Internet revoluciona a experiência política em países da América do Norte e da Europa. Chega a ser comovente a ignorância dos togados brasileiros -- com raras e honrosas exceções -- sobre os princípios mais básicos de funcionamento da rede mundial de computadores. O problema é que eles insistem em querer regulá-la.

O TSE, no fundo, está dizendo: não permitiremos que apareça um Barack Obama por aqui. Cabe a nós dar o troco.

PS: Está de casa nova a melhor fonte de notícias sobre o Rio Grande do Sul.



  Escrito por Idelber às 16:55 | link para este post | Comentários (61)



terça-feira, 25 de março 2008

O Centenário do Galo e oito frases históricas

O Biscoito Fino e a Massa saúda o Clube Atlético Mineiro no dia do seu centenário. Aqui no blog há um farto material sobre a fundação do clube, seus fenomenais goleiros, suas primeiras conquistas, o primeiro título nacional, os maiores craques da história, cinco de seus grandes jogos e o seu maior patrimônio, a mítica torcida. Milhares passaram a noite em vigília nos bares de Belo Horizonte, como registra em fotos o Dolabela.

Hoje, 25 de março, é o dia do atleticano, sacramentado recentemente pela Câmara Municipal de Belo Horizonte. Ao longo do dia, a programação na cidade será intensa. Daqui a pouco, às 7 da manhã, começa o foguetório na Praça Sete. Às 9, tem Missa do Galo, na histórica Catedral Nossa Senhora da Boa Viagem. Às 11, haverá uma homenagem aos fundadores, no coreto do Parque Municipal, onde nasceu o Gigante, com descerramento de placa e a presença da Charanga do Galo e da Banda da Polícia Militar. Amanhã, às 21:45, jogam Atlético e Peñarol, no Mineirão. Na quinta-feira, haverá sessão solene da Assembléia Legislativa de MG às 14 horas. Na próxima segunda, a Câmara dos Deputados, em Brasília, realiza sessão solene em homenagem ao Galo.

Já tendo escrito tanto aqui sobre o Glorioso, achei que a melhor homenagem para o dia de hoje seria selecionar minhas frases favoritas da história do Galo.

1)Se houver uma camisa alvi-negra pendurada num varal num dia de tempestade, o atleticano torce contra o vento. Se não houvesse escrito nada mais, Roberto Drummond teria, ainda assim, entrado para a história só com esta frase. Resume tudo.

2)Nossa torcida vai ficar no sol, porque é fiel como a sombra. Empresário Júlio Firmino, ao escolher a linha lateral como espaço reservado à torcida do Atlético durante a construção do Mineirão.

3)João, joga a bola fora de mim. Paulo Isidoro, para o goleiro João Leite que, diz a lenda, passou a entender exatamente o que queria dizer Isidoro com “fora de mim”.

4)Parei 15 segundos no ar. Foi o meu recorde. Dadá Maravilha, explicando o gol que deu o título de primeiro campeão brasileiro ao Galo, em 1971.

5)Queria agradecer a Antártica pelas Brahmas que ela mandou para a comemoração. Toninho Cerezo, diz a lenda, antecipou os tempos de AmBev na celebração do Mineiro de 1976.

6)Você está louco? Como é que um campeonato com Pelé, Gérson, Jaizinho e Tostão vai ter Dadá de artilheiro? Se não foi campeão mineiro, como vai ser campeão brasileiro? Osvaldo Faria, ao comentar a previsão de Dadá de que ele seria artilheiro do primeiro Brasileirão e que o título seria do Galo.

7)Tem duas coisas que eu nunca aprendi a fazer: jogar futebol e perder gol. Mais uma de Dadá Maravilha.

8)Acabamos com a audácia das minorias. Nelson Campos, presidente do Galo, em 1971.

PS: Não deixe de conferir a página especial da TV Alterosa em comemoração do centenário.



  Escrito por Idelber às 05:52 | link para este post | Comentários (36)



sexta-feira, 21 de março 2008

Um breve recesso

O blog entra em recesso de quatro dias, enquanto eu viajo de volta para New Orleans. Aos leitores que estão deixando comentários nos posts antigos, a casa agradece a paciência. Os comentários estão temporariamente moderados. Na terça-feira, entra um post novo.



  Escrito por Idelber às 18:01 | link para este post



quarta-feira, 19 de março 2008

Ementa de curso: Música popular brasileira e cidadania


(aí vai a ementa de um curso sobre música brasileira, a ser ministrado em breve, em Buenos Aires)

Música brasileira popular e cidadania

No Brasil, a música popular tem sido tanto um mecanismo através do qual grupos socialmente oprimidos estabelecem reclamos de cidadania como um instrumento na formulação de políticas disciplinares do estado. A música trouxe os corpos negros e mestiços para o centro da esfera pública urbana no fim do século XIX, com o maxixe, mas também codificou mensagens de obediência através da pedagogia do canto orfeônico manipulada pelo Estado Novo nos anos 1930 e 40. A música alegorizou esperanças e angústias como nenhuma outra forma de arte durante a ditadura militar nos anos 1960 e 70, mas também, naquele mesmo período, ofereceu à classe média o paradigma de uma concepção estética excludente, baseada na pertença imaginária a uma comunidade de consumidores sofisticados – operação chave na evolução do conceito de “MPB” nos anos 70, que impôs um considerável estigma de “mau gosto” sobre as preferências musicais dos setores populares. A música cumpriu um papel decisivo na reconstrução da auto-estima de inúmeras comunidades brasileiras, do renascimento do Candeal, em Salvador, à entrada definitiva de Recife na cena pop internacional. Por outro lado, a música é a matéria-prima da indústria do jabá, o famoso suborno às estações de rádio tão comum no Brasil. A música brasileira popular seria, portanto, um fenômeno que é essencialmente contraditório e produz múltiplos efeitos políticos. O curso enfocará uma série de momentos na evolução da música brasileira popular ao longo do século XX, tanto na condição de agente produtor como na de elemento de obstrução da cidadania. Analisaremos, com efeito, os dois movimentos simultaneamente, oferecendo a imagem dinâmica de uma prática cultural cujo sentido político nunca está dado de antemão.

1o seminário: O maxixe, primeiro gênero musical urbano brasileiro.
José Miguel Wisnik, Machado Maxixe
Machado de Assis, “O Machete” e “Um homem célebre”
José Ramos Tinhorão, Música popular: Os sons que vêm das ruas
Referência online: Sovaco de cobra.

2o seminário: A narrativa épica sobre o surgimento do samba.
Nei Lopes, Sambeabá.
Muniz Sodré, Samba: o Dono do Corpo.

3o seminário: A crítica da narrativa épica
Hermano Vianna, O Mistério do Samba.
Carlos Sandroni, Feitiço Decente.

4o seminário: Parte I: O samba dos anos 30 e a figura do malandro.
Cláudia Neiva de Matos, Acertei no Milhar: Samba e malandragem no tempo de Getúlio

Parte II O conceito de música “regional” -- Nordeste
Antonio Risério, Caymmi, Utopia de Lugar.

5o seminário: Parte I: A Bossa Nova e a utopia da modernização
Lorenzo Mammi, “João Gilberto e o Projeto Utópico da Bossa Nova”

Parte II: O tropicalismo: cidadania na comunidade pop internacional
Antonio Cícero: O Tropicalismo e a MPB

6o seminário: Música jovem contemporânea
Micael Hershmann, O funk e o hip hop invadem a cena
José Telles, Do frevo ao mangue beat
Idelber Avelar, Sepultura and the coding of nationality in sound.



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terça-feira, 18 de março 2008

BRASA, New Orleans, 27 a 29 de março

Entre os dias 27 e 29 deste mês, de quinta a sábado da semana que vem, reúne-se em New Orleans o congresso da BRASA (Brazilian Studies Association), com acadêmicos radicados nos EUA e no Brasil, oriundos de diversas disciplinas. Aqui vai um mini-guia, dirigido especialmente a quem chega do Brasil. Se você é leitor do blog e conhece alguém que venha ao congresso, a casa pede a gentileza do encaminhamento deste post.

Se é a sua primeira vez em New Orleans, capriche no sono antes da viagem. Não vale a pena perder tempo dormindo na capital do jazz. Março em New Orleans é época de céu azul, sol e brisa agradável. Traga alguma jaquetinha leve se você é friorento. Mais que isso não será necessário. A chegada é no Louis Armstrong International Airport e os táxis custam 29 mangos até a cidade, preço tabelado. Não se esqueça da gorjeta – pelo menos 15%.

Pelo que me informaram, os convidados ficarão em hotéis localizados no Garden District e no Central Business District, a poucas milhas do campus de Tulane University, onde se realizarão as sessões do congresso. Haverá ônibus do congresso para transportá-los. Se você preferir, saia com antecedência e tome o bondinho, que já está funcionando depois de longa paralização que se seguiu ao furacão Katrina. O streetcar (atenção: streetcar, não trolley!) corre ao longo de uma das mais belas avenidas que já vi na vida, a St. Charles Avenue, com carvalhos e mansões em estilo vitoriano sulista. Dá para descer pertinho de Tulane.

Se você quiser aproveitar as noites para mergulhar na rica vida musical da cidade, a Offbeat tem um guia online. Para entrar no clima, experimente as transmissões online da WWOZ, uma das melhores estações de rádio do planeta. Se quiser um guia gastronômico, consulte esse site. Se pretende ter uma noite de gala num dos restaurantes antológicos de New Orleans, tipo Antoine's ou Commander's Palace, é boa idéia fazer reservas com antecedência. Se não, entre, simplesmente, em qualquer lugar. É impossível comer mal em New Orleans.

Na quinta à noite, a dica é a seguinte: o show de Kermit Ruffins, no Vaughn's. O bar fica um pouco longe de tudo e você precisará de um táxi para chegar lá. O endereço é 4229 Dauphine Street, no Bywater. Começa por volta de 22:30. Kermit é o legítimo continuador da tradição de Louis Armstrong e o show das quintas no Vaughn's é um xodó para qualquer new-orleaniano que gosta de jazz. Se preferir um passeio menos arrojado, vá à Frenchman Street, no quarteirão que começa na Esplanade. São dezenas de bares e restaurantes, com música ao vivo de qualidade, grátis ou baratinho. Se preferir a putaria de Bourbon Street, claro, ela continua lá, a poucos quarteirões dos hotéis. Nos arquivos sobre New Orleans cá deste blog, talvez você encontre informações de interesse seu.

Quanto ao congresso propriamente dito, todos já têm, imagino, o programa. Chamo a atenção para dois eventos: a palestra inaugural, do meu amigo José Miguel Wisnik, na quinta à noite, e a mesa-redonda de sexta, às 16 horas, sobre “Privacidade e Liberdade de Expressão”, com a presença de Paulo Cesar de Araújo, autor da recentemente proibida biografia de Roberto Carlos, Luciana Villas Boas, da Editora Record, uma das principais figuras do mercado editorial brasileiro (e editora do primeiro livro de Paulo Cesar, Eu não sou cachorro, não, sobre a música cafona) e deste atleticano blogueiro.

Na sexta à noite, haverá reunião na minha casa, para leitores do blog, amigos e conhecidos. Se você está chegando do Brasil, mande um email que eu dou as coordenadas. Não vou colocar o número do meu celular aqui, mas o telefone do Departamento de Espanhol e Português (504-865-5518) estará à disposição dos convidados.

Bem vindos, pois.


Atualização: de 26 a 30 de março também acontecerá o 22nd Annual Tennessee Williams/New Orleans Literary Festival. Confira a programação.



  Escrito por Idelber às 12:12 | link para este post | Comentários (23)



segunda-feira, 17 de março 2008

O crime internacional de Uribe, as Farc e o respeito às fronteiras nacionais

Os poetas conhecem como ninguém o processo pelo qual as palavras vão se gastando, sujando e perdendo o poder denotativo que tinham. Exemplo típico, em nossos tempos, é a palavra “terrorismo”. A partir dos acontecimentos de 11/09/2001 – atos indubitavelmente terroristas no sentido clássico –, a manipulação do vocábulo pela administração Bush e pelos seus aliados ao redor do mundo passou a convertê-la numa espécie de epíteto a que se recorre para justificar qualquer coisa, uma sorte de xingamento conveniente e inquestionável. Essa é a lógica que preside alguns dos argumentos acerca do recente imbróglio entre Colômbia e Equador, que deixou nítida, mais uma vez, a monumental ignorância brasileira sobre seus vizinhos, até mesmo de parte de gente bem instruída.

Para começar, o que os gringos chamam full disclosure (abrir o jogo): tenho razões muito pessoais para detestar as Farc. Já me atingiram de perto, seqüestrando gente próxima a mim – gente de esquerda, inclusive. Quem quiser xingá-los de terroristas ou narcobandidos, que fique à vontade. Mas não acredite que, com isso, esteja aproximando-se um centímetro de compreender o conflito colombiano. O lamentável editorial d' O Globo deste domingo, por exemplo, é uma descarada justificativa do crime internacional perpetrado pelo governo de Uribe -- distorce os fatos ao ponto de dizer que os presidentes Chávez e Correa ficaram isolados! O editorial ainda desce a lenha na atuação do governo brasileiro que, do ponto de vista diplomático, me pareceu impecável. Em coluna na Folha de São Paulo, Nelsinho Motta – a quem conheço, admiro e quero bem – abusa dos xingamentos às Farc e dá um espetáculo de desconhecimento do tema, ao perguntar-se as Farc não pretenderiam tomar o poder e instalar um governo “bolivariano”. Como alguém pode escrever uma coluna sobre o tema no maior jornal brasileiro e não saber que as Farc jamais reinvindicaram qualquer referência ao “bolivarianismo”? É preocupante que o autor do artigo não saiba que a referência nem sequer teria sentido na Colômbia. Sugere que ele esteja confundindo a Colômbia com a Venezuela, dois países que têm muito pouco em comum além da fronteira. Sei que é chato usar argumentos assim, mas produz cansaço ver, pontificando sobre o conflito colombiano e distribuindo epítetos, gente que não saberia localizar Antioquia ou o Vale do Cauca num mapa.

As Farc eram uma guerrilha onde se misturavam inspirações guevariana e maoísta com um elemento profundamente colombiano, a saber: desde muito tempo --- desde o fracasso do pacto de 1854 que uniu liberais e conservadores contra o General Melo, ou, diriam outros mais modestos, desde o período conhecido como “La violencia”, entre o fim da década de 1940 e os anos 1950 –, a militarização da sociedade colombiana põe em cena um horrendo teatro da vingança no qual bandos armados, oficiais ou não, permitem que filhos possam ir à forra pelos assassinatos de seus pais. Imaginem a espiral viciosa desse gigantesco horror de órfãos e viúvas. Nas últimas décadas, as Farc passaram a adotar várias práticas do banditismo comum, como a extorsão e o seqüestro não motivado politicamente (claro que um seqüestro como o de Ingrid Betancourt tem motivação política; refiro-me a outros, para ganho econômico).

O tráfico de drogas está envolvido? É evidente que sim. Qual o problema com a definição “narcoguerrilha”? Ela finge ignorar o fato mais básico, que o dinheiro da droga financia todos os lados do conflito colombiano, incluído aí o estatal. Isola-se um dos atores desse conflito para receber o prefixo “narco”, como se o tráfico estivesse ausente em outras comarcas. Realiza-se, portanto, uma operação de desonestidade intelectual. É pior ainda o rótulo de “terroristas”, já que o que caracterizou tradicionalmente as Farc nunca foi o ato terrorista no sentido clássico, como a bomba em lugares públicos. Não são incapazes desses atos, mas o que os marca é a trajetória que vai do combate guerrilheiro à paulatina incorporação de métodos do banditismo. Uma boa parte de seus membros não são guevaristas nem muito menos terroristas, mas camponeses que se viram compelidos a se incorporar a alguma força armada no contexto de uma espiral de violência já ancestral.

Boa parte da população camponesa e agricultora colombiana está acostumada a viver com até três extorsões: das Farc, dos paramilitares (AUC) e do próprio estado, este último “representado” por bandidos que utilizam para proveito próprio a guerra de extorsões entre os vários bandos armados. O que consegue Uribe, nos últimos anos, é simplificar esse terror: de um imposto ternário, passamos a um binário. A extorsão paramilitar de direita aninha-se ao interior da operação estatal. É impossível discutir a situação da Colômbia sem levar em conta a reinserção dos paramilitares na legalidade, com muitos deles incorporados ao estado (reinsertarse é o verbo que se usa na Colômbia para definir o processo de abandono das armas e passagem à legalidade). A recente popularidade de Uribe se apóia na diminuição real dos índices de violência, que tem um conjunto de causas: a legalização dos paramilitares (que passam assim a contar com os recursos do estado e já não recorrem tanto ao assassinato), a reinserção do M-19, o trabalho comunitário inovador de prefeituras como a de Bogotá e, inclusive, opções táticas recentes das próprias Farc, que têm perfeita consciência do seu isolamento. É evidente que a "linha dura" de Uribe tenta capitalizar politicamente sobre uma série de resultados sobre os quais ela tem responsabilidade só parcial.

A grande cartada que tem Uribe é a utilização do espectro do “terrorismo” para demonizar um único ator do conflito -- quando o rótulo é igualmente (in)aplicável a todos os outros. Se há algo que, em definitivo, não interessa ao governo colombiano é a reinserção pacífica e ordenada das Farc. Se tudo o que ele conseguiu em termos de popularidade foi na carona da redefinição das Farc à luz da retórica do terrorismo da era Bush, por que abrir mão do manipulável fantasma? Se pouca gente fora da Colômbia sabe que os níveis de violência podem ter baixado, mas que as taxas de mortalidade por assassinato entre os “reinseridos” de esquerda continua altíssima? Visite um camponês cundiboyacense e observe no seu semblante o terror produzido pela menção de duas curtas palavrinhas: los paras. Na seqüência, faça um levantamento do número de candidatos a cargos eletivos assassinados pelos paramilitares ou por agentes do próprio estado em comparação com o número de políticos mortos pelas Farc. Depois volte aqui e dê uma gargalhada na cara do direitista tupiniquim que quer entender o conflito colombiano como uma oposição entre o “narcoterrorismo” e o “estado democrático de direito”.

É possível que tenha havido contatos entre as Farc e os governos da Venezuela e do Equador mais além das normais conversas em torno ao tema da paz? Sim. É possível que tais contatos tenham envolvido grana? Sim, é possível. Embora eu ache pouco provável, estaria disposto a considerar este novo dado, caso apareçam indícios ou provas. Não, os conteúdos de um laptop ao qual só Uribe teve acesso não valem como prova de nada. Até agora, o que temos é esse mapa político nos quais os interesses me parecem bem nítidos.

É por tudo isso que é inaceitável que um latino-americano justifique o crime internacional cometido pelo governo de Uribe na semana passada – Raúl Reyes era a figura designada pelas Farc para a negociação de paz que, como sabemos, já envolveu outros governos da região. Será que é muito difícil perceber que o assassinato de Reyes tem muito pouco a ver com o combate ao "terrorismo" e tudo a ver com impedir que Hugo Chávez capitalize politicamente com a negociação para a libertação de reféns? Por que o jornal O Globo, em editorial, se refere como “base” a um acampamento de onde jamais havia saído nenhuma operação militar? Ah, como seria bom se existisse uma direita nacionalista no Brasil! Não se pode brincar com o respeito às fronteiras nacionais logo ali na Amazônia, numa época em que o governo Bush já deu amplas demonstrações de que não respeita direito internacional nenhum.



  Escrito por Idelber às 09:09 | link para este post | Comentários (78)



sexta-feira, 14 de março 2008

Galo aos sábados: A seleção de todos os tempos

Finalmente o Comitê Editorial do Biscoito Fino e a Massa se reuniu e chegou a um consenso sobre qual é o melhor Atlético-MG de todos os tempos. Aqui vai a Seleção escalada em duas partes. Os melhores, em cada posição, desde 1970 – são os que eu vi jogar. Depois, a Seleção escolhida pelo Comitê Consultivo Sênior do blog, localizado no Mercado Central de Belo Horizonte, onde aos sábados pela manhã se reúnem atleticanos de mais de 70 anos de idade.

Seleção dos últimos 38 anos
, escalada no 4-4-2: Mazurkiewcz (ou Taffarel), Nelinho, Cláudio Caçapa (ou Vantuir), Luizinho e Oldair; Gilberto Silva, Cerezo, Marcelo e Paulo Isidoro; Reinaldo e Éder.

Seleção do passado, escalada à moda antiga: Kafunga, Murilo e Ramos; Mexicano, Zé do Monte e Cincunegui; Lucas, Mário de Castro, Carlyle, Ubaldo e Guará.

Maior de todos
: Reinaldo (quem viu, viu; quem não viu, acha que o maior centroavante de Pindorama foi Romário).

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Algumas fotos dos ídolos das antigas:

Mexicano:

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Ubaldo:

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Zé do Monte:

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Murilo:

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Guará:

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Carlyle:

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O grande uruguaio Cincunegui, em jogo contra a União Soviética no Mineirão:

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  Escrito por Idelber às 19:15 | link para este post | Comentários (30)




Rio Grande na Wikipedia

Vocês se lembram da discussão sobre a Wikipedia aqui no blog, correto? Pois é. Voltando agora do Rio Grande, resolvi dar uma conferida no verbete sobre o estado na dita cuja.

Ali aprendemos que o alemão hunsrückisch conta com pelo menos um ou dois milhões de falantes no Rio Grande do Sul, se não mais, de acordo com as estimativas mais aceitas por especialistas.

Para a Wikipedia, 20% se não mais do Rio Grande do Sul fala alemão. Como estou bem longe de ser especialista em sociolingüística da língua alemã no Brasil, acho que eu deveria acreditar, né?



  Escrito por Idelber às 05:33 | link para este post | Comentários (12)




Open thread do selinho da Veja

Para um futuro selinho, me diga lá qual slogan você prefere. A idéia é fazer algo bem humorado; nada raivoso, do tipo "Não leia, não compre, bombardeie bancas que vendam, fuzile o vizinho que assina e beba seu sangue em chapéus inspirados no Reinaldo Azevedo."

Não, nada disso. Algo assim como esses aí de baixo. Escolha um deles ou invente outro. A quem puder ir fazendo selinhos (sem armas!) com os slogans mais votados, a casa agradece.

Veja - Leia a do seu vizinho

Veja -- Leia só em versão pirata

Veja - Leia, mas não acredite

Eu acredito em gnomos e na Veja

Vamos parar de levar a Veja a sério

Veja: cancele sua assinatura e gaste o dinheiro em algo útil

Leia a Veja. Depois vá se informar

Atualização: O leitor Frank já fez o primeiro. Quem quiser ir fazendo outros, é só me enviar que eu coloco aqui.

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  Escrito por Idelber às 05:16 | link para este post | Comentários (86)



quinta-feira, 13 de março 2008

Luis Nassif, o dossiê Veja e a judicialização do debate jornalístico no Brasil

Está começando a ficar ensurdecedor o silêncio da grande mídia sobre o dossiê Veja elaborado por Luis Nassif. Embora alguns de seus colunistas tenham tratado do tema em blogs, nenhum dos grandes jornais brasileiros noticiou a reportagem. Além do silêncio, a resposta dos defensores da Veja têm oscilado entre dois polos: 1) os processos judiciais; 2) os ataques ad hominem ao jornalista que está apurando os fatos, sem qualquer refutação dos mesmos.

O primeiro caso é curioso, porque foi das comarcas da Veja – mais precisamente de Diogo Mainardi – que veio o argumento de que jornalista não processa jornalista. Agora, seus patrões estão processando um jornalista por uma série de reportagens acerca de um veículo que tem muito mais circulação que a página web que contém as denúncias. Onde está Diogo Mainardi para dizer jornalista não processa jornalista? Onde estão os jornalistas dos grandes veículos que se indignaram – com justa causa – quando Aldo Rebelo processou Millôr Fernandes? A correlação de forças me parece bastante favorável à Veja. Caso os fatos estivessem do seu lado, seria fácil para a revista refutar as denúncias utilizando as suas páginas. Se os próprios defensores da Veja admitem que a internet inteira já sabe do assunto, não cola muito bem, me parece, a desculpa de que não o refutam porque não querem “amplificar” o dossiê Nassif.

Os ataques a Nassif procuram criar a ilusão de que todos são iguais – ele, afinal de contas, teria também seus interesses. Obviamente os terá, mas ninguém questionaria o direito da Veja publicar um dossiê verdadeiro contra o governo obtido de alguém que tivesse seus interesses. O problema com as “notícias” publicadas pela Veja é que, via de regra, se não são falsas, são grosseiramente distorcidas. Ou encontraram provas de que Cuba enviava dólares ao PT em caixas de uísque? Encontraram algum indício de que Lula tenha conta em paraíso fiscal? O problema com ditas matérias não eram os interesses de suas “fontes”. É que se tratava de calúnias, pura e simplesmente.

No intuito de ajudar os defensores da Veja a organizarem sua defesa com base nos fatos, o Biscoito publica hoje um resumão de algumas das perguntas que teriam que ser respondidas caso eles queiram, em algum momento, deixar de xingar ou processar Nassif e debater a realidade. Vamos lá.

1. É ou não é fato que durante 2005 a Veja publicou pelo menos cinco louvações ao publicitário Eduardo Fisher e editorializou supostas reportagens para intervir na “guerra das cervejas” tal como detalhado aqui?

2. É ou não é fato que a estranha passagem de matéria laudatória ao COC a uma diatribe baseada em distorções da entrevista de seu diretor coincide com a entrada da Abril no ramo dos livros didáticos, tal como explicado aqui?

3. É ou não é fato a tentativa de “assassinato de reputação” do presidente do STJ Edson Vidigal sem que houvesse contra ele nenhum fato incriminatório, exceto uma liminar que contrariava os interesses do Opportunity, tal como fartamente documentado aqui?

4.São ou não são fatos as bizarras manipulações de critérios de inclusão na lista de livros mais vendidos, para que o romance de Mário Sabino -- elogiado nas páginas da revista pelos seus subordinados – pudesse nela entrar, tal como detalhado aqui? (Aliás, o dito cujo tem a extraordinária desfaçatez de afirmar sou um autor bem-sucedido depois de um romance ao qual ninguém, exceto seus subordinados na Veja, deu a menor importância; alguém aí que estuda literatura brasileira a sério já ouviu falar do “bem-sucedido” escritor Mário Sabino?).

Além de tudo isso, das falsas contas de Lula, dos falsos dólares em caixa de uísque, da campanha eleitoral explícita em favor de Alckmin em 2006 e das tentativas de assassinato de reputação de gente brilhante como José Miguel Wisnik, eu poderia listar outros 300 fatos que fazem das demonstrações de Nassif algo bem próximo do irrefutável.

Até quando a imprensa vai fingir não está vendo? Por que Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi pararam de dizer que jornalista não processa jornalista? Por que ainda há gente que insiste em dizer que a esquerda só começou a criticar Veja porque esta faz oposição a Lula se as denúncias anteriores a 2002 estão amplamente documentadas? Será que a recente queda de vendagens da revista pode ser creditada às intensas críticas veiculadas na internet, que culminaram com o dossiê Nassif?

PS: Parabéns ao Bender -- simpático gremista a quem conheci em Porto Alegre Novo Hamburgo -- pela idéia da "Google Bomb do bem" que sigo aqui neste post: linkar a palavra Veja com o site das denúncias do Nassif. As buscas por "Veja" no Google só indicavam o dossiê Nassif lá pela terceira ou quarta página. Agora, ele já está na primeira página, na sexta colocação, no momento.

PS 2:
Falta agora um selinho, não do Dossiê Nassif, que já tem vários, mas de uma nova campanha blogueira contra a revista. Poderia ser algo do tipo: Não colabore com o crime organizado; cancele sua assinatura de Veja. Se alguém quiser fazer, eu colaboro na circulação.

PS 3: Milton Ribeiro, não tenho palavras para agradecer a generosidade. Obrigado, Katarina e Marco. Obrigado, Luiz. Obrigado, Porto Alegre.

Atualização: Rolou o selinho, graças ao leitor Theo. Obviamente, é para pegar e circular. Você pode embutir no selinho, se quiser, o link para o dossiê Nassif. Estamos repensando o "lema" do selo aí na caixa de comentários (razão pela qual eu retirei a imagem que esteve aqui no post por algumas horas).



  Escrito por Idelber às 02:37 | link para este post | Comentários (71)



terça-feira, 11 de março 2008

Clube de Leituras: The Ethnic Cleansing of Palestine, de Ilan Pappe

pap%3Dcle.jpg Aqui vai o convite para a próxima edição do Clube de Leituras. A partir do duro debate que ocorreu aqui na semana passada, eu e Pedro Dória nos unimos para patrocinar juntos uma conversa sobre uma obra capital: The Ethnic Cleansing of Palestine, do historiador israelense Ilan Pappe. Trata-se de uma reconstrução meticulosa dos eventos de 1948 na Palestina. Na verdade, Pappe volta até a década de 1920, na Europa e no Oriente Médio, para explicar as raízes da situação que se vive hoje.

Não se trata, nem de longe, de um texto “militante”. É o trabalho paciente de um historiador que dedicou décadas à tarefa. Pappe tem, em relação a outros historiadores que trataram do tema, algumas vantagens. Em primeiro lugar, ele lê árabe. Ou seja, teve condições de manejar fontes não só de seus compatriotas israelenses, mas também documentos produzidos por outras partes envolvidas no evento. Em segundo lugar, trata-se um profissional com formação em “história oral”, ramo da historiografia que é complexo e exige treinamento específico. Pappe se dedicou a rastrear fontes orais que contaram uma parte da história que jamais havia acedido, em tanto detalhe, ao registro escrito.

Pois bem, o Biscoito e o Pedro Dória os convidam para uma discussão sobre este livro no dia 05 de maio, 09 de junho segunda-feira. Evidentemente, o livro está em inglês. O que posso dizer é que o inglês de Pappe é cristalino, fácil de entender. A obra custa US$ 16.50 na Amazon, o que, com a queda do dólar, termina não sendo tão caro assim.

É claro que não é uma discussão fácil de se moderar. Sei dos riscos que estou correndo ao propô-la – a destruição, o fim puro e simples do Clube de Leituras é um deles. Mas acho que vale a pena corrê-los. A única regrinha é que tem que ler o livro. Pois bem, quem está disposto a investir trinta reais e algumas horas de leitura em inglês para participar dessa conversa? Vocês teriam quase dois três meses para fazer o pedido e a leitura. Quem se aponta? Há algum outro blogueiro que gostaria de nos ajudar a divulgar?

PS: O Odisséia Literária, do meu amigo Leandro Oliveira, está de belíssima casa nova.



  Escrito por Idelber às 02:28 | link para este post | Comentários (48)



segunda-feira, 10 de março 2008

Em Porto Alegre

A minha última visita a Porto Alegre havia sido em fase pré-blogueira, em julho de 2004, para o Congresso da Abralic daquele ano. Eu descia a Borges de Medeiros com dois amigos italianos. Tinha a cara tão feliz de estar ali e falava tão entusiasmado sobre as coisas do Rio Grande – se não me engano, o tema era a ida de Tesourinha para o Grêmio em 1954, que pôs fim a décadas de segregação racial no Tricolor – que um dos amigos chegou a comentar: puxa, achei que você fosse mineiro. Que não se acuse este post, pois, de puxação de saco com meus anfitriões. Minha história com o Rio Grande está documentada em resenhas musicais ainda na casa velha, homenagens ao Internacional 1975-76 e ao Grêmio 1983, louvações à capital e à culinária gaúchas, além de incontáveis anúncios desta visita. Sobre minhas conexões musicais gaúchas e minha admiração por sua lucidez, já escrevi outras vezes.

Interessam-me essas mitologias que os lugares constroem sobre si mesmos. Tome Minas Gerais. Trata-se de uma narrativa de identidade regional que cultua a dissimulação e a esperteza por trás das portas. Amo Minas, mas tenho uma relação bem ambígua com o relato dominante sobre a identidade mineira. Identifico-me muito mais com uma narrativa – como a gaúcha – que celebra a exterioridade, o peito aberto na defesa das próprias posições. Quem lê este blog sabe que, neste sentido, sou muito mais gaúcho que mineiro.

A diferença se manifesta até mesmo nos heróis de cada lugar. Os grandes heróis mineiros são figuras que entraram para a história na sua morte: Tiradentes e Tancredo, para não ir mais longe. No Rio Grande, há outra relação com a vida, completamente. Sim, sei que a morte de Getúlio Vargas também ficou famosa. Mas Getúlio venceu à beça antes de meter a bala no peito. Há aí uma diferença fundamental com os heróis mineiros, que parecem só aceder à história enquanto derrotados – apesar, claro, de toda a fama de espertinhos que temos.

Gaúchos não acreditam nessa viadagem da Terceira Via. O futebol, como sempre, é a metáfora perfeita. Porto Alegre compartilha com Belo Horizonte a condição de cidade sede de dois grandes clubes. Mas a rivalidade Galo x ex-Ipiranga não é nada em comparação com a rivalidade dos pampas. Em primeiro lugar, porque nós, mineiros, temos essa estranha entidade, o América-MG, que ainda arrebanha, sei lá, uns 3% da torcida, acolchoando a tensão entre os dois grandes. Em segundo lugar, em Minas Gerais você encontra, ao contrário do Rio Grande, esse esquisito ser, o sujeito que não torce para ninguém. Em BH isso é relativamente comum. Pode ser que exista um porto-alegrense que não tenha preferência clubística. Mas lhes digo: eu nunca vi.

Graças à generosidade de Milton Ribeiro, estive no Gigante da Beira-Rio pela primeira vez depois de 28 anos (a última visita havia sido na legendária semifinal do Brasileirão de 1980, quando o Galo pôs fim à maior dinastia do futebol brasileiro pós-Pelé com sonoros 3 x 0 no Internacional de Falcão). Neste sábado, compareci ao épico embate entre o Inter e os Xavantes do Brasil de Pelotas.

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Discutindo o carrossel colorado na arquibancada

O Inter é uma equipe que não empolga, parece sonolenta, mas cria uma quantidade absurda de chances de gol. O Brasil teve o azar de levar o primeiro aos 15 minutos de jogo e de perder um jogador por expulsão aos 25. Daí pra frente foi ataque contra defesa. Iarley perdeu três gols feitos e Fernandão parecia um sonâmbulo em campo. Mas mesmo assim o Colorado sobrou. Com 48.000 pessoas no Beira-Rio (11.000 mulheres entraram de graça pelo 08 de março), o Inter fez tranqüilos 2 x 0. O maior choque cultural dos atleticanos presentes no estádio foi a forma como a torcida assiste o jogo sentada; nada a ver com o enlouquecimento que toma conta da Massa no Mineirão. Eles saem de casa para ir ao estádio 20 minutos antes do jogo. É incrível!

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Milton, com seu modelito Valderrama; eu, com a camisa da seleção chilena; Alexandre, com a legendária número 3 de Elias Figueroa.

Depois, houve uma reunião memorável de blogueiros: Milton, Claudia Antonini, a futura parlamentar italiana, Tiagón, o visionário da Verbeat, Douglas Ceconello e Daniel Cassol, que escrevem o melhor blog de futebol do Brasil, Gabriela Zago, a futura Advogada-Geral de Defesa dos Blogueiros, Brigatti, o paulista expatriado, além de outros amigos. No dia seguinte, depois da visita de regra ao Brique da Redenção e de um super churrasco no legendário Barranco, um encontro com Katarina Peixoto, esse cérebro fulminante spinoziano,o Marco Weissheimer, de tantas afinidades políticas, o antenadíssimo César Animot e o leitor Luiz, que até chaveirinho do Grêmio me presenteou. Faltou a Suzana, que não apareceu; ainda tenho que ir atrás da Claudia Cardoso. Por aqui é possível sair à rua e encontrar gênios que escrevem essas coisas absurdamente brilhantes. Em definitivo: o Rio Grande está sobrerepresentado nas minhas preferências blogueiras.

Pois é. O post de hoje era só para agradecer essa hospitalidade gaúcha e dizer da alegria de estar aqui, especialmente de estar com esse amigo maravilhoso, com o qual me relacionei durante anos sem nunca vê-lo ao vivo. Venham ao Rio Grande.

PS:
Em algum momento desta segunda-feira eu completo o post com as fotos, que são boas. Faltou um cabo... Fotos: Bernardo Ribeiro.



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sexta-feira, 07 de março 2008

Uma pergunta ético-política sobre a campanha americana

Está instalada uma dinâmica bem bizarra na campanha eleitoral americana. Barack Obama recebeu 600.000 votos a mais, tem uma liderança praticamente inalcançável no número de delegados, venceu mais estados e tem uma performance superior à de Hillary Clinton contra John McCain em qualquer pesquisa que você olhe. Com a recente certificação dos votos da Califórnia, mais 8 delegados foram para a coluna de Obama, o que por si só cancela todo o ganho da vitória de Hillary na terça.

Mas a julgar pela dinâmica das manchetes e das declarações de ambas campanhas, é como se Obama, e não Clinton, estivesse nas cordas. Aliás, Obama está nas cordas. Psicológica e discursivamente, enquanto Clinton está em apuros matematicamente. Se é que vocês me entendem.

A dinâmica dos últimos dez dias – e particularmente de quarta-feira para cá – é de pancada atrás de pancada do campo Clinton em Obama, incluindo-se ataques pessoais que fazem os Republicanos delirar de alegria. Obama se vê repetidamente explicando coisas anódinas, sem substância. Não parte para a ofensiva. É curioso porque, entre os dois, é ela, não ele, quem tem o armário cheio de esqueletos mal explicados. No entanto, por mais que parte da base exija, Obama se recusa a fazer ataques (veja a boa análise de Josh Marshall sobre isso) e mantém a tal campanha positiva. É de se admirar, porque se há dois políticos democratas susceptíveis a ataques éticos, é o casal Clinton.

Pois bem, eis que em pleno aeroporto de Guarulhos me vem a notícia – fonte oral – de que chegou a ser proposta dentro da campanha Obama a veiculação de um comercial que perguntasse a Hillary Clinton onde anda sua declaração de imposto de renda do ano passado, que há meses ela se recusa a apresentar, apesar de várias promessas. Tenho para mim que um simples comercial perguntando Senadora Clinton, por que a Sra. não apresenta a sua declaração de imposto de renda?, veiculado durante 48 horas entre o domingo e a terça, em Ohio e no Texas, já teria decidido a indicação democrata.

Foi proposto. Barack vetou.

Você faria? Ou acha que sujar as mãos com esse tipo de comercial agora já implica não tê-las limpas depois? Ou acredita que Barack estaria mais que justificado em veiculá-lo? Lembre-se: 48 horas perguntando pelo imposto de renda, em Ohio e no Texas, e ele já teria saído para o abraço. O que você teria feito no lugar dele? Pergunta ético-política. Estou interessado em ouvir.



  Escrito por Idelber às 21:07 | link para este post | Comentários (83)



quinta-feira, 06 de março 2008

Help

OK, minha vez de pedir ajuda aos leitores do blog: alguém aí saberia, por favor, qual é o serviço de internet wi-fi que eu poderia comprar por duas semanas -- e que funcione no Bairro União, em Belo Horizonte?

Eu tinha internet a cabo no meu AP em BH, mas cancelei porque não valia a pena ficar pagando o ano inteiro. Agora preciso estar conectado pelas próximas duas semanas, aí no Brasil (de preferência via um serviço que eu pudesse comprar hoje, online, aqui nos EUA).

Tem que funcionar em Belo Horizonte. Em Porto Alegre vou estar conectado graças a um querido amigo.

Quer tiver uma dica, por favor, deixe aí. A casa agradece :-)



  Escrito por Idelber às 14:29 | link para este post | Comentários (25)




Um aniversário

É inacreditável, mas para toda a imprensa esportiva, canais de televisão ou jornais, passou completamente batido o aniversário de 30 anos da data que, depois do 16 de julho, é a mais trágica da história do futebol brasileiro. Há exatos trinta anos, no dia 05 de março de 1978, o futebol morria mais um pouco. Prefigurada, ali, em todo o drama, a derrota do Sarriá.

Nascia esse ser tão estranho, tão brasileiro: o vice-campeão invicto. Para quem quiser rever os momentos finais da agonia, ei-los aqui. Foram bravos e inesquecíveis, aqueles vice-campeões.

Eu estava lá.

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  Escrito por Idelber às 04:58 | link para este post | Comentários (19)



terça-feira, 04 de março 2008

Cobertura ao vivo das primárias democratas

Atualização: esta é a trajetória da cobertura de ontem à noite. Na caixa de comentários, há algumas respostas minhas a perguntas de leitores, até o #60. Daí em adiante, não poderei mais responder comentários, pois estou preparando-me para viajar ao Brasil amanhã. Mas incentivo aos leitores que estejam mais por dentro do processo a responder as indagações dos outros. Tomem conta do bate-papo e elocubrem à vontade. Eu volto na madrugada de amanhã com outro post, antes de embarcar rumo a Porto Alegre.

Bem vindos. Este é o post que vai ser atualizado periodicamente com notícias acerca da disputa democrata de hoje. Já tenho vários links e algumas observações. Cada atualização virá com o horário de Brasília. Deixem aí seus comentários e vou incorporando-os ou respondendo-os ao longo da noite.

21:00: Acabam de fechar as urnas em Vermont. Todos os veículos de mídia projetam vitória de Obama por lá. As pesquisas de boca-de-urna dão diferença enorme em seu favor nesse estado, o que não é inesperado.

21:03: Ao longo do dia, o clima no campo Clinton foi de euforia. Vamos ver se é blefe.

21:08: Boca-de-urna em Vermont: Entre os homens: Obama 68 x 31 Clinton, entre as mulheres: Obama 57 x 41 Clinton.

21:17: 10% dos eleitores da primária democrata do Texas foram Republicanos. Um dos principais radialistas ultra-conservadores do país, Rush Limbaugh, que sempre demonizou Hillary, está convocando o eleitorado republicano para participar das primárias democratas e votar nela. A direita já escolheu a candidata que quer enfrentar, está claro.

21:25: Membro da campanha de Hillary hoje, justificando a montanha de ataques morais feitas a Obama: não é edificante, mas é necessário.

21:32: Sobre os horários: faltam ainda 2 horas 1 hora e meia para o fechamento das urnas no Texas. Ohio já fechou. Na medida em que forem pingando os números de Ohio, já dá para ter uma idéia de como vai ser a noite. Números finais, mesmo, só bem tarde, já na madrugada aí do Brasil.

21: 47: Comentário de Tom Brokaw acerca da resposta de Hillary Clinton, no 60 minutes, sobre se Obama era cristão mesmo, em vez de muçulmano: foi de um calculismo nixoniano e maquiavélico.

21:59: Os primeiros números de Ohio são bons para Clinton. São só 2% apurados, mas ela saiu na frente.

22:07: Boca-de-urna em Ohio: entre os que escolheram no último minuto, a vantagem é de Clinton por 11 pontos. Parece que as rajadas de ataques e comerciais negativos contra Obama tiveram algum efeito. A boa notícia para Obama é que tanto em Ohio como no Texas a mudança ganhou da experiência como critério de escolha.

22:14: Em Cuyahoga County, um dos maiores bastiões de Obama em Ohio, acabaram as cédulas. Êita, democracia!

22:16: A campanha de Obama conseguiu manter abertas as urnas em Cuyahoga County (que é onde fica Cleveland) até 9 PM. Teve que enfrentar uma batalha jurídica com a campanha de Hillary, que queria fechá-las.

22: 32: Os teleespectadores da MSNBC estão descobrindo agora o que os leitores do Biscoito sabem já há alguns dias: mesmo que Hillary vença as primárias no Texas por 51 x 49, a maioria dos delegados será de Obama, que deve vencer as assembléias. A alocação dos delegados favorece as áreas mais densamente povoadas, onde a vantagem é de Obama.

22:38:
Previsão do Biscoito: Se Hillary tiver mesmo vencido por 11 pontos entre os eleitores que se decidiram nos últimos dias, aguarde uma campanha sangrentamente negativa contra Obama nas próximas semanas. O setor pró-ataques pessoais da campanha de Clinton terá como argumentar que a pancadaria dos últimos dias deu certo.

22: 48
: A tal história com a embaixada canadense está detonando Obama em Ohio. É incrível como é a política: Hillary implementa NAFTA com o marido. Defende o acordo durante uma década. Muda de posição na véspera da eleição. Obama critica NAFTA desde que entrou na política. Mas uma besta-quadrada da sua campanha se reúne com um canadense, a direita canadense aproveita para atacar, vaza um memo que não tem nenhum conteúdo incriminatório, e Hillary lança uma rajada de ataques a Obama como o "incoerente". É, mes amis, política não é para inocentes.

22:51: Há uma tele-conferência dos advogados de Clinton, chamando a imprensa no Texas. É a primeira tentativa de melar as assembléias, o que este blog também já havia previsto.

23:01: É oficial: John McCain será o candidato republicano em novembro.

23:05:
Alguns leitores andam perguntando por que os números da CNN mostram 1% dos votos se já foram contados 800.000. Resposta: early voting. O 1% se refere a distritos, não a votos. Essas centenas de milhares de votos são cédulas que vieram de quem votou antes, nas semanas anteriores.

23:09: Os primeiros números do Texas são bons para Obama.

23: 25:
Também há cobertura em tempo real lá no Pedro Dória.

23:37: Agora sim, temos números significativos do Texas, divididos por condado. São mais que satisfatórios, por enquanto, para a campanha de Obama. O spin que você provavelmente ouvirá da campanha de Clinton será que o que importa é Ohio, pois se trata de um swing state.

23:50
: McCain está fazendo seu primeiro discurso como candidato republicano oficial. Como o cabra é soporífero! A sensação que dá é que eu e o Paulo Isidoro numa chapa derrotaríamos o sujeito. Se os democratas não vencerem esta, sinceramente, é hora de fechar para balanço.

23: 55: É incrível a acusação que os advogados de Hillary estão fazendo contra as assembléias no Texas. A acusação é "obtenção antecipada do pacote de papéis da assembléia" (early obtaining of caucus packages). Mas esses "pacotes" são simplesmente as instruções e as folhas em branco da assembléia! (Detalhes aqui e aqui). Também há acusações de que a campanha de Obama fechou portas antes da hora, o que, a julgar pelos condados de onde vêm as denúncias, eles só teriam feito se fossem burros. Os números das assembléias, com certeza, não sairão hoje. Clintons: fortes no tapetão desde 1992.

00:21: Com 36% dos distritos já contados em Ohio, a parcial é Clinton 57 x 41 Obama. Mas atenção: ainda não chegaram os votos de Cuyahoga County (Cleveland).

00:25: Se é teoria da conspiração ou não, julguem vocês, mas há denúncias de que a campanha de Clinton escureceu a pele de Obama nos comerciais que fez contra ele.

00:53: A MSNBC projetou Hillary Clinton vencedora em Ohio. A atual margem de vantagem que ela tem é suficiente para projetar uma vitória, mesmo com os votos de Cleveland ainda não tendo sido computados. A grande ironia, claro, é que o NAFTA -- acordo implementado na administração Clinton e odiado em Ohio -- foi um dos grandes fatores nesta vitória, graças à trapalhada de um membro da campanha de Obama com a embaixada canadense.

01:15: Megacelebração de Hillary Clinton em Ohio. É uma vitória que importa muito, e na realidade mais pela psicologia da coisa do que pela diferença de delegados. Inclusive, é possível que apesar da derrota, Obama tenha a maioria dos delegados em Ohio. O Open Left explica.

02: 29: Resumão da noite:

Clinton vence Rhode Island por 58 x 40. A alocação de delegados fica mais ou menos em 12 x 8. Tire 4 da vantagem atual de 150 para Obama.

Obama vence Vermont por 60 x 38. Os delegados ficam mais ou menos em 9 x 6. Volte a colocar mais 3 de vantagem para Obama.

Em Ohio, Clinton tem, no momento, uma vantagem de 56 x 42, com 83 % dos distritos já computados. É possível que essa vantagem diminua, na medida em que chegam os votos urbanos de Obama. De qualquer forma, Clinton vence Ohio com boa vantagem. São 141 delegados. Ainda não está clara qual será a margem no número de delegados por lá. A matemática é complicadíssima e não se espera que Clinton tire grande diferença nesse número.

No Texas, com 75% dos votos apurados nas primárias, tanto a CNN como a MSNBC proclamaram Clinton vitoriosa, apesar da diferença de votos ser minúscula. Já veterano de vários tropeços das televisões nesses assuntos, eu prefiro esperar a contagem dos votos em Houston. Nas assembléias, vencerá Obama. O Biscoito mantém a previsão de que Obama conquistará a maioria dos delegados no Texas.

Conclusões:

1.Hillary conquistou uma baita vitória psicológica e mudou a narrativa da campanha, que vinha sendo demolidora para ela. Mas a matemática dos delegados praticamente não mudou. Obama continua com quase 150 delegados de vantagem.

2.É muito improvável que Obama consiga os 2025 delegados necessários antes da convenção. Também é igualmente improvável que Clinton o alcance antes da convenção. Isto coloca mais pressão nos tais delegados biônicos (os “superdelegados”), que totalizam 20% do número total de votos na convenção. Também coloca mais pressão no Partido para que resolva a pendenga acerca dos delegados de Michigan e da Flórida.

3.Com o quatro atual, estamos naquela situação imortalizada por Luis Fernando Veríssimo em seu O Analista de Bagé: ninguém sai, ninguém sai. A única possibilidade realista de que alguém abandone a corrida é que Obama vença Hillary na Pensilvânia, que é a terra natal da senadora e o único estado realmente grande com primárias programadas. Elas acontecerão no dia 22 de abril. Se Obama vencer lá, volta a pressão para que ela abandone. Se não, a coisa talvez se arraste até a convenção. Os republicanos, claro, vão adorar. Antes da Pensilvânia, votarão Wyoming, no dia 08 de março, e Mississippi, no dia 11, ambos Obamaland.

4.Obama tem que aprender a dar umas caneladas. Não precisa abdicar de seus princípios éticos, mas algum tipo de reação mais dura aos ataques negativos ele terá que elaborar. Nesta semana, Hillary chegou a declarar: eu trago uma experiência de vida; John McCain traz uma experiência de vida; Barack Obama faz discursos. Imagine quantas vezes os republicanos vão tocar esse clip na eleição geral, caso se confirme a candidatura de Obama.



  Escrito por Idelber às 19:56 | link para este post | Comentários (80)




Disputa democrata emocionante hoje à noite

É incrível, mas São Pedro pode dar uma contribuição decisiva para os resultados das primárias democratas de hoje. É que o estado de Ohio, no congelado meio-oeste americano, deverá ter um dos piores dias do ano em termos climáticos. A meteorologia prevê uma tempestade de gelo histórica no norte do estado, especialmente no nordeste (se você nunca passou um inverno no meio-oeste americano ou em regiões similares, não imagina o que é tentar dirigir um automóvel numa tempestade de gelo). As notícias climáticas são ruins para quem? Para Obama, que tem em Cleveland uma de suas bases mais importantes no estado. O problema para Cinton é que no sul / sudeste de Ohio, onde se concentra o voto rural e católico clintoniano, há previsão de inundação. Acompanhe essa batalha da sorte (enquanto isso, nós aqui em New Orleans já estamos em clima primaveril).

As pesquisas se moveram um pouco nos últimos dias: a pequena diferença em favor de Clinton em Ohio cresceu um pouco, e diminuiu a pequena diferença em favor de Obama no Texas. Dada a situação atual da corrida, se Clinton não vencer esses dois grandes estados, haverá muita pressão para que ela abandone. Além deles, votam hoje Vermont, onde Obama deve vencer, e Rhode Island, o estado mais católico dos EUA, onde Clinton tinha enorme vantagem que caiu para coisa de 5 pontos. Os católicos são a base mais sólida de Hillary Clinton: é o único grupo social em que ela sempre o derrota. Até mesmo em Illinois, onde Obama venceu de goleada, Clinton teve a maioria do voto católico (esta lealdade dos católicos a Hillary, inclusive, mereceria um post separado: ela data de 1998; um doce para quem adivinhar por quê).

Dois eventos recentes podem ter diminuído um pouco o furor da Obamamania. O primeiro é o início do julgamento de Tony Rezko, sujeito implicado em falcatruas e fraudes, com quem Obama chegou a trabalhar depois que saiu da Faculdade de Direito. Rezko fez doações à campanha, repassadas depois a instituições de caridade quando se confirmaram suas falcatruas. Obama chegou também a comprar parte de um terreno pertencente a ele, num negócio que ele depois caracterizaria como uma “burrice”. Não há provas de maiores ilegalidades por parte de Obama nessa história, mas sem dúvida é um desgaste. E é verdade que há perguntas não respondidas sobre suas associações com o cabra.

A outra notícia que pode desgastar é um memorando que vazou da Embaixada Canadense, confirmando um contato de um alto membro da campanha de Obama com os canadenses e sugerindo que houve uma conversa sobre o NAFTA. De novo, não há nada de ilegal em que um candidato estabeleça conversas com embaixadas de países amigos. Mas foi o suficiente para que Obama passasse dois dias sob fogo cerrado da campanha de Clinton, que o acusou de criticar o acordo em público e massageá-lo em privado com os canadenses (Hillary, por sua vez, sempre elogiou o acordo implementado pelo marido, mas mudou de discurso quando se lançou à presidência, já que o NAFTA é muito impopular em estados industriais como Ohio). Depois do imbróglio, a Embaixada Canadense soltou uma segunda nota, dizendo que não havia acontecido nada demais – o que pode ter atrapalhado mais ainda, em vez de ajudar. Tem Obamaníaco por aí furioso com os canadenses.

Do lado de Clinton, pegaram mal as constantes ameaças de processo ao Partido Democrata do Texas em função das regras das primárias – que são, sim, complexas, mas que existem há anos. A campanha de Clinton espera prorrogar ao máximo o anúncio dos resultados das assembléias noturnas no Texas, porque ali a vantagem é de Obama. Se ela vencer Ohio e estiver vencendo nas primárias diurnas no Texas, aguarde tentativas de melar o jogo nas assembléias noturnas. O outro negativo foi o comercial que lançou Clinton, no melhor estilo republicano, mostrando crianças dormindo e fazendo a pergunta: se tocar o telefone da Casa Branca às 3 da manhã e os seus filhos estiverem em perigo porque algo aconteceu no mundo, quem você gostaria que atendesse o telefone? A atmosfera de medo que tenta criar o comercial é nítida. Assista-o e veja, pelas reações registradas em computador, como ele impactou negativamente a maioria dos eleitores indecisos.

Voltando ao clima de ataques pesados, Clinton passa a sensação de que está jogando sua última cartada. Ela precisa de vencer Ohio e Texas – qualquer coisa menos que isso não define a parada matematicamente para Obama, claro, mas coloca a senadora na posição de ter ouvir incontáveis Capitães Nascimento insistindo que ela peça para sair. Vai ser emocionante hoje à noite.

A partir das 20 horas de Brasília tem cobertura ao vivo aqui no blog.

PS: Sobre esse incrível imbróglio envolvendo Equador, Venezuela e Colômbia, confira os posts do Alon e do Sergio Leo, ambos muito qualificados para falar do assunto.



  Escrito por Idelber às 03:56 | link para este post | Comentários (20)



segunda-feira, 03 de março 2008

Adendo ao post anterior

O Pedro Dória escreveu uma resposta ao meu post anterior. Resposta leal, do jogo. Eu poderia rebater, mas acho que não é o caso neste momento. Aos amigos que andam escrevendo, preocupados, um aviso: eu e o Pedro estamos em contato por email e a amizade é inabalável. Fiz o que fiz porque: 1) Acho que determinadas coisas devem ser ditas e há muito pouca gente dizendo-as. 2) Não acredito nessa hipocrisia que se vê em alguns blogs, do tipo “tem gente aí que diz que”. Não. Aqui só há crítica com nome e link. 3) Eu sabia que o Pedro, velho veterano da Internet e de muitos debates, tinha como se defender. Ele tem um blog com mais visitas que o meu, acesso à mídia etc. Eu não pegaria um blog que está começando para soltar um rojão desses. Mas é verdade o que ele diz: eu não o avisei. Planejei fazê-lo, mas não o fiz. Deveria tê-lo feito, porque realmente não deve ser bom acordar e ver de surpresa um chumbo grosso desses vindo de um amigo.

Dito tudo isso, vamos à frase mais polêmica: Enquanto isso, os árabes agüentam o sangue. São mais duros, morrem sem se preocupar . O Pedro, e outros leitores, me apontaram um contexto em que isso seria ele atribuindo esse raciocínio ao Hamas. Eu, lendo de boa fé, interpretei de outra forma. Muita gente interpretou como eu. Outros não. Mas aceito a palavra do Pedro e substituo a acusação de que a frase é racista pela acusação de que ela contém, além da ambigüidade, uma generalização que é de um simplismo atroz. Se há algo que ninguém anda em condições de ensinar na Palestina hoje é a “não se preocupar” -- vivendo ou morrendo. Enfim, debater essa frase já não importa.

De resto, mantenho tudo o que disse lá, sobre todos os outros trechos. A “sensatez”, às vezes, pode confundir-se perigosamente com a cumplicidade. Neste assunto – eu sou o primeiro a reconhecer –, não estou disposto a exercitar a ponderação, mesmo tendo feito tantos chamados a ela em posts recentes. A diferença, para mim, é que aqui há algo da ordem da lesa-humanidade.

O Pedro diz que jogou a toalha com o tema. Confio e espero que seja uma decisão temporária, já que Pedro é um dos brasileiros mais bem informados sobre a região. Eu lho disse pessoalmente. Mas também lhe disse que, freqüentemente, ele transmite a mim e a muitos outros a sensação de que já perdeu totalmente a sensibilidade ante o sofrimento palestino.

PS: Aqui você pode atacar (ou defender, lógico) qualquer coisa que o Pedro escreveu. Não pode atacá-lo na sua integridade profissional. Confio que todo mundo seja capaz de estabelecer a diferença.

Atualização
: Releia-se o que eu escrevi no post anterior sobre punhetagem metalingüística. Agora observem a caixa de comentários. Acompanhem a discussão movendo-se totalmente na direção do debate sobre a interpretação de uma frase, de tal forma que desaparece qualquer referência aos 100 cadáveres palestinos. Cem, não. Já são 110 confirmados. Eram 100 quando escrevi o post. Saberá Ogum quantos são agora.



  Escrito por Idelber às 21:43 | link para este post | Comentários (23)




100 palestinos mortos; comentário sobre algumas racionalizações do massacre

Num post cheio de justificativas e racionalizações para os massacres israelenses, Pedro Dória escreve (todas as citações são tiradas do post e vão em itálicos):

1) os árabes agüentam o sangue. São mais duros, morrem sem se preocupar. É inacreditável que um jornalista continue reproduzindo essas grotescas caricaturas racistas. A cada chacina perpetrada por Israel, aparecem na mídia essas generalizações sobre os árabes. Os árabes não gostam de sangue e sacríficio mais que qualquer outro grupo humano. Submetidos a décadas de humilhações, invasões e ocupações, reagem como qualquer outro grupo humano, ou seja, num leque de alternativas que vai desde a violência suicida mais desesperada até a perda completa da capacidade de ter esperanças. Os africanos não gostam de matar suas crianças mais que qualquer outro grupo humano. Mas incontáveis africanos e afrodescendentes recorreram ao infanticídio como forma desesperada de tentar salvar seus filhos do opróbrio da escravidão. Os indígenas da Mesoamérica não gostam de se suicidar mais que qualquer outro grupo humano. Mas incontáveis mexicas, toltecas e chichimecas recorreram ao suicídio como forma de fugir dos horrores da colonização espanhola. A idéia de que “os árabes cultuam o martírio” é nada mais que isso: um estereótipo racista. Em incontáveis conversas com amigos árabes, escutei sempre, invariavelmente, a mesma história: “por que não nos percebem como humanos? Por que achariam que vamos viver contentes sob botas estrangeiras dentro da nossa própria casa? Vocês viveriam?”

2) a estúpida comparação de Israel com o nazismo [.....] Se há um Holocausto em curso? Nem de perto. Sinceramente, os defensores das chacinas de Israel têm que parar com essas brincadeirinhas de semântica. Acho obsceno que alguém escreva isso sobre 100 cadáveres palestinos num fim de semana, incluídos aí os de dezenas de crianças e bebês. Veterano de vinte e cinco anos de discussões com os que racionalizam cada crime de Israel, já está, para mim, cristalina a conclusão: não querem dialogar coisa nenhuma. Querem criar uma perene punhetagem metalingüística que vai se arrastando até que se perde completamente o horizonte da inadmissibilidade moral da coisa. Holocausto não pode, menção ao nazismo não pode (a não ser que seja para justificar os crimes de Israel, claro), chacina não pode, matança não pode. Só pode aquele delicioso termo: ato de auto-defesa. Até que a última criança palestina seja esmagada por um tanque israelense subsidiado pelos meus impostos, haverá alguém para dizer Israel tem o direito de se defender -- como, aliás, escreveu o Pedro quando Israel esmigalhou o sul do Líbano com bombas em julho de 2006, destruindo o renascimento cultural e turístico pelo qual passava o país.

3) O atual governo eleito palestino se recusa a reconhecer o direito de existência de Israel. Como conversar a paz com quem jura sua destruição na primeira chance que tiver? O cinismo do argumento é de embrulhar o estômago. A imprensa israelense cansou-se de noticiar que o Hamas propunha, implorava mesmo, por um cessar-fogo incondicional dos dois lados, sem que nenhuma das reivindicações palestinas sobre o seu território fossem cumpridas como pré-condição. O Hamas não tem chance nem de sonhar com a destruição de Israel. Só por má fé pode se negar este fato. Israel continua com suas chacinas em Gaza não porque o Hamas ainda não tenha feito uma cerimônia em que solemente escrevesse em seus estatutos que reconhece o estado judeu. As chacinas continuam por um cálculo das forças políticas que governam Israel. Sabem que podem fazê-lo, sabem que a comunidade internacional vai se calar, sabem que os EUA vão repetir a cantilena de que “Israel tem o direito de se defender” e sabem que os palestinos não têm como evitá-lo. Trata-se de um cálculo, a longo prazo, suicida – na minha opinião e na opinião de 64% dos israelenses. Mas isso não impede que os massacres sigam acontecendo. Àqueles que os racionalizam, não custa lembrar uma lei inexorável da história: nenhuma ocupação colonial dura para sempre.

Aliás, a justificativa para a recusa a se negociar com o Hamas é de um cinismo atroz. O Hamas foi incentivado politicamente por Israel na época em que a OLP (Organização para a Libertação da Palestina, precursora do atual Fatah) era a inconteste representante do povo palestino, com legitimidade não questionada. Naquela época, Arafat e a OLP é que eram os "terroristas". Depois que a representatividade do Fatah já está reduzida a frangalhos -- porque afinal de contas, a crença de qualquer ser humano na moderação vai se esvaindo quando décadas passam e você continua vivendo sob ocupação estrangeira tão brutal --, é a vez do Hamas ter que ser desqualificado como possível parceiro na mesa de negociação. Para a ocupação colonial, interlocutor bom é interlocutor morto.

4) não adianta permanecer voltando a 1948. Outra afirmação recorrente entre os defensores das chacinas de Israel. Não voltar a 1948, claro, é uma forma de perpetrar o mito de que "os árabes começaram a guerra"; é uma forma de esconder que o estado de Israel deve sua fundação a organizações terroristas; é uma maneira de mascarar a gigantesca dívida com a população palestina, expulsa de suas casas, desumanizada e humilhada para que o Ocidente pudesse aplacar a culpa pelo Holocausto. Via de regra, não acredite em ninguém que queira discutir um fenômeno histórico propagando a ignorância de suas origens.

5) Como na piada do rabino, é perfeitamente sensato dizer: ambos têm toda a razão. A frase é a insensatez em pessoa. Ante chacina após chacina, ante massacre após massacre, o menos sensato que se pode dizer é que “ambos têm toda a razão”. São 4 décadas de ocupação ilegal dos territórios palestinos na Cisjordânia (e 37 anos de ocupação de Gaza, seguidos por três anos de bombardeios, incursões, retenção de fundos, cortes de energia e um verdadeiro inferno na faixa “desocupada”). Isto é somente 22% do território palestino original. O único que pede o povo palestino é o direito de viver em paz nestes 22% reconhecidos como seus pela comunidade internacional, depois que os outros 78% já foram roubados. Imagine você, amigo paulistano, tendo que fazer fila, apresentar documentos, ser humilhado e detido a qualquer momento por um exército estrangeiro cada vez que quisesse atravessar a Avenida Paulista. Imagine, conterrâneo, ver compatriotas grávidas morrendo na fila de barreiras militares estrangeiras na Avenida Afonso Pena, porque não foram liberadas pelo exército estrangeiro ocupante a tempo de ir ao hospital. Agora imagine que cenas como esta:

060b.jpg

ou esta:

P31.jpg

ou esta:

P30.jpg

se repetem diariamente nos checkpoints da Palestina. Agora imagine isso durante quarenta anos consecutivos. E aí você começará a ter uma idéia do que é a vida palestina sob a ocupação, desde que não se esqueça, claro, de que junto com os checkpoints vêm os bombardeios, demolições de casas, assassinatos e o silêncio cúmplice da comunidade internacional, pontuada pelo papagaio da vez na Casa Branca repetindo que "Israel tem o direito de se defender". Sim, este blog considera que querer ver "os dois lados" nesta questão é rigorosamente análogo a escrever a história do massacre de Pizarro no Peru "tentando ver os dois lados", a relatar os horrores das senzalas "tentando ver os dois lados" e, sim senhor, contar a história do massacre alemão sobre os judeus tentando "ver os dois lados". Todos estes fenômenos históricos são bastante diferentes entre si. Idêntica é a imoralidade de quem os quer justificar com uma pseudo-ponderação balanceada.



PS: O Biscoito Fino e a Massa entende que os direitos sobre quaisquer imagens que documentem a chacina que sofre o povo palestino são de domínio público, pois elas configuram testemunho de crime lesa-humanidade.

PS 2: Ao contrário do que tem sido a política editorial do blog quanto à Palestina ocupada, a caixa de comentários está aberta e o leitor está convidado a escrever. Os comentários serão moderados. Quem quiser, pode redigir com calma: no final da manhã aqui, começo da tarde aí no Brasil, eu poderei liberá-los.



  Escrito por Idelber às 05:17 | link para este post | Comentários (83)



domingo, 02 de março 2008

Israel continua a matança genocida em Gaza: Mais de 60 mortos. Pelo menos um terço são crianças

O estado nazi-sionista continua com sua matança indiscriminada em Gaza. Israel conseguiu bater recordes de criminalidade internacional neste sábado: bombardeios a civis, assassinatos de crianças e bebês de seis meses de idade, ambulâncias metralhadas. Mais de 60 mortos, sendo pelo menos um terço crianças; mais de 200 feridos, boa parte deles em estado muito grave. Israel simplesmente faz o que quer e a comunidade internacional se cala.

Explicam-se com a velha desculpa esfarrapada, quando até mesmo a imprensa israelense está cansada de saber que há meses o Hamas vem mandando enviados com propostas de trégua. É a estratégia denunciada pelo próprio israelense Dorom Rosemblum como “Só mais um”. Só mais uma matança, só mais uma “incursão”, só mais uma chacina. Quando algum desses “razoáveis” e “ponderados” cúmplices do nazi-sionismo objetar ao uso do termo “Holocausto” para descrever o que está acontecendo em Gaza, avise que é o próprio Ministro de Defesa de Israel que está prometendo Holocausto. Assista, se agüentar, as imagens do genocídio em Gaza:

O mínimo que podemos fazer é escrever à embaixada dos nazistas para manifestar o que pensamos sobre o assunto. O email da embaixatriz nazi-sionista no Brasil é ambassadorsec@brasilia.mfa.gov.il

Nada, nada vai fazê-los parar até que a pressão da comunidade internacional se torne insustentável. Boicote Israel. Boicote os produtos israelenses. Boicote as firmas israelenses. Não há conversa “ponderada” e “equilibrada” possível sobre este assunto. Só a hostilidade incondicional do resto do mundo tem alguma chance de deter esses assassinos.



  Escrito por Idelber às 04:52 | link para este post



sábado, 01 de março 2008

A quatro garotos

O Galo aos sábados faz um intervalo hoje em memória dos quatro garotos palestinos assassinados por Israel quando jogavam futebol. Enquanto continuam os massacres em Gaza e Israel consolida sua posição de país mais detestado do planeta, deixo-os com uma foto assombrosa tirada recentemente em Hebrom, na Cisjordânia, Palestina Ocupada.

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O Biscoito reabre a caixa de comentários no próximo post.



  Escrito por Idelber às 04:03 | link para este post