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segunda-feira, 31 de março 2008

BRASA, nono congresso: Um balanço

Fundada em 1992, a BRASA já havia se reunido em Atlanta (1994 e 2002), Minneapolis (1995), Cambridge (1996), Washington (1997), Recife (2000) e Rio de Janeiro (2004), antes de visitar New Orleans em 2008. Não sou veterano de muitos congressos, mas acho difícil que algum tenha sido comparável a este em astral, satisfação e entusiasmo dos convidados. Todos com quem conversei saíram contagiados pelo espírito incomparável da cidade.

Em 2005, depois do furacão Katrina, quando Christopher Dunn avisou que bancaria a organização deste gigantesco congresso, um certo blogueiro atleticano e barbudo vociferou: você está completamente louco. Sim, fui um anfitrião incrédulo até bem adiantada a preparação do evento. Cristóforo foi o grande responsável pelo sucesso de um encontro que deixou centenas de acadêmicos brasileiros e brasilianistas encantados.

Na sexta-feira à tarde, coordenei um bate-papo memorável sobre as implicações da proibição do trabalho escrito por Paulo Cesar de Araújo sobre Roberto Carlos. A diretora da Record, Luciana Villas-Boas, aceitou meu convite e veio especialmente do Brasil. Falou com propriedade e lucidez sobre o perigo que corre o gênero biográfico (e também o gênero jornalístico em livro) com a indústria dos processos. Relatou um caso assombroso, recente, de um livro de ficção que está ameaçado (prometo, sobre isto, um post em breve). O próprio Paulo falou, emocionado, sobre os detalhes da proibição de seu livro. Sua advogada, Deborah Sztajnberg, que lidera uma verdadeira batalha de Davi contra Golias, apresentou o ponto de vista jurídico, com considerações agudas sobre alguns artigos da constituição brasileira e o tremendo imbróglio que é a limitação imposta à liberdade de expressão pelo tal “direito à imagem”. Foi um dos momentos mais elogiados do congresso e intensificou meu interesse em continuar acompanhando – mesmo sem ser especialista -- a dimensão jurídica da produção e circulação de cultura e de saber.

Na sexta à noite, a bodega dos Avelar-Gonçalves recebeu umas 60 pessoas para a festa de inauguração da casa, também memorável para mim. Na verdade, eu poderia tê-la anunciado aqui no blog com endereço e tudo, pois havia comida para umas 200 pessoas. Tendo optado pelo boca-a-boca, resta-me pedir desculpas a todos aqueles a quem não pude avisar pessoalmente. Sobraram cervejas suficientes para receber o Biajoni e o Almirante aqui por dois meses. No final, na varanda, umas 15 pessoas presenciaram uma leitura de O Machete, de Machado de Assis, dramatizado e debatido por mim e por José Miguel Wisnik, que interpretamos o conto de duas formas contrastantes. Quem viu, viu.

Aliás, ser amigo, interlocutor e anfitrião de José Miguel Wisnik e da artista plástica Laura Vinci é uma dessas alegrias para as quais não há palavras. Se você quiser conhecer Laura um pouco melhor, procure o recente textículo que escreveu Ferreira Gullar, atacando sua arte na Folha. Depois, encontre a resposta de Laura, na Ilustrada – um nocaute perfeito, brilhante, inapelável.

A lamentar, de minha parte, só o sono e o cansaço que me obrigaram a perder as sessões de 11:00 e de 2:00 do sábado, tal era a necessidade de um cochilo. Também lamentei não ter podido ver a apresentação de nenhum de meus alunos e orientandos. Sei que Aaron Lorenz, Renata Nascimento e Alex Castro brilharam, falando, respectivamente, sobre Cidade de Deus, o Black Rio e Mariana, de Machado de Assis. Às 9 da manhã do sábado, ainda em estado de semi-ressaca, coordenei um papo com os escritores Gustavo Bernardo, Regina Rheda, Adriana Lisboa e Aninha. Gostei de ouvir Adriana dissertar com fluência sobre os cruzamentos entre os seus trabalhos de tradutora e de escritora. Às 4:00, um grupo de quatro jovens pesquisadoras – Carla Melo, da Arizona State, Rebecca Atencio, da Universidade da Carolina do Norte em Charlotte, Alessandra Santos e Elena Shtromberg, da UCLA (esta última com o seu trabalho lido por Steve Butterman, já que ela acaba de ganhar neném) – me encantaram com análises de obras teatrais, literárias e plásticas que focalizam o corpo em situações traumáticas. O belo texto de Rebecca, sobre o monumento Tortura Nunca Mais, em Recife, foi especialmente iluminador para mim. Rebecca prepara um livro sobre a história da tortura e de suas representações na cultura brasileira -- volume que promete.

A quantidade de mesas simultâneas era tal que todos saímos com a sensação de não ter assistido nem uma fração do que deveríamos. Achei tempo para acompanhar meus amigos e interlocutores Márcio Seligmann (UNICAMP), Jaime Ginzburg (USP), Rosana Kohl Bines (PUC-RJ) e Karl Erik Schollhammer (PUC-RJ), que há tempos burilam e aprofundam um fino projeto de reflexão sobre a violência, com o qual este blogueiro desenvolve um diálogo cada vez mais estreito. Na mesa de discussão, uma série de temas foram levantados, mas a conversa sobre Tropa de Elite, em especial, teria interessado a muitos leitores deste blog.

No domingo, a cereja que é melhor que o bolo inteiro: dezenas de brasileiros felizardos acompanharam a secondline Revolution, um dos maiores desfiles de bandas de metais e saculejo-de-esqueletos do calendário de festas de New Orleans. Éramos mais de mil dançando no rastro da banda, calculo. Cobrimos, literalmente, uns 15 kilômetros. Se eu conseguir algumas fotos, posto aqui nesta segunda.

O próximo congresso da BRASA se reúne .... er .... hmmmm, em Brasília, Distrito Federal.

PS: A todos os maravilhosos alunos de pós-graduação que trabalharam como voluntários e tornaram o congresso possível: muito obrigado. Não os nomearei individualmente porque certamente cometerei omissões imperdoáveis.

PS 2: Dou os parabéns à jornalista Juliana Krapp, pela excelente matéria sobre a nova literatura latino-americana no JB de sábado, para a qual este blogueiro deu a sua contribuição. Sinto-me muito bem parafraseado no texto de Juliana.

PS 3: Barack Obama é a pessoa mais seguida no Twitter (aprendi com o Tiago Dória).

PS 4: Vale a pena conferir essa do Serbão: Frases de pára-choque de caminhão em tempos de internet.



  Escrito por Idelber às 04:48 | link para este post | Comentários (24)



sexta-feira, 28 de março 2008

José Miguel Wisnik ovacionado em New Orleans; Invasão brasileira no legendário Vaughn's

Foi uma das aberturas de congresso mais memoráveis da história. Para iniciar os trabalhos do nono congresso da BRASA, reunido aqui em New Orleans, convidamos meu amigo José Miguel Wisnik, que apresentou uma belíssima meditação sobre a música em Machado de Assis. É um velho tema de Zé Miguel, que desentranha como ninguém as tensões e ambiguidades da cultura brasileira tal como codificadas em contos como "Um Homem Célebre" e "O Machete". Ele vai mostrando como chega a polca ao Brasil; como ela vai absorvendo sonoridades afro-atlânticas; como Machado esteve atento a esse processo e registrou-o nesses dois contos. No final, para matar qualquer um de inveja, faz aquela demonstração ao piano, passando por Ernesto Nazareth e Scott Joplin porque, afinal de contas, nada como a música ilustra o profundo parentesco entre New Orleans e o Brasil.

P1010043.JPG


Centenas de pessoas aplaudiram de pé aquele que é, sem dúvida, um dos maiores pensadores da cultura brasileira na atualidade. O grande Paulo Cesar de Araújo dizia, deslumbrado: Idelber, se não acontecer mais nada neste congresso, já valeu a pena. Alex zanzava atônito, dizendo que foi uma das palestras mais impressionantes que já viu na vida. Camila, nossa nova aluna de pós-graduação, ficou encantada. A abertura ainda contou com o embaixador brasileiro nos EUA, Antonio de Aguiar Patriota, que fez um belo discurso em inglês impecável.

Parece que a dica dada aqui no blog há uns dias valeu, pois no show de Kermit Ruffins, no Vaughn's, só se ouvia português no salão. Presenciei uma sensacional cena, em que um dos convidados do congresso – desconhecido para mim – me disse: pois é, está cheio de brasileiros aqui porque dizem que um cara aí colocou a dica no blog dele. Um adorniano que permanecerá inomeado foi visto saculejando o esqueleto ao som do trumpete de Kermit, esquecendo todas as caretices frankfurtianas anti-jazz. Neste fim de semana, aqui em Tulane, só dá Brasil. São centenas e centenas de visitantes brasileiros e brasilianistas.

As mesas começam hoje e o blog convida a todos que assistam comunicações a que me enviem uma apreciação do que assistiram. Assim podemos compartilhar com os leitores do blog algo deste belo congresso. Há mesas sobre absolutamente tudo, desde história mineira do século XVIII até agricultura; estudos da mídia brasileira até trabalhos sobre economia; literatura, música, filosofia, sociologia – há muita coisa acontecendo por aqui neste fim de semana, e tudo enfocado no Brasil. Nós, os anfitriões, estamos absolutamente comovidos de ver a alegria nos rostos brasileiros contagiados pelo astral incomparável de New Orleans. Bem vindos, bem vindos, bem vindos.

PS: Hoje, às 16 horas, não percam a mesa-redonda sobre “Privacidade e Liberdade de Expressão”, com o historiador Paulo Cesar de Araújo, a editora Luciana Villas Boas, a advogada Deborah Sztajnberg e o atleticano blogueiro.

PS 2: No domingo, a partir da 1 da tarde, tem secondlining saindo do Louis Armstrong Park. Se você nunca presenciou essa singularíssima manifestação cultural -- a toma musical, dançante do espaço da cidade -- não perca.

PS 3: A foto do Zé é cortesia da querida Emanuelle Oliveira, professora em Vanderbilt University.

PS 4: Alô, neófitos, muita, muita atenção: o livro de Zé Miguel sobre o futebol sai pela Companhia das Letras, no final de maio. Imperdível é pouco para descrever o que vem por aí.



  Escrito por Idelber às 05:33 | link para este post | Comentários (15)



quarta-feira, 26 de março 2008

Judiciário brasileiro inventa a campanha eleitoral sem internet

Numa mesa-redonda com a participação da editora Luciana Villas Boas, do escritor Paulo Cesar de Araújo e da advogada Deborah Sztajnberg que se realizará às 16 horas de sexta-feira, aqui em Tulane, como parte do congresso da BRASA, eu defenderei a tese de que a grande ameaça contemporânea à democracia brasileira é a inacreditável tacanhice, ignorância, atraso e reacionarismo do seu Judiciário. Que se critique o que for no Executivo e no Legislativo, mas que se reconheça: o Judiciário é hors-concours.

Considerando que a história recente do Judiciário brasileiro inclui os atos de proibir livros, condenar um blog por um comentário anônimo feito seis meses depois do post, lavrar sentença concedendo a um político o direito de resposta num blog extinto pela própria sentença, multar jornalista a priori por ofensa que pudesse vir a ser feita, impedir a divulgação de sentença do próprio judiciário e finalmente proibir joguinhos, eu não precisava de mais nenhuma munição para a intervenção nessa mesa-redonda em solidariedade ao grande pesquisador Paulo Cesar de Araújo. Não precisava, mas é claro que nestes casos, desgraça pouca é bobagem.

Acabo de ler a inacreditável resolução 22.718 do Tribunal Superior Eleitoral, que regulamenta a campanha deste ano no Brasil. Não se fiem do meu resumo. Sigam o link e leiam por si próprios. O artigo 1 estabelece que a propaganda eleitoral nas eleições municipais de 2008, mesmo quando realizada pela Internet e por outros meios eletrônicos, seguirá o determinado pela resolução. Até aí, tudo bem. Daí em diante, começa o Febeapá.

O artigo 3 estabelece que a propaganda só será permitida a partir de 6 de julho. Se alguém resolver fazer campanha para seu candidato no seu próprio blog antes disso, vão fazer o quê? Tirar o blog do ar? Impugnar a candidatura? O artigo 18 é a pérola mais sensacional: a propaganda eleitoral na internet somente será permitida na página do candidato destinada exclusivamente à campanha eleitoral. Em outras palavras? Ou eu já não entendo a língua portuguesa ou o Tribunal Superior Eleitoral acaba de proibir a campanha política na Internet, com a exceção de uma página para cada candidato. Está proibida, nos blogs, no orkut, no facebook, qualquer manifestação de preferência eleitoral que possa ser entendida como campanha.

A proibição refere-se, claro, a uma realidade sobre a qual ela não tem nenhum controle. A Internet continuará ignorando o Judiciário brasileiro – talvez não tanto como este a ignora, mas o suficiente para que suas resoluções continuem caindo no ridículo. Mas também me parece evidente que a repetida publicação de resoluções como esta vai criando aberturas judiciais para atos de supressão de opinião, justamente num momento em que a democratização proporcionada pela Internet revoluciona a experiência política em países da América do Norte e da Europa. Chega a ser comovente a ignorância dos togados brasileiros -- com raras e honrosas exceções -- sobre os princípios mais básicos de funcionamento da rede mundial de computadores. O problema é que eles insistem em querer regulá-la.

O TSE, no fundo, está dizendo: não permitiremos que apareça um Barack Obama por aqui. Cabe a nós dar o troco.

PS: Está de casa nova a melhor fonte de notícias sobre o Rio Grande do Sul.



  Escrito por Idelber às 16:55 | link para este post | Comentários (60)



terça-feira, 25 de março 2008

O Centenário do Galo e oito frases históricas

O Biscoito Fino e a Massa saúda o Clube Atlético Mineiro no dia do seu centenário. Aqui no blog há um farto material sobre a fundação do clube, seus fenomenais goleiros, suas primeiras conquistas, o primeiro título nacional, os maiores craques da história, cinco de seus grandes jogos e o seu maior patrimônio, a mítica torcida. Milhares passaram a noite em vigília nos bares de Belo Horizonte, como registra em fotos o Dolabela.

Hoje, 25 de março, é o dia do atleticano, sacramentado recentemente pela Câmara Municipal de Belo Horizonte. Ao longo do dia, a programação na cidade será intensa. Daqui a pouco, às 7 da manhã, começa o foguetório na Praça Sete. Às 9, tem Missa do Galo, na histórica Catedral Nossa Senhora da Boa Viagem. Às 11, haverá uma homenagem aos fundadores, no coreto do Parque Municipal, onde nasceu o Gigante, com descerramento de placa e a presença da Charanga do Galo e da Banda da Polícia Militar. Amanhã, às 21:45, jogam Atlético e Peñarol, no Mineirão. Na quinta-feira, haverá sessão solene da Assembléia Legislativa de MG às 14 horas. Na próxima segunda, a Câmara dos Deputados, em Brasília, realiza sessão solene em homenagem ao Galo.

Já tendo escrito tanto aqui sobre o Glorioso, achei que a melhor homenagem para o dia de hoje seria selecionar minhas frases favoritas da história do Galo.

1)Se houver uma camisa alvi-negra pendurada num varal num dia de tempestade, o atleticano torce contra o vento. Se não houvesse escrito nada mais, Roberto Drummond teria, ainda assim, entrado para a história só com esta frase. Resume tudo.

2)Nossa torcida vai ficar no sol, porque é fiel como a sombra. Empresário Júlio Firmino, ao escolher a linha lateral como espaço reservado à torcida do Atlético durante a construção do Mineirão.

3)João, joga a bola fora de mim. Paulo Isidoro, para o goleiro João Leite que, diz a lenda, passou a entender exatamente o que queria dizer Isidoro com “fora de mim”.

4)Parei 15 segundos no ar. Foi o meu recorde. Dadá Maravilha, explicando o gol que deu o título de primeiro campeão brasileiro ao Galo, em 1971.

5)Queria agradecer a Antártica pelas Brahmas que ela mandou para a comemoração. Toninho Cerezo, diz a lenda, antecipou os tempos de AmBev na celebração do Mineiro de 1976.

6)Você está louco? Como é que um campeonato com Pelé, Gérson, Jaizinho e Tostão vai ter Dadá de artilheiro? Se não foi campeão mineiro, como vai ser campeão brasileiro? Osvaldo Faria, ao comentar a previsão de Dadá de que ele seria artilheiro do primeiro Brasileirão e que o título seria do Galo.

7)Tem duas coisas que eu nunca aprendi a fazer: jogar futebol e perder gol. Mais uma de Dadá Maravilha.

8)Acabamos com a audácia das minorias. Nelson Campos, presidente do Galo, em 1971.

PS: Não deixe de conferir a página especial da TV Alterosa em comemoração do centenário.



  Escrito por Idelber às 05:52 | link para este post | Comentários (28)



sexta-feira, 21 de março 2008

Um breve recesso

O blog entra em recesso de quatro dias, enquanto eu viajo de volta para New Orleans. Aos leitores que estão deixando comentários nos posts antigos, a casa agradece a paciência. Os comentários estão temporariamente moderados. Na terça-feira, entra um post novo.



  Escrito por Idelber às 18:01 | link para este post



quarta-feira, 19 de março 2008

Ementa de curso: Música popular brasileira e cidadania


(aí vai a ementa de um curso sobre música brasileira, a ser ministrado em breve, em Buenos Aires)

Música brasileira popular e cidadania

No Brasil, a música popular tem sido tanto um mecanismo através do qual grupos socialmente oprimidos estabelecem reclamos de cidadania como um instrumento na formulação de políticas disciplinares do estado. A música trouxe os corpos negros e mestiços para o centro da esfera pública urbana no fim do século XIX, com o maxixe, mas também codificou mensagens de obediência através da pedagogia do canto orfeônico manipulada pelo Estado Novo nos anos 1930 e 40. A música alegorizou esperanças e angústias como nenhuma outra forma de arte durante a ditadura militar nos anos 1960 e 70, mas também, naquele mesmo período, ofereceu à classe média o paradigma de uma concepção estética excludente, baseada na pertença imaginária a uma comunidade de consumidores sofisticados – operação chave na evolução do conceito de “MPB” nos anos 70, que impôs um considerável estigma de “mau gosto” sobre as preferências musicais dos setores populares. A música cumpriu um papel decisivo na reconstrução da auto-estima de inúmeras comunidades brasileiras, do renascimento do Candeal, em Salvador, à entrada definitiva de Recife na cena pop internacional. Por outro lado, a música é a matéria-prima da indústria do jabá, o famoso suborno às estações de rádio tão comum no Brasil. A música brasileira popular seria, portanto, um fenômeno que é essencialmente contraditório e produz múltiplos efeitos políticos. O curso enfocará uma série de momentos na evolução da música brasileira popular ao longo do século XX, tanto na condição de agente produtor como na de elemento de obstrução da cidadania. Analisaremos, com efeito, os dois movimentos simultaneamente, oferecendo a imagem dinâmica de uma prática cultural cujo sentido político nunca está dado de antemão.

1o seminário: O maxixe, primeiro gênero musical urbano brasileiro.
José Miguel Wisnik, Machado Maxixe
Machado de Assis, “O Machete” e “Um homem célebre”
José Ramos Tinhorão, Música popular: Os sons que vêm das ruas
Referência online: Sovaco de cobra.

2o seminário: A narrativa épica sobre o surgimento do samba.
Nei Lopes, Sambeabá.
Muniz Sodré, Samba: o Dono do Corpo.

3o seminário: A crítica da narrativa épica
Hermano Vianna, O Mistério do Samba.
Carlos Sandroni, Feitiço Decente.

4o seminário: Parte I: O samba dos anos 30 e a figura do malandro.
Cláudia Neiva de Matos, Acertei no Milhar: Samba e malandragem no tempo de Getúlio

Parte II O conceito de música “regional” -- Nordeste
Antonio Risério, Caymmi, Utopia de Lugar.

5o seminário: Parte I: A Bossa Nova e a utopia da modernização
Lorenzo Mammi, “João Gilberto e o Projeto Utópico da Bossa Nova”

Parte II: O tropicalismo: cidadania na comunidade pop internacional
Antonio Cícero: O Tropicalismo e a MPB

6o seminário: Música jovem contemporânea
Micael Hershmann, O funk e o hip hop invadem a cena
José Telles, Do frevo ao mangue beat
Idelber Avelar, Sepultura and the coding of nationality in sound.



  Escrito por Idelber às 18:38 | link para este post | Comentários (35)



terça-feira, 18 de março 2008

BRASA, New Orleans, 27 a 29 de março

Entre os dias 27 e 29 deste mês, de quinta a sábado da semana que vem, reúne-se em New Orleans o congresso da BRASA (Brazilian Studies Association), com acadêmicos radicados nos EUA e no Brasil, oriundos de diversas disciplinas. Aqui vai um mini-guia, dirigido especialmente a quem chega do Brasil. Se você é leitor do blog e conhece alguém que venha ao congresso, a casa pede a gentileza do encaminhamento deste post.

Se é a sua primeira vez em New Orleans, capriche no sono antes da viagem. Não vale a pena perder tempo dormindo na capital do jazz. Março em New Orleans é época de céu azul, sol e brisa agradável. Traga alguma jaquetinha leve se você é friorento. Mais que isso não será necessário. A chegada é no Louis Armstrong International Airport e os táxis custam 29 mangos até a cidade, preço tabelado. Não se esqueça da gorjeta – pelo menos 15%.

Pelo que me informaram, os convidados ficarão em hotéis localizados no Garden District e no Central Business District, a poucas milhas do campus de Tulane University, onde se realizarão as sessões do congresso. Haverá ônibus do congresso para transportá-los. Se você preferir, saia com antecedência e tome o bondinho, que já está funcionando depois de longa paralização que se seguiu ao furacão Katrina. O streetcar (atenção: streetcar, não trolley!) corre ao longo de uma das mais belas avenidas que já vi na vida, a St. Charles Avenue, com carvalhos e mansões em estilo vitoriano sulista. Dá para descer pertinho de Tulane.

Se você quiser aproveitar as noites para mergulhar na rica vida musical da cidade, a Offbeat tem um guia online. Para entrar no clima, experimente as transmissões online da WWOZ, uma das melhores estações de rádio do planeta. Se quiser um guia gastronômico, consulte esse site. Se pretende ter uma noite de gala num dos restaurantes antológicos de New Orleans, tipo Antoine's ou Commander's Palace, é boa idéia fazer reservas com antecedência. Se não, entre, simplesmente, em qualquer lugar. É impossível comer mal em New Orleans.

Na quinta à noite, a dica é a seguinte: o show de Kermit Ruffins, no Vaughn's. O bar fica um pouco longe de tudo e você precisará de um táxi para chegar lá. O endereço é 4229 Dauphine Street, no Bywater. Começa por volta de 22:30. Kermit é o legítimo continuador da tradição de Louis Armstrong e o show das quintas no Vaughn's é um xodó para qualquer new-orleaniano que gosta de jazz. Se preferir um passeio menos arrojado, vá à Frenchman Street, no quarteirão que começa na Esplanade. São dezenas de bares e restaurantes, com música ao vivo de qualidade, grátis ou baratinho. Se preferir a putaria de Bourbon Street, claro, ela continua lá, a poucos quarteirões dos hotéis. Nos arquivos sobre New Orleans cá deste blog, talvez você encontre informações de interesse seu.

Quanto ao congresso propriamente dito, todos já têm, imagino, o programa. Chamo a atenção para dois eventos: a palestra inaugural, do meu amigo José Miguel Wisnik, na quinta à noite, e a mesa-redonda de sexta, às 16 horas, sobre “Privacidade e Liberdade de Expressão”, com a presença de Paulo Cesar de Araújo, autor da recentemente proibida biografia de Roberto Carlos, Luciana Villas Boas, da Editora Record, uma das principais figuras do mercado editorial brasileiro (e editora do primeiro livro de Paulo Cesar, Eu não sou cachorro, não, sobre a música cafona) e deste atleticano blogueiro.

Na sexta à noite, haverá reunião na minha casa, para leitores do blog, amigos e conhecidos. Se você está chegando do Brasil, mande um email que eu dou as coordenadas. Não vou colocar o número do meu celular aqui, mas o telefone do Departamento de Espanhol e Português (504-865-5518) estará à disposição dos convidados.

Bem vindos, pois.


Atualização: de 26 a 30 de março também acontecerá o 22nd Annual Tennessee Williams/New Orleans Literary Festival. Confira a programação.



  Escrito por Idelber às 12:12 | link para este post | Comentários (21)



segunda-feira, 17 de março 2008

O crime internacional de Uribe, as Farc e o respeito às fronteiras nacionais

Os poetas conhecem como ninguém o processo pelo qual as palavras vão se gastando, sujando e perdendo o poder denotativo que tinham. Exemplo típico, em nossos tempos, é a palavra “terrorismo”. A partir dos acontecimentos de 11/09/2001 – atos indubitavelmente terroristas no sentido clássico –, a manipulação do vocábulo pela administração Bush e pelos seus aliados ao redor do mundo passou a convertê-la numa espécie de epíteto a que se recorre para justificar qualquer coisa, uma sorte de xingamento conveniente e inquestionável. Essa é a lógica que preside alguns dos argumentos acerca do recente imbróglio entre Colômbia e Equador, que deixou nítida, mais uma vez, a monumental ignorância brasileira sobre seus vizinhos, até mesmo de parte de gente bem instruída.

Para começar, o que os gringos chamam full disclosure (abrir o jogo): tenho razões muito pessoais para detestar as Farc. Já me atingiram de perto, seqüestrando gente próxima a mim – gente de esquerda, inclusive. Quem quiser xingá-los de terroristas ou narcobandidos, que fique à vontade. Mas não acredite que, com isso, esteja aproximando-se um centímetro de compreender o conflito colombiano. O lamentável editorial d' O Globo deste domingo, por exemplo, é uma descarada justificativa do crime internacional perpetrado pelo governo de Uribe -- distorce os fatos ao ponto de dizer que os presidentes Chávez e Correa ficaram isolados! O editorial ainda desce a lenha na atuação do governo brasileiro que, do ponto de vista diplomático, me pareceu impecável. Em coluna na Folha de São Paulo, Nelsinho Motta – a quem conheço, admiro e quero bem – abusa dos xingamentos às Farc e dá um espetáculo de desconhecimento do tema, ao perguntar-se as Farc não pretenderiam tomar o poder e instalar um governo “bolivariano”. Como alguém pode escrever uma coluna sobre o tema no maior jornal brasileiro e não saber que as Farc jamais reinvindicaram qualquer referência ao “bolivarianismo”? É preocupante que o autor do artigo não saiba que a referência nem sequer teria sentido na Colômbia. Sugere que ele esteja confundindo a Colômbia com a Venezuela, dois países que têm muito pouco em comum além da fronteira. Sei que é chato usar argumentos assim, mas produz cansaço ver, pontificando sobre o conflito colombiano e distribuindo epítetos, gente que não saberia localizar Antioquia ou o Vale do Cauca num mapa.

As Farc eram uma guerrilha onde se misturavam inspirações guevariana e maoísta com um elemento profundamente colombiano, a saber: desde muito tempo --- desde o fracasso do pacto de 1854 que uniu liberais e conservadores contra o General Melo, ou, diriam outros mais modestos, desde o período conhecido como “La violencia”, entre o fim da década de 1940 e os anos 1950 –, a militarização da sociedade colombiana põe em cena um horrendo teatro da vingança no qual bandos armados, oficiais ou não, permitem que filhos possam ir à forra pelos assassinatos de seus pais. Imaginem a espiral viciosa desse gigantesco horror de órfãos e viúvas. Nas últimas décadas, as Farc passaram a adotar várias práticas do banditismo comum, como a extorsão e o seqüestro não motivado politicamente (claro que um seqüestro como o de Ingrid Betancourt tem motivação política; refiro-me a outros, para ganho econômico).

O tráfico de drogas está envolvido? É evidente que sim. Qual o problema com a definição “narcoguerrilha”? Ela finge ignorar o fato mais básico, que o dinheiro da droga financia todos os lados do conflito colombiano, incluído aí o estatal. Isola-se um dos atores desse conflito para receber o prefixo “narco”, como se o tráfico estivesse ausente em outras comarcas. Realiza-se, portanto, uma operação de desonestidade intelectual. É pior ainda o rótulo de “terroristas”, já que o que caracterizou tradicionalmente as Farc nunca foi o ato terrorista no sentido clássico, como a bomba em lugares públicos. Não são incapazes desses atos, mas o que os marca é a trajetória que vai do combate guerrilheiro à paulatina incorporação de métodos do banditismo. Uma boa parte de seus membros não são guevaristas nem muito menos terroristas, mas camponeses que se viram compelidos a se incorporar a alguma força armada no contexto de uma espiral de violência já ancestral.

Boa parte da população camponesa e agricultora colombiana está acostumada a viver com até três extorsões: das Farc, dos paramilitares (AUC) e do próprio estado, este último “representado” por bandidos que utilizam para proveito próprio a guerra de extorsões entre os vários bandos armados. O que consegue Uribe, nos últimos anos, é simplificar esse terror: de um imposto ternário, passamos a um binário. A extorsão paramilitar de direita aninha-se ao interior da operação estatal. É impossível discutir a situação da Colômbia sem levar em conta a reinserção dos paramilitares na legalidade, com muitos deles incorporados ao estado (reinsertarse é o verbo que se usa na Colômbia para definir o processo de abandono das armas e passagem à legalidade). A recente popularidade de Uribe se apóia na diminuição real dos índices de violência, que tem um conjunto de causas: a legalização dos paramilitares (que passam assim a contar com os recursos do estado e já não recorrem tanto ao assassinato), a reinserção do M-19, o trabalho comunitário inovador de prefeituras como a de Bogotá e, inclusive, opções táticas recentes das próprias Farc, que têm perfeita consciência do seu isolamento. É evidente que a "linha dura" de Uribe tenta capitalizar politicamente sobre uma série de resultados sobre os quais ela tem responsabilidade só parcial.

A grande cartada que tem Uribe é a utilização do espectro do “terrorismo” para demonizar um único ator do conflito -- quando o rótulo é igualmente (in)aplicável a todos os outros. Se há algo que, em definitivo, não interessa ao governo colombiano é a reinserção pacífica e ordenada das Farc. Se tudo o que ele conseguiu em termos de popularidade foi na carona da redefinição das Farc à luz da retórica do terrorismo da era Bush, por que abrir mão do manipulável fantasma? Se pouca gente fora da Colômbia sabe que os níveis de violência podem ter baixado, mas que as taxas de mortalidade por assassinato entre os “reinseridos” de esquerda continua altíssima? Visite um camponês cundiboyacense e observe no seu semblante o terror produzido pela menção de duas curtas palavrinhas: los paras. Na seqüência, faça um levantamento do número de candidatos a cargos eletivos assassinados pelos paramilitares ou por agentes do próprio estado em comparação com o número de políticos mortos pelas Farc. Depois volte aqui e dê uma gargalhada na cara do direitista tupiniquim que quer entender o conflito colombiano como uma oposição entre o “narcoterrorismo” e o “estado democrático de direito”.

É possível que tenha havido contatos entre as Farc e os governos da Venezuela e do Equador mais além das normais conversas em torno ao tema da paz? Sim. É possível que tais contatos tenham envolvido grana? Sim, é possível. Embora eu ache pouco provável, estaria disposto a considerar este novo dado, caso apareçam indícios ou provas. Não, os conteúdos de um laptop ao qual só Uribe teve acesso não valem como prova de nada. Até agora, o que temos é esse mapa político nos quais os interesses me parecem bem nítidos.

É por tudo isso que é inaceitável que um latino-americano justifique o crime internacional cometido pelo governo de Uribe na semana passada – Raúl Reyes era a figura designada pelas Farc para a negociação de paz que, como sabemos, já envolveu outros governos da região. Será que é muito difícil perceber que o assassinato de Reyes tem muito pouco a ver com o combate ao "terrorismo" e tudo a ver com impedir que Hugo Chávez capitalize politicamente com a negociação para a libertação de reféns? Por que o jornal O Globo, em editorial, se refere como “base” a um acampamento de onde jamais havia saído nenhuma operação militar? Ah, como seria bom se existisse uma direita nacionalista no Brasil! Não se pode brincar com o respeito às fronteiras nacionais logo ali na Amazônia, numa época em que o governo Bush já deu amplas demonstrações de que não respeita direito internacional nenhum.



  Escrito por Idelber às 09:09 | link para este post | Comentários (78)



sexta-feira, 14 de março 2008

Galo aos sábados: A seleção de todos os tempos

Finalmente o Comitê Editorial do Biscoito Fino e a Massa se reuniu e chegou a um consenso sobre qual é o melhor Atlético-MG de todos os tempos. Aqui vai a Seleção escalada em duas partes. Os melhores, em cada posição, desde 1970 – são os que eu vi jogar. Depois, a Seleção escolhida pelo Comitê Consultivo Sênior do blog, localizado no Mercado Central de Belo Horizonte, onde aos sábados pela manhã se reúnem atleticanos de mais de 70 anos de idade.

Seleção dos últimos 38 anos
, escalada no 4-4-2: Mazurkiewcz (ou Taffarel), Nelinho, Cláudio Caçapa (ou Vantuir), Luizinho e Oldair; Gilberto Silva, Cerezo, Marcelo e Paulo Isidoro; Reinaldo e Éder.

Seleção do passado, escalada à moda antiga: Kafunga, Murilo e Ramos; Mexicano, Zé do Monte e Cincunegui; Lucas, Mário de Castro, Carlyle, Ubaldo e Guará.

Maior de todos
: Reinaldo (quem viu, viu; quem não viu, acha que o maior centroavante de Pindorama foi Romário).

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Algumas fotos dos ídolos das antigas:

Mexicano:

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Ubaldo:

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Zé do Monte:

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Murilo:

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Guará:

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Carlyle:

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O grande uruguaio Cincunegui, em jogo contra a União Soviética no Mineirão:

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  Escrito por Idelber às 19:15 | link para este post | Comentários (27)




Rio Grande na Wikipedia

Vocês se lembram da discussão sobre a Wikipedia aqui no blog, correto? Pois é. Voltando agora do Rio Grande, resolvi dar uma conferida no verbete sobre o estado na dita cuja.

Ali aprendemos que o alemão hunsrückisch conta com pelo menos um ou dois milhões de falantes no Rio Grande do Sul, se não mais, de acordo com as estimativas mais aceitas por especialistas.

Para a Wikipedia, 20% se não mais do Rio Grande do Sul fala alemão. Como estou bem longe de ser especialista em sociolingüística da língua alemã no Brasil, acho que eu deveria acreditar, né?



  Escrito por Idelber às 05:33 | link para este post | Comentários (12)




Open thread do selinho da Veja

Para um futuro selinho, me diga lá qual slogan você prefere. A idéia é fazer algo bem humorado; nada raivoso, do tipo "Não leia, não compre, bombardeie bancas que vendam, fuzile o vizinho que assina e beba seu sangue em chapéus inspirados no Reinaldo Azevedo."

Não, nada disso. Algo assim como esses aí de baixo. Escolha um deles ou invente outro. A quem puder ir fazendo selinhos (sem armas!) com os slogans mais votados, a casa agradece.

Veja - Leia a do seu vizinho

Veja -- Leia só em versão pirata

Veja - Leia, mas não acredite

Eu acredito em gnomos e na Veja

Vamos parar de levar a Veja a sério

Veja: cancele sua assinatura e gaste o dinheiro em algo útil

Leia a Veja. Depois vá se informar

Atualização: O leitor Frank já fez o primeiro. Quem quiser ir fazendo outros, é só me enviar que eu coloco aqui.

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  Escrito por Idelber às 05:16 | link para este post | Comentários (77)



quinta-feira, 13 de março 2008

Luis Nassif, o dossiê Veja e a judicialização do debate jornalístico no Brasil

Está começando a ficar ensurdecedor o silêncio da grande mídia sobre o dossiê Veja elaborado por Luis Nassif. Embora alguns de seus colunistas tenham tratado do tema em blogs, nenhum dos grandes jornais brasileiros noticiou a reportagem. Além do silêncio, a resposta dos defensores da Veja têm oscilado entre dois polos: 1) os processos judiciais; 2) os ataques ad hominem ao jornalista que está apurando os fatos, sem qualquer refutação dos mesmos.

O primeiro caso é curioso, porque foi das comarcas da Veja – mais precisamente de Diogo Mainardi – que veio o argumento de que jornalista não processa jornalista. Agora, seus patrões estão processando um jornalista por uma série de reportagens acerca de um veículo que tem muito mais circulação que a página web que contém as denúncias. Onde está Diogo Mainardi para dizer jornalista não processa jornalista? Onde estão os jornalistas dos grandes veículos que se indignaram – com justa causa – quando Aldo Rebelo processou Millôr Fernandes? A correlação de forças me parece bastante favorável à Veja. Caso os fatos estivessem do seu lado, seria fácil para a revista refutar as denúncias utilizando as suas páginas. Se os próprios defensores da Veja admitem que a internet inteira já sabe do assunto, não cola muito bem, me parece, a desculpa de que não o refutam porque não querem “amplificar” o dossiê Nassif.

Os ataques a Nassif procuram criar a ilusão de que todos são iguais – ele, afinal de contas, teria também seus interesses. Obviamente os terá, mas ninguém questionaria o direito da Veja publicar um dossiê verdadeiro contra o governo obtido de alguém que tivesse seus interesses. O problema com as “notícias” publicadas pela Veja é que, via de regra, se não são falsas, são grosseiramente distorcidas. Ou encontraram provas de que Cuba enviava dólares ao PT em caixas de uísque? Encontraram algum indício de que Lula tenha conta em paraíso fiscal? O problema com ditas matérias não eram os interesses de suas “fontes”. É que se tratava de calúnias, pura e simplesmente.

No intuito de ajudar os defensores da Veja a organizarem sua defesa com base nos fatos, o Biscoito publica hoje um resumão de algumas das perguntas que teriam que ser respondidas caso eles queiram, em algum momento, deixar de xingar ou processar Nassif e debater a realidade. Vamos lá.

1. É ou não é fato que durante 2005 a Veja publicou pelo menos cinco louvações ao publicitário Eduardo Fisher e editorializou supostas reportagens para intervir na “guerra das cervejas” tal como detalhado aqui?

2. É ou não é fato que a estranha passagem de matéria laudatória ao COC a uma diatribe baseada em distorções da entrevista de seu diretor coincide com a entrada da Abril no ramo dos livros didáticos, tal como explicado aqui?

3. É ou não é fato a tentativa de “assassinato de reputação” do presidente do STJ Edson Vidigal sem que houvesse contra ele nenhum fato incriminatório, exceto uma liminar que contrariava os interesses do Opportunity, tal como fartamente documentado aqui?

4.São ou não são fatos as bizarras manipulações de critérios de inclusão na lista de livros mais vendidos, para que o romance de Mário Sabino -- elogiado nas páginas da revista pelos seus subordinados – pudesse nela entrar, tal como detalhado aqui? (Aliás, o dito cujo tem a extraordinária desfaçatez de afirmar sou um autor bem-sucedido depois de um romance ao qual ninguém, exceto seus subordinados na Veja, deu a menor importância; alguém aí que estuda literatura brasileira a sério já ouviu falar do “bem-sucedido” escritor Mário Sabino?).

Além de tudo isso, das falsas contas de Lula, dos falsos dólares em caixa de uísque, da campanha eleitoral explícita em favor de Alckmin em 2006 e das tentativas de assassinato de reputação de gente brilhante como José Miguel Wisnik, eu poderia listar outros 300 fatos que fazem das demonstrações de Nassif algo bem próximo do irrefutável.

Até quando a imprensa vai fingir não está vendo? Por que Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi pararam de dizer que jornalista não processa jornalista? Por que ainda há gente que insiste em dizer que a esquerda só começou a criticar Veja porque esta faz oposição a Lula se as denúncias anteriores a 2002 estão amplamente documentadas? Será que a recente queda de vendagens da revista pode ser creditada às intensas críticas veiculadas na internet, que culminaram com o dossiê Nassif?

PS: Parabéns ao Bender -- simpático gremista a quem conheci em Porto Alegre Novo Hamburgo -- pela idéia da "Google Bomb do bem" que sigo aqui neste post: linkar a palavra Veja com o site das denúncias do Nassif. As buscas por "Veja" no Google só indicavam o dossiê Nassif lá pela terceira ou quarta página. Agora, ele já está na primeira página, na sexta colocação, no momento.

PS 2:
Falta agora um selinho, não do Dossiê Nassif, que já tem vários, mas de uma nova campanha blogueira contra a revista. Poderia ser algo do tipo: Não colabore com o crime organizado; cancele sua assinatura de Veja. Se alguém quiser fazer, eu colaboro na circulação.

PS 3: Milton Ribeiro, não tenho palavras para agradecer a generosidade. Obrigado, Katarina e Marco. Obrigado, Luiz. Obrigado, Porto Alegre.

Atualização: Rolou o selinho, graças ao leitor Theo. Obviamente, é para pegar e circular. Você pode embutir no selinho, se quiser, o link para o dossiê Nassif. Estamos repensando o "lema" do selo aí na caixa de comentários (razão pela qual eu retirei a imagem que esteve aqui no post por algumas horas).



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