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« Israel continua a matança genocida em Gaza: Mais de 60 mortos. Pelo menos um terço são crianças :: Pag. Principal :: Adendo ao post anterior »

segunda-feira, 03 de março 2008

100 palestinos mortos; comentário sobre algumas racionalizações do massacre

Num post cheio de justificativas e racionalizações para os massacres israelenses, Pedro Dória escreve (todas as citações são tiradas do post e vão em itálicos):

1) os árabes agüentam o sangue. São mais duros, morrem sem se preocupar. É inacreditável que um jornalista continue reproduzindo essas grotescas caricaturas racistas. A cada chacina perpetrada por Israel, aparecem na mídia essas generalizações sobre os árabes. Os árabes não gostam de sangue e sacríficio mais que qualquer outro grupo humano. Submetidos a décadas de humilhações, invasões e ocupações, reagem como qualquer outro grupo humano, ou seja, num leque de alternativas que vai desde a violência suicida mais desesperada até a perda completa da capacidade de ter esperanças. Os africanos não gostam de matar suas crianças mais que qualquer outro grupo humano. Mas incontáveis africanos e afrodescendentes recorreram ao infanticídio como forma desesperada de tentar salvar seus filhos do opróbrio da escravidão. Os indígenas da Mesoamérica não gostam de se suicidar mais que qualquer outro grupo humano. Mas incontáveis mexicas, toltecas e chichimecas recorreram ao suicídio como forma de fugir dos horrores da colonização espanhola. A idéia de que “os árabes cultuam o martírio” é nada mais que isso: um estereótipo racista. Em incontáveis conversas com amigos árabes, escutei sempre, invariavelmente, a mesma história: “por que não nos percebem como humanos? Por que achariam que vamos viver contentes sob botas estrangeiras dentro da nossa própria casa? Vocês viveriam?”

2) a estúpida comparação de Israel com o nazismo [.....] Se há um Holocausto em curso? Nem de perto. Sinceramente, os defensores das chacinas de Israel têm que parar com essas brincadeirinhas de semântica. Acho obsceno que alguém escreva isso sobre 100 cadáveres palestinos num fim de semana, incluídos aí os de dezenas de crianças e bebês. Veterano de vinte e cinco anos de discussões com os que racionalizam cada crime de Israel, já está, para mim, cristalina a conclusão: não querem dialogar coisa nenhuma. Querem criar uma perene punhetagem metalingüística que vai se arrastando até que se perde completamente o horizonte da inadmissibilidade moral da coisa. Holocausto não pode, menção ao nazismo não pode (a não ser que seja para justificar os crimes de Israel, claro), chacina não pode, matança não pode. Só pode aquele delicioso termo: ato de auto-defesa. Até que a última criança palestina seja esmagada por um tanque israelense subsidiado pelos meus impostos, haverá alguém para dizer Israel tem o direito de se defender -- como, aliás, escreveu o Pedro quando Israel esmigalhou o sul do Líbano com bombas em julho de 2006, destruindo o renascimento cultural e turístico pelo qual passava o país.

3) O atual governo eleito palestino se recusa a reconhecer o direito de existência de Israel. Como conversar a paz com quem jura sua destruição na primeira chance que tiver? O cinismo do argumento é de embrulhar o estômago. A imprensa israelense cansou-se de noticiar que o Hamas propunha, implorava mesmo, por um cessar-fogo incondicional dos dois lados, sem que nenhuma das reivindicações palestinas sobre o seu território fossem cumpridas como pré-condição. O Hamas não tem chance nem de sonhar com a destruição de Israel. Só por má fé pode se negar este fato. Israel continua com suas chacinas em Gaza não porque o Hamas ainda não tenha feito uma cerimônia em que solemente escrevesse em seus estatutos que reconhece o estado judeu. As chacinas continuam por um cálculo das forças políticas que governam Israel. Sabem que podem fazê-lo, sabem que a comunidade internacional vai se calar, sabem que os EUA vão repetir a cantilena de que “Israel tem o direito de se defender” e sabem que os palestinos não têm como evitá-lo. Trata-se de um cálculo, a longo prazo, suicida – na minha opinião e na opinião de 64% dos israelenses. Mas isso não impede que os massacres sigam acontecendo. Àqueles que os racionalizam, não custa lembrar uma lei inexorável da história: nenhuma ocupação colonial dura para sempre.

Aliás, a justificativa para a recusa a se negociar com o Hamas é de um cinismo atroz. O Hamas foi incentivado politicamente por Israel na época em que a OLP (Organização para a Libertação da Palestina, precursora do atual Fatah) era a inconteste representante do povo palestino, com legitimidade não questionada. Naquela época, Arafat e a OLP é que eram os "terroristas". Depois que a representatividade do Fatah já está reduzida a frangalhos -- porque afinal de contas, a crença de qualquer ser humano na moderação vai se esvaindo quando décadas passam e você continua vivendo sob ocupação estrangeira tão brutal --, é a vez do Hamas ter que ser desqualificado como possível parceiro na mesa de negociação. Para a ocupação colonial, interlocutor bom é interlocutor morto.

4) não adianta permanecer voltando a 1948. Outra afirmação recorrente entre os defensores das chacinas de Israel. Não voltar a 1948, claro, é uma forma de perpetrar o mito de que "os árabes começaram a guerra"; é uma forma de esconder que o estado de Israel deve sua fundação a organizações terroristas; é uma maneira de mascarar a gigantesca dívida com a população palestina, expulsa de suas casas, desumanizada e humilhada para que o Ocidente pudesse aplacar a culpa pelo Holocausto. Via de regra, não acredite em ninguém que queira discutir um fenômeno histórico propagando a ignorância de suas origens.

5) Como na piada do rabino, é perfeitamente sensato dizer: ambos têm toda a razão. A frase é a insensatez em pessoa. Ante chacina após chacina, ante massacre após massacre, o menos sensato que se pode dizer é que “ambos têm toda a razão”. São 4 décadas de ocupação ilegal dos territórios palestinos na Cisjordânia (e 37 anos de ocupação de Gaza, seguidos por três anos de bombardeios, incursões, retenção de fundos, cortes de energia e um verdadeiro inferno na faixa “desocupada”). Isto é somente 22% do território palestino original. O único que pede o povo palestino é o direito de viver em paz nestes 22% reconhecidos como seus pela comunidade internacional, depois que os outros 78% já foram roubados. Imagine você, amigo paulistano, tendo que fazer fila, apresentar documentos, ser humilhado e detido a qualquer momento por um exército estrangeiro cada vez que quisesse atravessar a Avenida Paulista. Imagine, conterrâneo, ver compatriotas grávidas morrendo na fila de barreiras militares estrangeiras na Avenida Afonso Pena, porque não foram liberadas pelo exército estrangeiro ocupante a tempo de ir ao hospital. Agora imagine que cenas como esta:

060b.jpg

ou esta:

P31.jpg

ou esta:

P30.jpg

se repetem diariamente nos checkpoints da Palestina. Agora imagine isso durante quarenta anos consecutivos. E aí você começará a ter uma idéia do que é a vida palestina sob a ocupação, desde que não se esqueça, claro, de que junto com os checkpoints vêm os bombardeios, demolições de casas, assassinatos e o silêncio cúmplice da comunidade internacional, pontuada pelo papagaio da vez na Casa Branca repetindo que "Israel tem o direito de se defender". Sim, este blog considera que querer ver "os dois lados" nesta questão é rigorosamente análogo a escrever a história do massacre de Pizarro no Peru "tentando ver os dois lados", a relatar os horrores das senzalas "tentando ver os dois lados" e, sim senhor, contar a história do massacre alemão sobre os judeus tentando "ver os dois lados". Todos estes fenômenos históricos são bastante diferentes entre si. Idêntica é a imoralidade de quem os quer justificar com uma pseudo-ponderação balanceada.



PS: O Biscoito Fino e a Massa entende que os direitos sobre quaisquer imagens que documentem a chacina que sofre o povo palestino são de domínio público, pois elas configuram testemunho de crime lesa-humanidade.

PS 2: Ao contrário do que tem sido a política editorial do blog quanto à Palestina ocupada, a caixa de comentários está aberta e o leitor está convidado a escrever. Os comentários serão moderados. Quem quiser, pode redigir com calma: no final da manhã aqui, começo da tarde aí no Brasil, eu poderei liberá-los.



  Escrito por Idelber às 05:17 | link para este post | Comentários (82)


Comentários

#1

Idelber, no post anterior, o PD escreveu:

"Israel, Gaza: matança em curso
1/Março/2008 · 22:29 · 182 Comentários

Nos três principais jornais israelenses com edições eletrônicas em inglês – Haaretz, Jerusalem Post e Yedioth Ahronoth – a manchete na noite de sábado é rigorosamente a mesma: dois soldados israelenses mortos na ofensiva a Gaza.

Já haviam 47 palestinos mortos àquela altura.

A manchete do principal jornal espanhol, o El País, era um tanto mais fiel aos fatos: Prossegue a matança em Gaza.

Segundo o Haaretz, às 22h20 em Brasília, 63 mortos, 29 deles civis.

Nada justifica. É duro dizer que, no governo, a aliança Kadima e Trabalhistas é um desastre. Duro porque com o Likud seria pior."

Sidarta Cavalcante em março 3, 2008 6:28 AM


#2

Grande Idelber, concordando ou não com Pedro Dória, sendo ou não a favor da causa palestina, vc foi injusto com o cabra, sectário até -- aliás, sou leitor do seu blog e nunca lhe vi tão agressivo. Sinceramente, boa parte das citações foi colocada fora do contexto do artigo de PD. Releia novamente e verá.

Qual é posição de PD? É a do realismo político. A crítica deveria ser direcionada justamente a esse ponto: o realismo político de PD é a melhor posição para resolver o problema entre os israelenses e os palestinos? Concordando ou não, essa posição não pode ser identificada a um apoio irrestrito (aliás, a qualquer apoio) ao "governo nazi-sionista" de Israel ou a uma aprovação às chacinas efetuadas contra os palestinos. Abração.

Artur em março 3, 2008 7:58 AM


#3

Os filhos de Gaza, esses palestinos do espetáculo triunfante, sabem que nada têm a perder nem a esperar do mundo com o modo como ele vem se apresentando. De imediato se declaram contra a patifaria triunfante que denega a humanidade palestina, o sistema de violência perpetrado na mais longa ocupação militar da era moderna, o racismo, a barbárie ideológica. Esse é um "détournement" de final do prefácio de A Miséria do Meio Estudantil, de Mustapha Khayati e Guy Debord. Chegou ao limite o tratamento desse tipo de massacre. Não é a volta a 48; mas a volta a 67, conforme a ONU recomenda.

Katarina em março 3, 2008 8:15 AM


#4

Caro Artur: qual é o contexto que explica as frases os árabes agüentam o sangue. São mais duros, morrem sem se preocupar?

Ou eu copiei errado?

Qualquer "realismo político" que diga que ambos têm toda a razão num fim de semana destes está, sim, justificando a chacina.

A palavra "irrestrita" é sua. Não está no meu post.

Idelber em março 3, 2008 8:35 AM


#5

Acredito que só haverá o fim de quaisquer conflitos étnicos no mundo quando os povos passarem a ver seu adversário com humanidade (como você escreveu, Idelber). Enquando o inimigo for visto como algo à parte, anti-humano, continuaremos a assistir os horrores que estamos assistindo agora, com a matança de um povo, inclusive suas crianças, pelo simples fato de ser "diferente", pois seus inimigos não conseguem ver o que há de igual entre os homens sob sua pele.

Ana Carolina em março 3, 2008 8:51 AM


#6

Eu concordo que a ocupação é uma imoralidade, mas a questão é mais complicada do que o post faz parecer.

Acredito piamente que a massa da população palestina realmente só queira viver no território palestino reconhecido internacionalmente, desde que com perspectivas reais de paz e prosperidade.

Agora, essa não é a posição de sua liderança atual (o Hamas), nem do Hezbollah (sua análise da guerra do Líbano precisa ser matizada, o grande desestabilizador do Líbano é a Síria), que ataca Israel pelo Líbano. Israel tem o direito de se defender desses caras, e nossa tarefa é sugerir algo que exclua a punição coletiva criminosa das últimas décadas.

Claro, muitas vezes as operações contra o Hamas são motivadas pelo jogo político interno de Israel, e isso deve ser denunciado. Mas não podemos negar que a configuração estratégica da região é muito complexa, e precisaria de uma solução regionalmente negociada, incluindo os países árabes.

Afinal, o medo que Israel tem de uma Palestina independente provavelmente não é o medo de uma Palestina forte (você tem razão, o Hamas não é uma ameaça à existência de Israel), é o medo de uma Palestina fraca manipulável pelos países árabes vizinhos (Síria e Irã são, sim, ameaças à existência de Israel).

Enfim, concordo com sua denúncia, os ataques a Gaza devem ser suspensos imediatamente, mas a análise de médio e longo prazo precisa ser mais complexa.

Na Prática a Teoria é Outra em março 3, 2008 9:10 AM


#7

Idelber: mais uma vez, perfeita e necessária colocação sobre o tema. Esta é uma questão ainda mais polêmica do que Cuba e o cara tem de ter coragem e hombridade para se posicionar. Concordo incondicionalmente com seus argumentos e opiniões. Não há diálogo possível por parte de Israel; não há que se "tentar ver os dois lados"; trata-se de uma ocupação legitimada tão somente pelos Estados Unidos; a Palestina não tem poder de fogo para ameaçar o Estado de Israel da maneira como afirmam os judeus; o homem-bomba é, infelizmente, o último recurso de luta que restou ao palestino diante de tanta opressão e violência estrangeira. Dizer que o seu ponto de vista é radical é também uma tentativa de protelar a discussão, empurrando-a com a barriga sempre, fazendo com que ela pareça mais complexa do que realmente é. A questão pode ser polêmica, mas não complexa. Tudo está muito claro: existe uma situação clara e real de ocupação militar sobre um território. Portanto, o direito de resistência à esta ocupação é legítimo e sagrado. Nenhum povo do mundo é capaz de aceitar uma agressão por muito tempo. É preciso desmistificar a resistência palestina e parar de tratá-la como terrorismo. Quem é o terrorista nesta história? Parabéns, Idelber, por colocar o dedo na ferida de modo preciso e - que seja - radical. Urge sermos radicais à favor da Palestina. O sectário, nesta discussão, sabemos muito bem de que lado se encontra.

Bruno Ribeiro em março 3, 2008 9:11 AM


#8

Caro Idelber, comungo da sua santa indignação. São décadas de massacres com apoio hipócrita da Casa Branca. Agora mesmo, a dona Rice caminha para lá para falar da necessidade de negociação, etc. É como se pedisse que os judeus em 1939 devessem negociar com a Wermacht. Sionistas cínicos de Israel e dos EUA. Todo apoio aos palestinos.

Armando do Prado em março 3, 2008 9:35 AM


#9

Muito bom, Idelber. Parabéns.

luiz afonso franz em março 3, 2008 9:46 AM


#10

Idelber,

Acompanho teu blog com assiduidade, aprecio muito teus comentários e análises. Uma opinião, se me permite: não acho que seja necessário colocar certas fotos, aqui: a matança da parte de Israel está fartamente documentada com imagens pela grande mídia, que se delicia como abutres, lucrando com essa prática. Mas você não precisa desse tipo de apelo: teu texto, sozinho, é eloqüente o bastante.

Um abraço,

Luis Fragoso

Luis Fragoso em março 3, 2008 9:53 AM


#11

O assunto não permite a calma. O texto é indignado e não há outra forma de abordagem a um absurdo desses. Concordar ou justificar com este tipo de ação é simplesmente racionalizar assassinatos de civis. É admitir que possa haver uma etnia que carregue o mal em si, como os nazistas acreditavam que os judeus faziam.

Certamente, tenho mais conhecidos judeus do que palestinos. E eles, com exceção de um, desaprovam este tipo de ação.

Surpreende-me demais que Pedro Dória - cuja etnia desconheço -, saia justificando tais mortes com tolos argumentos que negam o fato de sermos mamíferos da raça humana e, portanto, preocupados com nossa preservação e a de nossos filhos. Isto, meu caro Dória, é pré-etnia. É apenas a humanidade que você não pode negar aos palestinos.

Ou seja, é racismo claro.

Não tem nada a ver com auto-defesa.

Abraço.

Milton Ribeiro em março 3, 2008 10:02 AM


#12

Ora, Idelber.

O contexto está dado pelas frases anteriores e posteiores. A anterior é "O raciocínio do Hamas é o seguinte", e a posteiror é "A questão é que o Hamas esqueceu de combinar com as famílias palestinas".
Acho que você leu meio apressado, admite vai. O Doria está dizendo que o Hamas tem como fundamento que os árabes aguentam o tranco das mortes, enquanto os israelenses não. Tá, pode estar errada a interpretação, mas racista ele não foi nem de longe.

Octavio Faria em março 3, 2008 10:22 AM


#13

Idelber, claro que discordo de quaisquer exageros que tenham sido cometidos pelo exército israelense, mas vc acha que o país deveria ter reagido como aos 200 foguetes lançados de Gaza somente nas últimas duas semanas? E outra: é esse o cessar-fogo que o Hamas vinha propondo?

Joca em março 3, 2008 10:47 AM


#14

Só acompanho a discussão, mas fiquei curioso: porque a mudança na política de comentários do blog para estes temas?

Rafael M em março 3, 2008 10:58 AM


#15

Idelber, eu concordo com o Artur. Talvez conseguiremos um diálogo mais sensato e menos passional sobre o tema. Uma sugestão minha é separar "Israel" e "governo israelense", no tratar do assunto. Uma coisa é a ação dos que mandam, e devem ser responsabilizados por seus crimes militares, outra coisa é o povo, seja o israelense, seja o palestino, que é o menos culpado em tudo isso. Não podemos repetir os mesmos erros do passado. Outra coisa, os blogs de vocês até dialogavam, um sugerindo a visita no outro, o que houve? Abraço do seu leitor!

Sidarta Cavalcante em março 3, 2008 11:12 AM


#16

"O cinismo do argumento é de embrulhar o estômago"

Os "humanos" ainda estão na idade da pedra, do olho-por-olho, dente-por-dente. Será que um dia
isso vai mudar, ou é dos "humanos" massacrarem seu irmãos? Stop o mundo q eu quero descer.
Parabéns pelo post.
Izabella

Izabella em março 3, 2008 11:17 AM


#17

eh, nao existe ocupaçao que dure para sempre.

sem palavras. eh absurdo demais o que o estado de israel faz com o apoio do imperio e qualquer um que critique eh taxado de anti-semita.

abraço.

fabiana em março 3, 2008 12:10 PM


#18

Velhão, veja o contexto da frase de PD:

“O raciocínio do Hamas é o seguinte: os israelenses vão desistir. Primeiro, com foguetinhos, expulsam a população de Sderot. Se conseguirem, começam operações semelhantes na Cisjordânia, na fronteira do Líbano, foguetinhos de toda parte para aumentar o estresse de viver em Israel. Enquanto isso, os árabes agüentam o sangue. São mais duros, morrem sem se preocupar. O tempo e a disposição de morrer está do lado dos militantes do Hamas.

A questão é que o Hamas esqueceu de combinar com as famílias palestinas. Ninguém quer morrer assim.”

Claro, pode-se alegar que não é bem esse o raciocínio do Hamas; contudo, PD colocou, de fato, a frase como uma conseqüência do dito “raciocínio” do Hamas. Tanto é que, no final, afirma que o Hamas “esqueceu de combinar com as famílias palestinas”, pois afinal “ninguém quer morrer assim”. Logo, deduzo que não é essa a opinião de PD sobre os árabes, e sim sua interpretação sobre o que o Hamas pensa dos mesmos. Na verdade, curiosamente, PD imputa ao Hamas o que vc chamou, não sem razão, de “grotescas caricaturas racistas”.

O “irrestrito” é da minha responsabilidade. Vc não colocou isso no teu post. Forcei no uso do termo -- foi mal. Mas entenda meu raciocínio: deduzi isso do seu post, após ler diversas afirmações, do tipo (ofereço dois exemplos, entre outros mais indiretos): “defensores das chacinas de Israel têm que parar com essas brincadeirinhas de semântica” ou “outra afirmação recorrente entre os defensores das chacinas de Israel”.

Deduzi que vc sugere que o argumento de PD, intencionalmente ou não (mais intencional do que outra coisa), identifica-se ou pode ser inserido na mesma linha de argumentação dos “defensores das chacinas de Israel” — deduzi, nesse sentido, que quem defende (direta ou indiretamente) tais chacinas seja um apoiador irrestrito de Israel. Bem, retiro o “irrestrito”, mas o seu argumento continua a me dar a seguinte impressão: a linha de argumentação de PD traduz um apoio à política israelense. É isso?

Por fim, você afirma com veemência: “qualquer ‘realismo político’ que diga que ambos têm toda a razão num fim de semana destes está, sim, justificando a chacina”. Veja o contexto da frase: “como na piada do rabino, é perfeitamente sensato dizer: ambos têm toda a razão. Mas de que adianta ter a razão se o caminho escolhido por ambos os lados representa a destruição de um – ou de ambos?”

Ofereço outra interpretação: a segunda frase de PD invalida o alcance da primeira, pois não adianta mais ambos terem razão, já que as duas posições, do ponto de vista político, são reciprocamente excludentes — aqui, o “realismo político” tentaria resolver um problema que, no atual regime de verdades, não tem solução.

Enfim, por que vc insurgiu-se contra a posição de PD? Ora, deduzo que, para vc, seja contraditório (com os fatos e com os seus significados) alguém argumentar que os israelenses têm alguma razão (pelo menos, foi isso que interpretei do seu argumento). O argumento seria tão contraditório, que leva, intencionalmente ou não, a justificar as chacinas.

A razão está com os palestinos. É isso?

Artur em março 3, 2008 12:16 PM


#19

Idelber: first things first. Reitero meu agradecimento já mandado por e-mail, pela sua corajosa atitude tomando partido e posicionando-se contra esse ato de depredação do ser humano.

Em segundo lugar, antes fazer minha própria colocação, uma crítica: se não concordo com o resto do texto do Artur, tenho que dar-lhe razão quando aponta que você tem escrito ultimamente com mais violência do que jamais vi no Biscoito. Isso não há de dar em coisa boa, Idelber. Numa discussão em que qualquer tentativa de consenso na discórdia é diferendo em favor da impunidade, uma atitude violente como a sua pode acabar fechando as portas muitas pessoas, que aí sim terão motivo legítimo para se alienar ao debate: meu interlocutor não está sendo racional.

Levadas ao cabo as preliminares, vamos ao que interessa. Propor conciliação entre os povos árabe e judeu é pedir do povo árabe o mesmo que se pede da Andrômaca de Racine, quando se lhe é proposto casar-se com Pirro. Como Andrômaca, dirá o povo árabe, e com razão:

Songe, songe, Céphise, à cette nuit cruelle
Qui fut pour tout un peuple une nuit éternelle.
Figure-toi Pyrrhus, les yeux étincelants,
Entrant à la lueur de nos palais brûlants,
Sur tous mes frères morts se faisant un passage,
Et de sang tout couvert échauffant le carnage.
Songe aux cris des vainqueurs, songe aux cris des mourants,
Dans la flamme étouffés, sous le fer expirants.
Peins-toi dans ces horreurs Andromaque éperdue :
Voilà comme Pyrrhus vint s'offrir à ma vue.

Não há justificativa para o que se passou. A expatriação massiva de tantos povos, tantos tantos milenares, por um sonho de nação construído retoricamente sobre o grito de desespero de um povo assustado e violentado. A violência contra a integridade do povo judeu que a construção do Sionismo representa é equivalente, no plano das idéias, ao que estes impuseram aos palestinos no plano das ações.

Mas nada justifica que essa histeria coletiva alimentada pela culpa do Oeste fizesse playground sádico das terras de gente que estava, tão-somente, minding their own business A expatriação e a chacina foram recebidas com ódio, e alimentaram reação igualmente violenta. O Oeste, que já estaria incorrendo em crime se mantivesse a habitual indiferença, decide fazer pior, e tomar partido no sentido de aniquilar um dos lados. E desde então assistimos a essa triste palhaçada à custa de tanta dor, tanta e tão irracional para qualquer um sentado confortavelmente frente a um computador, a milhares de quilômetros de distância.

Tendo crescido em São Paulo, cidade marcada pela convivência de culturas como no encontro da Heitor Penteado com a Dr Arnaldo, onde um centro de cultura judaica se ergue sobre um santuário a nossa senhora que, por sua vez, se encontra em cima de uma estação do metrô, encaro com certa dificuldade a cultura de outros povos com relação à guerra e à violência.

Enquanto os ianques aprendem sobre guerra com orgulho e ufanismo, aqui no Brasil, os professores de história falam da Independência, das Bandeiras, Tríplice-Aliança, de Canudos, da Culuna Prestes e do AI-5 com a mesma vergonha, e desde cedo os brasileiros aprendem a se envergonhar com violência. Nada mais apropriado a um povo tipicamente triste e violentado, habitante de uma Terra do Nunca onde pratica-se o sadismo mais refinado com extravagante impunidade.

Essa posição fundamentalmente pacifista do povo brasileiro encontra, até onde vi, duas exceções: uma na extrema direita que, ao invés de pensar em termos de "resolver problemas" prefere pensar em termos de "eliminar o problema", a outra nos meus amigos de origem judaica. Assisti a inúmeros deles serem mandados em programa de intercâmbio para Israel e voltarem com histórias da guarda nacional e do exército, e fotos deles próprios, pivetes de seus 16, 17 anos, empunhando metralhadoras e rifles com um grande sorriso na cara.

O lobby judaico que está construindo essa estética da violência não corresponde à grande maioria dos judeus, e envergonha ao povo exemplar das escrituras --- mas é suportado pelas classes de poder, pequeno preço para o luxo de externalizar a culpa do Holocausto e manter a economia do Oriente Médio à rédea curta.

Mas existe uma variável fora da conta até agora, que é a impunidade. A comunidade internacional se cala frente à retórica barata dos lobbyistas nazi-sionistas, segundo os quais ninguém aqui passou por atrocidade equivalente ao Holocausto. Vivendo no Brasil, terra em que todos são judeus alemães negros americanos hispânicos de Hiroshima, não consigo enxergar racionalidade nesse estúpido ad-hominem. É simplesmente vergonhoso que o povo se cale porque se lhes é proposto um cômodo argumento em favor da alienação.

Qualquer ato contra a humanidade é crime, e Israel se firma a cada dia menos como um sonho, menos como uma necessidade, e cada vez mais como um pesadelo para a humanidade, como um erro, como um crime. É vergonhoso que não se tome partido a esse respeito, e vergonhoso que cada um de nós durma e acorde convivendo com assassinato e tortura ostensivos e estatais.

O estado de Israel é a última quimera do século XX, que tendo enterrado a Rússia de Stalin, a Alemanha de Hitler, a China de Mao, a Argentina da Guerra Suja, permitiu com assombrosa passividade o crescimento deste monstro obsceno. É urgente uma reação da comunidade internacional: não podemos conviver mais um segundo sequer com este abuso.

bruno ( ) em março 3, 2008 12:18 PM


#20

Bem, não tenho conhecimentos suficientes para entrar a sério nesta discussão. Mas gostaria de fazer um ponto apenas: quando você diz que a violência de Israel não está ligada ao fato de o Hamas ter como objetivo oficial a destruição do Estado judeu, você faz um tipo de raciocínio que simplesmente elide a questão de se o Hamas deve ou não ter como objetivo a destruição do Estado judeu. É como se um cara dissesse sempre que quer me matar, e eu, muito mais forte, o tratasse com ferocidade e lhe impusesse muitas humilhações, e aí então alguém me crititicaria, por exigir que ele retirasse a sua ameaça, dizendo "não é pelo fato de ele te ameaçar de morte que você o trata tão mal". Ok, pode não ser. Mas o fato é que ele me ameaça de morte. É certo ou não é certo isso? Acho que ao colocar os palestinos somente como vítimas na história (e eles de fato são as grandes vítimas da história), você de certa forma retira deles qualquer responsabilidade moral pelas suas escolhas, como se eles fosse não-imputáveis, como índios e crianças. Uma pergunta que não deveria ser central no seu raciocínio, mas que deveria constar dele, é a seguinte: é certo o Hamas ter como objetivo oficial a destruição de Israel. E acho que não adianta responder com "é, mas Israel isso, Israel aquilo - estamos de acordo quanto aos pecados de Israel nesta questão". Eu gostaria de ter de você um julgamento moral e político daquela posição do Hamas. É o que faltou no texto. Aliás, você falou em "não-reconhecimento do direito de existência". Como eu disse, não sou conhecedor a fundo da questão. Talvez aquela expressão signifique algo diferente de defender a destruição. Talvez haja sutilezas aí. Se for, me diga

F. Arranhaponte em março 3, 2008 12:39 PM


#21

Eu já tinha lido aquele artigo e fiquei um tanto chocado com a primeira frase que você citou. Não comentei nada porque as caixas de comentário do Pedro são território estéril, parece que alguém jogou sal lá. Foi uma frase profundamente racista, sim. Por isso entendo a sua indignação.

O Milton tem toda razão, realismo político é uma coisa, justificativa de massacres é outra bem diferente. Eu também sou realista, realpolitik total, e não apóio nem o Hamas nem Israel.

Pedro Doria, infelizmente, tenta dar a entender que é equidistante, mas não é. Sua simpatia por Israel é cristalina.

Marcus em março 3, 2008 12:59 PM


#22

O Milton usou as seguintes palavras para traduzir meu sentimento: "É admitir que possa haver uma etnia que carregue o mal em si". Os palestinos tem suas vidas feitas miseráveis nesse jogo. É lamentável, e triste, que os organismos internacionais se mostrem tão, e cada vez mais, inócuos.

Enquanto isso, esquenta a pressão entre Venezuela, Colômbia e Equador. Não sei o que é pior - as atitudes de Uribe ou a insistência de Chávez em minar a paciência dos colombianos. Uribe não deveria arriscar tanto. Chávez não está sentado sobre um barril de pólvora - ele _é_ um.

Numa nota lateral, fiquei surpreso com alguns amigos comentaristas que estranharam tua postura agressiva. Eu, pelo contrário, achei natural o tom do post - como se vê neste blog sempre que os posts tocam injustiças ou defendem com veemência um ponto de vista. (Posso estar enganado - afinal, me identifico com essa visão.) Um abraço.

tiagón em março 3, 2008 1:32 PM


#23

Não comentei nada porque as caixas de comentário do Pedro são território estéril, parece que alguém jogou sal lá.

Meu caro Marcus, não sei o que lhe falta mais: humildade ou capacidade de discernir entre qualidade de argumentos e "argumentos que eu concordo".

Darwinista em março 3, 2008 1:52 PM


#24

Idelber, que o Pedro tem simpatia pela questão israelense, é claro. Como também é claro que ele está a anos luz de distância de qualquer sionismo racista. Você reagiu de maneira extremamente injusta, como se ele fosse um falcão sanguinário do Bush. O contexto da frase é cristalino. O PD fez um texto equilibrado, colocando o ponto de vista equivocado e simplista dos TRÊS lados, Palestinos, Israel e Hamas (exatamente, a frase em questão). Como acho impossível que alguem do seu nivel tenha cometido um erro básico de interpretação de texto, só posso imaginar que a indignação acumulada pelas atrocidades da guerra lhe nublou o raciocínio.

Palavras dele:

"Um bom indício a respeito da eficiência das operações militares é o seguinte: até agora, não resolveram nada, mataram muito e acirraram a resistência e o ódio."

Reforçando nos comentários:

"A saída militar enfraquece Israel perante a comunidade internacional e isola o país diplomaticamente; por outro lado, reforça o ódio palestino e posterga quaisquer esperanças de paz."

Parece uma tentativa de buscar o bom senso, e não merece um pontapé no saco, como o tom de seu post.

Respire fundo e leia de novo. Apesar de ter visões diferentes, se pessoas como vocês se tratarem a tiros, o que podemos esperar daqueles que tem que conviver com o medo e a dor cotidianamente?

Abraço.

Andrei P em março 3, 2008 2:04 PM


#25

Pouco tempo atrás o PD escreveu um post idiota sobre a esquerda e a veja, e eu deixei um comentário (cujas palavras ele fez questão de ou distorcer ou fingir que não entendeu) no qual dizia que esperava ansiosamente pela queda da torre de cristal em que ele se coloca... bom, parece que já está ruindo, ótimo.

marcos em março 3, 2008 2:20 PM


#26

Num adianta. A esquerda gosta de terrorista. Lá no blog do PD ainda tão chorando pelo Raul Reyes. Aqui choram pelos fogueteiros do Hamas...

Eu? Francamente, tou pouco me lixando...

Digo mais: acho que o Hamas mandou foguetes COM O INTUITO PROPOSITAL de ser invadido, pois o negócio dos caras não é vencer guerra contra Israel (impossível), mas sim usar seu próprio povo como extra em uma peça de propaganda contra Israel.

Por que não param com os foguetes, Idelber?

Por que NÃO PÁRAM COM OS MALDITOS FOGUETES QUE HÁ MESES, ANOS, DIA APÓS DIA, LANÇAM CONTRA ISRAEL?

Mr X em março 3, 2008 2:20 PM


#27

Repito, por via das dúvidas.

Por que não páram com os foguetes?

Israelenses devem viver levando foguete na cabeça?

Mr X em março 3, 2008 2:22 PM


#28

Qualquer um que assista a TV palestina verá que eles, sim, "aguentam o sangue". Até nos programas infantis eles exatam a criançada a morrer pela causa, a "dar o sangue pela Palestina." Você não vê essa exaltação ao ódio em idade escolar em Israel.

Estou defendendo Israel? Não. Se o Pedro Dória diz que ambos estão certos, eu digo que ambos estão errados.

Mas não dá para inocentar a liderança e os militantes palestinos. Eles disparam mísseis contra cidades israelenses e usam crianças e inocentes como "escudos humanos", só para ter o que mostrar para a imprensa quando Israel revida. São eles que não dão valor à vida humana.

O que por sua vez não justifica a reação desmesurada de Israel, capaz de matar 90 inocentes para assassinar 1 culpado. Isso é de uma desumanidade atroz, um barbarismo inaceitável em pleno século XXI.

Enfim -- existem, sim, dois lados válidos nessa questão. Querer fechar os olhos para os judeus é tão ineficaz na resolução do problema quanto fechá-los para os palestinos.

Estão todos errados.

Marcelo Camanho em março 3, 2008 2:25 PM


#29

A propósito, lendo o Dória me pareceu que, como comentaram alguns colegas aí em cima, a frase sobre os árabes serem mais duros e aceitarem melhor a morte é uma descrição do que pensa o Hamas, e a frase "faltou combinar com as famílias palestinas" é o Dória discordando disso.

Vale dizer, a frase é quase igual à do Osama, "nós amamos a morte como vocês amam a vida", o que sugere que esse é um tropos do pensamento fundamentalista islâmico, mesmo (mas não, obviamente, da cultura árabe hegemômica; ou os árabes não se importariam em ser massacrados, e nós não teríamos essa discussão).

Na Prática a Teoria é Outra em março 3, 2008 2:26 PM


#30

Como disse alguém: "os países têm um exército. O exército isrelense tem um país". É isso. E mais, o Estado sionista, coloca em prática a frase de Moshe Dayan: "Não temos uma solução: vocês (palestinos)devem continuar a viver como cães ou quem quiser, que vá embora".

Armando do Prado em março 3, 2008 2:31 PM


#31

Idelber,
Já disse: brasileiro não tem acesso a informação boa sobre política internacional. Sabe nada do assunto. Por isso, saem essas coisas.
O jornalismo brasileiro virou a terra dos complexérrimos analistas, cheio de sutilezas, profundidade, defensores de um realismo político racional.
Para quê? Para mostrar a lógica de uma "shoah espetacular", como disse Katarina.
Nos comentários e no texto, dizem que o Hamas quer a destruição de Israel. Queriam o quê? Os palestinos estão sendo detonados periodicamente. Queriam uma ONG?

enio em março 3, 2008 2:58 PM


#32

Idelber
A parte o fato de que a idéia fundadora do povo de Israel como o povo eleito de deus esteja ainda hoje, depois de milênios, muito presente em toda a cultura hebréia que é muito ligada à religião, e isso pode ser muito condicionante quando se trata de relações com vizinhos. A parte isso, penso que se trata de um problema, o velho problema, do poder. Israel é uma micro-potência, sob qualquer ponto de vista; econômico e militar em primeiro lugar. E conseguiu criar em torno de si, a partir desse discurso que você tão bem critica, a imagem que reflete a noção de povo eleito, a noção que são intocáveis e seus direitos são melhores que os dos outros. O que se propõe com esse discurso é um beco sem saída retórico que não dá margem a contraposições. Ou você apóia tudo o que Israel perpetra, ou você é um filo nazista ou coisa parecida. Nada mais anti-democrático, para não dizer algo pior. Como a democracia nasce como uma tentativa de controlar e distribuir o poder, a disparidade de forças do oriente médio de hoje, reforça a idéia de que Israel está longe de poder ser considerado democrático. Aliás, o grande desafio é saber como controlar esse poder devastador, que sem amarras fortes, pode se desenvolver em modo sempre mais dramático.

Off topic: para desdramatizar, dê uma olhada no meu blog hoje que tem um filminho delicioso, que sei que gostarás.

Flavio Prada em março 3, 2008 3:04 PM


#33

Triste mesmo é ver que a esquerda virou defensora de...

Hamas
FARC
Hezbollah
Irã

Os movimentos mais reacionários da face da terra.
Ah,já sei, alguém vai dizer,não, nós não somos a favor, mas, eles tão desesperados, é o único meio que eles tem pra se defender do imperialismo malvado, EUA e Israel é que são os maus, blablabla.

Morreram 100 terroristas em Gaza. Vá lá, 90 terroristas e 10 civis. Ou até 50 terroristas e 50 civis.

Quantos morreram hoje no Sudão? No Quênia? Alguém se importa?

Quando o exército libanês matou não sei quantas centenas de palestinos nos campos de refugiados deles, como é que ninguém reclamou?

Será que não é um caso aqui mais de preocupação sobre "quem mata", mais do que sobre "quem morre"?

Abraços,

Mr X em março 3, 2008 3:41 PM


#34

O pior de toda essa encrenca, Idelber, é saber que a direita americana, dominada pelo que há de mais retrógrado no pensamento cristão, incentiva e aumenta o predomínio de Israel naquela região baseado na crença de que eles recuperarão os domínios antigos, clamarão por Jesus Cristo como seu Messias e possibilitarão a sua volta, não sem antes ser arrebatados para o céu vendo o terror surgindo à sua volta - e por isso incentiva o genocídio palestino, considerando-se que ninguém teria piedade dos "sucessores dos filisteus" e dos povos que Deus ordenou exterminar sem piedade.

Palhaçada? Com certeza - mas esse é o pensamento que deveria enojar todo aquele que pratica ou tenta praticar o cristianismo a sério; há quem ore pelo "povo de Israel", mas quem pede a Deus pelas almas dos palestinos que morrem sistematicamente nas mãos do Exército desse Estado?

Em uma palavra, simplesmente: nojento.

FPS3000 em março 3, 2008 3:45 PM


#35

Vou responder por enquanto só aos que dizem que fui injusto na atribuição ao Pedro da frase "são mais duros, morrem sem se preocupar" (ou seja, respondo aqui ao Artur e ao Octavio, além do Andrei). O trecho completo, tal como citou o Artur, é:

O raciocínio do Hamas é o seguinte: os israelenses vão desistir. Primeiro, com foguetinhos, expulsam a população de Sderot. Se conseguirem, começam operações semelhantes na Cisjordânia, na fronteira do Líbano, foguetinhos de toda parte para aumentar o estresse de viver em Israel. Enquanto isso, os árabes agüentam o sangue. São mais duros, morrem sem se preocupar. O tempo e a disposição de morrer está do lado dos militantes do Hamas.

A questão é que o Hamas esqueceu de combinar com as famílias palestinas. Ninguém quer morrer assim.

O que me parece óbvio, ululante mesmo, gritante de tão óbvio, é que se alguém diz "O raciocínio de X é Y, e enquanto isso Z acontece", a responsabilidade pela afirmação "enquanto isso Z acontece" é do autor da frase, não do X citado na dita cuja. A frase seguinte ("O tempo e a disposição de morrer está do lado dos militantes do Hamas") reforça a conclusão óbvia de que o autor do trecho está afirmando o dito, não atribuindo-o a outrem.

Mas vai ver que é a indignação que está prejudicando meu domínio da língua portuguesa mesmo.

Idelber em março 3, 2008 4:01 PM


#36

Idelber,

Eu disse lá no Pedro e repito: os dois lados perderam a razão. Aliás, são dois povos respeitáveis liderados por dois bandos de imbecis, cada qual a seu modo.

Claro que as desproporcionais reações de Israel a quaisquer ações do lado palestino envenenaram definitivamente qualquer chance dos moderados dos dois lados (sim, eles existem!).

Claro que Israel tem que carregar o ônus do apoio inicial que deu a Hamas, para sabotar o Arafat. Bem, quem pariu Mateus que o embale...

Claro também que não dá pra elite reacionario-religiosa que comanda Israel se esconder por todos os séculos atrás do escudo chamado "Holocausto" para justificar suas ações e para acusar qualquer um que não concorde como anti-semita.

Mas também é claro que o Hamas tem sua parcela de culpa na situação atual, como o Arafat também teve, em sua época, ao deixar passar chances de avançar no processo de paz.

E quanto ao Pedro Doria, apesar dele tender sempre (e