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segunda-feira, 31 de março 2008
BRASA, nono congresso: Um balanço
Fundada em 1992, a BRASA já havia se reunido em Atlanta (1994 e 2002), Minneapolis (1995), Cambridge (1996), Washington (1997), Recife (2000) e Rio de Janeiro (2004), antes de visitar New Orleans em 2008. Não sou veterano de muitos congressos, mas acho difícil que algum tenha sido comparável a este em astral, satisfação e entusiasmo dos convidados. Todos com quem conversei saíram contagiados pelo espírito incomparável da cidade.
Em 2005, depois do furacão Katrina, quando Christopher Dunn avisou que bancaria a organização deste gigantesco congresso, um certo blogueiro atleticano e barbudo vociferou: você está completamente louco. Sim, fui um anfitrião incrédulo até bem adiantada a preparação do evento. Cristóforo foi o grande responsável pelo sucesso de um encontro que deixou centenas de acadêmicos brasileiros e brasilianistas encantados.
Na sexta-feira à tarde, coordenei um bate-papo memorável sobre as implicações da proibição do trabalho escrito por Paulo Cesar de Araújo sobre Roberto Carlos. A diretora da Record, Luciana Villas-Boas, aceitou meu convite e veio especialmente do Brasil. Falou com propriedade e lucidez sobre o perigo que corre o gênero biográfico (e também o gênero jornalístico em livro) com a indústria dos processos. Relatou um caso assombroso, recente, de um livro de ficção que está ameaçado (prometo, sobre isto, um post em breve). O próprio Paulo falou, emocionado, sobre os detalhes da proibição de seu livro. Sua advogada, Deborah Sztajnberg, que lidera uma verdadeira batalha de Davi contra Golias, apresentou o ponto de vista jurídico, com considerações agudas sobre alguns artigos da constituição brasileira e o tremendo imbróglio que é a limitação imposta à liberdade de expressão pelo tal “direito à imagem”. Foi um dos momentos mais elogiados do congresso e intensificou meu interesse em continuar acompanhando – mesmo sem ser especialista -- a dimensão jurídica da produção e circulação de cultura e de saber.
Na sexta à noite, a bodega dos Avelar-Gonçalves recebeu umas 60 pessoas para a festa de inauguração da casa, também memorável para mim. Na verdade, eu poderia tê-la anunciado aqui no blog com endereço e tudo, pois havia comida para umas 200 pessoas. Tendo optado pelo boca-a-boca, resta-me pedir desculpas a todos aqueles a quem não pude avisar pessoalmente. Sobraram cervejas suficientes para receber o Biajoni e o Almirante aqui por dois meses. No final, na varanda, umas 15 pessoas presenciaram uma leitura de O Machete, de Machado de Assis, dramatizado e debatido por mim e por José Miguel Wisnik, que interpretamos o conto de duas formas contrastantes. Quem viu, viu.
Aliás, ser amigo, interlocutor e anfitrião de José Miguel Wisnik e da artista plástica Laura Vinci é uma dessas alegrias para as quais não há palavras. Se você quiser conhecer Laura um pouco melhor, procure o recente textículo que escreveu Ferreira Gullar, atacando sua arte na Folha. Depois, encontre a resposta de Laura, na Ilustrada – um nocaute perfeito, brilhante, inapelável.
A lamentar, de minha parte, só o sono e o cansaço que me obrigaram a perder as sessões de 11:00 e de 2:00 do sábado, tal era a necessidade de um cochilo. Também lamentei não ter podido ver a apresentação de nenhum de meus alunos e orientandos. Sei que Aaron Lorenz, Renata Nascimento e Alex Castro brilharam, falando, respectivamente, sobre Cidade de Deus, o Black Rio e Mariana, de Machado de Assis. Às 9 da manhã do sábado, ainda em estado de semi-ressaca, coordenei um papo com os escritores Gustavo Bernardo, Regina Rheda, Adriana Lisboa e Aninha. Gostei de ouvir Adriana dissertar com fluência sobre os cruzamentos entre os seus trabalhos de tradutora e de escritora. Às 4:00, um grupo de quatro jovens pesquisadoras – Carla Melo, da Arizona State, Rebecca Atencio, da Universidade da Carolina do Norte em Charlotte, Alessandra Santos e Elena Shtromberg, da UCLA (esta última com o seu trabalho lido por Steve Butterman, já que ela acaba de ganhar neném) – me encantaram com análises de obras teatrais, literárias e plásticas que focalizam o corpo em situações traumáticas. O belo texto de Rebecca, sobre o monumento Tortura Nunca Mais, em Recife, foi especialmente iluminador para mim. Rebecca prepara um livro sobre a história da tortura e de suas representações na cultura brasileira -- volume que promete.
A quantidade de mesas simultâneas era tal que todos saímos com a sensação de não ter assistido nem uma fração do que deveríamos. Achei tempo para acompanhar meus amigos e interlocutores Márcio Seligmann (UNICAMP), Jaime Ginzburg (USP), Rosana Kohl Bines (PUC-RJ) e Karl Erik Schollhammer (PUC-RJ), que há tempos burilam e aprofundam um fino projeto de reflexão sobre a violência, com o qual este blogueiro desenvolve um diálogo cada vez mais estreito. Na mesa de discussão, uma série de temas foram levantados, mas a conversa sobre Tropa de Elite, em especial, teria interessado a muitos leitores deste blog.
No domingo, a cereja que é melhor que o bolo inteiro: dezenas de brasileiros felizardos acompanharam a secondline Revolution, um dos maiores desfiles de bandas de metais e saculejo-de-esqueletos do calendário de festas de New Orleans. Éramos mais de mil dançando no rastro da banda, calculo. Cobrimos, literalmente, uns 15 kilômetros. Se eu conseguir algumas fotos, posto aqui nesta segunda.
O próximo congresso da BRASA se reúne .... er .... hmmmm, em Brasília, Distrito Federal.
PS: A todos os maravilhosos alunos de pós-graduação que trabalharam como voluntários e tornaram o congresso possível: muito obrigado. Não os nomearei individualmente porque certamente cometerei omissões imperdoáveis.
PS 2: Dou os parabéns à jornalista Juliana Krapp, pela excelente matéria sobre a nova literatura latino-americana no JB de sábado, para a qual este blogueiro deu a sua contribuição. Sinto-me muito bem parafraseado no texto de Juliana.
PS 3: Barack Obama é a pessoa mais seguida no Twitter (aprendi com o Tiago Dória).
PS 4: Vale a pena conferir essa do Serbão: Frases de pára-choque de caminhão em tempos de internet.
Escrito por Idelber às 04:48 | link para este post
| Comentários (24)
#1
Idelber, que evento magnífico, heim? Deu vontade de estar aí pra acompanhar...
Quanta riqueza de material intelectual, quanta riqueza em pessoas e discussões interessantes...
Aguardemos o próximo congresso então. Em...er... Brasília! rs
Bj
Ana
www.mineirasuai.blogspot.com
Ana Letícia em março 31, 2008 9:26 AM
#2
Que beleza de congresso! Engraçado não haver cobertura da imprensa brasileira, não é mesmo?
O pessoal do Cupinzeiro chegou a entrar em contato contigo?
Em tempo: passa lá no Pátria. Tem uma homenagem ao Dadá Maravilha que você vai gostar.
Bruno Ribeiro em março 31, 2008 10:35 AM
#3
Pra não dizer que não teve nada, na coluna-blog do Ancelmo Gois saiu uma notinha tímida, e dizendo apenas que era mais uma palestra sobre o imbroglio da biografia do Roberto Carlos. Nos comentários, eu fiz os esclarecimentos, procurando dar a dimensão muito mais ampla do evento.
Só pelo entusiasmo da sua descrição, a gente fica um pouquinho achando que esteve aí junto. Que bom que foi tão bacana!
Será que Brasília dá conta de reproduzir esse clima e essa animação? Sei não... Aguardar pra ver.
Ana Paula em março 31, 2008 11:22 AM
#4
Pra não dizer que não teve nada, na coluna-blog do Ancelmo Gois saiu uma notinha tímida, e dizendo apenas que era mais uma palestra sobre o imbroglio da biografia do Roberto Carlos. Nos comentários, eu fiz os esclarecimentos, procurando dar a dimensão muito mais ampla do evento.
Só pelo entusiasmo da sua descrição, a gente fica um pouquinho achando que esteve aí junto. Que bom que foi tão bacana!
Será que Brasília dá conta de reproduzir esse clima e essa animação? Sei não... Aguardar pra ver.
Ana Paula em março 31, 2008 11:22 AM
#5
Fundada em 1992, a BRASA já havia se reunido em Atlanta (1994 e 2002), Minneapolis (1995), Cambridge (1996), Washington (1997), Recife (2000) e Rio de Janeiro (2004), antes de visitar New Orleans em 2008."
E NASHVILLE em 2006! Onde todos apoiaram o futuro congresso em NOLA.
Parabens e agradecimentos aos anfitrioes de Tulane e todos os organizadores e voluntarios. Congresso maravilhoso e memorável mesmo.
Pasquale em março 31, 2008 11:38 AM
#6
Fundada em 1992, a BRASA já havia se reunido em Atlanta (1994 e 2002), Minneapolis (1995), Cambridge (1996), Washington (1997), Recife (2000) e Rio de Janeiro (2004), antes de visitar New Orleans em 2008."
E NASHVILLE em 2006! Onde todos apoiaram o futuro congresso em NOLA.
Parabens e agradecimentos aos anfitrioes de Tulane e todos os organizadores e voluntarios. Congresso maravilhoso e memorável mesmo.
pasquale em março 31, 2008 11:39 AM
#7
ah, pô, essas coisas só dão inveja na gente!
:>/
Biajoni em março 31, 2008 12:15 PM
#8
Pasquale, desculpe a falha!
Vou fazer o mui necessário acréscimo ao post ;-)
Idelber em março 31, 2008 12:52 PM
#9
Bruno, fiquei sabendo que o pessoal do Cupinzeiro esteve aqui, mas não entraram em contato comigo, não.
Depois passo lá para ver Dadá :-)
Idelber em março 31, 2008 1:02 PM
#10
valeu o link, Idelber... o Nelson deixou uma frase ótima lá agora, vou até incluir no texto...
Serbão em março 31, 2008 4:32 PM
#11
Oba!!!! Um beijo para quem teve a feliz idéia de trazer essa maravilha ao Planalto Central!!!! Conte comigo para o que for necessário, idelber, e dê mais detalhes sobre como o congresso, depois do Rio e Recife, veio parar na capital!!!!
S Leo em março 31, 2008 5:34 PM
#12
Idelber,
Obrigada por me receber na caxanga dos Avelar-Gonçalves e com tamanha simpatia, os dois, além de comida maravilhosa e papos muito bons, papos-cabeça e cabecinha de primeira linha.
E para complementar, um chit-chat sonhado com Wisnik. Na sexta ele me fez chorar [god knows why]um tiquim com suas músicas ao piano, mas no sábado me deixou em estado de graça ao passar por mim, me reconhecer da casa dos Avelar-Gonçalves e vir me comprimentar. Fiquei em estado de graça e narrei o acontecido, a partir de várias perspectivas ficcionais, para as pobres mesmas pessoas o tempo todo à noite do mesmo dia.
Grande intelectual, o Wisnik.
Grande ser, também.
Além de homem muito interessante -- com algum respeito, claro.
Muito maneira a sua casa.
Eu quase coloquei aquele pufão marrom no meu bolso... deve ser uma delícia estar jogada nele lendo qualquer coisa interessante.
Abraços e parabéns pela muito bem sucedida empreitada, vocês todos estao de parabéns!
Eloqüente Katia Santos
Katia Santos em março 31, 2008 6:58 PM
#13
Oops!
Juro como quis dizer CUMPRIMENTAR ...
Katia Santos em março 31, 2008 7:02 PM
#14
Kátia, foi um super prazer te ter aqui também. Volte sempre :-)
Sergio, vamos sacudir essa Brasília aí. Depois do que fizemos aqui, meu caro, vocês vão ter que rebolar.
Serbão, esse post seu aí é de antologia, meu velho.
Ana Paula, obrigado por acrescentar a informação lá no Alcelmo.
Bia, sobraram 57 Heinekens!
Idelber em março 31, 2008 7:07 PM
#15
Idelber: Agradeço muito este dois posts excelentes sobre o congresso da BRASA. A aula-show de Wisnik foi simplesmente deslumbrador. Concordo com Paulo César que a gente podia ter terminado o congresso aí mesmo e curtido a cidade. Mas aí teriamos perdido a memorável mesa redonda que você organizou com PC, Deborah, e Luciana-- também uma "aula-show" a sua maneira sobre o sistema jurídico brasileiro, as contradições da constituição de 1988 e o problema das biografias. Ainda teriamos perdido uma grande mesa redonda mediado por você com quatro jovens escritores brasileiros-- Ana Maria Gonçalves, Gustavo Krause, Adriana Lisboa, e Regina Rheda-- tão diferentes entre si e todos brilhantes. Fiquei muito contente com o resultado do BRASA IX cujo successo dependia tanto com a participação de colegas como você. Valeu!
Christopher Dunn em março 31, 2008 7:52 PM
#16
Gostaria de recomendar um artigo da revista New Yorker sobre a questão dos direitos autorais e da atuação das famílias de escritores falecidos decididas a, além de faturar muito com os parentes falecidos, dirigir de forma autoritária o rumo da pesquisa ou da crítica sobre eles. O artigo centra atenção no neto de James Joyce, mas tem muita informação útil para os interessados no assunto em termos mais gerais. http://www.newyorker.com/archive/2006/06/19/060619fa_fact
Paulo Moreira em março 31, 2008 9:29 PM
#17
Este é realmente um excelente texto, Paulo. Fica aí a dica, que eu subscrevo.
E, Chris, comemore, meu velho, porque você merece.
Idelber em março 31, 2008 10:16 PM
#18
Caro Idelber
Tenho curiosidade em saber se neste bate-papo o escritor Paulo Cesar Araújo admitiu, COMO FORMA DE DEFENDER-SE DO BIOGRAFADO, o que muitos comentaram quando seu livro foi proibido, que ele poderia ter incorporado no texto evidências de que o conteúdo (e até mesmo parágrafos inteiros) já era conhecido do público leitor (e diga-se bastante conhecido)?
Paulo em abril 1, 2008 7:40 AM
#19
Pô, só assim pra gente se ver, mesmo.
Desde já fique convidado a hospedar-se lá no cafofo! A gente é pobre, mas é limpinho. :)
Hermenauta em abril 1, 2008 2:03 PM
#20
Querido Idelber:
Você não poderá saber o quanto estou verdadeiramente feliz por este e outros, muitos outros sucessos, not by any stretch of the imagination!
Smooches
Meg
Meg (Sub Rosa) em abril 1, 2008 2:46 PM
Idelber em abril 1, 2008 2:53 PM
#22
Idelber,
Tem como se obter informações adicionais sobre o painel do livro do Paulo Cèsar de Araújo? Algum vídeo, transcrição etc. Pretendo fazer minha monografia sobre Liberdade de Informação X Direito à Imagem e acredito que esse debate traria ótimas informações.
Obrigado.
Amyr em abril 8, 2008 12:38 PM
#23
Idelber,
Tem como se obter informações adicionais sobre o painel do livro do Paulo Cèsar de Araújo? Algum vídeo, transcrição etc. Pretendo fazer minha monografia sobre Liberdade de Informação X Direito à Imagem e acredito que esse debate traria ótimas informações.
Obrigado.
Amyr em abril 8, 2008 12:52 PM
#24
Idelber, faço coro as outras vozes. Foi realmente um feliz surpresa. A BRASA estava redondinha mesmo. Tenho uma fostos da Second Line, caso queira posso enviar.
Abs,
Marcio André
Marcio André em abril 8, 2008 10:56 PM
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