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quarta-feira, 19 de março 2008
Ementa de curso: Música popular brasileira e cidadania
(aí vai a ementa de um curso sobre música brasileira, a ser ministrado em breve, em Buenos Aires)
Música brasileira popular e cidadania
No Brasil, a música popular tem sido tanto um mecanismo através do qual grupos socialmente oprimidos estabelecem reclamos de cidadania como um instrumento na formulação de políticas disciplinares do estado. A música trouxe os corpos negros e mestiços para o centro da esfera pública urbana no fim do século XIX, com o maxixe, mas também codificou mensagens de obediência através da pedagogia do canto orfeônico manipulada pelo Estado Novo nos anos 1930 e 40. A música alegorizou esperanças e angústias como nenhuma outra forma de arte durante a ditadura militar nos anos 1960 e 70, mas também, naquele mesmo período, ofereceu à classe média o paradigma de uma concepção estética excludente, baseada na pertença imaginária a uma comunidade de consumidores sofisticados – operação chave na evolução do conceito de “MPB” nos anos 70, que impôs um considerável estigma de “mau gosto” sobre as preferências musicais dos setores populares. A música cumpriu um papel decisivo na reconstrução da auto-estima de inúmeras comunidades brasileiras, do renascimento do Candeal, em Salvador, à entrada definitiva de Recife na cena pop internacional. Por outro lado, a música é a matéria-prima da indústria do jabá, o famoso suborno às estações de rádio tão comum no Brasil. A música brasileira popular seria, portanto, um fenômeno que é essencialmente contraditório e produz múltiplos efeitos políticos. O curso enfocará uma série de momentos na evolução da música brasileira popular ao longo do século XX, tanto na condição de agente produtor como na de elemento de obstrução da cidadania. Analisaremos, com efeito, os dois movimentos simultaneamente, oferecendo a imagem dinâmica de uma prática cultural cujo sentido político nunca está dado de antemão.
1o seminário: O maxixe, primeiro gênero musical urbano brasileiro.
José Miguel Wisnik, Machado Maxixe
Machado de Assis, “O Machete” e “Um homem célebre”
José Ramos Tinhorão, Música popular: Os sons que vêm das ruas
Referência online: Sovaco de cobra.
2o seminário: A narrativa épica sobre o surgimento do samba.
Nei Lopes, Sambeabá.
Muniz Sodré, Samba: o Dono do Corpo.
3o seminário: A crítica da narrativa épica
Hermano Vianna, O Mistério do Samba.
Carlos Sandroni, Feitiço Decente.
4o seminário: Parte I: O samba dos anos 30 e a figura do malandro.
Cláudia Neiva de Matos, Acertei no Milhar: Samba e malandragem no tempo de Getúlio
Parte II O conceito de música “regional” -- Nordeste
Antonio Risério, Caymmi, Utopia de Lugar.
5o seminário: Parte I: A Bossa Nova e a utopia da modernização
Lorenzo Mammi, “João Gilberto e o Projeto Utópico da Bossa Nova”
Parte II: O tropicalismo: cidadania na comunidade pop internacional
Antonio Cícero: O Tropicalismo e a MPB
6o seminário: Música jovem contemporânea
Micael Hershmann, O funk e o hip hop invadem a cena
José Telles, Do frevo ao mangue beat
Idelber Avelar, Sepultura and the coding of nationality in sound.
Escrito por Idelber às 18:38 | link para este post
| Comentários (35)
#1
Idelber, alguma possibilidade de vcs passarem por em SP? estou pesquisando MPB com intenção de defender uma tese de pós, ou, quem sabe, um futuro livro...
Serbão em março 19, 2008 7:46 PM
#2
Serbão, passaria com prazer, mas o problema seriam as datas...
Mas mantenhamos o contato -- posso passar-lhe um pacote com as leituras, e de repente o pessoal de Bs. As. grava as aulas. Abração,
Idelber em março 19, 2008 7:52 PM
#3
Uau! EXTRAORDINÁÁRIO! Bravíssimo!
Katarina em março 19, 2008 8:31 PM
#4
Pô, só tem gente fraquinha, hein? Se gravassem as aulas, podia ver depois se liberavam pra nosotros pobres mortais.
Theo em março 19, 2008 8:50 PM
#5
Espetacular, morro de inveja. Cabeção.
U cara mais distraído pensaria que o seminário será dado por você, com particpação também do Wisnik, do Risério, do A. Cícero... Só a presença do Machado quebra a impressão; mas vai que o bruxo encarna em BBAA...
Só não me diga que vai a Buenos Aires na semana que vem, agora que acabo de recusar uma viagem para lá.
S leo em março 19, 2008 11:19 PM
#6
Desculpa meter o bedelho, mas eu sugeriria Hermano Vianna para falar do funk e a presença/ausência de cidadania. Além, claro, de dar MUITO destaque para o hip-hop, que realmente agrega a galera da perifa de uma forma extraordinária.
No mais, evento excelente!
Gravatai Merengue em março 20, 2008 3:31 AM
bruno ( ) em março 20, 2008 3:48 AM
#8
mas q maravilha, hein? mais uma vez, inveja é o nome do sentimento!
tou planejando uma visita turística a Bs. As. em junho/julho - se as datas baterem, quem sabe não marcamos una parrillada con vino mendocino em algum lugar...
dos livros listados já li o Tinhorão, o Mistério do Samba (absolutamente fantástico) e o Uma Utopia de Lugar, de Risério (durante minha busca intelectual da baianidade).
em todo caso, comentados pelo ilustre professor e blogueiro do Biscoito, a coisa deve ficar ainda mais interessante...
abs,
dra em março 20, 2008 1:09 PM
#9
queria dar um destaque tbem pro Tinhorão. muito se falava dele, por ser um 'nacionalista', era inclusive ridicularizado por alguns críticos que, em comparação a ele,não têm a metade a erudição.
uma injustiça, ele é um dos maiores pesquisadores de Música Popular que conheço. não concordo com algumas opiniões dele, como a birra em relação a Tom Jobim e a Bossa-Nova; mas acima do Tinhorão, só o Mario de Andrade.
Serbão em março 20, 2008 2:42 PM
#10
Uau, muito bacana mesmo. Sabe que minha monografia de conclusão da graduação tinha um tema que respinga um pouco na ementa desse curso? A gente falava sobre a música (especificamente tropicalismo e BRock dos anos 80) como espaço de discussão da identidade nacional brasileira. Obviamente que num nível muuuito mais "raso", mas bateu uma saudade daquele clima de final de faculdade.
Beijocas
Monix em março 20, 2008 2:46 PM
#11
Obrigado :-)
Sim, importante a ressalva do Sergio. Essa turma toda de pesos-pesados aí são leituras. A falação é só por minha conta mesmo.
Parece que vai ser nos dias 24 e 25 de julho, em Buenos Aires. Claro que quem estiver lá é bem vindo.
Abbracci, e desculpas pela demora na liberação dos comentários e nas respostas.
Ainda em BH, ainda sem net, e ainda aproveitando do tempo com os filhos :-)
Idelber em março 20, 2008 3:25 PM
#12
Gsotaria de concordar com o coméntário sobre o Tinhorão. Estou acabando de escrever a biografia dele, que fez 80 anos em fevereiro. A contribuição desse pesquisador para a cultura popular urbana do país é inestimável ( 26 livros), e entretanto, ele não tem acolhida na academia, é sempre chamado, pejorativamente, de "jornalista".
Mas foi ele quem começou toda essa pesquisa- quando a academia nao se interessava por cultura popular. Foi quandoo o sensacional jornalista e poeta Reynaldo Jardim, que entre outras coisas criou o caderno B do Jornal do Brasil, encomendou a ele um série sobre Historia da MPB- e começou a colecionar recortes de jornais e a entrevistar gente como Sinhô, e outros iguais e ou melhores.
Seu maravilhoso acervo, rejeitado pelo Estado que, calro, nunca tem dinheiro para a cultura, hoje está no Instituto Moreira Salles, em SP, e na internet, para todos.
elizabeth em março 20, 2008 3:35 PM
#13
Concordo totalmente com a louvação a Tinhorão. Nós não seríamos nada sem ele. Pode se discordar de alguns juízos, mas o carinho, o amor, a dedicação, a erudição extraordinária no estudo da música popular me deram lições que vou carregar para sempre.
Parabéns, Elizabeth, por se encarregar desse trabalho.
Idelber em março 20, 2008 3:54 PM
Juliana Borel em março 20, 2008 4:04 PM
#15
80 anos???! Ninguém fez matéria?
S Leo em março 20, 2008 5:38 PM
BethS em março 20, 2008 5:51 PM
#17
opa, eu quero! 25 de julho? onde? qualquer um pode participar? esses livros sao encontrados aqui em buenos aires?
mariana em março 20, 2008 5:53 PM
#18
eu tambem quero. por favor, mais informacoes. onde vai ser o curso, quem pode se inscrever, quando, quanto. será que os livros estao disponiveis em buenos aires, em biblioteca ou livraria?
espero que ate julho. :)
mariana em março 20, 2008 6:09 PM
#19
Eu só ouço música, mas, quando preciso de informações sobre mpb vou ao dicinário Cravo Albin(http://www.dicionariompb.com.br/), tenho certeza que você conhece. Também tive a sorte de escutar tanto o Wisnik falando dos contos do Machado na ABRALIC regional de 2007, quanto você na Abralic de 2006. Ou seja, mereço a frequencia do 1º seminário.
Maria Andréia em março 20, 2008 7:06 PM
Maria Andréia em março 20, 2008 7:13 PM
#21
O curso está excelente. Cobre,de fato, o que há de mais especial na nossa música. Dá vontade de ser aluno deste curso. Pena que um brasil nos separa (estou no Nordeste brasileiro).
Boa sorte, ótimo curso.
Abraços.
Amador Ribeiro Neto em março 20, 2008 7:22 PM
#22
Onde e quando é o curso?
Ivo em março 20, 2008 7:24 PM
#23
Elizabeth, estou na fila de interessados!!!! :)
S Leo, boa boservação e vou sugerir aqui onde trabalho.
Serbão em março 20, 2008 8:07 PM
#24
Mestre Sergio, numa semana em que o Glorioso faz 100 anos, é normal que outros aniversários sejam esquecidos :-)
Idelber em março 20, 2008 11:03 PM
Franciel em março 21, 2008 11:21 AM
#26
Muito tentador, Idelber!
Como trabalho com antropologia dos grupos populares brasileiros me interesso particularmente pela parte do curso que faz a crítica da pretensa sofisticação da classe média que reforça as demais exclusões sobre os grupos populares, o que nos leva às discussões sobre os gostos de classe e às lutas sombólicas de Bourdieu. São simbólicas mas têm razões práticas, não Idelber? Dia desses conversando com um amigo músico, acabamos falando sobre pagode e adjacências e eu concluí uma fala dizendo algo como "mas é o apelo popular dessa música". Ele Me "corrigiu": popular não, popularesco... Porque popular mesmo é chico, etc.
Vc conhece o trabalho da antropologia da música aqui de Florianópolis? O Professor Rafael José Meneses bastos coordena o Musa, núcleo de Arte, Cultura e Sociedade na América Latina e no Caribe (www.musa.ufsc.br), ligado ao PPG em Antropologia Social da UFSC. Participa desse núcleo tambeem o prof Acácio Tadeu de Camargo Piedade que, como Rafael, também é músico e professor do departamento de Música da UDESC (univ. estadual). Esse povo trabalha mais com etnomusicologia (muita coisa sobre música indígena na américa latiana), mas também com música popular brasileira. Bem, todo mundo tem Lattes, mas se vc se interessar posso passar os contatos, se é que vc já não conhece.
Um abraço, Flávia
Flávia em março 21, 2008 12:25 PM
#27
Idelber,
a propósito da mpb, fiz uma correlação de um dos fragmentos do discurso amoroso, do Barthes, com a música "o vampiro" do mestre Mautner. Se tiver um tempinho dá uma olhada lá no dez polegadas.
Abço.
Homo antiquus em março 21, 2008 12:31 PM
#28
Eu vejo que meu conhecimento musical beira o zero quando você fala em maxixe e eu penso no É o Tchan.
Klein em março 21, 2008 5:25 PM
#29
Flávia, super obrigado pelas dicas. Não, eu não conhecia essas linhas de pesquisa aí em Florianópolis. Tenho contato com colegas da UFSC, mas todos na área de literatura. Vou conferir, com certeza, os Lattes de todos e em entrar em contato. Valeu mesmo :-) O relato que você faz desse diálogo sobre o "popular" e o "popularesco" é tão, tão típico....
Beth, obrigado, querida, pelos links e pelas palavras :-) Já comecei a explorar algumas das referências.
Klein, lá no Sovaco de Cobra tem umas gravações fantásticas de velhos maxixes, inclusive de Ernesto Nazareth que, precavido, nomeou os seus "tangos brasileiros".
Desculpem a demora na liberação de comentários e nas respostas. Mas eu estando sem internet, não dá para deixar a caixa aberta, infelizmente.
Na terça a gente volta ao ritmo normal.
O curso em Bs. As., Mariana, será nos dias 13 e 14 de junho (ou seja, apaguem o que eu disse acima). Eu mando as dicas depois, pelo blog, sobre como fazer inscrições, e tal.
Abraços.
Idelber em março 21, 2008 5:37 PM
#30
Tão perto daqui... Tão barato... Essa porra é aberta aos ignaros?
Milton Ribeiro em março 21, 2008 6:05 PM
Idelber em março 21, 2008 6:09 PM
#32
Caro Idelber, pena não termos tido essa conversa antes, pois em Porto Alegre, onde estivestes recentemente, também há pessoas nesta área da Antropologia. Poderia ter te passado nomes.
Para ser justa, devo mencionar outro membo do Musa, a Mig, Maria Ignez Cruz Mello, cujo lattes podes ver tb. Deixei de mencioná-la no outro comentário porque ela faleceu neste 8 de março. A antropologia aqui está de luto. Mig era professora também da Udesc, pesqusadora em estnomusicologia, antropóloga e pianista brilhante, e esposa do querido Acácio. Pessoas e intelectuais de grande valor. Vale a pena conferir o trabalho deles. Abç, Flávia
Flavia Motta em março 21, 2008 6:14 PM
#33
Alguma possibilidade de um curso desse à distância, tipo o grupo de leitura? tipo uma aula por mês, por semana, por quinzena, podendo durar bastante tempo, pra cada período... enfim, como alguém disse acima, estou morta de inveja e sofrendo por nào poder ir do interior da bahia a bs. aires, hehehe. Caso se anime, estou na fila de espera! um abraço.
Surya em março 21, 2008 6:25 PM
#34
hehe Milton, as palavras e as conversas continuam caminhando... sentiu os ecos daquele nosso papo?
Flavia Motta em março 21, 2008 7:10 PM
#35
eh eh he , eu vou estar lá.
Nada como estar com a mulher certa no pais certo!!!
fm em março 22, 2008 7:11 PM
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