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segunda-feira, 17 de março 2008

O crime internacional de Uribe, as Farc e o respeito às fronteiras nacionais

Os poetas conhecem como ninguém o processo pelo qual as palavras vão se gastando, sujando e perdendo o poder denotativo que tinham. Exemplo típico, em nossos tempos, é a palavra “terrorismo”. A partir dos acontecimentos de 11/09/2001 – atos indubitavelmente terroristas no sentido clássico –, a manipulação do vocábulo pela administração Bush e pelos seus aliados ao redor do mundo passou a convertê-la numa espécie de epíteto a que se recorre para justificar qualquer coisa, uma sorte de xingamento conveniente e inquestionável. Essa é a lógica que preside alguns dos argumentos acerca do recente imbróglio entre Colômbia e Equador, que deixou nítida, mais uma vez, a monumental ignorância brasileira sobre seus vizinhos, até mesmo de parte de gente bem instruída.

Para começar, o que os gringos chamam full disclosure (abrir o jogo): tenho razões muito pessoais para detestar as Farc. Já me atingiram de perto, seqüestrando gente próxima a mim – gente de esquerda, inclusive. Quem quiser xingá-los de terroristas ou narcobandidos, que fique à vontade. Mas não acredite que, com isso, esteja aproximando-se um centímetro de compreender o conflito colombiano. O lamentável editorial d' O Globo deste domingo, por exemplo, é uma descarada justificativa do crime internacional perpetrado pelo governo de Uribe -- distorce os fatos ao ponto de dizer que os presidentes Chávez e Correa ficaram isolados! O editorial ainda desce a lenha na atuação do governo brasileiro que, do ponto de vista diplomático, me pareceu impecável. Em coluna na Folha de São Paulo, Nelsinho Motta – a quem conheço, admiro e quero bem – abusa dos xingamentos às Farc e dá um espetáculo de desconhecimento do tema, ao perguntar-se as Farc não pretenderiam tomar o poder e instalar um governo “bolivariano”. Como alguém pode escrever uma coluna sobre o tema no maior jornal brasileiro e não saber que as Farc jamais reinvindicaram qualquer referência ao “bolivarianismo”? É preocupante que o autor do artigo não saiba que a referência nem sequer teria sentido na Colômbia. Sugere que ele esteja confundindo a Colômbia com a Venezuela, dois países que têm muito pouco em comum além da fronteira. Sei que é chato usar argumentos assim, mas produz cansaço ver, pontificando sobre o conflito colombiano e distribuindo epítetos, gente que não saberia localizar Antioquia ou o Vale do Cauca num mapa.

As Farc eram uma guerrilha onde se misturavam inspirações guevariana e maoísta com um elemento profundamente colombiano, a saber: desde muito tempo --- desde o fracasso do pacto de 1854 que uniu liberais e conservadores contra o General Melo, ou, diriam outros mais modestos, desde o período conhecido como “La violencia”, entre o fim da década de 1940 e os anos 1950 –, a militarização da sociedade colombiana põe em cena um horrendo teatro da vingança no qual bandos armados, oficiais ou não, permitem que filhos possam ir à forra pelos assassinatos de seus pais. Imaginem a espiral viciosa desse gigantesco horror de órfãos e viúvas. Nas últimas décadas, as Farc passaram a adotar várias práticas do banditismo comum, como a extorsão e o seqüestro não motivado politicamente (claro que um seqüestro como o de Ingrid Betancourt tem motivação política; refiro-me a outros, para ganho econômico).

O tráfico de drogas está envolvido? É evidente que sim. Qual o problema com a definição “narcoguerrilha”? Ela finge ignorar o fato mais básico, que o dinheiro da droga financia todos os lados do conflito colombiano, incluído aí o estatal. Isola-se um dos atores desse conflito para receber o prefixo “narco”, como se o tráfico estivesse ausente em outras comarcas. Realiza-se, portanto, uma operação de desonestidade intelectual. É pior ainda o rótulo de “terroristas”, já que o que caracterizou tradicionalmente as Farc nunca foi o ato terrorista no sentido clássico, como a bomba em lugares públicos. Não são incapazes desses atos, mas o que os marca é a trajetória que vai do combate guerrilheiro à paulatina incorporação de métodos do banditismo. Uma boa parte de seus membros não são guevaristas nem muito menos terroristas, mas camponeses que se viram compelidos a se incorporar a alguma força armada no contexto de uma espiral de violência já ancestral.

Boa parte da população camponesa e agricultora colombiana está acostumada a viver com até três extorsões: das Farc, dos paramilitares (AUC) e do próprio estado, este último “representado” por bandidos que utilizam para proveito próprio a guerra de extorsões entre os vários bandos armados. O que consegue Uribe, nos últimos anos, é simplificar esse terror: de um imposto ternário, passamos a um binário. A extorsão paramilitar de direita aninha-se ao interior da operação estatal. É impossível discutir a situação da Colômbia sem levar em conta a reinserção dos paramilitares na legalidade, com muitos deles incorporados ao estado (reinsertarse é o verbo que se usa na Colômbia para definir o processo de abandono das armas e passagem à legalidade). A recente popularidade de Uribe se apóia na diminuição real dos índices de violência, que tem um conjunto de causas: a legalização dos paramilitares (que passam assim a contar com os recursos do estado e já não recorrem tanto ao assassinato), a reinserção do M-19, o trabalho comunitário inovador de prefeituras como a de Bogotá e, inclusive, opções táticas recentes das próprias Farc, que têm perfeita consciência do seu isolamento. É evidente que a "linha dura" de Uribe tenta capitalizar politicamente sobre uma série de resultados sobre os quais ela tem responsabilidade só parcial.

A grande cartada que tem Uribe é a utilização do espectro do “terrorismo” para demonizar um único ator do conflito -- quando o rótulo é igualmente (in)aplicável a todos os outros. Se há algo que, em definitivo, não interessa ao governo colombiano é a reinserção pacífica e ordenada das Farc. Se tudo o que ele conseguiu em termos de popularidade foi na carona da redefinição das Farc à luz da retórica do terrorismo da era Bush, por que abrir mão do manipulável fantasma? Se pouca gente fora da Colômbia sabe que os níveis de violência podem ter baixado, mas que as taxas de mortalidade por assassinato entre os “reinseridos” de esquerda continua altíssima? Visite um camponês cundiboyacense e observe no seu semblante o terror produzido pela menção de duas curtas palavrinhas: los paras. Na seqüência, faça um levantamento do número de candidatos a cargos eletivos assassinados pelos paramilitares ou por agentes do próprio estado em comparação com o número de políticos mortos pelas Farc. Depois volte aqui e dê uma gargalhada na cara do direitista tupiniquim que quer entender o conflito colombiano como uma oposição entre o “narcoterrorismo” e o “estado democrático de direito”.

É possível que tenha havido contatos entre as Farc e os governos da Venezuela e do Equador mais além das normais conversas em torno ao tema da paz? Sim. É possível que tais contatos tenham envolvido grana? Sim, é possível. Embora eu ache pouco provável, estaria disposto a considerar este novo dado, caso apareçam indícios ou provas. Não, os conteúdos de um laptop ao qual só Uribe teve acesso não valem como prova de nada. Até agora, o que temos é esse mapa político nos quais os interesses me parecem bem nítidos.

É por tudo isso que é inaceitável que um latino-americano justifique o crime internacional cometido pelo governo de Uribe na semana passada – Raúl Reyes era a figura designada pelas Farc para a negociação de paz que, como sabemos, já envolveu outros governos da região. Será que é muito difícil perceber que o assassinato de Reyes tem muito pouco a ver com o combate ao "terrorismo" e tudo a ver com impedir que Hugo Chávez capitalize politicamente com a negociação para a libertação de reféns? Por que o jornal O Globo, em editorial, se refere como “base” a um acampamento de onde jamais havia saído nenhuma operação militar? Ah, como seria bom se existisse uma direita nacionalista no Brasil! Não se pode brincar com o respeito às fronteiras nacionais logo ali na Amazônia, numa época em que o governo Bush já deu amplas demonstrações de que não respeita direito internacional nenhum.



  Escrito por Idelber às 09:09 | link para este post | Comentários (78)


Comentários

#1

Puxa, Idelber, parabéns! Quando pedi que escrevesse sobre o tema não pensei que seria tão bom. Você usa argumentos que tento explicar para as pessoas mas não consigo. Acredito que as pessoas vêm os demais países da América do Sul como um história em quadrinhos: vilão, mocinho e os fracos e oprimidos. Hugo Chavez, na minha opinião, quer se transformar no homem forte da América do Sul - e esta não é uma perspectiva que me agrade...
O desrespeito às normas de direito internacional se tornou comum com o governo Bush agindo contra o terrorismo - e olha o que aconteceu no Oriente. Isso é o que mais me chamou a atenção nesse episódio: o desrespeito ao território, que se trata de um elemento fundamental e definidor de Estado. O "terrorismo" se tornou a deixa para a invasão de territórios nacionais estrangeiros.
Quanto à Amazônia, parece que pouca gente percebeu a localização geográfica do conflito e a extensão de nossas frnteiras. Faz pensar. Há riscos? Não sei, mas o prevenido morreu de velho, não é? É bom estar sempre atento.
Parabéns, novamente.

Ana Carolina em março 17, 2008 10:05 AM


#2

Deu a louca no PC...foi duas vezes...

Ana Carolina em março 17, 2008 10:06 AM


#3

Manifesto das FARC

por Secretariado do Estado Maior Central

Item 5: Para a construção desta alternativa pomos à consideração do país, das suas organizações política e sociais, de todo o povo, a Plataforma Bolivariana pela Nova Colômbia para abrir a discussão e o intercâmbio em torno das bandeiras e do programa de um novo governo que sugerimos patriótico, democrático, bolivariano, rumo a uma nova ordem social, comprometido na solução política do grave conflito que vive o país.

E as FARC não são "bolivarianas"?

Marcelo Camanho em março 17, 2008 10:39 AM


#4

É o exemplo clássico do duplipensar, descrito pelo Orwell em "1984":

"To know and not to know, [...] to use logic against logic, to repudiate morality while laying claim to it, [...] to forget whatever it was necessary to forget, then to draw it back at the moment when it was needed, and then promptly to forget it again: and above all, to apply the same process to the process itself."

As FARC se dizem bolivarianas, mas é necessário esquecer disso -- até a hora em que for preciso lembrar de novo...

Ou, nas palavras de Caetano: "Ou não..."

Peter Alms em março 17, 2008 11:00 AM


#5

Caro Ildeber,

Desde uma dica do blog do alon, tenho acompanhado diariamente o teu blog, pelo qual te dou os parabéns. Curioso pelo desenrolar das prévias nos EUA, fui 'salvo' por teus artigos, pois não há na mídia brazuca ninguém que faça uma análise da qualidade da tua.
Aproveito para convidá-lo a visitar meu blog (http://palpit.blogspot.com, que acabo de ressuscitar, onde lanço alguns palpites sobre a economia brasileira e seus melindres.

Abs
Marcelo Manzano

Marcelo Manzano em março 17, 2008 11:04 AM


#6

Ótimo post, Idelber. Estas coisas precisam ser esclarecidas. E mais uma vez a nossa mídia mostra de que lado está...

Kelly em março 17, 2008 11:17 AM


#7

Prezado Idelber,
mas também não se pode dizer que a própria existências das FARC hoje, nos moldes atuais, é "funcional" para o governo Uribe? Ela é perfeita para a criminalização da esquerda (mesmo os setores visceralmente contrários ao grupo)e para o isolamento de alternativas progressistas. Você não acha que há uma hesitação excessiva por parte da esquerda latino-americana em fazer uma crítica incisiva a espiral de violência de que você fala, incorporando como objeto dessa crítica o modus operandi das FARC?

João Marcelo em março 17, 2008 12:07 PM


#8

Nelson Motta ACERTOU ERRANDO! As FARC hoje se tornaram CLARAMENTE SUBSIDIÁRIAS, para o bem ou para o mal, ao ímpeto do presidente “bolivariano” (qualquer que seja o significado desta palavra). E caro Idelber, o seu último parágrafo justifica o erro de Motta! É incrível como se arma uma situação diplomática e midiática (em cima do evento de guerra, real e DEPLORÁVEL) para beneficiar o presidente do país, nosso vizinho na fronteira Norte!
Mas caro Idelber, você esperava realmente que o jornal O Globo saísse do seu conservadorismo?

Paulo em março 17, 2008 12:16 PM


#9

Bem caro Idelber, como eu não tinha lido os comentários, REFORMO: Nelson Motta ACERTOU ACERTANDO!!!

Paulo em março 17, 2008 12:24 PM


#10

e por acaso as FARC respeitaram as fronteiras do equador???

foca em março 17, 2008 12:34 PM


Marcelo Camanho em março 17, 2008 1:18 PM


#12

.......sem palavras !!Você já disse tudo !!
Boa .
Abraço

myrna em março 17, 2008 1:32 PM


#13

Idelber,
fico sempre achando que desta missa não sei um terço, obrigada por acrescentar um pai nosso e 2 ave-marias.

Márcia W. em março 17, 2008 1:51 PM


#14

Ildeber,

Texto realmente muito bom. Parabéns! Precisamos de textos assim, que apontem os muitos interesses em jogo e, principalmente, a história que nos é pouquissimo conhecida, dos nossos vizinhos.

Por outro lado, preocupa observar que, mesmo com todo o desgaste que custou aos EUA a invasão do Iraque sob falsos pretextos - incluindo o uso indevido da expressão "terrorismo", que você analisou tão bem - ainda temos que ouvir discursos como os da Dona Arroz, que repete o seu mantra do "terrorismo" aplicado ás FARC com a maior desfaçatez e ainda propõe uma aliança militar. Tudo embalado na retórica dos altos e nobres motivos. Pffffui!!!

Alba em março 17, 2008 2:24 PM


#15

Quem conheceu Bogotá antes e depois de Uribe, vai entender porque ele tem aprovação de 90% da população.
Quanto as Farcs não serem bolivarianas, o Marcelo Camanho já mostrou o contrário.

Adelmo Leon em março 17, 2008 3:14 PM


#16

Como alguém pode escrever uma coluna sobre o tema e não saber que as FARC reinvindicaram TEXTUALMENTE a implantação de um governo bolivariano na Colombia?

Se as FARC traficam drogas e praticam guerrilha, é claro que são uma "narcoguerrilha". Curiosa a análise do texto: usa a culpa dos paramilitares (outra narcoguerrilha) para tentar isentar as FARC do mesmíssimo crime.

Uma "boa parte" dos membros da Al-Qaeda também nunca praticou o terrorismo -- isso quer dizer que ela não merece o título?

A "reinserção pacífica e ordenada" das FARC só depende deles abandonarem a guerrilha e o tráfico, mas duvido que eles abram mão da enorme quantidade de dinheiro que essas atividades trazem para os seus líderes.

Peter Alms em março 17, 2008 3:15 PM


#17

Então tá, né?

Uma menção ao termo num manifesto faz das Farc uma organização "bolivariana". O que eu disse -- e reitero -- é que essa inspiração bolivariana não é dado chave na emergência e na consolidação da Farc. Se alguém quiser afirmar que sim porque encontrou a palavra num manifesto recente, ora, à vontade. O que eu gostaria de saber é em que isso muda a questão central: a violação territorial do Equador.

O argumento de que Bogotá se pacificou graças exclusivamente à ação de Uribe é risível, me desculpe. Vamos dar um olhada no que aconteceu durante os dois mandatos de um sujeito chamado Mockus na prefeitura, por exemplo. Guglem aí, quem sabem não descobrem que ele é bolivariano também....

E, pela milésima vez: não estou "desculpando" as Farc. Que cada envolvido em assassinato ou tráfico de drogas seja julgado pela lei. Estou questionando um uso interessado dos termos "narcoguerrilha" ou "narcoterrorista" que esconde mais do que revela qual é a dinâmica do conflito. Quem quiser fingir que não entendeu a diferença entre as duas coisas, que fique à vontade também.

Idelber em março 17, 2008 3:47 PM


#18

foca, existe uma diferença básica: a Colômbia é um estado nacional. As Farc são uma organização armada. Se uma organização armada de um país viola o território de outro, e o governo do país sede da dita cuja quer tomar providências, o direito internacional prevê mecanismos para que isso seja feito.

Mecanismos que não incluem, claro, o bombardeio de acampamentos sem a ciência do governo vizinho.

Coloque-se no lugar do presidente do Equador. Se fosse Chávez, bombardeando uma guerrilha venezuelana no estado do Pará, como você, como brasileiro, reagiria?

Idelber em março 17, 2008 4:13 PM


#19

Idelber: post de clareza cartesiana. Põe a história em cena, aponta as transformações, os agentes... Parabéns! (Só espero que não implique com o Descartes da expressão, tá?)

Ricardo Cabral em março 17, 2008 4:14 PM


#20

td bem, idelber, vc se justificar, tentar desdizer o q disse no post e tal e coisa. mas a impressão q fica mesmo é q voce defende as FARC. por que?
porque é bem mais visível o seu ÓDIO figadal contra todo e qualquer governo q não seja de esquerda.
esse sintoma é bandeiroso em vc e por mais q vc depois tente justificar o excesso cometido em sua análise simpática e parcial às FARC, é complicado porque o soneto fica pior q a emenda. aliás, como sempre acontece com pessoas tão partidárias. seja qual for o viés ideológico.

foca em março 17, 2008 4:21 PM


#21

mais uma vez, sua explicação a cerca da questão de fronteiras é muito enviesada e partidária.será q nosso democrata blogueiro de esquerda vai censurar minha opinião.

foca em março 17, 2008 4:25 PM


#22

foca, meu caro, respeito seu ponto de vista. Mas realmente tenho dificuldade em ver "simpatia" pelas Farc no meu post -- a não ser que você insista em confudir "Farc" com "análise menos maniqueísta e mais tridimensional de um problema complexo".

E acho, sinceramente, que se há alguém deixando transparecer ódio aqui, não sou eu.

Reitero a pergunta: Chávez bombardeia sem avisar um acampamento de guerrilha venezuelana no estado do Pará. Você, como brasileiro, reagiria como?

Idelber em março 17, 2008 4:25 PM


#23

Moderação de comentários instalada por motivos que nada tem a ver com este post, mas com ofensas dirigidas a outros em outro post.

Quem for comentar, escreva com calma que depois eu libero os comentários -- paciência, porque estou sem internet pessoal no momento. E sobre o que viria a ser "censura" num blog pessoal, caro "foca", favor ler isto aqui.

Idelber em março 17, 2008 4:30 PM


#24

Hoje o portal do Noticias24 da colômbia publica uma reportagem em que aparece uma foto do ministro da Segurança do Equador trocando uma idéia com o falecido Reyes.
É o baton na cueca que faltava para que Correa e seus defensores voltem para seus devidos lugares. Bando de hipócritas.

http://www.noticias24.com/actualidad/?p=12905

Barba Negra em março 17, 2008 4:49 PM


#25

Caro Idelber

Muito Bom, parabéns!

Pena que tem gente que não consegue entender e continua achando que o mundo é dividido entre mocinhos e bandidos.

O episodio da união patriótica diz muito a respeito da história recente da Colômbia e de como o senhores de lá só querem saber mesmo é de guerra.


Luiz em março 17, 2008 4:50 PM


#26

Vamos lá com o diálogo de surdos.

Barba negra: a não ser que se conheça o teor da conversa, essa foto não altera nada em nada. Volte lá no meu post. Mais especificamente na parte que diz mais além das conversas normais. Que há conversas entre as Farc e governos da região é fato que ninguém nunca negou. Pois se já houve reunião multiestatal para discutir o tema, com a presença de Uribe e tudo! Reyes era o encarregado das conversas de paz dentro das Farc.

Insisto na pergunta: em que isso altera o crime internacional de Uribe?

Idelber em março 17, 2008 4:57 PM


#27

Idelber,

O que você escreveu foi "as FARC jamais reinvindicaram qualquer referência ao bolivarianismo".

Foi mostrado que isso não é verdade.

Se você quer reescrever o texto para ler "a inspiração bolivariana não é dado chave na emergência e na consolidação da Farc", tudo bem -- mas não foi isso o que você disse.

But you can't have your cake and eat it, too: se a inspiração bolivariana é recente, é uma prova de que o Chávez está interferindo nos assuntos internos da Colombia -- senão, de onde teria vindo esta inspiração? Esta interferência é legítima?

Quanto à sua questão hipotética: se a guerrilha estivesse inundando a Venezuela com drogas, sequestrando e matando venezuelanos, pregando abertamente a derrubada de um governo eleito democraticamente; se o Pará estivesse abrigando a guerrilha com a conivência explícita do governo Brasileiro; se o ataque não tivesse matado nenhum brasileiro; se a Venezuela reconhecesse a invasão e pedisse desculpas; eu faria exatamente o que o Correa fez: ficaria puto da vida, exigiria retratação, faria todo o teatro diplomático que é exigido nessas situações, e quinze dias depois deixaria tudo voltar ao normal.

Peter Alms em março 17, 2008 4:59 PM


#28

Olá Idelber,

Poderia fiskear tudo, mas fiskeio só alguns pontos aqui:

Nelsinho Motta – a quem conheço, admiro e quero bem – abusa dos xingamentos às Farc e dá um espetáculo de desconhecimento do tema, ao perguntar-se as Farc não pretenderiam tomar o poder e instalar um governo “bolivariano”. Como alguém pode escrever uma coluna sobre o tema no maior jornal brasileiro e não saber que as Farc jamais reinvindicaram qualquer referência ao “bolivarianismo”?

O "bolivarianismo" seria melhor chamado de "bovinismo", é apenas um eufemismo para "socialismo", ou, no caso, um governo ao estilo de Hugo Chávez. Pouco ou nada tem a ver com Simão Bolívar. A crítica de Avelar é implicância besta, afinal, é óbvio que as FARC não usariam tal palavra, por sinal, o que é "bolivarianismo" segundo o Idelber?

A recente popularidade de Uribe se apóia na diminuição real dos índices de violência, que tem um conjunto de causas: a legalização dos paramilitares (que passam assim a contar com os recursos do estado e já não recorrem tanto ao assassinato), a reinserção do M-19, o trabalho comunitário inovador de prefeituras como a de Bogotá e, inclusive, opções táticas recentes das próprias Farc, que têm perfeita consciência do seu isolamento.

Blablablá. Um bebê bonito tem muitos pais, um bebê feio é órfão. É claro que é a linha-dura do Uribe a maior responsável pela queda na violência, bem como suas políticas em relação ao paramilitariso. Colocar entre as causas da diminuição a própria estratégia das FARC, é muita cara de pau.

o que caracterizou tradicionalmente as Farc nunca foi o ato terrorista no sentido clássico, como a bomba em lugares públicos. Não são incapazes desses atos, mas o que os marca é a trajetória que vai do combate guerrilheiro à paulatina incorporação de métodos do banditismo.

Acho sempre engraçado quando fazem esta distinção entre "grupo guerrilheiro" e "grupo criminoso comum". Às vezes são até os mesmos que, por um lado, dizem que as FARC "abandonaram a ideologia e agora são só um bando de criminosos comuns", mas, pelo outro, se recusam a admitir que sejam tratados como criminosos comuns, falando em sua "luta política" ou querendo que sejam "força beligerante". Na verdade, é muito simples, não há contradição alguma: as FARC são um grupo revolucionário marxista, e os grupos revolucionários usarão o que for preciso, conforme o momento - banditismo, terrorismo, até capitalismo se for o caso.

Será que é muito difícil perceber que o assassinato de Reyes tem muito pouco a ver com o combate ao "terrorismo" e tudo a ver com impedir que Hugo Chávez capitalize politicamente com a negociação para a libertação de reféns?

Será que é muito difícil perceber que tem a ver com as duas coisas, que são, na verdade, a mesma? Combater Hugo Chávez, aliado e apoiador das FARC, É IGUAL a combater o "terrorismo", isto é, as FARC.

Por que o jornal O Globo, em editorial, se refere como “base” a um acampamento de onde jamais havia saído nenhuma operação militar?

Hã... Esta aqui, realmente, é tão bobinha que nem merece resposta. Em tempos de guerra assimétrica, eu diria que é até de uma ignorância atroz. Mas por ora, fico por aqui...

Abs,

Mr X em março 17, 2008 5:02 PM


#29

quer saber? se o parlapatão truculento hugo cháves invadir o território do país tropical pra bombardear enclaves guerrilheiros venezuelanos ou se o troglodita george bush invadir a mato grosso pra atacar focos de guerrilha islâmica, q diferença REALMENTE faz?

seria um fato lamentável? com certeza, sim !!
mas infelizmente o mundo caminha para o armagedon e nos dias de hoje só merece repúdio se um louco invadir o território brasileiro com interesse único e exclusivo em atacar a soberania brasileira ou dilapidar nossas riquezas. sem essa de fronteira, cercas embandeiradas q separam quintais...

evo morales INVADIU a Petrobrás sediada na Bolívia com exército e o escambau e nem por isso a gloriosa esquerda festiva tupiniquim reclamou de zorra nenhuma. achou tudo normal normalíssimo. o absurdo de certos grupos q se dizem guerrilheiros é q para eles a individualidade humana não vale nada. matam, sequestram, lutam por uma ideologia, e para quê mesmo? pra depois chegar ao poder e se encastelar com benefícios em causa própria? a nojenta nomenklatura da esquerda é tão sacana qto às "zelites" da direita. "zelite" estas q apóiam todo e qualquer governo. (vide banqueiros, grandes empresários e corporações globalizadas)...

foca em março 17, 2008 5:07 PM


#30

Pequena correção: como os outros bem lembraram, as FARC usaram sim, diversas vezes, a palavra “bolivarianismo”.

Mr X em março 17, 2008 5:09 PM


#31

Peter: granted. O uso do "jamais" no meu post não era exato. Ignorava referências recentes (muito recentes, convenhamos) a esse termo, "bolivarianismo".

No contexto de comentários como outros que há por aí, um desacordo formulado como você formula o seu é um bálsamo. Então vamo' lá conversar de boa fé.

No meu modo de entender, as referências recentes ao "bolivarianismo" indicam menos uma interferência direta de Chávez do que uma tentativa das Farc -- isoladas e com aprovação baixíssima, isso também está dito no meu post -- de capitalizar a popularidade inegável de Chávez na Venezuela. A referência, em si, não prova interferência de Chávez que transgrida leis internacionais.

Veja bem: eu não nego que tais interferências possam estar existindo. Não ponho minha mão no fogo por Chávez. Eu só disse que essa interferência não está provada. E que Uribe -- que mentiu nesse episódio, ao ligar na manhã do ataque para Correa e dizer que havia invadido "acidentalmente" o território equatoriano numa "perseguição" às Farc -- não é confiável ao apresentar como provas dados de um laptop ao qual só ele teve acesso.

Quanto à sua resposta ao meu contra-exemplo hipotético do Pará: estamos de acordo então!

Com relação ao episódio que realmente aconteceu: Você não acha, por outro lado, que o Brasil fez exatamente o que deveria ter feito?

Idelber em março 17, 2008 5:10 PM


#32

ao q me parece as forças militares colombianas entraram sim no território equatoriano. e quantos quilometros território adentro? foi noticiado q teria sido uma região fronteiriça, a qual no meio da densa floresta fica quase impossível delimitar. o q, de jeito nenhum, justifica a invasão. mas o ôba ôba da gloriosa esquerda latinoamericana fez um alarde dos diabos como se os colombianos tivessem invadido e destruido grande parte da capital Quito.

e o q dizer do cárcere imposto à ingrid betancourt? não merece uma moção de repúdio sequer da nossa tão "humanitária" esquerda? nunca vi um pronunciamento, um manifesto, um abaixo assinado sobre isto.

no entanto, quando se referem às FARC destilam um amor explícito, ou pior, uma paixão cega q ofusca qualquer noção humanitária ou de bom senso.

foca em março 17, 2008 5:31 PM


#33

Essa é fácil, foca:

Eu, Idelber Avelar, titular d'O Biscoito Fino e a Massa, venho por meio desta declarar que o sequestro de Ingrid Betancourt, bem como incontáveis outros sequestros e assassinatos cometidos pelas Farc, são crimes abomináveis, injustificáveis, que merecem todo o repúdio e que devem ser punidos com o máximo rigor da lei.

Destarte, coloco-me à disposição para acrescentar meu nome a quaisquer abaixo-assinados que por ventura venham a ser feitos neste teor.

Idelber em março 17, 2008 5:36 PM


#34

Idelber,
Imprensa brasileira: veja, mas não acredite. Foi vocêr quem deu a dica.
Você está lascado: os leitores do Reinaldo Azevedo (Mr X e foca) fizeram um ataque nos comentários e vão encher o saco até a morte por conta do "bolivarianismo".

enio em março 17, 2008 5:42 PM


#35

tranquilo, tranquilo.

aqui a gente encara na paz :-)

Idelber em março 17, 2008 5:45 PM


#36

Você não acha, por outro lado, que o Brasil fez exatamente o que deveria ter feito?

Mais ou menos. Existe, na nossa diplomacia, uma corrente "bolivariana" que está mais preocupada em ser anti-americana do que pró-brasileira, e insiste em se "opor aos interesses americanos" mesmo quando estes são beneficiais ao Brasil (é claro que nem sempre são, e quando não são devem ser rejeitados sumariamente), por motivos ideológicos.

Me parece, sinceramente, complexo de inferioridade -- mas isso é discutível e o ponto não é esse. Minha crítica é que, devido à essa necessidade de contemporizar e parecer "anti-americano", o Brasil perde a oportunidade de assumir a liderança da América Latina e de ocupar um papel de player de peso no cenário internacional.

Mas como insistimos em ficar em cima do muro, em passar a mão na cabeça do Chávez e do Morales, em não denunciar as tendências totalitárias desses governos, ficamos relegados à posição de ator coadjuvante para um bufão como o Chávez.

Existem motivos para isso? Claro -- temos uma parceria comercial com a Venezuela que rende bilhões, que certamente seria afetada se o Brasil tomasse uma posição mais dura. É mais fácil esperar a Venezuela implodir (o que não deve demorar).

Enfim -- acho que, no saldo, o Brasil agiu bem. Pessoalmente, acho que o Lula poderia ter ido ao Grupo do Rio e dado um puxão de orelhas público no Uribe e no Chavez (no Correa nem tanto). Mas aí, sacumé, iam dizer que estamos com "tendências imperialistas" -- mas, oras, é esse o preço de step up no cenário internacional.

Peter Alms em março 17, 2008 5:48 PM


#37

Peter, acho que discordamos só em ênfase, não em substância, quanto ao papel do Brasil. Concordo com você que no geral o Brasil agiu bem. E também concordo que uma declaração do tipo "por mais inaceitável que seja a violação de fronteiras territoriais, a mobilização de exércitos num país vizinho não contribuiu à resolução do problema". Esse teria sido um bom puxão de orelhas em Chávez.

Eu discordo da visão de que o Brasil tenha sido relegado à posição de coadjuvante do Chávez. De jeito nenhum. Ele grita, esperneia, faz escândalo, mas o que a maioria dos países da região aguarda é a intervenção do Brasil.

Não sou a favor de nenhuma diplomacia anti-americana por ideologia, mas convenhamos, da forma como os EUA têm se comportado nos últimos anos, fica difícil evitar situações de tensão. E olha que o Amorim as tem evitado, eu acho, com bastante habilidade.

Vamos ver o que saiu da reunião de hoje.

Idelber em março 17, 2008 6:10 PM


#38

Olha o laptop das FARC começando a render...

Ou será que isso também é armação do Uribe, com a conivência da Costa Rica, hehehe...

Julio Augusto em março 17, 2008 6:12 PM


#39

meu caro enio

seu comentário é bem característico de como age essa direita e/ou esquerda tacanha brasileira que quer colocar o cidadão opinante numa espécie de prateleira idólógica com o intuito único e exclusivo em desqualificá-lo para o debate.

sim, tanto leio o reinaldo azevedo e o mainard quanto leio mino carta, paulo henrique amorim e o idelber avelar. todos eles têm acertos e erros em suas colocações.

mas a bússola do meu pensamento é minha. e ela é única e individual. gostaria muito q vc pensasse por vc próprio da mesma maneira q mantenho minha independência individual política e ideológica. ok, garoto?

ps.
sim, idelber, e evo morales ao invadir instalações da Petrobás com o seu exército, numa típica operação de guerra, ele violou ou não as leis internacionais? de acordo com seu raciocínio, ele esbofeteou ou não a nossa soberania?

foca em março 17, 2008 6:21 PM


#40

Meu nome também estará no abaixo-assinado que por ventura venha a ser produzido.

__

O problema da Direita é que ela trabalha com modelos pouco condizentes com a realidade. Estão todos em busca do monstro comedor de crianças. Usam termos chulos, não argumentam coerentemente... E justificam-se em nome de uma Cruzada Santa contra uns esquerdistas que só existem no imaginário que eles próprios criaram.

Pessoas de má-fé apóiam o banditismo das FARC. Mas há um monstro aleijado, só a metade esquerda do corpo se mexe, que precisa ser capturado. E nesse balaio, entramos todos.

Senhores direitistas, resolvam-se com seus monstros e seus monólogos. Quando puderem entrar em um debate de idéias sério e coerente, não façam cerimônias: venham e serão bem recebidos.

Idelber, quanta paciência.

Abraços,

Thiago em março 17, 2008 6:35 PM


#41

O problema de uma análise tridimensional é que quando o fato é bidimensional ela está completamente equivocada.
As Farc sequestram, maltratam e matam pessoas. E traficam drogas. Se são narcoguerrilha ou narcoterroristas, pouco importa. Enquanto um monte de gente se ferra a gente fica aqui com questõezinhas acadêmicas.
É mais simples do que isso. No governo Uribe a Colômbia caiu da violência galopante para um país mais civilizado. E as Farc ganharam apoio dos gorilas esquerdistas que empestearam a América Latrina. O apoio do Chavez não precisa de prova nenhuma, ele mesmo já deu várias declarações nesse sentido. Agora o capanga Correa resolveu abrigar terroristas (tá, tá, pode ser guerrilheiros assassinos) e o Uribe mostrou que não está pra brincadeira.
Sobre a participação do Brasil... coerente, ou seja, sempre desastrosa. O Celso Amorim diz que não pode classificar a Farc de nada. Entendo, o chefão Chavez não deixa.
Sobre a invasão do Pará, eu respondo: se a invasão viesse da Colômbia, a diplomacia brasileira ia dar escândalo. Se viesse da Venezuela, ia baixar a cabeça e meter o rabo entre as pernas. Como alguém lembrou, Morales invadiu a Petrobras ilegalmente e a gente que teve que pedir desculpas.
A "conquista" da atual diplomacia brasileira é que antigamente a gente baixava a cabeça para os mais fortes, e agora a gente baixa a cabeça para os mais fracos.

Octavio Faria em março 17, 2008 6:40 PM


#42

foca, respondendo sua pergunta:

a invasão da Petrobras na Bolívia foi uma bravata de um presidente que queria mobilizar sua base. Foi um ato ao qual o Brasil respondeu com a força exata -- nem mais, nem menos. Não era o caso de passar a mão na cabeça do Morales, e o Brasil não passou. Mas não era o caso de invadir a Bolívia. Não, não acho que o caso da Petrobras em território boliviano seja análogo à violação de fronteiras internacionais. O direito internacional não vê as duas coisas como idênticas.

Sim, eu acho a política externa brasileira sob Lula muito boa. Tanto é que estão aí as boas relações tanto com Venezuela como com os EUA. E depois do episódio da Petrobras o Morales conversa com o Brasil em outros termos.

Ao contrário do que pensam alguns, nada é bidimensional. O mundo é complexo, não há fórmulas prontas, e o Brasil tem se saído bem nesse xadrez. Bem melhor que o Chávez e bem melhor que Uribe.

Sinceramente, achar que Chávez é o "chefão" do Brasil hoje é delirante, me desculpe.

Idelber em março 17, 2008 7:23 PM


#43

Amanhã à tarde volto para liberar os comentários que entrarem entre agora e então.

Obrigado pela paciência -- o blogueiro está sem internet em casa :-)

Idelber em março 17, 2008 7:25 PM


#44

Idelber,
atualmente aplica-se para o 'Estado Democrático de Direito' na Colômbia a mesma definição de Voltaire para o Sacro Império Romano Germânico.
Um abraço

Adriano Ferreira em março 17, 2008 7:36 PM


#45

Thiago,

Seu comentário sobre os mundos míticos criados pela direita foi perfeito! :)

Alba em março 17, 2008 7:54 PM


#46

Realmente está faltando inteligência à direita brasileira. Os contra-argumentos aqui utilizados só estão levantando a bola para as excelentes cortadas do titular do blog.
Chávez chefão do Brasil, ha ha ha! Haja paranóia!

Daniel Brazil em março 17, 2008 8:42 PM