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Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



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quarta-feira, 30 de abril 2008

O currículo de Obama no Senado

Produz certo cansaço ver alguns clichês sobre a eleição americana sendo repetidos sem muita pesquisa. Os mais comuns deles são que “ninguém sabe quais as posições de Obama” ou “Obama não tem currículo” ou “ninguém sabe o que Obama fez no Senado”. Não compartilho do entusiasmo de alguns apoiadores que o apresentam como salvador da pátria e obviamente estou alguns quilômetros à sua esquerda na maioria das questões, mas desafio alguém a me apresentar um currículo de três anos e quatro meses no Senado que se compare ao de Obama em legislação relevante aprovada. O que caracteriza o sujeito são duas coisas bem raras: 1) um incrível talento para trabalhar com políticos de posições diferentes e encontrar soluções de compromisso; 2) uma detalhada atenção a legislação obscura e não necessariamente sexy, mas de importância incontestável.

Aí vai, então, uma listinha dedicada aos amigos e amigas que declararam que “ninguém sabe o que Obama fez no Senado”. Nenhuma dessas leis vai trazer a felicidade eterna ao mundo, mas todas demonstram um estudo detalhado de problemas relevantes. Obama é autor (ou, no primeiro e no décimo casos, co-autor) de:

1) uma lei que regulamenta o financimento e os procedimentos para a eliminação de armas nucleares e convencionais.

2) uma lei que especifica punições para fraudes eleitorais e intimidação de eleitores, problema crônico nos Estados Unidos, especialmente nas regiões pobres e negras.

3) legislação que cria uma comissão para fiscalizar a ética no Congresso, com amplos atributos para investigar e punir subornos, atividades ilegais de lobistas e falcatruas do gênero.

4) uma lei que, pela primeira vez, dirigiu a atenção do Senado para a gripe aviária e balizou a pesquisa e o combate a ela.

5) uma lei que regulamentou os planos de saúde para veteranos de guerra, incluído o tratamento dos distúrbios pós-traumáticos.

6) legislação (pdf) que regulamenta e melhora as condições para testes genéticos, muito elogiada por especialistas.

7) legislação que proíbe a FEMA (agência encarregada das emergências) de contratar empresas sem licitação, prática escandalosamente comum, de New Orleans a Bagdá.

8) importantíssima legislação que cria um banco de dados público, na internet, com os gastos do governo federal.

9) legislação que estabelece novos padrões para a economia de combustível.

10) uma lei – também elogiada por especialistas – que regulamenta os processos judiciais contra médicos e hospitais sem tirar os direitos dos pacientes vítimas de abuso real.

11) legislação que criou o fundo de assistência às vítimas do furacão Katrina.

12) legislação que regulamenta os gastos de governantes com viagens.

13) uma lei (pdf) que limita severamente a atividade de lobistas no Congresso.

14) uma lei (pdf) que proíbe e regulamenta a punição por práticas enganosas nas eleições federais.

15) legislação que aumenta a segurança das indústrias químicas.

16) uma lei que torna ilegal a venda de dados pessoais por companhias que preparam imposto de renda.

17) um adendo intitulado Iraq War De-Escalation Act, que reduz o número de tropas e estabelece prazos para a saída dos americanos do Iraque.

Sim, Obama é o autor de toda essa legislação. Em menos de três anos e meio. Da próxima vez que você ouvir que “ninguém sabe o que Obama fez no Senado”, já tem um link para fornecer.



  Escrito por Idelber às 03:49 | link para este post | Comentários (45)



segunda-feira, 28 de abril 2008

Ah, esses mineiros!

A Executiva Nacional do PT não tem um histórico muito bom quando decide interferir nas decisões das sessões locais do partido. A situação calamitosa do PT fluminense vem de longe, mas foi sacramentada em 1998, depois que a convenção escolheu a candidatura de Vladimir Palmeira ao governo do estado. A mando de José Dirceu e cia., a cavalaria cossaca do PT paulista invadiu o Rio para impugnar a decisão e impor Benedita da Silva como vice numa chapa com .... Garotinho!, na mais burra coalizão já feita na história do partido. A lógica do golpe era garantir uma aliança nacional com um Leonel Brizola que, naquele momento, já tinha menos peso eleitoral que Enéas. Os petistas fluminenses sabiam quem era Garotinho e previram o desastre, mas a Avenida Paulista falou mais alto outra vez. Não digo que Vladimir ganharia a eleição, mas ele tinha chances. O fiasco com Garotinho só trouxe, para o PT fluminense, uma desmoralização da qual ele não se recuperou até hoje (à luz desse episódio, diga-se de passagem, fica claro o imenso cinismo de José Dirceu, comemorando a vitória das “bases” sobre os “caciques” na recente prévia em que Maria do Rosário derrotou Miguel Rossetto em Porto Alegre: os petistas do Rio conhecem o respeito que Dirceu tem pelas bases).

Agora, a história é ao revés. A sessão local quer fazer uma aliança e a Executiva Nacional impugnou. Já não é segredo para ninguém que o prefeito Fernando Pimentel (PT-BH), político com índices de aprovação superiores aos de Lula entre seus representados, anda de namoro com Aécio Neves (PSDB-MG), com vistas a uma aliança na qual o PSB (sim, os socialistas, não os tucanos) indicaria a cabeça-de-chapa para a prefeitura de Belo Horizonte e o próprio Pimentel sairia como candidato ao governo do estado, apoiado por Aécio. Qualquer um que saiba a diferença entre a Savassi e o Cachoeirinha entende que, com os apoios de Aécio e Pimentel, até José Roberto Wright se elege prefeito de Belo Horizonte. Pimentel foi eleito no primeiro turno com 69% dos votos e sua taxa de aprovação anda por volta dos 74%. A aliança PT-PCdoB-PSB governa Belo Horizonte há 16 anos.

A nota da Executiva que veta o acordo afirma que O DN e o Diretório Estadual de Minas Gerais consideram o governo Aécio Neves uma administração comprometida com políticas frontalmente distintas daquelas que compõem nosso ideário e o nosso programa de governo . Dez anos atrás, essa frase teria sido defensável. Hoje, depois das alianças do PT com José Sarney e Jáder Barbalho, ela soa cínica aos olhos de grande parte do eleitorado. Não discuto o mérito dessas alianças. Minha posição é que elas só poderão ser eliminadas depois de uma reforma política. O problema é concreto: o que vai pensar o eleitor petista em Minas, vendo o partido jogar pela janela a possibilidade de governar o segundo maior estado da federação? A pior parte da nota da Executiva é o ponto seguinte, que estabelece que o partido não autorizará, em nenhuma hipótese, o PT a participar de qualquer coligação da qual faça parte o PSDB naquela capital . Note-se que o virtual candidato a prefeito de BH não é do PSDB; é do PSB, partido historicamente aliado ao PT. Sabedora de que a aliança não prevê apoio a nenhum candidato do PSDB, a Executiva vai além e proíbe a participação em qualquer coligação na qual o PSDB esteja presente. Não custa lembrar que o carlismo foi enterrado na Bahia com não desprezível papel de uma série de alianças PT-PSDB. Em Minas, Aécio age de olho em sua candidatura a presidente? É óbvio que sim. Mas também está claro que Aécio, que dá nó em pingo d'água, sabe que essa aliança não lhe garante nada quanto à posição do PT – um partido complexo – em 2010.

Não defendo a coalizão mineira necessariamente, mas acho que o PT nacional não está lidando com o desafio da forma mais inteligente. O PT já poderia, por exemplo, ter deslocado o nome que está sobre a mesa, do Secretário Estadual do Desenvolvimento Econômico, Márcio Lacerda (PSB), sobre quem pairam dúvidas de ordem ética, em favor do outro nome que havia sido oferecido, a excelente ex-reitora da UFMG, Ana Lúcia Gazzolla (PSB), sobre cuja integridade e competência não paira nenhuma dúvida. Agora parece que já é tarde. Mesmo em Minas, há setores resistentes ao acordo, especialmente na esquerda do PT. O argumento é que se for para abrir mão da cabeça-de-chapa em BH, que seja em favor de uma velha aliada, a deputada federal do PC do B Jô Moraes (em quem votei, aliás). Ela é a atual líder das pesquisas em qualquer cenário que não inclua Patrus Ananias. Se o PT terminar indicando o vice de Jô Moraes ao invés de costurar o acordão com Aécio, isso pode repercutir nas eleições de São Paulo, emplacando Aldo Rebelo como vice de Marta Suplicy. Aliás, já está impossível acompanhar as duas corridas isoladamente. Reitero que não sou fã de Aécio Neves, mas o PT vai passar por um desgaste muito grande se dinamitar essa aliança sem tato e aparecer, daqui a dois anos, fazendo campanha para Ciro Gomes.



  Escrito por Idelber às 05:46 | link para este post | Comentários (46)



domingo, 27 de abril 2008

Geninho e seus recordes

Eu apostei porque sou torcedor. Mas acreditem, eu já temia isso. Se vocês vasculharem os arquivos do Galo é amor, verão uma série de comentários meus, desde o início do ano, malhando a diretoria do Atlético-MG pela absurda decisão que abriu a temporada: recusar-se a renovar o contrato de Leão, que tinha feito uma boa campanha no ano passado, e trazer Geninho, um dos maiores picaretas da história do futebol brasileiro. Leão é chato, cri-cri, reclamão, autoritário e vaidoso. Mas você não vê as equipes de Leão – por mais frágeis individualmente que elas possam ser – levando essas goleadas que sofrem os times de Geninho.

Há conquistas no futebol que criam famas imerecidas. O título brasileiro de 2001, conquistado pelo Atlético Paranaense, é um deles. Além daquela conquista, fruto de um surto de genialidade de Alex Mineiro, Kléberson e Kleber nos jogos finais, Geninho nunca ganhou nada. Colecionou desastres por onde passou. Conseguiu perder o Campeonato Goiano dirigindo o Goiás. O que dizer de uma criatura que consegue perder o Campeonato Goiano dirigindo o Goiás? Que eu saiba, Geninho é o único treinador da história a ter escalado uma equipe no 3-5-2 sem nenhum meio-campista armador. Sim, isso aconteceu nas quartas-de-finais do Campeonato Brasileiro de 2002, quando ele dirigiu o Galo contra o Corinthians no Mineirão, e escalou um 3-5-2 com três zagueiros, dois laterais, três volantes e dois atacantes: um mostrengo incapaz de chegar ao gol adversário. O Corinthians nos enfiou 6 x 2 e liquidou a fatura no primeiro jogo. Agora, Geninho inclui mais uma grande originalidade no seu currículo: o único treinador em cem anos de história do Clube Atlético Mineiro a ter levado 5 x 0 do ex-Ipiranga.

O resultado foi vexatório o suficiente para, provavelmente, encerrar a carreira de Geninho no Galo, tendo ele escalado, de surpresa, no clássico, uma equipe que jamais havia jogado junta. Entregamos o Mineiro para o ex-Ipiranga. De positivo, fica o fato de que pela primeira vez em muito tempo tivemos um clássico sem nenhum incidente de violência grave. Coisa bonita. O ex-Ipiranga é o merecido campeão mineiro. Não tem culpa da burrice da diretoria do Galo.

Parece que já errei as previsões em Minas e em São Paulo. No Rio, ainda aposto no Fogão. Caixa de comentários aberta para protestos e gozações. É do jogo.



  Escrito por Idelber às 18:25 | link para este post | Comentários (75)



sábado, 26 de abril 2008

Um vídeo imperdível

O governo de Michelle Bachelet, no Chile, enfrenta oposição cerrada à direita e à esquerda. Seu gabinete é uma coalizão da Democracia Cristã, do PPD (Partido para a Democracia, centro) e do seu próprio Partido Socialista, este último em posição minoritária. As taxas de popularidade da presidente chegaram a um nível baixíssimo com a implementação da Transantiago, o novo sistema de transporte coletivo da capital, recebido com muitos protestos. A violenta repressão ao movimento secundarista, em 2007, não ajudou muito as coisas. No mês passado, o movimento em favor dos direitos reprodutivos sofreu uma derrota no Chile: a Suprema Corte, por 5 votos a 4, proibiu o sistema público de saúde de distribuir a pílula do dia seguinte. Sublinhe-se que a presidente Bachelet lamentou a decisão.

Recentemente, as taxas de aprovação de Bachelet voltaram a subir, mas a oposição de esquerda continua protestando vigorosamente contra a utilização das leis anti-terrorismo de Pinochet contra líderes mapuches. No começo deste ano, a líder mapuche Patricia Troncoso concluiu uma greve de fome de 109 dias, arrancando do governo algumas concessões. Recentemente, lideranças mapuche entregaram ao Conselho de Direitos Humanos da ONU um relato da repressão contínua que vêm sofrendo os protestos. Quase um milhão de pessoas se declaram de origem mapuche; os falantes nativos da língua, no Chile, são aproximadamente 200 mil.

Chega-me agora este belo vídeo do grupo Sub(verso), que trabalha alguns desses temas. Confira o rap:


PS: Leia: O obstinado mal alheio.



  Escrito por Idelber às 11:57 | link para este post | Comentários (8)



sexta-feira, 25 de abril 2008

Apostas para os estaduais

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Este blog tem uma baita tradição de acertar os resultados dos estaduais. Na semana passada, acertei as semifinais no Rio e em São Paulo. Houve protestos dos tricolores, achando que eu tinha algo contra seus times. Mas não era. Tratava-se de observação mesmo, apesar de que tenho visto poucos jogos.

Para as finais, aí vão as previsões: o Triângulo das Bermudas será alvi-negro.

Alguém aposta?

São bem-vindas as sugestões de prendas -- dentro dos limites do razoável -- para os perdedores das apostas.




  Escrito por Idelber às 02:21 | link para este post | Comentários (54)



quinta-feira, 24 de abril 2008

Ocupação colonial, feminismo e vida nua

Do loooongo trabalho que vou apresentar hoje à tarde aqui no Simpósio de Direitos Humanos na Universidade de Minnesota, escolhi três parágrafos polêmicos para traduzir e publicar aqui no blog. Aí vão, dedicados à Mary W, para quando ela tiver tempo de passar por aqui:


Um outro exemplo de como se negociam as fronteiras no discurso dos direitos humanos se encontra num artigo publicado por Piya Chatterjee e Sunaima Maira, intitulado An Open Letter to All Feminists: Support Palestinian, Arab, and Muslim Women. O artigo levanta uma questão interessante, ao assinalar que as feministas norte-americanas têm apoiado fortemente as lutas contra os assassinatos “de honra”, a mutilação genital e os casamentos forçados no mundo árabe, mas não dizem praticamente nada sobre a violência sofrida pelas mulheres árabes como resultado das ocupações ocidentais. Nas palavras de Chatterjee e Maira: “incomoda-nos o fato de que as feministas norte-americanas ... estejam participando num discurso seletivo de direitos humanos que ignora os crimes de guerra e os abusos de direitos humanos dos Estados Unidos.” Segundo as duas autoras, uma série de afirmações de feministas norte-americanas acerca das mulheres árabes ou muçulmanas têm sistematicamente se focalizado nelas somente como vítimas de sua própria cultura, e não como vítimas da violência colonial ou imperial perpetrada pelas ocupações. Note-se que Chatterjee e Maira em nenhum momento sugerem que as feministas parem de denunciar, por exemplo, a mutilação genital ou os casamentos forçados. Não se trata disso.

Não estamos aqui diante do velho debate do universalismo contra o particularismo, da defesa dos direitos humanos versus a defesa das tradições culturais locais. Na realidade, mais atenção, por parte das feministas norte-americanas, ao trabalho realizado por mulheres do Terceiro Mundo sobre essas questões já as teria levado à conclusão de que a própria oposição entre universalismo e tradições locais – ambos os termos, ou seja, a totalidade da dicotomia – só se mantém na medida em que nos situamos no ponto de vista do sujeito imperial do Primeiro Mundo: “é assustador que nestes tempos catastróficos, muitas feministas liberais dos Estados Unidos só enfoquem as práticas misóginas associadas com as culturais particulares locais, como se estas existissem em cápsulas, longe da arena da ocupação imperial”. Ao usar a expressão “discurso seletivo dos direitos humanos universais”, as autoras levantam um aparente paradoxo, na medida em que a universalidade supostamente eliminaria a seletividade. O universal, pensaríamos, não é seletivo.

Na verdade, por trás desse paradoxo se encontra o processo de constituição de todo universal. Qualquer categoria universal se fundamenta sobre uma abjeção, um elemento expelido que demarca suas fronteiras, uma exclusão que chamaremos aqui de lá fora constitutivo. Para o sujeito dos direitos humanos no nosso tempo, uma dessas abjeções constitutivas se emblematiza na categoria de combatentes fora-da-lei (unlawful combatants), termo com o qual a administração Bush exclui os detentos de Guantánamo não só das Convenções de Genebra, aplicadas a prisioneiros de guerra, como também da Convenção sobre a Tortura, aplicada a todos os seres humanos. A categoria de combatente fora-da-lei constrói, portanto, não só um sujeito extra-jurídico, mas também um lá fora da humanidade mesma.



  Escrito por Idelber às 03:16 | link para este post | Comentários (17)



quarta-feira, 23 de abril 2008

Primárias da Pensilvânia

Foi diferença exata para não significar nada e prolongar a agonia. Havia mais ou menos um consenso de que uma vitória de Hillary por somente 3 a 5 pontos seria letal para suas pretensões de virar o jogo para cima de Obama. Também era mais ou menos consensual que uma vitória por 15 ou 20 pontos a colocaria em condições (remotas, é verdade) de começar a fazer contas para a virada. A diferença foi de 10 pontos. Fundamentais na vitória de Clinton foram suas grandes vantagens entre os donos de armas e os religiosos.

Esta vitória de Clinton por 10 pontos nos deixa onde estávamos. Da margem de quase 150 delegados em favor de Obama, Hillary recuperou, provavelmente, 6 ou 7. Acabaram-se os grandes estados onde ela poderia tirar a diferença. A próxima primária importante é no dia 06 de maio, na minha primeira morada nos EUA, a Carolina do Norte, onde Obama é franco favorito.

Posso confessar uma coisa? Já não agüento mais comentar essas primárias. Está ficando agônico. Alguém aí está com a mesma sensação de cansaço?



  Escrito por Idelber às 02:56 | link para este post | Comentários (24)



terça-feira, 22 de abril 2008

Dois links e um esclarecimento

O jornalista Luis Nassif publicou outro capítulo do dossiê Veja, com referência a fatos que foram debatidos à exaustão aqui no blog nos últimos dias. À luz de tudo o que foi dito, gostaria de tecer algumas considerações sobre o meu post anterior.

1. O post fazia uma crítica violenta a Luis Nassif pela sua resposta a um questionamento de Gravataí Merengue. A resposta envolvia a vereadora Soninha, gesto pelo qual Nassif já se desculpou. O post cumpriu a função de chamar a atenção a essa injustiça.

2. O post também insistia na presunção da inocência de uma jornalista que estava sendo acusada sem que se tivessem suficientes elementos sobre a mesa. Neste aspecto, o post também cumpriu, acho, um papel positivo, ao insistir em que ninguém se precipitasse a julgar. Apesar de um ou outro excesso de parte a parte, o debate que se produziu foi extremamente positivo e se ateve aos fatos. O leitor que visitar as duas caixas de comentários dedicadas ao assunto terá amplos elementos para julgar por si próprio.

3. No entanto, ao criticar a precipitação, eu cometi, eu mesmo, no post original, duas ou três precipitações. Me referi ao post do Gravata como “absolutamente irrefutável.” Ora, irrefutável, nesta vida, pouquíssimas coisas são. Esse post do Gravata não é uma delas, apesar de que cumpriu um papel positivo. Mais adiante, eu afirmava que Nassif havia dado “um tiro na credibilidade do dossiê Veja”. Essa metáfora era inapropriada. O correto haveria sido insistir no fundamental naquele momento: a falta de elementos suficientes para se julgar uma acusação. Não me limitei a isso e redigi duas ou três frases que davam a entender que eu já havia resolvido, na minha cabeça, a questão, dando razão a um dos lados. Por essa precipitação eu peço desculpas ao conterrâneo Luis Nassif.

4. Que fique claro o que significam e o que não significam estas desculpas: significam que eu reconheço que me excedi nas críticas a Nassif, ao redigir um post que já praticamente atribuía a razão total a um dos lados. As desculpas não significam que eu tenha me decidido pela culpabilidade de quem quer que seja. O novo capítulo do dossiê Veja está aqui e a contra-argumentação poderá ser acompanhada no blog da Janaína Leite, visita que o Biscoito recomenda para que o leitor possa cotejar todas as versões dos fatos.

5. A decisão editorial da casa, para este post, é manter a caixa de comentários fechada. Acredito que devo uma satisfação aos leitores por ela: não me sinto confortável transformando uma caixa de comentários do meu blog em imenso tribunal armado ao redor de uma fogueira de Torquemada, ante a qual se debate a integridade de uma colega blogueira (seja ela de que posição política for). Os foros apropriados para este debate são o blog do Nassif e o blog da própria Janaína, ambos dotados de moderação de comentários, sagrado direito blogueiro que o Biscoito prefere não exercer.

6. Ficam aqui, pois, o esclarecimento e os links a todos os textos relevantes deste debate.



  Escrito por Idelber às 13:51 | link para este post



segunda-feira, 21 de abril 2008

Pautas possíveis para a imprensa esportiva independente

O excelente Impedimento fez uma reunião de pauta um dia desses. Comecei a redigir um comentário e ficou extenso demais, razão pela que acabei transformando-o em post. Como apreciador de futebol, vejo uma infinidade de temas para cuja investigação a imprensa esportiva tem sido extremamente tímida. Nessa carência podem entrar os bons blogs de futebol, como o Impedimento, o Balípodo, o Futepoca, o De Primeira, o Além do Jogo e outros poucos blogueiros equipados para fazê-lo, como o Marmota e, na grande imprensa, o indispensável Juca.

1.As contas da CBF são uma caixa preta, escondida sob a brecha legal que estabelece que se trata de uma organização privada. Trata-se de uma falácia lógica, mas juridicamente sustentada hoje no Brasil. A CBF administra um bem essencialmente público, um patrimônio que pertence ao país; ela opera como dona de marcas que são de todos, como a da Seleção Brasileira. Recentemente, revelou-se que a Seleção Francesa recebia da Nike um valor 5 vezes maior que o do Brasil. Para onde vai o dinheiro é pergunta de resposta nebulosa, que a imprensa não investiga.

2.Inúmeras suspeitas já foram levantadas sobre o funcionamento do Conselho de Arbitragem e a escalação de juízes. A imprensa não seguiu nenhuma dessas pistas.

3.Incontáveis indícios de relações incestuosas entre os chefes de organizadas e os cartolas – coisa que vai além da já conhecida distribuição de ingressos, subsídios e viagens – permanecem sem investigação na imprensa.

4.Há um par de semanas, a Placar noticiou um inquérito da Polícia Federal sobre os irmãos Perrella, do Cruzeiro, acusados de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e sonegação fiscal. Uma ou outra nota apareceu na televisão, mas na imprensa escrita mineira, pelo que vejo, há um silêncio absoluto. Como é possível que haja repórteres vivendo o dia-a-dia de um clube sem saber de algo que é comentado à boca pequena até no Café Nice da Afonso Pena?

5.Também há uns 15 dias, o Ipatiga teria efetuado uma tentativa de suborno sobre o Villa Nova, de acordo com o testemunho de um jogador, o goleiro Glaysson (que denunciou o caso à diretoria e fez um partidaço, sendo chave na vitória de 3 x 2) e o atacante Ricardinho, que não jogou e curiosamente foi parar no Ipatinga na seqüência, depois de expulso do Villa Nova em condições estranhas. A Gazeta deu notinha, depois mais nada. Tem imprensa atrás desse fato? Se tiver, será uma surpresa para mim.

6.Que fique claro: também adoraria que se investigassem as contas do Galo, especialmente das diretorias pós-Elias Kalil. Naquela época, o Galo tinha um dos patrimônios mais sólidos do país, junto com o São Paulo e os dois do Sul, além de possuir um naco enorme da Seleção Brasileira – jogadores vendidos por valores que, puxa, eu adoraria ver como entraram ao clube em sua totalidade. Depois, sobre grandes vendas como a de Gérson (centroavante, ex-Inter), há muitas perguntas. Tem investigação jornalística atrás disso? No creo.

7.Há gente bem informada com motivos para suspeitar que pelo menos parte da matéria da Veja com o árbitro Edilson Pereira de Carvalho também pode ter atendido interesses – evidentemente, a matéria baseia sua verossimilhança no fato de que o próprio culpado se confessa. Que Edilson se envolveu em corrupção de um jeito ou outro, é fato. Não afirmo com certeza quem foi o corruptor. Algumas das arbitragens dos jogos anulados pareceram – no contexto escabroso da arbitragem brasileira – bastante razoáveis. A anulação foi chave para que Corinthians ultrapassasse o Internacional em 2005 e a nova tabela – com o hipotético “como ela ficaria com a anulação dos jogos apitados por E.P.C.” -- já acompanhava a primeira matéria da Veja sobre o escândalo. Será que está no radar do Nassif? Será que não valeria a pena entrar no radar do jornalismo esportivo independente?

8.O glorioso Clube de Regatas Vasco da Gama merece um microscópio especial, posto que hors-concours em termos de falcatruas no topo. Mas aí, claro, já é tarefa para quem não tem muito amor à vida.

Outros fãs de futebol com certeza seriam capazes de lembrar de ocasiões e histórias nebulosas que deveriam ser investigadas. É pesquisa difícil e, em alguns casos, barra-pesada. Mas, se os blogs em algum momento preenchessem essa demanda da qual 95% da imprensa não parece dar conta, seria um grande salto.



  Escrito por Idelber às 05:18 | link para este post | Comentários (33)



domingo, 20 de abril 2008

Um breve agradecimento e alguns palpites

Se você habita Blogolândia há mais de três anos, provavelmente já ouviu falar daquele que eu apelidei aqui, carinhosamente, de Deus. Convidado a palestrar por esta chiquérrima universidade – que concentra, sem dúvida, o maior número de imberbes de terno e gravata do planeta –, tive a oportunidade de conhecer Deus pessoalmente.

Deus é Fábio Sampaio, o responsável direto pelo fato de que você possa ler e escrever no Biscoito em condições de total conforto, segurança, tranqüilidade e privacidade. Webmaster, ás da tecnologia, um dos maiores conhecedores de Movable Type do mundo, o Fábio há anos cuida dos bastidores do blog e resolve todos os problemas que aparecem com rapidez e competência alucinantes. Por fim, pudemos nos conhecer.

Acabamos indo juntos para a Grande Meca passar o dia. Para os que admiram o trabalho do Fábio, aí vai a notícia: trata-se de um grande cervejeiro! Ales, ambers, lagers, ele traça todas. Com o dia belíssimo e o sol brilhando em Nova York, optamos por uma Summer Ale no Bryant Park, enquanto repassávamos futebol, política, tecnologia e blogs, entre boas risadas. A Summer Ale dos novaiorquinos foi aprovada: ótimas textura, consistência, sabor e aroma. Depois, rodízio brasileiro na Rua 39: alcatra, maminha, lombo, cupim, carneiro, lingüiça, frango, coração e picanha para fazer qualquer vegetariano benzer-se três vezes.

Foi um dia memorável nessa que ainda é a minha cidade favorita, a mãe de todas as urbes. Mais uma vez, lembrei-me do que realmente faz a diferença em Blogolândia: a possibilidade de conhecer gente interessante e divertida. Valeu, Fábio.

PS: Ao falar do Fábio, não posso deixar de agradecer também outro pioneiro que possibilitou a existência deste blog: Nemo Nox, que desenhou o layout original que você vê aqui e me ajudou enquanto eu dava os primeiros passos, em 2004. Minha próxima visita a Nova York será em outubro, e dessa vez arrastaremos também o Nemo, que trabalha em Washington. Sim, este blog já entrou em cena auxiliado por pioneiros da internet brasileira.

PS 2: O juiz era Luiz Carlos da Silva, mas mesmo assim o Galo foi bravo e está nas finais do Campeonato Mineiro.

PS 3: Não poderei assistir os jogos decisivos dos Estaduais aí no Brasil, mas deixo meus palpites: acho que em São Paulo dá Palmeiras e no Rio dá Botafogo. Em São Paulo, o Biscoito torce pela Ponte Preta e celebrou a sua vitória sobre o time-empresa do Guaratinguetá.



  Escrito por Idelber às 04:02 | link para este post | Comentários (21)



sexta-feira, 18 de abril 2008

Direitos humanos

Artigo 5°
Ninguém será submetido a tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes.

A oito meses de seu sexagésimo aniversário, a Declaração Universal dos Direitos Humanos continua a ser diariamente pisoteada ao redor do mundo, hoje talvez mais que nunca. Poucos documentos combinam de tal forma o prestígio e a irrelevância; poucos são tão universalmente reconhecidos e aceitos ao mesmo tempo que universalmente desrespeitados. A Carta completa 50 60 anos justo quando se revela que, na outrora exemplar democracia americana, não só a tortura é legalizada como a cúpula governamental se reúne para decidir quais técnicas serão usadas em quais prisioneiros. É fartamente sabido pelos historiadores que os Estados Unidos têm uma longa história de promoção da tortura ao redor do mundo, mas a situação que vivemos hoje é de gravidade inédita.

Talvez a universidade americana que mais consistentemente tenha trabalhado com o tema seja a Universidade de Minnesota, onde se encontra, inclusive, um programa de estudos, um centro dedicado exclusivamente ao assunto e uma vasta biblioteca digital em cinco línguas. Para marcar o aniversário da Declaração dos Direitos Humanos, a Universidade de Minnesota reúne, nos dias 23 e 24, nove acadêmicos que apresentarão palestras longas, de um hora, sobre o tema. Por engano ou distração, convidaram este atleticano blogueiro – que anda meio em pânico de falar diante de um público de feras especialistas, que inclui até mesmo ex-comissários das Nações Unidas.

Meu trabalho está em preparação (portanto, se eu desaparecer do blog, vocês já sabem o que é). A idéia é falar um pouco do que foi e é excluído do espaço delimitado pelo “humano” na expressão “direitos humanos”. Será, enfim, um trabalho sobre o lá fora dos direitos humanos, assim como suas fronteiras, ao longo da história. A lista é longa e abarca desde as mulheres que, em várias sociedades, enfrentam incontáveis obstáculos a exercitar o controle sobre seus próprios corpos até os sujeitos recolhidos em Guantánamo, figuras não-jurídicas, fora de toda lei, desprovidos da mais básica humanidade; desde os palestinos, subtraídos do artigo décimo quinto da declaração (e por extensão de todos os outros) até gays e lésbicas, formalmente reconhecidos como iguais pela lei, mas freqüentemente impedidos de exercitar o direito de andar de mãos dadas sem serem espancados.

O pensador italiano Giorgio Agamben cunhou a expressão vida nua para designar esse mais além (ou mais aquém) do humano – esse sujeito que se constitui num espaço limítrofe, desprovido de direitos, reduzido a uma existência nua. A obra de Agamben tem sido iluminadora para pensar o problema das fronteiras e do lá fora dos direitos humanos.

O objetivo deste post é abrir o espaço para que meus generosos leitores contribuam com o que quiserem. O que quiserem, mesmo. Se você é advogado e se interessa pelo tema, deixe aí o depoimento. Se tem atuação política e já refletiu sobre a situação dos direitos humanos, no Brasil ou em qualquer lugar, escutarei seu pitaco com atenção. Se já parou para pensar sobre os direitos específicos às mulheres, aos gays e lésbicas, aos imigrantes, aos negros, aos indígenas, às crianças, aos presos ou a qualquer outro grupo social, deixe aí seu comentário. Se trabalha com artes ou literatura e já parou para pensar na representação deste mais cabeludo dos temas, escreva aí. Bons links são muito bem-vindos.

Open thread dos direitos humanos, para ajudar o blogueiro a não passar vergonha no meio dos gente grande lá em Minnesota semana que vem.



  Escrito por Idelber às 01:30 | link para este post | Comentários (40)



quinta-feira, 17 de abril 2008

Elogio a um gesto nobre

O jornalista Luis Nassif publicou um post retratando-se com a vereadora Soninha, pelo fato de tê-la atacado depois das críticas feitas pelo Gravataí Merengue, seu ex-chefe de gabinete, a um capítulo do dossiê Veja. Este blog, que criticou Nassif durissimamente por essa confusão, não poderia deixar de linkar o post e louvar sua atitude. É próprio dos grandes reconhecer quando erram. O post de Nassif não só usa as palavras minhas desculpas como oferece o link para o texto em que Soninha lhe responde. As desculpas foram aceitas por Soninha e este aspecto do episódio está encerrado.

Sobre o conteúdo da discussão, o que posso dizer é que estou em contato com Nassif por email, li com muita atenção os 124 comentários postados até agora e reservo julgamento por enquanto. Em breve, será publicado um novo capítulo do dossiê Veja. Para finalizar, fica o agradecimento ao inacreditável time de comentaristas que exerce um controle de qualidade permanente sobre este blog. Obrigado.



  Escrito por Idelber às 08:47 | link para este post | Comentários (145)



quarta-feira, 16 de abril 2008

O último escândalo da política americana

Na semana que vem, depois que chegarem os resultados das primárias da Pensilvânia, no dia 22, vocês me cobrem uma reflexão sobre o poder eleitoralmente demolidor que pode ter, na política americana, o simples ato de dizer a verdade sobre a classe trabalhadora. O problema da verdade dita por Obama na semana passada – e que simplesmente não pára de ser tema de debates, programas, comerciais e ataques, tanto de Hillary como de McCain – é que se tratava de uma verdade que escondia uma verdade maior.

Ao ser perguntado, num evento de campanha, sobre como ele conseguiria os votos da classe trabalhadora da Pensilvânia, Obama fez alusão às frustrações causadas pelas muitas promessas não cumpridas pelos políticos. Para arrematar, ele disse: não surpreende que eles [eleitores de classe trabalhadora] se sintam ressentidos [bitter, "amargos"]; eles se agarram às armas ou à religião ou à antipatia contra as pessoas que não se parecem com elas ou aos sentimentos anti-imigrante ou anti-comércio como forma de explicar suas frustrações.

Soltaram os cães de dentro do inferno. Seguiram-se quatro dias de ataques pesadíssimos a Obama, “o elitista”. Hillary não resistiu e soltou mais um comercial negativo sobre o tema. McCain atacou com o bordão de que Obama está “fora de sintonia” [out of touch] com a América. Mesas-redondas, debates, programas televisivos, manchetes de jornal, tudo girou em torno disso nos últimos dias. A campanha de Hillary na Pensilvânia passou a distribuir adesivos que diziam we are not bitter. Enquanto tece loas ao papa, a campanha de Hillary também coleciona manifestações de ultraje contra o horror das declarações de Obama.

Para quem só lê o escrito, fica difícil entender o que está implícito ali. Qualquer pessoa familiarizada com a política americana, no entanto, extrai o subtexto. A pergunta não o dizia, mas se referia obviamente à questão racial. Traduzida em linguagem direta, a indagação era: como você vai ganhar esses eleitores de classe trabalhadora branca que se recusam a votar em um negro? Claro que Obama poderia simplesmente ter respondido vou fazer o possível para conquistá-los, ou qualquer generalidade do tipo. Mais uma vez, pode ser que tenha que pagar o preço por tocar temas tabus. Mas pode ser que isso acabe funcionando a seu favor.

Pessoas que não se parecem com elas significa, em linguagem codificada, negros. Obama disse o óbvio: brancos de classe trabalhadora com freqüência usam negros ou imigrantes como bodes expiatórios para suas frustrações com a perda de empregos. Não o disse assim, claro. Usou a frase citada acima. Tentou um circunlóquio que talvez tenha sido uma emenda pior que o soneto. Talvez.

Na Pensilvânia, o apoiador mor da campanha de Hillary Clinton, o governador Ed Rendall, disse claramente, quando perguntado sobre a elegibilidade dos candidatos: acho que alguns brancos não estão dispostos a votar num candidato afro-americano. A frase não era uma simples constatação. Era um ato de campanha. Era um argumento acerca da elegibilidade. É como se o porta-voz mor da campanha de Clinton na Pensilvânia estivesse dizendo: votem em Hillary, pois ela tem melhores chances de vencer, por ser branca. A isto está reduzido o debate das primárias democratas. Enquanto isso, McCain vai surfando na sua condição de darling da mídia.

Resta saber se todo esse imbróglio afetará a performance de Obama na Pensilvânia, o estado natal de Clinton, no qual uma derrota por menos de 10 pontos já será, para ele, um ótimo negócio. A julgar pelas últimas pesquisas, a barragem de ataques ainda não surtiu efeito; a vantagem de Clinton, que chegou a ser de mais de 20 pontos, está bem reduzida. Talvez seja porque, pela primeira vez em muito tempo, ao ser demonizado por um comentário controverso, um candidato democrata escolhe reafirmar o dito, ao invés de jogar o perene joguinho do recuo. Veja a resposta de Obama aos ataques:

A Pensilvânia vota no dia 22 de abril, terça-feira, e uma boa performance de Obama por lá pode terminar com estas agoniantes primárias, que ninguém aguenta mais, a não ser os Republicanos, claro, felicíssimos de ver o seu futuro adversário detonado diariamente por uma liderança democrata.

PS: Homem falsamente condenado no Texas serve 23 anos de prisão antes de ser inocentado por prova de DNA. É o vigésimo-quinto caso do tipo, só no estado de Bush.

PS 2: Sobre o escândalo provocado pelos comentários de Obama, veja mais esse texto-porrada do Rude Pundit.



  Escrito por Idelber às 06:37 | link para este post | Comentários (19)



terça-feira, 15 de abril 2008

Nassif dá tiro no pé: o assassinato de reputação contra Janaína Leite e o gol de placa de Gravataí Merengue

Antes das minhas posições políticas e do meu desgosto com certos veículos de comunicação, está minha coerência e meu compromisso com a verdade. Mesmo exausto depois de uma palestra e várias reuniões aqui no Novo México, com dor de cabeça e o corpo seco por causa da altitude, não posso deixar de escrever agora sobre o que aconteceu nas últimas 24 horas.

O jornalista Luis Nassif pisou na bola, feio. Acaba de dar um tiro na credibilidade do seu dossiê Veja. Vamos aos fatos. Como sabe o leitor desta bodega, eu emprestei minha solidariedade à série de reportagens feita por Nassif sobre a Veja. Nela, se elencavam uma série de fatos de difícil refutação, que mostram como a publicação da Abril enveredou por algo que já não pode ser chamado de jornalismo. Se você prestar atenção, verá que, ao listar os argumentos, eu me abstive de qualquer referência ao caso Daniel Dantas / Telecom, por dois singelos motivos: 1) sobre este imbróglio eu não sei nada e, para dizer a verdade, nem quero saber; 2) nota-se visivelmente que Nassif tem um envolvimento de intensidade bem maior com este assunto que com os demais. Tudo bem. Nada disso tira a credibilidade dos outros fatos levantados pelo dossiê. Aos leitores que me interpelavam dizendo que Nassif tem interesses, eu respondia – e continuo respondendo – que o que importa é a veracidade dos fatos que ele levanta.

Mas no caso Daniel Dantas, eu estranhei, já na primeira leitura, uma série de ilações – sim, ilações – feitas contra a jornalista Janaína Leite, que cobriu o assunto para a Folha de São Paulo. Visitei o seu blog e tive as impressões de 1) uma jornalista íntegra, séria; 2) um texto extremamente qualificado; 3) uma pessoa de posições políticas radicalmente diferentes das minhas. O assunto ficou, para mim, na lista dos que mereciam ser revisitados. Eis que chega Gravataí Merengue e faz o que todo bom pesquisador, jornalista ou não, deve fazer: ouvir todos os lados, checar fontes, reunir documentação, cotejar versões. E faz um post absolutamente irrefutável demonstrando o total vazio das ilações de Nassif contra Janaína. Sem qualquer prova ou indício, Nassif inventa um “caso Janaína Leite”. Insinua que a jornalista faz parte de um grupo de Dantas e tenta incriminá-la com o fato absolutamente banal de que uma fonte tenha declarado, sob pressão judicial, ser efetivamente fonte da jornalista, tudo isso sem contestar qualquer dado factual da reportagem de Janaína na Folha. Está tudo pacientemente demonstrado lá no Gravata, não vou repetir. Não é preciso saber muito sobre esse angu de caroço das telecom para observar um típico assassinato de reputação, para usar a própria expressão de Nassif. O texto de Gravata atém-se rigorosamente ao tema em questão. Coteja os argumentos de Nassif com a base inexistente sobre a qual ele se “sustenta”. Defende a jornalista difamada. Oferece ao acusador, em outras palavras, uma ótima oportunidade para que ele se explique.

O que faz Nassif? Escreve um ridículo post intitulado Soninha vai à guerra, no qual não refuta um só argumento de Gravata sobre o caso; não dá o link; não o cita pelo nome, preferindo a alcunha “assessor de Soninha”; acusa-o de usar “apelidos desqualificadores”, o que Gravata não faz em momento nenhum; insinua que o Imprensa Marrom havia sido “cooptado” sabe-se lá por quem; lança um ataque contra Soninha, que não tem absolutamente nada a ver com o caso. Em outras palavras, foge do assunto e delira mais que um fã de Grateful Dead mergulhado em cogumelos californianos. Baseado em conspirações realmente existentes, Nassif parece ter concluído que tudo no mundo é conspiração.

Caro Nassif, talvez você não saiba, mas o Imprensa Marrom é uma instituição da blogosfera brasileira. É um blog mais antigo que o seu. Antecede o trabalho de Gravata com Soninha. Foi o primeiro blog brasileiro condenado judicialmente por um comentário, por um crime de opinião. A resposta que você ofereceu à paciente e detalhada desmontagem crítica de Gravata das suas ilações contra Janaína Leite é das coisas mais repugnantes e vergonhosas já escritas na blogosfera brasileira. Aprenda de uma vez por todas que nós, blogueiros, quando criticamos, damos o link, coisa que Gravata faz e você não faz. Que fique claro de onde está vindo esta nota de solidariedade: se eu fosse paulistano, votaria em Marta Suplicy, não em Soninha.

Convoco especialmente aos meus amigos blogueiros de esquerda a que emprestem seu apoio irrestrito à Janaína Leite e ao Imprensa Marrom neste episódio – pelo menos até que Nassif apresente alguma prova contra ela, o que, pelo jeito, ele não está em condições de fazer. Se quiser, escreva, na seqüência, um post detonando as opiniões de Janaína sobre o governo Lula ou o MST. Mas nestas questões de integridade e honestidade profissionais, não é possível transigir. O Biscoito Fino e a Massa não transige. É a credibilidade e a coerência que estão em jogo.

PS: Retrate-se, Nassif. É melhor que fazer outro post dizendo que Tulane University “foi cooptada”. Tente redirecionar esse dossiê para o caminho do jornalismo. Há muita coisa valiosa lá.

PS 2: Comentários abertos, como de costume. Você pode atacar ou defender o que qualquer um escreveu. Não pode atacar a integridade de ninguém. Confio no seu discernimento.



  Escrito por Idelber às 05:25 | link para este post | Comentários (146)



segunda-feira, 14 de abril 2008

Adeus a uma revista fundamental

punto-de-vista2.jpg Deu adeus na semana passada uma das revistas culturais e políticas mais importantes da América Latina. No Brasil, para variar, nem notícia. Depois de 30 anos, 90 números e um papel central em todos os principais debates intelectuais da Argentina, Punto de Vista pendurou as chuteiras. Para mim, pessoalmente, o adeus tem um gostinho de tristeza e melancolia. Se eu tivesse que fazer uma relação das revistas mais formativas da minha vida, Punto de Vista estaria em primeiro lugar. Se eu fosse listar as 10 pessoas que mais admiro no planeta, a diretora da publicação, Beatriz Sarlo, certamente estaria entre elas.

Punto de Vista foi fundada por Beatriz junto com Ricardo Piglia, Carlos Altamirano e Elías Semán em 1978, no auge do horror da ditadura argentina. Depois se somariam intelectuais do porte de Hilda Sábato, Maria Teresa Gramuglio e Hugo Vezzetti. Em condições de total pesadelo político – no qual uma intelectual com passagem pelo maoísmo, como Beatriz, certamente corria perigo permanente –, Punto de Vista foi se constituindo em um dos poucos espaços onde era possível fazer crítica literária, cultural e política com alguma independência. A revista foi responsável pela introdução de nomes como Raymond Williams e Pierre Bourdieu na Argentina. Nela se publicaram as primeiras leituras sérias da rica literatura contemporânea do país. Ali se chamou a atenção pela primeira vez, por exemplo, para a obra de Juan José Saer, que vinha sendo escrita desde os anos 60 e lida somente por um pequeno grupo de iniciados. Com a chegada da democracia, a revista teve que aprender a fazer tudo de novo, nas palavras de Beatriz. Reciclou-se brilhantemente. Ali se publicaram algumas das melhores reflexões sobre as Mães da Praça de Maio, os julgamentos dos militares, o novo cinema do país, os monumentos aos desaparecidos.

Desde a ditadura, Beatriz tem as portas abertas das melhores universidades americanas e inglesas, à sua disposição. Optou por ficar na Argentina. Jamais alardeou essa escolha. Nunca se encerrou na torre de marfim da academia. Em cada um dos momentos chave da história do seu país, posicionou-se clara, inequivocamente. Fez auto-críticas, revisou posições. Não tem absolutamente nenhum medo de errar. Sofre ataques horrendos, mas debate sempre com lealdade, atirando nas idéias, nunca nas pessoas. É impossível concordar com ela todo o tempo. Sobre a conjuntura argentina atual, por exemplo, minha visão está mais próxima à de Martín Kohan que à sua. Mas não consigo pensar num intelectual contemporâneo pelo qual eu tenha mais respeito.

Na despedida, Beatriz declarou: Cuando se dirige una revista el alerta es constante frente al acostumbramiento (que es mortal) o la incapacidad para conocer su actualidad (una revista vive en tiempo presente). Sólo cuando es un instrumento imprescindible para quienes la hacen, sale bien .... Algo ha comenzado a fallar y es mejor reconocerlo ahora, cuando no se ven consecuencias, que en un capítulo decadente. Una revista que ha estado viva treinta años no merece sobrevivirse como condescendiente homenaje a su propia inercia. Por eso el número 90 es el último.

Em 2003, publicou-se um CD-ROM com os primeiros 75 números da revista. Apesar de que Punto de Vista jamais quis ser uma publicação massiva, o CD-ROM esgotou três edições. Há uma quarta edição ainda à venda. No mesmo ano de 2003, eu tive a honra de publicar um artigo lá. Se você nunca leu a revista, dê uma conferida no índice de alguns números e no resumo de alguns artigos. Acredite, leitor: se você quiser dar um presente à sua inteligência – seja qual for a sua área de interesse –, invista 30 dólares nessa coleção. É coisa para a vida inteira.

No meu panteão pessoal, o adeus de Punto de Vista só se compara ao fim do Velvet Underground e à morte de Telê Santana. Nada mais chega perto.

PS: Homenagens também lá no Linkillo e no Tomás Hotel.

PS 2: É possível que Jimmy Carter e Al Gore dêem o empurraõzinho que falta para terminar a primária democrata.



  Escrito por Idelber às 06:03 | link para este post | Comentários (13)



sábado, 12 de abril 2008

Perguntinha para passar o tempo

Na saída para o aeroporto, procurando pela nonagésima vez os meus óculos escuros perdidos em algum canto da casa, veio-me de novo a convicção de que eu não posso comprar óculos de qualidade. Eu os perderia em menos de duas semanas e morreria de raiva. Ou seja, se você tem vergonha de amigos que usam óculos escuros de 8 dólares, nunca me convide para um programa diurno. Lembrei-me de um parente, que uma vez me disse: não tenho o menor respeito por quem gasta dinheiro comprando o papel higiênico mais caro do supermercado. Acho isso uma viadagem inominável.

Aí me veio a idéia de um meme idiota para que vocês passem o tempo aqui enquanto eu viajo e me recupero da gripe: qual é o produto com o qual você não aceita gastar mais que o estritamente necessário? No meu caso, as respostas são, pelo mesmo motivo, "óculos escuros" e "guarda-chuva". Papel higiênico de qualidade, para mim, é fundamental. Como sabemos, e parafraseando um saudoso ministro, papel higiênico é "imperdível", posto que "imexível".

Diga lá qual é o produto do qual você sempre leva a opção mais barata.



  Escrito por Idelber às 15:13 | link para este post | Comentários (58)



sexta-feira, 11 de abril 2008

Links vários

Enquanto o blogueiro se recupera de uma daquelas mastodônticas gripes, aí vão alguns links para seu prazer navegador:

1.Qualquer dia desses a Gabriela Zago me convence a aderir ao Twitter. Veja a interessante experiência de leitura que ela descreve.

2.Como sabem, as questões relativas ao direito interessam muito a este não-especialista: e é mais uma conterrânea que chega com um excelente blog nessa área: Direito é legal (cheguei lá via Favoritos).

3.Em definitivo: o Biscoito Fino e a Massa não consegue acompanhar o Febeapá do judiciário.

4.Um inacreditável blog cubano: Generación Y. As caixas, incríveis, alternam entre 2, 3 e 4 mil comentários. O “debate” é meio lixão, mas o texto da moça é bom.

5.A blogosfera futebolística vai melhorando a cada dia: confira o De Primeira.

6.É uma obsessão deste blog: a subserviência da imprensa esportiva. Já vai uma semana que se noticiou que Polícia Federal está investigando os irmãos Perrella, que dirigem o Cruzeiro, por evasão de divisas, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro. No “jornal dos mineiros”, nenhuma menção.

7.Alô, alô, cearenses, mais especialmente os torcedores do Fortaleza! O Ministério Público está investigando a tentativa de suborno do Ipatinga a jogadores do Villa Nova, na última partida da fase de classificação do Campeonato Mineiro. O que o Fortaleza tem a ver com isso? Se o Ipatinga perder o lugar na Série A, o Tricolor do Pici, quinto colocado na Série B do ano passado, assume a vaga. Mais uma vez: acontece uma operação criminosa no futebol mineiro e uma busca por “Ipatinga” no Estado de Minas não produz nenhum resultado associado ao escândalo. A imprensa mineira é realmente inacreditável.

8.Por falar em imprensa esportiva: Fabiano Angélico sugere duas boas pautas investigativas para o jornalista esportivo que não quiser ser capacho da cartolagem.

9.Tem post novo, porrada pura, no Palestina do Espetáculo Triunfante.

10.Em redondilhas maiores, o Almirante explica por que Hitler não chegou ao inferno, no Cordel teutônico.

11. Se você é atleticano, tem filho e mora em Belo Horizonte, prestigie o lançamento do livro infantil sobre a história do Galo: Vencer, vencer, vencer - A história do time do meu coração, do jornalista Eduardo de Ávila. Acontece no sábado, às 11 horas, na Feira Tom Jobim (ali perto do Colégio Arnaldo, Brasil com Bernardo Monteiro). O macete na Tom Jobim é chegar de manhã. De tarde a coisa se transforma um fim de festa meio melancólico. Aí vai o cartaz:

capalivreinfantil.jpg

12.Se você está no sudoeste dos EUA, apareça em Albuquerque, Novo México, na segunda-feira, para escutar uma palestra e bater um papo. Aí vai o cartaz feito por essa bela instituição que me convida. Achei que ficou simpático:

NEUROSIS-web.jpg


PS: Ao deixar seu comentário, você verá uma página em branco. Não se avexe. O comentário entrou. Estamos trabalhando para resolver o problema. Deus já resolveu o problema com a caixa de comentários. Tudo normal :-)




  Escrito por Idelber às 02:14 | link para este post | Comentários (22)



quarta-feira, 09 de abril 2008

Nova pesquisa Gallup

Saiu a última pesquisa Gallup, nacional. É a primeira vez desde os dias 27-29 de março que a liderança de Obama sobre Clinton chega a 10 pontos. Não custa lembrar, claro, que isso não tem impacto direto no processo de escolha do candidato democrata. O que conta, agora, é a primária da Pensilvânia, no dia 22 de abril, e a da Carolina do Norte, no dia 05 de maio. Em todo caso, as pesquisas nacionais são sempre um bom termômetro do estado da campanha. Eis aí a curva:

pesquisa-gallup-.gif

Mais do que a raça, o gênero, a classe social ou a região do país, a escolaridade é o critério sob o qual a os candidatos se diferenciam de forma praticamente linear. Considerando-se só os eleitores democratas ou independentes com tendência democrata, os números são os seguintes: entre os que têm escolaridade secundária ou primária, Clinton vence Obama por 53 x 40. Entre os de instrução universitária incompleta, Obama 53 x 40 Clinton. Entre os que possuem diploma universitário, Obama 59 x 35 Clinton. Entre os que possuem pós-graduação, Obama vence de goleada: 64 x 30.



  Escrito por Idelber às 17:04 | link para este post | Comentários (11)




Viva o povo brasileiro: Uma releitura decepcionante

Eu sabia que Viva o Povo Brasileiro (1984), de João Ubaldo Ribeiro, seria uma boa escolha para o curso que estou ditando aqui este semestre, sobre ficção e populismo. Apesar de minha leitura ser antiga, eu me lembrava que era um romance perfeito para se analisar a operação do populismo na ficção – a construção da imagem de um “povo” essencialmente sem fraturas, exceto por aquelas que o opõem a uma elite também imaginada de forma binária. Mas eu confesso que não me lembrava que o romance era tão ruim.

Aconteceu algo que raramente ocorre nos seminários por aqui. Todos os 10 pós-graduandos chegaram à primeira aula sobre o romance babando sangue e não gastaram mais que um par de horas para depenar o livro. Apesar de, em geral, tentar evitar juízos de valor taxativos em sala de aula, fui obrigado a concordar com eles. A fúria com que desconstruíam o livro era contagiante.

O projeto de João Ubaldo é ambicioso: atravessar quatro séculos de trajetória do Brasil contando o “avesso” da história oficial. O romance revela como os heróis se constroem pelo engodo (Perilo Ambrósio, um dos personagens da elite, tira onda de herói de uma batalha assassinando um escravo e sujando-se com seu sangue), como a mestiçagem foi, com freqüência, o produto da violência sexual contra as negras (Vevé, escrava, é estuprada por Perilo e paga um preço alto por uma gravidez que não provocou), como a igreja foi cúmplice desse sistema de dominação (o Cônego é um poço de racionalizações da estrutura colonial e escravista), como os oprimidos (representados por Budião e Maria da Fé) vão forjando os seus instrumentos de luta e como os mestiços em busca de ascensão social (representados por Amleto) vão ocultando suas origens e adotando as práticas da elite.

Este blogueiro eminentemente esquerdista não teria nenhum problema com o argumento, exceto por um detalhe: é tudo artificial demais. Todos os ricos malvados, todos os pobres altivos e batalhadores. Para não dizer que só há isso, o romance inclui o mulato malandro, Leléu, que faz o meio-de-campo entre as duas forças. Depois de 500 páginas de didatismo populista, o romance ainda nos brinda com um cego (só podia ser!) perorando durante uma dezena de páginas sobre como a história oficial oculta as coisas. É de lascar. Sublinhe-se: não há qualquer ironia no título do livro.

Gosto de João Ubaldo; do seu jeitão, da sua simpatia. É amigo de um querido amigo meu e, além de tudo, baiano. Considero Sargento Getúlio um romance importante da nossa literatura e, apesar de achar A Casa dos Budas Ditosos um dos piores livros já escritos no Brasil, cheguei, depois de mais de vinte anos, a essa releitura de Viva o Povo com muita boa vontade. O projeto do curso é fazer uma análise crítica do populismo na ficção, mas os outros livros lidos até agora (Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, Catatau, de Paulo Leminski) renderam bastante. Nem toda a boa vontade do mundo deu jeito em Viva o Povo.

PS 1:
Agradeço ao leitor Enio Vieira a cessão de sua tese sobre Viva o Povo, defendida na UNB. Sem dúvida, a tese do Enio é muito melhor que o livro.

PS 2:
Boas vindas ao Pedro Dória, que estará aqui em Gringolândia em breve, com uma bolsa na chiquérrima Stanford University.

PS 3: E essa história do boicote aos Jogos Olímpicos, hein, como anda?



  Escrito por Idelber às 02:47 | link para este post | Comentários (30)



terça-feira, 08 de abril 2008

Blogueiros estressados

O New York Times avisa que já tem gente por aí morrendo de tanto blogar. A reportagem relata as histórias de Russell Shaw, que blogava sobre tecnologia, morto aos 60 anos de idade de ataque cardíaco; de Marc Orchant, morto aos 50, da artéria coronária; e de Ohn Malik, que sobreviveu a um ataque cardíaco em dezembro, aos 41 anos de idade. Os outros sintomas de blogagem excessiva listados pelo NYT incluem alteração do peso, dificuldades para dormir e fadiga.

Parece que especialmente no campo da tecnologia, as circunstâncias descritas pelo NYT apontam para uma população estressada e apressada para conseguir notícias, que podem significar alguns cliques e rendimentos a mais na conta do blogueiro.

Mesmo para quem não bloga profissionalmente, às vezes o estresse toma conta. Não é o meu caso, mas confesso que em algumas noites de cansaço extremo já fui incomodado pela auto-cobrança: puxa, milhares de pessoas vão passar lá amanhã; tenho que escrever algo. Quando eu dou um tempo do blog, vocês podem saber que é, em geral, pelo incômodo produzido pela auto-cobrança.

Este Weblog passou por dois ou três longos interregnos em sua existência. Todos eles ocorreram pelo mesmo motivo: pareceram-me necessários para manter o bom humor, o relaxamento e o senso de perspectiva de que o que fazemos tem, sim, a sua importância, mas é, afinal de contas, só um blog.

Open thread do estresse nos blogs. Opine aí.



  Escrito por Idelber às 03:52 | link para este post | Comentários (38)



segunda-feira, 07 de abril 2008

O estado atual das primárias democratas

Há várias teorias para explicar por que Hillary Clinton continua numa campanha que, tirando uma virada de mesa, já não tem chances de vitória. Uma delas, a mais maligna, é de que sua estratégia seria enfraquecer Obama com ataques durante as primárias para que McCain vença a eleição de 2008 e ela possa ser a candidata democrata em 2012. Não acredito que seja esse o caso, mas anda difícil fugir da sensação de que, mais que enfraquecer Obama ou dividir o Partido Democrata, a campanha de Hillary anda conseguindo é comprometer o legado da própria senadora.

É lamentável, porque tirando o voto a favor da guerra do Iraque, o voto pela renovação do Patriot Act, o voto a favor da comercialização das bombas de dispersão, o voto a favor da designação da guarda nacional iraniana como “terrorista”, o voto a favor do financiamento à TV Martí, o voto contra a normalização de viagens de cubano-americanos à ilha, o voto a favor das petroleiras no Golfo do México, o voto contra a redução do financiamento a Guantánamo, o voto contra a redução do efetivos no Plan Colombia, o voto contra a redução dos cortes de impostos para os ricos, o voto a favor da famigerada cerca anti-imigração, a ausência na votação da lei de falências, a ausência na votação da lei que tentou barrar contribuições a organizações que realizam abortos e a ausência na votação da imunidade legal das telefônicas que colaboraram com Bush na espionagem contra cidadãos americanos, até que o histórico de votação de Hillary Clinton no Senado não é ruim.

Mas sua campanha vem acumulando notícias desastrosas. Primeiro, foi a incrível mentira de que ela teria desembarcado na Bósnia sob fogo cruzado de franco-atiradores, logo contradita pelas imagens de uma chegada absolutamente normal (veja o incrível vídeo). Depois, vieram as notícias de que sua campanha anda em apuros financeiros, conseqüência de uma estratégia que enfatiza o poder de grandes doadores. Para completar a semana, revelou-se que Mark Penn, seu chefe de campanha, trabalhava como lobista junto aos colombianos em favor de um acordo comercial ao qual Hillary publicamente se opõe.

Dito tudo isso, acredito que os apoiadores de Obama deveriam deixar de lado os constantes pedidos para que Hillary abandone as primárias. É melhor se concentrar em terminar a partida logo. São 35 minutos do segundo tempo, o jogo está 3 x 1, e o time pode se concentrar em fazer o quarto e liquidar a parada, ou se fechar na defesa e esperar o tempo passar; mas ficar pedindo para o outro time jogar a toalha não funciona. A disputa pode terminar caso Obama vença na Pensilvânia no dia 22 de abril. A Pensilvânia, estado natal de Hillary, onde ela tinha até pouco tempo atrás uma vantagem de 17 pontos, nunca foi um lugar em que se cogitasse vitória de Obama. Mas já há pesquisas dando pequena vantagem a ele, entre outras que ainda apontam ligeira liderança dela. Até lá, com certeza, a novela continua.

PS: São Caetano, Brasiliense, Santo André e outros já haviam aprendido a lição da humildade. Foi a vez do Ipatinga, rebaixado à Segunda Divisão do Campeonato Mineiro. O Sr. Itair Machado, presidente do Ipatinga e conselheiro do ex-Ipiranga, abusou do direito de falar bobagens durante as más fases do Galo. Cansou-se de tripudiar. Cansou-se de bater no peito para dizer que presidia a "segunda força de Minas". Pois é. A "segunda força" foi parar na Segunda Divisão. Só esperamos que a polícia investigue as fracassadas tentativas de suborno do Ipatinga a jogadores do Villa Nova.

PS 2:
O Grêmio está fora das semifinais do Gauchão. Algum dia eu entenderei por que uma grande equipe contrata Celso Roth, um notório incompetente, para ser seu treinador.



  Escrito por Idelber às 06:26 | link para este post | Comentários (14)



sábado, 05 de abril 2008

Galo aos sábados: Pelé, torcedor e freguês do Galo

Circulou durante algum tempo no futebol brasileiro o mito de que Pelé teria sido torcedor do Vasco na infância. Numa entrevista à edição 1.119 da Revista Placar, de 1999, o próprio Divino Negão desmentiu:

Qual o seu time de infância? O Vasco?

Não. Essa história começou quando eu disputei um torneio por um combinado Santos-Vasco. Antes, o Antônio Soares Calçada (presidente do Vasco) até recusou o empréstimo do meu passe. Ele achava que eu era muito novo. Depois quis voltar atrás, mas aí era o Santos que não queria mais o negócio. Na verdade, eu torcia pelo Atlético Mineiro, porque meu pai, seu Dondinho, jogava lá.

João Ramos do Nascimento, o Dondinho, foi um craque sensacional, de quem se dizia que “desequilibrava qualquer jogo”. Como jogador, seu grande azar foi ter um filho sobre-humano. Mesmo assim, é de seu Dondinho um recorde que o Divino Negão jamais igualou: cinco gols de cabeça numa mesma partida. Disputando pelo Clube Atletíco Mineiro um amistoso contra o São Cristóvão em 1942, Dondinho se choca com o zagueiro Augusto – o mesmo que seria o capitão da Seleção Brasileira na Copa de 1950 – e leva a pior. Uma lesão no menisco encerra sua carreira no Galo. Ele voltaria a brilhar como artilheiro do Bauru Atlético Clube, campeão do interior de São Paulo em 1946. Eis aqui seu Dondinho com a camisa do Glorioso:

dondinho.jpg

A primeira partida de Pelé contra o Galo foi no dia 30 de janeiro de 1958. Ele já se preparava para receber, na Suécia, aos 17 anos de idade, a coroa de Rei do Futebol. O Santos visitou Belo Horizonte e entrou em campo, no Estádio Independência, com Manga, Hélvio e Dalmo; Fioti, Zito e Urubatão; Dorval, Afonsinho, Guerra, Pelé e Pepe. O Galo, começando uma entresafra depois do pentacampeonato mineiro, formou com Arizona, Anísio e Grilo; Benito, Jair e Nilsinho; Márcio, Nilson, Tomazinho, Alvinho e Dino.

Pelé abriu o placar aos 11. Jair empatou para o Galo aos 13. Tomazinho virou aos 32. Guerra voltou a empatar para o Santos aos 44. No segundo tempo, só deu Galo. Jair, Tomazinho e Márcio enfiaram mais três e o Rei conheceu a primeira de várias derrotas para o Clube Atlético Mineiro: 5 x 2, inapelável.

pele-santos1958.jpg


Também foi numa derrota para o Galo que aconteceu a última expulsão do Rei Pelé com a camisa do Santos. No dia 23 de novembro de 1969, pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa, o Santos visitou Belo Horizonte, desta vez já no Mineirão. Galo 2 x 0. Aos 25 minutos do segundo tempo, o árbitro Amílcar Ferreira expulsou de campo o Divino Negão. Ele não voltaria a ser expulso com a camisa do Santos.

Ao voltar da conquista da Taça Jules Rimet no México, Pelé disputaria em 1971 o seu primeiro campeonato brasileiro, com fome de mais uma conquista inédita. De novo, o seu time de infância o parou. No dia 05 de setembro, o Santos visitou o Mineirão e apanhou por 2 x 1, com dois gols de Dadá. Já na segunda fase, disputando uma vaga no triangular que decidiria o campeonato, Pelé adentrou novamente o Gigante da Pampulha. Mais uma vez, Galo 2 x 0, agora com dois gols de Oldair. O Santos era eliminado do Brasileirão.

De todas as derrotas de Pelé para o Galo, a mais famosa, sem dúvida, ocorreu no dia 03 de setembro de 1969. O Mineirão preparou uma impressionante cerimônia para receber as “feras de Saldanha”, que afiavam as garras para o tricampeonato:

bandeirao.jpg

A máquina entrou em campo, completinha, com Felix, Carlos Alberto, Djalma Dias, Joel e Rildo (Everaldo); Piazza e Gérson (Rivelino); Jairzinho, Tostão (Zé Maria), Pelé e Edu (Paulo César). O Galo formou com Mussula, Humberto Monteiro, Grapete, Normandes (Zé Horta) e Cincunegui (Vantuir); Oldair e Amauri (Beto); Vaguinho, Laci, Dario e Tião (Caldeira). Dadá e Amauri marcaram para o Atlético e Pelé descontou em escandaloso impedimento. O Divino Negão era mais uma vez humilhado pelo Galo. Iniciava-se o ódio mortal da Confederação Brasileira de Desportos pelo Atlético-MG.

É verdade que o maior jogador de todos os tempos também conseguiu ganhar alguns duelos contra o Galo, notadamente na primeira metade dos anos 60. Duas ou três dessas vitórias foram por goleada. Mas, sobre esses jogos, deixemos que os historiadores santistas se pronunciem. Neste post, deixamos registradas a paixão infantil do Divino Negão pelo Galo e algumas das surras que levou ante o mais querido de Minas.

PS: Confira o sensacional Canto do Galo. Veja também a lista completa de jogos do Galo até 2006.

PS 2: Foto do seu Dondinho: Futebol, Política e Cachaça.



  Escrito por Idelber às 07:17 | link para este post | Comentários (23)



sexta-feira, 04 de abril 2008

As torcidas organizadas como núcleos potenciais do fascismo

Quem se interessa por futebol deveria acompanhar com atenção o que anda ocorrendo com um dos clubes mais tradicionais do mundo, o River Plate. No último domingo, aconteceu outra tragédia no futebol argentino. Desta vez, inacreditavelmente, a pancadaria se desenvolveu entre duas facções da mesma torcida. O River enfrentaria o Arsenal no Estádio do Vélez Sarsfield, já que o Monumental de Núñez se encontrava ocupado com o Quilmes Rock. La banda de Gonzalo, facção antes comandada por Gonzalo Acro, assassinado em 2007, já não comparece ao Núñez, insatisfeita com a quantidade de ingressos que lhe é destinada. Compareceu ao jogo no campo de Vélez. La banda del Oeste, facção rival, havia chegado cedo e ocupado as populares. Foi cercada com um aparato de guerra impressionante: walkie-talkies, armas brancas de todo tipo, brutamontes anabolizados. O horror durou intermináveis minutos e deixou dezenas de feridos e detidos, incluído aí um torcedor com politraumatismo craniano. Ainda faltam 21 meses para as eleições no River, mas adivinhe quem são os potenciais apoiadores mais cortejados pelos candidatos? Sim, os bandidos, que adquiriram uma inserção dentro do clube que os torna praticamente intocáveis. (fontes: um, dois, três, quatro).

Na primeira rodada do campeonato mineiro deste ano, o Atlético jogou às 10:00 da manhã contra o Democrata, em Sete Lagoas. O Cruzeiro enfrentaria o Uberaba no Mineirão, às 16:00. Ao bater o olho na tabela, pensei: espero que a BH Trans tenha tido a óbvia idéia de mudar o lugar de chegada dos ônibus da torcida do Galo. Previ a tragédia. Não sou nenhum gênio, mas sei que (1) uma partida de futebol demora pouco menos de duas horas; (2) uma viagem de ônibus de Sete Lagoas ao centro de Belo Horizonte tarda uma hora; (3) os ônibus saem do mesmo lugar, na rua Rio Grande do Sul. Os atleticanos voltavam quando os cruzeirenses se aglomeravam para ir ver seu time. O resultado? Batalha campal, com um atleticano morto (de infarto, coitado, enquanto corria da confusão) e um cruzeirense com o crânio esmigalhado e o corpo provavelmente inutilizado por um bom tempo. Os criminosos chegaram a combinar a briga pelo Orkut. É inacreditável que alguém seja responsável pelo transporte de torcedores e não faça uma matemática tão simples como a que era necessária no dia 27 de janeiro em Belo Horizonte.

A situação das torcidas organizadas no Brasil chegou a um ponto em que não há outra saída a não ser sua abolição completa, acompanhada de investigação de suas relações com a cartolagem. Sim, eu sei que decretar sua abolição pode ferir o princípio constitucional da livre associação. Mas também sei que já há farto material juridicamente válido para imputar a elas um rastro de sangue que não deixa dúvidas sobre sua verdadeira natureza. Não cola o argumento de que só alguns de seus membros são responsáveis por crimes. A organização em si incentiva, promove e possibilita a barbárie. É inaceitável que um político – como Eduardo Paes (PSDB-RJ) – se dedique a fazer proselitismo propondo apoiar os presidentes das torcidas organizadas, que são pessoas sérias, pra impedir que a marginalidade tome conta. Pessoas sérias, meu senhor? Tenha dó. A afirmação é um descalabro de cinismo. Neste debate, estou com Vladimir Palmeira (PT-RJ), que respondeu a mesma pergunta de maneira taxativa: Torcidas organizadas, deveriam ser encerradas suas atividades, o governo deveria proibir.

Houve uma época em que coexistiam, em cada grande clube brasileiro, dezenas de agremiações de torcedores sem que houvesse nenhuma clara hierarquia. Nos últimos tempos, consolidou-se um grupo privilegiado para cada clube (Galoucura e Máfia Azul em BH; Gaviões, Independente e Mancha Verde em SP etc.). Esse gigantismo foi construído através de métodos sujos de troca de favores, extorsão, corrupção e violência. Não aceito o argumento de que há gente boa e sincera dentro desses grupos. Não é essa a questão. Também há gente sincera dentro da Klux Klux Klan Ku Klux Klan que nunca cometeu nenhum crime. Essas organizações estão apodrecidas em sua essência. Em Minas Gerais, o Ministério Público já pediu sua extinção. O Brasil não pode esperar que a coisa chegue no nível em que se encontra na Argentina. Elas têm que ser abolidas. Já.

Leia mais: Desesperança, belo texto de Douglas Ceconello sobre a tragédia de Criciúma.
Arquivos sobre violência do excelente blog Além do Jogo.



  Escrito por Idelber às 03:36 | link para este post | Comentários (23)



quinta-feira, 03 de abril 2008

A tediosa sucessão de factóides

Às vezes, sinceramente, sinto um pouco de compaixão da oposição tucano-pefelê. Idolatram tanto o capitalismo laissez faire, mas não aprenderam nada com o Tio Sam sobre como construir uma direita verdadeiramente golpista, fria e implacável. Parecem a zaga do Íbis batendo cabeças em cobranças de escanteio. Será que a única coisa que a oposição consegue contra o governo Lula é martelar a possibilidade de que alguém do Planalto tenha elaborado um anódino dossiê de 13 páginas sobre os gastos de FHC? E requentar durante mais de uma semana o escarcéu artificial criado sobre o tema? Será que eles têm alguma esperança de, com isso, produzir algum arranhão na presidência mais popular de todos os tempos? Por que não falam de projetos políticos? Por que não debatem, por exemplo, o projeto de taxação de milionários apresentado pelo deputado Maurício Rands (PT-PE) com argumentos um pouco melhores que os de Dornelles? Por que se recusam a entender que essa história de dossiê não cola mais? Será que têm alguma ilusão de que vão ganhar votos com isso? Será que não perceberam que alguma transformação ocorreu no Brasil nos últimos anos e que a democracia tupinambá se encontra em outra fase, mais madura? Por que a Folha de São Paulo embarcou nessa?

Aí vão alguns links sobre esse patético caso:

Leitor de Josias de Souza pega blogueiro na atribuição falsa de citação a Dilma Rousseff.

Senador tucano admite que dossiê passou por suas mãos.

Noblat acusa Lula de crime, para logo depois reconhecer que foi a oposição quem divulgou o tal dossiê, levando na seqüência um baile dos leitores de Nassif por curiosamente tomar como fonte definitiva de notícia uma declaração feita por parte interessada, além de funcionar como moleque de recados da oposição.

Senador pefelê insulta Dilma Rousseff com xingamento sexista e provoca bate-cabeças na oposição, levando até o Arthur “vou dar uma surra no Lula” Virgílio a pedir que ele retire o insulto.

Noblat manda recadinho para que Pedro Simon fale do dossiê em plenário e o ex-Mr. Integridade obedece e pede desculpas. A que triste paródia de si mesmo foi reduzido o Senador Simon!

Noblat vira porta-voz de FHC.

Lula Miranda analisa mais esse patético papel da grande imprensa brasileira.

Gilson Caroni Filho discute o duro golpe sofrido pela credibilidade de Noblat neste episódio.



  Escrito por Idelber às 06:33 | link para este post | Comentários (67)



quarta-feira, 02 de abril 2008

Cruzeiro e Irmãos Perrella na mira da Polícia Federal

Poucas instituições são tão subservientes como a imprensa esportiva brasileira. Com honrosas exceções, o rádio, a televisão e as revistas especializadas são uma mescla de achismo, lugares comuns, trocas de favores e conluios com a cartolagem corrupta. Eu, que moro a milhares de quilômetros de distância, sei que a fortuna dos irmãos Perrella, que dirigem o Cruzeiro de Belo Horizonte, não foi feita vendendo lingüiça em seus supermercados. Mas não há um só veículo da imprensa mineira com a coragem de investigar.

Como em Belo Horizonte não existem jornais – eu me recuso a dignificar com o nome de jornal aquele Diário Semi-Oficial do Governo Aécio –, coube à Revista Placar dar o furo acerca do inquérito 1541, instaurado pela Polícia Federal para investigar a lavagem de dinheiro, a sonegação fiscal e a evasão de divisas no Cruzeiro, que é o segundo clube brasileiro que mais lucrou com a venda de jogadores desde 2001 (o primeiro é o Santos, graças à geração Robinho / Diego). O mais revelador da história é que qualquer um que esteja bem informado sobre os bastidores do futebol mineiro sabe que evasão, sonegação e lavagem não são os crimes mais graves envolvendo dinheiro do lado de lá da Lagoa da Pampulha. Paro por aqui.

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O Ministério Público de Minas Gerais havia instaurado um procedimento investigativo em 2004, tendo como alvo as relações entre o Cruzeiro e os negócios pessoais dos Perrella. Segundo a Placar, quando o MP estava por ter acesso à contabilidade, um juiz suspendeu a investigação com o argumento de que os clubes de futebol são associações de direito privado, devendo prestar conta somente a seus associados. O autor da pérola foi o juiz Saulo Versianni Penna. Mais um para nossa coleção.

A investigação atual, que eu saiba, ainda não foi noticiada pela imprensa mineira. Corrijam-me se eu estiver errado.

PS: Fac símile da Placar roubada do Dolabela.

PS 2: Dê o seu autógrafo de apoio à Proposta de Emenda Constitucional 438/2001, que prevê o confisco de terras onde se encontre trabalho escravo e destinação das mesmas à reforma agrária (via Claudia).



  Escrito por Idelber às 03:54 | link para este post | Comentários (15)