« BRASA, nono congresso: Um balanço ::
Pag. Principal
:: A tediosa sucessão de factóides »
quarta-feira, 02 de abril 2008
Cruzeiro e Irmãos Perrella na mira da Polícia Federal
Poucas instituições são tão subservientes como a imprensa esportiva brasileira. Com honrosas exceções, o rádio, a televisão e as revistas especializadas são uma mescla de achismo, lugares comuns, trocas de favores e conluios com a cartolagem corrupta. Eu, que moro a milhares de quilômetros de distância, sei que a fortuna dos irmãos Perrella, que dirigem o Cruzeiro de Belo Horizonte, não foi feita vendendo lingüiça em seus supermercados. Mas não há um só veículo da imprensa mineira com a coragem de investigar.
Como em Belo Horizonte não existem jornais – eu me recuso a dignificar com o nome de jornal aquele Diário Semi-Oficial do Governo Aécio –, coube à Revista Placar dar o furo acerca do inquérito 1541, instaurado pela Polícia Federal para investigar a lavagem de dinheiro, a sonegação fiscal e a evasão de divisas no Cruzeiro, que é o segundo clube brasileiro que mais lucrou com a venda de jogadores desde 2001 (o primeiro é o Santos, graças à geração Robinho / Diego). O mais revelador da história é que qualquer um que esteja bem informado sobre os bastidores do futebol mineiro sabe que evasão, sonegação e lavagem não são os crimes mais graves envolvendo dinheiro do lado de lá da Lagoa da Pampulha. Paro por aqui.

O Ministério Público de Minas Gerais havia instaurado um procedimento investigativo em 2004, tendo como alvo as relações entre o Cruzeiro e os negócios pessoais dos Perrella. Segundo a Placar, quando o MP estava por ter acesso à contabilidade, um juiz suspendeu a investigação com o argumento de que os clubes de futebol são associações de direito privado, devendo prestar conta somente a seus associados. O autor da pérola foi o juiz Saulo Versianni Penna. Mais um para nossa coleção.
A investigação atual, que eu saiba, ainda não foi noticiada pela imprensa mineira. Corrijam-me se eu estiver errado.
PS: Fac símile da Placar roubada do Dolabela.
PS 2: Dê o seu autógrafo de apoio à Proposta de Emenda Constitucional 438/2001, que prevê o confisco de terras onde se encontre trabalho escravo e destinação das mesmas à reforma agrária (via Claudia).
Escrito por Idelber às 03:54 | link para este post
| Comentários (13)
Idelber em abril 2, 2008 4:09 AM
#2
Caro Idelber
Excelentes as suas palavras! Constatamos DIARIAMENTE que a imprensa esportiva em nosso país passa por uma das suas fases mais SUBSERVIENTES. Aquela bronca do Bebeto no final é MARCANTE! Na decisão Flamengo x Botafogo, LOGO EM SEGUIDA AO OCORRIDO em coletiva a imprensa, a abordagem da imprensa foi se modificando para se tornar NEGATIVA para o ponto de vista assinalado por Bebeto. Entre o final do jogo e a manhã de segunda-feira quase todos os jornalistas esportivos e alguns de outras áreas) passaram a deprezar o gesto do presidente do Botafogo. Formou-se logo uma unanimidade CONTRA Bebeto. A imprensa ignorou AS SUAS PRÓPRIAS RESTRIÇÕES contra o presidente da Federação, que escalou um juiz incompetente (por ser recém saido da segunda divisão, onde praticou barbaridades) suspeito (e amicíssimo deste presidente).
Ainda por vezes leio ou vejo na TV (e no rádio) as opiniões dos jornalistas esportivos. Mas te digo, caro Idelber, um dos melhores comentaristas (aparece em TV ncional), que frequenta o Bracarense NÃO ESCONDE dos que lá conversam sobre futebol OPINIÕES TOTALMENTE DIVERSAS daquelas expressas profissionalmente.
MINHA SOLIDARIEDADE.
Paulo em abril 2, 2008 8:51 AM
#3
Olha Idelber, quando um time monta um elenco cheio de estrelas "do nada" como o Cruzeiro fez em 2003 (naquele ano eles ganharam o Mineiro, a Copa do Brasil e o Brasileirão tendo o Luxemburgo no banco e o "maestro" Alex no meio-de-campo), dá para desconfiar. O problema é que isso parece ser generalizado, com todos os clubes brasileiros.
Veja por exemplo meu querido Santos (que segundo você é o time que mais ganhou dinheiro desde 2001): a grana da geração Robinho acabou. Obviamente que fizeram um CT arrumado, montaram um time caríssimo por 2 anos com o Luxemburgo, etc, etc... mas a grana acabou vergonhosamente. Pra você ter uma idéia do perrengue, o time agora discute patrocínio para a manga da camisa e está bastante desesperado para conseguir logo alguém que pague a grana.
Agora resta saber se, para cada time endividado, a situação é decorrente de má-fé e roubo ou se é incapacidade administrativa das grossas mesmo. O senso comum (e às vezes é bom ouvir o que é dito por ele) nos leva à pensar que a primeira hipótese é mais forte...
Abraços,
André em abril 2, 2008 11:03 AM
O Canto do Galo em abril 2, 2008 11:06 AM
#5
É escandaloso o que acontece nos clubes brasileiros, e muito triste ver a atuação dos magistrados, como o citado que soltou a pérola a respeito do Cruzeiro. Sinceramente!
Lembrando também que, até onde sei, estão paradas duas investigações contra ex-presidentes do nosso Galo que podem (uso essa palavra aqui por excesso de zelo) ter cometido crimes em sua gestão. O Paulo Curi (roubo é o nome correto) e mais recentemente o Ricardo Guimarães, que deixou a instituição Clube Atlético Mineiro financeiramente dependente dele, emprestando dinheiro ao clube a juros altíssimos.
Humberto em abril 2, 2008 12:10 PM
#6
Caro Paulo, o que você me conta sobre esse comentarista não me surpreende em nada. O furor investigativo da imprensa ainda não chegou -- com algumas exceções -- ao futebol. O medo da cartolagem é muito forte.
Caro André, a situação do Santos é típica; é comparável à do Atlético-MG no final dos anos 80, quando um patrimônio de valor incalculável foi desfeito e ninguém, até hoje, sabe ao certo onde foi parar o dinheiro. A informação sobre o alvi-negro praiano ter sido o clube brasileiro que mais lucrou com vendas no século XXI vem da própria Placar. Abraços.
Caro Humberto, o nosso Galo, então, é uma longa história de falcatruas. Aliás, que fique claro que este post não tem nada a ver com eu ser atleticano. Também quero que os Curi, os Paulino, os Guimarães sejam investigados com todo o rigor.
Parabéns, Canto do Galo, por esse belíssimo blog. Já virei fã.
Idelber em abril 2, 2008 1:42 PM
#7
Só pra deixar claro, obviamente eu não estava querendo defender ou desviar a atenção dos Perrellas. A bandidagem rola solta do lado de lá faz algum tempo... Fico quieto também. Só quis chamar a atenção de algumas decisões da justiça envolvendo os dois times de BH.
Bem lembrada também a situação do Galo, cujo patrimônio gigantesco evaporou-se em pouco tempo.
Humberto em abril 2, 2008 3:06 PM
#8
Idelber, o jornalismo esportivo não perde para ninguém em gilete-press e outras práticas abjetas -- ressalvadas as exceções a que vc se refere. Me lembro que, quando eu tinha uns 15 ou 16 anos, um amigo e colega de classe me garantiu que plantaria uma notícia no caderno de esportes de um dos grandes jornais da capital. Na minha frente, ligou para o jornal e, dizendo-se da diretoria de um clube do interior do Paraná (ele era daqueles caras que sabiam a escalação até do Fast Club do Amazonas) anunciava a venda de um jogador de meio-campo daquele clube para o Guarani de Campinas. No dia seguinte, tava lá uma pequena notinha dando a notícia. Assistir a programas esportivos na TV ou no rádio é ver um festival de falta de crítica e de bajulação de gente poderosa. Um horror.
jayme em abril 2, 2008 6:54 PM
#9
Na mosca, Jayme. A estrutura do esporte e da mídia no Brasil é tal que não vejo muita saída. É um círculo vicioso: ganham acesso às notícias os que bajulam e ajudam a esconder a sujeira, que vai só se acumulando. O caso em questão é incrível: já está nas páginas da Placar, e ninguém em BH dá um pio. Triste. Um abração.
Idelber em abril 2, 2008 7:08 PM
#10
Idelber, se gritar pega ladrão não fica um meu irmão. É corrente no mundo da bola que muitos dirigentes só aceitam transações de jogadores quando levam o deles por fora. Por isso trabalham de graça para os clubes.Isso sem falar na rapinagem pequena. Assim, um empresário para colocar um garoto nas categorias de base de um clube e depois promovê-lo ao profissional pode ter que molhar a mão de dirigentes e treinadores. Dia desses saiu uma nota na Folha dizendo que um jogador não conseguiu ir para outro grande clube brasileiro pq não quiseram pagar o pedágio para o dirigente do clube ao qual ele estava vinculado. Isso é uma falcatrua vergonhosa, e esse juiz ainda vem com esse papo de que não tem que investigar. Barbaridade. Só pela sonegação fiscal já vale.
O problema é que no Brasil o cara entra para a Administração Pública ou para clubes de futebol, por exemplo, fica rico rápido e ninguém se mete a questionar de onde ele tirou tanto dinheiro. Qualquer pessoa com um mínimo de discernimento deve buscar o enriquecimento ilícito buscando o cheiro dos "sinais exteriores de riqueza". Afinal, dinheiro não dá em árvore. Mas no Brasil parece que todos são cegos.
gerson em abril 2, 2008 10:26 PM
#11
Idelber, creio que muitas barbaridades oriundas dos dirigentes já não chegam aos nossos ouvidos em virtude de que hoje os jogadores silenciam, na expectativa dos grandes contratos no exterior.
Quanto ao PS 2 de sua mensagem, uma pergunta: você também está envolvido na proposta do terceiro mandato?
Paulo em abril 3, 2008 6:34 AM
#12
Paulo: de jeito nenhum!
gerson, você tocou em outro ponto chave: os empresários de jogadores. Para se desmontar o esquema da corrupção, toda essa cadeia (cartolas-imprensa-torcidas organizadas-empresários) teria que ser desmontada. E, como eu dizia acima, não vejo por onde isso pode ser feito. Triste.
Idelber em abril 3, 2008 7:24 AM
#13
Cfe. conversa aqui em casa...
Milton Ribeiro em abril 4, 2008 12:57 AM
Deixe seu comentário: