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quinta-feira, 24 de abril 2008

Ocupação colonial, feminismo e vida nua

Do loooongo trabalho que vou apresentar hoje à tarde aqui no Simpósio de Direitos Humanos na Universidade de Minnesota, escolhi três parágrafos polêmicos para traduzir e publicar aqui no blog. Aí vão, dedicados à Mary W, para quando ela tiver tempo de passar por aqui:


Um outro exemplo de como se negociam as fronteiras no discurso dos direitos humanos se encontra num artigo publicado por Piya Chatterjee e Sunaima Maira, intitulado An Open Letter to All Feminists: Support Palestinian, Arab, and Muslim Women. O artigo levanta uma questão interessante, ao assinalar que as feministas norte-americanas têm apoiado fortemente as lutas contra os assassinatos “de honra”, a mutilação genital e os casamentos forçados no mundo árabe, mas não dizem praticamente nada sobre a violência sofrida pelas mulheres árabes como resultado das ocupações ocidentais. Nas palavras de Chatterjee e Maira: “incomoda-nos o fato de que as feministas norte-americanas ... estejam participando num discurso seletivo de direitos humanos que ignora os crimes de guerra e os abusos de direitos humanos dos Estados Unidos.” Segundo as duas autoras, uma série de afirmações de feministas norte-americanas acerca das mulheres árabes ou muçulmanas têm sistematicamente se focalizado nelas somente como vítimas de sua própria cultura, e não como vítimas da violência colonial ou imperial perpetrada pelas ocupações. Note-se que Chatterjee e Maira em nenhum momento sugerem que as feministas parem de denunciar, por exemplo, a mutilação genital ou os casamentos forçados. Não se trata disso.

Não estamos aqui diante do velho debate do universalismo contra o particularismo, da defesa dos direitos humanos versus a defesa das tradições culturais locais. Na realidade, mais atenção, por parte das feministas norte-americanas, ao trabalho realizado por mulheres do Terceiro Mundo sobre essas questões já as teria levado à conclusão de que a própria oposição entre universalismo e tradições locais – ambos os termos, ou seja, a totalidade da dicotomia – só se mantém na medida em que nos situamos no ponto de vista do sujeito imperial do Primeiro Mundo: “é assustador que nestes tempos catastróficos, muitas feministas liberais dos Estados Unidos só enfoquem as práticas misóginas associadas com as culturais particulares locais, como se estas existissem em cápsulas, longe da arena da ocupação imperial”. Ao usar a expressão “discurso seletivo dos direitos humanos universais”, as autoras levantam um aparente paradoxo, na medida em que a universalidade supostamente eliminaria a seletividade. O universal, pensaríamos, não é seletivo.

Na verdade, por trás desse paradoxo se encontra o processo de constituição de todo universal. Qualquer categoria universal se fundamenta sobre uma abjeção, um elemento expelido que demarca suas fronteiras, uma exclusão que chamaremos aqui de lá fora constitutivo. Para o sujeito dos direitos humanos no nosso tempo, uma dessas abjeções constitutivas se emblematiza na categoria de combatentes fora-da-lei (unlawful combatants), termo com o qual a administração Bush exclui os detentos de Guantánamo não só das Convenções de Genebra, aplicadas a prisioneiros de guerra, como também da Convenção sobre a Tortura, aplicada a todos os seres humanos. A categoria de combatente fora-da-lei constrói, portanto, não só um sujeito extra-jurídico, mas também um lá fora da humanidade mesma.



  Escrito por Idelber às 03:16 | link para este post | Comentários (17)


Comentários

#1

Mano blogueiro, isso aí dá boa discussão. São miseriazinhas que vêm lá das cavernas e tomam ares acadêmicos, artísticos.
Olha só uma coisa bonita: o balé clássico. Quer coisa mais aceita pelo mundo aristocrático e pela alta burguesia durante tanto tempo? e ao mesmo tempo mais grotesca em seu autoritarismo? Meninas bailarinas apanhando de vara para reformar o corpo, revirar a cabeça do fêmur, humilhadas, xingadas, submetidas a um treinamento doloroso com pleno conhecimento das mães e dos pais, em grande parte impostas a estes tormentos pelas famílias. Igualzinho aquelas chinezinhas com sapatinhos de menina, é ou não é?
E as pobres crianças do teatro chinês que aplaudimos tanto?
E os pequenos cantores castrados de Viena?
Paz e bom humor sempre.
Walmir
http://walmir.carvalho.zip.net

Walmir em abril 24, 2008 9:21 AM


#2

Idelber,
eu que não sou Mary mas sou W. senti uma ressônancia imediata no como essa crítica às feministas n-americanas se aplica às colegas européias. Sendo que no caso da mutilação genital, tenho xiliques ao ver que ela é mais condenada quando praticada por muçulmanos do quando por outras tradições culturais, letitouttamychestdotcomdoteu

Márcia W. em abril 24, 2008 9:26 AM


#3

Cuidado cara, eu conheço umas feministas aqui em Brasília que iriam atrás de vc!!! heheheh Só uma coisa, eu comprei e estou lendo, por SUA causa, o livro do Antonio Risério, sensacional, não tenho nem palavras! Mas um problema, veio faltando 25 páginas, ocorreu com a sua edição também?
Boa sorte na apresentação, abraço!

Gui Losilla em abril 24, 2008 9:42 AM


#4

Não, o meu está completinho! Pô, leva na livraria e reclama :-)

Idelber em abril 24, 2008 10:23 AM


#5

letitouttamychestdotcomdoteu é a invenção do ano, Márcia :-)

Idelber em abril 24, 2008 11:15 AM


#6

Clap, clap, clap!!!!
Leva a bandeirinha do Brasil pra levantar no final. Hehehe. (Ou a do Galo, né?)

Ju Sampaio em abril 24, 2008 11:30 AM


#7

Walmir, assino embaixo do seu comentário também. Pode acrescentar na lista aí bebês e crianças que atuam em comerciais de TV, muitas vezes levados por pura vaidade dos pais. Eu trabalho na área, sei bem como é o ritmo de um set e, na boa, seria a primeira a apoiar uma lei que proibisse esse tipo de trabalho infantil.

Ju Sampaio em abril 24, 2008 11:38 AM


#8

Walmir: apoiado sem restrições. Isso tudo, aliás, sem cair no óbvio que é a questão da circumcisão. Acho bárbaro: uma forma de mutilação feita (pelo menos no oeste, em especial nos Estados Unidos) por motivos estéticos, sem direito a anestesia (porque, veja bem, mutilar é OK, mas expor um bebê à anestesia é crueldade e um perigo)... é a um só tempo chocante, e ridículo. Engraçado que, discutindo isso com um amigo muçulmano do Catar, ele disse que é mesmo uma pena que esse tipo de tradição --- que claramente não tem nada a ver com amor a deus ou o amor de deus --- tenha se tornado tão carne-de-vaca a ponto das pessoas que não sejam circumcisadas se sentirem envergonhadas, nojentas.

Conversei também com um amigo ianque, e ele é liberal (e por vezes libertário), e vota no Obama etc. A resposta dele, e veja bem, eu não tinha provocado nem chamado eles de bárbaros nem nada que motivasse tal resposta, foi algo do tipo, "em 200 anos, o país e seu povo revolucionaram o mundo e trouxeram um novo padrão de vida para toda a humanidade. Então vai cuidar dos seus problemas e deixa a gente cuidar dos nossos: tinha mesmo é que estar agradecido pelo que a gente trouxe, e não ficar criticando o que há de cosmético na nossa sociedade". Cosmético vem do Grego Antigo, cosmos: "aquilo que tem ordem". O "acosmos" é o desordenado, o feio, o errado, o covarde, o anti-ético. Não é dizer demais que qualquer sociedade, no leste ou no oeste ou no oriente médio, em que é acosmos não ser mutilado merece, independente de história e o escambau, ser criticada por isso.

Mas isso me leva de volta pro post do Idelber: é difícil e muitas vezes contra-intuitivo pensar universalmente em termos de ética. O mais perigoso é que muitas vezes a ética, pondo-se a serviço da cultura, é usada para validar a cultura. Se na matemática, qualquer sistema formal completo do qual se possa derivar a própria consistência é obrigatoriamente inconsistente (segundo teorema da incompletude de Gödel), podemos analogamente dizer que qualquer sistema cultural completo que se demonstre, a partir de si mesmo, inquestionável é, obrigatoriamente, um sistema cultural questionável.

Nos Estados Unidos, na Europa, no Chile e na Argentina eu vejo muito disso: nós somos bons, veja a nossa história, veja nossa nação, veja os nossos valores --- a nossa ética é inquestionável, pois fomenta uma sociedade essencialmente boa. O Brasil, país mais peculiar do universo conhecido, faz isso também, só que às avessas: o ruim é, justamente o brasileiro, e o locutor é que nunca é brasileiro. Brasil fica sendo, assim, um ícone do anti-ético e do barbárico, e o brasileiro se define por não ser aquilo, e associa tudo quanto for questionável à idéia de Brasil.

Se nos outros países, a nação é o humano e a nação é o "nós" que exclui um "eles", no Brasil a nação é o "eles", e o "nós" permanece indefinido --- pretexto suficiente para a mais exótica sorte de fenômenos éticos e antropológicos. Ouvi dizer que a direita Alemã se articula de forma semelhante: como um "anti-nacionalismo nacionalista".

Tudo isso pra voltar à questão da apatia, que eu tinha colocado no outro post. Por que a gente pode tentar projetar uma cultura local como valor universal, mas a ética só pode ser verdadeiramente universal se for, antes de mais nada, acultural. Isso só pra ela ser universal, não estou nem pondo pra discussão se essa ética será ou não válida. (Muita gente se pergunta --- acertadamente --- o que raios o direito à propriedade privada está fazendo no meio dos direitos universais do homem).

Dizer você é ianque antes de ser feminista, (anti-)brasileiro antes de ser humanista, nacionalidade antes de ética é o mesmo que dizer: e a ética que vá pro espaço. Submeter uma ética, mesmo uma ética universal, a uma nacionalidade é criar um ser deforme, um quasímodo: uma ética seletiva e local, que se diz absoluta e universal, e criar acima de tudo, uma desculpa esfarrapada para qualquer ato contra a ética que parta da sua nação. Nacionalidade subjugando a ética é contradição, e não ética.

E isso fica muito claro quando você olha de novo pro meu amigo ianque e o meu amigo catari e se pergunta por que cada um deu uma resposta diferente ao problema da circumcisão. Não tem nada a ver com um ser mais ético que o outro ou o escambal, é absolutamente cultural. Um se sente envergonhado da própria nacionalidade, e vai por isso construir um código ético seletivo justamente contrário à própria nação. O outro, sentindo-se inflado pelo passado heroico e o nacionalismo, vai selecionar na ética os valores que justifiquem as ações de seu povo, e ignorar quando conveniente, ou os fatos, ou a ética.

PS."[...] Convenções de Genebra, [...]" I see what you did there!

Bruno ( ) em abril 24, 2008 3:55 PM


#9

eu preciso te dizer algo. a última aula do semestre, que acontece na ultima semana de maio é sobre declaraçao universal dos direitos humanos. quase caí pra trás quando vi que voce tá tratando do assunto. nao é tanta coincidencia, eu sei. pq é aniversario e tal. e talvez toda pessoa tenha direito a uma coincidencia desse tamanho. vou usar seus textos, claro. e foi uma providencial ajuda mesmo. pq é a primeira q eu incluo a declaraçao. enfim. achei genial isso. por mais motivos tambem. acho q pode ser bom demais pros alunos "assistirem" a sua caixa de comentarios. e até participarem e tals. acho q isso nao é comment. é email. hahahhhaha. já foi.

mary w. em abril 24, 2008 4:59 PM


#10

Fantástico. E bato palmas também pro Walmir. Olha que isso aqui tá muito bom, isso aqui tá bom demais!

Ana Paula em abril 24, 2008 6:04 PM


#11

Oi, Idelber. Muito bom esse texto, falando sério. E o ponto é forte, certeiro. O caso da menina Abeer - do qual Bryan de Palma trata, no seu Departed, ainda sem previsão de ser exibido no Brasil -, brutalmente currada e morta, junto com toda sua família, por soldados americanos, o caso de estupro de Sabine Al Janabi, na frente do marido, por guardas treinados pelos americanos, é outra coisa espantosa. Vale visitar a Riverbend, no Bagdhad Burning riverbendblog.blospot.com. Nos arquivos desse blog e no texto brilhante dessa menina pode-se ler do que se faz esse tipo de opressão, nada peculiar. Também há um texto histórico, do Said, no qual ele relata a decepção de seu encontro com Sartre. O abuso de Said com a "histeria" de Beauvoir quanto aos lenços - esqueci os nomes - nas cabeças das iranianas é motivo de avacalhamento por parte de Said. Uma integrante do Itamaraty fez uma tese e milita internacionalmente pela inclusão do estupro enquanto tática de guerra e da violação das mulheres no rol dos crimes contra a humanidade. O nome dela é Adriana Tescari. Vale a pena conhecê-la! Bravíssimo e boa apresentação e ai fundo! Abração.

Katarina em abril 24, 2008 11:56 PM


#12

Perfeita a observação das pensadoras. Òtima nota do blog, parabéns.

Jorge em abril 25, 2008 12:12 AM


#13

Puxa, muito especial para mim esta caixa de comentários.

Ju, Katarina, Mary: todas as minhas ídolas :-)

E o Walmir e o Bruno mandaram muito bem.

Correu tudo nos conformes com a palestra; a recepção foi muito calorosa. Aliás, o colóquio todo foi muito bacana.

Mais em breve;)

Idelber em abril 25, 2008 1:51 AM


#14

É difícil comentar apenas trechos de um texto, posto que se corre o perigo de não ser justo com o argumento do autor. Contudo, lendo a carta das três feministas, fica claro a enorme confusão feita por elas. A ordem de fatores às quais elas aludem são distintas. A reclamação feita contra as feministas liberais norte-americanas simplesmente mistura as coisas. As violências sexistas sofridas por mulheres muçulmanas em suas sociedades derivam do sexismo destas mesmas sociedades, e atingem as mulheres em sua condição feminina. Homens não usam burkas ou outras coberturas, não são assassinados por causa da honra, não apanham ou têm os genitais arrancados. A violência sofrida por conta das guerras as atingem de forma muito mais próxima dos homens. Homens e mulheres árabes têm suas casas destruídas, morrem ou são mutilados por tiros e bombas (no caso do Iraque, mais por conta de seus patrícios do que pelos Marines). Não há discriminação aqui, a menos a princípio (já que, na realidade, parece que morrem muito mais homens do que mulheres no Iraque ou na Palestina). Portanto, essa violência cabe à esfera de organismos e pessoas que militam em outros fóruns, não os feministas, já que o feminismo se refere à discriminação contra a mulher, e não sobre aquilo que homens e mulheres compartilhem - embora eu ache que as feministas não devam se isolar, o que é um outro problema. Se as feministas passarem a se dedicar a este problema, deixam de ser feministas, para ser outra coisa. Além do mais, há uma distorção de fundo no argumento das autoras: a de que o aumento na opressão às mulheres em países como Iraque ou Afeganistão se deve à invasão ocidental. Isso seria verdade se esquecermos uma série de fatores internos ao mundo islâmico que pouco tem a ver com as forças americanas. Mas esse é outro papo.

João Paulo Rodrigues em abril 25, 2008 10:02 AM


#15

Caro Ildebert, há tempos não passava por aqui e agora volto e dou de cara com essa discussão que em tudo me lembra uma situação terrivelmente conflituosa que vivi durante o trabalho de campo de minha tese. Um dos sujeitos da minha pesquisa, um jovem (negro pobre e analfabeto) estuprou uma turista (branca.classe média). Foi um conflito dilascerador para mim, uma feminista acadêmica, fazendo uma tese pautada por teorias feministas, dentro de um dos mais importantes centros de pesquisa do país nesse campo (Unicamp) - de repente eu era a única pessoa ligada a esse estuprador com meios cognitivos para acionar dispositivos para garantir seus direitos humanos na cadeia (o menino/"monstro" estava sendo espancado, e sabemos o que mais o aguardava). O estuprador é portador dessa abjção que vc refere - aos olhos da sociedade, mas muito especialmente da feministas, incluindo esta aqui que vos digita.
Seu post me lembrou todo esse conflito e tb o e-mail que me mandou uma professora que muito admiro, também antropóloga e feminista. Recorri à ela em meio às minhas decisões e atititudes num dia em que, não obstante os conflitos internos, tive que agir muito rápido e ela me disse: Flávia, se somos feministas é porque somos antes e acima de tudo pelos direitos humanos. Nesse dia, acionei a OAB e, através dela, a corregedoria de polícia, sustando assim os espancamentos entre outras coisas que não cabe aqui detalhar.
Escrevi um capítulo da tese e artigos que publiquei e apresentei em congressos em grupos de trabalho feministas os quais tiveram acolhida entre as feministas acadêmicas...

Acho pertinentes e oportunas as crítica de Chattejee e Maira às feministas americanas, o que não torna menos pertinentes (embora talvez menos oportunas) as posições das feministas americanas. Velhos conflitos para antropólogas que são também feministas (cada vez resisto mais a idéia de antropologia feminista - um paradoxo difícil). Sempre digo aos meus alunos: meu relativismo vai até os limites dos direitos humanos (incluindo os das mulheres)…

Flavia Motta em abril 26, 2008 3:33 PM


#16

Gostaria de ver onde é que seu texto vai chegar...

O que fazer, então? Abandonamos esse projeto iluminista? E botamos o que no lugar?

Danilo em abril 27, 2008 5:46 AM


#17

Não vejo nada de errado se as feministas não tiverem orgulho de serem norte-americanas.
Essa teoria de atacar na fonte é utópica demais nesse caso.
Já existem anti-imperialistas ocupados com a árdua tarefa de minar o poder da nação norte americana.
Cada um na sua frente, sempre com boas intenções coletivas, lutando contra aquilo que mais o ofende de ver ou ouvir falar.

Célio em abril 30, 2008 3:37 PM


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