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Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



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quinta-feira, 29 de maio 2008

Histórias do futebol: Obdulio Varela

obdulio.jpg Diz a lenda que na noite de 16 de julho de 1950, Obdulio Varela saiu sozinho para tomar uma cerveja no Rio de Janeiro. Por si só, esse fato já é um testemunho da diferença entre o futebol de então e o de hoje. Varela, o capitão da Seleção Uruguaia, acabara de protagonizar o mais chocante feito da história das Copas do Mundo: a vitória de virada sobre a favorita Seleção de Zizinho e Ademir, proclamada campeã por antecipação pelos jornais brasileiros.

Depois de algumas cervejas, El Negro Jefe é chamado pelo dono do bar. Havia um torcedor brasileiro que queria falar com ele. Varela se levanta preparado para o pior: um xingamento, uma agressão. O torcedor se aproxima, encara-o olho a olho, abraça-o e desaba num choro desesperado e convulsivo. Conta a lenda, ainda, que o capitão uruguaio consolou esse torcedor durante mais de meia hora.

Muito tempo depois, numa entrevista, Varela diria que nesse momento, com o torcedor brasileiro chorando em seu peito, ele se havia dado conta da dimensão daquela derrota para o Brasil. Também afirmaria que se soubesse que aconteceria tal tragédia nacional, ele não teria se esforçado tanto para ganhar, pois, afinal de contas, só os cartolas uruguaios lucraram com aquela vitória.

Eu lamentei muito não ter tido a oportunidade de entrevistar El Negro Jefe antes de sua morte, em 1996. Estive no Uruguai em 1995. Por uma fatalidade, o encontro não rolou. Varela é o autor da inesquecível frase: Los de afuera son de palo.

PS: Assisti ao épico 2 x 2 entre Fluminense e Boca Juniors ontem, em Avellaneda. Se aquele Noronha pode comentar futebol, eu posso dar aulas de física nuclear. O jornalismo esportivo brasileiro é uma vergonha. O televisivo é o pior de todos.



  Escrito por Idelber às 15:31 | link para este post | Comentários (46)



quarta-feira, 28 de maio 2008

Decisão sobre porte de drogas pode criar importante precedente jurídico

É promissora e polêmica a decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), que no último dia 31 de março absolveu Ronaldo Lopes, anteriormente preso por portar 7,7 gramas de cocaína. O tribunal entendeu que o porte de drogas para consumo próprio não é crime. Para fundamentar a decisão, o juiz José Henrique Rodrigues Torres argumentou que a proibição ao consumo de drogas é inconstitucional porque viola os princípios da ofensividade (não ofende a terceiros), da intimidade (trata-se de opção pessoal) e da igualdade (uma vez que portar bebida alcoólica não é crime). A íntegra da sentença está disponível online (pdf). A singela ironia é que se trata do mesmo tribunal que proibiu a marcha da maconha.

A condenação de Ronaldo havia se dado com base na famigerada lei 11.343, de 2006. Para o Juiz Torres, a lei é inconstitucional. Ronaldo alegou que a droga era para consumo próprio e, como a acusação de que ele traficava havia sido feita anonimamente, ela foi desconsiderada. Há outro dado que é, até onde sei, inédito. O Juiz Torres afirmou que a quantidade de droga que portava Ronaldo era irrelevante para caracterizá-lo como traficante.

É bem curioso ver a discussão que se armou entre os advogados no Consultor Jurídico. Não há como negar que ambos os lados do debate têm argumentos embasados na lei. Mas a decisão do Juiz Torres pode se transformar num precedente importante para aqueles que há tempos nos batemos por uma política de drogas que as entenda como caso de saúde pública e não de polícia.

Ronaldo Lopes ficou preso durante um ano.



  Escrito por Idelber às 02:54 | link para este post | Comentários (22)



terça-feira, 27 de maio 2008

Veneno Remédio: O Futebol e o Brasil, de José Miguel Wisnik

Afirmo sem medo de errar: chega às livrarias esta semana o melhor e mais sofisticado livro já escrito sobre o futebol na terra do futebol. Recebi a pérola ainda em estágio de provas, não pela minha amizade com o autor, mas graças ao Jornal do Brasil, que me encomendou uma resenha. Veneno remédio: O futebol e o Brasil (Cia. das Letras, 2008), de José Miguel Wisnik, é um livro sobre o futebol como jamais foi feito no Brasil. Não é uma história do esporte no país. Não é um estudo sociológico. Não é uma biografia de jogadores. Não é uma análise da política do futebol. É tudo isso e muito, muito mais. Acima de tudo, é um minucioso poema sobre o que o futebol diz sobre nós, sobre quem somos, sobre a fatalidade e a delícia de ser brasileiro.

Fico sem jeito de escrever o post, porque não quero antecipar e atrapalhar a resenha. Vou dizer algumas coisas que só posso dizer no blog e não no jornal: devorei as 430 páginas numa noite. Caramba, há quantos anos eu não lia 430 páginas numa noite! Acho que a última vez foi com Irmãos Karamazov.

Zé tem aquela qualidade maravilhosa: é um dos maiores intelectuais do país e gosta de futebol. Os livros de sociologia do futebol, em geral, são escritos por gente que não sabe diferenciar um meia-armador de um centroavante. Os que conhecem as minúcias do jogo e das arquibancadas, em geral, não escrevem livros. Zé é a indispensável ponte entre esses dois mundos. O cabra nasceu em 1948 em São Vicente e lá morou até 1966. Ia ver Pelé na Vila Belmiro todo fim de semana. Imaginem o que acontece com uma pessoa dessas. Há um momento do livro em que ele faz alusão a esse fato. Página 39: Um amigo dez anos mais novo, e também torcedor do Santos, ao ver filmes do auge da era Pelé, afirmou sem hesitar que o fato de eu ter sido exposto, em tenra idade, à força daqueles fatos, como se isso fosse normal, produziu danos irreparáveis à minha personalidade. Ele não foi mais explícito que isso, mas a frase me atinge. Na melhor das hipóteses, ela se refere à minha incurável tendência a ver sentido em tudo. Este livro é o resultado mais direto da resistência, longamente ruminada, dessa síndrome.

Há uma magistral leitura da diferença entre Pelé e Garrincha a partir de uma cisão chave: Garrincha, o que não tem pai, aquele que escapa à função paterna. Pelé, aquele sujeito inserido na estrutura edípica, prometendo, em 1950, ao pai que chorava – seu Dondinho, brilhante, mas fracassado craque – que um dia ele traria uma Copa para o Brasil. Há uma brilhante interpretação da pré-história do futebol, incluindo-se aí uma bela análise da função do tlachtli entre os aztecas. Há toda uma reflexão sobre a codificação das regras do futebol, pelos ingleses na segunda metade do século XIX, como a racionalização do que ameaçava ser puro jogo, mero ludismo. E há, acima de tudo, uma pergunta insistente: o que o modo brasileiro de jogar futebol – a nossa radicalização daquilo que o jogo tem de mais próprio, por oposição ao produtivismo e à matematicidade dos outros esportes – diz sobre quem somos. Tudo isso é o começo do livro. O seu miolo é a análise refinadíssima de todos os grandes momentos do esporte entre nós, de Marcos de Mendonça e Friedenreich até Ronaldinho Gaúcho e Robinho.

A leitura que faz Zé Miguel dos dois antológicos não-gols de Pelé na Copa de 70 (o chute do meio-campo contra a Tchecoslováquia e o corta-luz assombroso em Mazurkiewicz) estão entre as páginas mais poéticas já publicadas pelo ensaísmo brasileiro. Lembram-se das jogadas, não é? Na segunda, quando o duríssimo jogo contra o Uruguai já havia sido resolvido com a virada brasileira por 3 x 1, Tostão faz um passe em diagonal da esquerda para a direita, criando um vazio na defesa como só ele sabia fazer. Pelé vem correndo na diagonal oposta. No momento em que Pelé e a bola se encontrariam, acontece o absurdo, o imprevisível: Pelé recusa-se a tocá-la, passa direto, e sua trajetória forma, com a bola, um X que abraça Mazurka – um dos maiores goleiros de todos os tempos – para que o Divino Negão a recolha do outro lado, tocando-a para o gol. Mazurka, impotente, permanece congelado, no tempo dos humanos. A bola passa a centímetros da trave direita. Lendo o livro de Zé Miguel, você entende tudo o que essa finta diz sobre o Brasil.

Chega. Se não, eu fico sem nada para dizer ao JB. Veneno Remédio, de Zé Miguel, chega às livrarias esta semana. Pare de ler blogs e vá lá comprar. É sério candidato a livro do ano.

PS: Há um belíssimo texto novo na Palestina.

PS 2: Pouco a pouco, Alexandre Nodari vai compondo um extraordinário blog. Gostei muito da idéia das "frases feitas": posts que produzem seu efeito a partir da justaposição de duas citações.



  Escrito por Idelber às 00:12 | link para este post | Comentários (30)



sábado, 24 de maio 2008

Norman Finkenstein preso e deportado por Israel

O intelectual e acadêmico norte-americano Norman Finkenstein, um dos mais enfáticos críticos da ocupação israelense da Palestina, foi preso e deportado ao chegar ao aeroporto Ben Gurion, em Tel-Aviv, na sexta-feira, a caminho dos territórios ocupados. As notícias que chegam de várias fontes afirmam que foi dito a Finkenstein que ele está banido de Israel por 10 anos.

Finkenstein é filho de sobreviventes do Holocausto e defensor de uma solução bi-estatal para o conflito no Oriente Médio. Apesar de ser autor de vários livros e reconhecidíssimo como cientista político, Finkenstein foi demitido da Universidade DePaul, em Chicago, no ano passado, depois de intensa campanha do lobby pró-ocupação.

(obrigado, Márcia)



  Escrito por Idelber às 16:58 | link para este post | Comentários (41)



quinta-feira, 22 de maio 2008

Desafiando a ocupação militar israelense, Festival Literário foi um sucesso

PalFest-2.jpg

Foi um sucesso o Festival Literário da Palestina, organizado por um grupo de escritores liderados pela anglo-egípcia Ahdaf Soueif. Reconhecendo as dificuldades de locomoção dos palestinos, vítimas há 40 anos da mais brutal ocupação militar da era moderna, o festival viajou pela Cisjordânia e por Jerusalém. Num admirável gesto, os escritores se recusaram a utilizar as estradas exclusivas de turistas e israelenses. Optaram por fazer o percurso a que são obrigados os palestinos (sim, o Apartheid israelense introduziu esta novidade desconhecida até mesmo na velha África do Sul e no Jim Crow americano: as estradas segregadas). Em todas as cidades, os eventos foram assistidos por grande público.

No primeiro dia, os escritores foram detidos durante três horas pelas forças de ocupação israelenses na fronteira da Jordânia com a Palestina. Depois de liberados, encontraram casa lotada à sua espera em Dar-el-Tifl, Jerusalém. O tema do primeiro dia foi “viagens”. Will Dalrymple fez um relato de suas jornadas pela Palestina, enquanto Hanan al-Shaykh arrancou boas risadas do público, demonstrando mais uma vez por que é uma das escritoras favoritas entre os palestinos. No segundo dia, a Universidade Birzeit, em Ramallah, também teve casa lotada para a comunicação de Victoria Brittain, que fez leitura de Enemy Combatant, seu livro em co-autoria com Moazzam Begg sobre o encarceramento deste último em Guantánamo. A leitura de Pankaj Mishra lidou com tensões raciais na Índia e no Paquistão, enquanto Ahdaf Soueif falou sobre o colonialismo inglês no Egito. Depois de um workshop com alunos e uma reunião com escritores palestinos, o Teatro Kasaba também lotou para a sessão da noite em Ramallah.

Na estrada para Hebron, os escritores tiveram que passar duas vezes pelas jaulas metálicas dos postos de controle da ocupação que, às centenas, picotam toda a Palestina, separando cidades, vilas, famílias. Num dos postos, viram uma mulher palestina chorando, bebê ao colo, levando o marido doente, com tubos pelo corpo. Eles haviam sido barrados pelas forças de ocupação. Não havia nada, evidentemente, que os escritores pudessem fazer por ela. Em Hebron, os autores puderam ver a cena terrorífica que são os habitantes dos assentamentos israelenses ilegais fazendo jogging com suas AK-47 penduradas, em constante provocação. Nesse momento, alguns escritores já tinham que se afastar, em meio a crises de choro. O relato de Ahdaf é que, nessa noite, os poemas de Suheir Hammad, escritos para o povo palestino, ecoaram com muita força entre as centenas de assistentes.

Ao longo da peregrinação, os escritores foram aprendendo a “ler” o espaço e a entender a lógica que preside a construção dos fortemente armados assentamentos ilegais de israelenses, que já roubam 40% do território da Cisjordânia. No topo de um monte, uma enorme construção bloqueia o acesso dos habitantes do vilarejo palestino de Silwan a Jerusalém Oriental. Quando as escritoras Esther Freud e Hanan al-Shaykh decidem fazer uma caminhada até o hotel, são cercadas por cães treinados pelas forças de ocupação israelenses e logo avisadas pelos soldados que elas haviam sido observadas e poderiam ter sido fuziladas.

Palfest-8a.jpg

Roddy Doyle, Ahdaf Soueif, Hanan al-Shaykh, Jamal Mahjoub e Nathalie Handal foram as estrelas do quarto dia do evento, que se realizou na Universidade de Belém. Nathalie falava em sua cidade natal. Depois do evento, o Reverendo Mitri Raheb levou os escritores para uma visita ao Muro do Apartheid, que enjaula Belém por três lados diferentes. Estrangulada pelo muro, Belém vive situação crítica e todos os relatos são de que o evento foi muito importante, simbolicamente, para a cidade. Antes do retorno a Jerusalém, os escritores puderam ver as casas em que as famílias palestinas que se recusaram a sair passaram a ter que acessar pelas janelas, proibidos que foram de entrar pela porta da frente. Também viram as casas que seus donos são proibidos de trancar, posto que são invadidas diariamente entre a meia-noite e as 3 da manhã para que os soldados israelenses “chequem” seus moradores.

O quinto e último dia do evento lotou o Teatro Nacional Palestino. Desta vez, os visitantes foram acompanhados por Raja Shehadeh, escritora e advogada palestina que acaba de receber o Prêmio Orwell pelo seu livro Palestinian Walks: Notes on a Vanishing Landscape. Depois das leituras e palestras literárias, apresentou-se o Yasmeen, um grupo do Conservatório Nacional de Música Edward Said. O vocalista e alaudista do grupo não pôde ir, aprisionado num posto de controle da ocupação militar israelense. Num final emocionado, Ahdaf Soueif se juntou aos outros escritores no palco, enquanto Hanan al-Shaykh lia a última carta de seu sogro, enviada 10 dias antes de que os israelenses o assassinassem.

PS: Mais informações (em inglês) no site do Festival e no artigo de Ahdaf Soueif para o Guardian. As fotos que ilustram o post são de Jamie Archer. A primeira mostra a Universidade Birzeit durante o evento. A segunda mostra o grupo de escritores ao lado do Muro do Apartheid.

PS 2: Não perca a entrevista do Monde Diplomatique com Mustafá Barghouti, líder da Iniciativa Nacional Palestina (o envio do link foi cortesia do amigo – e, na minha opinião, maior prosador brasileiro vivo – Milton Hatoum).



  Escrito por Idelber às 23:26 | link para este post | Comentários (8)



terça-feira, 20 de maio 2008

Aviso

Só um rápido aviso para quem perguntou: a minha palestra desta quarta-feira, sobre o romance argentino contemporâneo, acontece na sala 3053 da Faculdade de Letras da UFMG, às 19 horas. Depois tem cervejinha.

Logo que eu terminar os ajustes de chegada aqui em Belo Horizonte, o blog volta ao ritmo normal.



  Escrito por Idelber às 19:10 | link para este post | Comentários (6)



segunda-feira, 19 de maio 2008

Boris McCutcheon and the Saltlicks

boris.gifNão aparecem muitos trovadores na linha de Bob Dylan ou Leonard Cohen, instrumentistas que compõem, cantam e realmente têm algo a dizer. Foi nas andanças pelo Novo México que descobri um desses, depois de perguntar quem andava misturando da forma mais promissora a música do sudoeste americano com o rock (é uma pergunta que costumo fazer em todos os lugares em que passo que têm forte tradição musical autóctona). Boris McCutcheon já tem estrada suficiente para não ser mais uma “revelação” mas, discreto, vem produzindo sua obra fora do circuito do rock e pop internacionais. Venceu festivais no Novo México e têm um público fiel, que o idolatra como oráculo cult. O álbum que me ganhou de vez foi esse aí, Cactusman versus the Blue Demon, o terceiro de Boris, uma espécie de passeio conceitual por fábulas desérticas.

A voz de McCutcheon, com timbre rouco que lembra a de Cohen, faz o cantor parecer bem mais velho, sensação acentuada pelas letras imagísticas, com frequência dylanescas. Acompanha-o um time de talentosos músicos, os Saltlicks. A banda tem um pé no folk, mas a guitarra elétrica de McCutcheon e os teclados / piano de Kevin Zoernig se encarregam de produzir efeitos que escapam à fórmula relativamente homogênea do gênero. As apresentações disponíveis no YouTube são todas acústicas, como esta versão de "Beautiful Prison":

Mas a alma da banda está nas faixas elétricas, de rock com leve toque alucinatório, como a excelente abertura do disco do Cactus, “Volcanic Wind,” disponível online. Além das letras que relatam fábulas ambientadas no deserto do sudoeste americano, McCutcheon também compõe contos de abandono e traição à la Nick Cave, como em Caves of Burgundy, desse mesmo notável disco. É um rock que passa ao largo da tediosa sucessão de "independentes" que aparecem e logo depois são absorvidos pelos clichês da indústria fonográfica. Fica aí a recomendação do blog para os roqueiros.

PS. Este post começa a pagar uma dívida com os antigos leitores que acompanhavam os outrora mais frequentes posts sobre música.

PS 2. E por falar em música, belo-horizontinos, atenção: Tom Zé vem aí, no fim do mês.

PS 3. Um lembrete: Hoje às 14:30, no Auditório 2001 da Faculdade de Letras da UFMG, apresento palesta intitulada Para a crítica da violência: Benjamin, Derrida e o palestino ausente. Os conterrâneos interessados em filosofia serão muito bem-vindos por lá.



  Escrito por Idelber às 01:25 | link para este post | Comentários (16)



quinta-feira, 15 de maio 2008

Drops

Depois de um post clássico na era MSN-Platão, o Almirante marca a época Última Ceia-Twitter. É mais um espécimen de um gênero favorito do Almirante, o clássico instantâneo.

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Só recentemente um veículo nacional, a Carta Capital, fez uma reportagem sobre o escândalo no Detran do Rio Grande do Sul. Já há tempos o RS Urgente vem dando em primeira mão as notícias do caso, para as quais não se pode contar, claro, com a grande imprensa gaúcha.

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Uma novidade não surpreendente, mas mesmo assim significativa, na campanha americana: a principal organização de defesa dos direitos reprodutivos, a NARAL, endossou Barack Obama.

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Auto-jabá:

Na segunda-feira, dia 19, às 14:30, haverá uma palestra minha no auditório 2001 da Faculdade de Letras da UFMG, no Campus da Pampulha, BH. Título: “"Para a crítica da violência": Benjamin, Derrida e o palestino ausente”. O convite é do Núcleo Walter Benjamin, a quem agradeço.

Na quarta, dia 21, às 19 horas, na mesma FALE-UFMG, outra palestra: “"Experiência, memória e masculinidade no romance argentino contemporâneo". O convite é de meu amigo Prof. Eduardo e do programa em Literaturas Hispânicas, a quem deixo o obrigado.

Os amigos belo-horizontinos estão convidados a ambas. A primeira é mais técnica, sobre um ensaio de Walter Benjamin e uma leitura dele feita por Derrida. Recomendo só se você tiver uma mínima conversa com pelo menos um destes dois autores. A segunda, a de quarta-feira, é bem mais light e de interesse mais geral, já que comenta alguns romances argentinos realmente muito bons.

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Nos últimos tempos, fazer a peregrinação aérea de New Orleans a Belo Horizonte tem significado não só preciosos reencontros familiares, mas também reencontros com uma turma que inclui Fefê Castro, cujo blog é cria das minhas amigas Mothern, que são amigas do Dr. Cláudio, que é pai de Ana Letícia, filho de Soié e, como Luiza Voll e Leandro Oliveira, apreciador da boa arte. Este blog tem muito orgulho de ser parte de uma rede de amizades blogueiras belo-horizontinas.

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Enfiar-se num avião em New Orleans para descer em Belo Horizonte também requer sempre alguns ajustes. Um dos graves é ir de um lugar plano e sinalizado, onde se dirige bem e os outros motoristas passam sorrindo, para um lugar onde as pessoas dirigem automóveis enlouquecidas. Sim, eu sei que o trânsito de SP é pior, mas em SP as pessoas dirigem bem. Em BH, bloqueia-se cruzamento, acelera-se para impedir a mudança de faixa do outro, zanza-se por várias pistas para saber qual irá mais rápido: é a selva em forma de impulso coletivo suicida. A resolução para os próximos três meses é andar bastante de táxi ou trocar o Escort 1995. Ou um, ou outro.

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Na minha bagagem vai The Ethnic Cleasing of Palestine, um livro sobre qual conversaremos no dia 09 de junho, num papo patrocinado por mim e por Pedro Dória. O Daniel Lopes já escreveu uma ótima resenha na Caros Amigos.

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A alguma editora brasileira que estiver prestando atenção: que se traduza El común olvido, romance da escritora argentina Sylvia Molloy. É uma daquelas jóias indescritíveis. O protagonista é um jovem que sai dos EUA (onde mora desde os 12 anos) de volta à Argentina, para depositar os restos mortais da mãe com quem emigrara. Só nessa viagem conhece, realmente, a mãe já morta, em meio a uma trama amarradíssima que vai desvendando camadas do passado dela que, ao mesmo tempo, vão dizendo ao jovem quem é ele. Trata-se de uma das vozes masculinas mais fascinantes que encontro na ficção em anos, criação justamente de Molloy, a autora de En breve cárcel, “romance lésbico”.

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Se tudo andar bem com o laptop e a rede mundial de computadores, durante os próximos três meses e meio este blog transmitirá de BH (a maior parte do tempo) e também de Juiz de Fora, São Paulo, Buenos Aires e Santiago do Chile, além da eventual viagem ao interior de MG e ao Rio. Passo em Sampa em breve, para o sempre excelente congresso da Abralic (Associação Brasileira de Literatura Comparada), que acontece na USP, do dia 13 ao 17 de julho.

É isso. Até já.

Update. Obama: The World Music Album.



  Escrito por Idelber às 04:28 | link para este post | Comentários (39)



terça-feira, 13 de maio 2008

A 120 anos da Lei Áurea: a ação de inconstitucionalidade contra as cotas

Neste 13 de maio em que se celebram 120 da Lei Áurea, o Supremo Tribunal Federal está julgando duas ações diretas de inconstitucionalidade, uma contra a política de cotas nos vestibulares das universidades estaduais do Rio de Janeiro e outra contra o programa ProUni. Estas ações são promovidas pela Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino (Confenen) e foram apoiadas por 113 figuras públicas, num texto que tem alguns méritos, mas que escolheu um título bastante infeliz: 113 cidadãos anti-racistas contra as leis raciais.

O título é infeliz porque se ancora naquele velho truque retórico: igualar o racismo real – a discriminação e a exclusão vividas cotidianamente por negros e mulatos ao longo de séculos no Brasil – com um remédio paliativo, que é o sistema de cotas que cria incentivos para a entrada de negros e mulatos às instituições de nível superior, como se “racista” fosse este último! Daí, é um passo para aqueles que se opõem a essas políticas se auto-intitularam os “anti-racistas”, implicitamente etiquetando de “racistas” aqueles que as defendem.

A posição do blog sobre as cotas raciais sempre foi a de que é possível que pessoas razoáveis e genuinamente preocupadas com a justiça social tenham posições divergentes sobre elas. Eu mesmo, de posição entusiasticamente favorável, tendo ouvido muitos argumentos, passei ser mais sensível à idéia de que talvez a legislação racializada possa ser substituída, com melhores efeitos, por políticas de cotas sociais (destinadas, por exemplo, a alunos de escolas públicas) e por investimento maciço em combate ao racismo e em incentivo educacional à população negra e mulata. Posso, por exemplo, discordar da atual política de cotas da UFRGS, que determina que 30% das vagas sejam reservadas para alunos das escolas públicas, sendo metade destas para negros. Mas parece-me inaceitável que se tente silenciar o debate sobre as cotas com uma ação de inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal.

Em outras palavras, é perfeitamente possível que você seja contra as cotas e, ainda assim, torça para que o STF siga o voto do relator Carlos Ayres Britto, que foi pela sua constitucionalidade. Isto significaria simplesmente que você não acredita que seja o momento da suprema corte do país sufocar iniciativas que permitiram a entrada de centenas de milhares de cidadãos brasileiros à universidade. Por isso, alegrei-me muito de encontrar o manifesto que defende a constitucionalidade das cotas (pdf), assinado também por um time respeitável. Trata-se de um extenso documento, com ampla fundamentação e sólida pesquisa. Recomendo, com muita ênfase, a leitura. Você pode acrescentar seu nome assinando aqui.

O Brasil conta hoje com 20 mil cotistas negros cursando a graduação em várias universidades do país. 20 mil. Não é muito, veja só. Ao contrário do que se apregoa, as pesquisas acerca do desempenho dos cotistas mostram resultados muito bons. O ProUni já alocou 440.000 bolsas e conta com 310.000 alunos. Considerando-se os beneficiados pelo ProUni, aí sim, as iniciativas de inclusão no ensino superior já estariam em vias de produzir um impacto real na sociedade brasileira.

Pode ser que em algum momento deste processo, a sociedade brasileira – ou a maioria de suas universidades – decida que as cotas racias não são o caminho a seguir. Mas impugná-las hoje, por decreto, via Supremo Tribunal Federal, seria lamentável.

* Meus agradecimentos ao Jayme Serva, pelo convite a escrever este post e pelo link que me levou ao manifesto em defesa da constitucionalidade das cotas.



  Escrito por Idelber às 04:12 | link para este post | Comentários (134)



sábado, 10 de maio 2008

Robert Fisk relata a guerra por procuração no Líbano

Outra humilhação americana. Os pistoleiros xiitas que passavam de carro em frente ao meu apartamento em Beirute ocidental ontem à tarde buzinavam, faziam o V da vitória e apareciam pelas janelas dos utilitários desportivos com seus rifles no ar, provando aos muçulmanos da capital que o governo eleito do Líbano perdeu.

E perdeu mesmo. O exército nacional ainda patrulha as ruas, mas só para impedir matanças ou massacres sectários. Longe de desmontar o sistema de tecomunicações secreto do Hizbollah pró-iraniano – ou de desarmar o próprio Hizbollah – o ministério de Fouad Siniora permanece no velho e turco Serail (palácio de governo), denunciando a violência com a mesma autoridade que o governo do Iraq na zona verde de Bagdá.

O exército libanês assiste o Hizbollah construir barricadas. E não faz nada. Como conflito Teerã versus Washington, o Irã venceu, pelo menos por enquanto. Walid Jumblatt, o deputado e líder druso e apoiador pró-americano do governo de Siniora, está isolado em sua casa em Beirute ocidental, mas não lhe foi feito nada. O mesmo se aplica a Saad Hariri, um dos mais proeminentes deputados e filho do primeiro-ministro assassinado Rafik Hariri. Ele continua em seu palácio de Beirute ocidental, em Koreitem, protegido pela polícia e por soldados, mas incapaz de se mover sem aprovação do Hizbollah. O simbolismo é tudo.

Mais que de um golpe de estado ou de uma guerra civil, Robert Fisk prefere falar da guerra por procuração (proxy war) entre Irã e EUA no Líbano. Fisk é, sem dúvida, o jornalista ocidental que mais profundamente conhece o Líbano, onde reside há décadas. Tem aquela particularidade: não é um “enviado especial” que escreve no hotel. Ele vai atrás do barraco. Ele estar vivo até hoje é um mistério e uma dádiva. As colunas de Fisk no Independent serão indispensáveis nos próximos dias.

PS: Há outras boas matérias disponíveis em português, de Tariq Saleh, para a Folha (link para assinantes) e de Robert F. Worth e Nada Bakri para o NYT.



  Escrito por Idelber às 06:12 | link para este post | Comentários (11)



quinta-feira, 08 de maio 2008

A decadência de um clã: Balanço das primárias democratas

michelleobama2.jpg O declínio de um clã tende a ser mais melancólico que o de uma pessoa, já que ao indivíduo costuma estar dada a possibilidade de ir descendo com um pouco mais de dignidade. Os clãs, especialmente os da política, têm excessivas obrigações, digamos, teatrais. Quanto maiores e mais poderosos são, mais ampla será a discussão interna acerca de como admitir, com classe, que sofreram a derrota emblemática, a que indica, nas palavras do NYT, uma troca da guarda. É a história dos Clinton nos últimos poucos meses e, especialmente, nesta semana.

“Derrota” aqui é relativo, claro. Hillary continua senadora poderosa de NY e Bill uma referência ineludível de presidente de sucesso, apesar de tudo. Eles mantêm considerável poder de barganha e força no partido. Mas a história recente indica a derrota, mais que da candidatura Hillary, da estratégia que os Clinton canonizaram nos 90: a combinação entre a apropriação de bandeiras republicanas -- rigor fiscal, “transição do welfare para o trabalho” etc. --, as táticas violentas de corpo-a-corpo contra os adversários políticos e um componente populista com algumas bandeiras, defendidas com a consciência de que apelos simbólicos bem manipulados são suficientes para manter feliz uma parte cativa do eleitorado do Partido Democrata (leia-se aqui: negros).

Este último componente sustentou aquele escandaloso mito, o de Bill Clinton como o “primeiro presidente negro” dos EUA -- idéia que talvez seja a principal baixa, o mais ilustre cadáver da campanha destas primárias, em que Hillary concorreu contra Barack Obama como se ela fosse a candidata do Partido Republicano. Os Clinton não esperavam cair assim: no ano da “candidata inevitável” (slogan da campanha de Hillary até aproximadamente jan./08), surpreendidos por um garoto de 40 e poucos anos, senador júnior, ao mesmo tempo de origem humilde e de Harvard e, para piorar, mais brilhante retoricamente que Bill, pondo-o no chinelo na batalha discursiva da campanha. Para completar o baile, ainda por cima, o cara é preto. É surpresa demais para quem traz a história que trazem os Clinton.

Por isso há que se dar tempo para combinem entre si a forma mais elegante de ir admitindo a derrota (de qualquer forma, não interessa a Barack Obama ser coroado semi-oficialmente na semana que antecede a primária da Virgínia Ocidental). Esta derrota não seria difícil de assimilar para um grupo menos ambicioso que os Clinton: caramba, não é vergonha para ninguém perder por aproximadamente 52 x 48 no cômputo geral, mantendo um assento no senado por Nova York e a opção de ser líder da maioria ou qualquer outra coisa que quiser (não a Vice-Presidência na chapa Obama, que não é boa idéia para ninguém). Mas, para os Clinton, é uma dinastia que se desmorona.

Quando se diz aqui “os Clinton”, entenda-se não só Bill e Hillary, mas todo um grupo (cuja estratégia política fica em mãos de James Carville, Mark Penn etc.) que é diretamente responsável por uma campanha eleitoral que foi a maior acumulação de sandices das Américas desde que Parreira inventou o 6-0-4. Primeiro havia que se coroar Hillary antes de começar o jogo, pois era a candidata “inevitável”. Esta tática durou até as primárias de Iowa – estado branquelíssimo -- em que Barack levou, John Edwards ficou em segundo e Hillary em terceiro. Daí houve o breve momento pseudo-feminista da campanha, a rápida virada de Hillary em New Hampshire com o choro emocionado num diner e o tema do I found my voice. Quem conhecia sua trajetória com as bandeiras feministas --- assim como com as sociais, as raciais, as democráticas – sabia que a transcendência delas para Hillary sempre havia sido eminentemente eleitoral. Feministas atrás de feministas atrás de feministas já haviam aderido à campanha de Obama. Em todo caso, o momento morreu ali porque nas primárias seguintes Obama passou a vencer também entre as mulheres, na maioria dos estados.

Daí foi morro abaixo: dos ataques pessoais contra Obama inaugurados na Carolina do Sul aos argumentos usados para desqualificar os estados que votaram nele na Super-terça, definiu-se o que seria o perfil da campanha de Hillary. Era a chamada kitchen-sink strategy, que se poderia traduzir livre e futebolisticamente como abaixo do gogó tudo é canela ou se não sangrou nem fraturou, não é falta. A barragem de ataques foi coisa que não se via em décadas no Partido Democrata. Paralelamente, operava a tática da inevitabilidade: as vitórias do adversário haviam que ser desqualificadas. Não valem vitórias em estados que certamente votarão Republicano no outono (Utah, Idaho), não valem vitórias no Sul de concentração negra (Mississippi, Geórgia, Louisiana), não contam os estados que usam assembléias em vez de cédulas (Maine, Alaska, Kansas). Havia que se pensar no candidato que poderia derrotar McCain nos chamados swing states. Daí Obama passa a vencê-la em vários swing states (Virgínia, Colorado, Wisconsin, Missouri) e a estratégia da desqualificação assinada por Mark Penn e Carville em nome dos Clinton passa a precisar de malabarismos ainda mais mirabolantes. A última tentativa foi grudar em Obama o rótulo de inelegível porque ele continuava perdendo entre o eleitorado hillbilly dos Apalaches:

Appalachian_Region_of_US.jpg
(fonte do mapinha: Wikipedia; sobre o delírio que é apresentar Obama como inelegível porque "somente" consegue 40% dos votos num eleitorado pequeno, caipira e reacionário, que geralmente vota Republicano de qualquer forma, cobre-se-me outro post. Esta é a única cordilheira que conheço razoavelmente bem).

Enquanto Obama se consolidava como o “candidato da esperança e da mudança”, Clinton se credenciava como a candidatura que dizia duas coisas: 1) “essas mudanças não acontecerão tão facilmente como vocês imaginam”; 2) elections are a full-contact sport [eufemismo para vamos dar porrada mesmo] and if you can't take it, drop out of it. Quando eclode o escândalo fabricado com o pastor Jeremiah Wright e Obama tem seu primeiro momento de baque real, ao invés de abraçar a chance de fazer uma campanha coerente com a história do partido, Hillary embarca na tática do culpado por associação de estirpe republicana: e dá-lhe declarações de que eu teria saído daquela igreja, dá-lhe falsa indignação com ele ficou 20 anos naquela igreja, dá-lhe vídeos estilo política do medo, dá-lhe hesitação calculada em cadeia nacional ao responder a pergunta sobre ela saber ou ou não que Obama sempre foi cristão e nunca muçulmano.

O que é mais promissor nestas primárias é que Obama teve N chances de desenterrar esqueletos dos Clinton para uma campanha negativa e não o fez (e, acredite, como há esqueletos no armário! Comecemos onde? Em 1975?). Algumas dessas possibilidades de adoção da kitchen-sink strategy viraram até enquete no blog. Obama as recusou, como a maioria. Criticou, claro, Clinton em questões legislativas (seu voto pela guerra do Iraque, a demagógica proposta de suspender o imposto da gasolina por um verão e fingir que as petroleiras pagarão a conta), mas só quem falsifica a realidade em nome da preferência eleitoral ou da “ponderação” veria, nestas primárias americanas, as baixarias como responsabilidade das duas campanhas. Não. Foi a estratégia de um clã em declínio, recusada pelo outro lado.

Essa é a gigantesca tarefa do luto com a qual se defrontam hoje os Clinton: não só era um senador júnior; não só deu um baile retórico em Bill; não só chegou a Harvard tendo sido pobre; não só, heresia das heresias, era preto. Ainda por cima ganhou jogando limpo. É muita petulância. Ora, ora, desde 1992 se sabia – supúnhamos – que política não é um jogo que se ganha jogando limpo.

A reversão desta "lei" é o legado da vitória parcial de Obama e a imensidão do choque que os Clinton têm sobre o seu colo. Que caíssem num tiroteio contra a extrema-direita de Rush Limbaugh e Kenneth Starr era um final heróico para o qual estavam preparados. Que tenham caído agindo como Limbaugh, contando com o apoio de Limbaugh (que os preferia como adversários) e tentando manchar um jovem senador negro que veio como candidato da esperança foi, sem dúvida, uma amarga ironia que a História reservou para os Clinton. Por mais traições que tenham cometido, eles talvez não a mereciam. Mas é fato que ainda têm tempo de lidar com ela dispondo de alguma grandeza.



  Escrito por Idelber às 18:34 | link para este post | Comentários (35)



segunda-feira, 05 de maio 2008

Maio de 68 e jabás

Grosso modo, os 40 anos de Maio 68 produziram três reações:

1) “Maio 68 é responsável por todos os males que vivemos hoje: falta de autoridade, relativismo absoluto, crise dos valores”;

2) “Maio 68 é responsável por todas as conquistas das quais o presente pode se gabar: pluralismo, direitos das minorias, laicismo, anti-autoritarismo”;

3) “Maio 68 teve coisas geniais e coisas estúpidas”.

A pior, a mais medíocre, conformista, ignorante e reacionária é obviamente a terceira.


Acompanhei de perto a enxurrada de textos sobre maio de 68 em vários países. Adivinhem onde encontrei o texto mais brilhante. Alan Pauls, mestre como sempre. Leia o texto de Alan e depois confira, no caderno especial (link para assinantes) da Folha de São Paulo, a sucessão de exemplos do que ele chama de “reação medíocre e conformista” ao legado de Maio 68.

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Jabás vários:

Por iniciativa da extraordinária escritora anglo-egípcia Ahdaf Soueif, e com o apoio de sumidades literárias como Chinua Achebe, John Berger, Mahmoud Darwish, Seamus Heaney e Harold Pinter, inicia-se na quarta-feira, dia 07 de maio, o Festival Literário da Palestina, que levará à Cisjordânia um belo time de escritores. Do material de divulgação do evento: “reconhecendo as dificuldades que os palestinos enfrentam, sob ocupação militar, para viajar em seu próprio país, o festival viajará rumo a seu público, em Jerusalém, Ramallah, Jenin, Belém.” Mais detalhes do site do festival. Salam, Ahdaf.

Você se interessa por quadrinhos? Chegou o blog que vai abafar neste tema. Senhoras e senhores, HQ e Cultura, do meu amigo Afonso Andrade. Bem-vindo à blogosfera, Afonso.

Outro leitor histórico, Alexandre Nodari, também se rendeu à blogagem e inaugura um espaço que merece seu bookmark desde já. Boas vindas também ao Cultura e barbárie Consenso, só no paredão.

Nas minhas andanças por aí, achei mais um blog que me impressionou muito pela qualidade do texto. Bookmark também no Histórias do Brasil. O post sobre a Copa de 1974 é um primor.

Já é de conhecimento da comunidade blogueira musical, mas talvez algum leitor do Biscoito ainda não saiba: Mestre Tom Zé anda blogando a mil (acho que cheguei lá pela primeira vez via Animot).

Para se entender o México e a cultura mexicana, tão diferente da nossa, há um livro fundamental: La jaula de la melancolía. Acabei de inteirar-me de que o seu autor, o grande Roger Bartra, já está blogando há oito meses.

E aí vai uma idéia que seria interessante aproveitar no Brasil: Cuento mi libro, o primeiro vídeo blog de escritores latino-americanos (via Oliverio Coelho que, apesar do sobrenome, não é brasileiro, mas argentino).

Boa navegação.



  Escrito por Idelber às 19:22 | link para este post | Comentários (31)



domingo, 04 de maio 2008

Sobre a marcha da maconha

Conto com leitores e leitoras dispostos a escandalizar-se junto comigo ante o fato de que agentes da lei ainda confundam a apologia do uso de drogas com a apologia de uma mudança na legislação que criminaliza o uso das drogas?

Parece uma distinção relativamente fácil de se fazer, não?



  Escrito por Idelber às 18:20 | link para este post | Comentários (51)



sábado, 03 de maio 2008

Novidades promissoras no caso Paulo Cesar de Araújo x Roberto Carlos

roberto.jpgHá novidades no caso Paulo Cesar de Araújo x Roberto Carlos. Como sabem os leitores do blog, a biografia escrita por Paulo Cesar foi proibida em abril de 2007 depois de um acordo-arapuca em que o autor, representado pela editora e sem a presença de sua própria advogada, se viu sem condições de enfrentar o massacre jurídico. O acordo assinado previa o recolhimento dos livros e reservava a Roberto Carlos, inclusive, o direito de comprar quaisquer exemplares que ainda fossem encontrados nas livrarias e ser ressarcido pela editora.

Aí vai, em primeira mão, a última notícia: na vigésima vara cível do Rio de Janeiro, a juíza Márcia Cristina Cardoso de Barros acaba de proferir uma sentença promissora. De mensagem pessoal enviada a mim por Paulo Cesar de Araújo (e publicada aqui, claro, com sua permissão), chegam notícias alvissareiras:

<< Sobre a reclamação do artista de que o livro faz uso indevido de sua imagem e expõe sua intimidade, a magistrada argumenta que "as pessoas célebres, em face do interesse que despertam na sociedade, sofrem restrição no seu direto à imagem. Admite-se que elas tacitamente consentem na propagação de sua imagem como uma conseqüência natural da própria notoriedade que desfrutam".

A magistrada reconhece que Roberto Carlos é portador de uma doença chamada TOC (transtorno, obsessivo, compulsivo) e, por isso, ela afirma na sentença que "o interesse processual não pode firmar-se na obsessão compulsiva de tudo controlar sobre si mesmo, com o alheamento do direito democrático constitucional de informação, sobrepujador do direito à proteção da imagem e da honra, se a pessoa é pública e a informação verdadeira". Na bibliografia citada no texto da juíza consta o livro "Mentes e manias: entendendo melhor o mundo das pessoas sistemáticas, obsessivas e compulsivas", de Ana Beatriz Barboza Silva (Editora Gente. 2004).

Sobre a reclamação do artista de que o autor do livro estaria obtendo indevidamente ganhos financeiros com a sua história, a magistrada diz que o uso não autorizado de imagem alheia também pode ocorrer "sempre que indispensável à afirmação de outro direito fundamental, especialmente o direito à informação - compreendendo a liberdade de expressão e o direito a ser informado". Por essa presunção de interesse público nas informações, diz ela, fica justificada a utilização da imagem alheia "mesmo na presença de finalidade comercial, que acompanha os meios de comunicação no regime capitalista".

Entretanto, apesar deste parecer contrário a Roberto Carlos e de condená-lo no pagamento das custas processuais e em honorários advocatícios, a juíza manteve a proibição do livro sob a justificativa de que houve aquele tal acordo entre as partes no foro criminal de São Paulo, ano passado. Diante disso, a minha advogada Dra. Deborah Sztajnberg entrou com o recurso "embargos declaratórios" dirigido à própria juíza Márcia Cristina. >>


O blog não pode senão celebrar as decisões da juíza Márcia Cristina Cardoso de Barros detalhadas nos três primeiros parágrafos da mensagem e parabenizá-la por reconhecer o que sabemos todos que acompanhamos o caso: que se trata aqui de direito elementar de estudo, pesquisa e informação de fatos públicos da cultura brasileira. Este direito foi cerceado de uma forma embaraçosa para a democracia do país, com recolhimento de um livro -- coisa própria de ditaduras. Obrigado à juíza Márcia Cristina por ajudar a estabelecer mais um precedente favorável à liberdade de pesquisa e informação.

Dadas as condições precárias e desequilibradas que cercaram a audiência de "reconciliação" (o substantivo aqui é inadequado, daí as aspas) onde foi assinado o acordo, esperamos que a juíza Márcia Cristina possa rever com simpatia a ação de embargos declaratórios e proferir mais uma sentença que a consolide como magistrada que entende a gravidade do caso: a proibição e o recolhimento de um livro de pesquisa universalmente elogiado por quem o leu e censurado por imposição de um dos artistas mais poderosos do país em meio a um massacre jurídico. Marcada para um momento em que o autor tinha razões para crer que seria representado pela editora (e em que sua advogada pessoal se encontrava em compromisso inadiável em Brasília), a audiência onde foi assinado o acordo foi caracterizada por sérios indícios de parcialidade de quem a presidiu.

Como leigo -- mas interessado -- em direito, suponho que existam suficientes elementos para rever o caso a partir desta sentença, não?



  Escrito por Idelber às 17:06 | link para este post | Comentários (36)