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quinta-feira, 22 de maio 2008

Desafiando a ocupação militar israelense, Festival Literário foi um sucesso

PalFest-2.jpg

Foi um sucesso o Festival Literário da Palestina, organizado por um grupo de escritores liderados pela anglo-egípcia Ahdaf Soueif. Reconhecendo as dificuldades de locomoção dos palestinos, vítimas há 40 anos da mais brutal ocupação militar da era moderna, o festival viajou pela Cisjordânia e por Jerusalém. Num admirável gesto, os escritores se recusaram a utilizar as estradas exclusivas de turistas e israelenses. Optaram por fazer o percurso a que são obrigados os palestinos (sim, o Apartheid israelense introduziu esta novidade desconhecida até mesmo na velha África do Sul e no Jim Crow americano: as estradas segregadas). Em todas as cidades, os eventos foram assistidos por grande público.

No primeiro dia, os escritores foram detidos durante três horas pelas forças de ocupação israelenses na fronteira da Jordânia com a Palestina. Depois de liberados, encontraram casa lotada à sua espera em Dar-el-Tifl, Jerusalém. O tema do primeiro dia foi “viagens”. Will Dalrymple fez um relato de suas jornadas pela Palestina, enquanto Hanan al-Shaykh arrancou boas risadas do público, demonstrando mais uma vez por que é uma das escritoras favoritas entre os palestinos. No segundo dia, a Universidade Birzeit, em Ramallah, também teve casa lotada para a comunicação de Victoria Brittain, que fez leitura de Enemy Combatant, seu livro em co-autoria com Moazzam Begg sobre o encarceramento deste último em Guantánamo. A leitura de Pankaj Mishra lidou com tensões raciais na Índia e no Paquistão, enquanto Ahdaf Soueif falou sobre o colonialismo inglês no Egito. Depois de um workshop com alunos e uma reunião com escritores palestinos, o Teatro Kasaba também lotou para a sessão da noite em Ramallah.

Na estrada para Hebron, os escritores tiveram que passar duas vezes pelas jaulas metálicas dos postos de controle da ocupação que, às centenas, picotam toda a Palestina, separando cidades, vilas, famílias. Num dos postos, viram uma mulher palestina chorando, bebê ao colo, levando o marido doente, com tubos pelo corpo. Eles haviam sido barrados pelas forças de ocupação. Não havia nada, evidentemente, que os escritores pudessem fazer por ela. Em Hebron, os autores puderam ver a cena terrorífica que são os habitantes dos assentamentos israelenses ilegais fazendo jogging com suas AK-47 penduradas, em constante provocação. Nesse momento, alguns escritores já tinham que se afastar, em meio a crises de choro. O relato de Ahdaf é que, nessa noite, os poemas de Suheir Hammad, escritos para o povo palestino, ecoaram com muita força entre as centenas de assistentes.

Ao longo da peregrinação, os escritores foram aprendendo a “ler” o espaço e a entender a lógica que preside a construção dos fortemente armados assentamentos ilegais de israelenses, que já roubam 40% do território da Cisjordânia. No topo de um monte, uma enorme construção bloqueia o acesso dos habitantes do vilarejo palestino de Silwan a Jerusalém Oriental. Quando as escritoras Esther Freud e Hanan al-Shaykh decidem fazer uma caminhada até o hotel, são cercadas por cães treinados pelas forças de ocupação israelenses e logo avisadas pelos soldados que elas haviam sido observadas e poderiam ter sido fuziladas.

Palfest-8a.jpg

Roddy Doyle, Ahdaf Soueif, Hanan al-Shaykh, Jamal Mahjoub e Nathalie Handal foram as estrelas do quarto dia do evento, que se realizou na Universidade de Belém. Nathalie falava em sua cidade natal. Depois do evento, o Reverendo Mitri Raheb levou os escritores para uma visita ao Muro do Apartheid, que enjaula Belém por três lados diferentes. Estrangulada pelo muro, Belém vive situação crítica e todos os relatos são de que o evento foi muito importante, simbolicamente, para a cidade. Antes do retorno a Jerusalém, os escritores puderam ver as casas em que as famílias palestinas que se recusaram a sair passaram a ter que acessar pelas janelas, proibidos que foram de entrar pela porta da frente. Também viram as casas que seus donos são proibidos de trancar, posto que são invadidas diariamente entre a meia-noite e as 3 da manhã para que os soldados israelenses “chequem” seus moradores.

O quinto e último dia do evento lotou o Teatro Nacional Palestino. Desta vez, os visitantes foram acompanhados por Raja Shehadeh, escritora e advogada palestina que acaba de receber o Prêmio Orwell pelo seu livro Palestinian Walks: Notes on a Vanishing Landscape. Depois das leituras e palestras literárias, apresentou-se o Yasmeen, um grupo do Conservatório Nacional de Música Edward Said. O vocalista e alaudista do grupo não pôde ir, aprisionado num posto de controle da ocupação militar israelense. Num final emocionado, Ahdaf Soueif se juntou aos outros escritores no palco, enquanto Hanan al-Shaykh lia a última carta de seu sogro, enviada 10 dias antes de que os israelenses o assassinassem.

PS: Mais informações (em inglês) no site do Festival e no artigo de Ahdaf Soueif para o Guardian. As fotos que ilustram o post são de Jamie Archer. A primeira mostra a Universidade Birzeit durante o evento. A segunda mostra o grupo de escritores ao lado do Muro do Apartheid.

PS 2: Não perca a entrevista do Monde Diplomatique com Mustafá Barghouti, líder da Iniciativa Nacional Palestina (o envio do link foi cortesia do amigo – e, na minha opinião, maior prosador brasileiro vivo – Milton Hatoum).



  Escrito por Idelber às 23:26 | link para este post | Comentários (8)


Comentários

#1

Desafiando a ocupação militar israelense?
Desde quando a Palestina esteve desocupada? Não seria melhor o título: "Desafiando a invasão militar israelense"?

Leonardo em maio 23, 2008 11:21 AM


#2

Idelber,
desculpe-me pelo ofitópique, mas veja que decisão importante do tão (justamente) criticado judiciário.

http://br.noticias.yahoo.com/s/23052008/25/manchetes-decisao-tj-sp-define-porte-droga-nao-crime.html

Franciel em maio 23, 2008 2:09 PM


#3

interessante o prêmio se chamar Orwell. 1984... como reagir a tal estado de coisas? uma (maneira) bem-vinda creio que é este Festival. A mim, instiga a repensar a presuposta guerra de civilizações. Alguém crê nessa tal de "guerra de civilizações"? Do que eu saiba, isso sempre foi um massacre sistemático, índios, negros... na segunda metade do século passado, os judeus.... Agora e sempre, árabes, palestinos, muçulmanos... me pergunto, judeu, árabe, israelense? cristão, católico, evangélico? negro, índio, brasileiro, africano? muros e mais muros... alguns maiores que outros, berlim para o méxico e para gaza e para casas de muros cada vez mais altos... F16 contra pedras atiradas por adolescentes. Miséria, miséria em qualquer canto... Oxalá o tal deus da kabalah (ou do alcorão?) nos deixe em paz para que possamos ensinar a nossos filhos, outra atitude que não esta que vc descreveu, anti-humana.

Charley em maio 24, 2008 3:56 AM


#4

Sr. Avelar
Outro dia o sr. apresentou boas qualidades do candidato Obama que a mídia não revela. Porém, ontem, a mídia apresentou um discurso do sr. Obama na Flórida. Pareceu-me propostas arrogantes e belicosas, contra a América Latina. O sr., mais bem informado do que nós, poderia comentar o ainda incipiente Projeto de Governo que está sendo apresentado pelo sr. Obama, relacionado à América do Sul, principalmente.

Marco Vitis em maio 24, 2008 1:37 PM


#5

Caro Marco, não vi o discurso a que você se refere. Vou procurá-lo e colocar na agenda para um post futuro. Obrigado. Um abraço.

Idelber em maio 24, 2008 4:48 PM


#6

Obrigado! Estou chegando por agora a seu Blog, e gostei muito!

Pedro Lobato em maio 26, 2008 5:14 PM


#7

Concordo. Com quase tudo que vc fala. Mas especialmente com isso: Hatoum é o maior prosador brasileiro vivo, agora que morreu Haroldo Maranhão.

Helena em maio 26, 2008 5:45 PM


#8

Idelber,

Como sabemos pouco a respeito do povo Palestino e de suas realizações nas áreas da educação e cultura. Um povo que viveu, e ainda vive, oprimido pela ocupação israelense conseguiu revelar toda uma geração de intelectuais, poetas e escritores. Parabéns ao povo Palestino. Outro dia um idiota de uma certa comunidade escreveu um artigo em que afirmava que os Palestinos não tinham cultura própria. Lamentável!

Li a entrevista do Mustafá na "Le Monde". A melhor entrevista sobre o conflito israelo/palestino. Me identifiquei prontamente com a proposta da INP. Barghouti é fantástico. É de uma lucidez admirável.

Carlos em maio 27, 2008 9:50 PM


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