Mini-observatório da imprensa
1. Em coluna para a Folha de São Paulo em 23/08/2008, Fernando Rodrigues afirma que John McCain é a "síntese de uma ala republicana liberal". Evidentemente, ninguém nos EUA caracteriza McCain como liberal, nem ele mesmo.
2. Na edição 2.020 da Revista IstoÉ, sob o título Símbolo da fundação de Roma, o monumento Lupa Capitolina é mais novo do que se imaginava, a reportagem afirma: ... os historiadores sempre acreditaram que fora erigido por volta de 500 anos antes da era cristã. Como é esse monumento que data o nascimento da capital italiana, fixou-se então, logicamente, o surgimento de Roma nesse mesmo período (...) Na semana passada ocorreu uma reviravolta envolvendo tal marco: arqueólogos revelaram que a estátua é datada do ano 1300 a. C, ou seja, Roma é mais jovem do que se supunha.... A Revista IstoÉ se esqueceu de que 1.300 a.C é mais velho que 500 a.C., ou seja, deu a impressão de não saber que, antes de Cristo, a contagem das datas se faz para trás (obrigado, Serbão).
3. Em coluna publicada na Folha de São Paulo em 06 de agosto, Abram Szajman, presidente da Federação do Comércio de São Paulo, diz que o voto hispânico "já alcança cerca de 25% dos eleitores" dos EUA. Errou só por 100%. Segundo os últimos números oficiais, o eleitorado hispânico dos EUA é 12,5%.
4. A Folha Online relata que o último spot publicitário da campanha de Obama afirma que McCain é um político submisso às grandes petrolíferas e lembra que o senador conservador recebeu milhões em contribuições eleitorais dessa indústria. O anúncio divulgado hoje por McCain procura desfazer esses mitos. A palavra mitos vem assim, sem aspas. Alguém esqueceu de avisar à Folha que as milionárias contribuições das petrolíferas a McCain não sãomitos.
5. Em entrevista a João Pereira Coutinho na Folha Online, Daniel Piza, o homem que enforcou Jesus Cristo e transformou o entrudo em "dança de salão", afirma que muitos na verdade ainda estão em Bakunin, "toda propriedade é um roubo". A frase "a propriedade é um roubo", evidentemente, é de Proudhon (obrigado, Tiago Mesquita).
O 29 de junho de 1958 é o único, verdadeiro e incontestável 07 de setembro que conheceu esta terra. No qüinquagésimo aniversário do enterro definitivo do complexo de vira-latas, reveja os gols:
Poucas partidas são tão cercadas de histórias como aquele 5 x 2 sobre a Suécia:
* Djalma Santos jogou ali sua única partida no torneio. Foi o eleito o melhor lateral-direito da Copa.
* A Suécia tinha o direito de jogar a final com seu primeiro uniforme, o amarelo. O Brasil teve que comprar camisas azuis e bordar sobre elas o escudo da CBD na última hora. Ante a superstição de alguns, o chefe da delegação, Paulo Machado de Carvalho, fez o famoso comentário de que o Brasil não perderia, pois aquela era a cor do manto de Nossa Senhora da Aparecida.
* Zito relata que os jornais suecos contavam com a ajuda da chuva para vencer o Brasil. Não contavam com o cavalheirismo dos organizadores da competição, que protegeram o gramado com um toldo.
* Vários dos craques entrevistados coincidem em dizer que sentiram que iam vencer a partida no momento em que a Suécia abre o placar. Didi vai ao fundo do gol, pega a bola e caminha vagarosamente para o centro do campo. Ali, dizem muitos, ficou sacramentado que se manteria a escrita de que todas as finais de Copas do Mundo eram decididas de virada. Essa escrita só ruiu em 1970, quando o Brasil abriu o placar contra a Itália, mas mesmo assim levantou o caneco.
* Os dois gols da virada brasileira, em jogadas de Garrincha pela direita, seguidas de cruzamentos rasteiros e finalizações de Vavá, estão entre os mais parecidos jamais marcados numa partida de futebol. Muitos espectadores vêem esses gols e juram ter visto um replay.
* Diz Bellini que hesitou por um momento sobre o que fazer ao receber a taça. A pedido dos fotógrafos, decidiu erguê-la acima da cabeça. Inventou um gesto depois repetido muitas vezes e que, hoje, qualquer brasileiro conhece.
* Reza a lenda que o extraordinário ponta-esquerda Canhoteiro acabou sendo cortado (em favor de Zagallo e Pepe, que foram à Suécia) porque nos treinos, escalado contra o seu compadre Djalma Santos, ele evitava jogar o seu melhor futebol e contribuir para o corte do amigo.
* Pelé recebeu ali, aos 17 anos, a coroa de "Rei do Futebol". Mas nem todos se lembram que quem foi eleito o melhor jogador da Copa foi Didi.
PS: No seu artigo de hoje na Folha (para assinantes), Eliane Castanhêde diz que George W. Bush "fala espanhol". A informação é falsa seja qual for a sua definição do que é "falar" um idioma. Bush balbuceia algumas palavras em espanhol. Só isso.
Ministério Público gaúcho quer rasgar a Constituição
O Ministério Público do Rio Grande do Sul está em meio a uma inacreditável ofensiva de criminalização do MST, com linguagem retirada diretamente dos piores manuais anti-comunistas. As peças produzidas pelo MP gaúcho parecem inverossímeis no Brasil de 2008. Algumas delas baseiam-se no relatório do coronel Waldir João Reis Cerutti que, entre outros delírios, afirma que análises de nosso sistema de inteligência permitem supor que o MST esteja em plena fase executiva de um arrojado plano estratégico, formulado a partir de tal “convênio”, que inclui o domínio de um território em que o governo manda nada ou quase nada e o MST e Via Campesina, tudo ou quase tudo.
O MP e a Brigada Militar do Rio Grande do Sul procederam a executar despejos dos sem-terra até mesmo de áreas que estavam cedidas por pequenos proprietários para a instalação das famílias. O Dr. Jacques Távora Alfonsin, procurador do Estado aposentado e membro da ONG Acesso, Cidadania e Direitos Humanos, relatou que a petição chegou a Carazinho no dia 16 de junho e o despacho do juiz, de 20 laudas, saiu no mesmo 16 de junho. Ou seja, tudo aponta para uma ação orquestrada de criminalização dos movimentos sociais, e em particular do MST. Que fique claro: eles foram desalojados de terras arrendadas, não invadidas. Teríamos dificultades, imagino, de encontrar um precedente.
Do MP gaúcho vem a esdrúxula proposta de “extinguir” o MST, como se a Constituição brasileira não garantisse o direito à livre associação. Se é fato que, nos últimos 20 anos, a demonização do MST na mídia brasileira tem sido coisa sem paralelo desde a época em que o Partido Comunista era acusado de comer criancinhas no espeto, também é fato que as ações recentes do MP gaúcho demonstram um nível de truculência e desrespeito à Constituição raras vezes visto.
Não importa o que você pense do MST. As denúncias são gravíssimas e é a democracia que está em jogo.
Em 2004, Bush derrotou John Kerry nas eleições presidenciais americanas da seguinte forma:
Apesar da diferença no número de estados, uma vitória de John Kerry em Ohio teria sido suficiente para dar um resultado diferente à eleição. Na peleja deste ano entre Obama e McCain, o Real Clear Politics lista 11 estados como indefinidos. Desses 11, nove votaram Republicano em 2004 -- a campanha de Obama vem colocando em jogo estados que, até muito recentemente, eram favas contadas para a direita, como Virgínia, Carolina do Norte e Colorado.
Brincando com o mapinha do Real Clear Politics, você tem uma idéia exata do que Obama precisa fazer para levar. Nada na política americana recente nos autoriza a ser otimistas em excesso. Mas as chances são boas, muito boas.
Como já saberão os mui bem informados leitores do Biscoito, acabou o bloqueio de estradas na Argentina e o projeto de aumento das retenções sobre as exportações de soja e girassol está tramitando no Congresso. A sensação é de que o governo passou à ofensiva, sem uma única ação de repressão dura contra o bloqueio. Se você quiser saber qual é a diferença entre um governo Peronista e um governo Radical, ei-la aí: Peronista é aquele governo que banca e sai intacto de uma queda-de-braço com produtores agropecuários que entrangulam durante 100 dias o acesso às cidades. Um governo da UCR é aquele que desaba depois de 48 horas de piquetes.
Há tempos eu queria ouvir uma explicação inteligente sobre a penetração que teve o bloqueio entre os pequenos produtores da pampa úmida. Hoje, na Biblioteca Nacional, três economistas (Eduardo Basualdo, Alfredo Zaiat, Alejandro Roffman) esclareceram direitinho: a figura do pequeno ou médio produtor que vive de parte de sua colheita e vende o resto (o que entrou no imaginário argentino como chacarero) é, cada vez mais, uma raridade. Não é que ele não exista. Ele simplesmente passou a alugar sua terra para os grandes conglomerados da soja e viver desse aluguel. Rende muito mais do que produzir.
A Folha de São Paulo, que tem publicado boas matérias sobre a Argentina, precisa entender que não são “aumentos de impostos sobre as exportações de grãos”. É a soja e o girassol, não o trigo, não o milho. A diferença é fundamental porque aqui ninguém come soja. 98,5% se exporta. O aumento das retenções é justamente uma forma de estimular os outros cultivos ante o rolo compressor da sojicultura. Será que alguém poderia avisá-los? Há anos, evidentemente, eu não escrevo cartas a Painel de Leitor. É perda de tempo na época dos blogs.
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Melhorou sensivelmente a situação da cerveja em Buenos Aires. Se há alguns anos você era obrigado – exceto em lugares muito especializados – a escolher entre a fraca Quilmes servida em temperatura quase ambiente e aquela bebidinha bíblica feita de uvas, hoje em dia a belga Stella Artois está disponível em qualquer lugar. Opte sempre pela garrafa litro, que vem bem mais gelada. A garrafinha (porrón), por alguma misteriosa razão, chega morna.
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Da série “Coisas argentinas que você jamais verá no Brasil”: Sexta-feira à noite, sob um temporal, quase uma centena de pessoas se deslocam à Biblioteca Nacional para escutar uma leitura de poemas do grande, do incomparável Leónidas Lamborghini, que anda já pelos 80 anos de idade. Sem tematizar explicitamente a política, Lamborghini é o responsável pela incorporação de uma série de ritmos, tons, gírias da política à poesia argentina. Foi uma honra celebrar com o velho os 50 anos da publicação de El solicitante descolocado, que ganhou nova edição. A poesia de Lamborghini é um laboratório para se entender o que faz a grande poesia com a política. Nada ver com "literatura engajada".
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Das últimas conversas com meu amigo e genial escritor Ricardo Piglia, ficou esta frase sua: gosto dos escritores que dividem o público. Não sei de onde vem essa idéia de que os bons escritores devem ser do agrado de todo mundo. Discutíamos a obra de Sergio Chejfec, que tem essa qualidade: produz seguidores devotos e um vasto leque de leitores que insistem na pergunta: o que vocês vêem nesse cara? Eu, por certo, estou no primeiro grupo.
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Esta dica você não encontrará em nenhum guia de Buenos Aires: se quiser respirar o que restou da atmosfera dos primeiros contos de Borges, aqueles das lutas de facas, esqueça o Centro Cultural Borges, o cemitério da Recoleta, toda essa bobajada. Vá até a rua que leva seu nome, esquina com Guatemala, em Palermo. Lá se encontra um lugar chamado El preferido. É um raro espécimen do que se chamava uma pulpería: um armazém com pilhas de enlatados e conservas nas prateleiras, mas que vende comida como se fosse um restaurante popular. Imperdível (obrigado, Julia).
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É fato: o micro-centro está tomado por hordas de turistas da República Morumbi-Leblon-Mangabeiras. Eles vêm a Buenos Aires e passam cinco dias dentro de um shopping center, de preferência a intragável Galeria Pacífico. Saem de lá só para gritar uns aos outros: Benhêê, olha lá o Obelisco. O horror.
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Acredito ser esta uma lei universal sobre os donos de cachorros: quanto mais soberbos e pseudo-aristocráticos, mais eles pressupõem que todo o planeta deve gostar dos seus bichinhos e que estes são donos do espaço público. Ao vir a Buenos Aires, caminhe bastante por Palermo e descubra por que o bairro é um dos corações da efervescência cultural, gastronômica e livresca da cidade. Mas não ande de cabeça erguida por mais de 60 segundos. As solas de seus sapatos agradecerão.
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Pude constatar por que a Boutique del Libro é a livraria mais badalada em certos círculos literários da Argentina. Claro que o famoso Ateneo, da Avenida Santa Fé, é visita obrigatória. Mas eu gosto de livrarias menores, com personalidade, estoque bem escolhido, um bom café, funcionários que entendem de livros. Nesses quesitos, a Boutique é insuperável. Rua Thames, 1762. Em Palermo, claro.
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O Biscoito já fez uma resenha do fantástico Museu da Paixão Boquense num post anterior. Para os simpatizantes do clube xeneize no Brasil, é imperdível o excelente (e bem barato) restaurante El gardelito, ponto de encontro boquense. Fica também em Palermo, na Thames, quase esquina com Nicarágua (obrigado, Martín Kohan).
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Por falar em futebol, tenho vários amigos de luto por aqui: o Racing Club, a famosa Academia, um dos cinco verdadeiramente grandes do futebol argentino, está a um passo da Segunda Divisão.
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Já está completando 13 anos de existência uma das mais inovadoras revistas de ensaios da América Latina: Pensamiento de los confines, dirigida pelo meu amigo (e torcedor do Racing), o ensaísta Nicolás Casullo, pode ser lida, parcialmente, na internet.
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Recomendei, em 2007, El director, de Gustavo Ferreyra, como o melhor livro que eu havia lido no ano. Conversando com ele hoje, tive a grata notícia de há outros dois romances no prelo. O próximo sai pela Planeta, em novembro.
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Ao receber a notícia da morte de seu pai, uma mulher descobre que a lojinha já decadente que ele administrava e na qual ela trabalhava não era, como ela pensara, fonte de ganhos cada vez menores, mas de monstruosos prejuízos. Desempregada, com seus bens liquidados, ela conta as moedas para o ônibus que a levará a outra peregrinação infrutífera em busca de trabalho. Numa das incontáveis entrevistas, ela decide levantar levemente a saia. É o mote para a trama sensacional que organiza uma das últimas obras-primas do inesgotável romance argentino: não perca El trabajo, de Aníbal Jarkowski.
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A velha história: faça campanha como candidato "pró-vida". Grite histericamente contra o direito das mulheres ao aborto. Pontifique sobre "os direitos dos não-nascidos". Aí presencie a sua ex-namorada testemunhar que você a forçou a fazer um aborto (via TPM).
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Algum generoso leitor poderia oferecer uma mini-resenha do Roda Viva com José Miguel Wisnik?
Ontem, durante o programa de rádio que fiz na Identidad FM, Alejandro Horowicz e Elsa Drucaroff me olharam atônitos quando eu disse que não poucos brasileiros torceram (ou pelo menos declararam ter torcido) pela Argentina, contra o Brasil, na final da última Copa América. Há 20 anos isso teria sido impensável, mas é fato que a secação vem se tornando comum. Nós nos vemos cada vez menos representados pela camiseta amarela. Ricardo Teixeira, Nike, a banalização da Seleção com jogos caça-níqueis, a compreensível falta de interesse de jogadores que já estão instalados no mercado europeu e não precisam da Seleção como vitrine, a piada de mau gosto que é ter Dunga como técnico: tudo isso, junto, vai minando qualquer veleidade patriótica no futebol. Na sua genial coluna de hoje (para assinantes) na Folha, Xico Sá afirma que a conquista da Copa em 1994 foi a pior coisa que poderia ter acontecido ao nosso futebol. Teria começado ali, segundo o galã cearense-pernambucano, o dunguismo, a doença infantil do teixeirismo. Eu completo o insight de Xico com o seguinte comentário: a segunda pior coisa que nos aconteceu foi ter vencido a Copa América dando aquele espírita e improvável baile de 3 x 0 na Argentina, numa competição que os hermanos haviam dominado com um futebol eficiente e vistoso, e a cuja final nós chegamos capengando, praticando um ludopédio dunguístico, grotesco.
No Impedimento, o Milton Ribeiro escreveu um excelente texto (que gerou uma ótima discussão nessa que é das melhores caixas de comentários da blogosfera) defendendo a secação da Selecinha, basicamente com o argumento de que uma hecatombe – do tipo ficar fora da Copa – poderia produzir algum saculejo positivo no barraco do nosso futebol. Estou com o Milton. Raramente consigo torcer contra o Brasil, mas não é por falta de vontade. Enquanto continuarmos ganhando essas Copas América com uma mescla de sorte, lampejos individuais, ajudas dos árbitros e medo dos adversários, ainda haverá Teixeiras e Dungas para tapar o sol com a peneira. Quando um jogador medíocre como o lateral Gilberto tem a cara-de-pau de dizer, depois do último Brasil x Argentina, que o problema é que a Argentina vem jogar no Brasil e eles aplaudem o Messi (omitindo o fato de que Messi foi aplaudido aos 40 do segundo tempo, depois de outra horrorosa apresentação do escrete), é porque o insulto ao torcedor já virou moeda corrente, ao que qualquer cabeça-de-bagre pode recorrer. Aqui, não há como esquecer dos ilustres antecessores de Gilberto, naquela que eu considero a cena mais grotesca, melancólica e deprimente da história do nosso futebol: a comemoração da conquista de 1994, com jogadores, técnico e coordenador segurando a taça e insultando seus compatriotas jornalistas e torcedores com palavras de baixo calão. O adequadíssimo coroamento foi o tráfico de três aviões de muamba vindos dos EUA, sobre os quais não se pagou imposto de alfândega por imposição da CBF, com o argumento de que “a Seleção havia dado uma alegria ao povo”.
Sinceramente, não tenho paciência para aulas de patriotismo de quem vem dizer que a tarefa do brasileiro é apoiar a Seleção incondicionalmente. Se quiser apresentar esse argumento aqui, leitor, fique à vontade, mas não há qualquer chance de eu levá-lo a sério.
Em tempo: pela primeira vez desde o início das Eliminatórias por pontos corridos, o Brasil está fora da zona de classificação para a Copa. Pela primeira vez em sete anos, perdemos dois jogos seguidos. Pela primeira vez em 18 confrontos, perdemos para a Venezuela, que nunca havia conseguido sequer um empate contra o Brasil. Há 300 minutos o Brasil não marca um gol.
PS: Não deixem de conferir essa sensacional montagem mostrando como o jornalismo esportivo pode ser besta. É sobre a Argentina, mas poderia se aplicar perfeitamente ao Brasil também.
Hoje, às 23:00, participarei do programa de rádio dos intelectuais argentinos Elsa Drucaroff e Alejandro Horowicz, para falar de literatura, política e cultura.
Nos vemos mañana en la plaza. Há que se estar familiarizado com a história argentina para entender todo o poder simbólico que carrega essa simples frase. Existem dezenas de praças em Buenos Aires, mas só uma é la plaza. Exatos 53 anos e 3 dias atrás, dez toneladas de bombas foram lançadas pela marinha argentina sobre a Praça de Maio para tentar matar Perón, o presidente reeleito com 68% dos votos. 300 pessoas morreram. Um ônibus com 80 garotos de Santiago del Estero – que haviam vindo conhecer o Presidente – foi carbonizado. Vinte e poucos anos depois, um grupo de mulheres com lenços brancos na cabeça se transformariam, ali, nas mães mais famosas do mundo. A Praça deixava de ser só dos peronistas para se transformar no lugar por excelência da cidadania argentina.
Éramos mais de 100.000 ontem à tarde na Praça de Maio, no ato em defesa da institucionalidade democrática e contra o bloqueio latifundiário das estradas:
Desta vez, sim, a convocatória foi ampla. Compareceu o peronismo, mas também estiveram lá todos os setores que – mesmo tendo críticas ao governo – já não toleram o cerceamento do direito dos argentinos irem e virem. Não foi um ato oficialista, embora a presidente fosse a única oradora. Compareceu, por exemplo, o Partido Socialista, crítico do kirchnerismo. Compareceu em massa o sindicalismo. A classe média portenha estava lá em peso. Até mesmo o La Nación, o mais direitista dos grandes jornais argentinos, reconheceu que a praça superlotou. As colunas iam chegando por todas as vias de acesso:
Anteontem, Cristina Kirchner recuou e anunciou, em cadeia nacional, que está enviando o projeto de aumento das retenções sobre as exportações de soja e girassol ao Congresso Nacional, onde o peronismo tem maioria em ambas câmaras. Se tivesse feito isso há três meses, teria evitado um grande desgaste. Em todo caso, antes tarde do que nunca. O envio do projeto ao Congresso, combinado com o estrondoso sucesso do ato na Praça de Maio, dão fôlego ao governo e colocam na defensiva os latifundiários da soja, que mesmo assim anunciaram que a paralização continua até sexta-feira.
O discurso de Cristina foi duro e polarizante, acusando a “quatro pessoas em quem ninguém votou” (os quatro líderes das Federações Agrárias) de desrespeitar o direito de todos os argentinos. Apesar de que há muita gente – por exemplo, este blogueiro -- que vê torpeza, falta de tato e setentismo no governo Kirchner, as forças democráticas vão se unificando na defesa das instituições e na condenação ao que é, na prática, um ato de terrorismo dos latifundiários. Já são mais de seis milhões de litros de leite desperdiçados. No ato da Praça de Maio, o povo mais pobre era, visivelmente, o mais radicalizado. Falta política ao governo Kirchner. Mas aos seus opositores no campo falta decência e senso de cidadania.
PS: Sim, eu assisti ao jogo de ontem. Sim, torci pelo Brasil. Até os 10 minutos do segundo tempo. E vocês?
Abriu hoje, no Imago (Rua Suipacha, 658, Buenos Aires), uma exposição de mais de 200 obras do genial humorista e escritor argentino Roberto Fontanarrosa, el Negro, que morreu no ano passado aos 62 anos. Fontanarrosa nasceu em Rosario e começou a fazer um estrondoso sucesso no Clarín, nos anos 70, com suas tirinhas. Foi o criador de personagens que marcaram a cultura argentina, como o verdugo Boogie, o oleoso e o gaucho Inodoro Pereyra. De todos os grandes escritores argentinos, foi o que mais registrou o futebol. Torcedor fanático do Rosario Central (diz a lenda que não há Gre-Nal, não há Cruzeiro x Atlético, não há Boca x River que se compare à feroz rivalidade entre Rosario Central e Newell's Old Boys), El Negro se reunia com a torcida do clube a cada 19 de dezembro, para celebrar o famoso gol de palomita ao qual ele dedicou um conto clássico. Os relatos de Fontanarrosa sobre o futebol estão reunidos no volume Puro fútbol, de 2000, leitura obrigatória para os literatos ludopédicos.
A festa foi concorrida e eu fiz questão de tirar algumas fotos para compartilhar com os leitores do blog:
A mostra fica em cartaz até o começo de agosto. Passando por Buenos Aires, não deixe de conferir. O filme que acompanha a exibição é emocionante.
Está confirmado: na partida decisiva da Copa do Brasil, na quarta-feira passada, na Ilha do Retiro, a Rede Globo de Televisão manipulou deliberadamente o áudio para que parecesse que os 1.000 corinthianos presentes no estádio haviam “calado” os 35.000 rubro-negros pernambucanos. Captada em um canal diferente daquele reservado para o resto do estádio, a cantoria da torcida do Corinthians foi sobredimensionada, enquanto o barulho da torcida do Sport era eliminado na mesa de edição. Muitos dos que assistimos à partida estranhamos o fato de que as palavras de ordem dos corinthianos aparecessem com tanto destaque, quando obviamente a Ilha do Retiro, lotada, também cantava. A manipulação foi tão óbvia que mesmo antes da confirmação da falcatrua já estava nítido que algo de errado havia.
A transmissão da partida foi outra das pérolas de parcialidade com as quais gaúchos, mineiros, baianos, pernambucanos, goianos, paranaeneses já nos acostumamos. Cléber Machado não conseguia disfarçar a decepção com os gols do Sport. Arnaldo César Coelho – aquele que apitou uma final de Campeonato Brasileiro em que um jogador foi pisoteado sem que seu algoz fosse expulso – procurava pênaltis para o Corinthians e punições para os jogadores do Sport. Tudo como dantes: o jogo foi narrado como se uma equipe fosse brasileira e, a outra, estrangeira. Com isso já estamos acostumados. Mas falsificação de áudio, convenhamos, é capítulo digno de nota mesmo no já ilustre currículo da emissora que participou de tentativas de fraudes eleitorais, manipulou edições de debates presidenciais, colaborou com a tortura e escondeu o maior acidente aéreo da história do Brasil para divulgar, com objetivos eleitorais, fotos ilegalmente obtidas.
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A Selecinha de Dunga levou um previsível vareio de bola do Paraguai. De quem é culpa? Ora, segundo Lucia Hippolito, a culpa é do Lula, claro.
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É inacreditável o esforço que faz o Grupo RBS para blindar o governo de Yeda Crusius (PSDB-RS) no escândalo de corrupção que desviou, via Detran, 40 milhões de reais dos cofres públicos gaúchos. Depois de ignorar as denúncias durante meses, a Zero Hora não teve como não noticiar eventos como a violenta repressão da Polícia Militar do Coronel Mendes a uma manifestação pacífica na semana passada. Como o fez? Dizendo que os manifestantes haviam “entrado em conflito” com a polícia, quando todos os testemunhos confirmam que a polícia militar atacou de forma totalmente não provocada uma manifestação pacífica.
No Jornal Nacional, da Globo, foi pior: a manifestação contra a corrupção do governo Yeda foi descrita como “protesto contra a alta dos alimentos”. No Jornal do Brasil, uma grotesca manchete anunciava "Corrupção abala governo do PT". Depois, a Zero Hora fez uma pesquisa sobre a atuação repressiva da PM na qual os cidadãos que telefonavam para o número que designava “ação exagerada” encontravam as linhas ocupadas. É verdade que nós, mineiros, estamos acostumados com o pior jornal do planeta, o Estado de Minas. Mas a Zero Hora leva o pseudo-jornalismo a níveis de criminalidade poucas vezes alcançados. Para acompanhar a crise no Rio Grande, a melhor fonte, você já sabe, é o RS Urgente.
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Em definitivo: quaisquer que sejam as restrições que você possa ter ao alinhamento automático do Página 12 com o kirchnerismo, não se informe sobre a crise argentina pelo Clarín. Saio às ruas, vou ao supermercado, converso com atores sociais, visito manifestações dos dois lados, acompanho os acontecimentos de perto. Chego em casa, leio o Clarín e tenho a sensação de que estão falando sobre outro país, talvez o Iraque.
A situação aqui na Argentina, embora não seja a hecatombe que às vezes pinta o Clarín, vai ficando bem grave. O dia de hoje foi o mais tenso dos últimos três meses de crise. Caminhando por Buenos Aires ao léu, vi nada menos que quatro grandes manifestações: três contra o governo e uma a favor, na Praça de Maio. Em primeiro lugar, há que se esclarecer que o aumento das retenções imposto pelo governo não é à exportação de “grãos”, como afirmou hoje a Folha de São Paulo. Aplica-se à soja e ao girassol. De acordo com o decreto original, de maio, que provocou a crise, as retenções sobre o trigo e o milho baixaram, inclusive. 98% da soja produzida pela Argentina se destina à exportação.
Observando as manifestações contra o governo no chiquérrimo bairro de Belgrano, é impossível não perceber uma curiosa ironia: as panelas, em geral, são utilizadas em passeatas por gente que não tem muita intimidade com elas. É aquele desjeito que você vê, por exemplo, nas mãos de um não-fumante forçado a segurar um cigarro. Do lado do governo, o patetismo chega quase ao mesmo nível. Hoje, o ex-presidente Néstor Kirchner, marido da presidente Cristina e chefe do Partido Peronista, foi participar da manifestação pró-governo na Praça de Maio, junto com ministros de estado. Quando a passeata se transforma em instrumento de governo de um país de 40 milhões de habitantes, é porque a coisa vai mal. O peronismo (kirchnerismo), por sua própria natureza, impede o surgimento em seu interior de políticos como Hermes Binner, ao mesmo tempo comprometidos com um idéario de esquerda mas capazes de gestão e negociação.
A grande derrota do governo, até agora, é da ordem das relações públicas: uma queda-de-braço com os exportadores de soja é quase universalmente percebida como um conflito com “o campo”. Essa percepção vai, é claro, informando as atitudes dos próprios sujeitos agrários, que são diversificados entre si, mas que passam a ver-se representados, mesmo que imaginariamente, nos interesses dos sojicultores -- percepção reforçada pelo milenar ressentimento das províncias contra Buenos Aires. Até as Mães da Praça de Maio racharam: enquanto Hebe de Bonafini, fiel ao governo por sua política de direitos humanos, pede prisão de 15 anos para os que bloqueiam as estradas, Mireya González, das Mães de Gualeguaychú, defende a “luta social” dos dirigentes agropecuários. A situação entre os prefeitos também é de cisão: na província de Buenos Aires, 52 prefeitos apóiam “o campo” e 68 apóiam o governo. Em Córdoba, a esmagadora maioria dos prefeitos está contra o governo. Em Santa Fé, a coisa está mais ou menos pau a pau. Ainda não há desabastecimento para valer em Buenos Aires, mas é uma possibilidade real. Em várias províncias, faltou combustível.
Aí vai uma coleção de links para quem quiser acompanhar a crise pelos blogs argentinos de política.
A grande crítica literária argentina Florencia Garramuño e um dos maiores musicólogos das Américas, Federico Monjeau, são testemunhas de que não lhes minto: na noite desta sexta-feira, 13 de junho, o técnico da Seleção Argentina campeã do mundo em 1978, César Luis Menotti, jantou na Parrilla Peña, na Rua Rodríguez Peña quase esquina com Viamonte. O cabra é gigantesco – eu não sabia. Deve ter um metro e noventa e tantos.
Pois bem, eu, que não gosto muito de incomodar famosos em jantares, arrumei um jeito de me apresentar quando fazíamos o intervalo de fumantes do lado de fora:
--- Professor Menotti, eu sou brasileiro, e o Sr. nos proporcionou um grande desgosto em 1978.
Menotti, gênio, na bucha:
--- Quem mandou vocês tirarem Reinaldo do time? Com ele na equipe, vocês nos teriam derrotado em Rosario, fácil, fácil.
Eu ia perguntar sobre os 6 x 0 no Peru mas, depois dessa, preferi falar da carne. Figuraça, o grande Menotti.
PS 2: Hoje, o Caderno Idéias, do Jornal do Brasil, publica minha resenha de Veneno Remédio: O Futebol e o Brasil, de José Miguel Wisnik. Dêem lá uma conferida (cortesia do link: Luiz).
Já dura três meses a queda-de-braço entre o governo de Cristina Kirchner e o que imprensa convencionou chamar “o campo”. Em março, o governo decidiu por um aumento de 45% nos impostos sobre as exportações de produtos como a soja. A partir daí, o locaute patronal, o bloqueio de estradas e o confronto marcado pela incapacidade do governo de conseguir aliados no campo vêm polarizando a Argentina. Os entidades patronais rurais parecem ter conseguido arrebanhar a simpatia dos pequenos produtores, e o governo enfrenta dificuldades também entre setores da sociedade civil que são críticos dos métodos da família Kirchner, hoje hegemônica dentro do Partido Justicialista (Peronista). A polarização chegou à imprensa, com o Clarín se transformando num verdadeiro porta-voz da oposição e o Página 12 ocupando posição mais alinhada ao oficialismo.
O “racha” na sociedade argentina é mais agudo que qualquer cisão que tenhamos experimentado no Brasil em anos recentes e é incompreensível sem referência a dois elementos bem antigos na Argentina: o abismo político entre Buenos Aires e as províncias (que se remonta ao século XIX) e a falta de alternativas políticas reais ao Peronismo. Ao contrário do que pode parecer, a cisão não é exatamente contígüa à divisão entre direita e esquerda, apesar da linguagem usada pelo governo contra seus opositores (“gorilas”, “golpistas” etc.).
Para entender melhor a crise argentina, o Biscoito deixa aqui alguns links a textos publicados pelas partes envolvidas: a Carta Aberta assinada por milhares de intelectuais e ativistas em apoio ao governo; o Acordo do Bicentenário assinado por um grupo de docentes que tomou distância do kirchnerismo; por fim, o texto Nem com o governo nem com os patronais do campo, assinado por aqueles que mantêm posição crítica a ambos os lados do conflito. A Carta Aberta provocou uma resposta de Vicente Palermo, que faz uma crítica interessante do que poderíamos chamar a "política do possível". Essa intervenção foi contestada – no meu modo de ver de forma não muito convincente – por Horacio González. A polarização chegou ao ponto em que Hebe de Bonafini, líder de um setor das Mães da Praça de Maio (e alinhada com o governo), pediu a prisão dos membros da comissão de enlace do campo. A polêmica já gerou um texto sugestivo sobre a Nova Direita.
PS: O blog transmite de Buenos Aires de amanhã até o dia 27 de junho. Para quem me perguntou sobre o curso sobre música popular e cidadania, aí vão os detalhes. Nesta sexta-feira, nos reunimos de 14:00 às 20:00 na sede da Universidad San Andrés no centro da cidade. No sábado, a aula acontece de 9:00 às 13:00 no auditório da FUNCEB.
PS 3: Ela passou por Belo Horizonte. Foi bom demais vê-la, porque brigamos muito nestas primárias americanas. A visita foi com direito a um presentinho para mim – um livro de Nelson Rodrigues com dedicatória inesquecível. Valeu, valeu. A idéia dela é que a gente redirecione o Clube de Leituras para trabalhar mais freqüentemente com contos. Achei ótimo e estou aberto a sugestões.
Foi o legendário selo Baratos Afins que lançou, em 2006, o primeiro disco da banda Expresso Monofônico, que é conhecida de quem acompanha a cena underground da Paulicéia, mas que ainda não tem o público que merece. O psicodelismo e a Tropicália são estradas já trilhadas à exaustão, mas o Expresso as revisita com classe e ironia. Trazem aquela consciência de quem está fazendo um pastiche. Em alguns momentos, no uso da dissonância e dos ruídos ambientes sobre uma base rock, lembram muito os Mutantes. O trabalho com o insólito nas letras, os jogos com várias camadas de vozes e as súbitas interrupções na linha melódica se inspiram na melhor vanguarda paulistana de Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção. Há um ludismo que deve algo a Tom Zé. A banda traz também alguns momentos intimistas, com violão acústico – como na bela faixa “Seja o que parece ser”.
Parece que os shows são menos freqüentes do que gostariam os fãs, mas o disco está disponível na íntegra no site da banda. Pedro Alexandre Sanches os destacou na Carta Capital e a Guitar Player também já fez matéria. Outras publicações, como O Martelo, ou a pernambucana Coquetel Molotov (pdf), também já dedicaram atenção aos paulistanos. O Expresso Monofônico é formado por Luiz França na bateria, Leo Jabba Jabba no baixo, Allan Rodrigues na percussão, Rafael Pimenta na guitarra e no piano, além de uma cantora carismática e cheia de recursos, Ana Regina Galganni, de cujo perfil no orkut tirei a foto que ilustra o post. Vale a pena a visita ao site da banda para conferir pelo menos duas faixas: “Vazio” e “Vista de cima”, talvez os dois momentos mais líricos do álbum. Para quem curte alusões pop mescladas às referências eruditas, a faixa “Dorothy” é obrigatória. Também é possível encontrá-los no YouTube, mas a qualidade do som é bem ruim. É a dica musical da semana.
PS: E por falar em música, não posso deixar de agradecer ao grande artista Chico Amaral pela hospitalidade de sábado em seu sítio, naquela que foi simplesmente a melhor festa junina que já vi na vida. A essas duas famílias maravilhosas -- os Bueno e os Amaral --, minha gratidão. Valeu, Serginho, Belinha, Janaína, Regina, Manu, Daniel. Tavinho, sua leitura me honra.
PS 2: Para quem está acompanhando a campanha eleitoral americana, vale a pena a leitura de duas experiências contrastantes. O Philadelphia City Paper enviou repórteres para atuar como voluntários nos comitês dos dois candidatos democratas. É só ver a diferença entre os comitês de Clinton e de Obama, e entender por que o resultado foi o que foi.
Existe uma deliciosa expressão no inglês norte-americano que, dizem as más línguas, foi consolidada por ninguém menos que Cindy Lauper: to throw something or somebody under the bus, que na política significa algo assim como “livrar-se de aliados inconvenientes em nome da elegibilidade”. O exemplo clássico foi o governo Clinton, que depois de lançar gays, lésbicas, negros, feministas, ambientalistas e ativistas pró-imigração pra baixo do ônibus, chegou àquele ponto em que a sensação era que o próprio ônibus já estava sendo lançado pra baixo do ônibus. Numa política bipartidista, caracterizada pela ação incessante de uma direita feroz no uso da tática do "culpado por associação", a vida do Partido Democrata tem sido, nas últimas décadas, um perene lançamento de aliados pra baixo do ônibus. Depois de confirmado como candidato democrata, Obama fez o seu primeiro discurso ante o lobby pró-Israel AIPAC. Ninguém era ingênuo de imaginar que Obama não faria as tradicionais declarações de lealdade a Israel sem as quais, nos EUA, você não se elege nem síndico de prédio. Hillary Clinton foi muito bacana no processo: já há tempos merecedora da confiança do lobby sionista, acompanhou Obama e apresentou ao público a sua certeza de que ele será um bom amigo de Israel. Mas ninguém, acredito que nem mesmo a liderança da AIPAC, esperava que Obama – além de declarar que impedirá o Irã de conseguir armas nucleares, que defenderá a integridade territorial do aliado americano no Oriente Médio, etc. etc. -- fosse declarar que Jerusalém é a capital indivisível de Israel. Evidentemente, isso contraria todos os planos internacionais de paz e todas as resoluções da ONU sobre o tema, que prevêem controle p