Meu Perfil
Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



Email: idelberavelar arroba gmail ponto com

No Twitter No Facebook No Formspring No GoogleReader RSS/Assine o Feed do Blog

O autor
Curriculum Vitae
 Página pessoal em Tulane


Histórico
 setembro 2015
 dezembro 2014
 outubro 2014
 maio 2014
 abril 2014
 maio 2011
 março 2011
 fevereiro 2011
 janeiro 2011
 dezembro 2010
 novembro 2010
 outubro 2010
 setembro 2010
 agosto 2010
 agosto 2009
 julho 2009
 junho 2009
 maio 2009
 abril 2009
 março 2009
 fevereiro 2009
 janeiro 2009
 dezembro 2008
 novembro 2008
 outubro 2008
 setembro 2008
 agosto 2008
 julho 2008
 junho 2008
 maio 2008
 abril 2008
 março 2008
 fevereiro 2008
 janeiro 2008
 dezembro 2007
 novembro 2007
 outubro 2007
 setembro 2007
 agosto 2007
 julho 2007
 junho 2007
 maio 2007
 abril 2007
 março 2007
 fevereiro 2007
 janeiro 2007
 novembro 2006
 outubro 2006
 setembro 2006
 agosto 2006
 julho 2006
 junho 2006
 maio 2006
 abril 2006
 março 2006
 janeiro 2006
 dezembro 2005
 novembro 2005
 outubro 2005
 setembro 2005
 agosto 2005
 julho 2005
 junho 2005
 maio 2005
 abril 2005
 março 2005
 fevereiro 2005
 janeiro 2005
 dezembro 2004
 novembro 2004
 outubro 2004


Assuntos
 A eleição de Dilma
 A eleição de Obama
 Clube de leituras
 Direito e Justiça
 Fenomenologia da Fumaça
 Filosofia
 Futebol e redondezas
 Gênero
 Junho-2013
 Literatura
 Metablogagem
 Música
 New Orleans
 Palestina Ocupada
 Polí­tica
 Primeira Pessoa



Indispensáveis
 Agência Carta Maior
 Ágora com dazibao no meio
 Amálgama
 Amiano Marcelino
 Os amigos do Presidente Lula
 Animot
 Ao mirante, Nelson! (in memoriam)
 Ao mirante, Nelson! Reloaded
 Blog do Favre
 Blog do Planalto
 Blog do Rovai
 Blog do Sakamoto
 Blogueiras feministas
 Brasília, eu vi
 Cloaca News
 Consenso, só no paredão
 Cynthia Semíramis
 Desculpe a Nossa Falha
 Descurvo
 Diálogico
 Diário gauche
 ¡Drops da Fal!
 Futebol política e cachaça
 Guaciara
 Histórias brasileiras
 Impedimento
/  O Ingovernável
 Já matei por menos
 João Villaverde
 Uma Malla pelo mundo
 Marjorie Rodrigues
 Mary W
 Milton Ribeiro
 Mundo-Abrigo
 NaMaria News
 Na prática a teoria é outra
 Opera Mundi
 O palco e o mundo
 Palestina do espetáculo triunfante
 Pedro Alexandre Sanches
 O pensador selvagem
 Pensar enlouquece
 Politika etc.
 Quem o machismo matou hoje?
 Rafael Galvão
 Recordar repetir elaborar
 Rede Brasil Atual
 Rede Castor Photo
 Revista Fórum
 RS urgente
 Sergio Leo
 Sexismo na política
 Sociologia do Absurdo
 Sul 21
 Tiago Dória
 Tijolaço
 Todos os fogos o fogo
 Túlio Vianna
 Urbanamente
 Wikileaks: Natalia Viana



Visito também
 Abobrinhas psicodélicas
 Ademonista
 Alcinéa Cavalcante
 Além do jogo
 Alessandra Alves
 Alfarrábio
 Alguém testou
 Altino Machado
 Amante profissional
 Ambiente e Percepção
 Arlesophia
 Bala perdida
 Balípodo
 Biajoni!
 Bicho Preguiça
 Bidê Brasil
 Blah Blah Blah
 Blog do Alon
 Blog do Juarez
 Blog do Juca
 Blog do Miro
 Blog da Kika Castro
 Blog do Marcio Tavares
 Blog do Mello
 Blog dos Perrusi
 Blog do Protógenes
 Blog do Tsavkko, Angry Brazilian
 Blogafora
 blowg
 Borboletas nos olhos
 Boteco do Edu
 Botequim do Bruno
 Branco Leone
 Bratislava
 Brontossauros em meu jardim
 A bundacanalha
 Cabaret da Juju
 O caderno de Patrick
 Café velho
 Caldos de tipos
 Cão uivador
 Caquis caídos
 O carapuceiro
 Carla Rodrigues
 Carnet de notes
 Carreira solo
 Carta da Itália
 Casa da tolerância
 Casa de paragens
 Catarro Verde
 Catatau
 Cinema e outras artes
 Cintaliga
 Com fé e limão
 Conejillo de Indias
 Contemporânea
 Contra Capa
 Controvérsia
 Controvérsias econômicas
 Conversa de bar
 Cria Minha
 Cris Dias
 Cyn City
 Dançar a vidao
 Daniel Aurélio
 Daniel Lopes
 de-grau
 De olho no fato
 De primeira
 Déborah Rajão
 Desimpensável/b>
 Diário de Bordo
 Diario de trabajo
 Didascália e ..
 Diplomacia bossa nova
 Direito e internet
 Direitos fundamentais
 Disparada
 Dispersões, delírios e divagações
 Dissidência
 Dito assim parece à toa
 Doidivana
 Dossiê Alex Primo
 Um drible nas certezas
 Duas Fridas
 É bom pra quem gosta
 eblog
 Ecologia Digital
 Educar para o mundo
 Efemérides baianas
 O escrevinhador
 Escrúpulos Precários
 Escudinhos
 Estado anarquista
 Eu sei que vivo em louca utopia
 Eu sou a graúna
 Eugenia in the meadow
 Fabricio Carpinejar
 Faca de fogo
 Faça sua parte
 Favoritos
 Ferréz
 Fiapo de jaca
 Foi feito pra isso
 Fósforo
 A flor da pele
 Fogo nas entranhas
 Fotógrafos brasileiros
 Frankamente
 Fundo do poço
 Gabinete dentário
 Galo é amor
'  Garota coca-cola
 O gato pré-cambriano
 Geografias suburbanas
 Groselha news
 Googalayon
 Guerrilheiro do entardecer
 Hargentina
 Hedonismos
 Hipopótamo Zeno
 História em projetos
 Homem do plano
 Horas de confusão
 Idéias mutantes
 Impostor
 Incautos do ontem
 O incrível exército Blogoleone
 Inquietudine
 Inside
 Interney
 Ius communicatio
 jAGauDArTE
 Jean Scharlau
 Jornalismo B
 Kit básico da mulher moderna
 Lady Rasta
 Lembrança eterna de uma mente sem brilho
 A Lenda
 Limpinho e cheiroso
 Limpo no lance
 Língua de Fel
 Linkillo
 Lixomania
 Luz de Luma
 Mac's daily miscellany
 O malfazejo
 Malvados
 Mar de mármore
 Mara Pastor
 Márcia Bechara
 Marconi Leal
 Maria Frô
 Marmota
 Mineiras, uai!
 Modos de fazer mundos
 Mox in the sky with diamonds
 Mundo de K
 Na Transversal do Tempo
 Nación apache
 Nalu
 Nei Lopes
 Neosaldina Chick
 Nóvoa em folha
 Nunca disse que faria sentido
 Onde anda Su?
 Ontem e hoje
 Ou Barbárie
 Outras levezas
 Overmundo
 Pálido ponto branco
 Panóptico
 Para ler sem olhar
 Parede de meia
 Paulodaluzmoreira
 Pecus Bilis
 A pequena Matrioska
 Peneira do rato
 Pictura Pixel
 O pífano e o escaninho
 Pirão sem dono
 políticAética
 Política & políticas
 Política Justiça
 Politicando
 Ponto e contraponto
 Ponto media
 Por um punhado de pixels
 Porão abaixo
 Porco-espinho e as uvas
 Posthegemony
 Prás cabeças
 Professor Hariovaldo
 Prosa caótica
 Quadrado dos Loucos
 Quarentena
 Que cazzo
 Quelque chose
 Quintarola
 Quitanda
 Radioescuta Hi-Fi
 A Realidade, Maria, é Louca
 O Reduto
 Reinventando o Presente
 Reinventando Santa Maria
 Retrato do artista quando tolo
 Roda de ciência
 Samurai no Outono
 Sardas
 Sérgio Telles
 Serbão
 Sergio Amadeu
 Sérgio blog 2.3
 Sete Faces
 Sexismo e Misoginia
 Silenzio, no hay banda
 Síndrome de Estocolmo
 O sinistro
 Sob(re) a pálpebra da página
 Somos andando
 A Sopa no exílio
 Sorriso de medusa
 Sovaco de cobra
 Sub rosa v.2
 SublimeSucubuS
 Superfície reflexiva
 Tá pensando que é bagunça
 Talqualmente
 Taxitramas
 Terapia Zero
 A terceira margem do Sena
 Tiago Pereira
 TupiWire
 Tom Zé
 Tordesilhas
 Torre de marfim
 Trabalho sujo
 Um túnel no fim da luz
 Ultimas de Babel
 Um que toque
 Vanessa Lampert
 Vê de vegano
 Viajando nas palavras
 La vieja bruja
 Viomundo
 Viraminas
 Virunduns
 Vistos e escritos
 Viva mulher
 A volta dos que não foram
 Zema Ribeiro




selinho_idelba.jpg


Movable Type 3.36
« maio 2008 :: Pag. Principal :: julho 2008 »

domingo, 29 de junho 2008

50 anos da Conquista da Copa do Mundo na Suécia

O 29 de junho de 1958 é o único, verdadeiro e incontestável 07 de setembro que conheceu esta terra. No qüinquagésimo aniversário do enterro definitivo do complexo de vira-latas, reveja os gols:

Poucas partidas são tão cercadas de histórias como aquele 5 x 2 sobre a Suécia:

* Djalma Santos jogou ali sua única partida no torneio. Foi o eleito o melhor lateral-direito da Copa.

* A Suécia tinha o direito de jogar a final com seu primeiro uniforme, o amarelo. O Brasil teve que comprar camisas azuis e bordar sobre elas o escudo da CBD na última hora. Ante a superstição de alguns, o chefe da delegação, Paulo Machado de Carvalho, fez o famoso comentário de que o Brasil não perderia, pois aquela era a cor do manto de Nossa Senhora da Aparecida.

* Zito relata que os jornais suecos contavam com a ajuda da chuva para vencer o Brasil. Não contavam com o cavalheirismo dos organizadores da competição, que protegeram o gramado com um toldo.

* Vários dos craques entrevistados coincidem em dizer que sentiram que iam vencer a partida no momento em que a Suécia abre o placar. Didi vai ao fundo do gol, pega a bola e caminha vagarosamente para o centro do campo. Ali, dizem muitos, ficou sacramentado que se manteria a escrita de que todas as finais de Copas do Mundo eram decididas de virada. Essa escrita só ruiu em 1970, quando o Brasil abriu o placar contra a Itália, mas mesmo assim levantou o caneco.

* Os dois gols da virada brasileira, em jogadas de Garrincha pela direita, seguidas de cruzamentos rasteiros e finalizações de Vavá, estão entre os mais parecidos jamais marcados numa partida de futebol. Muitos espectadores vêem esses gols e juram ter visto um replay.

* Diz Bellini que hesitou por um momento sobre o que fazer ao receber a taça. A pedido dos fotógrafos, decidiu erguê-la acima da cabeça. Inventou um gesto depois repetido muitas vezes e que, hoje, qualquer brasileiro conhece.

* Reza a lenda que o extraordinário ponta-esquerda Canhoteiro acabou sendo cortado (em favor de Zagallo e Pepe, que foram à Suécia) porque nos treinos, escalado contra o seu compadre Djalma Santos, ele evitava jogar o seu melhor futebol e contribuir para o corte do amigo.

* Pelé recebeu ali, aos 17 anos, a coroa de "Rei do Futebol". Mas nem todos se lembram que quem foi eleito o melhor jogador da Copa foi Didi.

Outros links:
Arquivos da Rádio Nacional.
Narração dos gols.
Futepoca (tem bons arquivos sobre 1958).

PS: No seu artigo de hoje na Folha (para assinantes), Eliane Castanhêde diz que George W. Bush "fala espanhol". A informação é falsa seja qual for a sua definição do que é "falar" um idioma. Bush balbuceia algumas palavras em espanhol. Só isso.



  Escrito por Idelber às 03:14 | link para este post | Comentários (19)



sábado, 28 de junho 2008

Ministério Público gaúcho quer rasgar a Constituição

O Ministério Público do Rio Grande do Sul está em meio a uma inacreditável ofensiva de criminalização do MST, com linguagem retirada diretamente dos piores manuais anti-comunistas. As peças produzidas pelo MP gaúcho parecem inverossímeis no Brasil de 2008. Algumas delas baseiam-se no relatório do coronel Waldir João Reis Cerutti que, entre outros delírios, afirma que análises de nosso sistema de inteligência permitem supor que o MST esteja em plena fase executiva de um arrojado plano estratégico, formulado a partir de tal “convênio”, que inclui o domínio de um território em que o governo manda nada ou quase nada e o MST e Via Campesina, tudo ou quase tudo.

O MP e a Brigada Militar do Rio Grande do Sul procederam a executar despejos dos sem-terra até mesmo de áreas que estavam cedidas por pequenos proprietários para a instalação das famílias. O Dr. Jacques Távora Alfonsin, procurador do Estado aposentado e membro da ONG Acesso, Cidadania e Direitos Humanos, relatou que a petição chegou a Carazinho no dia 16 de junho e o despacho do juiz, de 20 laudas, saiu no mesmo 16 de junho. Ou seja, tudo aponta para uma ação orquestrada de criminalização dos movimentos sociais, e em particular do MST. Que fique claro: eles foram desalojados de terras arrendadas, não invadidas. Teríamos dificultades, imagino, de encontrar um precedente.

Do MP gaúcho vem a esdrúxula proposta de “extinguir” o MST, como se a Constituição brasileira não garantisse o direito à livre associação. Se é fato que, nos últimos 20 anos, a demonização do MST na mídia brasileira tem sido coisa sem paralelo desde a época em que o Partido Comunista era acusado de comer criancinhas no espeto, também é fato que as ações recentes do MP gaúcho demonstram um nível de truculência e desrespeito à Constituição raras vezes visto.

Não importa o que você pense do MST. As denúncias são gravíssimas e é a democracia que está em jogo.



  Escrito por Idelber às 05:05 | link para este post | Comentários (34)



quarta-feira, 25 de junho 2008

Uma primeira olhada nas pesquisas americanas

Em 2004, Bush derrotou John Kerry nas eleições presidenciais americanas da seguinte forma:

800px-ElectoralCollege2004.svg.png

Apesar da diferença no número de estados, uma vitória de John Kerry em Ohio teria sido suficiente para dar um resultado diferente à eleição. Na peleja deste ano entre Obama e McCain, o Real Clear Politics lista 11 estados como indefinidos. Desses 11, nove votaram Republicano em 2004 -- a campanha de Obama vem colocando em jogo estados que, até muito recentemente, eram favas contadas para a direita, como Virgínia, Carolina do Norte e Colorado.

Veja as últimas pesquisas nos estados-chave: Ohio, Pensilvânia, Michigan, Wisconsin, New Hampshire, Virgínia, Flórida, Missouri, Colorado, Novo México, Nevada, Carolina do Norte.

Brincando com o mapinha do Real Clear Politics, você tem uma idéia exata do que Obama precisa fazer para levar. Nada na política americana recente nos autoriza a ser otimistas em excesso. Mas as chances são boas, muito boas.



  Escrito por Idelber às 20:50 | link para este post | Comentários (14)



terça-feira, 24 de junho 2008

Drops de Buenos Aires

Como já saberão os mui bem informados leitores do Biscoito, acabou o bloqueio de estradas na Argentina e o projeto de aumento das retenções sobre as exportações de soja e girassol está tramitando no Congresso. A sensação é de que o governo passou à ofensiva, sem uma única ação de repressão dura contra o bloqueio. Se você quiser saber qual é a diferença entre um governo Peronista e um governo Radical, ei-la aí: Peronista é aquele governo que banca e sai intacto de uma queda-de-braço com produtores agropecuários que entrangulam durante 100 dias o acesso às cidades. Um governo da UCR é aquele que desaba depois de 48 horas de piquetes.

Há tempos eu queria ouvir uma explicação inteligente sobre a penetração que teve o bloqueio entre os pequenos produtores da pampa úmida. Hoje, na Biblioteca Nacional, três economistas (Eduardo Basualdo, Alfredo Zaiat, Alejandro Roffman) esclareceram direitinho: a figura do pequeno ou médio produtor que vive de parte de sua colheita e vende o resto (o que entrou no imaginário argentino como chacarero) é, cada vez mais, uma raridade. Não é que ele não exista. Ele simplesmente passou a alugar sua terra para os grandes conglomerados da soja e viver desse aluguel. Rende muito mais do que produzir.

A Folha de São Paulo, que tem publicado boas matérias sobre a Argentina, precisa entender que não são “aumentos de impostos sobre as exportações de grãos”. É a soja e o girassol, não o trigo, não o milho. A diferença é fundamental porque aqui ninguém come soja. 98,5% se exporta. O aumento das retenções é justamente uma forma de estimular os outros cultivos ante o rolo compressor da sojicultura. Será que alguém poderia avisá-los? Há anos, evidentemente, eu não escrevo cartas a Painel de Leitor. É perda de tempo na época dos blogs.

*****

Melhorou sensivelmente a situação da cerveja em Buenos Aires. Se há alguns anos você era obrigado – exceto em lugares muito especializados – a escolher entre a fraca Quilmes servida em temperatura quase ambiente e aquela bebidinha bíblica feita de uvas, hoje em dia a belga Stella Artois está disponível em qualquer lugar. Opte sempre pela garrafa litro, que vem bem mais gelada. A garrafinha (porrón), por alguma misteriosa razão, chega morna.

*****

Da série “Coisas argentinas que você jamais verá no Brasil”: Sexta-feira à noite, sob um temporal, quase uma centena de pessoas se deslocam à Biblioteca Nacional para escutar uma leitura de poemas do grande, do incomparável Leónidas Lamborghini, que anda já pelos 80 anos de idade. Sem tematizar explicitamente a política, Lamborghini é o responsável pela incorporação de uma série de ritmos, tons, gírias da política à poesia argentina. Foi uma honra celebrar com o velho os 50 anos da publicação de El solicitante descolocado, que ganhou nova edição. A poesia de Lamborghini é um laboratório para se entender o que faz a grande poesia com a política. Nada ver com "literatura engajada".

*****

Das últimas conversas com meu amigo e genial escritor Ricardo Piglia, ficou esta frase sua: gosto dos escritores que dividem o público. Não sei de onde vem essa idéia de que os bons escritores devem ser do agrado de todo mundo. Discutíamos a obra de Sergio Chejfec, que tem essa qualidade: produz seguidores devotos e um vasto leque de leitores que insistem na pergunta: o que vocês vêem nesse cara? Eu, por certo, estou no primeiro grupo.

*****

Esta dica você não encontrará em nenhum guia de Buenos Aires: se quiser respirar o que restou da atmosfera dos primeiros contos de Borges, aqueles das lutas de facas, esqueça o Centro Cultural Borges, o cemitério da Recoleta, toda essa bobajada. Vá até a rua que leva seu nome, esquina com Guatemala, em Palermo. Lá se encontra um lugar chamado El preferido. É um raro espécimen do que se chamava uma pulpería: um armazém com pilhas de enlatados e conservas nas prateleiras, mas que vende comida como se fosse um restaurante popular. Imperdível (obrigado, Julia).

*****

É fato: o micro-centro está tomado por hordas de turistas da República Morumbi-Leblon-Mangabeiras. Eles vêm a Buenos Aires e passam cinco dias dentro de um shopping center, de preferência a intragável Galeria Pacífico. Saem de lá só para gritar uns aos outros: Benhêê, olha lá o Obelisco. O horror.

*****

Acredito ser esta uma lei universal sobre os donos de cachorros: quanto mais soberbos e pseudo-aristocráticos, mais eles pressupõem que todo o planeta deve gostar dos seus bichinhos e que estes são donos do espaço público. Ao vir a Buenos Aires, caminhe bastante por Palermo e descubra por que o bairro é um dos corações da efervescência cultural, gastronômica e livresca da cidade. Mas não ande de cabeça erguida por mais de 60 segundos. As solas de seus sapatos agradecerão.

*****

Pude constatar por que a Boutique del Libro é a livraria mais badalada em certos círculos literários da Argentina. Claro que o famoso Ateneo, da Avenida Santa Fé, é visita obrigatória. Mas eu gosto de livrarias menores, com personalidade, estoque bem escolhido, um bom café, funcionários que entendem de livros. Nesses quesitos, a Boutique é insuperável. Rua Thames, 1762. Em Palermo, claro.

*****

O Biscoito já fez uma resenha do fantástico Museu da Paixão Boquense num post anterior. Para os simpatizantes do clube xeneize no Brasil, é imperdível o excelente (e bem barato) restaurante El gardelito, ponto de encontro boquense. Fica também em Palermo, na Thames, quase esquina com Nicarágua (obrigado, Martín Kohan).

*****

Por falar em futebol, tenho vários amigos de luto por aqui: o Racing Club, a famosa Academia, um dos cinco verdadeiramente grandes do futebol argentino, está a um passo da Segunda Divisão.

*****

Já está completando 13 anos de existência uma das mais inovadoras revistas de ensaios da América Latina: Pensamiento de los confines, dirigida pelo meu amigo (e torcedor do Racing), o ensaísta Nicolás Casullo, pode ser lida, parcialmente, na internet.

*****

Recomendei, em 2007, El director, de Gustavo Ferreyra, como o melhor livro que eu havia lido no ano. Conversando com ele hoje, tive a grata notícia de há outros dois romances no prelo. O próximo sai pela Planeta, em novembro.

*****

Ao receber a notícia da morte de seu pai, uma mulher descobre que a lojinha já decadente que ele administrava e na qual ela trabalhava não era, como ela pensara, fonte de ganhos cada vez menores, mas de monstruosos prejuízos. Desempregada, com seus bens liquidados, ela conta as moedas para o ônibus que a levará a outra peregrinação infrutífera em busca de trabalho. Numa das incontáveis entrevistas, ela decide levantar levemente a saia. É o mote para a trama sensacional que organiza uma das últimas obras-primas do inesgotável romance argentino: não perca El trabajo, de Aníbal Jarkowski.

*****

A velha história: faça campanha como candidato "pró-vida". Grite histericamente contra o direito das mulheres ao aborto. Pontifique sobre "os direitos dos não-nascidos". Aí presencie a sua ex-namorada testemunhar que você a forçou a fazer um aborto (via TPM).

*****

Algum generoso leitor poderia oferecer uma mini-resenha do Roda Viva com José Miguel Wisnik?



  Escrito por Idelber às 03:11 | link para este post | Comentários (35)



sexta-feira, 20 de junho 2008

Sobre patriotismo e seleção

Ontem, durante o programa de rádio que fiz na Identidad FM, Alejandro Horowicz e Elsa Drucaroff me olharam atônitos quando eu disse que não poucos brasileiros torceram (ou pelo menos declararam ter torcido) pela Argentina, contra o Brasil, na final da última Copa América. Há 20 anos isso teria sido impensável, mas é fato que a secação vem se tornando comum. Nós nos vemos cada vez menos representados pela camiseta amarela. Ricardo Teixeira, Nike, a banalização da Seleção com jogos caça-níqueis, a compreensível falta de interesse de jogadores que já estão instalados no mercado europeu e não precisam da Seleção como vitrine, a piada de mau gosto que é ter Dunga como técnico: tudo isso, junto, vai minando qualquer veleidade patriótica no futebol. Na sua genial coluna de hoje (para assinantes) na Folha, Xico Sá afirma que a conquista da Copa em 1994 foi a pior coisa que poderia ter acontecido ao nosso futebol. Teria começado ali, segundo o galã cearense-pernambucano, o dunguismo, a doença infantil do teixeirismo. Eu completo o insight de Xico com o seguinte comentário: a segunda pior coisa que nos aconteceu foi ter vencido a Copa América dando aquele espírita e improvável baile de 3 x 0 na Argentina, numa competição que os hermanos haviam dominado com um futebol eficiente e vistoso, e a cuja final nós chegamos capengando, praticando um ludopédio dunguístico, grotesco.

No Impedimento, o Milton Ribeiro escreveu um excelente texto (que gerou uma ótima discussão nessa que é das melhores caixas de comentários da blogosfera) defendendo a secação da Selecinha, basicamente com o argumento de que uma hecatombe – do tipo ficar fora da Copa – poderia produzir algum sacolejo positivo no barraco do nosso futebol. Estou com o Milton. Raramente consigo torcer contra o Brasil, mas não é por falta de vontade. Enquanto continuarmos ganhando essas Copas América com uma mescla de sorte, lampejos individuais, ajudas dos árbitros e medo dos adversários, ainda haverá Teixeiras e Dungas para tapar o sol com a peneira. Quando um jogador medíocre como o lateral Gilberto tem a cara-de-pau de dizer, depois do último Brasil x Argentina, que o problema é que a Argentina vem jogar no Brasil e eles aplaudem o Messi (omitindo o fato de que Messi foi aplaudido aos 40 do segundo tempo, depois de outra horrorosa apresentação do escrete), é porque o insulto ao torcedor já virou moeda corrente, ao que qualquer cabeça-de-bagre pode recorrer. Aqui, não há como esquecer dos ilustres antecessores de Gilberto, naquela que eu considero a cena mais grotesca, melancólica e deprimente da história do nosso futebol: a comemoração da conquista de 1994, com jogadores, técnico e coordenador segurando a taça e insultando seus compatriotas jornalistas e torcedores com palavras de baixo calão. O adequadíssimo coroamento foi o tráfico de três aviões de muamba vindos dos EUA, sobre os quais não se pagou imposto de alfândega por imposição da CBF, com o argumento de que “a Seleção havia dado uma alegria ao povo”.

Sinceramente, não tenho paciência para aulas de patriotismo de quem vem dizer que a tarefa do brasileiro é apoiar a Seleção incondicionalmente. Se quiser apresentar esse argumento aqui, leitor, fique à vontade, mas não há qualquer chance de eu levá-lo a sério.

Em tempo: pela primeira vez desde o início das Eliminatórias por pontos corridos, o Brasil está fora da zona de classificação para a Copa. Pela primeira vez em sete anos, perdemos dois jogos seguidos. Pela primeira vez em 18 confrontos, perdemos para a Venezuela, que nunca havia conseguido sequer um empate contra o Brasil. Há 300 minutos o Brasil não marca um gol.

PS: Não deixem de conferir essa sensacional montagem mostrando como o jornalismo esportivo pode ser besta. É sobre a Argentina, mas poderia se aplicar perfeitamente ao Brasil também.



  Escrito por Idelber às 05:47 | link para este post | Comentários (55)



quinta-feira, 19 de junho 2008

Dica

Hoje, às 23:00, participarei do programa de rádio dos intelectuais argentinos Elsa Drucaroff e Alejandro Horowicz, para falar de literatura, política e cultura.

É na FM Identidad, que pode ser ouvida online.



  Escrito por Idelber às 18:38 | link para este post | Comentários (10)




Manifestação multitudinária na Praça de Maio

Nos vemos mañana en la plaza. Há que se estar familiarizado com a história argentina para entender todo o poder simbólico que carrega essa simples frase. Existem dezenas de praças em Buenos Aires, mas só uma é la plaza. Exatos 53 anos e 3 dias atrás, dez toneladas de bombas foram lançadas pela marinha argentina sobre a Praça de Maio para tentar matar Perón, o presidente reeleito com 68% dos votos. 300 pessoas morreram. Um ônibus com 80 garotos de Santiago del Estero – que haviam vindo conhecer o Presidente – foi carbonizado. Vinte e poucos anos depois, um grupo de mulheres com lenços brancos na cabeça se transformariam, ali, nas mães mais famosas do mundo. A Praça deixava de ser só dos peronistas para se transformar no lugar por excelência da cidadania argentina.

Éramos mais de 100.000 ontem à tarde na Praça de Maio, no ato em defesa da institucionalidade democrática e contra o bloqueio latifundiário das estradas:

mayo.jpg


Desta vez, sim, a convocatória foi ampla. Compareceu o peronismo, mas também estiveram lá todos os setores que – mesmo tendo críticas ao governo – já não toleram o cerceamento do direito dos argentinos irem e virem. Não foi um ato oficialista, embora a presidente fosse a única oradora. Compareceu, por exemplo, o Partido Socialista, crítico do kirchnerismo. Compareceu em massa o sindicalismo. A classe média portenha estava lá em peso. Até mesmo o La Nación, o mais direitista dos grandes jornais argentinos, reconheceu que a praça superlotou. As colunas iam chegando por todas as vias de acesso:

mayo2.jpg

Anteontem, Cristina Kirchner recuou e anunciou, em cadeia nacional, que está enviando o projeto de aumento das retenções sobre as exportações de soja e girassol ao Congresso Nacional, onde o peronismo tem maioria em ambas câmaras. Se tivesse feito isso há três meses, teria evitado um grande desgaste. Em todo caso, antes tarde do que nunca. O envio do projeto ao Congresso, combinado com o estrondoso sucesso do ato na Praça de Maio, dão fôlego ao governo e colocam na defensiva os latifundiários da soja, que mesmo assim anunciaram que a paralização continua até sexta-feira.

O discurso de Cristina foi duro e polarizante, acusando a “quatro pessoas em quem ninguém votou” (os quatro líderes das Federações Agrárias) de desrespeitar o direito de todos os argentinos. Apesar de que há muita gente – por exemplo, este blogueiro -- que vê torpeza, falta de tato e setentismo no governo Kirchner, as forças democráticas vão se unificando na defesa das instituições e na condenação ao que é, na prática, um ato de terrorismo dos latifundiários. Já são mais de seis milhões de litros de leite desperdiçados. No ato da Praça de Maio, o povo mais pobre era, visivelmente, o mais radicalizado. Falta política ao governo Kirchner. Mas aos seus opositores no campo falta decência e senso de cidadania.

PS:
Sim, eu assisti ao jogo de ontem. Sim, torci pelo Brasil. Até os 10 minutos do segundo tempo. E vocês?



  Escrito por Idelber às 04:18 | link para este post | Comentários (21)



quarta-feira, 18 de junho 2008

Roberto Fontanarrosa, uma homenagem

Abriu hoje, no Imago (Rua Suipacha, 658, Buenos Aires), uma exposição de mais de 200 obras do genial humorista e escritor argentino Roberto Fontanarrosa, el Negro, que morreu no ano passado aos 62 anos. Fontanarrosa nasceu em Rosario e começou a fazer um estrondoso sucesso no Clarín, nos anos 70, com suas tirinhas. Foi o criador de personagens que marcaram a cultura argentina, como o verdugo Boogie, o oleoso e o gaucho Inodoro Pereyra. De todos os grandes escritores argentinos, foi o que mais registrou o futebol. Torcedor fanático do Rosario Central (diz a lenda que não há Gre-Nal, não há Cruzeiro x Atlético, não há Boca x River que se compare à feroz rivalidade entre Rosario Central e Newell's Old Boys), El Negro se reunia com a torcida do clube a cada 19 de dezembro, para celebrar o famoso gol de palomita ao qual ele dedicou um conto clássico. Os relatos de Fontanarrosa sobre o futebol estão reunidos no volume Puro fútbol, de 2000, leitura obrigatória para os literatos ludopédicos.

A festa foi concorrida e eu fiz questão de tirar algumas fotos para compartilhar com os leitores do blog:

fontana-0.jpg

fontana-1.jpg


fontana-2.jpg


fontana-3.jpg


fontana-4.jpg


fontana-5.jpg

fontana-6.jpg

A mostra fica em cartaz até o começo de agosto. Passando por Buenos Aires, não deixe de conferir. O filme que acompanha a exibição é emocionante.



  Escrito por Idelber às 02:22 | link para este post | Comentários (20)



terça-feira, 17 de junho 2008

Comentários sobre a mídia

Está confirmado: na partida decisiva da Copa do Brasil, na quarta-feira passada, na Ilha do Retiro, a Rede Globo de Televisão manipulou deliberadamente o áudio para que parecesse que os 1.000 corinthianos presentes no estádio haviam “calado” os 35.000 rubro-negros pernambucanos. Captada em um canal diferente daquele reservado para o resto do estádio, a cantoria da torcida do Corinthians foi sobredimensionada, enquanto o barulho da torcida do Sport era eliminado na mesa de edição. Muitos dos que assistimos à partida estranhamos o fato de que as palavras de ordem dos corinthianos aparecessem com tanto destaque, quando obviamente a Ilha do Retiro, lotada, também cantava. A manipulação foi tão óbvia que mesmo antes da confirmação da falcatrua já estava nítido que algo de errado havia.

A transmissão da partida foi outra das pérolas de parcialidade com as quais gaúchos, mineiros, baianos, pernambucanos, goianos, paranaeneses já nos acostumamos. Cléber Machado não conseguia disfarçar a decepção com os gols do Sport. Arnaldo César Coelho – aquele que apitou uma final de Campeonato Brasileiro em que um jogador foi pisoteado sem que seu algoz fosse expulso – procurava pênaltis para o Corinthians e punições para os jogadores do Sport. Tudo como dantes: o jogo foi narrado como se uma equipe fosse brasileira e, a outra, estrangeira. Com isso já estamos acostumados. Mas falsificação de áudio, convenhamos, é capítulo digno de nota mesmo no já ilustre currículo da emissora que participou de tentativas de fraudes eleitorais, manipulou edições de debates presidenciais, colaborou com a tortura e escondeu o maior acidente aéreo da história do Brasil para divulgar, com objetivos eleitorais, fotos ilegalmente obtidas.

*********

A Selecinha de Dunga levou um previsível vareio de bola do Paraguai. De quem é culpa? Ora, segundo Lucia Hippolito, a culpa é do Lula, claro.

**********

É inacreditável o esforço que faz o Grupo RBS para blindar o governo de Yeda Crusius (PSDB-RS) no escândalo de corrupção que desviou, via Detran, 40 milhões de reais dos cofres públicos gaúchos. Depois de ignorar as denúncias durante meses, a Zero Hora não teve como não noticiar eventos como a violenta repressão da Polícia Militar do Coronel Mendes a uma manifestação pacífica na semana passada. Como o fez? Dizendo que os manifestantes haviam “entrado em conflito” com a polícia, quando todos os testemunhos confirmam que a polícia militar atacou de forma totalmente não provocada uma manifestação pacífica.

No Jornal Nacional, da Globo, foi pior: a manifestação contra a corrupção do governo Yeda foi descrita como “protesto contra a alta dos alimentos”. No Jornal do Brasil, uma grotesca manchete anunciava "Corrupção abala governo do PT". Depois, a Zero Hora fez uma pesquisa sobre a atuação repressiva da PM na qual os cidadãos que telefonavam para o número que designava “ação exagerada” encontravam as linhas ocupadas. É verdade que nós, mineiros, estamos acostumados com o pior jornal do planeta, o Estado de Minas. Mas a Zero Hora leva o pseudo-jornalismo a níveis de criminalidade poucas vezes alcançados. Para acompanhar a crise no Rio Grande, a melhor fonte, você já sabe, é o RS Urgente.

**********

Em definitivo: quaisquer que sejam as restrições que você possa ter ao alinhamento automático do Página 12 com o kirchnerismo, não se informe sobre a crise argentina pelo Clarín. Saio às ruas, vou ao supermercado, converso com atores sociais, visito manifestações dos dois lados, acompanho os acontecimentos de perto. Chego em casa, leio o Clarín e tenho a sensação de que estão falando sobre outro país, talvez o Iraque.

**********

Por tudo isso, é bom ficar de olho nos desdobramentos do Fórum de Mídia Livre, que acaba de se realizar no Rio de Janeiro. Rovai falou, Marco Aurélio Weissheimer fez a síntese e Katarina pensou com o brilhantismo de sempre.

Atualização. A propósito deste tema, Soninha escreveu um belo texto: Pesos e medidas.



  Escrito por Idelber às 05:18 | link para este post | Comentários (53)



domingo, 15 de junho 2008

Dia tenso na Argentina

A situação aqui na Argentina, embora não seja a hecatombe que às vezes pinta o Clarín, vai ficando bem grave. O dia de hoje foi o mais tenso dos últimos três meses de crise. Caminhando por Buenos Aires ao léu, vi nada menos que quatro grandes manifestações: três contra o governo e uma a favor, na Praça de Maio. Em primeiro lugar, há que se esclarecer que o aumento das retenções imposto pelo governo não é à exportação de “grãos”, como afirmou hoje a Folha de São Paulo. Aplica-se à soja e ao girassol. De acordo com o decreto original, de maio, que provocou a crise, as retenções sobre o trigo e o milho baixaram, inclusive. 98% da soja produzida pela Argentina se destina à exportação.

Observando as manifestações contra o governo no chiquérrimo bairro de Belgrano, é impossível não perceber uma curiosa ironia: as panelas, em geral, são utilizadas em passeatas por gente que não tem muita intimidade com elas. É aquele desjeito que você vê, por exemplo, nas mãos de um não-fumante forçado a segurar um cigarro. Do lado do governo, o patetismo chega quase ao mesmo nível. Hoje, o ex-presidente Néstor Kirchner, marido da presidente Cristina e chefe do Partido Peronista, foi participar da manifestação pró-governo na Praça de Maio, junto com ministros de estado. Quando a passeata se transforma em instrumento de governo de um país de 40 milhões de habitantes, é porque a coisa vai mal. O peronismo (kirchnerismo), por sua própria natureza, impede o surgimento em seu interior de políticos como Hermes Binner, ao mesmo tempo comprometidos com um idéario de esquerda mas capazes de gestão e negociação.

A grande derrota do governo, até agora, é da ordem das relações públicas: uma queda-de-braço com os exportadores de soja é quase universalmente percebida como um conflito com “o campo”. Essa percepção vai, é claro, informando as atitudes dos próprios sujeitos agrários, que são diversificados entre si, mas que passam a ver-se representados, mesmo que imaginariamente, nos interesses dos sojicultores -- percepção reforçada pelo milenar ressentimento das províncias contra Buenos Aires. Até as Mães da Praça de Maio racharam: enquanto Hebe de Bonafini, fiel ao governo por sua política de direitos humanos, pede prisão de 15 anos para os que bloqueiam as estradas, Mireya González, das Mães de Gualeguaychú, defende a “luta social” dos dirigentes agropecuários. A situação entre os prefeitos também é de cisão: na província de Buenos Aires, 52 prefeitos apóiam “o campo” e 68 apóiam o governo. Em Córdoba, a esmagadora maioria dos prefeitos está contra o governo. Em Santa Fé, a coisa está mais ou menos pau a pau. Ainda não há desabastecimento para valer em Buenos Aires, mas é uma possibilidade real. Em várias províncias, faltou combustível.

Aí vai uma coleção de links para quem quiser acompanhar a crise pelos blogs argentinos de política.

Um lado:
Lomas nuevo o lomas viejo
Homus economicus
NerdProgre
Ramble Tamble
El magma

O outro lado:
50 amaneceres
Nanopoder
Abuelo económico.

PS. Vem-me à memória uma citação de Julio Cortázar, d'O livro de Manuel: O campo é esse lugar onde os frangos passeiam crus.



  Escrito por Idelber às 04:41 | link para este post | Comentários (13)



sexta-feira, 13 de junho 2008

Na churrascaria com César Luis Menotti

A grande crítica literária argentina Florencia Garramuño e um dos maiores musicólogos das Américas, Federico Monjeau, são testemunhas de que não lhes minto: na noite desta sexta-feira, 13 de junho, o técnico da Seleção Argentina campeã do mundo em 1978, César Luis Menotti, jantou na Parrilla Peña, na Rua Rodríguez Peña quase esquina com Viamonte. O cabra é gigantesco – eu não sabia. Deve ter um metro e noventa e tantos.

Pois bem, eu, que não gosto muito de incomodar famosos em jantares, arrumei um jeito de me apresentar quando fazíamos o intervalo de fumantes do lado de fora:

--- Professor Menotti, eu sou brasileiro, e o Sr. nos proporcionou um grande desgosto em 1978.

Menotti, gênio, na bucha:

--- Quem mandou vocês tirarem Reinaldo do time? Com ele na equipe, vocês nos teriam derrotado em Rosario, fácil, fácil.

Eu ia perguntar sobre os 6 x 0 no Peru mas, depois dessa, preferi falar da carne. Figuraça, o grande Menotti.


PS: Saiu matéria caseira sobre o segundo Departamento de Espanhol e Português mais produtivo dos EUA.

PS 2: Hoje, o Caderno Idéias, do Jornal do Brasil, publica minha resenha de Veneno Remédio: O Futebol e o Brasil, de José Miguel Wisnik. Dêem lá uma conferida (cortesia do link: Luiz).



  Escrito por Idelber às 23:52 | link para este post | Comentários (12)



quarta-feira, 11 de junho 2008

A crise argentina

Já dura três meses a queda-de-braço entre o governo de Cristina Kirchner e o que imprensa convencionou chamar “o campo”. Em março, o governo decidiu por um aumento de 45% nos impostos sobre as exportações de produtos como a soja. A partir daí, o locaute patronal, o bloqueio de estradas e o confronto marcado pela incapacidade do governo de conseguir aliados no campo vêm polarizando a Argentina. Os entidades patronais rurais parecem ter conseguido arrebanhar a simpatia dos pequenos produtores, e o governo enfrenta dificuldades também entre setores da sociedade civil que são críticos dos métodos da família Kirchner, hoje hegemônica dentro do Partido Justicialista (Peronista). A polarização chegou à imprensa, com o Clarín se transformando num verdadeiro porta-voz da oposição e o Página 12 ocupando posição mais alinhada ao oficialismo.

O “racha” na sociedade argentina é mais agudo que qualquer cisão que tenhamos experimentado no Brasil em anos recentes e é incompreensível sem referência a dois elementos bem antigos na Argentina: o abismo político entre Buenos Aires e as províncias (que se remonta ao século XIX) e a falta de alternativas políticas reais ao Peronismo. Ao contrário do que pode parecer, a cisão não é exatamente contígüa à divisão entre direita e esquerda, apesar da linguagem usada pelo governo contra seus opositores (“gorilas”, “golpistas” etc.).

Para entender melhor a crise argentina, o Biscoito deixa aqui alguns links a textos publicados pelas partes envolvidas: a Carta Aberta assinada por milhares de intelectuais e ativistas em apoio ao governo; o Acordo do Bicentenário assinado por um grupo de docentes que tomou distância do kirchnerismo; por fim, o texto Nem com o governo nem com os patronais do campo, assinado por aqueles que mantêm posição crítica a ambos os lados do conflito. A Carta Aberta provocou uma resposta de Vicente Palermo, que faz uma crítica interessante do que poderíamos chamar a "política do possível". Essa intervenção foi contestada – no meu modo de ver de forma não muito convincente – por Horacio González. A polarização chegou ao ponto em que Hebe de Bonafini, líder de um setor das Mães da Praça de Maio (e alinhada com o governo), pediu a prisão dos membros da comissão de enlace do campo. A polêmica já gerou um texto sugestivo sobre a Nova Direita.

PS: O blog transmite de Buenos Aires de amanhã até o dia 27 de junho. Para quem me perguntou sobre o curso sobre música popular e cidadania, aí vão os detalhes. Nesta sexta-feira, nos reunimos de 14:00 às 20:00 na sede da Universidad San Andrés no centro da cidade. No sábado, a aula acontece de 9:00 às 13:00 no auditório da FUNCEB.

PS 2: Alguns outros posts do Biscoito sobre a Argentina:
Esses estranhos seres vegetarianos.
Biblioteca básica de literatura argentina.
Desde Buenos Aires: Revelación de mi identidad.

PS 3: Ela passou por Belo Horizonte. Foi bom demais vê-la, porque brigamos muito nestas primárias americanas. A visita foi com direito a um presentinho para mim – um livro de Nelson Rodrigues com dedicatória inesquecível. Valeu, valeu. A idéia dela é que a gente redirecione o Clube de Leituras para trabalhar mais freqüentemente com contos. Achei ótimo e estou aberto a sugestões.



  Escrito por Idelber às 22:59 | link para este post | Comentários (28)



segunda-feira, 09 de junho 2008

Expresso Monofônico

expresso.jpg

Foi o legendário selo Baratos Afins que lançou, em 2006, o primeiro disco da banda Expresso Monofônico, que é conhecida de quem acompanha a cena underground da Paulicéia, mas que ainda não tem o público que merece. O psicodelismo e a Tropicália são estradas já trilhadas à exaustão, mas o Expresso as revisita com classe e ironia. Trazem aquela consciência de quem está fazendo um pastiche. Em alguns momentos, no uso da dissonância e dos ruídos ambientes sobre uma base rock, lembram muito os Mutantes. O trabalho com o insólito nas letras, os jogos com várias camadas de vozes e as súbitas interrupções na linha melódica se inspiram na melhor vanguarda paulistana de Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção. Há um ludismo que deve algo a Tom Zé. A banda traz também alguns momentos intimistas, com violão acústico – como na bela faixa “Seja o que parece ser”.

Parece que os shows são menos freqüentes do que gostariam os fãs, mas o disco está disponível na íntegra no site da banda. Pedro Alexandre Sanches os destacou na Carta Capital e a Guitar Player também já fez matéria. Outras publicações, como O Martelo, ou a pernambucana Coquetel Molotov (pdf), também já dedicaram atenção aos paulistanos. O Expresso Monofônico é formado por Luiz França na bateria, Leo Jabba Jabba no baixo, Allan Rodrigues na percussão, Rafael Pimenta na guitarra e no piano, além de uma cantora carismática e cheia de recursos, Ana Regina Galganni, de cujo perfil no orkut tirei a foto que ilustra o post. Vale a pena a visita ao site da banda para conferir pelo menos duas faixas: “Vazio” e “Vista de cima”, talvez os dois momentos mais líricos do álbum. Para quem curte alusões pop mescladas às referências eruditas, a faixa “Dorothy” é obrigatória. Também é possível encontrá-los no YouTube, mas a qualidade do som é bem ruim. É a dica musical da semana.

PS: E por falar em música, não posso deixar de agradecer ao grande artista Chico Amaral pela hospitalidade de sábado em seu sítio, naquela que foi simplesmente a melhor festa junina que já vi na vida. A essas duas famílias maravilhosas -- os Bueno e os Amaral --, minha gratidão. Valeu, Serginho, Belinha, Janaína, Regina, Manu, Daniel. Tavinho, sua leitura me honra.

PS 2:
Para quem está acompanhando a campanha eleitoral americana, vale a pena a leitura de duas experiências contrastantes. O Philadelphia City Paper enviou repórteres para atuar como voluntários nos comitês dos dois candidatos democratas. É só ver a diferença entre os comitês de Clinton e de Obama, e entender por que o resultado foi o que foi.



  Escrito por Idelber às 05:32 | link para este post | Comentários (16)



sexta-feira, 06 de junho 2008

Drops de política

Existe uma deliciosa expressão no inglês norte-americano que, dizem as más línguas, foi consolidada por ninguém menos que Cindy Lauper: to throw something or somebody under the bus, que na política significa algo assim como “livrar-se de aliados inconvenientes em nome da elegibilidade”. O exemplo clássico foi o governo Clinton, que depois de lançar gays, lésbicas, negros, feministas, ambientalistas e ativistas pró-imigração pra baixo do ônibus, chegou àquele ponto em que a sensação era que o próprio ônibus já estava sendo lançado pra baixo do ônibus. Numa política bipartidista, caracterizada pela ação incessante de uma direita feroz no uso da tática do "culpado por associação", a vida do Partido Democrata tem sido, nas últimas décadas, um perene lançamento de aliados pra baixo do ônibus. Depois de confirmado como candidato democrata, Obama fez o seu primeiro discurso ante o lobby pró-Israel AIPAC. Ninguém era ingênuo de imaginar que Obama não faria as tradicionais declarações de lealdade a Israel sem as quais, nos EUA, você não se elege nem síndico de prédio. Hillary Clinton foi muito bacana no processo: já há tempos merecedora da confiança do lobby sionista, acompanhou Obama e apresentou ao público a sua certeza de que ele será um bom amigo de Israel. Mas ninguém, acredito que nem mesmo a liderança da AIPAC, esperava que Obama – além de declarar que impedirá o Irã de conseguir armas nucleares, que defenderá a integridade territorial do aliado americano no Oriente Médio, etc. etc. -- fosse declarar que Jerusalém é a capital indivisível de Israel. Evidentemente, isso contraria todos os planos internacionais de paz e todas as resoluções da ONU sobre o tema, que prevêem controle palestino sobre Jerusalém Oriental. Contraria até mesmo a posição oficial dos EUA, que não reconhecem a ocupação de Jerusalém Oriental. Previsivelmente, os primeiros a serem lançados pra baixo do ônibus nesta campanha americana são os palestinos. É o velho padrão dos democratas: ofereça concessões além do esperado e depois fique com as mãos atadas.

Atualização, 09/06: Ou, pensando bem, talvez não. Veja o esclarecimento do Daniel abaixo e a minha resposta.

******************

Falando no tema, eu e Pedro Dória estamos adiando o debate sobre o livro de Ilan Pappe, The Ethnic Cleansing of Palestine, que estava marcado para a próxima segunda-feira. Os livros do Pedro não chegaram a tempo, e eu confesso que o adiamento me serve bem, dado o acúmulo de trabalho. Algumas pessoas também me haviam sugerido que precisavam de mais tempo. Está mantida a idéia do papo, mas para outra data a ser decidida em breve.

*****************

Notícias do front da cicatrização: houve melhora significativa no clima dentro do Partido Democrata nas últimas 48 horas. Como já é sabido, Hillary enviou email aos seus apoiadores confirmando que no sábado realizará um ato em que suspenderá a campanha e começará a pedir votos para Obama. A história de bastidores é que o núcleo duro da campanha em Nova York jogou pesado e forçou a barra para que ela tomasse a atitude logo. Parece que a voz do deputado federal Charlie Rangel, aliado antiquíssimo dos Clinton, foi bem decisiva. Também houve uma sensível aliviada na pressão para que Hillary fosse escolhida vice. Uma das vozes mais respeitadas da blogosfera feminista, a Bitch Ph.D., junto com centenas de leitoras, argumentaram pesado contra algumas apoiadoras de Clinton que chegaram a falar em não votar em novembro, ou mesmo a votar em McCain. Os republicanos estão a um voto de derrubar Roe v. Wade na Suprema Corte e o próximo presidente indicará, muito provavelmente, mais um ou dois juízes (Justice Stevens tem 88 anos e Justice Ginsberg tem 75). Uma vitória de McCain em novembro é praticamente a garantia do fim do direito ao aborto nos EUA por, pelo menos, uma geração. Na pontuação criada pela principal entidade de defesa dos direitos reprodutivos nos Estados Unidos, a NARAL, Barack Obama tem nota 100%.

*********************

Lembram-se de uma recente matéria do New York Times sobre a piração dos veteranos da Guerra do Iraque? Pois vejam a última: Kirk Coleman, 27 anos, soldado para-quedista veterano da invasão, estuprou uma garota de três meses. Sim, três meses. O bebê teve fratura em 17 ossos e sofreu dano cerebral. Fizeram um acordo judicial para que ele fosse processado só por “tentativa de abuso infantil”. Com esse acordo, a pena máxima que ele poderá receber será de 5 anos de cadeia.

********************

Parece que está se tornando insustentável a situação do governo de Yeda Crusius, governadora do Rio Grande do Sul, com a recente revelação de gravações que demonstram que o esquema de corrupção no Detran gaúcho, que desviou mais de $40 milhões dos cofres públicos, envolvia elementos de cúpula do seu governo. Estou acompanhando o caso desde o começo pelo show de cobertura dado pelo RS Urgente, que driblou toda a grande mídia neste caso. Do paladino da moralidade Pedro Simon, até agora, nem uma palavra.

*******************

Gostei dessa: as oito melhores -pedia que não são a Wikipedia (via Últimas de Babel).

Atualização: O mais popular entre os radialistas americanos de extrema-direita, Rush Limbaugh, está conclamando seus ouvintes a assinar a petição de apoio à idéia de Hillary Clinton como vice-presidente. Não podemos acusá-lo de não ser transparente: batizou a empreitada de "Operação Caos".



  Escrito por Idelber às 04:41 | link para este post | Comentários (29)



quinta-feira, 05 de junho 2008

Filosofia e sociologia de volta como matérias obrigatórias no ensino médio

Se a filosofia e a sociologia não tivessem sido abolidas do currículo médio pela ditadura militar em 1971, a discussão sobre a educação no Brasil hoje com certeza estaria se dando em bases um pouco mais sofisticadas, sem a tediosa repetição de clichês e o previsível pingue-pongue entre focalismo e universalismo. Por isso, é excelente a notícia da volta da obrigatoriedade das duas disciplinas no ensino médio. Trata-se, finalmente, da restauração de parte do que foi destruído pela reforma educacional da ditadura, que começa com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Superior, a 5.540/68 – marco na tecnificação da universidade brasileira – e se confirma com a 5.692/71, que joga para escanteio a filosofia e a sociologia e instala as famigeradas Educação Moral e Cívica e OSPB. Não custa lembrar que em 2001 o Congresso Nacional já havia aprovado a restauração das duas disciplinas, mas Fernando Henrique Cardoso, o sociólogo, vetou.

Depois de uma busca bem exaustiva, não consegui achar um único profissional ligado à educação que fosse contrário à medida. Talvez algum contra-exemplo exista, mas é notável a quase unanimidade do apoio à lei entre quem trabalha com o ensino. Como sempre acontece quando qualquer reforma de ensino é proposta, um argumento se repete: o ensino médio brasileiro é muito ruim e acrescentar duas disciplinas não adianta. É uma variação do pseudo-raciocínio que preconiza que não adianta mudar nada até que se mude tudo: pensamento típico de uma geração gente que não estudou filosofia e que, portanto, não adquiriu instrumentos para formular a relação entre a parte e o todo, entre a singularidade e a totalidade. Ficamos engessados na paralisia ante o ruim de tudo. Qualquer ação localizada é imediatamente bombardeada com o pseudo-argumento de que o todo continuará o mesmo.

O outro pseudo-argumento é que se não sabem nem escrever português, por que vão aprender dialética hegeliana? Nada mais típico de quem nunca teve nem aulas de filosofia nem a oportunidade de refletir sobre o que é lecionar o vernáculo. Não há instrumento mais valioso para o ensino da expressão escrita do que noções de lógica – o que inclui a lógica da não-contradição, a lógica transcedental e, sim, a lógica dialética. “Aprender português” é mais que memorizar que “exceção” se escreve com ç. É aprender a expor um argumento, derivar suas conseqüências, colocar-se no lugar do contra-argumento. É na filosofia, não na Educação Moral e Cívica, que se aprendem estas coisas.

Um colunista da Veja revive o bicho-papão da doutrinação ideológica – ah, que medo a extrema-direita tem dessas duas disciplinas! – e prevê que os alunos não estudarão a “história do pensamento”, mas se perderão em “grandes debates sobre os dilemas éticos do nosso tempo”. Se tivesse tido a sorte de estudar filosofia, saberia que aulas de filosofia não são a mesma coisa que aulas de história da filosofia; que é perfeitamente possível ensinar uma coisa antes, ou de forma relativamente independente, da outra; que é factível lecionar rudimentos de pensamento dialético, por exemplo, a um grupo de alunos que ainda não está em condições de ler a Fenomenologia do espírito. Não sou contra a utilização da carga horária da filosofia para ensinar a história do pensamento. Só lembro ao leitor que um curso básico de filosofia não tem por que ser, necessariamente, uma marcha de Heráclito a Heidegger.

Minha filha de 8 anos tem aulas de filosofia desde os 5, com um excelente professor. É uma de suas matérias favoritas. Estão, agora, trabalhando a questão da temporalidade. Não, não estão lendo Bergson. Começaram com perguntas bem básicas, sobre o que fazem agora e não faziam dois anos atrás. Daí se puseram a pensar o que não fazem agora e passarão a fazer no futuro. Amanhã, visitarão um asilo de idosos para conversar com eles sobre o tempo. Não tenho o menor medo de que ela vá ser “doutrinada”. Está reunindo os elementos necessários para identificar um discurso pedestre e histérico quando ele aparece.

Conheço o contra-argumento: ah, Idelber, não temos professores preparados para a tarefa! O governo FHC fez algumas poucas coisas boas, mas é desastroso o legado desse focalismo mecânico com o qual os tucanos costumam pensar a educação. Trataram a universidade com tremendo descaso durante oito anos, sob o argumento de que a prioridade era o ensino fundamental -- só para que nos deparemos, agora, com a falta de preparação dos professores do ensino médio, como se biólogos, matemáticos, físicos, geógrafos e historiadores fossem formados em naves espaciais, e não em universidades. É evidente que o problema vem de antes, mas faltou ali uma compreensão dialética da relação entre investimento em ensino básico e investimento em ensino superior; aqui, a diferença entre Fernando Haddad e Paulo Renato é abismal. Por tudo isso, acho lamentável a intervenção de José Arthur Gianotti neste debate. Age como se os garotos não fossem dignos da filosofia. Comporta-se como quem não ama o conhecimento, em profunda traição à própria etimologia da palavra "filosofia".

Que se cobre mais investimentos no ensino básico. Que se cobre mais infra-estrutura para as escolas. Que se cobre um melhor salário para o professor. Que se cobre tudo o que atual governo poderia estar fazendo a mais. Mas que as iniciativas positivas não deixem de ser incentivadas por causa do pseudo-argumento de que o resto continua muito ruim.

PS: Parabéns, Lucia Malla. Parabéns, tricolores. Há tempos eu não via um mata-mata tão épico como esse Flu x Boca. Dois jogaços. Acho que poucos discordariam que, no total dos 180 minutos, o Boca jogou mais. Mas o Flu soube matar na hora certa, teve um Fernando Henrique inspiradíssimo, não se intimidou com toda a “mística” e contou, convenhamos, com um tiquinho de sorte. Nada disso lhe tira o mérito, que foi enorme.

Atualização: O cumpadi Arranhaponte contra-argumenta.



  Escrito por Idelber às 03:09 | link para este post | Comentários (62)



quarta-feira, 04 de junho 2008

Noite histórica para a democracia: Barack Obama é o candidato

04obama12_600.jpg

Em novembro, os cidadãos norte-americanos vamos às urnas. Temos a chance de derrotar a mais desastrosa coalizão política da história dos EUA. A que mais danos fez à imagem e ao legado do país. A que mais rastros de sangue, mentiras, déficits e ilegalidades deixou atrás de si. Barack Obama será o candidato do Partido Democrata, como já sabiam os leitores deste blog desde 20 de fevereiro. Ontem, depois de uma sucessão de endossos de super-delegados ao longo do dia, Obama chegou ao número mágico com a vitória em Montana. A festa da vitória foi bem no terreiro deles. A escolha do lugar foi deliberada: em Minnesota, onde o Partido Republicano realizará sua convenção em setembro para confirmar John McCain como seu candidato, Barack e Michelle Obama reuniram 20.000 pessoas. Foi um momento inédito, mágico da política. Quando a possibilidade soa como um átimo, esse átimo merece a eternidade. O discurso de Barack, dedicado a unir o partido, foi recheado de longos elogios a Hillary Clinton.

Sabia-se que não haveria discurso de concessão de Hillary. Não é do estilo dela reconhecer que perdeu. Ao longo destas primárias, nem uma única vez Hillary Clinton felicitou Barack Obama por suas vitórias. Ao longo da campanha, nem uma única vez Barack Obama deixou de parabenizar Hillary por seus triunfos, incluindo-se aqui o de Dakota do Sul na noite passada. Nessa singela diferença, já fica nítido que separou as duas campanhas.

Mas ninguém esperava o patético e lamentável espetáculo que foi o discurso presenciado por algumas centenas de pessoas no porão de Baruch College, em Manhattan, lugar deliberadamente escolhido por não ter televisões nem possibilidade de sinal para celulares ou Blackberries, de tal forma que ninguém se inteirasse de que o mundo já havia reconhecido Barack Obama como o candidato do Partido Democrata. Para começar, o chefe de campanha Terry McAuliffe – como é possível que em algum país da América do Sul ainda exista gente inteligente acreditando ser feminista uma campanha dirigida por Terry McAuliffe? -- anuncia Hillary com a seguinte pergunta: Vocês estão prontos para a próxima presidente dos Estados Unidos? Sim, eles vivem no universo paralelo. No discurso de Hillary, nem uma única palavra de reconhecimento da vitória de Obama. Depois, a estranhíssima frase I won't be making any decisions tonight, como se houvesse alguma decisão a tomar. Para completar, a repetição patológica de que ela é a melhor candidata (tudo ao som de “Simply the Best” de Tina Turner) e a martelada esquizofrênica de que ela “teve mais votos” -- bizarra matemática à qual eles chegam excluindo os estados que usaram assembléias em vez de cédulas. E excluindo os estados que começam com I e com M. E excluindo os estados de três sílabas. E excluindo não sei mais qual estado no malabarismo de Mark Penn. É como se o Vasco, depois de ser derrotado pelo Flamengo na decisão estadual, decidisse comprar uma taça no armazém da esquina e desse a volta olímpica em torno de São Januário. É inacreditável.

Como sabem os leitores deste blog, eu acompanho política bem de perto. Acho que nunca disse desde quando. Pois bem, é desde a gloriosa campanha de Sandra Starling ao governo de Minas, pelo PT, em 1982, na qual cumpri algum papel, como sabe ela. Nunca, na minha vida, vi uma campanha tão sem classe, tão baixa. Até a manhã de ontem, eu era dos que ainda acreditavam ser possível uma chapa Obama / Hillary. A partir de ontem à noite, juntei-me às centenas de milhares de eleitores norte-americanos que já enviaram mensagens a Barack: Hillary, de jeito nenhum. É fundamental para a democracia americana que se acelere a decadência de um clã que não soube ajustar-se ao bonde da história. É uma dinastia responsável por dois mandatos presidenciais bastante bons (e, em comparação retrospectiva com os anos Bush, melhores ainda), mas que infelizmente não soube cair com dignidade. Chegaram ao final chamando jornalistas de "scumbag" (dou o prêmio para a tradução mais criativa do insulto) por matérias verídicas e recheadas de fontes. Meu amigo Pedro Dória, que é consideravelmente mais moderado, cauteloso e elegante que eu para expressar desgosto, não resistiu e disse: É incrível. Ela não larga o osso.

Pois agora vamos à luta contra os responsáveis pelo desastre que os EUA criaram para si e para o mundo nestes oito anos. Vamos, de preferência sem Clintons na cédula. A unidade do Partido Democrata se dará por outras vias. Não é digna da vice-presidência de Obama uma candidata que se recusa a reconhecer a derrota, pede a seus eleitores que mandem emails com sugestões sobre o que fazer e enviem contribuições para que ela saia do buraco financeiro em que se meteu, enquanto dá sinais de que está interessada na vice-presidência, mas também sinaliza que não a aceitará e que não admitirá que o cargo seja oferecido a outra mulher. Essa é a heroína feminista que não é apoiada por NOW, nem por NARAL, nem por MoveOn.org, mas que algumas sul-americanas mal informadas insistem em coroar como a herdeira da luta das mulheres dos anos 60. Nós, eleitores americanos democratas, poderíamos estar festejando unidos agora. Mas estamos muito ocupados decidindo qual é a melhor estratégia para evitar que esse clã vingativo e ressentido nos destrua. A tática agora é aquela que tenho certeza ser conhecida do meu amigo Marco Weissheimer: chega de articulação. Queremos bater chapa.

Este eleitor americano já se juntou ao movimento que defende a extraordinária mulher Kathleen Sebelius, governadora de Kansas, para a vice-presidência na chapa do possível primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos. Estou otimista. Moderadamente otimista, como bom atleticano já calejado por tragédias. Mas acho que dá. As pesquisas de opinião decidirão se o Biscoito transmitirá de Missouri ou da Flórida no dia 04 de novembro. Louisiana é deles, apesar da lavada que lhes daremos em New Orleans.

Atualização: Vejam se faz sentido tomar Hillary como vice. Seus porta-vozes já iniciaram a pressão para que ela seja escolhida, mas seu chefe de campanha continua dizendo que ela venceu. Como lidar com esse povo?

Atualização II: Aí vai uma pequena amostra da revolta entre os democratas.

Atualização III. Do venerável Rude Pundit: chamar Hillary para VP é como convidar a raposa para tomar conta do galinheiro (ou qualquer outra tradução criativa que você encontre para family of lemurs inviting a boa constrictor over for dinner).



  Escrito por Idelber às 03:11 | link para este post | Comentários (75)



terça-feira, 03 de junho 2008

Tom Zé em Belo Horizonte

Graças a Christopher Dunn, passei alguns momentos dos últimos dias com o gênio, o primeiro e único, a invenção em estado puro: Tom Zé está em Belo Horizonte. Aliás, já deve estar partindo. O show de sábado, na Casa do Conde, foi qualquer coisa de inacreditável. Várias coisas me chamaram a atenção: Tom Zé nasceu em outubro de 1936. Vai completar, portanto, 72 anos de idade. A energia que ele emana no palco seria surpreendente numa pessoa de 52. Se eu chegar aos 50 com aquele pique, já estarei feliz com minha passagem pelo planeta. Foi motivo de felicidade para mim ver o público de Tom Zé. Havia muitos senhores e senhoras, mas um predomínio marcado de garotos de menos de 25. Havia incontáveis adolescentes, inclusive. Ele é absolutamente adorado por esses garotos.

Entre todos os músicos de sua geração, ou mesmo entre os ligeiramente mais jovens, Tom Zé é aquele sobre o qual poderíamos dizer sem medo de errar: está no auge da criatividade. Pude conversar com os músicos da excelente banda e todos confimaram que, apesar da set list estar preparada de antemão, é correta a sensação de que Tom Zé improvisa permanentemente no palco. A banda, que o acompanha há tempos, já se acostumou a rebolar para não perder o pique.

Ligadíssimo, antenado com o mundo, apoiador de Barack Obama, Tom Zé abriu um blog, como aliás já foi noticiado aqui. Almoçando com ele, perguntei sobre a experiência de blogar. Depois de algumas palavras sobre a novidade da coisa, ele fulminou: nunca fui à internet. É verdade. Ele dita os posts para Neusa, sua esposa. Extraordinária, ela é o cérebro de toda a operação. Cuida de absolutamente tudo.

A dieta de Tom Zé? Saladas, arroz integral, comidas leves. Álcool, nem pensar. Ao chegar ao restaurante, o pedido dele foi imediato: seção de não-fumantes, por favor. A bebida? Chá. Depois do show, no camarim, enquanto a nossa turma preparava a indefectível botecada belo-horizontina, Tom Zé e Neusa se recolhiam para o descanso. Na segunda-feira à noite, Tom Zé conduziu uma aula na Academia das Idéias, à qual infelizmente não pude comparecer. Se algum leitor do blog viu, dê notícias.

Mineiros, quem perdeu essa, se ligue: o Bruxo volta à cidade neste fim de semana, para as calouradas da UFMG PUC-MG. Se você quiser ver o que é a invenção em estado puro, apareça por lá. Obrigado, Tom Zé.



  Escrito por Idelber às 15:20 | link para este post | Comentários (14)



segunda-feira, 02 de junho 2008

Judiciário brasileiro inventa a punição a José pelos atos de João

Repercutiu bastante na internet a atitude do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro, que intimou Fernando Gabeira e exigiu a retirada dos banners de apoio a ele em vários blogs brasileiros que apóiam a sua candidatura a prefeito. Pedro Dória cumpriu, claro, mas denunciou e logo depois ofereceu algumas reflexões sobre o que se entende por censura. Sem estar comprometido com nenhum candidato a prefeito do Rio, não posso deixar de oferecer a solidariedade ao amigo.

Quando da publicação da inacreditável resolução 22.718 (pdf) do TSE, que regulamenta a campanha eleitoral deste ano, eu cantei a parada e previ o desastre. Alguns advogados me contestaram, afirmando que era alarmismo desnecessário, já que a introdução diz claramente que a resolução dispõe sobre as condutas vedadas aos agentes públicos em campanha eleitoral. Não sendo o blogueiro candidato a nada, não haveria razão para se preocupar. Ouvi calado, não citei os casos que já conhecia e não quis polemizar pois, no fundo, torcia para que eles estivessem certos e eu errado. Mas ora, quantos exemplos ainda são necessários para que se entenda que, com o judiciário brasileiro, sempre há motivo para se preocupar?

O mais estapafúrdio da exigência é que ela contraria um dos princípios básicos do direito: o de que cada um é responsável pelos seus próprios atos. Os indíviduos blogueiros que exibem seus banners de apoio a um candidato tiveram que retirá-los para que esse candidato – que não pediu, nem pagou, nem organizou a manifestação – não fosse impugnado. É o mundo às avessas. É como se eu fosse interpelado judicialmente por ser parte do blogroll de algum blogueiro que cometeu um crime. A ironia não escapou à atenção de um leitor do Pedro: poderíamos começar a exibir banners de apoio a Garotinho e Maluf, impugnando assim suas candidaturas. Que tal?

A censura se apóia na proibição da campanha eleitoral antes do dia 06 de julho. Pode-se discutir se essa proibição é boa coisa. Eu, pessoalmente, acho uma bobagem, pois é sempre subjetivo determinar se um político, ao proferir tal discurso ou inaugurar tal obra, está ou não fazendo “campanha”. Em todo caso, a lei existe. Mas o que chega às raias do absurdo é interpretá-la de forma que abarque não só os candidatos, mas os próprios eleitores. Daí à mordaça é um passo. Nada é mais urgente no Brasil que introduzir nossos juízes ao básico do básico sobre o funcionamento da internet.

É verdade que o Pedro Dória, putíssimo e com razão, pode ter exagerado ao afirmar que a liberdade de expressão é um valor absoluto. Acredito estarem certos os profissionais do direito que lhe lembraram que, na jurisprudência, nenhum valor é absoluto – o direito é, por definição, um sistema, ou seja, um complexo onde o valor de cada elemento é balanceado em relação com os outros. Mas neste caso, não há dúvidas: a liberdade de expressão na internet foi seriamente atingida e o Pedro tem minha total solidariedade.

PS 1: Muita gente escreveu sobre o caso. Comece o percurso pelo Bereteando e pelo Outra política, que fizeram posts recheados de links.

PS 2: Alguém aí é capaz de imaginar uma entrevista como essa num jornal brasileiro?

PS 3: Às vezes, na internet, você lê coisas que tocam e emocionam. Obrigado, Katarina.



  Escrito por Idelber às 02:51 | link para este post | Comentários (15)