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domingo, 15 de junho 2008

Dia tenso na Argentina

A situação aqui na Argentina, embora não seja a hecatombe que às vezes pinta o Clarín, vai ficando bem grave. O dia de hoje foi o mais tenso dos últimos três meses de crise. Caminhando por Buenos Aires ao léu, vi nada menos que quatro grandes manifestações: três contra o governo e uma a favor, na Praça de Maio. Em primeiro lugar, há que se esclarecer que o aumento das retenções imposto pelo governo não é à exportação de “grãos”, como afirmou hoje a Folha de São Paulo. Aplica-se à soja e ao girassol. De acordo com o decreto original, de maio, que provocou a crise, as retenções sobre o trigo e o milho baixaram, inclusive. 98% da soja produzida pela Argentina se destina à exportação.

Observando as manifestações contra o governo no chiquérrimo bairro de Belgrano, é impossível não perceber uma curiosa ironia: as panelas, em geral, são utilizadas em passeatas por gente que não tem muita intimidade com elas. É aquele desjeito que você vê, por exemplo, nas mãos de um não-fumante forçado a segurar um cigarro. Do lado do governo, o patetismo chega quase ao mesmo nível. Hoje, o ex-presidente Néstor Kirchner, marido da presidente Cristina e chefe do Partido Peronista, foi participar da manifestação pró-governo na Praça de Maio, junto com ministros de estado. Quando a passeata se transforma em instrumento de governo de um país de 40 milhões de habitantes, é porque a coisa vai mal. O peronismo (kirchnerismo), por sua própria natureza, impede o surgimento em seu interior de políticos como Hermes Binner, ao mesmo tempo comprometidos com um idéario de esquerda mas capazes de gestão e negociação.

A grande derrota do governo, até agora, é da ordem das relações públicas: uma queda-de-braço com os exportadores de soja é quase universalmente percebida como um conflito com “o campo”. Essa percepção vai, é claro, informando as atitudes dos próprios sujeitos agrários, que são diversificados entre si, mas que passam a ver-se representados, mesmo que imaginariamente, nos interesses dos sojicultores -- percepção reforçada pelo milenar ressentimento das províncias contra Buenos Aires. Até as Mães da Praça de Maio racharam: enquanto Hebe de Bonafini, fiel ao governo por sua política de direitos humanos, pede prisão de 15 anos para os que bloqueiam as estradas, Mireya González, das Mães de Gualeguaychú, defende a “luta social” dos dirigentes agropecuários. A situação entre os prefeitos também é de cisão: na província de Buenos Aires, 52 prefeitos apóiam “o campo” e 68 apóiam o governo. Em Córdoba, a esmagadora maioria dos prefeitos está contra o governo. Em Santa Fé, a coisa está mais ou menos pau a pau. Ainda não há desabastecimento para valer em Buenos Aires, mas é uma possibilidade real. Em várias províncias, faltou combustível.

Aí vai uma coleção de links para quem quiser acompanhar a crise pelos blogs argentinos de política.

Um lado:
Lomas nuevo o lomas viejo
Homus economicus
NerdProgre
Ramble Tamble
El magma

O outro lado:
50 amaneceres
Nanopoder
Abuelo económico.

PS. Vem-me à memória uma citação de Julio Cortázar, d'O livro de Manuel: O campo é esse lugar onde os frangos passeiam crus.



  Escrito por Idelber às 04:41 | link para este post | Comentários (13)


Comentários

#1

Interessante o pouco espaço dado a Argentina nos grandes jornais , apesar de nosso vizinho e como o Brasil um dos paises mais importantes da AS.
Me parecia algo pouco significativo estas manifestações , porem lendo este artigo vejo que as reclamações do setor agricola viraram um movimento contra o atual governo.Provavelmente um ressurgimento da direita argentina , praticamente desaparecida desde o periodo dos governos militares.
Vamos ver o que vai acontecer , pero não acredito em desestabilização , o povo argentino já administrou com naturalidade algum racionamento de energia , e acho que não tera dificuldades com a falta momentanea de alguns produtos agropecuarios.
A ARGENTINA é muito maior que uma pequena acomodação de forças politicas.Ainda assim seria bom que estas reclamações fossem discutidas de forma a não haver prejuizos para a nação argentina.Tomara que seja o que aconteça.
Buena sorte hermanos.

Felipe Vargas Zillig em junho 15, 2008 8:07 AM


#2

Logo abaixo tem um artigo ainda mais esclarecedor sobre a atual crise.Pelo jeito as discissões são mais intensas , o que tranquiliza é a participação de varios setores , incluindo os mais importantes atores , deve sair algo novo , provavelmente uma modernização dos partidos politicos argentinos.
Seria interessante para a AS,se esta forças conseguissem,o que seria a primeira experiencia que junte modernidade, representatividade e seja completamente formado e escrito em função das caracteristicas e influencias nacionais.
O PT , Chaves , Evo , Corerea , Lugo são experiencias nesta linha , uma contribuição argentina seria bem vinda.

Felipe Vargas Zillig em junho 15, 2008 8:55 AM


#3

Po, eu sei que é errado, mas fico com uma inveja dessa disposição dos argentinos... Aqui é sempre a mesma coisa, oposição X governo, governo X oposição, e olhe lá...
Só pra provocar, é presidentA!!!!!
huahuahua
abraço!

Gui Losilla em junho 15, 2008 11:42 AM


#4

Pois é, Gui,

Tenho a mesma sensação. Aliás, admiro profundamente os argentinos exatamente pela capacidade de mobilização, o que, pra ser caridosa, nos falta um tantinho. :(

Também estranho a ausência de noticiário sobre a Argentina nos nossos grandes jornais. Obrigada, Idelber!

Alba em junho 15, 2008 11:59 AM


#5

cá entre nós os argentinos adoram um drama, seja pro bem ow para "fazer novela", moro perto da argentina, não sou tão ligado, mas até onde eu sei, existe protesto pra tudo por aí.

Nesse caso, bem usado, também concordo que o brasil devia seguir o exemplo algumas vezes, aqui as pessoas são muito passivas, com exceção dos estudantes e algumas minorias q ainda lutam pelos seus direitos e os dos outros...

a globo também tinha noticiado isso dos grãos, são grãos sim, mas nao precisa generalizar! A folha anda me decepcionando cada dia, era um dos poucos jornais q achava totalmente imparcial vem dizendo q algo está em segredo de justiça quando nao pode estar, que é crise de grãos, nem quero ver as próximas gafes...

jardel em junho 15, 2008 1:01 PM


#6

Caríssimo,

gostaria de saber se vc pode me ajudar a encontrar pesquisas acadêmicas que abordem o humor como instrumento de luta empregado durante a ditadura militar na Argentina. Estudei a produção humorística de Henfil no doutorado e agora, no pós-doutorado, estou tentando realizar um paralelo com outros intelectuais humoristas latino americanos, mas não tenho tido muito sucesso.
Vc tem alguma sugestão?
Bjin

conceição em junho 15, 2008 3:45 PM


#7

Pessoal, há um texto muito contundente sobre a crise no Hargentina, que eu recomendo com ênfase.

Idelber em junho 16, 2008 2:16 AM


#8

Conceição, para começar, suponho, Mafalda, né?

Idelber em junho 16, 2008 2:18 AM


#9

Pois é, pois é...

Conceição em junho 16, 2008 9:38 AM


#10

mss será que os pesquisadores argentinos não privilegiaram o humor como fonte de pesquisa? eu não acho nada. Mas estou investigando os próprios desenhos e criando minhas impressões. Se souberes de algo (uma tese, uma pesquisa, uma simples monografia!!!)me avisa,ok! bjin

Conceição em junho 16, 2008 10:48 AM


#11

Passeiam crus e com fome...

Adorei te conhecer!

Rebecca em junho 16, 2008 12:23 PM


#12

Li o artigo lincado e me esqueci totalmente da Argentina. Muito eloquente. Parece-me que estão aprontando algo, mesmo consderando como são realmente dramáticos os argentinos.

Tem algo de podre no reino da Dinamarca. E feliz Bloomsday pra você, Professor Avelar.

tina oiticica harris em junho 17, 2008 1:03 AM


#13

claro. lembrei de vc quando vi o panelaço. uau vc estar aí. indo ler o artigo.

mary w em junho 17, 2008 4:00 AM


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