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quinta-feira, 19 de junho 2008
Manifestação multitudinária na Praça de Maio
Nos vemos mañana en la plaza. Há que se estar familiarizado com a história argentina para entender todo o poder simbólico que carrega essa simples frase. Existem dezenas de praças em Buenos Aires, mas só uma é la plaza. Exatos 53 anos e 3 dias atrás, dez toneladas de bombas foram lançadas pela marinha argentina sobre a Praça de Maio para tentar matar Perón, o presidente reeleito com 68% dos votos. 300 pessoas morreram. Um ônibus com 80 garotos de Santiago del Estero – que haviam vindo conhecer o Presidente – foi carbonizado. Vinte e poucos anos depois, um grupo de mulheres com lenços brancos na cabeça se transformariam, ali, nas mães mais famosas do mundo. A Praça deixava de ser só dos peronistas para se transformar no lugar por excelência da cidadania argentina.
Éramos mais de 100.000 ontem à tarde na Praça de Maio, no ato em defesa da institucionalidade democrática e contra o bloqueio latifundiário das estradas:

Desta vez, sim, a convocatória foi ampla. Compareceu o peronismo, mas também estiveram lá todos os setores que – mesmo tendo críticas ao governo – já não toleram o cerceamento do direito dos argentinos irem e virem. Não foi um ato oficialista, embora a presidente fosse a única oradora. Compareceu, por exemplo, o Partido Socialista, crítico do kirchnerismo. Compareceu em massa o sindicalismo. A classe média portenha estava lá em peso. Até mesmo o La Nación, o mais direitista dos grandes jornais argentinos, reconheceu que a praça superlotou. As colunas iam chegando por todas as vias de acesso:

Anteontem, Cristina Kirchner recuou e anunciou, em cadeia nacional, que está enviando o projeto de aumento das retenções sobre as exportações de soja e girassol ao Congresso Nacional, onde o peronismo tem maioria em ambas câmaras. Se tivesse feito isso há três meses, teria evitado um grande desgaste. Em todo caso, antes tarde do que nunca. O envio do projeto ao Congresso, combinado com o estrondoso sucesso do ato na Praça de Maio, dão fôlego ao governo e colocam na defensiva os latifundiários da soja, que mesmo assim anunciaram que a paralização continua até sexta-feira.
O discurso de Cristina foi duro e polarizante, acusando a “quatro pessoas em quem ninguém votou” (os quatro líderes das Federações Agrárias) de desrespeitar o direito de todos os argentinos. Apesar de que há muita gente – por exemplo, este blogueiro -- que vê torpeza, falta de tato e setentismo no governo Kirchner, as forças democráticas vão se unificando na defesa das instituições e na condenação ao que é, na prática, um ato de terrorismo dos latifundiários. Já são mais de seis milhões de litros de leite desperdiçados. No ato da Praça de Maio, o povo mais pobre era, visivelmente, o mais radicalizado. Falta política ao governo Kirchner. Mas aos seus opositores no campo falta decência e senso de cidadania.
PS: Sim, eu assisti ao jogo de ontem. Sim, torci pelo Brasil. Até os 10 minutos do segundo tempo. E vocês?
Escrito por Idelber às 04:18 | link para este post
| Comentários (21)
#1
A quem interessar possa, aqui vai a convocatória que circulou entre a esquerda não-oficialista na preparação do ato na Praça de Maio:
Por qué vamos a la plaza
Hoy ( por mañana miércoles 18 de junio) a las 13 nos concentramos en Avenida de Mayo y Perú, en defensa de la democracia y en reclamo de mayor distribución de la riqueza y participación popular.
Lo haremos desde nuestra propia identidad y sin ahorrar críticas al Poder Ejecutivo Nacional, pero en respaldo de la institucionalidad democrática y de las medidas progresivas que enfurecieron a una nueva derecha que usa la retórica del diálogo y el consenso y se envuelve en los símbolos nacionales mientras pretende mantener sus privilegios. Con lock-out patronal y desabastecimiento no hay vocación de dialogo. Es imprescindible el levantamiento de las medidas de fuerza, y que el gobierno haga una amplia convocatoria a todos los sectores involucrados, para la discusión integral de un nuevo modelo productivo.
Somos miembros de organizaciones sindicales como la CTA, CTERA, la Unión Obrera Metalúrgica, CONADU; de movimientos como Tupac Amaru y Movimiento Nacional Patria Grande; de organismos de derechos humanos como el CELS, la Liga Argentina por los Derechos del Hombre, las Madres de Plaza de Mayo-Línea Fundadora, la Asamblea Permanente por los Derechos Humanos; de pequeños empresarios, como la Asamblea de PYMES y el Instituto Movilizador de Fondos Cooperativos; economistas del Plan Fénix; decanos y profesores universitarios, científicos e investigadores; sacerdotes en opción por los pobres; dirigentes políticos que demostramos la posibilidad de construir alternativas populares sin clientelas ni aparatos; intelectuales y artistas integrantes del agrupamiento Carta Abierta y ciudadanos sin militancia partidaria ni institucional.
No formamos parte del gobierno. Objetamos la destrucción del INDEC y la construcción del tren bala, la negativa a reconocer la personería de la CTA y la alianza con sectores de la mal llamada burguesía nacional, que fue socia de los gobiernos neoliberales. Consideramos intolerable el mantenimiento de altos niveles de hambre y exclusión en uno de los grandes países productores de alimentos del mundo.
Pero la restauración conservadora en marcha, con el impulso de un sector de la izquierda que imagina protagonizar una revolución agraria, no cuestiona los defectos sino los aciertos del gobierno, al que intenta imponerle sus intereses económicos por encima del interés general, sin reparar en costos ni en métodos. Cuestiona la reconstrucción de la autoridad del Estado luego del colapso de 2002, el saneamiento de la Corte Suprema de Justicia, el juicio a los responsables del Estado terrorista, el drástico descenso de la desocupación, la recuperación del régimen jubilatorio estatal, el establecimiento de un haber para las personas mayores de 70 años que no tenían ninguno, el aumento del presupuesto educativo, la creación de un ministerio de ciencia y tecnología, la política exterior independiente, en asociación con los gobiernos democráticos de Sudamérica. No busca un avance sino un salto atrás.
Contra toda evidencia se acusa de autoritario y soberbio al primer gobierno que ha prohibido el uso de armas de fuego en el control de manifestaciones y se moteja de represión violenta al desalojo con guantes de seda de la ruta del MERCOSUR, por la que desde hace tres meses no se permite el tránsito de mercaderías, obligando a tirar millones de litros de leche y toneladas de frutas y verduras. De ese clima deslegitimador, parecido al que minó la presidencia de Arturo Illia, participan en forma tan entusiasta como irreflexiva sectores de las clases medias urbanas influidos por la cobertura tendenciosa de diarios y canales de televisión temerosos de que se democratice la comunicación de masas.
De esta crisis, no menos grave porque se la niegue, sólo se sale con más democracia y más distribución de la riqueza. Para ello se impone una reforma impositiva integral, que grave a todos los sectores que en estos años han tenido beneficios extraordinarios, como la especulación financiera, la minería y la pesca.
Ésa es la voz propia con la que hoy iremos a la Plaza de Mayo, en defensa del valioso trayecto recorrido desde mayo de 2003 y en demanda de su profundización, con mayor calidad institucional y con la participación popular.
Idelber em junho 19, 2008 4:37 AM
#2
Eu torci pela Argentina.
Dizem que os portenhos fizeram corpo mole, para não vencer e assim manter Dunga no time do Brasil. A história é surreal, mas é mais interessante que a verdade, então, empurremos adiante a lenda.
Seria, no caso, uma jogada genial.
Marcus em junho 19, 2008 8:17 AM
#3
Assisti uns 25 minutos do primeiro tempo e uns 5 do segundo, nada de forma contínua.
No restante, cochilei. Aliás, no final estava quase roncando, segundo meu filho.
E achei o empate bom resultado: nem deixa os argentinos dispararem, nem alivia a pressão contra Dunga.
Aliás, quanto ao que o Marcus contou, no meio da torcida argentina é que apareceram os cartazes "Fica Dunga"...
http://esporte.uol.com.br/album/080618brasilxargentina_album.jhtm?abrefoto=20
Luiz em junho 19, 2008 8:52 AM
#4
Vi o jogo só até o intervalo. E não consegui torcer pra ninguém....
Humberto em junho 19, 2008 9:07 AM
André Egg em junho 19, 2008 9:23 AM
#6
Falei sobre a seleção e não falei sobre a Argentina.
Podem ser mileduzentos problemas. Mas seria bom se tivéssemos no Brasil um governo com 10% da coragem do governo Argentino.
Enquanto não se taxarem exportações de comodities seremos condenados a sermos um eterno 3º mundo, paraíso de latifundiários parasitas!
André Egg em junho 19, 2008 9:25 AM
#7
Eu fui ao jogo. Como não sei se vai dar tempo de fazer post, vou dizer logo o seguinte: que joguinho chaaaato. Agüentar pedro bial, hino nacional desafinado, jota quest e campanha aberta pro aécio pra ver um jogo morno foi de doer. Pior ainda é ler na folha que a seleção ficou magoadinha com a torcida... tá faltando espelho no vestiário, só pode. A parte boa foi não ser obrigada a ouvir o galvão bueno.
Cynthia em junho 19, 2008 10:13 AM
#8
Vi até os 15 do segundo e fui dormir.
João Marcelo em junho 19, 2008 10:24 AM
#9
Ah, eu nem vi o jogo...
Eu prefiro conversar sobre o governo mesmo. É duro, é ríspido. Não sei se é pior do que o nosso, em que não se faz nada. Só imposto. É um governo preguiçoso.
Abraço!
Nanci em junho 19, 2008 11:02 AM
#10
Foi jogo de compadres. Com qual intenção é que não sei.
josaphat em junho 19, 2008 1:12 PM
#11
Hahahaha, dei quinze gargalhadas com o comentário da Cynthia. Realmente, o hino nacional com Gal Costa foi uma coisa grotesca, foi de dar vergonha alheia. Ah, e quer dizer que estão magoadinhos com os mineiros? Faltou um pouquinho de simancol, né?
E, Nanci e André, vocês têm razão. O governo Lula tem resultados melhores que os de Kirchner, mas há uma politização, uma paixão pela política aqui que eu acho que seria muito saudável para o Brasil :-)
E, completando o post, pessoal, a partir dos 10 do segundo tempo eu comecei a torcer para a Argentina.
Esse Dunga tem que ir embora logo.
Idelber em junho 19, 2008 1:13 PM
#12
Não vi o jogo, ponto. Se quero sofrer, eu vejo os jogos da Itália na Eurocopa (a Azzurra passou para a segunda fase eu não sei nem como, porque vá jogar mal assim no quinto dos infernos -- ou nas eliminatórias sul-americanas, pelo que estou vendo).
Quanto ao protesto em BsAs, que bela foto da Plaza! Eles bem que podiam nos ensinar como é que se faz oposição decente, né? (e como fazer papas fritas - mas isso é outra história)
Anna C. em junho 19, 2008 1:43 PM
#13
Pelo que eu vi na TV e li nos sites e jornais, não foi um jogo, mas um showmício do Aécio. Brasil X Argentina foi um pequeno detalhe situado entre a puxação de saco antes (e durante) e as baladas com famosos depois.
Ricardo em junho 19, 2008 2:32 PM
Idelber em junho 19, 2008 4:36 PM
#15
Idelber,
O atentado contra Perón não estaria fazendo 53 anos?
Luiz em junho 19, 2008 5:07 PM
#16
53, claro. Corrigi, por incrível que pareça, dois minutos antes do seu comentário :-)
Idelber em junho 19, 2008 5:13 PM
#17
Belas fotos. Adoro esses momentos em que temos a consciência clara de estar vendo de dentro a História se escrevendo.
Ju Sampaio em junho 19, 2008 5:48 PM
#18
É essa mesma a sensação que tenho tido, Ju. Mas é doloroso para muita gente. Beijo :-)
Idelber em junho 19, 2008 5:59 PM
#19
Puxa Idelber, você presenciou o Katrina, a indicação do primeiro canditado negro estadunidense, agora essa na Argentina... você vai acabar se tornando uma espécie de Foreste Gump eh eh eh.
'Life was like a box of chocolates. You never know what you're gonna get.' : >)
fm em junho 19, 2008 6:23 PM
Idelber em junho 19, 2008 6:40 PM
#21
Eu queria que a gente aqui no Brasil tivesse metade da mobilização política que os hermanos. Lutar pelos direitos e assumir posição dá trabalho, é mais fácil ficar sentado reclamando e acusando e lavando as mãos quando as decisões são tomadas.
Parece que não perdi nada deixando de ver o jogo. Foi uma semana feroz no trabalho e simplesmente não deu tempo.
Ana Paula em junho 23, 2008 4:45 PM
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