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Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



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quarta-feira, 30 de julho 2008

Religião e insanidade

O filme se repete, ad nauseam, com previsibilidade digna dos laterais do Galo. Em algum recanto dos grotões da América, juntam-se um punhado de ingredientes: o cenário é uma escola ou uma igreja; o personagem é um homem revoltado contra a conspiração dos “liberais”, dos gays, dos imigrantes ou de outro bode expiatório conveniente; o instrumento é uma arma, comprada no exercício do sagrado direito de proteger a propriedade contra as “ameaças externas”; o enredo é sempre o mesmo, um massacre com vítimas que morrem sem ter nem idéia do porquê. É um tipo de crime tão americano como a torta de maçã.

Desta vez, aconteceu em Knoxville, Tennessee, cidade simpática, que hospeda a boa universidade do estado e destoa do atraso cultural imperante na região. Quando estourou a notícia de que mais um lunático havia entrado numa igreja para fuzilar inocentes, com duas fatalidades e sete feridos, os sites de extrema-direita salivaram com as possibilidades: Assassinando cristãos? Deve ser um ateu! Provavelmente um radical de esquerda! Na certa um terrorista islâmico!

De novo, como havia sido o caso com Timothy McVeigh, tratava-se de um homem branco, armado até os dentes e cheio de revolta contra “liberais e gays”. Bastava saber um pouco sobre a igreja que sofreu o ataque para suspeitar. A Unitarian Universalist Church é a única igreja americana que conheço que exibe um cartaz enorme, bem na porta, com as palavras gays welcome. Lugar bacana, ecumênico, de gente tolerante e pacífica, envolvida com grupos de apoio e iniciativas de direitos civis para gays e lésbicas, a Unitarian Universalist Church reúne judeus, muçulmanos, cristãos, ateus; heteros e homos; pretos e brancos.

O assassino, David Adkisson -- no momento em que descobriram que era branco, desapareceu a palavra terrorista --, escreveu uma carta de quatro páginas detalhando seu ódio aos “liberais e gays”. Em seu carro, foram encontrados livros de Bill O'Reilly, Sean Hannity e Michael Savage. O primeiro é o mais conhecido âncora de extrema-direita dos EUA, da famigerada Fox News. Os outros dois são membros do poderoso movimento ultra-conservador que se congrega nos programas de “entrevistas” de rádio nos EUA. Savage é o autor de um livro com o inacreditável título O liberalismo é uma doença mental (Liberalism is a mental health disorder).

Não sei qual é a percepção aí no Brasil, mas morando há 18 anos nos EUA e observando a coisa de perto, não vejo muito como fugir da conclusão: vamo' que vamo' ladeira abaixo.


PS: Ainda sobre religião e insanidade, veja essa incrível história: numa missa no campus da Universidade da Flórida Central, um garoto recebe a hóstia e não a ingere. Guarda a bolacha no bolso para mostrá-la a um colega que queria informações sobre a fé católica. A partir daí, sua vida se transforma num inferno. Escândalo nacional. A imprensa começa a publicar matérias sobre como o garoto havia seqüestrado a hóstia. A porta-voz da diocese compara o ato a um crime de ódio (hate crime). Começam a discutir a expulsão do estudante. O covarde presidente da UCF, em vez de defender seu aluno, se dedica a fazer média com a hierarquia católica. O garoto, Webster Cook, pode ter simplesmente destruído o seu futuro acadêmico porque foi pra casa com um pedaço de farinha no bolso. Inacreditável.



  Escrito por Idelber às 06:55 | link para este post | Comentários (50)



terça-feira, 29 de julho 2008

Jô Moraes para a prefeitura de Belo Horizonte!

j%F4.jpg Declaro aqui o meu apoio à deputada federal Jô Moraes, do PC do B, para a prefeitura de Belo Horizonte em 2008. Jô Moraes, não Márcio Lacerda (PSB), é a herdeira do excelente trabalho realizado pela prefeitura de BH nestes últimos 16 anos. Foi Jô Moraes, não Márcio Lacerda, quem esteve durante 30 anos na militância ao lado do Doutor Célio de Castro. Jô Moraes, não Márcio Lacerda, é verdadeiramente conhecida pelos belo-horizontinos. É ela, não ele, quem conhece a cidade. Fui um dos 111.130 mineiros que votaram em Jô para deputada federal em 2006. Ela não decepcionou, sendo a autora, entre outros, do projeto de lei que regulamenta o piso salarial para professores da rede pública, um avanço – mínimo, sim, mas real – na quilométrica estrada de recuperação do sucateado ensino brasileiro.

Faço questão de linkar um post anterior em que eu argumentava que a Executiva Nacional do PT não devia bloquear automaticamente as conversas que se desenvolviam entre Fernando Pimentel e Aécio Neves, inclusive por razões táticas. Não sou da esquerda que demoniza o PSDB por tudo e termos como “tucanalha” não têm lugar neste blog. Não acredito que um entendimento entre petistas e tucanos seja uma idéia necessariamente ruim. Mas a forma como se deram as conversas em Minas, as motivações personalistas e carreiristas que subjazam a elas e o nome altamente questionável que foi escolhido para representá-las tornam impossível que este blog veja com simpatia a candidatura de Márcio Lacerda, o mais rico entre todos os aspirantes a prefeito no Brasil inteiro, com um patrimônio de 55 milhões de reais.

Como contribuição à cultura política da articulista da Folha de São Paulo, Eliane Castanhêde, que declarou nunca ter “ouvido falar” de Jô Moraes, o Biscoito apresenta um pouco do seu currículo: paraibana, radicada em Minas desde a época da militância contra a ditadura, na década de 1970, Jô Moraes já recebeu da capital mineira o título de Cidadã Belo-Horizontina. Talvez Eliane Castanhêde não saiba, mas existe uma coisa chamada União Brasileira de Mulheres. Jô Moraes é fundadora da entidade. Também participou da criação da Conselho Estadual da Mulher, em 1982. Foi também a primeira presidente do Movimento Popular da Mulher. Jô é parlamentar há 12 anos. Foi vereadora por dois mandatos, deputada estadual por um mandato e em 2006 foi a deputada federal mais votada de toda a esquerda de Minas Gerais. É a presidente do PC do B no estado.

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Com a infinita cara-de-pau que lhe é peculiar, o ex-deputado José Dirceu quer dar lições de moral e fidelidade partidária aos petistas belo-horizontinos que, em número cada vez maior, estão migrando para a campanha de Jô Moraes e recusando o conchavo Pimentel-Aécio que usa como laranja o PSB, o mesmo PSB mineiro -- não confundir com o PSB de Luiza Erundina e Eduardo Campos -- que fez oposição à prefeitura do Doutor Célio de Castro com o grande goleiro e péssimo político João Leite.

O ex-deputado José Dirceu não nos diz onde estava a sua crença na fidelidade partidária em 1998, quando ele comandou uma cavalaria cossaca que esmagou a decisão democrática da convenção do PT fluminense, que havia escolhido Vladimir Palmeira como candidato ao governo do Rio, com o objetivo de impor uma aliança com ninguém menos que Garotinho. O ex-deputado José Dirceu tampouco nos diz onde estavam suas convicções acerca da fidelidade partidária em 2004, quando seu grupo arregimentou outra cavalaria cossaca, desta vez contra o PT cearense, que escolheu Luizianne Lins para a prefeitura de Fortaleza e terminou vencendo, mesmo sendo sabotada pelos caciques paulistas. Nesta eleição de BH, quem comete infidelidade partidária contra a orientação do PT nacional, diga-se de passagem, é o grupo do Prefeito Fernando Pimentel, que escolhe – por motivos de ambição pessoal – apoiar um candidato sem nenhuma história, um pau-mandado de Aécio, um aspirante a prefeito que, como bem lembrou o leitor Jeferson Melo, não sabe chegar da Savassi ao Centro sem motorista. Tudo isso contra uma candidata de credibilidade e competência infinitamente maiores, Jô Moraes, que sempre esteve ao lado das prefeituras de esquerda em BH durante os últimos 16 anos.

Eis aí, portanto, minha declaração de voto. Faço um apelo aos leitores de BH a que se engajem na campanha de Jô. Ela enfrenta duas poderosas máquinas administrativas. Lidera nas pesquisas, mas não será fácil. Márcio Lacerda tem 12 minutos na televisão, contra 2 minutos de Jô. A vitória, se vier, será na raça. Mas será um delicioso triunfo da democracia contra o caciquismo.

O Biscoito é Jô. Vamo' lá.



  Escrito por Idelber às 06:24 | link para este post | Comentários (72)



segunda-feira, 28 de julho 2008

Em Terapia

Quando filmou O Beijo da Mulher Aranha, de Manuel Puig, Héctor Babenco se colocou uma pergunta interessante: como fazer um filme em que os personagens estejam entediados mas o público não? Foi o que me veio à mente neste fim de semana, enquanto eu e Ana encarávamos a maior maratona televisiva das nossas vidas: 43 episódios da série “Em Terapia” (In Treatment), da HBO, baseada num original de muito sucesso em Israel. Eu quase não assisto televisão, mas sou capaz de apostar que é das melhores coisas que a telinha produziu nos últimos tempos.

Filmes e programas sobre psicanálise são, em geral, tediosos e inverossímeis. In Treatment segue-se quase como um filme de suspense, alinhavado por uma bela fórmula: nos episódios de segunda a quarta, você acompanha três pacientes diferentes; na quinta, um casal; na sexta, o próprio terapeuta, Paul Weston (Gabriel Byrne), cada vez mais pirado, vai consultar Gina (Dianne Wiest), uma analista com quem ele tem velhos ressentimentos e discordâncias de método.

A série foi ultra elogiada pelos jornais de qualidade, como o New York Times e o Wall Street Journal. As resenhas negativas ficaram por conta do San Francisco Chronicle e da Slate. Na blogosfera brasileira, já andaram falando do assunto a Carla Rodrigues e a Ivana Arruda Leite, ambas com comentários positivos.

É irresistível a paciente das segundas: Laura, uma jovem e charmosa médica, está vivendo com Paul a clássica transferência erótica, só que desta vez com conseqüências imprevisíveis para o terapeuta. Nas terças, Paul encara Alex, um tenente negro da marinha americana cujo pai matou acidentalmente o avô ao bloquear sua respiração asmática para evitar ruídos durante um ataque da Ku Klux Klan à casa. Alex acaba de voltar do Iraque, onde jogou uma bomba numa escola e matou 16 crianças. Forte, imponente, arrogante e seguríssimo de que não sente culpas, Alex tem uma das trajetórias mais fascinantes da série. Nas quartas, Sophie, uma ginasta de 16 anos, chega de um acidente que pode ou não ter sido uma tentativa de suicídio, talvez provocada por uma bizarra situação familiar, na qual ela idolatra o pai egoísta e ausente enquanto despreza a mãe dedicada. Nas quintas, Jake, pobretão aspirante a compositor, e Amy, bem-sucedida mulher de negócios, farão parecer fichinha qualquer crise que seu casamento tenha passado. É o dia mais punk da série, e também aquele em que ocorre a reviravolta mais radical. As sextas estão reservadas para o choque de ver como o sagaz terapeuta transforma-se num cego papagaio de denegações quando o tema é sua própria crise. Na medida em que se aproxima do fim, a série faz as várias histórias se encontrarem.

O método retratado na série não é exatamente a psicanálise. Trata-se daquela variante bem norte-americana da psicologia, a terapia do ego, que parte da estranhíssima – para nós, freudianos – premissa de que o papel do terapeuta é forjar uma aliança com a parte saudável do ego do analisando. Daí o fato de que Paul fale bastante nas sessões, transformando a busca num romance policial onde a empatia com as personagens é inevitável. In Treatment está disponível para download por aí, inclusive com legendas em português. Vale a pela conferir, Doutor Cláudio.



  Escrito por Idelber às 05:10 | link para este post | Comentários (13)



sábado, 26 de julho 2008

Obama em Berlim

É difícil dizer algo que já não tenha sido dito sobre a viagem de Barack Obama ao Oriente Médio e à Europa, cujo ponto alto foi o comício-show em Berlim, diante de 200.000 pessoas. A íntegra do discurso de Obama está no YouTube, claro:

(para quem prefere a transcrição, aqui vai o link).

A viagem à Europa é um cálculo arriscado em período pré-eleitoral nos EUA. Na arena internacional, claro, não há risco: Obama vai se transformando numa figura tão querida como os Beatles, Telê Santana ou o blog do Inagaki. Nos jornais alemães – mesmo com a sutil e indireta sugestão de que ele cobraria mais comprometimento da Alemanha no Afeganistão –, tudo foi elogio e babação de ovo: O Tagesspiegel se perguntou se alguma vez tantos alemães já se reuniram para um evento político, enquanto a repórter do Bild, Judith Bonesky, teve seu momento de tietagem explícita, abandonando todos os protocolos de distância jornalística para tirar uma foto não do, mas junto com o candidato. A viagem gerou uma enxurrada de fotos, vídeos e textos na internet (enquanto isso, como lembrou muito bem o Tiago Dória, no Brasil o TSE retira do ar sites e comunidades de candidatos).

O cálculo de Obama nesta viagem foi arriscado porque ser o queridinho da Europa é última pecha que você precisa ante o eleitorado dos grotões americanos, convictamente monoglota e xenófobo. Mas aqui Obama não tinha escolha. Apesar da forte vantagem que tem sobre McCain nas pesquisas quando a questão é a economia – e a economia americana, sabemos, não vai nada bem --, Obama precisava falar como estadista internacional e se impor no tema da política externa. Neste quesito, há a percepção de que McCain é mais forte, dada sua experiência – embora McCain, o suposto "especialista" em política externa, incrivelmente dê entrevistas falando da “fronteira do Iraque com o Paquistão”.

Cada palavra do discurso em Berlim foi meticulosamente escolhida para que Obama pudesse, por um lado, diferenciar-se claramente de Bush sem parecer, aos olhos do público americano, anti-patriótico em solo estrangeiro. Convenhamos, é uma engenharia discursiva complicada. O impacto mundial da viagem de Obama é inegável, mas ainda é cedo para saber se ela alterou, positiva ou negativamente, as pesquisas nacionais. Em 2004, a pecha de “afrancesado” foi decisiva na derrota de John Kerry. Este ano, os sites de extrema-direita tentaram capitalizar o nacionalismo americano contra Obama por sua declaração de que ele era um “cidadão do mundo”. Até agora, não colou. Mas jamais subestime a miopia de um eleitorado que votou duas vezes em George W. Bush.

PS: Sobre a viagem de Obama, nos blogs brasileiros, leia também o Tordesilhas e o Mestre Mauricio Santoro.



  Escrito por Idelber às 05:51 | link para este post | Comentários (15)



quarta-feira, 23 de julho 2008

Pausa

O Biscoito Fino e a Massa faz uma pequena pausa, enquanto o titular do blog pega um avião de Belo Horizonte de volta a New Orleans, para reassumir o batente do ano letivo. Foi bom demais estar em Terra Brasilis. Obrigado, Belzonte; obrigado, Rio, Sampa, Três Corações.

A partir de agora o blog deve se concentrar nas eleições americanas, mas sempre com um olho em Pindorama.

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Mandaram avisar que lá no Facebook está rolando uma comunidade do Biscoito.

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Em breve, o blog declarará seu justificará com mais detalhes o meu voto nas eleições para prefeito de Belo Horizonte, que é de Jô Moraes (PC do B). Como sabem os leitores do blog, não fui reácio ao acordo Pimentel-Aécio em Minas Gerais. Mas pesquisando um pouco mais sobre quem é Márcio Lacerda, conversando um pouco mais com amigos de BH, investigando um pouco mais sobre como foi feito o acordo, acabei seguindo boa parte da base das últimas (muito bem-sucedidas) prefeituras de BH no apoio a Jô Moraes, que é, como sabem os memoriados leitores deste blog, a minha deputada federal.

************

Na sua coluna na Folha desta terça-feira, Eliane Castanhêde declara nunca ter ouvido falar de Jô Moraes. Meu Deus, eu teria vergonha de escrever uma coluna sobre literatura no maior jornal brasileiro e declarar não saber quem é Antonio Candido.

*************

Por falar nisso, Mestre Candido fez 90 anos e o Biscoito ainda não prestou sua homenagem. Shame, shame.

*************

Em seu último post, o Paraíba tece hiperbólicos elogios. Mas ainda não aprendeu a história do futebol brasileiro: o fato básico de que em 1981 o time chapa-branca enfrentou o Galo três vezes e não ganhou nenhuma.

**************

Se você está na Zona Leste de Belo Horizonte e quer comer um espetinho de animal morto, o ponto é o Manoel do Espeto, ali perto da Feira dos Produtores. Mas, se for lá, avise ao cabra: é um crime colocar, num bar lindo -- com bela varanda, cerveja gelada, espeto de primeira --, um par de cantores breganejos com aparelhagem de karaokê num laptop. É inaceitável. Bebi 5 quando poderia ter bebido 15 Bohemias. Não há nada mais irritante para alguém que gosta de música que ouvir um bate-estacas de péssima qualidade. É melhor ouvir o silêncio. O próximo que passar por lá, avise.

*************

Um leitor deste blog escreveu um dos melhores romances argentinos -- ou seja, um dos melhores romances do mundo -- dos últimos anos: Mariano Siskind escreveu o extraordinário Historia del Abasto, que devorei, faminto, entre São Paulo e Belo Horizonte. Alô, editoras brasileiras, atenção.

***************

Na quinta-feira à tarde, aterrizo no caldeirão de New Orleans. Tomem conta da bodega.

Atualização: Veja o belo email que o leitor Tiago Mesquita escreveu ao Ombudsman da Folha acerca da insultante coluna de Eliane Castanhêde. Envie um você também :-)



  Escrito por Idelber às 01:12 | link para este post | Comentários (58)



segunda-feira, 21 de julho 2008

Barack Obama na Revista Fórum

A Revista Fórum deste mês traz um artigo longo (matéria de capa) escrito por mim, sobre Barack Obama. Aí vão os três primeiros parágrafos do texto:

O fenômeno Barack Obama deixou atônita a liderança do Partido Democrata, surpreendeu a favorita Hillary Clinton e fez proliferar um sem-fim de clichês. Da infeliz declaração de Caetano Veloso -- “prefiro Obama a Hillary porque gosto mais de preto que de mulher” -- à irresponsável previsão de um assassinato por Doris Lessing, sua condição de primeiro candidato negro à presidência tem funcionado como uma metonímia à qual tudo deveria ser redutível. O simplismo se exarcerbou pelo fato de que as primárias democratas foram disputadas entre ele e a primeira mulher em condições de aspirar à Casa Branca. Sexismo e racismo – elementos muito presentes na sociedade estadunidense – passaram a ser chaves explicativas mágicas. É de magnitude inegável e merecedor de análise o fato do Partido Democrata ter ungido um negro como seu candidato. Mas para se entender a dimensão do movimento Obama, há que se começar por outro lado.

A vitória de Obama representa o declínio da política consagrada no Partido Democrata pela dinastia Clinton. Depois de surrados durante década e meia pelos Republicanos, os Democratas nos acostumamos a ver a ascensão de Bill Clinton em 1992 como prova de que nossa viabilidade eleitoral dependia da estratégia clintoniana de apropriação de bandeiras Republicanas como o rigor fiscal, a “transição da ajuda social para o trabalho”, a ênfase na segurança e a política externa agressiva. Junte-se as táticas violentas de corpo-a-corpo contra os adversários, a sanha controladora sobre jornalistas e um populismo simbólico, baseado no carisma e na inteligência de Bill Clinton, e você terá os componentes do sucesso do primeiro Democrata a cumprir dois mandatos presidenciais desde Roosevelt.

Um elemento importante foi a profissionalização das campanhas eleitorais, que passaram a ser focadas em certos grupos. Ficou famosa a expressão soccer mom, cunhada por Mark Penn, conselheiro da campanha de Clinton em 1996. As “mamães do futebol” seriam aquelas que levam as filhas para a prática de um esporte que é, nos EUA, com a exceção da população latina, praticado pela classe média alta. Para essas senhoras, a questão da segurança seria decisiva e a isso havia que responder. Embora a devastação planetária dos anos Bush tenha criado a sensação de que a administração Clinton foi um paraíso, seus dois mandatos foram marcados por uma série de traições a negros, sindicalistas, feministas, gays/lésbicas e ambientalistas, parceiros fracos, sem opções à esquerda, que foram sendo rifados para que o Partido Democrata pudesse ocupar o centro do espectro político sem questionar o movimento da sociedade rumo à direita. Essa política foi vitoriosa nas eleições presidenciais dos anos 90, mas deixou um desastre no Congresso e nas eleições estaduais. Com os Clinton na Casa Branca, o Partido Democrata passou de 30 governadores em 1992 a 18 em 2000, 258 deputados em 1992 a 212 oito anos depois.

Cedi o texto com exclusividade para a Revista Fórum, portanto não posso publicá-lo na íntegra aqui. A Fórum está nas bancas, por 6 mangos e 90 centavos. Há outras matérias muito boas, incluindo-se uma sobre a Nicarágua.



  Escrito por Idelber às 23:16 | link para este post | Comentários (20)




Cópia de um email ao ombudsman da Folha de São Paulo

Caro Sr. Carlos Eduardo Lins da Silva:

Sou leitor diário da Folha de São Paulo há exatos 27 anos. Apesar da campanha explícita do jornal em favor de um dos candidatos à Presidência em 2006, da transformação da “Ilustrada” em caderno de fofocas e futilidades e da incrível proeza do suplemento “Mais!”, de ser ao mesmo tempo irrelevante para especialistas e incompreensível para não-especialistas, continuo considerando a Folha o melhor jornal brasileiro.

No caso da cobertura das prisões de Daniel Dantas, o sr. reconhece, em sua coluna (para assinantes) deste domingo, que a maioria absoluta dos leitores que se manifestaram teceram críticas à cobertura do jornal. Pertenço a essa maioria. No entanto, o sr. atribui muitas das críticas à “guerra sectária de petistas e tucanos que envenena o ambiente social e político brasileiro”. É uma leitura possível. Mas ela é francamente contraditória com os seus próprios parágrafos seguintes. Tome-se o trecho:

O jornal também não mostrou ainda com detalhe o grau de enraizamento do grupo de Daniel Dantas na política brasileira. O perfil do financista foi curto e ralo. Não foram exploradas a fundo suas relações com PSDB, DEM, PMDB, além do PT, nem com figuras de frente desses partidos.

O uso da locução adverbial antes da menção ao PT torna a frase ambígua. O ombudsman está reconhecendo que o jornal somente explorou as relações de Dantas com membros do PT? Se é assim, não seriam as críticas ao jornal algo mais que expressão da “guerra sectária” entre PT e PSDB? Sua própria frase não estaria implicitamente reconhecendo que essas críticas são observações de um fato, de uma parcialidade real?

A hipótese parece corroborada pelo seu penúltimo parágrafo: Houve omissões importantes e injustificáveis. Nenhuma linha foi publicada sobre a relação de negócios entre a irmã de Dantas e a filha de José Serra, apesar de esta ter até divulgado um comunicado de imprensa para esclarecê-la.

Ora, se o governador do estado mais poderoso do país, ex-candidato a presidente, ex-ministro e favorito à sucessão do atual presidente tem uma filha com relações de negócios com Daniel Dantas, não seria isso um fato de interesse público? Como é possível reconhecer que nem uma única linha foi publicada sobre o assunto e continuar culpando a “guerra sectária” entre petistas e tucanos pelas críticas ao jornal?

Por que o número de manchetes dedicadas ao tema da “espetacularização”, das algemas e dos vazamentos foi tão superior ao espaço dedicado ao conteúdo revelado pela investigação, que supostamente seria o tema de maior interesse público? Por que a Folha transmitiu a nítida impressão de estar tentando desqualificar o relatório apresentado pelo delegado Protógenes? Por que fazer uma matéria dedicada a “erros de português” do relatório? Por que, depois da revelação de uma gravação em que a repórter Andréa Michael menciona uma “matéria de encomenda” a Daniel Dantas, o jornal não deu uma explicação aos seus leitores, ou mesmo ofereceu o espaço para que a jornalista se defendesse? Por que a Folha disse que Michael se encontrava viajando e “não pôde ser localizada”? Na era do email, do fax e do celular, a Folha é incapaz de localizar um jornalista seu que está viajando? Por que a cobertura do jornal pareceu ser, mais que parcial ou falha, francamente suspeita e desprovida de transparência?

A coluna do sr. neste domingo, mesmo tendo apontado com pertinência alguns erros do jornal, não me pareceu responder a contento estas interrogantes.

Um abraço do seu leitor,

Idelber Avelar



  Escrito por Idelber às 04:43 | link para este post | Comentários (74)



sábado, 19 de julho 2008

Sobre o papel do subjuntivo no mascaramento da bandidagem

protog.jpgÉ oficial: Protógenes Queiroz e o Juiz Fausto de Sanctis viraram réus. O inacreditável aconteceu. Uma operação policial que revirou os intestinos da maior quadrilha do capitalismo brasileiro se transformou numa novela sobre como Protógenes usa o subjuntivo (Johnson estava errado; o último refúgio do canalha não é o patriotismo: é a gramática); sobre se houve vazamento ou não; sobre se deveria haver filmagem ou não; sobre se De Sanctis desrespeitou o STF ou não; sobre se Dantas pode ser algemado ou não. Revirem as manchetes dos jornais. Procurem informações sobre o conteúdo do que as investigações revelam sobre Dantas, a privatização das teles e seus bilionários negócios. Não há.

Protógenes vai fazer um “curso” e De Sanctis vai tirar férias. A conclusão é inevitável: o lado de lá, a corja, venceu. Em parte, pela covardia do governo Lula, que incrivelmente escala um Ministro da Justiça para dizer que o afastamento de Protógenes era um ato de “rotina”. Calculou errado, por medo da avalanche da mídia, que só quer saber da parte em que a maracutaia respinga no PT. Quando se deram conta de que a opinião popular já não se pauta pela mídia -- coisa que o governo Lula deveria ter aprendido com sua própria vitória em outubro de 2006 –- tentaram voltar atrás e era tarde demais.

Nélio Machado, o advogado de Dantas, agora pauta a Folha de São Paulo. É inaudito: as frases do advogado de um criminoso sobre o Presidente da República ganham primeira página nos jornais. Deve ser inédito na história da imprensa brasileira. Até manchete com ameaças de Nélio Machado ao PT foram publicadas. Aliás, é boa coisa que meu caríssimo e admirado Mário Magalhães tenha abandonado a função de ombudsman do jornal antes do estouro deste escândalo. Porque a lama da Folha neste episódio ultrapassa os limites do ombudsmanizável.

Sim, estou estuprando a língua portuguesa, em homenagem aos cães de guarda que enfiam vírgulas entre sujeito e predicado e escrevem matérias zombando do “português truncado” de Protógenes.

Sou de família de advogados. A minha paixão pelo Direito é antiga, apesar de eu ter escolhido Letras. Fucem por aí: juízes federais, procuradores da república etc. O que mais tem é Avelar. Nunca li um relatório policial em que o português não fosse “truncado”. Jamais me incomodou. Agora, de repente, o uso do subjuntivo num relatório policial que desvenda a maior quadrilha do capitalismo brasileiro virou tema de comoção na mídia nacional. E o conteúdo do relatório sumiu. Ninguém diz nada.

As gravações reveladas nesta semana demonstram claramente duas coisas: as de Dantas mostram um bandido que quer chegar a Lula, quer atingir Lula (maior êxito aqui, menor êxito acolá). As gravações da PF mostram um grande brasileiro – Protógenes Queiroz – seguindo à risca, rigorosamente, uma tarefa na qual ele sabe que está cercado de inimigos por todos os lados. Mesmo assim, o governo Lula não teve a coragem de dizer: Truco! Querem colocar todas as cartas na mesa? Querem revelar tudo? Vamos fritar toda a bandidagem, de todos os partidos, mesmo sabendo que a mídia escolherá a fritura que mais lhe convém? O governo Lula não apostou no discernimento da população brasileira neste episódio. Quando se deu conta disso, Inês já era morta.


PS: Pretendo dar um tempo deste episódio pelo mesmo motivo que dei um tempo do Galo aos sábados. É derrota demais. Derrota na política, derrota no futebol. O Biscoito Fino e a Massa provavelmente se transformará num blog sobre literatura e música. Ali, pelo menos, a derrota é matéria-prima da arte, e não da infâmia.

PS 2: Há manifestações hoje, em todo o Brasil, pelo impeachment de Gilmar Mendes. Elas têm o apoio deste blog. Mais detalhes no Nós apoiamos De Sanctis.

PS 3: Admiração; admiração e respeito infinitos por Protógenes Queiroz e Fausto de Sanctis. Nunca vou me esquecer do nome destes dois brasileiros.



  Escrito por Idelber às 04:53 | link para este post | Comentários (69)



quinta-feira, 17 de julho 2008

Sobre lugares, homens e mulheres

Nas minhas andanças pelo mundo, fui desenvolvendo umas teorias que aparecem no blog de vez em quando – como as cidades-véu e cidades-vitrine, que é o post favorito da Lucia Malla. São elocubrações sem qualquer rigor, que eu nunca colocaria num texto acadêmico. Mas são boas para gerar conversa no blog e não deixam de dizer algo sobre a experiência. É hora de testar mais uma, para que nos desintoxiquemos um pouco da política.

A teoria de hoje já foi apresentada oralmente a alguns amigos. Ela parte da observação de que há lugares no mundo onde as mulheres são mais interessantes, sexy, atraentes que os homens; ou seja, há rincões onde a feminidade dá de goleada na masculinidade. E há, sim, lugares onde os homens – para quem gosta de homem, é claro – costumam ser mais interessantes que as mulheres. Nem a teoria tem implicações práticas para mim – eu ando feliz na monogamia há anos – nem você tem que abrir mão da sua hetero- ou homossexualidade para tentar observar a coisa objetivamente. Dando sua contribuição a todo o leitorado que está no mercado da paquera, o Biscoito lança aqui algumas generalizações.

Belo Horizonte é um caso extremo. Eu realmente não gostaria de ser uma mulher heterossexual solteira em BH. Bandos gigantescos de mulheres lindas, bem vestidas, inteligentes, bem informadas, sensuais e de papo agradável zanzam pela noite da capital mineira. Os homens podem ser competentíssimos como profissionais e fantásticos como amigos, mas na arena da paquera são um desastre. Talvez pelo excesso de oferta, talvez pela herança católica, quiçá por outros fatores, os homens mineiros tendem a se juntar entre si, mesmo quando há uma festa de heteros com 5 mulheres para cada homem, o que em BH é super normal. Não é raro ver um casal e ter vontade de perguntar: mas o que essa mulher extraordinária está fazendo com esse zé-mané? As leitoras belo-horizontinas que me desmintam se eu estiver errado.

Já a Argentina é o oposto. As mulheres argentinas costumam ser independentes e brilhantes intelectualmente. Três dos cinco seres humanos que eu mais admiro no planeta são mulheres argentinas (Beatriz Sarlo, Graciela Montaldo, Sylvia Molloy). Mas em termos de sex appeal, para mim, pelo menos, é zero. Não sei se é a herança italiana, se é o frio, se é uma certa masculinização que elas abraçaram junto com a conquista de espaço, o fato é que vou à Argentina anualmente há quinze anos e me lembro de ter sentido tesão por uma argentina uma única vez, e mesmo assim fora do país. Os homens, por outro lado, dão de 10 x 0 nos mineiros. Vestem-se melhor, têm um papo mais agradável, gostam de estar com mulheres. Têm um toque sedutor. São, enquanto homens, mais interessantes que as mulheres argentinas costumam sê-lo enquanto mulheres – apesar de que estas costumam arrasar profissionalmente, em qualquer área.

Aí vai a lista de lugares, além de BH, onde acho as mulheres alucinantes, os homens nem tanto: Espanha (ah, as espanholas!), Colômbia, Cuba, Porto Rico. Eis aqui os lugares, além da Argentina, onde acho que a masculinidade é mais interessante que a feminidade, ou seja, onde a mulher hetero e o homem gay terão um mercado mais generoso que o homem hetero e a mulher gay: Itália, Canadá, Bélgica, África sub-saariana em geral (esta última eu nunca visitei, mas já convivi com muitos africanos e africanas nos EUA). Há um lugar onde acho que tanto os homens como as mulheres costumam ter um toque muito especial: a Holanda. Há lugares onde não costumo ver muito sex appeal nem nos homens, nem nas mulheres: México, Portugal.

Minha experiência é essa aí. Aguardo as discordâncias e as críticas. Só não critiquem a generalização -- o generalizador sabe que existem exceções.

Atualização I: O mais importante eu não disse: mulher, claro, é brasileira. As colombianas e espanholas vêm em segundo. Veja esse post.

Atualização II: Finalmente criei um perfil no Facebook. Estou gostando. Bonitinho, limpinho, nada a ver com o Orkut. Se você está por lá e é amigo, deixe um alô.



  Escrito por Idelber às 04:23 | link para este post | Comentários (82)



terça-feira, 15 de julho 2008

Afastaram Protógenes

Protógenes Queiroz, o delegado que pediu duas vezes a prisão de Daniel Dantas, foi afastado do caso. Sobre o envolvimento da imprensa, Sergio Leo escreve um texto que vale a pena ser lido.

A íntegra do relatório da PF, em cinco pdfs, está aqui.

PS
: No próximo dia 24, às 22 horas, a TV Brasil exibe um especial sobre os 90 anos do maior crítico literário brasileiro vivo, Antonio Candido. No domingo, a TV Brasil exibe o "De lá para cá", sobre a obra de Guimarães Rosa. Mais detalhes no site da TV Brasil.

PS 2: Minha palestra aqui na USP, sobre crítica e valor, acontece amanhã, quarta-feira, às 14 horas, no prédio da História e Geografia, na sala Ilana Blaj (H).



  Escrito por Idelber às 19:03 | link para este post | Comentários (65)




Prof. Paulo Ghiraldelli Jr. explica o que está errado com a lei Azeredo

São 9:30 minutos de vídeo mas, acreditem, vale a pena.


PS: Soninha, Soninha que prazer te conhecer. Noite memorável em São Paulo. Até o impossível apareceu.



  Escrito por Idelber às 04:17 | link para este post | Comentários (27)



segunda-feira, 14 de julho 2008

Manifestações e petição online contra Gilmar Dantas

fora.jpg Estão sendo convocadas, Brasil afora, uma série de manifestações contra o Presidente do STF, Gilmar Mendes, para o próximo sábado, dia 19. Aqui em São Paulo ela acontece na Avenida Paulista, a partir das 10 horas da manhã. Quem convoca é o Eduardo Guimarães, do Movimento dos Sem-Mídia, que tem experiência bem-sucedida com esse tipo de evento. Em Belo Horizonte, o ato acontece na Praça da Liberdade, também a partir das 10 horas. Em Porto Alegre, a manifestação será na Feira do Brique da Redenção, no mesmo horário. A concentração se iniciará no Monumento ao Expedicionário. Ajude a divulgar, é importante. Se souber de iniciativas em outras cidades, avise.

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Há uma petição online exigindo a saída de Gilmar Mendes do Superior Tribunal Federal. A petição rapidamente amealhou 1.500 assinaturas. Assine e divulgue você também.

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Paulo Henrique Amorim, que vem dando um show de cobertura do caso – ele realmente entende do assunto –, noticia que apareceu um “Gilmar” nas fitas gravadas pela Polícia Federal. Quem será? Gilmar dos Santos Neves, claro, o maior goleiro do Brasil em Copas do Mundo, aquele em quem tudo parava.

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Nem na campanha explícita a favor de Geraldo Alckmin en 2006 a Folha de São Paulo se prestou a papel tão vergonhoso como o que ela assumiu nestes últimos dias. A matéria (para assinantes) sobre os “erros de português” do relatório do Dr. Protógenes Queiroz é uma peça para envergonhar qualquer jornalista. A matéria também afirma que o delegado acusa “sem provas”. Desde quando, ó Folha de São Paulo, vocês se preocupam com provas quando a acusação lhes é conveniente? Quem diria, o Estadão tem sido bem mais digno. Nenhuma maravilha, mas um pouco mais de dignidade, pelo menos.

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Quando você vê algum veículo de imprensa dizendo que os "erros" da Polícia Federal ou o mau uso das preposições no relatório do Dr. Protógenes contribuem para que os bandidos sejam inocentados, você não tem a sensação de que eles usam o modo performativo fingindo que usam o modo constativo? Ou, dito sem retoriquês, você não fica com a sensação de que eles fingem que descrevem uma coisa quando na verdade estão enunciando o seu desejo?

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Nas rodas de acadêmicos do Congresso da Abralic, aqui em Sampa, um consenso: esta crise está mostrando quem é quem no Brasil. Limpinho, cristalino. É só saber ler.

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Agradeço e parabenizo aos colegas da Universidade de São Paulo, que estão organizando o décimo-primeiro Congresso da Associação Brasileira de Literatura Comparada, que começou neste domingo. Mas vou me permitir uma crítica construtiva: não há razão para se organizar um congresso tão gigantesco, com interesse potencial fora dos muros da universidade, fazendo um site trancado por senhas, onde o público não tem como se informar sobre palestras que possa querer assistir. Vamos destrancar as coisas na internet, gente.

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Obrigado aos queridos Alessandra e Pandini, por um adorável jantar aqui na megalópole incomparável. Como se come bem nesta Sumpaulo, meus orixás.

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Há um belo blog novo na praça, sobre cultura e atualidade. Com vocês, Amalgama, que está aceitando candidatos para escrever sobre cinema e política. Se você tem interesse em participar, entre em contato com eles pelo formulário. É obra de Daniel Lopes e amigos. Coisa boa.

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Inaugura-se hoje, no Museu da Língua Portuguesa, aqui em Sampa, uma exposição sobre Machado de Assis. A curadoria é de dois alunos de José Miguel Wisnik e a consultoria é do próprio. Ou seja, promete.

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Parece que hoje vou conhecer pessoalmente uma ídola muito querida. Assunto não faltará.

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Nota aos amigos: meu celular belo-horizontino já não funciona aqui em Sampa. Sempre funcionou no Brasil todo, quando era Telemig Celular. Aí virou Vivo, que virou não sei o quê, que virou índio quer apito. Não funciona mais.



  Escrito por Idelber às 04:14 | link para este post | Comentários (59)



domingo, 13 de julho 2008

O repetitivo, tedioso factóide dos grampos

Vejam como se produz um factóide. Em meio ao prende-e-solta de Daniel Dantas esta semana, estoura uma bomba: o Superior Tribunal Federal teria sido “grampeado”. Acusa-se o juiz Fausto Martin de Sanctis de ter instruído a Polícia Federal a monitorar as conversas do Presidente do STF, Gilmar Dantas, digo, Gilmar Mendes. Não é preciso ser advogado para saber que se trata de acusação de extrema gravidade. Não era necessário ter um doutorado em retórica para saber que a história era meio estranha. Um juiz de primeira instância, que corajosamente está enfrentando criminosos poderosíssimos, com aliados no Congresso, na imprensa e no Judiciário, expondo-se assim? Com um comportamento ilegal? Meio insólito, convenhamos.

A imprensa chegou a noticiar a história como fato e, logo depois, a suposta fonte da acusação, a desembargadora Suzana Camargo, vice-presidente do Tribunal Regional Federal da 3.ª Região, teria dito me esqueçam. Como assim? Posso acusar um juiz federal de cometer um crime e depois dizer “me esqueçam”? Mas há uma razão pela qual eu digo que a Dra. Suzana é a suposta fonte da acusação. Para entender esta cautela, regressemos a um post do Biscoito de setembro de 2006.

Às vesperas da eleição presidencial de 2006, o Ministro Marco Aurélio de Mello veio à público com uma “denúncia” de que seus telefones e os de outros dois ministros do TSE estariam sendo grampeados. Chegou a dizer que o grampo “podia ter vindo do estado”. Foi o suficiente para que as Organizações Globo – aquelas que esconderam o maior acidente da história da aviação brasileira para divulgar fotos ilegalmente obtidas com o intuito de eleger seu candidato – começassem a falar em “estado policial”. Depois que a Polícia Federal fez varredura completa e não encontrou nem sombra de grampo, o Ministro Mello, com a ironia calhorda e leviana que lhe é peculiar, afirmou que “então faz de conta que não houve grampo algum”. Reiterou que confiava na conclusão da empresa privada que faz a varredura mensal no TSE e que lançara a acusação.

A história é curiosa porque a empresa responsável pela denúncia que Mello repercutia chama-se Fence, estranhamente contratada por José Serra, sem licitação, durante o governo FHC, pela bagatela de $R 1,8 milhão por ano, para fazer varreduras para as quais a PF está mais do que equipada. A Fence Consultoria Empresarial, de propriedade do ex-dirigente do SNI, o coronel reformado do Exército Ênio Gomes Fontenelle, é a empresa que foi denunciada em 2002 por espionagem a favor de José Serra, no episódio em que pilhas de dinheiro foram encontradas no escritório de Roseana Sarney.

Um dia depois, o próprio presidente do TSE, Athayde Fontoura Filho, afirmava que “os grampos já podem ter sido retirados” e que “provavelmente agora não vão encontrar nada”. A imprensa começa a voltar atrás. Um ano depois, em 2007, a mesma história se repete no STF, e até as Organizações Globo tiveram que noticiar, peremptoriamente: Denúncia de grampo no STF era falsa. No caso das eleições de 2006, Mauricio Cardoso lembrava, no Estadão, que o TSE havia deferido 64 demandas a favor de Alckmin e 17 a favor de Lula, para concluir com a pergunta retórica: “a quem interessam os grampos no TSE”? A pergunta era uma clara tentativa de incriminar Lula.

Segundo Bob Fernandes, de quem é a informação de que a desembargadora Suzana Camargo denunciou a Gilmar Mendes que o juiz De Sanctis o havia grampeado? De Maurício Cardoso, da revista Consultor Jurídico, que tem feito uma cobertura claramente alinhada a Gilmar Mendes.

Ontem, foram os próprios técnicos do Supremo -- não a PF -- quem fez a varredura no gabinete de Mendes e não encontrou nada. Sabemos, então, que De Sanctis não mandou grampear Mendes coisa nenhuma. Mas quem está mentindo? Maurício Cardoso? A desembargadora Suzana? Vocês com a bola.



  Escrito por Idelber às 01:46 | link para este post | Comentários (36)



sexta-feira, 11 de julho 2008

Gilmar Mendes e as "facilidades" de Dantas no STF

Não se tem notícia, na história recente do Brasil, de revolta tão grande contra um membro do Poder Judiciário. Mesmo com a farta documentação recolhida pela Polícia Federal e com provas materiais de uma tentativa de suborno a um juiz, o Presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, mandou soltar duas vezes, em menos de 24 horas, um banqueiro sobre quem pesam as acusações de formação de quadrilha, gestão fraudulenta, evasão de divisas, lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e espionagem. Gilmar Mendes fez plantão para um criminoso, negou que a PF houvesse coletado dados novos e ignorou a jurisprudência que diz que liminar em habeas corpus liberatório só pode ser concedida em casos de abuso evidente.

O Sr. Gilmar Mendes atuou como cúmplice de um criminoso. O juiz aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, Wálter Maierovitch (também fundador do Instituto Brasileiro Giovanni Falconi), disse claramente que Mendes está atuando com abuso de direito e que está na hora de se pensar num impeachment para Gilmar Mendes. No momento em que escrevo este post, 130 juízes federais lançam uma carta duríssima de protesto, que afirma que o estado democrático de direito foi atingido e que a decisão de Mendes foi “inédita e absurda”.

Seria muito bom se os outros membros do tribunal suspendessem suas férias. Nos próximos dias, o titular deste blog espera poder recolher material para escrever um relato acerca de como a revolta popular na Argentina levou a uma completa limpeza na Corte Suprema daquele país, em 2003. Não custa lembrar, claro, que o STF possui um serviço para que você envie sua mensagem.

Atualização: Está no ar o blog Apoiamos o juiz federal Fausto de Sanctis.



  Escrito por Idelber às 21:01 | link para este post | Comentários (62)




Advogados vão ao Supremo de novo e Dantas promete “detonar”; Dallari contesta Mendes

Atualização: Gilmar Mendes mandou soltar Dantas de novo. (via Pedro Dória)

A imprensa noticiou que os advogados de Daniel Dantas entraram com uma petição no Supremo Tribunal Federal contra a prisão preventiva do banqueiro, decretada ontem, algumas horas depois da concessão de habeas corpus pelo Ministro Gilmar Mendes. No interrogatório conduzido esta tarde pelo delegado Protógenes Queiroz, produziu-se, segundo Bob Fernandes, um diálogo sensacional:

- ...sua grande ruína foi a mídia...você perdeu muito tempo com isso, leia esse capítulo sobre a mídia e entenda porque você está preso...sua defesa começa aqui, com todo o respeito que eu tenho ao seu advogado aqui presente...
Daniel lê, atentamente.
O delegado volta à carga.
- Não continue jogando seus amigos, seus aliados contra mim, isso não vai adiantar nada, como não adiantou...
Daniel, silencioso, parece concordar. O delegado prossegue:
- Se esse jogo continuar, a cada vez serão mais dez anos de prisão... eu tenho pelo menos 5 preventivas contra você, o trabalho do juiz De Sanctis é extraordinário, não há como escapar de novos mandados...e se você insistir agora será com a família toda...serão duzentos anos de prisão...
Silêncio, Protógenes Queiroz fecha o cerco:
- ...vamos fazer um acordo, você me ajuda e eu te ajudo....
Daniel, aquele que é tido e havido como uma mente brilhante, decide. O tempo dirá se cálculo ou rendição:
- Eu vou contar tudo!
E faz jorrar, devastador:
-...vou contar tudo sobre todos. Como paguei um milhão e meio para não ser preso pela Polícia Federal em 2004...
- Um milhão e meio? À época da operação Chacal, o caso Kroll...?
Prossegue a torrente de Daniel:
- ...tudo sobre minhas relações com a política, com os partidos, com os políticos, com os candidatos, com o Congresso... tudo sobre minhas relações com a Justiça, sobre como corrompi juízes, desembargadores, sobre quem foi comprado na imprensa...
O delegado, avança:
- Vamos fazer um acordo, mas é ponto de honra você não mentir. Não abro mão dessa investigação e seus resultados, mas muito mais fundamental é contar tudo sobre a corrupção no Brasil...quero saber a quem você pagou propina no Judiciário, no Congresso, na imprensa...
Em meio à torrente, em algum momento o advogado Nélio Machado pondera:
...você vai estar mais seguro na cadeia do que fora, fora você correrá risco de ser morto!

Enquanto isso, em entrevista à Ultima Instância, um dos mais respeitados juristas do país, Dalmo de Abreu Dallari, afirma que ficou difícil justificar a liberação de Dantas agora e diz que mantém tudo o que disse sobre Gilmar Mendes em 2002, quando de sua nomeação ao STF por Fernando Henrique Cardoso: falta-lhe a necessária reputação ilibada.



  Escrito por Idelber às 16:25 | link para este post | Comentários (64)




Enquanto isso, na terra da liberdade....

Carol Kreck é uma bibliotecária de 61 anos de idade, de Denver, Colorado. A mulher deve ter um metro e meio de altura. Cometeu, no último dia 07, a imprudência de ir a uma das reuniões de debates públicos de John McCain (os chamados town hall meetings) portando um cartaz feito em casa. No cartaz, nenhuma ofensa, nenhuma calúnia ou injúria, mas uma simples equação: McCain=Bush. Ela nem mesmo tentava entrar no prédio onde se realizaria o evento, dentro do qual os cartazes são proibidos. Estava, simplesmente, plantada do lado de fora.

Por ordens do Serviço Secreto de John McCain, a senhora foi retirada pela polícia, recebeu uma citação por, pasmem, trespassing (invasão) e uma ameaça de prisão caso retornasse. A censura ao direito de expressão de Carol Kreck repete cerceamentos anteriores, acontecidos em reuniões públicas do próprio McCain com Bush. Acompanhe o vídeo:

Várias organizações da sociedade civil já documentaram a escabrosa realidade dos golpes permanentes contra a liberdade de expressão no governo Bush.

PS: De amanhã até quinta-feira, o Biscoito transmite da singular, incomparável Sumpaulo, onde participo do décimo-primeiro Congresso da ABRALIC (Associação Brasileira de Literatura Comparada). A quem interessar possa: minha palestra é parte do simpósio “Confinamento e Deslocamento na Criação Literária” e acontece na quarta-feira, dia 17 16, a partir das 14 horas. O tema é "Crítica e Valor". Os simpósios serão realizados nos prédios da FFLCH e da FAU.



  Escrito por Idelber às 14:27 | link para este post | Comentários (12)



quinta-feira, 10 de julho 2008

Dantas preso de novo!

É, meus caros.

O Brasil do Dr. Protógenes Queiroz, o Brasil do Dr. Vitor Hugo Rodrigues Alves, o Brasil do Dr. Fausto Martin de Sanctis, não vai se curvar assim tão fácil ao Brasil de Gilmar Mendes.

Daniel Dantas está preso de novo. A prisão agora é preventiva. Bob Fernandes já noticiou e deve escrever mais nas próximas horas.

Com a palavra, a super equipe de profissionais do direito que freqüenta o blog. E todos os outros leitores, é claro.

Atualização: o detalhe saboroso da história é que qualquer pedido de habeas corpus terá agora que percorrer o trâmite normal de primeira instância, segunda instância etc. Não poderá ser julgado diretamente pelo Supremo. O HC anterior foi julgado assim porque havia sido impetrado preventivamente.

Atualização II: No jogo de xadrez em que se converteu este caso, a vantagem até agora está com o brilhante delegado Queiroz e o valente juiz Martin de Sanctis. Leia: Queiroz dá drible da vaca em Mendes. A metáfora futebolística de Paulo Henrique Amorim está perfeita.

Atualização III: Está crescendo na internet o movimento para enviar mensagens ao Supremo Tribunal Federal externando opiniões sobre a postura do Presidente Gilmar Mendes neste caso. Para enviar também a sua mensagem -- educada, por favor -- ao STF, clique aqui.



  Escrito por Idelber às 16:11 | link para este post | Comentários (57)




Operação Satiagraha: o ranking do nervosismo

Eu, que sou um mero crítico literário atleticano, não tenho todos os elementos para fazer esse ranking. Mas o Biscoito Fino e a Massa gostaria de dar sua contribuição à medição do nervosismo de certas figuras da política e do jornalismo brasileiros à raiz da operação Satiagraha, da Polícia Federal. Apresento o meu top 8 da preocupação pindorâmica, em ordem alfabética, e convoco meus eruditos e bem informados leitores a que organizem o ranking como bem lhes aprouver. Ou que acrescentem outros nomes, evidentemente.

Eduardo Azeredo: segundo os que acompanham o Senado, era visivelmente o parlamentar mais alterado. Coitado, justamente na semana em que ele tentava criar impressões digitais para rastrear todos os usuários da internet, encontram suas impressões digitais no maior bandido de Pindorama. Nervosismo estilo Lazaroni.

Reinaldo Azevedo
: logo depois de decretada a prisão de Dantas, Reinaldinho entrou em verdadeiro surto psicótico. Insistiu que a prisão de Dantas demonstrava que vivíamos num perigoso totalitarismo bolchevique. Fantasiou que estávamos a um passo de adentrar uma ditadura na qual agentes da Polícia Federal invadiriam sua casa e estuprariam suas filhas com grossos tomos de Lênin. Nervosismo estilo Zagallo.

Fernando Henrique Cardoso
: o príncipe sociólogo tem bons motivos para julgar-se a salvo, mas nossas fontes não deixaram de notar que FHC não quer nem saber de remexer histórias acerca de um certo encontro em que tratou com Daniel Dantas do tema da diretoria da Previ. Ou das relações de Pérsio Arida, que o serviu no BNDES e no Banco Central, com Dantas. Nervosismo impassível, estilo Ademir da Guia.

José Dirceu: quase 36 horas de silêncio absoluto sobre a prisão de Dantas num blog basicamente dedicado a comentar as manchetes dos jornais do dia. Para piorar, acham suas digitais nas tentativas de sabotagem à operação do Dr. Protógenes. Quando falou, foi para condenar a “espetacularização” da PF, encontrando finalmente suas afinidades eletivas com Reinaldinho da Veja. Nervosismo estilo Roberto Dinamite.

Guilherme Fiúza: escreveu um inacreditável post em que apresentava a filmagem de um ex-prefeito e bandido em sua casa, no momento da prisão, de pijama de mangas compridas, como uma elaborada tortura chinesa jamais vista em Pindorama. Nervosismo hiperbólico, estilo Dadá Maravilha.

Miriam Leitão: escreveu um inacreditável post em que se perguntava por que, afinal de contas, remexer essas coisas tão velhas como as falcatruas de Dantas. Contrapôs a operação Satiagraha às boas notícias veiculadas no exterior sobre o Brasil, como se combate à corrupção fosse sinônimo de corrupção. Fingiu não entender que o mensalão não é a origem de Dantas, mas exatamente o contrário. Nervosismo pretensamente burro, estilo Dunga.

Marinhos, Kamel e Globo: esses não têm com que se preocupar, já o sabem há tempos. Mandam em Pindorama. Para quem viu o Jornal Nacional de ontem, é impossível não concordar com Paulo Henrique Amorim. A Globo já rifou Dantas. Nervosismo zero, estilo Vicente Feola.

Gilmar Mendes: presidente da Suprema Corte do país, passou pela inacreditável humilhação de ver um bandido dizer que, no seu tribunal, ele tem “facilidades”. Ao invés de dar o habeas corpus em 24 horas, preferiu fazê-lo em 36, para não dar muito na cara. Nervosismo dissimulado, estilo Parreira.



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quarta-feira, 09 de julho 2008

A contagem regressiva para a liberação de Dantas e a desmoralização do STF

Meus leitores sabem do interesse – leigo, mas intenso – que dedico às questões do direito (preciso, inclusive, achar o tempo para criar uma tag que identifique as dezenas de posts que o blog já fez sobre o assunto). Não me lembro, na história recente, de uma desmoralização tão pública do Supremo Tribunal Federal como a que o Ministro Gilmar Mendes protagonizou nas últimas 24 horas. Seguindo-se à prisão do criminoso Daniel Dantas e de vários associados seus ontem pela manhã, veio à tona uma declaração anterior do banqueiro. Hugo Sérgio Chicaroni, contratado por Dantas para se aproximar dos delegados que investigam o Opportunity, disse ao delegado da PF a quem ele tentava subornar que a preocupação de Dantas seria só com o processo na primeira instância, uma vez que no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e no Supremo Tribunal Federal (STF) ele resolveria tudo com facilidade. A declaração foi gravada legalmente pela Polícia Federal.

Eis que poucas horas depois da prisão preventiva dos criminosos, o Ministro Gilmar Mendes -– que, pela própria declaração de Dantas sobre o STF, deveria ter mais cuidado -– vem a público criticar a “espetacularização” das prisões. Qual espetacularização?, pergunto eu. Foi a própria esposa de Celso Pitta quem confirmou que a chegada dos policiais federais à sua casa foi tranqüila; que eles em nenhum momento foram mal-educados ou agressivos; que Pitta saiu sem algemas; que a operação transcorreu na mais absoluta calma. Quem deu uma aula de direito foi o juiz federal Fausto de Sanctis, que escreveu: Não se trata de medida midiática, mas absolutamente indispensável para uma apuração séria e criteriosa, buscando a eficácia das investigações. Ponto.

É verdade que a Polícia Federal cometeu o erro de pedir a prisão de Andréa Michael, jornalista da Folha de São Paulo que anunciou há dois meses a existência dessas investigações. Se houve vazamento, cabe à corporação investigar internamente. A Constituição assegura ao jornalista o sigilo de fonte. A justiça, corretamente, negou o pedido. Mas “espetacularização”? Não vejo nenhuma.

O trabalho republicano da Polícia Federal cria nervosismo em certas comarcas e produz as afinidades eletivas mais insólitas. Quem são as duas vozes que acompanham o Ministro Gilmar Mendes -- que já atacou a Polícia Federal com termos impróprios para um magistrado -- na crítica à “espetacularização” da PF? Reinaldo Azevedo e José Dirceu. Visivelmente nervoso, soltando impropérios e insultos em letras maiúsculas, o colunista da Veja afirma que qualquer um de nós pode estar sujeito a isso sem que nossos advogados nem mesmo saibam do que estamos sendo acusados. Ora, Reinaldinho, Dantas sabe do que é acusado. Vamos à lista? Formação de quadrilha, gestão fraudulenta, evasão de divisas, lavagem de dinheiro, sonegação fiscal, espionagem. Em seu blog (no momento fora do ar), José Dirceu condena o “espetáculo” da PF. Mendes, Azevedo, Dirceu. Não é curiosa a convergência? Eu me alistaria para jogar na zaga de qualquer equipe que enfrente essa linha de atacantes.

Tenho orgulho da Polícia Federal do meu país e não perco a oportunidade de dizê-lo pessoalmente aos policiais, cada uma das muitas vezes que entro ou saio do Brasil. Resta ao Judiciário fazer a sua parte e não repetir decisões anteriores, lamentáveis.

PS: O jornalista Leonardo Sakamoto nos lembra: sigam os bois de Dantas.



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Forças israelenses espancam e torturam jornalista premiado

Um dos mais admirados jovens jornalistas do Oriente Médio, Mohammed Omer, correspondente da Inter Press Service na Faixa de Gaza, viajou na semana passada para a Europa, onde recebeu o prestigioso prêmio Martha Gellhorn de jornalismo pelo seu trabalho. Além de receber o prêmio em Londres, Omer falou nos parlamentos grego, sueco e holandês. Sua viagem foi auspiciada pelo Washington Report e os trâmites para sua saída de Gaza foram feitos pela embaixada holandesa em Tel-Aviv.

Ao voltar para casa, escoltado por diplomatas holandeses, Omer teria que cruzar a fronteira jordaniana com os Territórios Ocupados da Cisjordânia, para depois enfrentar o infernal percurso de volta a Gaza. Mesmo tendo passado pelo Raio-X das forças de ocupação, Omer recebeu ordens de se despir. Depois de revisar todos os papéis que ele trazia e de fazer piadas com as cartas que ele recebeu de seus leitores na Inglaterra, as forças de ocupação arrancaram sua cueca à força e jogaram-no ao chão. Perguntaram-lhe por que trazia perfumes e, ante a resposta de que eram presentes para pessoas que ele amava, um oficial israelense retrucou: vocês têm amor na sua cultura? Já com Omer totalmente pelado, as forças de ocupação o obrigaram a dançar. Tanto o insulto à sua cultura como essas formas de humilhação são diariamente usadas pelas forças israelenses contra os palestinos. A única diferença é que Omer é conhecido, e desta vez a história vazou.

Nesse ponto, com Omer chorando e pedindo clemência, oito oficiais israelenses armados procederam a uma sessão de torturas que incluiu não só insultos e piadas como agressões ao seu rosto, pancadas que fraturaram algumas de suas costelas e pisoteios enquanto ele permanecia no solo. Omer desmaiou e só acordou horas depois num hospital palestino. Enquanto isso, o embaixador sionista à Grã-Bretanha reclamava que os britânicos não apreciam a "democracia" israelense e as forças de ocupação soltavam um comunicado dizendo que Omer havia "perdido o equilíbrio" durante um interrogatório.

As forças de ocupação israelenses já assassinaram muitos jornalistas que ousaram produzir informação independente sobre a realidade da Palestina. As torturas a Omer continuam, sem dúvida, esse paradigma. Se você entende inglês e tem estômago, pode ouvir a entrevista concedida por Omer no leito do hospital. Enquanto isso, os massacres israelenses contra os civis de Ni'lin, vila próxima a Ramallah, entraram em seu quarto dia. Alguma notícia na imprensa? Não vi.

É o país mais detestado do planeta, continuando sua obra.



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terça-feira, 08 de julho 2008

Links sobre a prisão de Daniel Dantas, Naji Nahas e Celso Pitta

É o assunto do dia, evidentemente. Foram 24 mandados de prisão e 56 mandados de busca e apreensão cumpridos hoje pela Polícia Federal, na operação Satiagraha, ou “firmeza” (agraha) na “verdade” (satya), em sânscrito. Os crimes: formação de quadrilha, gestão fraudulenta, evasão de divisas, lavagem de dinheiro, sonegação fiscal, espionagem.

O furo foi de Bob Fernandes, que ofereceu também um histórico do caso. A matéria da Reuters também vale a pena ser lida. O RS Urgente explica as ramificações gaúchas da operação criminosa e o Juca Kfouri lembra que Dantas é um dos responsáveis pela ruína do outrora glorioso Esporte Clube Bahia. Luis Nassif compilou de novo a documentação sobre Dantas e a Veja.

Já começaram as apostas sobre quantas horas passarão antes que algum juiz emita o habeas corpus.

PS: Alô, gays e lésbicas, da 5a vara da família de Santo Amaro chega uma bela notícia.



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Ajude a barrar o projeto de Eduardo Azeredo

A abominável monstruosidade parida pelo Senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) para regular a Internet foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Numa semana de péssimas notícias para a Internet, começou a mobilização para tentar barrar a aprovação em plenário desse projeto substitutivo, que cria a figura do provedor delator, criminaliza o compartilhamento de arquivos e, absurdo dos absurdos, transforma em criminoso todo aquele que obtiver “dado ou informação disponível em rede de computadores, dispositivo de comunicação ou sistema informatizado, sem autorização do legítimo titular”.

Em outras palavras, o Senador Eduardo Azeredo quer criminalizar basicamente tudo o que fazemos na internet: citar, copiar, colar, compartilhar. Não tenho nada a acrescentar ao que vários colegas blogueiros já disseram sobre o assunto. Limito-me, então, a convidar os leitores a que assinem a excelente petição escrita por Sergio Amadeu e André Lemos. O selinho que segue foi retirado do blog do Sergio Amadeu (veja que fantástico: se aprovado o projeto de Azeredo, eu estaria cometendo um crime ao circular este selinho):

contra.png

É uma vergonha para o estado de Minas Gerais ser representado no Senado por Eduardo Azeredo.



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sexta-feira, 04 de julho 2008

Caetano Veloso e Carlos Sandroni polemizam sobre Noel Rosa

Está acontecendo uma polêmica, amigável e afetuosa, entre Caetano Veloso e aquele que é provavelmente o mais talentoso e erudito entre os musicólogos brasileiros da nova geração, o meu amigo Carlos Sandroni. A discussão gira em torno a “Feitiço da Vila”, o clássico de Noel Rosa sobre Vila Isabel, peça de uma polêmica com Wilson Batista, compositor negro do morro. Caetano vê a composição de Noel, basicamente, como uma canção racista. O trecho mais discutido são os famosos versos:

“A Vila tem
Um feitiço sem farofa,
Sem vela e sem vintém
Que nos faz bem
Tendo nome de princesa,
Transformou o samba
Num feitiço decente, que prende a gente”


Para se entender a polêmica, há que se ver o vídeo de Caetano dando uma “aula-apresentação” da canção de Noel:



O argumento de Caetano foi, depois, resumido de forma bem piorada por Ali Kamel, que publicou n'O Globo, em 10/06/08, um artigo infeliz, em que afirma que Caetano (…) demonstrou que a canção quis livrar o samba da sua negritude, transformando-o num feitiço do bem, feito por bacharéis brancos, longe, portanto, da macumba dos negros do morro, que faz, por oposição, o mal, coisa de bamba. Confesso que ao ver o vídeo, pensei em escrever uma resposta à leitura de Caetano. Por sorte, Carlos Sandroni, autor do melhor livro já escrito sobre o samba -- Feitiço decente: Transformações do samba no Rio de Janeiro, 1917-1933 -- e infinitamente mais equipado que eu, escreveu uma bela réplica na qual aponta alguns erros de Caetano, como o de atribuir a Noel, mutiladas, duas estrofes que teriam sido parte de uma improvisação num programa de rádio e que não são parte integrante da canção. Mais importante, Sandroni esmiuça o contexto em que ocorre a defesa do “feitiço sem farofa”.

Para resumir um argumento que você pode encontrar em toda sua nuance seguindo o link acima, o samba de Noel está justamente inserindo a Vila Isabel num contexto de disputas de bairros que já era típica do samba naquele momento. O “feitiço que nos faz bem” não deve ser lido – como o faz Caetano -- por oposição ao “feitiço de preto”, que supostamente “nos faria mal”. Da mesma forma como Noel, parceiro fraternal do mundo da malandragem, argumentou contra a palavra “malandro”, que estigmatizaria compositores que estavam em perfeitas condições de levar sua arte ao mundo da profissionalização (veja essa idéia nos sambas Rapaz folgado e Se a sorte me ajudar), o uso do termo “feitiço” denota familiaridade com o mundo descrito – é o próprio povo do morro que sabe, muito bem, que dessa farofa não se come, esse vintém não se guarda no bolso. “Feitiço da Vila”, na leitura de Sandroni, é um marco no processo de aceitação, pela sociedade como um todo, da música dos negros e mestiços. Em outras palavras, uma canção anti-racista!

Caetano escreveu uma resposta fraternal a Sandroni, que já treplicou. Na resposta de Caetano, confirmei a impressão que o vídeo original havia me produzido: que seu problema não é com Noel Rosa, e sim com a leitura de José Ramos Tinhorão da bossa nova. Para resumir, a revolta de Caetano é contra o fato de que Tom Jobim e Carlos Lyra, entre outros, foram acusados pelo nacionalismo populista de serem “usurpadores de classe média” da música dos negros, sendo Noel Rosa sempre poupado dessa acusação. "Ora, justamente o Noel que havia louvado a Vila por oposição ao morro?", pergunta-se Caetano.

O problema é que Caetano, ainda profundamente marcado pelos embates com Tinhorão nos anos 60, talvez ainda não tenha se dado conta de quão definitiva foi a vitória do Tropicalismo sobre ele. Em outras palavras, a leitura de Tinhorão da bossa nova não é, hoje, corroborada por nenhum pesquisador sério da música brasileira. Não é, nem de longe, uma leitura hegemônica. Interpretar Noel Rosa com as lentes proporcionadas por aqueles embates termina reafirmando fronteiras que já haviam ruído nos anos 30, em parte pela própria arte de Noel.

PS: Terá ficado óbvio, suponho, que me alinho com a leitura de Sandroni. Mas o que realmente me incomoda no vídeo de Caetano não é a sua interpretação de Noel. São as risadas meio nervosas do público. Freud explica.



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quinta-feira, 03 de julho 2008

Guimarães Rosa, em seu centenário

rosa-menino.jpgO post de hoje saúda, com seis dias de atraso, o centenário de nascimento de João Guimarães Rosa. Tive outro encontro com o texto de Rosa esta semana, graças a uma magnífica tese de doutorado defendida anteontem na UFMG, em cuja banca de argüição tive a honra de participar. O mais novo doutor do melhor de programa de pós-graduação em literatura do Brasil é meu amigo Roniere Menezes, que defendeu brilhantemente um extenso trabalho de pesquisa sobre as obras de três escritores-diplomatas: Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto e Vinicius de Moraes.

Como se sabe, Guimarães Rosa foi cônsul-adjunto do Brasil em Hamburgo, nomeado em 1938. Ali permaneceu até janeiro de 1942, período no qual ele e aquela que seria sua segunda esposa, Aracy Moebius de Carvalho, tiveram papel chave na salvação de centenas de vidas de judeus perseguidos. Aracy, então funcionária do Consulado Brasileiro, preparava os papéis e conseguia que os passaportes não apresentassem a religião dos portadores nem a estrela de Davi. O visto era dado por Rosa.

No seu período de residência na Alemanha, Rosa redige um diário, cujo manuscrito se encontra no Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Esse extraordinário documento ainda não está publicado – coisas do Brasil – por responsabilidade de uma prole que infelizmente não prima pela sanidade mental. Nas anotações de 13 de julho de 1940, depois de descrever a beleza das margens do Alster, ele conclui o parágrafo dizendo: E ... mas ... para estragar toda a mansa poesia do lugar: arvoraram, num poste, uma taboletazinha amarela: “Lugar de brinquedo para crianças arianas”.

No dia 12 de março de 1941, a entrada do diário se deixa ler como uma caixa de comentários de blog, com anotações que se iniciam às 11:05 e seguem em intervalos de 10 ou 15 minutos, enquanto os bombardeios e o fogo cruzado fazem, por vezes, sacudir a própria casa. Rosa estremece, sente o cheiro de pólvora. Medita sobre o horror da guerra.

Roniere também consultou os arquivos do Itamaraty, onde é possível ler o ofício enviado por Rosa ao Ministro Oswaldo Aranha em 20 de julho de 1939, no qual o escritor mineiro enfaticamente recomenda os nomes de 226 judeus aos quais ele havia concedido visto de entrada para o Brasil e solicita a reserva de números adicionais, para que mais vidas pudessem ser salvas.

Depois de deportado de volta ao Brasil, em 1942, Rosa voltaria a ver a Alemanha em 1946. Ao fim da Conferência de Paz de Paris, na qual ele participara como secretário da delegação brasileira, ele percorre as ruínas de Berlim e escreve uma carta emocionada a Aracy: Quase tudo destruído: toda a Kurfuerstendamm são duas tétricas filas de ruínas; a Embaixada destruída; o consulado, idem; o Éden Hotel, a KDW, o Adlon, o Venezia, tudo, tudo (...) A Friedrichstrasse, a Wilhelmstrasse, nelas não sobrou casa. Nunca imaginei que pudesse sofrer tanto uma cidade tão grande. Tétrica foi a visita a Reichskarlei, ou ao que dela resta, denegrido, quebrado, incendiado, espedaçado. Enfim, não digo mais, pois seria uma infindável enumeração de ruínas.

Nesse mesmo ano de 1946, Rosa publicaria Sagarana. Dez anos depois, dois petardos simultâneos: Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas. A experiência alemã não deixaria marcas muito visíveis na sua obra, com a exceção de um relato, “A velha”, publicado na coletânea póstuma Ave, Palavra. Acerca de Guimarães Rosa, aqui no Biscoito, leia também o post sobre Diadorim e o post sobre o demoníaco em Grande Sertão.

Evoé, João Rosa, e parabéns, Dr. Roniere.

PS: Para quem não sabe, as palestras da Flip deste ano estão sendo transmitidas em vídeo pela internet. A magnífica apresentação de ontem, de Roberto Schwarz sobre Machado de Assis, mereceu uma matéria na Folha (para assinantes), na qual Eduardo Simões e Marcos Strecker equivocadamente se referem a “Retórica da Verossimilhança”, de Silviano Santiago, como “um livro”. É um artigo, reunido no livro Uma literatura nos trópicos.

PS 2: Eu torci muito, caros tricolores, mas convenhamos: o Fluminense falou demais antes da hora.



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