Caetano Veloso e Carlos Sandroni polemizam sobre Noel Rosa
Está acontecendo uma polêmica, amigável e afetuosa, entre Caetano Veloso e aquele que é provavelmente o mais talentoso e erudito entre os musicólogos brasileiros da nova geração, o meu amigo Carlos Sandroni. A discussão gira em torno a “Feitiço da Vila”, o clássico de Noel Rosa sobre Vila Isabel, peça de uma polêmica com Wilson Batista, compositor negro do morro. Caetano vê a composição de Noel, basicamente, como uma canção racista. O trecho mais discutido são os famosos versos:
“A Vila tem
Um feitiço sem farofa,
Sem vela e sem vintém
Que nos faz bem
Tendo nome de princesa,
Transformou o samba
Num feitiço decente, que prende a gente”
Para se entender a polêmica, há que se ver o vídeo de Caetano dando uma “aula-apresentação” da canção de Noel:
O argumento de Caetano foi, depois, resumido de forma bem piorada por Ali Kamel, que publicou n'O Globo, em 10/06/08, um artigo infeliz, em que afirma que Caetano (…) demonstrou que a canção quis livrar o samba da sua negritude, transformando-o num feitiço do bem, feito por bacharéis brancos, longe, portanto, da macumba dos negros do morro, que faz, por oposição, o mal, coisa de bamba. Confesso que ao ver o vídeo, pensei em escrever uma resposta à leitura de Caetano. Por sorte, Carlos Sandroni, autor do melhor livro já escrito sobre o samba -- Feitiço decente: Transformações do samba no Rio de Janeiro, 1917-1933 -- e infinitamente mais equipado que eu, escreveu uma bela réplica na qual aponta alguns erros de Caetano, como o de atribuir a Noel, mutiladas, duas estrofes que teriam sido parte de uma improvisação num programa de rádio e que não são parte integrante da canção. Mais importante, Sandroni esmiuça o contexto em que ocorre a defesa do “feitiço sem farofa”.
Para resumir um argumento que você pode encontrar em toda sua nuance seguindo o link acima, o samba de Noel está justamente inserindo a Vila Isabel num contexto de disputas de bairros que já era típica do samba naquele momento. O “feitiço que nos faz bem” não deve ser lido – como o faz Caetano -- por oposição ao “feitiço de preto”, que supostamente “nos faria mal”. Da mesma forma como Noel, parceiro fraternal do mundo da malandragem, argumentou contra a palavra “malandro”, que estigmatizaria compositores que estavam em perfeitas condições de levar sua arte ao mundo da profissionalização (veja essa idéia nos sambas Rapaz folgado e Se a sorte me ajudar), o uso do termo “feitiço” denota familiaridade com o mundo descrito – é o próprio povo do morro que sabe, muito bem, que dessa farofa não se come, esse vintém não se guarda no bolso. “Feitiço da Vila”, na leitura de Sandroni, é um marco no processo de aceitação, pela sociedade como um todo, da música dos negros e mestiços. Em outras palavras, uma canção anti-racista!
Caetano escreveu uma resposta fraternal a Sandroni, que já treplicou. Na resposta de Caetano, confirmei a impressão que o vídeo original havia me produzido: que seu problema não é com Noel Rosa, e sim com a leitura de José Ramos Tinhorão da bossa nova. Para resumir, a revolta de Caetano é contra o fato de que Tom Jobim e Carlos Lyra, entre outros, foram acusados pelo nacionalismo populista de serem “usurpadores de classe média” da música dos negros, sendo Noel Rosa sempre poupado dessa acusação. "Ora, justamente o Noel que havia louvado a Vila por oposição ao morro?", pergunta-se Caetano.
O problema é que Caetano, ainda profundamente marcado pelos embates com Tinhorão nos anos 60, talvez ainda não tenha se dado conta de quão definitiva foi a vitória do Tropicalismo sobre ele. Em outras palavras, a leitura de Tinhorão da bossa nova não é, hoje, corroborada por nenhum pesquisador sério da música brasileira. Não é, nem de longe, uma leitura hegemônica. Interpretar Noel Rosa com as lentes proporcionadas por aqueles embates termina reafirmando fronteiras que já haviam ruído nos anos 30, em parte pela própria arte de Noel.
PS: Terá ficado óbvio, suponho, que me alinho com a leitura de Sandroni. Mas o que realmente me incomoda no vídeo de Caetano não é a sua interpretação de Noel. São as risadas meio nervosas do público. Freud explica.
Idelber,
Caetano fazia e faz parte da minha herança cultural/ afetiva. Com o correr do anos, porém, essa c*agação de goma, esse abrir de portas para Caras, são coisas que evito com toadas minhas forças. E será que ele pensa o quê da própria "infiltração" no rap?
Caetano cada vez mais se parece com Gilmar Mendes: falam demais e, como dizia o grande Guimarães Rosa, quem fala demais acaba dando bom dia a cavalo. Caetano além de chato, se acha a 8ª maravilha produzida pela Bahia. Vá amolar macaco!
Armando do Prado, voce está errado: Caetano se acha a 1º maravilha produzida pela Bahia!
Idelber, desculpe-me por comentar sobre assunto que não é o do post, mas não resisto. Hoje, no Bom (?) Dia Brasil, a Rede Globo comentou sobre a libertação da Ingrid, mas louvando o fato de que ela já se posicionou politicamente a favor de um 3º mandato para Uribe! Para a Globo, políticos que ela defende podem pleitear um terceiro mandato, mas os que ela combate fazem casuísmo quando assim procedem. É mole?
Segundo a Rádio Suíça Romanda, a farsa da libertação de Ingrid custou US$ 20 milhões, claro, aos EUA. Tudo, via fácil, para o 3º mandato do "sombra". Como disse o Cláudio Freire, isso é louvado pela mídia da unanimidade. Vá o Lula brincar sobre o assunto...
Boa essa "polêmica", hein? Fazendo uso dos meus dotes de musicólogo amador lançarei alguns pitacos sobre esse assunto:
01) Sempre foi uma tendência mundial do mercado fonográfico descer aos baixos escalões da sociedade, ver a música que os favelados fazem, tomá-la para si, dar uma "burilada" na mesma e vendê-la de forma mais "digerível" para a classe média. Os compositores do morro como Cartola, Nelson Cavaquinho e Ismael Silva (alguns amigos do grande Noel Rosa) sabiam disso melhor do que eu, tanto que eles só tiveram o devido reconhecimento no final das suas vidas. De certa forma isso está acontecendo hoje como o Rap brasileiro e o funk carioca.
02) A maior qualidade de Noel Rosa foi estabelecer uma ponte duradoura entre o morro e o asfalto, e a despeito da minha colocação anterior todos os dias eu dou graças a Deus pelo fato do Poeta da Vila ter feito isso! Afinal de contas, é mais do que sabido que as ações de Noel não foram norteadas por uma "lógica de mercado", e sim por um genuíno interesse pela música feita no morro, ou seja, Noel estabeleceu uma troca cultural, e não uma usurpação cultural!
03) Eu moro em Santos, uma cidade que guarda muitas similaridades com o Rio de Janeiro, tanto que a quarta escola de samba mais antiga do Brasil nasceu aqui. Ora, aqui na minha terrinha a gíria "farofa" sempre significou empáfia, arrogância. Por outro lado no passado a palavra "feitiço" não necessariamente tinha relação com as religiões afro-brasileiras, já que ela muitas vezes era usada como sinônimo de encantamento. Um exemplo prático: nos anos trinta o Santos F.C. tinha um centroavante espetacular que encantava a torcida... Sabe qual era o seu apelido? Simplesmente... Feitiço! Resumindo: quando Noel fala em "feitiço sem farofa" na minha nada humilde opinião ele está querendo dizer "encantamento (ou charme) desprovido de empáfia".
04) Ora, existe na música brasileira exemplos muito mais palpáveis de racismo e machismo que no cancioneiro de Noel Rosa. É só prestar atenção em "O seu cabelo não nega", de Lamartine Babo. Ou então na obsessão com que a palavra "morena" surge em nossas letras, praticamente como uma forma "delicada" de designar as mulheres negras. Caetano poderia usar tais exemplos, mas como a análise deles talvez não soasse tão "intelectual" e "pomposa", ele preferiu abordar "Feitiço da Vila", uma canção composta por um letrista reconhecidamente sofisticado.
05) Caê buscando elementos racistas em antigas canções brasileiras? Um minutinho só Idelber, preciso tomar fôlego, porque não estou conseguindo parar de rir! Sabe, esse ano passei o Carnaval na Bahia e constatei que o mesmo é hiper-super-ultra-elitizado e que o lugar destinado aos negros basicamente é o mais longe possível dos grandes blocos... Isso motivou algumas queixas do
cantor/compositor Carlinhos Brown, que chamou essa situação de "apartheid escroto"... Sabe como Caê reagiu a isso? Ele disse que "essa mania de ver apartheid em tudo é doente"! Então pergunto: como devemos qualificar a idéia de procurar elementos racistas em canções do Noel Rosa? Caso você queira acompanhar essa polêmica, é só seguir os links abaixos: http://noticias.uol.com.br/ultnot/2007/02/18/ult26u23511.jhtm http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u118875.shtml http://www.irohin.org.br/onl/clip.php?sec=clip&id=794 http://www.irohin.org.br/imp/template.php?edition=19&id=72
06) Especialista na questão racial brasileira... Especialista na questão alimentar nacional... Especialista em Oriente Médio... E agora especialista em MPB! Esse Ali Kamel está sempre me surpreendendo! Mal posso esperar para ler o próximo livro dele sobre Física Quântica!
Não é porque sou baiana não, mas, apesar dos pesares, ainda gosto muito de Caetano, embora tenha ficado decepcionada por ele ter assinado o tal manifeto contra as cotas. E gosto mais ainda desse Caetano polêmico. Porque hoje tá tudo muito chato. Todo mundo tem que pensar e dizer a mesma coisa. Nesta história da Ingrid, mesmo. Parece que não tem vida inteligente neste planeta. Todo mundo repete a mesma coisa e não questiona nada. Todo mundo engoliu a histporia do resgate cinematográfico, que pode até ser verdade, mas teve um tempo que os seres medianamente inteligentes questionavam essas histórias contadas por gente desse tipo.
Mas, voltando à polêmica do Caetano, acho muito bom que se discuta esse tema do racismo. Porque ele está tão impregnado que as vezes nem nos damos conta que estamos usando expressões que são demonstrações de racismo. Tô cansada de ler em blogs até muito sérios coisas como "lado negro" ou "inveja branca" e tantas outras que parecem "inocentes", mas que mostram o quanto somos racistas.
E por falar em polêmicas e em Ingrid e em Uribe e companhia, gostei da entrevista do escritor Fernando Vallejo. Não que concorde com o que ele disse, mas gosto de quem tem coragem de remar contra a maré.
Também me alinho com a leitura do Sandroni, embora algumas de suas nuances me pareçam questionáveis. Em primeiro lugar, achei dispensável o "argumento fraco", pois estabelece uma conexão direta entre características /convicções pessoais do autor e sua obra: dizer que a canção não é racista porque Noel não era racista para mim faz tanto sentido quanto dizer que a letra de "O Meu Amor" não retrata o ponto de vista de uma mulher porque Chico Buarque não é mulher. Em segundo lugar, como Caetano percebeu muito bem, nem com muita má-vontade alguém poderia considerar a Lenda do Abaeté racista. Mas, de maneira geral, o argumento da ressignificação do termo "feitiço" empreendida por Noel me convenceu.
O que mais me chamou a atenção na polêmica toda, porém, foi o próprio site Obra Em Progresso, que eu não conhecia - salvo engano meu, trata-se da primeira tentativa de um medalhão da MPB de fazer um disco inspirado no método ArtistShare. É torcer para que a moda pegue.
(Off-topic: Idelber, e o disco novo do Milton, vai encarar?)
Camila, vou, vou encarar, sim. Eu sempre encaro. Gostar, que é bom, eu gostei pela última vez .... hmmm... deixe-me ver ... como se chama aquele de 1985 mesmo?
Como diria o intelectual: "Caetano calado é um poeta!"
Depois de defender os índios manipulados vem entrar nesse vale do absurdo que é a discussão sobre racismo no Brasil.
Só pra arrematar; Alguém aí já ouviu toda a seqüência de sambas Noel x Wilson ?!
Se o baiano tivesse ouvido entenderia que o Wilson fazia conotações muito mais racistas e preconceituosas que o próprio Noel... Até porque, Noel era muito mais negro e favelado do que Wilson, que apenas interpretava um personagem que o fascinava: O malandro. Não quero arrasar demais o "rapaz folgado" Wilson mas quem ouve a sequência entende bem que o caridoso Noel continuava a retrucar justamente para alavancar a popularidade de Wilson.
E não esqueçam de um detalhe, os mesmos "adversários" futuramente escreveram uma música declarada a um amor em comum, a ácida "DEIXA DE SER CONVENCIDA".
Bom, o fato de alguém ser ótimo artista, como Noel ou Caetano, não significa que seja necessariamente um anjo de candura e justiça. Aliás, o negócio tem mais de demoníaco. Arte não tem relação direta com o que é politicamente correto, porque pode ou não expressar opiniões do seu autor (através de ideologias de seu tempo e lugar)ou então dramatizá-las, reverberá-las, refratá-las e tal.
Noel não era invulnerável ao racismo e ao sexismo de sua época, o que não significa que sua pessoa empírica ou sua obra tenham sido racistas. Mas as marcas estão lá: "Mas que mulher indigesta!/Merece um tijolo na testa."; e também o estereótipo racista, não só a respeito do negro, está em "Negócio de turco" e outras canções. Então, as releituras de nossa época não devem condenar ou diminuir a obra extraordinária de Noel porque nela reverberam as marcas dolorosas de uma época e de uma sensibilidade. Aliás, Noel era capaz de zombar dolorosamente de si mesmo, devido a seus "defeitos", inclusive físicos.
Coisa que Caetano é incapaz de fazer, graças à sua arrogância e narcisismo. Coisas que aliás não desmerecem seu trabalho poético-musical.
É isso, Jair. Foi muito bem colocada na argumentação do Sandroni um fato interessante: é possível ver racismo em Noel pelo lado do anti-semitismo, mas não pelo preconceito de cor. É visível que há momentos misóginos, mas seria difícil ver homofobia em Noel, que retratou com simpatia um homossexual em "Mulato Bamba". Abração.
A obra de Wilson Batista, imensa e mal conhecida, sofreu muito os efeitos do duelo musical que travou com Noel. A intelligentsia carioca fez o possível para exaltar a vitória (merecida, de fato) do branquinho, mas até hoje não faz muito esforço pra (re)conhecer os outros sambas do neguinho.
Basta ver que a revista Bravo!, que está nas bancas com uma lista de "100 canções essenciais da MPB", não incluiu Wilson (nem Geraldo Pereira! Nem Baden! Nem Tim Maia! Nem Luiz Melodia! Nem Nei Lopes!). Típico caso de embranquecimento da música popular brasileira.
Como a maioria do pessoal da caixa de comentários e o próprio Idelber, também me alinho mais à leitura de Sandroni. Mas, sinceramente, não acho que a atitude de Caetano em provocar um debate desses seja tão condenável. Claro que, pelo histórico dele mesmo, qualquer declaração sua pode ser considerada como uma polêmica vazia, feita só pra irritar-nos (a nós, que sempre reclamamos de suas declarações), mas dessa vez ele está comentando algo que realmente conhece, que é música. Claro que acaba saindo um pouco da esfera da MPB e entrando nessa de questão racial, mas uma polêmica acerca de Noel Rosa, em pleno ano da graça de 2008, me deixa até contente.
Sobre a seleção de 100 músicas da Bravo!, parece (pode corrigir se eu estiver errado) que também não tem nenhuma canção do Jorge Ben. Impensável uma coisa dessas.
e por falar em racismo, não só as revistonas "culturais" excluem importantes artistas negros da música popular em suas listonas de cem disso e aquilo, mas a repressão faz a sua parte incluindo entre suas vítimas principalmente "presos indefesos, mas presos são todos pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres e pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos" ( Haiti, letra de Caetano, com música de Gil). Vide o recente assassinato com tortura prévia de jovens cariocas, entregues por membros do exército a bandidos do Rio. "pense no Haiti, reze pelo Haiti".
Idelber...querido e estudado blogueiro....pouco venho aqui , por ter pouca bala na agulha .
Mas nessa lide quanto a obra de Noel Rosa e a polemica constante que é a vida de Caetano....bahiano como papai...fica só e possivelmente unicamente uma conclusão.....o que o povo elegeu, Caetano gosta de desancar....e Noel foi a sua época o must.....Caetano foi o must em seu tempo....mas a medicina moderna lhe permitiu mais tempo de vida....que os dois são do mesmo clube,nem se discute!, dos que pensam que tudo é o seu tempo e idéias.
Caetano ,hoje , começa a viver só da polemica....outros tiveram o mesmo destino.......Some a verve e a inspiração e nasce a impossibilidade de continuar a influir.....
Em alguns como Caetano, polemista por natureza e gosto, percebe-se a longa dor de não ser mais "o compositor"....então começa a "analise das obras alheias"!
Muita dor e decepção.....lhe trará a vida.....
Nunca é demais lembrar que a polêmica chegou ao ponto de Wilson Batista recorrer à chacota com o defeito físico do Noel, no samba "Frankenstein da Vila" - onde o Noel, pasmo com a apelação, jogou a toalha e deu por encerrada a "briga".
Idelber, entendo que Caetano é muito palpiteiro as vezes, mas como disse o Rodrigo logo acima, nosso querido Caetano está falando de algo que entende e entende muito bem. Aqueles que discordam deveriam averiguar o que foi dito minuciosamente na obra do Noel e nos artigos do Tinhorão, antes de postar um comentário proferindo injúrias contra o moço que quiça desejava levantar apenas um simples questionamento a respeito de uma música, e que gerou toda esta polêmica por se tratar de alguém como Noel Rosa!
Idelber, as risadas são nervosas pq sabem que muito do que Caetano afirma é contra seus donos. Mas tenho cá minhas dúvidas da vitória do Tropicalismo. Se Tinhorão e o nacional-populismo perdeu lá nos anos 60-70, hoje esse tipo de oposição volta a se sentir neste país, não necessariamente como os mesmos nomes e atores. Lembro exemplarmente das rusgas do mesmo Caetano (e de Antonio Risério) com o movimento negro ao defender o Brasil mestiço, mulato, meio freyreano.
Saudações
Caetano adora bater em morto. O Raul Seixas cansou de sacanear ele e o Tropicalismo em entrevistas e músicas, e o Caetano só foi responder com "Rock'n Raul", anos depois que o Maluco Beleza partiu desta pra melhor(ou pior).
Ah... Idelber, não li todos os comentário acima, mas ninguém pensou que Caetano talvez esteja ironizando (muito ao seu feitio) não com Tinhorão, mas com quem usa argumentos como "usurpar a autêntica cultura do morro" (ou do negro, que daria no mesmo)? Este, sim, um discurso classe média, não importa se vindo de cima ou de baixo?
Novas saudações
Bom, a Nara Leão meio que corrobora essa visão do caetano, né? Ela também cansou da turma da bossa-nova, que era uma "turma de apê", e foi subir o morro em busca de coisas mais autênticas.
Eu não posso dizer o mesmo do Noel, que embora "branco", acho que realmente se identificava e "pulsava" no movimento do samba.
Mas essa conversa me lembrou Nara Leão, que não foi citada ainda eu acho...
Mas vamos, sim, falar mal do Caetano, que é um chato. Mas canta bem!
Aí Idelber, vou escrever um post sobre isso quando conseguir tempo. Obrigado por dar a dica, quente, como sempre.
Mas discordo de uma coisa no teu post. Caetano briga com Tinhorão sim, mas se ele acha que o historiador poupou Noel está muito enganado. Em todos os seus livros Tinhorão desse o pau nos músicos de "classe média", que tentam fazer "música popular". Na visão do Tinhorão isso é prerrogativa dos trabalhadores pobres. Pode conferir em qualquer livro que você quiser, começando com "Música Popular - um tema em debate" e terminando com "História Social da Música Popular brasileira". Tinhorão desmerece, por motivos sociológicos, desde Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth passando por Noel Rosa e Almirante, Radamés Gnattali, Garoto até chegar na Bossa e no Tropicalismo.
Por outro lado, o Tinhorão teve insights importantíssimos sobre música popular muito antes do Sandroni ou do Wisnik - foi o primeiro pesquisador sério do tema, apesar de suas birras estúpidas com a classe média...
André, tenho que agradecer e confessar que da birra de Tinhorão com Noel eu não me lembrava. Tomei a palavra do Caetano. Mas vou procurar. Por sorte, acho que tenho aqui -- e não em New Orleans -- minha "Tinhorana" completa. Volto ao assunto em breve. Abraço.
Caetano, no fundo, só queria falar mal do José Ramos Tinhorão e não
tendo por onde pegar saiu-se com essa do bairrismo pesado e do racismo
de leve do Noel. O Noel é gênio por fazer samba que poderia ser dum
negão do morro e não por letras inerentes à sua classe média pequeno
burguesa. Assim como Pixinguinha, Cartola e outros compositores
favelados tornaram-se famosos por comporem músicas que não ficavam
nada a dever aos eruditos. E, ora bolas, se formos seleccionar pelo
politicamente correcto, pouco sobrará da música popular brasileira que
está pejada de bairrismo, preconceito, machismo, racismo e viadagem
também.
Mané do Café
Olhe quando prestei a atenção pela primeira vez na letra de "feitiço da vila", confesso que fiquei pasma, mas não enxerguei racismo, e olhe que sou afro-descendente e sempre fico sensibilizada quando isso acontece.
Mas eu entendi da seguinte forma: o feitiço da vila é um feitiço natural, que não precisa de despacho. Isso pode ser encarado como uma crítica aos terreiros, que muitas vezes, assustam os consulentes com o preço dos "trabalhos".
A questão do dinheiro alguma vezes leva quem procura um terreiro a ter desconfiança, pois em toda religião há picaretagem.
Enfim, feitiço sem farofa, sem vela e sem pipoca, é o feitiço universal, que existe em tudo que exala verdade e ultrapassa a questão religiosa que é algo particular a um grupo.
Vejo machismo, sem dúvida em Noel, essa música do tijolo na testa é inacreditável, quem critica o funk tem que ouvir isso, rsrsrsrs.
Mas em relação ao racismo,sinceramente, enxergo mais uma linguagem poética,do que racismo em si, nesta música. A homenagem á princesa Isabel é compreensível,pois até os anos 70, acreditava-se na balela do 13 de maio.
O problema não é nem da leitura de Caetano, com relação à música Feitiço da Vila. O problema maior, "e isso tem que ser dito" - como diria Caetano - é que o tropicalista escamoteou, propositalmente(?) que, se a atitude de Noel possa ter sido de racismo, seria, sim, tão grave quanto Wilson Batista fazer uma música, exclusivamente, para chamá-lo de Frankestein da Vila. Caetano, ao seu ver, contou metadade da verdade. Isso é sofismar, escamotear. É desonesto.
Só mais uma coisinha: "Frankensten da Vila", samba de Wilson Batista, foi "inspirado" no problema físico de Noel, provocado no momento do seu nascimento. Quer dizer, ele não teve interferência nesse ato. O fato de Noel responder ao Lenço no Pescoço, foi uma resposta a uma visão medíocre de Wilson Batista, do que seria ser um sambista. Quer dizer, os dois podem ter errado, a diferença é que Noel escrevia muito melhor do que Wilson Batista, que foi um bom sambista, mas não um gênio da MPB.
Escrevi uma matéria há mais ou menos um mês sobre a "aula" de Caetano sobre o "Festiço da Vila".
Acho que qualquer um pode expor o seu ponto de vista, seja sobre o que for, mas é preciso ser claro e sem truques, como fez o Caetano, no tal vídeo que está na Internet. Ele contou meia verdade - sobre a polêmica do faz-de-conta - para engambelar o seu público que, a mim, pareceu, um bando de idiotas (rindo nervosos e sem saber se aplaudiam ou nao o bem ensaiado "discurso" do velho tropicalista. J.M.A.P. nb.jornal@yahoo.com.br
Jackson Machado de Assis e do Pandeiro em setembro 1, 2008 1:03 AM