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segunda-feira, 28 de julho 2008

Em Terapia

Quando filmou O Beijo da Mulher Aranha, de Manuel Puig, Héctor Babenco se colocou uma pergunta interessante: como fazer um filme em que os personagens estejam entediados mas o público não? Foi o que me veio à mente neste fim de semana, enquanto eu e Ana encarávamos a maior maratona televisiva das nossas vidas: 43 episódios da série “Em Terapia” (In Treatment), da HBO, baseada num original de muito sucesso em Israel. Eu quase não assisto televisão, mas sou capaz de apostar que é das melhores coisas que a telinha produziu nos últimos tempos.

Filmes e programas sobre psicanálise são, em geral, tediosos e inverossímeis. In Treatment segue-se quase como um filme de suspense, alinhavado por uma bela fórmula: nos episódios de segunda a quarta, você acompanha três pacientes diferentes; na quinta, um casal; na sexta, o próprio terapeuta, Paul Weston (Gabriel Byrne), cada vez mais pirado, vai consultar Gina (Dianne Wiest), uma analista com quem ele tem velhos ressentimentos e discordâncias de método.

A série foi ultra elogiada pelos jornais de qualidade, como o New York Times e o Wall Street Journal. As resenhas negativas ficaram por conta do San Francisco Chronicle e da Slate. Na blogosfera brasileira, já andaram falando do assunto a Carla Rodrigues e a Ivana Arruda Leite, ambas com comentários positivos.

É irresistível a paciente das segundas: Laura, uma jovem e charmosa médica, está vivendo com Paul a clássica transferência erótica, só que desta vez com conseqüências imprevisíveis para o terapeuta. Nas terças, Paul encara Alex, um tenente negro da marinha americana cujo pai matou acidentalmente o avô ao bloquear sua respiração asmática para evitar ruídos durante um ataque da Ku Klux Klan à casa. Alex acaba de voltar do Iraque, onde jogou uma bomba numa escola e matou 16 crianças. Forte, imponente, arrogante e seguríssimo de que não sente culpas, Alex tem uma das trajetórias mais fascinantes da série. Nas quartas, Sophie, uma ginasta de 16 anos, chega de um acidente que pode ou não ter sido uma tentativa de suicídio, talvez provocada por uma bizarra situação familiar, na qual ela idolatra o pai egoísta e ausente enquanto despreza a mãe dedicada. Nas quintas, Jake, pobretão aspirante a compositor, e Amy, bem-sucedida mulher de negócios, farão parecer fichinha qualquer crise que seu casamento tenha passado. É o dia mais punk da série, e também aquele em que ocorre a reviravolta mais radical. As sextas estão reservadas para o choque de ver como o sagaz terapeuta transforma-se num cego papagaio de denegações quando o tema é sua própria crise. Na medida em que se aproxima do fim, a série faz as várias histórias se encontrarem.

O método retratado na série não é exatamente a psicanálise. Trata-se daquela variante bem norte-americana da psicologia, a terapia do ego, que parte da estranhíssima – para nós, freudianos – premissa de que o papel do terapeuta é forjar uma aliança com a parte saudável do ego do analisando. Daí o fato de que Paul fale bastante nas sessões, transformando a busca num romance policial onde a empatia com as personagens é inevitável. In Treatment está disponível para download por aí, inclusive com legendas em português. Vale a pela conferir, Doutor Cláudio.



  Escrito por Idelber às 05:10 | link para este post | Comentários (13)


Comentários

#1

Putz, Idelber... Tudo bem que os atores são ótimos e que de fato esta é a melhor tentativa que já vi de transpor sessões de terapia para as telas. Mas ainda assim - e este comentário é todo sobre o "mas" -, a profusão de clichês muito me incomoda. Vejamos apenas alguns:

- a histérica gostosa que quer dar pro analista. Dá ao espectador a idéia de que todo terapeuta tem a sua própria histérica gostosa particular. Particularmente, nunca tive nenhuma. Mas talvez minha pouca experiência analítica seja o problema (ou, mais precisamente, a solução).

- os pacientes que se cruzam na sala de espera e se interessam romanticamente um pelo outro, idéia já (e mal) explorada em Sex & The City.

- o (já clássico) terapeuta mais louco que o paciente, pois sai na porrada com este. Sendo que muito mais comum é o oposto, do paciente (muito grave, muito criança ou simplesmente muito louco) chutar, bater ou morder o bravo terapeuta.

Além disso, eu vejo as pessoas deslumbradas com o fato de que em tempos mudérnos, de defeitos especiais e tramas que vão e voltam no tempo e ilhas que se movem, ainda é possível fazer um seriado com duas ou três pessoas tagarelando numa sala e prender a atenção do público. Mas os deslumbrados se esquecem do sucesso estrondoso de Cenas de um Casamento nos anos 70 (aí é pra detonar mesmo, comparar qualquer série dramática atual com Bergman é sacanagem das boas), quando séries de ação faziam tanto sucesso quanto hoje. E mais além disso ainda, minha abertura à alteridade ainda não se desenvolveu a ponto de eu me conseguir me divertir e instruir com a Psicologia do Ego.

Mas um ponto positivo se há de admitir e reforçar: a menina que faz a adolescente rebelde - outro clichê, claro, mas ainda assim este consegue ser um personagem mais realista e bem construído - é muito, muito boa atriz. E o Gabriel Byrne também manda bem. A Dianne Wiest ainda não vi, mas não duvido dos elogios que vem recebendo. Meu problema são mesmo os chavões.

Camila em julho 28, 2008 10:56 AM


#2

Adorei seu blog... voltarei sempre!
E gostei ainda mais dessa dica que vc acabou de dar. Já tinha esbarrado por esta série, mas não tinha dado muita atenção. Agora vou querer assistir.
Bye

Andrea em julho 28, 2008 10:57 AM


#3

Idelber,

Por falar em TV, estava assistindo hoje na HBO o documentário "Make it Funky!" sobre a música de New Orleans. Demais !!!
Imaginei você na platéia do show que é base do filme...

Luiz em julho 28, 2008 11:41 AM


#4

Ótima dica, Idelber. Já vi algumas chamadas na TV-a-cabo, mas não vi episódio nenhum.
Abração na Ana. (Vou responder o email dela, hoje!!!)

Cláudio Costa em julho 28, 2008 2:29 PM


#5

nossa. eu adoro essa série. e eu acabo tb fazendo um papel escroto quando assisto. de julgar os analisados. e pensar q "merda de pai vc é alex, nem jogar xadrez com seu filho vc dá conta". e assim vou. apontando o dedo pros outros e sentando em cima do rabo etc etc.

mary w em julho 28, 2008 2:41 PM


#6

Idelber, eu adoro essa série. Foi das melhores coisas de ultimamente. Fiquei viciada.Estou doida pra ver temporada nova. Abraços

Nalu em julho 28, 2008 3:23 PM


#7

Bom este assunto!

P.S. Quem está precisando de algum tipo de terapia é o nosso ministro da Justiça. Só não se sabe quando ele terá alta!

Paulo em julho 28, 2008 9:05 PM


#8

Pois é, Paulo, o seu Tarso anda precisando, sim, de relaxar -- e de um chá de maracujá antes das entrevistas...

Também adorei, Nalu, e parece que no mês passado fecharam o contrato para a segunda temporada, que demorou um pouco para ser definida.

Cláudio, não perca, porque você vai ter mil observações a fazer. Quando assistir, avise, adoraria ouvir sua opinião.

hahaha, Mary, também sou assim -- envolvimento total, identificação, e tudo o que tenho direito. Sou o espectador menos brechtiano que há :-)

Luiz, da música e da comida daqui, meu caro, só reclama mesmo quem é ruim da cabeça. Venha curtir ao vivo um dia.

Volte sempre sim, Andrea, e bem vinda.

D'accord, d'accord, Camila, mas a existência dos clichês não me incomodou muito. Talvez porque eu acompanhe Puig (não foi à toa que me lembrei dele no post) no insight de que a psicanálise é um fenômeno pop mesmo; trata-se do grande bovarismo do século XX (Piglia dixit). Interesso-me mais pela forma como uma narrativa trabalha os clichês do que em procurar alguma sem a presença deles. E aí, no caso, achei interessante o tratamento de cada um dos que aparecem -- no caso da transferência da paciente, por exemplo, ficou claro que era mais que isso, que era algo essencial, e para ambos (sem contar que a atriz é bárbara). Mesma coisa no caso da agressão, que desvela para o espectador um Alex "detetive" que acaba determinando a forma como lemos os outros episódios. E por aí vai. Cenas de um casamento, claro, é outro gênero -- não melhor ou pior, mas outro gênero, não desprovido, sublinhe-se, dos seus próprios clichês.

Abração geral :-)

Idelber em julho 29, 2008 4:30 AM


#9

Eu tenatndo convencer minha filha a largar as séries e pegar um livro, e vem você com uma sugestão dessas. Ela estuda psicologia, tenho de recomendar que ela cate esse troço aí.
abração, idelber!

sleo em julho 29, 2008 4:10 PM


#10

Olá, Idelber

Eu também curti na primeira fila esse seriado. Os episódios de que mais gostei foram os da adolescente e as sessões com a Gina. Muito boa a forma como o Paul parece, às vezes, tão seguro quando trata os seus pacientes, e tão frágil quando está diante da sua própria analista. Os atores são mesmo excelentes e a forma como conseguem prender nossa atenção pelos 30 minutos de cada episódio é impressionante.
Abraços

Patrícia C. em julho 30, 2008 3:27 PM


#11

Comentário só pra frisar o quanto achei boa essa série. PQP! Não entendo patavinas de psicologia ou psicanálise (tudo o que li foi o Mal-Estar e o Futuro de uma Ilusão, eheheheheh) então talvez por isso não percebi os clichês.

Babei. Na trama, nos atores, na fórmula e, especialmente, na Laura, claro.

Danilo em agosto 5, 2008 5:20 PM


#12

A Laura é o máximo :-)

Idelber em agosto 5, 2008 5:23 PM


#13

adorei o posto
Obrigada

Clara Soares em março 4, 2011 2:27 PM