É difícil dizer algo que já não tenha sido dito sobre a viagem de Barack Obama ao Oriente Médio e à Europa, cujo ponto alto foi o comício-show em Berlim, diante de 200.000 pessoas. A íntegra do discurso de Obama está no YouTube, claro:
(para quem prefere a transcrição, aqui vai o link).
A viagem à Europa é um cálculo arriscado em período pré-eleitoral nos EUA. Na arena internacional, claro, não há risco: Obama vai se transformando numa figura tão querida como os Beatles, Telê Santana ou o blog do Inagaki. Nos jornais alemães – mesmo com a sutil e indireta sugestão de que ele cobraria mais comprometimento da Alemanha no Afeganistão –, tudo foi elogio e babação de ovo: O Tagesspiegel se perguntou se alguma vez tantos alemães já se reuniram para um evento político, enquanto a repórter do Bild, Judith Bonesky, teve seu momento de tietagem explícita, abandonando todos os protocolos de distância jornalística para tirar uma foto não do, mas junto com o candidato. A viagem gerou uma enxurrada de fotos, vídeos e textos na internet (enquanto isso, como lembrou muito bem o Tiago Dória, no Brasil o TSE retira do ar sites e comunidades de candidatos).
O cálculo de Obama nesta viagem foi arriscado porque ser o queridinho da Europa é última pecha que você precisa ante o eleitorado dos grotões americanos, convictamente monoglota e xenófobo. Mas aqui Obama não tinha escolha. Apesar da forte vantagem que tem sobre McCain nas pesquisas quando a questão é a economia – e a economia americana, sabemos, não vai nada bem --, Obama precisava falar como estadista internacional e se impor no tema da política externa. Neste quesito, há a percepção de que McCain é mais forte, dada sua experiência – embora McCain, o suposto "especialista" em política externa, incrivelmente dê entrevistas falando da “fronteira do Iraque com o Paquistão”.
Cada palavra do discurso em Berlim foi meticulosamente escolhida para que Obama pudesse, por um lado, diferenciar-se claramente de Bush sem parecer, aos olhos do público americano, anti-patriótico em solo estrangeiro. Convenhamos, é uma engenharia discursiva complicada. O impacto mundial da viagem de Obama é inegável, mas ainda é cedo para saber se ela alterou, positiva ou negativamente, as pesquisas nacionais. Em 2004, a pecha de “afrancesado” foi decisiva na derrota de John Kerry. Este ano, os sites de extrema-direita tentaram capitalizar o nacionalismo americano contra Obama por sua declaração de que ele era um “cidadão do mundo”. Até agora, não colou. Mas jamais subestime a miopia de um eleitorado que votou duas vezes em George W. Bush.
E ele está aqui na Grã-Bretanha hoje. O "The Times" está cobrindo a visita como quem cobre turnê mundial dos Rolling Stones, com críticas-com-estrelas (tipo Guia da Folha) para os discursos... Ou seja, até aqui, novidade em cima de novidade.
Vou ver como o pessoal se comporta e depois lhe conto. Não é nada, não é nada, vai ser pelo menos divertido!
I'm thrilled! "Walls cannot stand!" How arrogant! Very thrilling...
Ps.Era uma vez um pastor do Kenya, que saiu dos "forgotten corners of the world" para a liberdade da América. Liberdade, Credicard, Marstercard e Visa.
Minha namorada fez o seguinte comentário sobre esse discurso:
"Cris, parecia fim daqueles filmes apocalípticos, quando a população estava se reerguendo da catástrofe e o presidente fazia um discurso que emocionava o planeta inteiro!"
Ainda não se sabe se Obama vai se eleger e, caso afirmativo, se ele será um bom presidente. Mas acho difícil não reconhecer sua incrível capacidade enquanto orador. Provavelmente um dos melhores dos últimos tempos.
Idelber, apesar de eu ter realmente achado um fenômeno a "audiência" obtida pelo Obama em terras européias, eu discordo da visita em si. Ele simplesmente deu as costas pro processo eleitoral e menosprezou o candidato McCain ao aparecer no exterior já (praticamente) como chefe de Estado e não como candidato à Presidência.
1) Um candidato a presidência dos EUA visitar outros países (antes daa eleições) e fazer propaganda política é uma atitude de pouca humildade!
2) Constata-se que o povo alemão está carente de líderes!!
P.S.: Se o Chaves fizesse algo semelhante a esta viagem do Obama seria taxado NO MÍNIMO de ridículo. A vida é assim!
Não entendi os comentários que colocam como arrogante o fato do obama visitar outros países. O McCain também está visitando outros países. Só não consegue ter a mesma receptividade...
Acho que ambos estão fazendo isso para tentar recuperar um pouco a imagem dos eua, destroçada pelo menino bush nos últimos anos.
Dê uma olhada neste link. Isso parece responder a sua questão. Acho que essa variação dos candidatos está pelo menos no limite da margem de erro. Tendo em vista os números desta pesquisa, é improvavel que não houve alteração dos resultados entre quinta-feira e hoje. Acho que essa é a maior diferença na campanha.
Mas, de qualquer modo as eleições nos EUA estão muito disputadas nos últimos anos. Parece que a sociedade é dividida ao meio. http://www.gallup.com/poll/109102/Gallup-Daily-Obama-49-McCain-40.aspx
Idelber,
Desculpe eu mudar completamente de assunto. Mas, tava lendo seus posts e comentários sobre a eleição de 2006 (não pude comentar naquele post). Ela foi histórica. Pena que o governo Lula é tão conservador na política economica). Em todos os anos do governo Lula (e do governo FH) o Brasil cresceu menos do que a média dos emergentes. Mas, que orgulho tenho dessa eleição. A coisa que mais gostei foi o troço de dizerem que quem votava no Lula ou era um burro ignorante ou um corrpto. Conclusão o povo brasileiro é analfabeto e não liga para ser roubado (como se o PSDB e PFL e a imprensa fossem defensores da ética pública). Gostei tanto dos comentários do jornalista "Emílio Renzi". Dizer isso num blog tão moderado, é meio constrangedor: mas tenho um pavorzinho dessa elite e classe média alta brasileira. Não entendo porque tanto egoísmo que beira o ódio aos pobres. Uma vinha minha detesta o governo que só prejudica a classe média (ipanemense) e faz demais pelos pobres (no caso, ela estava falando da proposta de por elevador nas favelas). Alias, eu tb acho uma bosta o governo Lula, mas por fazer pouco para o pobre. A saúde pública está uma bosta, a educação pública sucateada, professor ganha 500 reais. E a opção qual é? O elitismo do PSDB/PFL? O udenismo-moralista da HH?
Eu quando defendo que o governo deve fazer mais pelo pobre (saúde, educação, emprego e tranposrte publico subsidiado) me sinto que estou muito mais à esquerda que o PSTU. O governo americano é muito mais de esquerda que o governo Lula. ELes não aceitam um desemprego de 5%. O FED não tem problema de manter juros reais negativos e a política fiscal fazer uma política keynesiana. Os limites máximos do IR é de mais ou menos 35%. Se for para evitar prejuízos para a população, o governo não tem medo de estatizar bancos (coisa que o Lula não teve a coragem de fazer com a Varig, e assim evitar inúmeras demissões e não pagamento de pensões). A política absurda do Bolsa Família é proposta do "comuna" Milton Friedman. E dá para ser contra a dita bolsa-cachaça, bolsa-esmola, etc., que deixarão as pessoas indolentes por receberem a fortuna de R$ 60 por mês (que acho que é a média que as família recebem)? Não existe possibilidade no Brasil de se instalar um IR progressivo. Que país é este que uma posição anti-elitista acaba tendo que defender um governo que isentou de pagamento de IR dos baixissimos rendimentos da dívida pública?
E, pior de tudo, eu defendo que a reeleição desse governo foi um dos fatos mais positivos e marcantes desde a redemocratização. Fiquei tão orgulhoso e otimista com o povo brasileiro. Eles não leem a Veja, mas veem o Jornal Nacional e muita gente escutou que era coisa de corrupto ou ignorante votar no Lula. Mas,muito decepcionado com a esquerda, que quase sempre quer ser mais realista que o rei e fazer uma política economica mais conservadora.
Concordo com tudo, Bruno, também vejo o governo com a mesma ambiguidade que você. E o Emilio Renzi realmente foi um comentarista notável aqui no blog durante aquelas eleições. Deu uma sumida depois...
No caso da visita do Obama e do comentário do André: ele realmente não tinha escolha. Mesmo abrindo o flanco para a crítica boba de que ele "abandonou o país" por uma semana, o tema da política externa vai ser tão central nessa campanha que a jogada de marketing na Europa e no Oriente Médio era necessária. O risco é real, mas foi calculado. Resta ver se valerá a pena.