Passei o fim de semana ouvindo a música de Caymmi. Na voz de lui-même, que é a melhor forma. Sua morte não é daquelas que nos provocam raiva, desespero ou sensação de orfandade. Claro que para a família e os que conviviam de perto com pessoa tão única, deve estar sendo difícil se acostumar com sua ausência. Mas para nós, meros súditos e admiradores da sua arte, Caymmi está onde sempre esteve: naquela espécie de transcendência luminosa que ele forjou, e para qual importa pouco se ele está fisicamente no mundo ou não. Jamais aquele clichê de velório fulano está conosco, vivinho foi tão verdadeiro.
Luiz Gonzaga, Noel Rosa e Tom Jobim são gênios, mas o primeiro é muito associado a um gênero, o segundo a um momento na história de um gênero, e o terceiro a um movimento musical. Só Caymmi é uma espécie de transcendência atemporal: fez e transcendeu o samba dos anos 30, fez e transcendeu o samba orquestrado dos anos 40, fez e transcendeu o samba-canção, inventou um gênero do qual ele é o único verdadeiro praticante (a canção praieira), antecipou a bossa nova, inspirou a MPB sem nunca antagonizá-la nem ser antagonizado por ela.
Em 1957, Caymmi lança dois discos: Eu vou pra Maracangalha e Caymmi e o Mar. Quer a metonímia perfeita, o mapinha completo da música brasileira popular do século XX? Está tudo ali. Mas tudo mesmo, de João da Baiana e Pixinguinha a Titãs e Chico Science. É só ouvir. Com um corpus de menos de 100 canções, Caymmi é uma espécie de mapa de tudo.
Há um livrinho de Antonio Risério chamado Caymmi, uma utopia de lugar. É o melhor que se escreveu sobre o gigante. Risério mostra como é interessante a presença da mulher em Caymmi. Ele jamais cometeria a grosseria de um Noel enraivecido, que dizia à “mulher indigesta” que ela merecia um “tijolo na testa”. Mas também não há sofrimento à moda de, digamos, um Lupicínio Rodrigues. Ele também jamais faria experimentos à la Chico Buarque, colocando-se na voz feminina. A mulher em Caymmi, em geral, passa, está sempre em movimento, requebrando. A baiana de saia rodada vai convidá-lo para dançar e ele diz que “não vai” sabendo que ela sabe que ele vai, sim. Caymmi provavelmente foi o único que conseguiu criar esse estranho oxímoro: poeta erótico, sensual, sedutor e safado, ele era o homem de família por excelência.
Sua galeria de personagens passa ao largo daquela que foi canonizada no samba: o pescador certamente não é um "malandro", mas jamais ocorreria a Caymmi chamá-lo de otário. O mundo do trabalho tem outras cores em Caymmi, porque o trabalho ali está em relação com o mar e, portanto, com o infinito.
Pergunte a um grupo de garotos quem é o autor de “O que é que a baiana tem?” ou dos versos “quem não gosta de samba, bom sujeito não é / é ruim da cabeça ou doente do pé”. Há boas chances de que vários digam que são canções “folclóricas” ou de autoria indeterminada, coletiva ou desconhecida. Caymmi tinha esse dom: criava canções que pareciam sempre haver estado ali. Morou no Rio de Janeiro sete décadas, mas é tão identificado com a Bahia que já não sabemos se Caymmi expressa perfeitamente o que é a Bahia ou se a Bahia que conhecemos é uma invenção de Caymmi. Provavelmente não importa.
Passei o final de semana trabalhando mas comovida o tempo todo...sem querer me vinha à memória alguma canção dele. Aquele vozeirão para sempre ficará impresso na minha memória, associado a coisas tristes e alegres ao mesmo tempo.
Caymmi ensinou-me a amar o Brasil. Nunca fui à Bahia, mas tenho certeza de que, quando pisar as ladeiras de Salvador, vou ter a sensação de sempre ter estado ali. Sinto que conheço cada beco, cada baiana, cada terreiro, cada praia da Bahia. E devo isso ao mestre Dorival. Nós, o povo de santo, teremos a partir de agora um lindo egum para cultuar. Mojubá, Caymmi!
Acho que ouço as músicas de Caymmi desde que nasci. E eu nasci um tempinho depois dele ter lançado Marina, hoje o nome da minha neta mais nova. Também tenho uma filha que mora longe e que se chama Juliana e eu sempre estou cantarolando "quando a maré vazar, vou ver Juliana...". Na apresentaçao do blog dela está um "Ai que saudade eu tenho da Bahia...". É assim a música de Caymmi. Faz parte da nossa vida. Eu não preciso colocar um disco pra ouvir aquele vozeirão.
Como disse Caetano, ele encerrou sua vida luminosa. Não, seres como Caymmi não morrem, voltam pro mundo dos encantados.
Há tempos ele não vinha à Bahia. Ontem eu vi um documentário na TV Cultura onde um Caymmi bem envelhecido, já falando com dificuldade, mas com muita lucidez, dizia que gostaria de ter 18 anos pra rever a Bahia que ele amava tanto.
Penso que, agora, sua incelença Dorival Caymmi, antes de entrar no paraiso, pode dar uma passadinha nesta velha Bahia e deitar na areia da praia que acaba onde a vista não pode alcançar...
Caetano mandou bem sobre Dorival. Risério é sempre ótimo. Caymmi demonstrou que na vida/arte a simplicidade é método e objetivo.
Minha mãe me botava pra dormir cantando "Acalanto" (lembram de Adriana Calcanhoto da abertura do Pan-Rio?); as canções praieiras forneceram uma identidade à cidade do Salvador (não, não culpem Dorival pelos estereótipos posteriores).
Suas canções urbanas, segundo alguns, anteciparam acordes bossa-novísticos. Jobim e João confirmam isso. Caymmi é imenso.
Que descanse em paz, já que em paz viveu. Não sei se é recomendável a passadinha sugerida por Socorro. A Bahia não anda muito malemolente, para dizer o mínimo.
Lindo texto, Idelber. Ótimo! É exatamente isso: Caymmi criou canções que parecem sempre haver existido. Definiu tudo. Vejo-o como algo eterno: sem início e sem fim; simplesmente presente.
Caramba, Idelber, você traduziu exatamente o que senti com a morte de Caymmi. Uma certa tristeza, sim, mas não uma sensação de orfandade ou desespero.
E é verdade, ele sempre esteve e sempre estará por aí, no ar...
Idelber, senti a morte do Caymmi de uma maneira difícil de explicar. Prevaleceu a emoção à tristeza. Mais que lamentar a morte, fiquei feliz por ter existido um Caymmi para deixar tantas canções sobre o mar e as praias. Saí de Santos há 23 anos e até hoje sinto muita falta de ter o mar por perto. Talvez por isso, mas principalmente pela qualidade das músicas dele, ouvir Caymmi me faz muito bem. Me eleva o espírito, faz bem à alma, me deixa em paz comigo mesmo, não importando o que existe em volta.
Passei a noite escrevendo e agora, de manhã (ainda é hora de almoço aqui em New Orleans), voltei a ouvir Caymmi e o mar, disco de 1957 que traz "O vento", "História de pescadores", "O mar", e outras pérolas.
Pouco destacadas nos obituários -- e há um muito bom na Folha de hoje -- foram as harmonias de Caymmi. É uma combinação única de complexidade e simplicidade: aquele complexo que dá a impressão ilusória de que é simples, de que é fácil de compor. As harmonias são sua marca registrada.
Risério fala um pouco disso em seu livro, que é maravilhoso. Eu realmente recomendo. Publicado pela editora Perspectiva. Encontrável por aí ainda, eu acho.
É mesmo, as harmonias dele são inimitáveis, e tem aquela história de que não deixaram ele aprender o violão "formal" pra ele não perder aquele jeito intuitivo dele tocar, único.
Creio que foi o Borges que disse que seria a glória pra ele se algum de seus textos viesse um dia a ser considerado de domínio público, que essa é a conquista maior do artista, que uma obra sua se incorpore de tal forma a um povo, a uma cultura, que parecesse que nem teve autor... Caymmi é assim glorioso!
Desculpa a frase confusa e o erro aí... "que uma obra sua se incorpore de tal forma a um povo, a uma cultura, que pareça que nem teve autor". É assim...
Poucos sabem que, durante muitos anos, desde a década de 90, Dorival Caymmi praticamente fixou residência em Pequeri (MG).
Em 2002, um amigo gaúcho, cantor nas horas vagas, comentou de sua vontade de ter acesso a um arranjo de João Valentão. Conversa vai, conversa vem, ele lamentou o fato de Caymmi, um de seus compositores favoritos, ter falecido. Retruquei, por óbvio.
- Que nada! Ele está vivo da silva e mora em Pequeri.
Pequeri é um município da zona da mata mineira, a cerca de 70 quilômetros de Juiz de Fora. Em mineirês, eu diria "fica pertim mês de Mar de Espanha, bobo". Mar de Espanha é terra natal de meus pais e onde minha mãe reside até hoje. Caymmi não ficou longe do mar nem quando foi morar em Minas... :o)
Meu amigo não acreditou na minha história. Foi checar. Ligou para o serviço de auxílio à lista de Minas Gerais. Pediu o telefone de Dorival Caymmi em Pequeri. Surpresa: o número foi informado. Daí, ele ligou. Atendeu uma mulher. Meu amigo se identificou e pediu para falar com Sua Majetade, Dorival Caymmi.
- Você não vai acreditar. Eu acabei de falar com Dorival Caymmi - vibrou meu amigo, poucas horas depois de nossa conversa.
O compositor não tinha consigo nenhum arranjo de "João Valentão", mas não escondeu sua especial satisfação com a chamada recebida de Porto Alegre. É muito legal saber de histórias desse baiano, um talentoso e autêntico homem cordial.
"Diz-que" rolou algum ressentimento entre baianos (principalmente)e cariocas, quando o bom Dorival foi passar boa parte de seus últimos anos no interior de Minas.. Ele e a mulher só não ficaram lá até o fim por causa da doença.
A pouco tempo meu tio, o músico Tavinho Moura, andava pensando em fazer um disco com releituras do Caymmi. Mas ele desistiu pra estudar o Noel Rosa. Acabei ganhando dele os songbooks do Chediak, do Caymmi. Será que ele sabia que o Caymmi tava ali pertim de Juiz de Fora? Creio que não. Agora deu vontade de fazer uma releitura mineira, "rochosa", das ondas dele...
além de mineira, Stella Maris ("Estrela do Mar" em latim) tem o mesmo nome da praia que fica depois de Itapoã, lá em Salvador. "traição" dupla de Caymmi, essa senhora! ;-)
e tem outra história sensacional do velho Caymmi contada nesse post do blog de Cury recomendado aqui outro dia.
ah, o livro de Risério tb é muito bom. gosto especialmente da "genealogia" q ele faz da construção de uma Bahia utópica, mitológica, que não se confunde com a "real", e do papel importante de Caymmi nesse processo. mas as "sócio-biografias poemusicais" de Caymmi e alguns compositores seus contemporâneos, como Geraldo Pereira, Adoniran Barbosa, Lupcínio Rodrigues, Ary Barroso e outros, são sensacionais também.
pois é. Caymmi se foi, mas sua música fica. aliás, parece mesmo que ela está aí desde sempre, não é verdade?
Sobre o ressentimento dos baianos ao qual o Jair Fonseca se referiu no comentário dele, devo dizer que existiu/existe mesmo. Até agora ainda estou ouvindo gente meio chateada pelo fato dele ter sido sepultado no Rio! Mas acho que não dá pra considerar isso um sentimento geral, ainda bem.
E a melhor maneira de ouvir Caimmy é, realmente, na voz do próprio Caimmy - como fez o Idelber. Apropriando-me de uma expressão típica do Nelson Rodrigues, devo dizer que o Caimmy é o verdadeiro baiano de anedota. No bom sentido, sem maldades.
Momento Jabá: Para quem ainda acha a história inacreditável, pode checar com os próprios ouvidos (se estiver em Porto Alegre). Esse meu amigo, do comentário # 15, faz parte de um grupo vocal de médicos-cantores chamado "Sem Contra-Indicação".
O "Sem Contra-Indicação" se apresenta no dia 5 de setembro, às 18h30, no Centro Cultural Érico Veríssimo (Rua dos Andradas, entre Uruguai e General Câmara, antiga CEEE). No repertório, não tem "João Valentão", mas "A Vizinha do Lado". E ainda Noel, Lupicínio e outros. Haverá também uma exposição de gravuras e textos relativos aos temas das músicas.
Jabazinho: Fui no show do Tavinho em que ele cantou as músicas do cd que acompanha seu livro Maria do Matué. Eu adorei o livro. O show foi junto com o grupo de côco Ouricuri, que tem como integrante minha prima e amiga Teca Moura, filha do Tavinho. A Teca, junto com o André Sales-Coelho fundaram e mantém o Grupo de Maracatu e Associação Cultural Lua Nova, do qual faço parte e de onde saiu o grupo de côco e um grupo de chorinho, em que toco, de vez em quando, meu violão morolés. Valeu gente!