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sexta-feira, 15 de agosto 2008

Mais um golpe contra a liberdade de imprensa em Minas: Retirado do ar site jornalístico que continha denúncias contra Aécio Neves

O site de notícias Novo Jornal, conhecido pelas denúncias que tem veiculado contra o governador Aécio Neves, foi retirado do ar ontem, em ação conjunta da Promotoria Estadual de Combate aos Crimes Cibernéticos e da Polícia Militar. Foram apreendidos os computadores do site. Ao acessar a página, o internauta chega a esse aviso do Ministério Público de Minas, que anuncia que a página foi “suspensa” e que está sob investigação por “indícios de prática de crimes”. A imprensa noticiou que a ação foi fruto de uma representação recebida pela Procuradoria que alegava que o site publicava matérias atentatórias à honra de autoridades públicas como o Procurador Geral de Justiça do Estado, Jarbas Soares Junior, e principalmente o governador Aécio Neves . Nenhum veículo de imprensa noticiou quem foi o autor da representação.

No momento em que foi retirado do ar, o Novo Jornal trazia em sua primeira página uma matéria com pesadas críticas ao Presidente do STF, Gilmar Mendes. A matéria ainda pode ser lida no cache do Google. O Novo Jornal também denunciou que o governador Aécio Neves pagou US$ 269 milhões de dívidas da Rede Globo de Televisão na compra da Light. A denúncia, feita em minucioso detalhe, mostra que o governo mineiro criou uma empresa, a RME -- Rio Minas Energia Participações S/A -- que teria pago por 79,57% das ações da Light e adquirido somente 75,40% das mesmas, transferindo para fundos credores da Globo nos Estados Unidos o montante de 269 milhões de dólares. Simultaneamente, Aécio nomeava o ex-presidente da holding do Grupo Globo, Ronnie Vaz Moreira, presidente da tal RME e diretor-financeiro da Light.

Ainda é possível, também, ler no cache do Google o editorial do Novo Jornal que denunciava a censura à imprensa em Minas Gerais, assim como uma missiva de um leitor com críticas a Gilmar Mendes. Ainda pelo cache do Google, é possível rastrear nos arquivos do site censurado 21 menções ao Governador Aécio Neves e 11 menções ao Procurador Jarbas Soares Junior. O Novo Jornal acusa o Procurador de barrar toda e qualquer apuração de denúncias. Evidentemente, é de grande importância preservar esses textos.

Com a subserviência que lhe é própria, a “grande” imprensa mineira noticiou a criação da Promotoria Estadual de Combate aos Crimes Cibernéticos dizendo que com o crescente número de crimes praticados por usuários da rede, o MPE decidiu pela sua implantação, sem oferecer ao leitor qualquer fundamentação da veracidade da premissa de que o número de crimes online é mesmo “crescente”. Com a mesma subserviência, o grupo Diários Associados noticiou que o Procurador Jarbas Soares encaminhava ao PG da República uma ação que removia obstáculos à atuação dos promotores sob a incrível manchete MP luta contra a mordaça em Minas – título que adquire tons bastante irônicos à luz da última ação do MP mineiro.

Desnecessário é dizer que o Biscoito se solidariza com o jornalista responsável pelo Novo Jornal, Marco Aurélio Flores Carone, a última vítima da ditadura aecista. Seria muito, muito divertido ver esses textos reproduzidos por aí à exaustão. Este blog já gravou três ou quatro dos mais incisivos e vai republicá-los em breve.



  Escrito por Idelber às 17:23 | link para este post | Comentários (39)


Comentários

#1

Seria o início do processo de 'azeredização' da Internet brasileira?

anrafel em agosto 15, 2008 5:54 PM


#2

Boa a denúncia, mas como sempre quem não tem acesso a meios alternativos de informação com certeza não ficará sabendo. A ditadura patriocinada por Aecinho P... e C... (não vou publicar o restante do apelido carinhoso que nosso governador ostenta)é apenas uma faceta do modo tucano de governar.
Aproveito para pedir autorização para publicar a denúncia tambem em meu blog.

Abraços...

Hudson

Hudson Luiz Vilas Boas em agosto 15, 2008 6:18 PM


#3

E os reiterados crimes contra o Direito à Informação praticado pela Veja ? Por que o Ministério Público não lacra a Editora Abril enquanto se "apura os indícios de práticas de crimes" ?

Marco Vitis em agosto 15, 2008 6:20 PM


#4

Marco Vitis,

Simples, você pode escrever que tatu tem asa desde que esteja servindo ao Poder com essa informação.

Idelber,

Que coisa horrível.Pensei que a mídia mineira só fazia essa cobertura, digamos, "positiva" sobre Aécio por provincianismo mesmo, mas pelo jeito rola o mesmo esquemão por lá que no país inteiro: Tucanos e alguns orgãos de mídia mantendo relações carnais para levarem seus projetos adiante. Quem entra chutando o balde e denunciando isso acaba sendo bombardeado. Fossem denúncias contra o PT e esse site ainda estaria aberto. Lamentável.

Hugo Albuquerque em agosto 15, 2008 8:02 PM


#5

Obter informação é um exercício de garimpagem. Em nosso país estamos em uma época que é necessária uma tecnologia de garimpagem superior.
Se o governador mineiro e outras organizações do estado se lançam nesta empreitada de ocultar informações, uma das razões é que a situação geral no país mostra-se favorável a isso.
A tendência é que as coisas piorem.

Paulo em agosto 15, 2008 9:09 PM


#6

Pois é.

Viva a "democracia" e a "liberdade" em nosso país.

Como dizia o famoso poema? No primeiro dia, chegam e arrancam uma flor de nosso jardim, e não dizemos nada... vamos esperar e deixá-los arrancar a voz de nossas gargantas...!?

Luís Henrique em agosto 15, 2008 11:13 PM


#7

Hudson, claro que pode, adiante! Precisa pedir, não.

Idelber em agosto 15, 2008 11:43 PM


#8

Idelber, aproveito pra dizer que amanhã vou reproduzir este post lá no Esvaziar nuvens também. Como quero fornecer também os links certinhos, e isso vai dar um certo trabalho, mais tarde faço isso.

Abraço.

Jasão em agosto 16, 2008 1:43 AM


#9

Há mais do que indícios dessa trama PSDB/Demos/Grande mídia golpista ou não.
Só não há provas para quem apaga provas.
Mordaça para alguns. Liberdade de "expressão" para quem?

Jair Fonseca em agosto 16, 2008 2:53 AM


#10

É interessante dizer que os partidos políticos agora mencionados praticam uma oposição apenas PROTOCOLAR nas várias casas parlamentares.

Também frize-se que a operação em tela foi construída ao longo de largo tempo e só foi realizada com a participação (absolutamente essencial neste caso) do governo através de várias instâncias. Os clientes da Light puderam verificar a progressiva deterioração nos serviços da concessionária, ENQUANTO SE COSTURAVA ESTA OPERAÇÃO FINANCEIRA, sob os olhos complacentes das autoridades (federais) com poder de fiscalização. Hoje passou a ser usual a interrupção no fornecimento de energia na área urbana do Rio de Janeiro servida pela Light a dezenas de anos, resultado da leniência do poder concedente durante os últimos anos da administração da EDF.

Curiosamente a EDF encontrou conforto na solução alcançada, sob o total silêncio de quaisquer parlamentares, de qualquer coloração partidária!

Vivendo na área de concessão da Light e dependendo dos serviços desta concessionária peço apenas que a dita cuja forneça estes serviços com um mínimo de qualidade. Pois caro Idelber constatamos pelo seu próprio relato como uma operação tão grande passa por tantas instâncias políticas e governamentais sem NENHUMA contestação.
Vida que segue.

Paulo em agosto 16, 2008 8:58 AM


#11

Sugestao obvia para os censurados: reabram o site num abrigo estrangeiro. Entao ninguem podera censurar aqui no Brasil.

Clara-Maria em agosto 16, 2008 10:02 AM


#12

Só não podemos confundir as causas da censura. O texto sobre o Gilmar Mendes, que você cita, já estava há vários dias publicado no Tamos com Raiva (meu blog) e na revista digital NovaE. Nem por isso, fomos censurados. O Novo Jornal apenas reproduziu meu texto em suas páginas, junto às dezenas de críticas ao governo de Aécio Neves - estas sim, possíveis causas do caso inédito de censura em tempos de democracia que vivemos hoje.

Cristina Moreno de Castro em agosto 16, 2008 10:19 AM


#13

É isso aí Idelber! Obrigado! Temos que divulgar estas coisas e reverter o quadro acomodado da política mineira.

Samuel Lobato em agosto 16, 2008 11:32 AM


#14

Há muito tempo as denúncias de que a imprensa mineira (e nacional...) estava "censurada". Vide: http://www.massote.pro.br/

Cláudio Costa em agosto 16, 2008 12:54 PM


#15

Olha , não concordo com a censura,entretanto,discordo de vários pontos do texto sobre o Gilmar Ferreira Mendes, ele não é bandido, é um brilhante jurista, e quanto ao fato dele declarar não se importar com a opinião pública, podemos perceber claramente a manipulação do autor do texto, pois , acho que ele está certo quando afirma que um ministro do STF não deve temer julgar contrário a opinião pública, pois essa não é a dona da verdade.Então , não pode um juiz claudicar na hora de julgar dentro do justo e equinanime.Assim eu penso ,peço desculpas a quem discorda.

Tem outros pontos inverídicos no texto do jornalista, queria ter espaço para rebater todos.Não sou Mineiro, sou paraibano ,por isso, não venha dizer que sou defensor do esquema "aeciano".

Bruno Fernandes Barbosa em agosto 16, 2008 1:15 PM


#16

Oi Bruno. Estou às ordens para conversar sobre os pontos de discórdia do texto que escrevi sobre o Gilmar Mendes. Tanto por aqui, como pelo meu e-mail, ou no meu blog (basta clicar na minha assinatura para acessá-lo).

Só é importante destacar que o texto publicado do Novo Jornal não é todo meu. Alguém do site escreveu um texto inicial sobre o Mendes e, em seguida, disse que encontrou meu texto na internet e o acrescentou. Assim sendo, há um texto dentro de outro, de dois autores diferentes, que devem ser rebatidos de maneiras distintas.

Abraço.

Cristina Moreno de Castro em agosto 16, 2008 4:51 PM


#17

Cara Cristina, agradeço pelos esclarecimentos a respeito das origens dos textos. Quanto à questão de qual foi a causa real da censura, prefiro não especular -- em geral, em casos de censura assim, trata-se de uma soma de fatores. Suponho que, sim, a linha editorial de oposição ao Aécio tenha sido o fator fundamental. Não foi intenção do post sugerir que tenha sido o texto contra o Gilmar Mendes -- embora, insisto, seja realmente impossível saber com segurança.

Concordo com o Bruno que um ministro do STF não deve se preocupar com a opinião pública. Mas de forma nenhuma eu qualificaria Gilmar Mendes como brilhante jurista.

Abração a todos.

Idelber em agosto 16, 2008 7:14 PM


#18

Pausa para
saravá Dorival Caymmi!

Jair Fonseca em agosto 16, 2008 7:33 PM


#19

senti muito a morte de Caymmi.valeria um post.

Mas é incrível, o G1 'publicou' matéria , após a censura do blog 'Generación Y': Censura bloqueia blog mais lido de Cuba.

No Olharglobal é Chico Lopes que protesta:
Yoani Sánchez, blogueira cubana censurada, ganha o Prêmio Ortega y Gasset na Espanha

Nenhuma palavra sobre a censura citada pelo Biscoito Fino.

fm em agosto 16, 2008 8:06 PM


#20

Caros,

Manchete do último post do blog do Igor:
BRASIL PODE ULTRAPASSAR A ARÁBIA SAUDITA E SE TORNAR O DETENTOR DAS MAIORES RESERVAS DE PETRÓLEO DO MUNDO


Blog do Igor: http:/alexeievitchromanov.zip.net

Abraço

Alberto

Alberto Bilac de Freitas em agosto 16, 2008 8:38 PM


#21

Perdoe-me o fora-de-tópico, mas espero, sinceramente, que você já tenha "lido e rido" com isso:
http://marconileal.opensadorselvagem.org/orgias-filosoficas-informe-publicitario-de-inteira-responsabilidade-do-anunciante/

Beijos.

Inaiara em agosto 16, 2008 11:10 PM


#22

Ao invés de compactuar com a censura o MP-MG deveria é investigar porque durante esses seis últimos anos a foto do governador apareceu em 99% das publicações do jornal oficial "Minas Gerais". Propaganda institucional?

João em agosto 17, 2008 4:14 PM


#23

Caro Idelber,
já que o tema da liberdade de imprensa em nosso país não empolgou os comentaristas (o que aliás replica o sentimento dos brasileiros), sugiro que falemos sobre o esporte (motivado naturalmente pela Olimpíada). Poderíamos discutir algumas mudanças, a começar pelo horroroso uniforme, a substituição do responsável pela pasta e a necessidade de sediar uma Olimpíada no Rio. É apenas uma sugestão!

Paulo em agosto 17, 2008 6:03 PM


#24

Idelber, problemas em MG de liberdade de imprensa, em sampa é difícil encontrar uma notícia contra o governador, tanto que a venda da Nossa Caixa sumiu dos noticiários, como se não interessasse a ninguém.

Fala-se muito sobre um governo que está acabando, mas pouco dos pecados dos aspirantes a e suas posturas anti-democráticas.

Marcelo Luiz em agosto 17, 2008 8:56 PM


#25

É eventos atuais.
Eu desejo saber se eu fizer isso que no Japão.

dcカード ゴールドカード

dcカード ゴールドカード em agosto 17, 2008 9:11 PM


#26

Professor Idelber,

Você viu o artigo do Demarco sobre "A IMPRENSA DE DANTAS"?

Seria interessante sua análise. Aí vai o link:

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=498JDB003

Claudia em agosto 17, 2008 9:16 PM


#27

Outra coisa sobre a qual a grandi-mídia-di-minas, e em gerais, não comenta é sobre a quebra de sigilo bancário e fiscal dos dirigentes do Cruzeiro. Finalmente! Esses caras fazem de times de futebol entrepostos de jogadores pra ganharem uma grana (e botem grana nisso), às custas do time e do povo que torce por ele, e na mídia "esportiva", nada.
Finalmente li uma notícia sobre o caso, n'O Tempo, de domingo, em que só há a versão do advogado dos cartolas do Cruzeiro, que afirma, pasmem, que "as denúncias estão fundamentadas na rixa entre Atlético e Cruzeiro".
Então foram os atleticanos que inventaram isso tudo! Como se já não tivéssemos problemas suficientes com "nossos" próprios cartolas!
Abram os olhos, cruzeirenses, "resultados" não são tudo.
Em tempo: Zezé Perrela (do Cruzeiro) é deputado dos Demos, e o dono d'O Tempo é deputado do PSDB.

Jair Fonseca em agosto 18, 2008 12:47 AM


#28

Caro Jair, alegro-me de que finalmente a imprensa mineira pelo menos noticiou um assunto tão grave como esse, que nós já destacamos aqui no Biscoito há vários meses.

Idelber em agosto 18, 2008 6:57 AM


#29

Concordo com você, Idelber: é impossível saber qual a causa exata da censura. Provavelmente, vários fatores.

O importante é que as bruxas existem. E que não se noticia isso, além da blogosfera.(Viva a blogosfera!).

Cristina em agosto 18, 2008 10:59 AM


#30

Oi, Idelber,
Fui seu aluno numa disciplina da pós na FALE/UFMG, tinha perdido o seu endereço aqui, é muito bom te encontrar.
As presepadas do Aecinho continuam repercutindo e a sua matéria também, deram o seu link numa matéria do Gilson Caroni na Carta Maior,15/08/2008, "Quem confia no Aécio Neves", as denúncias são sempre no mesmo sentido. Do artigo do Caroni:
"Fragilizando instituições caras ao jogo democrático, ignorando a importância do sistema partidário e “fazendo uso de uma máquina de marketing inigualável no país”, a "novidade" que vem das alterosas é a melhor expressão do mandonismo risonho que segue à risca os preceitos neoliberais."
Um abraço.
João Aguiar

João Aguiar em agosto 18, 2008 2:19 PM


#31

Poxa Idelber, eu fico triste com a situação por vários motivos.

Primeiro por eu estar totalmente por fora dessa situação em Minas! Estou há tão pouco tempo morando em São Paulo e já nem sei o que acontece com a política mineira... e olha que sou de São João del-Rei e acompanhei de perto o crescimento de Aécio!

Segundo por ter confiado no Aécio... tinha esperança nele, no "choque de gestão" que prometia tirar a imagem da moratória do Itamar da cabeça dos brasileiros!

Terceiro pela censura, que é algo inaceitável em uma democracia. Em países onde as pessoas já nascem sem liberdade individual acaba-se acostumando com isso e quem reclama somos nós que estamos do lado de fora, mas em países onde prega-se a liberdade ainda que tardia isso é uma afronta!

Henrique Cintra em agosto 19, 2008 12:45 AM


#32

O mascate tá fazendo a maior propaganda do governo mineiro. Ele farejou dinheiro ali e então inventou um "evento" para encher o cofrinho e promover "a gestão mineira". Eta homi louco por dinheiro, e de preferencia vivo, sô!

Pedro Cintra em agosto 19, 2008 2:03 AM


#33

Boa Iidelber republique logo estou doidinha para ler esses textos.

Lúcia Adélia em agosto 19, 2008 2:38 PM


Winston em agosto 20, 2008 12:31 PM


#35

Maravilha, Winston. Bela dica.

Idelber em agosto 20, 2008 12:33 PM


#36

(((off-topic... "Há um backup do site": perdao, W., mas a maior parte dos items do backup nao abre em um iMac. O que fazer?)))

Ivan Moraes em agosto 21, 2008 1:46 AM


#37

É, amigos... É difícil de acreditar que ainda poderíamos passar por esta situação em pleno século XXI, mas é verdade...

Para tal, criamos uma comunidade no orkut, para fins de divulgação e discussão sobre a política de censura que vem sendo aplicada pelo Gov. Mineiro.

Participem! Não vamos nos calar!

http://www.orkut.com.br/Community.aspx?cmm=54678374

Amanda em setembro 9, 2008 12:31 AM


#38

MP processa governo Aécio Neves por prender ilegamente e humilhar quilombolas, favorecendo fazendeiros

"... os quilombolas foram mantidos ilegalmente presos e algemados, de pé, na porta do quartel da Polícia Militar em Porteirinha, em pleno centro da cidade, ... ficando ali expostos por mais de 03 horas ao opróbrio público, qual escravos fujões recém-capturados pelo capitão-do-mato..."


O texto acima não é um extraído de um romance de ficção do Século XIX. Faz parte da ação civil ajuizada pelo Ministério Público Federal (MPF) e pela Fundação Cultural Palmares, pedindo que o Estado de Minas Gerais seja condenado a pagar indenização por danos morais coletivos em virtude de arbitrariedades cometidas pela Polícia Militar mineira contra três comunidades quilombolas: Povo Gorutubano, Brejo dos Crioulos e Lapinha.

Em diversas operações da Polícia Militar, os integrantes das comunidades quilombolas foram, de forma ilegal, ameaçados, algemados e expostos a humilhações públicas. Houve caso em que até crianças de 4, 6 e 7 anos de idade foram detidas.

Em duas oportunidades, os policiais, fortemente armados, agiram a pedido de fazendeiros, sem qualquer ordem judicial que os amparasse. Nessas ocasiões, as ações policiais aconteceram a pretexto de desocupar terras ocupadas pacificamente por famílias quilombolas.

No primeiro caso, ocorrido em 2006 (sob o governo de Aécio Neves), 15 policiais, fortemente armados e sem mandado judicial, invadiram e destruíram acampamento montado por famílias gorutubanas, apreenderam suas ferramentas de trabalho, algemaram todos eles uns aos outros e conduziram-nos, presos - inclusive três crianças -, num percurso de 60 km, até o quartel da Polícia Militar da cidade de Porteirinha.

Lá chegando, os quilombolas foram mantidos ilegalmente presos e algemados, de pé, na porta do quartel, em pleno centro da cidade, ficando ali expostos por mais de três horas, “qual escravos fujões recém-capturados pelo capitão-do-mato", narra a ação.

Várias testemunhas contaram que, enquanto estavam ali, os fazendeiros que disputam terras com os quilombolas, passavam por eles a todo instante, fazendo escárnio, chacotas, proferindo palavras de ofensa e humilhação.

Para o procurador da República, “o que mais choca nos relatos é que, em pleno século XXI, cidadãos brasileiros foram tratados de fato como escravos rebeldes. A única diferença é que as grossas correntes foram substituídas por algemas. Mas a exposição pública, a humilhação, o desrespeito à dignidade humana, estavam todos lá”.

A prisão dos quilombolas não foi comunicada nem ao promotor de Justiça, nem ao juiz da cidade e eles só foram soltos após a chegada ao local do advogado da associação.

Esse é apenas um dos casos, talvez o mais cruel, narrados na ação, embora os abusos cometidos contra as comunidades de Brejo dos Crioulos e Lapinha também sejam de mesma natureza e igualmente chocantes (veja o inteiro teor da ação, com a descrição completa dos fatos).

Segundo os autores, os efeitos das operações militares, na verdade, não se restringem apenas às comunidades quilombolas diretamente ofendidas: “Esses efeitos espraiam-se, de maneira difusa, a todo o movimento quilombola, cujas comunidades ficam amedrontadas e temerosas de lutar por seus direitos, tendo em vista a violência das operações”.

Sem generalizar a acusação para bons policiais que respeitam a cidadnia, o MPF expediu recomendação ao Comando-geral da PM para que instrua seus policiais a agirem dentro da legalidade (por exemplo, só ingressarem no interior dos territórios das comunidades munidos de mandado judicial) e sem qualquer abordagem de cunho coativo ou intimidatório.

Para o procurador, “no ambiente democrático em que vivemos, essas atitudes policiais são absolutamente intoleráveis. A Polícia Militar não tem a prerrogativa de importunar os cidadãos, acusando-os sem prova e, pior, coagindo-os a prestar informações e ameaçando-os com represálias e retaliações, como aconteceu na operação realizada contra a Comunidade de Lapinha.

O MPF lembra que é a própria Constituição que assegura às comunidades quilombolas o direito de propriedade definitiva das terras por eles ocupadas.

A ação indenização coletiva no valor mínimo de R$ 4,5 milhões, e que seja revertida em favor das comunidades para o custeio das despesas dos respectivos processos de regularização fundiária.(Do MPF/MG)

Por: Zé Augusto segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Joao do Sitio em dezembro 24, 2010 5:36 PM


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MP processa governo Aécio Neves por prender ilegamente e humilhar quilombolas, favorecendo fazendeiros

"... os quilombolas foram mantidos ilegalmente presos e algemados, de pé, na porta do quartel da Polícia Militar em Porteirinha, em pleno centro da cidade, ... ficando ali expostos por mais de 03 horas ao opróbrio público, qual escravos fujões recém-capturados pelo capitão-do-mato..."


O texto acima não é um extraído de um romance de ficção do Século XIX. Faz parte da ação civil ajuizada pelo Ministério Público Federal (MPF) e pela Fundação Cultural Palmares, pedindo que o Estado de Minas Gerais seja condenado a pagar indenização por danos morais coletivos em virtude de arbitrariedades cometidas pela Polícia Militar mineira contra três comunidades quilombolas: Povo Gorutubano, Brejo dos Crioulos e Lapinha.

Em diversas operações da Polícia Militar, os integrantes das comunidades quilombolas foram, de forma ilegal, ameaçados, algemados e expostos a humilhações públicas. Houve caso em que até crianças de 4, 6 e 7 anos de idade foram detidas.

Em duas oportunidades, os policiais, fortemente armados, agiram a pedido de fazendeiros, sem qualquer ordem judicial que os amparasse. Nessas ocasiões, as ações policiais aconteceram a pretexto de desocupar terras ocupadas pacificamente por famílias quilombolas.

No primeiro caso, ocorrido em 2006 (sob o governo de Aécio Neves), 15 policiais, fortemente armados e sem mandado judicial, invadiram e destruíram acampamento montado por famílias gorutubanas, apreenderam suas ferramentas de trabalho, algemaram todos eles uns aos outros e conduziram-nos, presos - inclusive três crianças -, num percurso de 60 km, até o quartel da Polícia Militar da cidade de Porteirinha.

Lá chegando, os quilombolas foram mantidos ilegalmente presos e algemados, de pé, na porta do quartel, em pleno centro da cidade, ficando ali expostos por mais de três horas, “qual escravos fujões recém-capturados pelo capitão-do-mato", narra a ação.

Várias testemunhas contaram que, enquanto estavam ali, os fazendeiros que disputam terras com os quilombolas, passavam por eles a todo instante, fazendo escárnio, chacotas, proferindo palavras de ofensa e humilhação.

Para o procurador da República, “o que mais choca nos relatos é que, em pleno século XXI, cidadãos brasileiros foram tratados de fato como escravos rebeldes. A única diferença é que as grossas correntes foram substituídas por algemas. Mas a exposição pública, a humilhação, o desrespeito à dignidade humana, estavam todos lá”.

A prisão dos quilombolas não foi comunicada nem ao promotor de Justiça, nem ao juiz da cidade e eles só foram soltos após a chegada ao local do advogado da associação.

Esse é apenas um dos casos, talvez o mais cruel, narrados na ação, embora os abusos cometidos contra as comunidades de Brejo dos Crioulos e Lapinha também sejam de mesma natureza e igualmente chocantes (veja o inteiro teor da ação, com a descrição completa dos fatos).

Segundo os autores, os efeitos das operações militares, na verdade, não se restringem apenas às comunidades quilombolas diretamente ofendidas: “Esses efeitos espraiam-se, de maneira difusa, a todo o movimento quilombola, cujas comunidades ficam amedrontadas e temerosas de lutar por seus direitos, tendo em vista a violência das operações”.

Sem generalizar a acusação para bons policiais que respeitam a cidadnia, o MPF expediu recomendação ao Comando-geral da PM para que instrua seus policiais a agirem dentro da legalidade (por exemplo, só ingressarem no interior dos territórios das comunidades munidos de mandado judicial) e sem qualquer abordagem de cunho coativo ou intimidatório.

Para o procurador, “no ambiente democrático em que vivemos, essas atitudes policiais são absolutamente intoleráveis. A Polícia Militar não tem a prerrogativa de importunar os cidadãos, acusando-os sem prova e, pior, coagindo-os a prestar informações e ameaçando-os com represálias e retaliações, como aconteceu na operação realizada contra a Comunidade de Lapinha.

O MPF lembra que é a própria Constituição que assegura às comunidades quilombolas o direito de propriedade definitiva das terras por eles ocupadas.

A ação indenização coletiva no valor mínimo de R$ 4,5 milhões, e que seja revertida em favor das comunidades para o custeio das despesas dos respectivos processos de regularização fundiária.(Do MPF/MG)

Por: Zé Augusto segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Joao do Sitio em dezembro 24, 2010 5:37 PM