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quarta-feira, 06 de agosto 2008

Um guia para as pesquisas eleitorais americanas

Com a aproximação da eleição americana, é bem provável que cheguem ao Brasil notícias incompletas ou distorcidas a respeito de pesquisas eleitorais. Aconteceu esta semana, com uma chuva de fogos de artifício no blog da Veja, festejando a divulgação da primeira pesquisa Gallup que apontava John McCain na frente de Barack Obama. É provavelmente certo que – por uma série de motivos para serem discutidos outra hora -- houve algum movimento nos números durante os últimos dias. Mas em nenhum site de notícias brasileiro vi menção do fato de que se tratava, por exemplo, de uma pesquisa com “eleitores prováveis” (likely voters – LV) e não com “eleitores registrados” (registered voters – RV), o que, acreditem, nesta campanha faz a maior diferença. Em todo caso, que conste que a última Gallup já mostra Obama na frente de novo, por quatro pontos.

Mas o objetivo do post de hoje não é especular sobre os números atuais, e sim oferecer a lista de perguntinhas que acredito que você deve fazer quando vir notícias sobre alguma pesquisa nos EUA. São dicas para quem é, como eu, fanático por pesquisas eleitorais -- sempre lembrando que três sites indispensáveis são o Real Clear Politics, o Five Thirty-Eight e o Pollster.

1.Os números se referem a eleitores prováveis ou a eleitores registrados? Os institutos usam diferentes métodos para calcular um “eleitor provável”. Sabe-se, por exemplo, que tradicionalmente os eleitores mais velhos vão às urnas em números mais altos que os mais jovens; que os mais escolarizados votam em maior número que os menos escolarizados; que os brancos comparecem em maior proporção que os negros. Baseados nisso, os institutos de pesquisa ajustam o universo da pesquisa. As pesquisas deste ano baseadas em “eleitores prováveis” tenderão a sub-representar o apoio de Obama. Por quê? Porque não há dúvidas que os jovens, por exemplo, votarão em proporção maior que em anos anteriores. E os jovens favorecem Obama massivamente. Para quem lê inglês e tem paciência de elefante, esta é fonte para entender como os vários institutos selecionam o "eleitor provável". Ponto para o Gallup, que apresenta seus critérios com mais transparência.

2.Os números foram ajustados para refletir a ausência dos celulares? Todos os institutos de pesquisa já perceberam que a limitação das pesquisas telefônicas a aparelhos fixos dá um quadro distorcido do universo pesquisado. Alguns poucos já criaram algoritmos para tentar levar isso em consideração. Entende-se: a população que abandonou o fixo em favor do celular é predominantemente jovem. A pesquisa num universo de telefones fixos também tenderá a sub-representar o apoio de Obama. Ponto para a Rassmussen, que sacou isso antes e vem tentando calcular com exatidão o impacto dessa variável.

3.Se a pesquisa é nacional, o movimento detectado por ela é notado também nos estados decisivos? Nunca é demais repetir: o voto na eleição americana não é universal direto. Elegem-se delegados estaduais, com o vencedor em cada um levando a totalidade dos votos daquele estado no Colégio Eleitoral. São favas contadas que McCain vencerá em Oklahoma. São favas contadas que Obama vencerá em Connecticut. Estes estados não interessam (sim, o voto de um eleitor desses estados para presidente não vale nada. O meu voto, aqui na Louisiana, por exemplo, tampouco vale nada). A eleição se decidirá no grupo de swing states (estados decisivos) que, este ano, poderíamos reduzir a doze: Nevada, Colorado, Novo México, Missouri, Indiana, Ohio, Michigan, Flórida, Virgínia, Carolina do Norte, New Hampshire e Montana. Algum Republicano muito otimista poderá incluir a Pensilvânia nesse grupo. Acho difícil que Obama perca por lá. Acompanhe especialmente, claro, os estados maiores, com maior número de delegados. Na Flórida, por exemplo, McCain ainda é favorito. Mas uma virada de Obama por lá torna a coisa muito difícil para o Republicano. Praticamente não há mapa de vitória para McCain que não inclua a Flórida. Obama, por outro lado, pode perfeitamente vencer sem a Flórida e mesmo sem Ohio. Segundo o mapa do RCP, linkado acima, 238 votos do Colégio Eleitoral hoje tendem para Obama. 163 tendem para McCain. 137 permanecem indefinidos. Ganha quem chegar a 270.


PS: E vão caindo os mitos, um a um. A campanha de Hillary afirmou incessantemente que Obama tinha um “problema” com eleitores brancos de classe trabalhadora. Na última pesquisa, Obama bate McCain nesse eleitorado 2 por 1.* Repetiu-se ad nauseam que Obama não teria o voto latino, porque “latinos não votam em negros”. As pesquisa apontam balaiada de Obama entre os latinos. Muita tinta foi gasta para dizer que Obama faria o Partido Democrata perder o voto judeu. Incrivelmente, Obama tem mais aprovação entre o eleitorado judeu que o próprio Joe Liberman. Alguns poucos fizeram bastante barulho com a previsão de que o eleitorado de Hillary nas primárias não migraria para Obama. Entre os democratas, o nível de apoio de Obama anda por volta dos 84%, não muito longe dos patamares normais, que sempre incluem uns 10 a 12% de defecções.

PS 2: Parece -- eu disse parece -- que Obama escolherá mesmo o Senador centrista da Indiana, Evan Bayh, como seu candidato a Vice-Presidente. Você leu aqui no Biscoito primeiro. É uma escolha que tem prós e contras. Confirmada, publico uma análise.

PS 3: O Biscoito inagura hoje uma nova coluna aí à esquerda, um “mini-observatório” da imprensa. É um espaço para apontar gafes e erros da nossa imprensa escrita. Contribua, leitor, com indicações diárias. Só erros factuais ou gafes notórias. Nada que demande muita análise.

* Correção apontada pelo leitor Henrique: o 2 por 1 se refere à classe trabalhadora como um todo. Entre os trabalhadores brancos, a vantagem de Obama é de 47 a 37. Gracias, Henrique.



  Escrito por Idelber às 06:45 | link para este post | Comentários (32)


Comentários

#1

Idelber,

Eu já acompanhava os três sites que você linkou, e acho o FiveThirtyEight o melhor de todos.
Também sigo outros dois: o Electoral-vote e o USA Election Polls .

E se não for o Evan Bayh ? O Tom Kaine ou a Sibelius tem chance? Ou será que o Obama escolhe um "poste" ?

Luiz em agosto 6, 2008 8:36 AM


#2

Olá Prof. Idelber,

Long time reader first time blogger. Foi mal a baboseira mas sempre quis dizer isso! Falando sério agora, fiquei um pouco surpreso do estado de Indiana constar na sua lista (e na do RealClearPolitics) de swing states. Apesar de ter tido dois governadores democratas antes do atual, Mitch Daniels, Indiana vota, tradicionalmente, com os republicanos e têm feito assim pelo menos nos últimos quarenta anos. Nas duas eleições do Clinton o estado foi uma triste ilha vermelha no meio do mar azul do meio-oeste. Fico pensando se a expectativa de ter o Evan Bayh como vice de Obama tem alguma coisa a ver com isso. Se você está se perguntando por que esse interesse pelo tipicamente desinteressante estado de Indiana, eu tenho uma boa explicação: morei alguns anos por lá.

Igor em agosto 6, 2008 8:43 AM


#3

Luiz, a Sebelius sempre foi a minha preferida. Preenche todos os requisitos: governa um estado Republicano, coloca 2 ou 3 estados meio vermelhos em disputa, tem uma super taxa de aprovação, é de fora de Washington, foi contra a guerra desde o começo.

Infelizmente, consolidou-se a percepção de que qualquer vice mulher que não fosse Hillary alienaria os eleitores que votaram nela nas primárias. A percepção pode estar errada, mas se impôs por causa de um grupo muito pequeno, mas bem vocal, de clintonistas.

É uma pena, Sebelius seria perfeita.

Kaine não é muito popular na Virgínia, não acho que esteja no páreo. Pode ser que eu me equivoque, claro, mas seria a pior opção entre as que estão na mesa.

Idelber em agosto 6, 2008 8:59 AM


#4

Caro Igor, você tem toda a razão com relação a Indiana. Eles votaram no Partido Democrata para presidente pela última vez em 1964! Mas, independente de Bayh, Obama já pôs Indiana na parada. A última Survey USA mostra Obama 48 x 47 em Indiana. Pau a pau, indefinidíssimo. Confirmando-se Bayh como vice, eu apostaria em vitória de Obama por lá. O mesmo acontece na Virgínia e Carolina do Norte, republicanos há décadas e embolados agora.

Essa é a razão, aliás, pela qual traduzir swing state como "estados-pêndulo", como faz a Folha de São Paulo, é enganoso. Indiana não tem nada de pendular. Sempre foi vermelha. Mas está indefinida agora.

Idelber em agosto 6, 2008 9:05 AM


#5

Luiz, esse USA Election Polls é meio maluco.

Connecticut como battleground state? Piraram.

Idelber em agosto 6, 2008 9:20 AM


#6

É, Idelber, colocar 24 estados como battleground states é pouco de exagero. Mas eu não acho o site um caso perdido...

Luiz em agosto 6, 2008 9:33 AM


#7

Passo apenas para elogiar o blog. Não leio muitos blogs. Ainda assim, é a melhor análise que li sobre o andamento da campanha estadunidense. Os posts são muito esclarecedores.
Um abraço.

João Paulo Rodrigues em agosto 6, 2008 9:44 AM


#8

Gracias muy mucho :-)

Idelber em agosto 6, 2008 9:54 AM


#9

Idelber, eu não dou muito valor a nenhuma pesquisa americana, em função do sistema de votação do país. Isto porque a eleição americana é indireta, e não necessariamente o candidato com maior número de votos populares é o eleito. O exemplo mais recente disso foi a primeira eleição do W. Bush (não entrando na questão dos votos da Flórida). Para que uma pesquisa americana tenha valor concreto, somente se for feita estado a estado, calculando-se o número de votos de cada unidade da federação no colégio eleitoral. Acho que aí sim teríamos um panorama mais real.

Clines em agosto 6, 2008 10:02 AM


#10

Pois é, Clines, mas os links acima te levam a várias pesquisas estado a estado ...

Idelber em agosto 6, 2008 10:10 AM


#11

Salve, Idelber.

Pois é, tenho acompanhado os números e visto em que geral as pesquisas dão margem de 4 a 6 pontos de vitória para Obama. Me pergunto se não veremos um salto nessa vantagem, à medida que a imagem de liderança dele se consolida junto ao eleitorado. Me parece muito difícil um triunfo republicano em meio às dificuldades na economia, mesmo que muitos eleitores escolham McCain por seu histórico militar e o medo diante do terrorismo e das guerras na Ásia.

Abraços

Mauricio Santoro em agosto 6, 2008 11:03 AM


#12

Caro Mauricio, é o que seria de se esperar. Mas a campanha será muito dura, com muitos ataques pessoais. Nunca subestime os Republicanos. Foi o que eu aprendi aqui, a duras penas.

Abração.

Idelber em agosto 6, 2008 11:27 AM


#13

Gente, como vamos nos divertir com esse mini-observatório da imprensa ;)

Idelber em agosto 6, 2008 12:15 PM


#14

hum... to vendo que daqui a uns dois meses minha conexão banda (meio) larga não vai bastar pra conseguir carregar a página do BF... com a quantidade de gafes dos jornalões....

Ah, uma sugestão: vc podia fazer que nem o Sérgio Rodrigues no todoprosa, que publica sempre os "começos inesquecíveis", publicando gafes históricas. Poderia começar com o clássico enforcamento de Jesus Cristo...

Thiago Candido em agosto 6, 2008 12:25 PM


#15

Para mim seria tão simples fazer uma pesquisa sobre eleitores prováveis. É mais provável vc votar ou não votar na eleição de novembro. Pela lei dos grandes números acho que teria uma poa amostra dos eleitores provaveis. Me parece obvio que os negros e os jovens vão votar mais nesta eleição do que nas anteriores. Por outro lado, as análises (que eu alias considerava corretas) de que as pesquisa de opinião no Brasil iriam errar em 2006 por subestimar os votos nulos e as abstenções entre os novos eleitores lulistas (Nortistas, Nordestinos e pobres) se mostraram equivocadas. Acho surpreendente os institutos de pesquisas acertarem tanto os resultados no Brasil, pois para mim me parece dificil de montar uma amostra aleatória com 2000 entrevistados no Brasil. Até a eleição de 2006 era até fácil, pois as intenções de votos eram bem mais homogeneas entre os grupos sociais, mas com a divisão que teve em 2006 qualquer erro na amostra, levaria a resultados equivocados.

Bruno em agosto 6, 2008 12:46 PM


#16

Não vai ter feed pra coluninha?

Alexandre Lemke em agosto 6, 2008 1:09 PM


#17

Idelber

Seria legal ter um feed para o mini-observatório também.

Abraços,

RodrigoSol em agosto 6, 2008 2:05 PM


#18

sobre o item 4 do mini-observatório:

-Lembro-me bem de dois comentários do meu amigo, Prof. Audemaro Taranto sobre Piza:

1 - Depois de ler o site do jornalista: "Pô... esse cara escreve sobre música, política, futebol, literatura, e tudo muito ruim... parece aqueles jogadores que querem cobrar o escanteio, correr pra área e marcar o gol!"

2 - Quando o jornalista lançou a biografia "Machado de Assis - um gênio brasileiro": "Puxa... esse rapaz não tem nem idade pra escrever uma biografia do Machado!"

rsrsrs...

Jasão em agosto 6, 2008 2:10 PM


#19

Concordo com o Clines quando ele diz que não dá bola para as pesquisas eleitorais nas eleições presidenciais estadunidenses. A eleição é indireta, o voto é facultativo, as listas de eleitores nas seções eleitorais são uma bagunça só, há o tal de absentee vote (o que não faz muita diferença no resultado mas é esquisito pacas) além de outras coisinhas mais. Além disso tudo, como diz o Idelber, não é boa idéia subestimar os republicanos. Na eleição de 2004, um mapa desses do RealClearPolitics dava vitória pro John Kerry até a última hora e no fim deu Bush. Há quem diga que algo misterioso aconteceu em Ohio em 2004 assim como na Flória em 2000. Quem sabe que mistério vai acontecer aonde este ano?

Igor em agosto 6, 2008 2:21 PM


#20

hé. o piza nao acerta UMA citaçao. hahahhahahaha

mary w em agosto 6, 2008 3:01 PM


#21

Caro Idelber, parece que já está certo que Obama ganhará. Mas as metodologias norte-americanas de pesquisa aplicadas as eleições só valem mesmo para disputas norte-americanas.
Estas metodologias em confronto com as metodologias brasileiras mostraram-se débeis em Angola!

Paulo Z em agosto 6, 2008 4:48 PM


#22

Sensacional - 1

As nuances que você aponta na metodologia deixam transparecer muitos imbróglios, suficientes para "derrubar" o favoritismo de uma candidatura. Gosto disso nas pesquisas, apesar de não me simpatizar com a finalidade orquestrada para elas.

Sensacional - 2

Essa nova coluna lateral é uma mão na roda para você comentar um assunto que não mereça um post, né não?

Vai ter uma mini-caixa de comentários??
;)

Inaiara em agosto 6, 2008 5:31 PM


#23

Pessoal, vou tentar ver se consigo pôr um feed para a coluninha. Por enquanto tenho feito tudo na unha mesmo.

A idéia é manter um máximo de 5 ou 6 a cada momento, para não sobrecarregar a página demais...

E podemos comentar por aqui mesmo, né Inaiara?

Idelber em agosto 6, 2008 5:59 PM


#24

Êita! Foi uma mini piada...
ruim, pelo jeito
;)

Inaiara em agosto 6, 2008 6:34 PM


#25

Sorry, Inaiara, eu ando meio lento hoje ;-)

Idelber em agosto 6, 2008 6:38 PM


#26

Muito boa a coluninha! Falando em imprensa: http://www.paulohenriqueamorim.com.br/forum/Post.aspx?id=480

Sensacional!

Abraço

Alexandre Nodari em agosto 6, 2008 6:44 PM


#27

Eu que peço desculpas, ter colocado tantos hífens no lugar errado me-dá-até-vergonha.

Inaiara em agosto 6, 2008 6:46 PM


#28

Muito bom o mini-observatório. Só acho que não tem necessidade de reparar no uso equivocado de crase. Ultimamente, esse tipo de erro por parte da imprensa tem sido o mais benigno.

Gustavo em agosto 6, 2008 8:03 PM


#29

Verdade. A crase foi exagero.

Mas é que "à Lula" é engraçado demais. Parece um novo estilo de almoço :-)

Idelber em agosto 6, 2008 8:07 PM


#30

Adorei a coluna aí do lado. Vou ter um bocado de erros pra te indicar, rs.

Um abraço!

Marcio em agosto 6, 2008 8:25 PM


#31

Só uma correção: a vantagem de Obama de 2-1 se refere a todos os eleitores de classe trabalhadora. Como a matéria diz em seguida, Obama vence tb entre os brancos, mas essa vantagem cai para apenas 10% (47% a 37%, e os outros 16% "uncommitted").

Henrique em agosto 6, 2008 9:25 PM


#32

Certíssimo, Henrique. Já atualizei o post com a sua correção. Gracias.

Idelber em agosto 7, 2008 12:27 AM


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