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Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



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terça-feira, 30 de setembro 2008

Convite ao debate e notas sobre a crise

Biden.jpg

O Biscoito gostaria de convidá-lo para acompanhar ao vivo, na quinta-feira, às 22 h de Brasília, aquele que promete ser um dos eventos políticos mais inesquecíveis do nosso tempo, o debate entre os candidatos a vice-presidente dos EUA, o Senador língua-solta Joe já-não-dá-para-comprar-chiclete-em-Delaware-sem-ouvir-sotaque-indiano Biden e a Governadora criacionista-fundamentalista Sarah sei-de-política-externa-porque-vejo-a-Rússia-da-minha-janela Palin. Você, claro, está intimada a aparecer. Pedrão estará ao vivo ao leme do blog dele, com certeza. Se aparecer uma boa turma, dá para ter uma caixa de comentários tão divertida como as do Impedimento em dia de cobertura em tempo real. O debate será memorável, não tenho dúvidas.

*****

Enquanto no Brasil Lula chega a níveis soviéticos de aprovação (com a diferença, claro, de que os números de Lula são reais), aqui na República dos Estados Unidos Soviéticos da América, como sabem, foi dia de colapso total. Mais um banco dobrou: o Wachovia, outrora valente instituição que havia sido meu primeiro banco nos EUA. Ali guardei meu primeiro chequinho de 300 mangos. Sobraram Citigroup, Bank of America e JP Morgan Chase. São os States, no rumo inexorável do socialismo leninista.

Ante o fracasso do pacotão, John McCain disse que não era hora de procurar culpas, duas horas depois de pôr a culpa em Obama, que é membro do partido que votou em peso pelo socorro, enquanto o partido de McCain votou massivamente contra ele – apenas 90 minutos depois de McCain se declarar responsável pelo “sucesso” da votação que ocorreria. É o samba do branquelo doido, a campanha de McCain.

*****

Obama diz que se Bin Laden pintar na parada no Paquistão, ele manda bomba mesmo. McCain ironiza isso como ingenuidade. Sarah Palin diz a mesma coisa que Obama (claro que sem frases completas). McCain e Palin aparecem juntos para tentar consertar. É hilário:

*****

Que me desculpem os amigos d'álem-mar, mas é impressionante a ignorância da esmagadora maioria da blogosfera portuguesa ao falar de política externa. É o único lugar do universo onde se toma como autoridade em EUA o aprendiz de pitbull da Veja, que não saberia diferenciar Montana e New Hampshire num mapa. Disseram que McCain esteve “mais à vontade” no debate. Então tá, como dizem os mineiros. Um sujeito que não conseguia olhar para o outro estava mais “à vontade”? No Brasil, o único que deu vitória para McCain no debate foi um português. Alô, amigos, querem trocar um jornalista por um técnico de futebol?

*****

Vejam que coisa de gênio, vejam as maravilhas da internet: o gerador de entrevistas de Sarah Palin, no qual você pode produzir centenas de respostas palínicas para a mesma pergunta, antes de passar para a próxima (via Piro, que sei lá como encontra essas coisas).

*****

Caetano Veloso tem todo o direito de espinafrar o jornalista que quiser em seu blog. Tem todo o direito de não publicar comentários fora de assunto ou que contenham grosserias. Mas no momento em que opta por não publicar um comentário como esse, vai perdendo a credibilidade de blogueiro. Cada um é cada um, mas só estou dando meu palpite de fã. Critério na pilotagem aí, Hermano. É só uma sugestão amiga. Aliás, bem-vindo, Caê, ao blogroll do Biscoito.

******

Quanto ao colapso do RUSA (novo nome do país), quem teve o insight genial foi Mestre Sergio: a culpa da quebradeira logo no aniversário da morte de Machado? Foi do bruxo alienista, claro, que se vingava de Gustavo Franco, pela cara-de-pau de ter proclamado o autor de Quincas Borba como precursor do neoliberalismo e do dogma da sapiência infalível do mercado desregulado.

*****

No portal de notícias da Globo, o link que anunciava o recorde de aprovação a Lula passou o dia apontando para a matéria sobre a queda da Bovespa. No começo da noite, o link saiu da capa.

******

Em tempo: Para quem lê inglês, acaba de sair um livro – um número especial, na verdade, da boa revista Portuguese Literary and Cultural Studies – dedicado inteirinho a Machado, e composto quase que somente por feras: Rouanet, Antonio Candido, Alfredo Bosi, Raúl Antelo, Marisa Lajolo, Regina Zilberman, Hélio de Seixas Guimarães e outros. Entrou lá um blogueiro atleticano de gaiato, falando sobre Machado e a música.

*****

Ficamos combinados, então. Quinta-feira, 22 h de Brasília. O debate do século.



  Escrito por Idelber às 03:38 | link para este post | Comentários (46)



segunda-feira, 29 de setembro 2008

A esquerda e as eleições no Rio de Janeiro

jandira.jpgSeria possível escrever 30 volumes sobre a história dos erros da esquerda no Rio de Janeiro. É uma infindável lista, desde a criminosa intervenção dirceu-delúbica contra o resultado da convenção do PT em 1998, impondo uma aliança com Garotinho, até a declaração de Jandira Feghali sobre o aborto na última eleição, que lhe custou nada menos que uma vaga no Senado Federal. Essa história explica o insólito fato de que o Rio não possui hoje uma estrutura política de esquerda consolidada e enraizada na população, ao contrário de São Paulo, BH, Porto Alegre, Salvador, Recife e Fortaleza. Digo que o fato é insólito porque o eleitorado carioca é até mais esquerdista que o paulista ou o mineiro. Em 1989, o Rio deu a Lula uma vitória retumbante contra Collor; em 1982, quando em outros lugares a extrema-esquerda do elegível era Franco Montoro ou Tancredo Neves, o Rio escolheu Brizola; em 2006, Heloísa Helena teve lá seu melhor desempenho.

A situação das pesquisas eleitorais no Rio exige uma atitude urgente de Alessandro Molon (PT) e de Chico Alencar (PSOL). Segundo o Datafolha, Eduardo Paes, que troca de partido como quem troca de cueca, tem 29%. O Carolão Crivella e o tucano verde Gabeira tem 15% cada um. Jandira Feghali é a candidata de esquerda mais bem colocada, com 13%. Molon e Chico têm índices pequenos, em torno de 3 a 4%. É pouco, mas pode fazer toda a diferença. Caso Molon e Chico renunciem às suas candidaturas e coloquem sua militância para trabalhar por Jandira, a esquerda pode ter um nome no segundo turno. Se não, o Rio corre o risco de ver o pesadelo de um segundo turno entre Paes e Crivella.

Já começou a movimentação entre os petistas cariocas para pedir que Molon renuncie e apóie Jandira. O deputado federal Cândido Vaccarezza (PT-SP) fez um apelo. A mesma iniciativa está em marcha entre alguns amigos de Chico Alencar. É importante lembrar que o PC do B, e também o PSB, agiram de forma responsável em São Paulo, apoiando Marta Suplicy. O Presidente Lula sempre quis uma unidade de esquerda em torno a Jandira.

Este blog respeita a história de Fernando Gabeira. Mas, hoje, ele se encontra no terreno oposto ao projeto de país articulado pelo governo Lula. Seus aliados preferenciais são os tucanos e o PPS. É uma candidatura que está no campo da direita, sejam quais forem as convicções pessoais dele. Para quem apóia Molon e Chico, a opção é claramente Jandira.

Molon e Chico: a hora é agora! Depois, não adianta chorar se tiverem que escolher entre Paes, Crivella e/ ou Gabeira.

PS: Vejam a incrível cara-de-pau desta declaração de Eduardo Paes: Sou Portela e vascaíno, mas adoro a torcida do Flamengo. Minha família toda é tricolor [...], o Botafogo é um time glorioso e o América é o time do meu coração. Coisa típica de político oportunista. Quem gosta mesmo de futebol detesta essas coisas. Para a prefeitura de BH, eu não teria nenhum problema em votar num candidato cruzeirense com o qual eu coincidisse politicamente. Aliás, já o fiz. Mas olharia ressabiado para alguém que viesse com esse papo de que “torço pelo Cruzeiro e pelo Atlético”. Por isso eu gosto dos gaúchos. Se você fizer isso no Rio Grande, perde a eleição de cara. Colorado respeita Tricolor e vice-versa. Mas nenhum dos dois respeita quem faz isso.



  Escrito por Idelber às 04:08 | link para este post | Comentários (100)



domingo, 28 de setembro 2008

Eleições americanas. Estados decisivos: 2) Flórida e Michigan

As avaliações da Flórida e de Michigan vão juntas porque a Flórida é, para McCain, o que Michigan é para Obama: o estado que há que se defender a qualquer custo. A Flórida foi decisiva nas últimas duas vitórias republicanas e Michigan vota democrata desde 1992. Eu apostaria que a Flórida é o estado que mais preocupa McCain e que Michigan é o estado que mais preocupa Obama.

Vamos aos nossos tradicionais mapinhas, pois. Na Flórida, o mapa da vitória de Bush sobre Kerry por 52 x 47 foi este (de novo as cores trocadas, o azul é Bush e o vermelho é Kerry):

florida-map.gif

A pontinha sul, claro, é a grande região urbana de Miami e Fort Lauderdale. Em Miami-Dade, no extremo sul, lado leste, Kerry venceu, mas não foi por goleada: 52,8% a 46,6%. A explicação para a alta votação de Bush numa área metropolitana é óbvia. Trata-se da alta concentração de cubano-americanos obcecados com Fidel Castro. Eles tendem a votar nos Republicanos, ao contrário do resto da população latina dos EUA. Isto tem mudado um pouco nos últimos anos, na medida em que conseguem cidadania cubanos de uma imigração recente, de caráter econômico. Eles tendem a ser menos obsessivos com Fidel e um pouco mais pragmáticos em política interna. Tudo indica que Obama tem chances melhores que Kerry por lá, apesar das corajosas declarações de Obama, de que vai, sim, sentar-se para conversar com Raúl Castro. 50,9% da população de Miami-Dade nasceu em outro país. É uma porcentagem mais alta que a de qualquer outro condado dos EUA. 61,3% dos habitantes de Miami-Dade são latinos, muitos deles de ascendência afro (cubanos, haitianos, dominicanos etc.). Obama tem tido uma pontuação boa entre eles, desmontando o mito de que latinos não votam em negros.

Imediatamente ao norte de Miami-Dade, estão os condados de Broward (onde se encontra Fort Lauderdale) e Palm Beach. Neles, sim, Kerry venceu por goleada com, respectivamente, 64,2% e 60,3% dos votos. O medo inicial este ano era que Obama não conseguiria repetir a performance de Kerry no sul da Flórida, tanto pela importância do voto latino como pelo alto número de judeus, que supostamente se afastariam da sua tradição de votar democrata por causa do fantasma do “Obama muçulmano”. Nenhum dos dois medos se confirmou. Obama vai bem no sul da Flórida. Mas precisa estancar a sangueira no miolo do estado e no extremo noroeste, a chamada região do panhandle (o cabo da frigideira). Ali, a concentração de militares é muito alta. Bush venceu naqueles condados com porcentagens absurdas, tipo 77, 80 por cento. McCain tem chances de repetir a performance ou até melhorá-la.

Os outros condados onde Kerry venceu foram os esperados: região metropolitana de Orlando, Gainesville (onde fica a Universidade da Flórida) e Tallahassee (capital do estado, onde se encontram duas universidades importantes: a Flórida A & M e Flórida State). O resto é tudo grotão.

Além da alta presença de militares, a Flórida tem enorme concentração de idosos. É tradição por aqui aposentar-se e ir morar na Flórida. Ou seja, é terreno de McCain. Para complicar a situação de Obama, houve a ridícula briga das primárias democratas, nas quais Flórida e Michigan anteciparam as datas de suas votações, para aumentar sua influência. Foram punidos pelo Partido Democrata com a anulação dos seus delegados e o compromisso de que os candidatos não fariam campanha nesses dois estados. Essa anulação foi feita com anuência de todos os candidatos. Quando começou a perder, Hillary foi à Flórida fazer campanha, vencendo, evidentemente, a primária fictícia por lá. E daí passou a dizer que Obama queria desqualificar os eleitores da Flórida. A campanha democrata na Flórida começou, pois, morro acima.

E eis que os números são surpreendentemente positivos. A Rassmussen dá vantagem de McCain por um ponto e a NBC/Mason-Dixon dá Obama por dois. Ou seja, o estado está indefinido. Sem a Flórida, praticamente não há mapa de vitória para McCain.

Apesar de tudo, não estou muito otimista quanto ao estado. Na Flórida, são as raposas que tomam conta do galinheiro. A fraude come solta. Na eleição de 2004, eu fiz boca-de-urna para Kerry por lá. Vi coisas que não havia visto nem na ditadura militar brasileira. Cobrem-me a história que um dia eu conto.

*********

Michigan é outra demografia, bem diferente. A última vez que os Republicanos ganharam por lá foi em 1988. Trata-se de um estado industrial, fortemente golpeado pela crise econômica. Etnicamente, ele é bem mais homogêneo que a Flórida. 83% de seus habitantes são brancos. A população hispânica é minúscula. Os negros estão concentrados em Detroit. Vamos ao mapinha da vitória de Kerry em Michigan em 2004:

michigan-map.gif


Esse condado quase no extremo sudeste é Wayne County, onde fica Detroit, centro da indústria automobilística americana. Nada menos que 81% da população de Detroit é negra, uma das mais altas concentrações dos EUA. Ali, Kerry venceu Bush por 69 x 29. Obama deve vencer com margem ainda maior. Ao norte de Wayne, fica Oakland County, populosa área de subúrbios da região metropolitana de Detroit. Ali, Kerry também venceu, mas por diferença muito menor: 49,7% a 49,3%. Não acredito que Obama vença em Oakland County. Imediatamente a oeste de Wayne fica Washtenaw County, também parte da área metropolitana de Detroit. Ali ficam as cidades montadoras de Flint e Warren. É região de classe trabalhadora, mas é outro mapa para Obama. 77% são brancos. Como eu já afirmei antes, nada indica que o racismo seja um fator entre essa população, mas ainda há gente que aposta que pode aparecer o efeito Bradley (eleitores que declaram, nas pesquisas, que vão votar num candidato negro, mas que na solidão das urnas votam com seu racismo). Eu aposto que não é o caso. Mas já errei antes.

Também em Washtenaw County fica Ann Arbor, sede de uma das mais espetaculares universidades públicas do mundo, a potentíssima University of Michigan. Ali, sem dúvida, é goleada de Obama, sem efeito Bradley nenhum. Ao noroeste de Wayne e Washtenaw, também há um quadradinho vermelho, onde Kerry venceu por goleada, com 57% dos votos, já no interior do estado. Por quê? Trata-se de Ingham County, sede da Michigan State University. Kerry também venceu em dois condados do norte de Michigan: Marquette e Algers, ali na região dos lagos. É onde fica a Northern Michigan University.

Um recente acontecimento político que pode prejudicar a candidatura de Obama em Michigan é a seqüência de escândalos com prostitutas envolvendo o prefeito negro de Detroit, Kwame Kilpatrick, que acabou renunciando no último dia 04. O que ele tem a ver com Obama? Nada, a não ser o fato de ser Democrata e negro. Mas a cada aparição de Obama em Michigan, ele tem que responder perguntas sobre Kilpatrick. Imaginem se a mesma situação seria verossímil com McCain e um prefeito Republicano branco.

As pesquisas recentes em Michigan mostram que as chances de Obama manter o estado são muito boas. Prestem bastante atenção aos votos de Detroit, nem tanto à porcentagem de vitória de Obama, que será alta, mas ao número absoluto de eleitores que comparecerão às urnas. Em 2004, 864.728 eleitores votaram em Wayne County. Se Obama aumentar significativamente esse comparecimento, McCain não tem chance nenhuma no estado. Qual a estratégia dos republicanos no momento em Michigan? Tentar passar uma incrível lei – impensável no Brasil – que determina que se você perdeu sua casa, você não pode votar. A batalha em Michigan é em torno ao comparecimento às urnas. Presença massiva de eleitores é garantia da vitória de Obama.


PS: Vejam a sensacional estratégia da campanha de McCain: marcar o casamento da filha de Sarah Palin para antes da eleição. Um operador republicano afirmou: toda a televisão estaria lá, pararíamos a campanha por uma semana. Agora imaginem se Obama tivesse uma filha grávida aos 17 anos de idade. Estaríamos falando de crack, maconha e falta de responsabilidade familiar.



  Escrito por Idelber às 19:29 | link para este post | Comentários (25)



sábado, 27 de setembro 2008

O primeiro debate Obama x McCain

Depois de uma semana dormindo uma média de duas horas e meia por noite, volto a atualizar o blog. Espero que as atualizações continuem com a freqüência diária de sempre. Não tenho muito a acrescentar à excelente cobertura do debate entre Obama e McCain feita pelo amigo Pedro Dória. Vou só tirar algumas conclusões do quadro atual.

Assisti ao debate no legendário bar Mother-in-Law, aberto pelo já falecido músico Ernie K-Doe, aqui em New Orleans. A multidão que se aglomerava em volta do telão era, evidentemente, obamista. Fui ao debate decidido a não me deixar contagiar por ninguém, eufóricos ou derrotistas.

A semana começou com uma bizarra estratégia de McCain. Com o colapso financeiro vivido pelos EUA, McCain anunciou uma “suspensão” da campanha e disse que não iria ao debate até que o pacote de socorro ao capital fosse aprovado em Washington. O cálculo era claro: parecer “apolítico” e mais preocupado com o estado da economia que com o processo eleitoral. Só que a jogada era óbvia demais, e no momento em que começaram a chegar as pesquisas que informavam que a grande maioria do eleitorado queria o debate, McCain ficou numa sinuca. Querendo parecer estadista, ficou parecendo fujão. Um alto operador do Partido Republicano chegou numa reunião gritando: quem foi o imbecil responsável por essa idéia? McCain terminou indo.

O Pedro tem toda a razão: é extremamente difícil avaliar debates. Até mesmo uma vitória incontestável de um lado sobre o outro no terreno dos argumentos pode sair pela culatra, caso o vitorioso pareça arrogante ou desdenhoso. Poucos debates foram tão contrastantes em termos de conhecimento e preparação como aqueles que opuseram Al Gore a George W. Bush em 2000. Mas o próprio patetismo e ignorância de Bush terminaram reforçando a percepção de que ele era um “bonachão jovial” com quem “você gostaria de tomar uma cerveja”. Bush acabou levando. Roubado, mas levou. Considerando-se o estado da economia naquele momento, deveria ter sido goleada de Gore.

Debates são um jogo de expectativas sobre quem tem a vantagem do empate. No de ontem, você poderia olhar a coisa de duas formas. Sendo a política externa o terreno no qual a percepção é de que McCain é superior, um empate favoreceria Obama. Por outro lado, seria possível dizer que, tendo Obama muito menos tendência a cometer gafes (como, por exemplo, citar países ou fronteiras que não existem), um empate favoreceria McCain.

Foi essa a impressão que tive antes de ver os números das pesquisas – que havia ocorrido um empate técnico no qual nem McCain cometeu gafes, nem Obama cometeu erros graves. No geral, um debate chato e previsível. Claro que houve mentiras. Por exemplo, a demonstrável mentira de McCain de que Obama aumentará impostos para as famílias que ganham $ 42.000 dólares por ano. Mas o resultado de um debate tem pouco a ver com veracidade ou honestidade. Tem a ver com percepção.

E eis que chegam números surpreendentemente positivos. Segundo a pesquisa da CBS entre eleitores indecisos, Obama venceu por 39 x 24 (37% acharam que deu empate). No Media Curves, Obama venceu entre os eleitores independentes em todos os quesitos. No meu modo de ver, Obama teve dois grandes momentos: o primeiro, quando lembrou a McCain que ele estava errado sobre as tais “armas de destruição em massa” do Iraque; que estava errado sobre a duração da guerra; que estava errado sobre a recepção que teriam os soldados americanos. A força do A, you were wrong; B, you were wrong; C, you were wrong foi considerável. O segundo bom momento de Obama foi na discussão sobre economia. A insistência no fato de que a crise atual é produto das políticas apoiadas por McCain foi firme o suficiente, eu achei. Mas Obama também teve momentos ruins. Ele repetiu exatas 13 vezes alguma variação da frase John McCain está certo antes de passar às discordâncias. Recortadas e editadas num comercial, elas poderão ser usadas pelos Republicanos.

Para McCain, o pior componente foi sua incapacidade de fazer contato visual com Obama. Ele simplesmente não olhava para o adversário. Os números das pesquisas parecem indicar que esse foi um elemento importante na percepção de que ele perdeu por pontos (sobre a recusa a se fazer contato visual, veja o excelente comentário deste terapeuta). Realmente, é impossível concordar com o excelente Nelson de Sá quando ele afirma (link para assinantes) que McCain “venceu” o jogo de cena. Não vi isso e os eleitores independentes também não.

No debate de ontem, Obama deixou passar várias oportunidades de criticar McCain com mais ênfase. Para muitos observadores brasileiros, Obama deveria ser mais agressivo e atacar McCain. Já recebi incontáveis demonstrações de impaciência com a “falta de reação” de Obama. Outro dia, um leitor do Biscoito teve ataques histéricos por aqui, contra a suposta “torre de marfim” na qual me encontro, não percebendo que Obama já perdeu, posto que não bate em McCain o suficiente.

O problema é que esses observadores não parecem considerar um elemento decisivo, que é a política racial norte-americana. A última coisa da qual nós, do Partido Democrata, precisamos, é um negão nervoso e enraivecido na frente das câmeras. Uma única diatribe agressiva de Obama contra McCain e a vaca pode ir para o brejo. Atitudes que, num branco, são percebidas pelo eleitor médio como “firmeza” podem, num negro, serem percebidas como ameaçadoras e selvagens. Há que se conhecer bem os Estados Unidos para entender isso. A agressão não faz parte da tática de Obama. E essa tática até agora tem dado certo. Vai ganhar? Repito, não sei. Mas Obama tem se comportado com notável consciência das extremas dificuldades que enfrenta.

PS: A grande notícia do dia é a Rassmussen de Virgínia: Obama na frente por cinco pontos. É um estado tradicionalmente Republicano. McCain deveria estar liderando por lá.



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segunda-feira, 22 de setembro 2008

Em Medellín, nos 150 anos de Tomás Carrasquilla

Aqui vai um abraço direto de Medellín, província de Antioquia, República da Colômbia. Estou aqui a convite desta bela instituição, que realiza, hoje e amanhã, o Colóquio comemorativo dos 150 anos de nascimento de um dos principais escritores colombianos, Tomás Carrasquilla (1858-1940). Pouco conhecido fora da Colômbia, Carrasquilla inaugura o romance antioqueño em 1896 com Frutos de mi tierra e ao longo de várias décadas faz a transição entre um costumbrismo anterior, meramente epidérmico, e o realismo de crítica social. É o principal romancista colombiano da primeira metade do século XX. Já que num livrinho anterior eu cheguei a escrever algumas linhas sobre ele, acabaram me dando a honra de ser um de apenas dois convidados estrangeiros nesta festa colombiana, que incluirá também o lançamento de uma nova edição de suas Obras Completas.

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Eu já havia visitado a Colômbia antes, mas nunca havia estado em Medellín. A Antioquia fica aqui, ó:

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O mais espantoso para um belo-horizontino que chega a Medellín é a semelhança assombrosa entre as duas cidades. A chegada pela estrada que vem do Oriente, onde fica o aeroporto, é uma réplica da chegada a BH pela BR-040. Rodeada de montanhas, cortada por um riacho, Medellín é uma cidade de morros, com aquela mistura entre provincianismo e cosmopolitismo que os belo-horizontinos conhecemos bem. A comida não é parecida. É idêntica. Trata-se de uma culinária tropeira. Mesmo nas minhas andanças anteriores por outras regiões da Colômbia, sempre procurei os restaurantes paisas (da Antioquia). A iguaria mais conhecida é a bandeja paisa:

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A única diferença com relação a Minas é o indefectível abacate, que para nós é sobremesa para ser comida com açúcar e, para os paisas, é verdura para se comer com arroz, feijão, lingüiça, torresmo, ovo e banana frita. Eu poderia ficar um mês me alimentando só de bandeja paisa. E já me acostumei com o abacate também. Como sabem os leitores antigos, a questão filosófica do lugar do abacate já nos ocupou antes.

O colóquio começa hoje, às 8 da matina, com palestra deste atleticano que vos fala. É motivo de um pouco de apreensão para mim, evidentemente, abrir o congresso de 150 anos de Carrasquilla, na cidade do cabra, com um público de carrasquillólogos. Imaginem um colombiano abrindo o congresso do centenário de Machado de Assis no Rio de Janeiro. Pois é. Se eu der algum vexame, ponho a culpa em vocês e digo que ando blogando demais e me preparando de menos.

PS: Há alguns contos de Carrasquilla disponíveis na internet. Chamo a atenção para o seu primeiro relato, Simón el mago.

PS 2: Alô, pessoal do Impedimento! Cheguei a Medellín justamente em dia de jogo. No clássico montanheiro, houve vitória do time mais popular, o Medellín, sobre o time da elite, o Nacional, por 2 x 1. A peleja foi horrível no primeiro tempo, mas melhorou muito no segundo, com os vermelhos se aproveitando bem de um imenso buraco entre os setores de contenção e de criação do meio-campo esmeraldino.

PS 3: Isto já foi dito aqui, mas não custa repetir, em vista dos últimos excelentes posts: Mauricio Santoro está fazendo o melhor blog de política internacional do Brasil.

PS 4
: Também está maravilhoso acompanhar as viagens da Lucia Malla e do André pelo Mato Grosso do Sul.

Atualização: Um maluco da companhia que hospeda o Biscoito apagou todos os 24.000 comentários do blog pensando que eram spam. Conseguimos restaurá-los, exceto os comentários feitos no dia de hoje, 22/09. Tenho cópias deles e depois vou restaurá-los manualmente. A casa pede desculpas aos que comentaram hoje :-(



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sábado, 20 de setembro 2008

"As mulheres voltam para Obama"

A frase não é minha. É da agência de notícias AFP.

De minha parte, aí vai uma mescla de constatação e previsão para as eleições americanas: o “efeito Sarah Palin” acabou e não volta. A única ressalva que faço quanto à previsão é a possibilidade – pequena, mas não desprezível – de que Joe Biden cometa alguma gafe no debate entre os candidatos a vice-presidente, chamando a governadora, por exemplo, de “bonitinha”. Fora isso, acabou.

20 dias depois da escolha da criacionista do Alaska para a vice-presidência da chapa republicana, onde estão os números? Exatamente onde estavam antes das duas convenções. 20 dias após a escolha que, segundo alguns comentaristas, impactaria profundamente o eleitorado feminino, em que níveis se encontra o apoio a Obama entre as mulheres? Em níveis mais altos que antes.

Aos números. O gráfico abaixo é da Research 2000, e mede a diferença entre as opiniões favoráveis e desfavoráveis sobre os quatro candidatos a presidente e vice. Depois dos fogos de artifício iniciais, veja a curva da relação favorável / desfavorável de Sarah Palin. Dez dias atrás, a relação era +15. Hoje, já está em -7:


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Segundo outra agência de pesquisa, a Quinnipiac, há um mês Barack Obama liderava entre o eleitorado feminino por 53 x 39. Um mês depois, e com o efeito do “furacão” Sarah Palin já computado, quais são os números da Quinnipiac de anteontem? Liderança de Obama por 54 x 40 entre as mulheres.

Tomemos as mulheres brancas, que são o grupo que supostamente faria toda a diferença. Segundo a pesquisa da CBS / NYT (pdf), no dia 20/08, antes das duas convenções, McCain liderava Obama por 43 x 38 nesse grupo. Hoje, na mesma pesquisa, as mulheres brancas escolhem Obama por diferença de 47 x 45. Repito: segundo a pesquisa CBS / New York Times, o apoio de Obama entre as mulheres brancas subiu nove pontos depois de Palin. O de McCain caiu dois.

Eis aí o efeito do “furacão” Palin.

PS: Repercutir todas as notícias negativas que saem a cada dia sobre a monstruosidade que é a trajetória política de Sarah Palin exigiria um blog de dedicação exclusiva. Mas esta última talvez não tenha circulado o suficiente: no Alaska, a cidade administrada por Palin era a única que cobrava exigia pagamento das vítimas de estupro pelo exame de coleta de provas.



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sexta-feira, 19 de setembro 2008

O sumiço dos profetas

Num momento econômico como este, não dá vontade de aproximar-se de um desses fundamentalistas do mercado -- heraldos da sapiência infinita da receita neoliberal, Marios e Alvaros Vargas Llosa, aquela penca de economistas do tucanato, os engravatados moleques de recado do FMI e a longuíssima lista de catervas e congêneres –, tocá-los suavemente no ombro e sussurar nos seus ouvidos: e aí, companheiro, como anda a sua fé no dogma?

Convenhamos, é um choque e tanto para o receituário religioso da crença na potestade do mercado: a nação do livre mercado conclui oito anos de governo do partido do “governo pequeno” com o seu Banco Central fazendo a maior intervenção da história nos negócios privados, salvando com US $ 85 bilhões um mega-conglomerado cujo negócio é fornecer ..... seguros! Você pagou para (não) ser assegurado duas vezes. Na República dos Estados Unidos Soviéticos da América (via), você tem o melhor dos dois mundos: todas as garantias de lucro são do oligopólio, todos os riscos são seus. Não é uma coisa de gênio? Por um capitalismo genuinamente socialista para todos os ricos!

Não dá vontade, talvez, de adotar uma abordagem um pouco mais agressiva e dizer àqueles economistas – aqueles, do receituário do FMI, que apareciam tanto na televisão durante o tucanato, lembram-se? -- com uma voz um pouco mais agressiva: o Sr. não suspeita, cumpadi, que a “ciência” que o Sr. está fazendo é um mero aparato de justificativas pomposas para uma estratégia de transferir ainda mais renda dos pobres para os ricos? O Sr. acredita realmente no que está dizendo ou faz de má fé?

Nos EUA, o Partido Republicano conseguiu uma extraordinária façanha: convencer uma parcela significativa do eleitorado de que o governo é “o problema”, não “a solução”. Assim, nesses termos. Portanto, votem em nós. Elejam para o governo aqueles que acham que o governo é o problema e deve fazer cada vez menos. Convenhamos, é uma plataforma que minimiza o erro.

O gerente de campanha de John McCain, Rick Davis, seu conselheiro Charlie Black, e o avaliador da escolha vice-presidencial, Arthur Culvahouse, foram lobistas dos gigantes das hipotecas. Perguntado sobre como ele reagiria à crise, McCain disse que “mandaria embora” o diretor da Security and Exchange Commission (SEC). Detalhe: a SEC é uma agência independente. Num discurso de campanha ontem, Obama bateu duro em McCain, associando-o às políticas desastrosas da administração Bush.

PS: Enquanto isso, Lula dá uma declaração histórica e o Paraíba faz um belo post.



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quinta-feira, 18 de setembro 2008

Sobre três relatos de Arguedas, Borges e Guimarães Rosa

O antropólogo índio peruano José María Arguedas, o refinado bilíngüe argentino Jorge Luis Borges e o erudito poliglota matuto João Guimarães Rosa são autores de três relatos que retrataram de forma curiosa a figura do homem , pensaram de forma insólita a masculinidade. Apesar de sempre tê-los lecionado, hoje pela primeira vez conduzo um seminário sobre os três textos em conjunto. O efeito é revelador.

Arguedas era falante nativo de quechua, bilíngüe em espanhol só depois de moleque no colégio. Formado em antropologia, pioneiro em pesquisas antropológicas sobre as culturas andinas do Peru, ele vive a estranha cisão de ser ao mesmo tempo sujeito e objeto do que estuda. Vivia com a imagem da mulher gigantesca, invariavelmente índia, e mais sensual quanto mais sobredimensionada na memória. A mulher em Arguedas é uma espécie de Tia Anastácia bugre, hiper-sexualizada, ante a qual o garoto, assombrado, sucumbe no teste de macheza. Mas Arguedas vive um drama que é todo particular seu, diferente de outros escritores homens que trabalham essa imagem da iniciação adolescente com a mulher enorme sobre-erotizada. Essa fêmea é, quase sempre, em Arguedas, estuprada. É vítima da violência patriacal branca que vê a mulher índia como objeto. Sobre duas formas distintas de se receber o legado desse pai violador, José María Arguedas escreveu o relato Warma Kuyay (Amor de Niño).

Algum tempo depois, João Guimarães Rosa, de quem Arguedas gostava muito – de meu “irmãozinho” tratou-o uma vez –, escreveu A terceira margem do rio, uma espécie de versão condensada do poder rosiano de assombrar. O efeito do conto depende desse estranho postulado, um ponto localizado entre as duas margens mas não “meio” do rio, e sim numa terceira, impossível margem. Também se trata aqui de uma mulher sobre-dimensionada -- Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente -- e de um homem que foge à função masculina, se recusa a abraçá-la. Ao invés de adotar o ponto de vista da lei e da decência, instala-se num outro lugar – mantendo-se, ao mesmo tempo, visível para o filho que narra e que, atônito, tenta transmitir e justificar a escolha do pai.

Jorge Luis Borges, que não conhecia nem Arguedas nem Rosa muito bem, escreveu La intrusa num dos momentos em que mais teve raiva de sua onipresente e super-protetora mãe. No dia 25 de setembro de 1965, enquanto recebia a Ordem do Sol da Embaixada Peruana, Borges tinha também a notícia de que Maria Esther Vásquez se casava com o poeta peruano Horacio Armani. Maria Esther foi um dos muitos amores de Borges bloqueados pela mãe. Ele, que quase nunca incluía mulheres em seus relatos, imagina essa figura da mulher extra, compartilhada por dois irmãos que depois passam pela humilhação de ser apaixonarem por ela e terem que resolver o dilema tragicamente. Enquanto que a crítica tem se focalizado na óbvia viadagem presente no conto, só hoje, lendo a magnífica biografia de Borges escrita por Edwin Williamson, prestei a devida atenção a um fato curioso: “La intrusa” foi ditada por Borges a (adivinhem?) Dona Leonor, a mãe que, mesmo sem gostar do texto, ante a dificuldade de Borges para encontrar o fechamento da tragédia de Juliana, recita para o filho, sem hesitação, as frases finais do conto: A trabajar, hermano. Después nos ayudarán los caranchos. Hoy la maté. Que se quede aquí con sus pilchas. Ya no hará mas perjuicios.

Um dos relatos mais violentamente misóginos da literatura teve seu fecho inventado por Dona Leonor Acevedo de Borges, essa mulher odiadora de mulheres.

PS: Imperdível: Borges na televisão espanhola (em 9 partes).



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quarta-feira, 17 de setembro 2008

O massacre de Pando

Inacreditavelmente, a imprensa brasileira noticiou o massacre de Pando, na Bolívia, na semana passada, como um “confronto” entre partidários e opositores de Evo Morales. Assim, como se tivesse sido um enfrentamento.

Vínhamos como fazemos sempre, acompanhados de mulheres e crianças, mas desgraçadamente encontramos uma emboscada no povoado Porvenir, recordou Rodrigo Medina, Secretário da Federação de Camponeses Mãe de Deus de Pando. Todos os veículos do governo do estado foram usados na caça aos camponeses. Em cada um deles, mais de trinta capangas com rifles e metralhadoras, pagos para assassinar. Um dos grupos perseguiu os camponeses entre o riacho Porvenir e o rio Tahuamano. O outro caçou-os estrada afora. O terceiro já esperava para matá-los no próprio povoado. Os camponeses que correram para o rio foram abatidos pelas costas ou assassinados na própria água, morrendo como cães.

Eles iam para uma reunião de federações camponesas bolivianas.

O autor intelectual dos massacres é Leopoldo Fernández, senhor de controle quase feudal sobre a região há décadas, empregado das ditaduras de Luis García Mesa (1980-81), Celso Torrelio y Guido Vildoso (1981-1982) e Hugo Banzer-Jorge Quiroga (1997-2002).
(fonte).

Veja o testemunho de dois sobreviventes, enquanto os cadáveres dos camponeses eram recolhidos:

(via Cidadania)

Eis aí o que a Folha de São Paulo, ainda hoje, chama de “confrontos” entre partidários e opositores de Morales.



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terça-feira, 16 de setembro 2008

Eleições americanas. Estados decisivos: 1) Ohio

Sempre que penso em Ohio, me lembro de uma quase oferta de emprego que tive pelos idos de 1996, bons tempos da América clintoniana: era meu primeiro ano no mercado de trabalho e, por via das dúvidas, mandei papelada para todo canto, até para dar aulas de lunfardo. A quantidade de entrevistas acabou sendo absurda para os três dias de congresso do MLA, que naquele ano calhou de ser em Toronto. As universidades e os bons colleges, claro, marcavam as entrevistas para suas suítes em hotéis. As faculdades mais modestas tinham cubículos num pavilhão, o carinhosamente chamado meat market. Ali tive uma entrevista normal com um college de Ohio. Ele não ficava em nenhuma das três grandes cidades, Cleveland, Columbus ou Cincinnatti e, em vista do acontecido, permanecerá inomeado.

Para o final da entrevista, é protocolar que a universidade lhe dê a oportunidade de fazer alguma pergunta, e naquele dia eu lhes perguntei, sei lá, sobre a região, como era, o que faziam, como se entretinham. O fato é que já não me lembro bem qual foi a pergunta, mas a resposta foi uma troca de olhares insólita, desesperada entre meus entrevistadores, seguida da frase salvadora de um deles: bom, nós estamos a 10 minutos da auto-pista interestadual. Nesse dia, eu entendi que há lugares que podem se gabar de estar a 10 minutos da highway. Ali, naqueles lugares, Bush venceu a eleição de 2004 contra Kerry.

Um Republicano nunca chegou à Casa Branca sem Ohio. A última vez que o vencedor de Ohio não venceu a eleição nacional foi em 1960, quando John F. Kennedy perdeu o estado para Nixon. Este ano, Ohio é mais “essencial” para McCain que para Obama, no sentido de que há outros mapas de vitória possíveis para o Senador de Illinois. É difícil imaginar uma vitória para McCain que não mantenha Ohio na coluna republicana.

Ohio é representativo e chave também pela demografia: a população negra anda ali pelos 12.5%, mais ou menos o que tem no país todo. O interior é branco e religioso, mas não só protestante. Há mais de 2,2 milhões de católicos em Ohio, decisivos em 2004. É verdade que a marcha dos setores religiosos às urnas para Bush em 2004 foi maciça entre os evangélicos, escandalizados por uma emenda anti-casamento gay. Mas numa eleição contra o católico John Kerry, o voto católico de Ohio – nada desprezível numericamente: 26% do estado -- foi em 55% para Bush, e decidiu a parada.

Os católicos são considerados swing electorate nos Estados Unidos porque tendem a concordar com os democratas em tudo – sindicalização, benefícios sociais, política de impostos, política externa etc. -- exceto, claro, com o bicho-papão: Roe v. Wade, cuja defesa, pelo menos nominal, é ponto de honra para o Partido Democrata.

A vitória decisiva de Bush na eleição de 2004, a de Ohio, foi uma besta religiosa de duas cabeças: paranóia anti-casamento gay para arrancar, sei lá, 90% do voto evangélico e fúria anti-abortista para vencer entre os católicos por 55 a 44, contra um candidato católico com o qual o eleitorado católico concordava em todo o resto. Durma-se.

Obama pode vencer lá? Pode. Fácil? De jeito nenhum. Tem que 1) arrancar uma vitória homérica em Cleveland. Em Cuyahoga County, onde fica a cidade, Kerry venceu por 66 a 33, e Obama tem potencial para mais; 2) ter uma boa votação em Columbus e Cincinnatti; em Franklin County (Columbus) Kerry venceu por 54,5% a 45%, e Obama também pode aumentar essa diferença; 3) fazer uma mensagem populista-econômica chegar ao eleitorado da devastação pós-industrial do interior de Ohio para contrabalançar minimamente o voto conservador religioso dos grotões.

A boa notícia é que a máquina de manipulação que era a Secretaria do Estado nas eleições de 2004 já não está em mãos republicanas. Ajuda do juiz, como em 2004, o candidato republicano não terá. Este é o mapinha com o qual Bush levou o estado em 2004. As cores estão trocadas. Bush é azul e Kerry é vermelho:

ohio-map.jpg
(daqui)

Quem olha o mapa pode pensar que foi uma goleada. Mas Bush teve 2.859.768 votos contra 2.741.167 de Kerry. A região de vermelho mais forte, lá em cima, é a área metropolitana de Cleveland, Cuyahoga County. O único condado vencido por Kerry “no meio” do estado é Franklin County, onde fica Columbus. Mais uma vitória a oeste, na área metropolitana de Dayton, e outra a leste, no Condado de Athens, onde fica Ohio University. Outra lá em cima, na área siderúrgica de Trumbull County, no extremo nordeste do estado. De resto, Bush venceu tudo, tirando nos grotões a vantagem de Kerry nas urbes.

Em 1992 e 1996, Clinton levou Ohio, com seu perfil moderado para os grotões e maciço apoio entre os negros na região metropolitana de Cuyahoga County. Seis anos antes da primeira vitória, em 1986, uma certa banda de rock compôs, em homenagem ao rio que atravessa o condado, uma canção que seria quase um hino ecológico, um anúncio dos anos Clinton que viriam. É dessas canções que falam do passado antevendo o futuro. Cuyahoga é uma das pérolas do álbum Life's Rich Pageant, do REM:


Cuyahoga - R.E.M.

As pesquisas dão, no momento, vantagem de 2 a 3 pontos para McCain no estado de Ohio. Big Dog esteve lá hoje, fazendo campanha para Obama.



  Escrito por Idelber às 01:28 | link para este post | Comentários (26)



segunda-feira, 15 de setembro 2008

Links

O Alaska é um dos locais de ecossistema mais inóspitos e delicados existentes, cheio de biomas diferentes, todos relacionados às temperaturas gélidas: florestas boreais, oceanos frios, taiga, tundra, estuários, montanhas fascinantes - o belo e temido Denali está lá. É habitat natural de diversas espécies de seres vivos, entre elas grandes mamíferos como as baleias jubarte, belugas e lontras, todos ameaçados de extinção. Isso para não falar das plantas, fungos e da sua importante e rica área costeira.

Atendendo a um pedido deste blog, a amiga Lucia Malla traz todo seu conhecimento a um post sobre o que está em jogo para o meio ambiente nas eleições americanas.

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Ainda sobre as eleições americanas, Obama e o possível fim da política do medo é um texto meu ainda não publicado na íntegra aqui. Ele só havia circulado na edição do mês passado da Revista Fórum.

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Muitos de vocês já terão visto, mas não dá para deixar de chamar a atenção para esta inacreditável história narrada pelo Träsel, acerca da “oferta” feita a ele pelo portal de blogs da Abril: migrar o blog para lá, produzir conteúdo de graça, ceder todos os direitos sobre ele, não ter direito a pôr publicidade enquanto a empresa ganha com banners em cima do conteúdo expropriado e tudo isso em troca de .... poder ser chamado blogueiro VIP da Abril! Exemplar a resposta do Träsel. Vale a leitura.

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Recomendo também a ótima e bem informada análise de Sergio Leo sobre a situação na Bolívia (via Pedro).

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Acabei de devorar as 1500 páginas de My Life, de Bill Clinton. Magnificamente escrito, o livro está por aí. É para se morrer de depressão com o rumo tomado pelo país depois.



  Escrito por Idelber às 05:52 | link para este post | Comentários (20)



sábado, 13 de setembro 2008

Um link

Viúva de Paulo Freire escreve contundente resposta à Veja.



  Escrito por Idelber às 04:30 | link para este post | Comentários (31)



sexta-feira, 12 de setembro 2008

Abaixo do pescoço tudo é canela: Como os Republicanos vencem eleições

A barragem de ataques sobre Barack Obama vindos da campanha de John McCain tinha se centrado, até agora, na sua “falta de experiência”, nos imaginados ou exagerados vínculos con radicais e em supostas (e algumas reais) osciliações de Obama. Não havia acontecido nada comparável aos golpes baixos que são vistos em eleições nacionais, pelo menos não explicitamente. Até este comercial:

Se McCain conseguir vencer – ou, melhor dito, se Obama conseguir perder – estas eleições, voltaremos a este clip como um ponto chave da virada. O comercial acusa Obama de querer “ensinar sexo” às crianças antes de que elas aprendam a ler. A base da acusação é uma lei na qual Obama votou uma vez, que simplesmente previa informação sobre doenças sexualmente transmissíveis para crianças de primeiro grau. Tudo no comercial é cuidadosamente pensado: a imagem das crianças ao fundo, a voz apocalíptica anunciando a notícia, a tomada da câmera no final, de baixo para cima, sobredimensionando a figura de Obama como uma espécie de predador em potencial. O sub-texto racial e os medos que o comercial quer mobilizar são nítidos, óbvios. Basta conhecer um pouco dos grotões americanos para saber do seu potencial demolidor. A idéia é aterrorizar a família -- “Obama: Wrong for your family!” -- com a imagem do vizinho negro grandão que tem aquela pinta de que toca seus filhos demais.

Uma campanha eleitoral da direita americana realmente faz ACM parecer brincadeira da hora de recreio. Na base democrata, começa a impaciência com a falta de respostas da campanha de Obama, quando já se completam 10 dias de domínio do ciclo de mídia pelos republicanos. Ataques demolidores como esse – sem nenhum argumento, claro, mas com imagens potentes que mexem com tensões racistas bem fundas -- não podem ser respondidos com declarações de indignação e críticas políticas. Não é suficiente. Exigem comerciais explícitos, que chamem o adversário de mentiroso – coisa que a campanha de Obama não tem feito.

A única boa notícia vinda da campanha de Obama é que foi dado o sinal verde para que os grupos 527 liberais, encarregados da pancadaria, voltem a atuar. O comercial visto aqui foi lançado pela própria campanha de McCain, diga-se. Ele aparece ao final “avalizando” o conteúdo da mensagem. Este é o John McCain que ia fazer a campanha "honrada".

Ocorrem-me dois exemplos clássicos de comerciais de pânico racializado vencendo eleições nos EUA:

1. Carolina do Norte, campanha para o Senado de 1990, em que o ultra-direitista Jesse Helms vinha sendo desafiado com sucesso por uma jovem liderança negra, Harvey Gantt, que já o ultrapassara nas pesquisas. Até que este comercial anti-ações afirmativas, mostrando mãos negras "roubando" um emprego que seria de um branco, virou a eleição e Helms venceu:

2. A segunda vítima de uma intervenção midiática de pânico racializado numa eleição -- apreciem a ironia -- foi o próprio McCain, que perdeu a primária republicana da Carolina do Sul para Bush em 2000 (e com ela a indicação do partido) depois que a equipe de Bush promoveu uma push polling -- suposta pesquisa de opinião que na realidade pretende "empurrar" uma hipótese caluniosa para o inconsciente do eleitorado. A pergunta da pesquisa arquitetada por Karl Rove em 2000 foi: você estaria mais ou menos propenso a votar em McCain se soubesse que ele é pai de um filho negro ilegítimo?

Com isso e unas cositas más McCain foi esmigalhado na Carolina do Sul e nunca se refez do baque. Bush ganhou ali a indicação republicana e o mundo tem sobrevivido para contar o conto.

McCain? Contratou o arquiteto das calúnias que o destruíram em 2000.



  Escrito por Idelber às 03:28 | link para este post | Comentários (48)



quarta-feira, 10 de setembro 2008

Mini-antologia de George W. Bush

As relações de fronteira entre o Canadá e o México nunca estiveram melhores. George W. Bush, conferência de imprensa com o Primeiro Ministro Canadense Jean Chretien. Set. 24, 2001

Uma ditadura seria bem mais fácil, não há dúvida. George W. Bush, Jul 27, 2001.

Eles querem que o governo federal controle a Seguridade Social como se fosse lá um tipo de programa federal. George W. Bush, Nov. 2, 2000

É o seu dinheiro. Você pagou por ele. George W. Bush, LaCrosse, Wis., Out. 18, 2000

Se eu me tornar presidente, vamos ter atendimento de emergência, vamos ter ordens de mordaça. -George W. Bush, terceiro debate presidencial, St. Louis, Missouri, Out.. 18, 2000.

Eu acho que se você sabe o que você acredita, fica muito mais fácil responder as perguntas. Eu não sei responder sua pergunta. George W. Bush, sobre se ele desejaria voltar atrás em qualquer uma de suas respostas no primeiro debate, Reynoldsburg, Ohio, Oct. 4, 2000

Eu sei o que acredito. Continuarei a articular o que acredito e o que acredito – eu acredito que o que acredito é certo
. George W. Bush, Roma, Julho 22, 2001.

Quero dizer, houve um sério esforço internacional para dizer a Saddam Hussein, você é uma ameaça. E os ataques de 11/09 extenuaram essa ameaça para mim. --George W. Bush, Philadelphia, Dec. 12, 2005

Uau! O Brasil é grand
e --George W. Bush, depois que Lula lhe mostrou um mapa, Brasília, Nov. 6, 2005

Eu ouvi alguém dizer, “Onde está Mandela?” Ora, Mandela está morto. Porque Saddam matou todos os Mandelas. George W. Bush, Washington, D.C., Sept. 20, 2007

Para cada disparo fatal, houve em volta cerca de três disparos não-fatais. E, amigos, isto é inaceitável na América. É simplesmente inaceitável. E vamos fazer algo para resolver
. -George W. Bush, Filadélfia, Penn., May 14, 2001

Mais de duas décadas depois, é difícil imaginar a Guerra Revolucionária com qualquer outro resultado. -George W. Bush, Martinsburg, W. Va., July 4, 2007

Nesta mesma semana em 1989, houve protestos em Berlim Oriental e em Leipzig. No final do ano, todas as ditaduras comunistas da América Central já tinham caído
. -George W. Bush, Washington, D.C., Nov. 6, 2003

Veja, as nações livres são nações pacíficas. As nações livres não atacam umas às outras. As nações livres não desenvolvem armas de destruição em massa. George W. Bush, Milwaukee, Wis., Out. 3, 2003

O problema dos franceses é que eles não têm uma palavra para “enterpreneur”
. " George W. Bush, ao Primeiro Ministro Tony Blair.


É importante para nós explicarmos à nossa nação que a vida é importante. Não é só a vida dos bebês, mas é a vida das crianças vivendo, você sabe, nos calabouços escuros da Internet.




Traduções minhas. Tem muito, muito mais, no original, aqui.



  Escrito por Idelber às 05:39 | link para este post | Comentários (35)



segunda-feira, 08 de setembro 2008

Por que a vantagem de Obama não é maior?

Ao longo da semana passada, as matérias publicadas pela Folha sobre as eleições americanas repetiram um mesmo bordão, a insistente pergunta: por que a vantagem de Obama nas pesquisas não é maior? O objetivo deste post é explicar por que essa pergunta não faz sentido.

Na matéria escrita no domingo (link para assinantes), Fernando Rodrigues afirma: A economia do país está à beira de uma de suas piores recessões, como vários indicadores atestam, mas o candidato governista e republicano John McCain se mantém praticamente empatado nas pesquisas de intenção de voto com o democrata Barack Obama. Uma hipótese para explicar esse possível paradoxo é que a crise econômica tal qual tem sido noticiada na mídia, por causa dos indicadores ruins, ainda não afetou com força uma parcela considerável do eleitorado.

Jisuis, a crise econômica afetou muito mais que “uma parcela considerável do eleitorado”! A taxa de desemprego é a maior dos últimos cinco anos. O número de americanos que viram seus empregos de tempo integral reduzidos a meio horário chegou a 3,7 milhões, a maior cifra desde que o governo começou a computar esta estatística, há 50 anos. Sobre a crise imobiliária, a matéria da Folha afirma que ela fez milhares de pessoas perderem suas casas. Caro Fernando Rodrigues, as perdas de hipotecas não se medem aqui por milhares. Não se medem por dezenas de milhares. Não se medem por centenas de milhares. As perdas de casas nos EUA já há tempos se contam pelos milhões.

Por que, então, não faz sentido se perguntar por que Obama não tem vantagem grande nas pesquisas? A resposta é pateticamente simples: porque assim são as eleições americanas. Sabem qual foi o último candidato a ser eleito com mais de 50% dos votos? Bush pai, em 1988, com 53,4%. Exato, há duas décadas ninguém recebe mais de 50% dos votos aqui. Clinton foi eleito em 1992 com 43% (numa eleição atípica, já que havia um terceiro candidato, Perot, que recebeu 1 de cada 5 votos). Em 1996, numa goleada histórica de Clinton sobre os Republicanos, a diferença foi 49,2% a 40,7% sobre Bob Dole. Em 2000, quando Bush filho venceu joserobertowrightianamente, a diferença em favor de Al Gore no voto popular foi 48,4% a 47,9%. Trata-se de um sistema eleitoral onde cada um dos dois candidatos já entra com 40%. Aqui não existem goleadas de 62 a 38. Goleadas de 62 a 38 são exclusividade de países onde o governo bate recordes históricos de redução da desigualdade social e a única plataforma eleitoral da oposição é falar de grampos telefônicos.

Portanto, toda a indagação sobre o “problema” de Obama não tem o menor sentido. Os números são os esperados e quem conhece a história eleitoral americana sabe disso. Ninguém que conhece o jogo jamais achou que ia ser fácil.

O outro grande serviço que a Folha poderia prestar aos seus leitores é avisar que manchetes como Obama abre 5 pontos, McCain empata com Obama, McCain está um ponto na frente são não-fatos. Como os leitores deste blog já estão carecas de saber, as pesquisas nacionais não significam nada, pois a eleição é indireta. David Plouffe, o competentíssimo coordenador da campanha de Obama, afirmou outro dia numa conversa: “as tracking polls a gente nem olha”.

Segundo os cálculos deste blog, McCain tem, garantidos, 157 votos no Colégio Eleitoral. É a soma de Alaska, Utah, Idaho, Arizona, Wyoming, Dakota do Sul, Nebraska, Kansas, Oklahoma, Texas, Louisiana, Mississippi, Tennessee, Kentucky, Virgínia Ocidental, Alabama, Arkansas, Geórgia e Carolina do Sul.

Obama tem 200 votos sólidos no Colégio Eleitoral: é a soma de Califórnia, Washington, Oregon, Havaí, Illinois, Wisconsin, Vermont, Maine, Maryland, Nova York, Rhode Island, Connecticut, Massachusetts, Nova Jersey, Delaware e o Distrito de Columbia (da cidade de Washington).

Ganha quem chegar nos 270.

São 181 votos indefinidos: a soma de Ohio, Flórida, Pensilvânia, Nevada, Novo México, Virgínia, Carolina do Norte, Montana, Dakota do Norte, Michigan, New Hampshire, Indiana, Colorado, Iowa, Minnesota e Missouri. O mapinha, com o número de votos que cada estado carrega ao Colégio Eleitoral, é este.

As pesquisas nesses 16 estados são as únicas que importam. Em alguns deles, McCain é forte favorito, como em Missouri. Em outros, Obama é forte favorito, como na Pensilvânia. Mas é razoável dizer que em todos eles há alguma chance para ambos.

Em breve, um passeio estado a estado, por esses 16.



  Escrito por Idelber às 06:43 | link para este post | Comentários (61)



domingo, 07 de setembro 2008

Mangue Beat na Argentina

A revista argentina Todavía me pediu um artigo sobre a música brasileira popular. Mandei-lhes um texto sobre Chico Science e o Mangue Beat. Deixo aqui o primeiro parágrafo e, logo depois, o link para que você continue lendo lá no bacaníssimo site dos argentinos.

Nueva York, junio de 1995: un amigo me cuenta que el recital de la leyenda musical brasileña Gilberto Gil, en Central Park, será abierto por un vocalista de nombre insólito, Chico Science, acompañado por su banda Nação Zumbi (en lo sucesivo, CSNZ). El grupo ya era conocido en Brasil por su disco Da lama ao caos (1994), pero en aquellos primeros días de Internet, los expatriados tardábamos bastante en enterarnos de las novedades musicales del país. El hecho es que en 1995 yo no había oído nada aún acerca de ese tal Chico Science o de la escena musical conocida como mangue beat (“mangue”, en portugués, designa a las zonas pantanosas y húmedas de algunas regiones litoraleñas tropicales). Haber considerado la posibilidad de no llegar para el show de apertura e ir sólo a ver a Gil es un testimonio de la segmentación del público consumidor de aquel momento, o sea, el divorcio entre la música del Nordeste y los gustos de los oyentes de la clase media del Sudeste. Finalmente llegué para el recital de CSNZ, sin saber que me impresionaría más que cualquier banda brasileña que yo hubiera visto hasta entonces. El rasgo más evidente era que mezclaban cosas que nunca antes se habían mezclado. Esto no es, por cierto, un valor en sí mismo, pero en aquel caso seguramente funcionaba.

Continue lendo Chico Science y el Mangue Beat, minha primeira colaboração com essa bela revista argentina.




PS: Será que perco meu tempo respondendo a incrível asneira publicada ontem pelo Prof. Roberto Romano?

PS 2: O dia de hoje não deixa de ser especial: é a data nacional mais insignificante e pobre de simbolismo do planeta. Nada, nada que importasse aconteceu no dia 07 de setembro de 1822.



  Escrito por Idelber às 04:21 | link para este post | Comentários (68)



sábado, 06 de setembro 2008

Los goles de penal no se festejan



  Escrito por Idelber às 16:34 | link para este post | Comentários (8)



sexta-feira, 05 de setembro 2008

Aprende a guglar, McCain!

Ah, como eu vou me divertir nestas eleições! Vejam só a revolução que os blogs e a mídia independente já conseguiram realizar nos EUA. Vocês, que assistiram ao discurso de McCain ontem à noite, na convenção republicana, terão notado a imagem de uma mansão projetada atrás do candidato. A imagem é esta:

mccainhousebackdrop.jpg

Pois bem, no dia de hoje, a mídia coçava a cabeça: que porra de casa é aquela? Será uma das mansões do McCain? Por que ele projetaria a imagem de uma de suas mansões durante o discurso na convenção? Josh Marshall, no TPM, perguntou-se a mesma coisa no post de ontem à noite. Imediatamente, a fenomenal equipe de leitores do TPM pôs-se a trabalhar. E mataram a charada. Trata-se da Walter Reed Middle School, que fica em North Hollywood, na Califórnia.

Mas continuava o mistério. Por que essa escola? Chegaram à única explicação plausível. A equipe de McCain queria mostrar imagens do Walter Reed Medical Center, do Exército, onde veteranos de guerra são atendidos. Guglaram errado e pegaram a imagem da escola, que tem o mesmo nome. Resultado: a diretora da escola já emitiu um anúncio dizendo que jamais autorizou o uso da imagem e que a escola não apóia nenhum candidato. A Walter Reed Middle School junta-se, pois, a John Cougar Mellencamp, Bruce Springsteen, Wayne's World, Van Halen, Heart e Jackson Browne no rol dos que já tiveram imagens ou sons utilizados pelo Partido Republicano para fins eleitorais sem autorização.

Os democratas da Califórnia não perderam tempo e marcaram uma conferência de imprensa para o gramado da escola na tarde de hoje. O candidato John McCain confessou, há algumas semanas, que está “aprendendo a usar” um computador. Sua equipe, claramente, poderia tomar algumas aulas de guglagem com a Luiza Voll e a Bianca Bueno.



  Escrito por Idelber às 18:40 | link para este post | Comentários (24)




Julio César, que mora na Itália, manda Lula morar na Argentina

Foi via Além do Jogo que eu cheguei neste fantástico qüiproquó. O Presidente Lula, que entende bem mais de futebol que o Dunga, disse:

Quando vejo o Messi, na minha opinião o melhor jogador do mundo, perder uma bola, ele sai correndo até recuperar ou fazer falta. Os nossos perdem a bola e cruzam os braços.

O goleiro Julio César, que mora na Itália, responde:

Fiquei muito chateado realmente, como cidadão brasileiro, principalmente quando ele citou o caso do Messi [...] Então que vá morar na Argentina.

Mas a comédia não termina aí. Diego, que não é nem um pouco pretensioso, preferiu não responder, dizendo:

Seria falta de ética comentar o trabalho dele em público. Não posso fazer o que ele fez. Sou uma figura pública, sou formador de opinião.

Numa coisa, reconheçamos, Lula foi injusto. Todos sabem que os jogadores da Seleção Brasileira, quando perdem a bola, não cruzam os braços. Sabemos que quando perdem a bola eles ajeitam o meião.

Enquanto isso, no Chile, o prêmio para uma vitória sobre a Seleção Brasileira é menor do que o oferecido por uma vitória contra a Colômbia.

Atualização: Estão sensacionais, hilários mesmo, os comentários deixados pelos leitores sobre o imbróglio aqui.



  Escrito por Idelber às 13:17 | link para este post | Comentários (75)



quinta-feira, 04 de setembro 2008

Sarah Palin e a convenção republicana

palin.jpgSabe aquele jogo de futebol que você está perdendo por 1 x 0 e o zagueiro é expulso? Você faz a substituição para recompor a defesa ou parte para atacar o adversário com a zaga capenga mesmo? Seguindo a tradição do Nosso Guia, que tem a metáfora futebolística para explicar tudo, poderíamos dizer que essa é a situação do Partido Republicano nesta eleição americana. Com um presidente que tem uma das taxas de aprovação mais baixas da história e um candidato que até alguns meses atrás não era exatamente adorado pela base ultra-reacionária que foi chave nas eleições de 2000 e 2004, o Partido Republicano se viu numa encruzilhada: energizar a base direitista ou conquistar os votos dos independentes, que em geral favorecem políticas mais moderadas?

A escolha da até então desconhecida fundamentalista, criacionista e ex-secessionista Sarah Palin, do Alaska, para a Vice-Presidência, foi uma tentativa de matar esses dois coelhos com uma cajadada só. A mulher está à direita de Médici e, sendo uma fundamentalista religiosa, mobiliza a base evangélica do Partido Republicano, que andaria em cacos de vidro por ela. O cálculo foi que, sendo mulher, capturaria uma parcela dos votos de mulheres independentes ou democratas que simpatizavam com a candidatura Hillary. Nada indica que este cálculo tem funcionado, como já prevíamos, aliás. Os números da Gallup mostram que, desde a escolha de Palin, McCain aumentou, é verdade, o seu apoio entre mulheres republicanas, de 85% para 90%. O problema é que para cada eleitor que chegou, um independente pulou para o lado de Obama. Desde a escolha de Palin, McCain perdeu votos entre as mulheres independentes e democratas.

Para piorar a situação, os escândalos foram se sucedendo: Palin, candidata a Vice-Presidente numa chapa que tem como slogan “country first”, teve laços com o Partido Independentista do Alaska, organização secessionista cujo fundador discursa sobre a “maldita” bandeira americana. Apareceu sua perseguição a um policial do Alaska que estava envolvido em divórcio litigioso com sua irmã e a posterior demissão do chefe que se recusava a dispensar o policial. Ontem, o "Trooper-Gate" piorou para ela, com a revelação de emails enviados da sua conta pessoal. Na seqüência, o retrato de “reformista” e “outsider” da governadora foi perdendo credibilidade, quando saíram as notícias de que ela dirigiu um Grupo 527 de Ted Stevens, Senador do Alaska em desgraça por corrupção. Finalmente, a grande bandeira da governadora, ter sido contra a ponte para lugar nenhum (projeto que custaria a bagatela de $398 milhões), revelou-se uma mentira, já que ela foi durante muito tempo uma das defensoras da tal ponte e fez campanha em 2006 em cima do tema.

Nada disso importa, claro, porque a adorável Bristol Palin, de 17 anos, está grávida. Há que se dizer que essa gravidez indesejada é um retrato da hipocrisia da direita religiosa, que continua esbravejando contra a educação sexual nas escolas e insistindo no mantra da “abstinência” como solução, para logo assistir aos seus próprios adolescentes apresentarem o exemplo de que isso não funciona. Mas o interessante no episódio da gravidez da moça é que a campanha de McCain viu aí a possibilidade de armar o teatro da indignação moral com a revelação da história e assim desviar a atenção de todos os outros escândalos. Foi a própria campanha de McCain quem revelou a gravidez. Logo depois, passaram às expressões de indignação contra a “exploração pessoal” da vida de Palin. Ninguém da campanha de Obama teceu qualquer consideração sobre a moça. Obama logo deu uma declaração de que não falaria disso e que convidava todos os seus apoiadores a não usarem o episódio. Mesmo os blogs liberais mais importantes – que Obama evidentemente não controla – não insistiram no assunto. Mesmo assim, durante todo o dia, só se ouvia, da campanha de McCain, a retórica da indignação moral ante a adolescente supostamente massacrada. Pode até ser que cole, posto que vi gente inteligente caindo igual patinho na versão propagada pela campanha de McCain.

No discurso de Sarah Palin ontem à noite na convenção, ficou claro qual será a estratégia: tentar mobilizar raivosamente a base com ataques pessoais a Obama (esqueceu-se, claro, de que menos de três semanas atrás, ela dava entusiasmadas declarações sobre Obama). É a estratégia que funcionou nas duas últimas eleições. Os números, a demografia, o contexto e acima de tudo o candidato democrata hoje são bem diferentes. Mas se alguém esperava que McCain fosse tentar manter a fama de “moderado”, pode tirar o cavalo da chuva. Vão fazer a mesma campanha sangrenta imortalizada por Karl Rove. Resta saber se vai funcionar com os independentes. Os últimos números da Gallup e da Rassmussen -- e eu sempre enfatizo que pesquisas nacionais, em eleições americanas, significam pouco -- mostram que Obama quebrou a barreira dos 50%.

PS: Não resisti e roubei a foto do Sergio Leo.

PS 2: Convido todos os jornalistas da Veja, da Globo e congêneres, com o seu papo de que o Brasil vive um "estado policial", a irem a Minneapolis tentar filmar os protestos pacíficos que foram convocados durante a convenção republicana: centenas de presos, jornalistas independentes jogados na cadeia por cobrir o evento e, pasmem, prisões preventivas em domicílio. Mas é o Brasil que vive um "estado policial", afinal de contas, a Veja tem uma fonte anônima que garante que alguém ouviu Gilmar Mendes falar ao telefone.



  Escrito por Idelber às 03:58 | link para este post | Comentários (64)



quarta-feira, 03 de setembro 2008

E dá-lhe factóide

Não, certamente não. A Abin, como instituição, não fez e não faz essas coisas [grampos], mas quando digo que não descartamos nenhuma hipótese é porque trabalhamos com seres humanos. Agora, se você me perguntar qual é a probabilidade [de agentes terem realizados a escuta], eu diria que é baixa, porque os chefes têm controle de seus funcionários, disse o General Félix.

Manchete da Folha? Agentes podem ter feito grampo, diz general

Nojo, nojo, nojo infinito da imprensa brasileira.



  Escrito por Idelber às 08:45 | link para este post | Comentários (85)



terça-feira, 02 de setembro 2008

Gilberto Rincón Gallardo (1939-2008)

gallardo.jpgMorreu neste sábado, aos 69 anos de idade, um dos maiores defensores dos direitos das minorias em toda a América Latina. Foi, com certeza, o mais valente batalhador pelos direitos de gays e lésbicas que já teve o México. Gilberto Rincón Gallardo foi dirigente do Partido Comunista Mexicano e do Partido Socialista Unificado do México. Em 1989, fundou o Partido da Revolução Democrática, com Cuauhtémoc Cárdenas. Foi candidato a presidente do México em 2000, com uma campanha que colocou no centro da discussão a discriminação por motivos de deficiência física ou de orientação sexual. Era o presidente do Conselho Nacional contra a Discriminação.

Foi preso político entre 1968 e 1971. Aliás, ostentava com orgulho um título sensacional, o de mexicano mais encarcerado da história: exatas 32 vezes ele foi preso, em todas elas por lutar pela democracia. Amado, reverenciado pelas comunidades gay e lésbica do México, ele se preparava para representar o país numa comissão das Nações Unidas encarregada de fiscalizar a aplicação das leis anti-discriminação. Era também conselheiro da UNICEF. Um de seus últimos artigos foi sobre a volta do racismo.

Vejo com muita tristeza a imprensa brasileira dedicar cadernos inteiros à criação e à exploração de um factóide, e nem uma única linha sobre a morte do Dr. Rincón Gallardo. O blog deixa aqui sua homenagem. Leitores gays, lésbicas: prestem hoje seu tributo a ele. O velho batalhou, em condições duríssimas, pelo seu direito de ir para a cama com quem bem entenderem.



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segunda-feira, 01 de setembro 2008

As últimas de Gustav

Para quem quiser acompanhar as últimas notícas acerca da chegada de Gustav à costa da Louisiana, a melhor fonte tem sido o blog do Times-Picayunne. Está tudo bem em New Orleans: um pouco de alagamento, com a água passando por cima dos diques (o tal "overtopping"), mas nenhuma ruptura até agora. Há árvores e semáforos caídos aqui e acolá -- coisa normal de furacão. No Harvey Canal, que era o meu grande medo, os diques agüentaram a pancada e parece que a água por lá já está retrocedendo. No Industrial Canal, o mais importante para New Orleans, há "overtopping", com quantidades pequenas de água passando para o lado de cá da cidade, mas ainda faltam três horas para que a água chegue a seu nível mais alto.

Claro que, à medida que o furacão vai seguindo seu curso para o noroeste, fica a preocupação com o encontro entre os ventos da parte de trás do bicho e o gigantesco Lago Pontchartrain. Sim, a capital do jazz está rodeada de água por todos os lados.

Mas a expectativa aqui é que já na quarta-feira possamos estar em casa.



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Veja: Gilmar Mendes e suas mentiras

Às vesperas da eleição presidencial de 2006, o Ministro Marco Aurélio de Mello veio à público com uma “denúncia” de que seus telefones e os de outros dois ministros do TSE estariam sendo grampeados. Ele chegou a insinuar que o governo Lula era responsável pelo grampo. Era mentira. Em 2007, Gilmar Mendes e Marco Aurélio de Mello vieram à tona com a história de que estavam sendo grampeados. Até a Globo noticiou: era mentira. Em 2008, quando a Operação Satiagraha do Doutor Protógenes conseguiu colocar na cadeia o banqueiro Daniel Dantas, Gilmar Mendes fez hora extra no fim de semana para soltá-lo duas vezes. Alguns dias depois, Mendes disse que havia ouvido da desembargadora Suzana Camargo a acusação de que o juiz Fausto de Sanctis o havia grampeado. Curiosamente, a desembargadora fez essa gravíssima acusação e depois pediu que a “esquecessem”. O grampo? Era mentira.

E eis que a Revista Veja agora publica uma “reportagem” que “demonstra” que a ABIN teria grampeado ... quem? Gilmar Mendes, claro! O mesmo que vem tentando há um ano convencer-nos de que é vítima de um totalitário estado que grampeia seus telefones. Quem afirma que houve grampo? Uma revista especializada em públicar mentiras sobre dólares em caixas de uísque ou guerrilhas colombianas financiando o partido do presidente. Qual a fonte? Um “anônimo” da ABIN, que teria passado à revista a notícia do grampo ilegal realizado pela própria agência de inteligência em que trabalha! Qual o conteúdo do grampo? Uma conversa do palhaço Mendes com um senador da oposição, na qual o presidente do STF aparece como destemido aliado da luta contra a pedofilia. Qual a evidência apresentada? A transcrição da conversa, cuja veracidade é avalizada pelo ..... próprio Gilmar Mendes! Alguma outra evidência? Nada, além da palavra do próprio palhaço que encontra no factóide a justificativa para a ladainha que ele vem há um ano inventando – e sendo desmentido pelos fatos. É o único grampo da história da humanidade feito para que o grampeado fique bem na fita! Não é coisa de gênio? Se algum escritor iniciante me apresentasse isso como enredo de uma farsa em três atos, eu diria: volte para o computador, meu filho, comece tudo de novo e escreva algo mais verossímil.

A imprensa controlada por oligopólios é ruim no mundo todo, mas em pouquíssimos países organizações com uma história de criminalidade comparável às da Revista Veja e da TV Globo operam com tal grau de desfaçatez. A triste novidade deste quadro é que um jornal que costumava ter um pouco de decência -- a Folha de São Paulo – está no mesmíssimo barco. Revisem as manchetes do Caderno Brasil da Folha do dia 18 de agosto ao dia 29. O que elas têm em comum? O palhaço Mendes está presente em todas as edições desse período, sempre pontificando sobre algum vago “estado policial” que ele, paladino da justiça, enfrenta com bravura. Nem uma palavra contraditória. Nem uma palavra sobre a reputação deste senhor. Nem uma palavra sobre como ele é detestado pela sociedade brasileira. Nada. Só o jornal servindo como seu megafone. Aliás, o portal UOL deve um pedido de desculpas aos seus leitores. Ao longo do sábado, o UOL publicou a manchete ABIN espionou Gilmar Mendes. Assim, como se fosse fato comprovado. Só na virada do sábado para o domingo o UOL acrescentou o importantíssimo diz a Revista Veja.

Em retórica, costumamos diferenciar o modo constativo do discurso do modo performativo. Frases como 1) está chovendo agora em New Orleans, 2) Lula foi eleito com 62% dos votos 3) o Flamengo é sistematicamente beneficiado pelas falcatruas da CBF descrevem fatos da realidade. São frases que estão no modo constativo. Mas a linguagem não serve só para comunicar ou descrever. Ela também é usada para moldar, produzir a realidade. O exemplo clássico é o padre ou o juiz que enuncia eu vos declaro marido e mulher. A frase não descreve um estado de coisas anterior à sua enunciação. Os personagens da frase viram marido e mulher pela própria intervenção do ato lingüístico. É a linguagem no modo performativo.

Uma das operações mais desonestas que se pode fazer com a linguagem é lançar enunciados pretensamente constativos com um objetivo que é, na verdade, performativo. É uma das desonestidades mais típicas de Gilmar Mendes. Quando ele diz que “o país passa por um quadro grave de crise institucional”, ele finge não saber que o Brasil não passa por crise institucional nenhuma. Nesse fingimento, ele quer é produzir a crise que supostamente descreve. Desonestamente, usa o constativo para mascarar uma operação performativa. Tudo isso para, num segundo momento, ter a cara-de-pau de dizer que o presidente Lula tem que ser "chamado às falas", para responsabilizar-se pela crise que ele mesmo, Mendes, produziu, com a ajuda inestimável do panfletinho criminoso da Editora Abril.

É possível que a ABIN tenha grampeado Mendes? Sim. É possível que uma pessoa alfabetizada ainda acredite, por um motivo que não seja a pilantragem, numa denúncia veiculada pela Revista Veja? Sim. Tudo é possível. Eu me encontro, neste momento, numa cidade de 700.000 habitantes que acreditam piamente que Elvis Presley não morreu no dia 16 de agosto de 1977. Mas, por enquanto, a tarefa mais urgente é continuar o processo de desmoralização da Veja e de denúncia desse arremedo de jurista, excrescência farsesca e vergonha nacional que é Gilmar Mendes.



  Escrito por Idelber às 03:55 | link para este post | Comentários (136)